Capítulo XII – Sonhos possíveis
Shizune acomodou Hinata em um quarto vago no segundo andar. Sob a luz pálida das lâmpadas, o rosto da garota adquiria uma feição fantasmagórica, vampiresca. Sua pele estava sem cor e havia profundas olheiras sob seus olhos. Naruto achava que sua aparência estava tão abatida que teve medo que ela pudesse se quebrar caso alguém a tocasse.
- Ela está tão pálida... – comentou Naruto preocupado – Isso é normal, Sakura-chan?
- Sim. – falou a médica ajeitando o tubo de soro no braço da paciente - A quantidade de sangue que ela perdeu foi muito grande.
- Tadinha, eu tenho pena dela. – comentou Shizune arrumando os lençóis sobre a menina – Deve ter sido muito doloroso enfrentar esse problema sozinha. Por que será que não procurou ajuda?
- Ela não queria preocupar ninguém. – respondeu ele – Ela sempre pensa primeiro nos outros, pra depois pensar em si mesma.
- Eu devia ter reparado! – vociferou Sakura – Naquele dia que ela desmaiou, eu deveria ter procurado os motivos da anemia, não só os do desmaio. Que espécie de ninja médica eu sou?
- Calma Sakura. Todos nós deixamos alguma coisa escapar um dia ou outro. – falou Tsunade – Não se responsabilize pelo que aconteceu com ela.
Sakura baixou a cabeça tristemente olhando para a pele pálida de Hinata.
- A vovó tem razão, Sakura. – consolou Naruto colocando a mão no ombro da amiga - Você não pode se culpar. Na verdade, não há culpados nessa história. Foi uma fatalidade, só isso.
A garota sorriu, concordando com a cabeça. A Hokage bateu as mãos levemente, atraindo a atenção de todos os presentes.
- Bem, acho que está na hora de nos retirarmos. Estamos todas três muito cansadas. Naruto, qualquer coisa de diferente que acontecer aqui, aperte aquele botão – disse Tsunade apontando para um botãozinho ao lado da cama – Ele vai alertar diretamente no meu escritório e eu virei imediatamente. Pode ser uma tosse ininterrupta, mudança de temperatura ou dores na barriga.
- Pode deixar vovó Tsunade! – brincou ele fazendo uma continência.
- Contamos com você! – disse Sakura – E a Hinata também.
Elas se retiraram logo depois. A primeira providência de Naruto estando sozinho no quarto foi medir a temperatura dela. Colocando uma mão na testa dela e a outra em sua própria ele viu que estava normal. Pegou então uma cadeira e pôs ao lado da cama. Tirando um livrinho do bolso, começou a reler as linhas já quase decoradas para a prova que seria em três dias.
- Ai ai... E agora Hinata? Parece que vou ter que me virar sozinho... Afinal, você precisa descansar... Não vou mais incomodá-la com meus problemas.
Então, Naruto percebeu que dali a alguns dias não precisaria ir a biblioteca estudar com Hinata. Provavelmente seria envolvido em missões e mais missões e iria aos poucos perder o contato com ela. Afinal, não tinha lógica continuar com aquelas aulas. Seu objetivo desde o começo era passar naquela prova. Depois que isso acontecesse, cada um seguiria seu caminho. Podiam até repetir noites como aquela na casa da Sakura.
Seriam grandes amigos.
Mas alguma coisa dentro dele dizia que aquilo não era suficiente. De alguma forma incorporara Hinata em seu cotidiano, se surpreendendo ao constatar que durante vários anos ela não passara de uma sombra em sua vida. Alguém com um comportamento peculiar, delicada, mas sem nenhum atrativo especial.
Agora, todavia, ela se fundia em seus dias tão perfeitamente que imaginar-se sem os estudos da manhã, acordar sem saber que iria vê-la, não se maldizer com todos aqueles exercícios enormes sobre funções do chakra, era algo aterrador... Iria precisar se adaptar a toda aquela sensação de estar sozinho de novo. A menos que fosse reprovado na prova e obrigado a estudar mais...
"Que coisa é essa eu to pensando?!" Naruto se surpreendeu por estar tendo um pensamento tão egoísta "A Hinata me ajudou de tanta boa vontade e eu desejando não passar!!! Sou uma besta mesmo e daquelas que puxam carroças... Vou voltar a estudar e parar de pensar nessas coisas..."
Mas estava difícil de se concentrar. A todo instante parava de ler para olhar seu rosto, buscar algum sinal de dor ou consciência em sua face, com medo que ela estivesse sofrendo e ele não percebesse. Quando viu que estava sendo uma perda de tempo tentar estudar e que por mais que quisesse não iria conseguir se concentrar, fechou o livrinho, o guardou dentro do bolso e voltou suas atenções para Hinata que continuava adormecida profundamente.
Ficou imaginado o que teria provocado toda aquela situação. Tsunade explicara que fora uma gastrite nervosa que tinha evoluído. Mas quais teriam sido os motivos de tanto estresse? Não podia sequer imaginar o que faria alguém doce como Hinata sofrer tanto, afinal ela parecia tão ingênua, tão intocável... E tão vulnerável também, ele concluiu. Parecia uma borboleta que tinha tido suas asas arrancadas. Precisava de alguém para protegê-la, para ampará-la... Deveria ser a obrigação de sua família, afinal não era herdeira do clã? Onde estava os tão nobres Hyuuga que nem ao menos fizeram esforços para saber o estado de saúde de Hinata?
- Quando eu for Hokage – sussurrou para a amiga adormecida – Vou ter uma conversinha séria com seu pai sobre essas tradições... Acho que no mundo atual, elas são um tanto primitiva, não acha?
Naruto adoraria que ela pudesse responder. Queria ouvir sua voz de novo e ter a certeza que estava tudo bem. Mas conforme o tempo passava e a madrugada chegava ao fim, Hinata continuava adormecida. Naruto, contudo, permaneceu sem dormir, alerta e foi assim que percebeu que, aos poucos, a cor voltada ao rosto dela. Aproximou-se da cama e tocou com as pontas dos dedos a face que adquiria uma bonita coloração rosada.
Lentamente começou a percorrer os dedos por sua testa e desceu para as maçãs do rosto. Ela tinha a pele tão sedosa e macia que era difícil de acreditar que ali repousava uma ninja. Seus dedos continuaram o percurso, até parar nos lábios. Como os demais locais do rosto, eles também readquiriram sua cor habitual, dando uma tonalidade mais saudável a Hinata. Eles também eram macios e fez com que Naruto automaticamente lembrasse das palavras de Lee:
- Hinata gosta de outra pessoa.
Quem seria essa pessoa? Por que eles não estavam juntos? Será que ele, quem quer que fosse não sentia o mesmo por ela?
"Então ele deve ser um grande idiota", pensou.
Afinal, qual homem poderia resistir àqueles lábios tão pequenos? A doçura da Hinata? Seu jeito tão frágil?
"Droga, por que estou pensando isso de novo? Eu não posso me referir a Hinata assim! Eu gosto de uma pessoa, então não posso pensar com tanta freqüência em o outra! Mas..." ele parou um pouco se detendo com os dedos sobre os lábios dela "Ela é tão bonita...".
E começou a aproximar seu rosto do dela.
Hinata começou a recuperar a consciência ainda de olhos fechados e sentindo-se estranha. Sua cabeça estava pesada e sentia um gosto amargo na boca. Quando abriu os olhos devagar, viu o rosto de Naruto bem próximo do seu. Seu coração se acelerou rapidamente e ela arregalou os olhos. Tinha que ser um sonho.
Mas não era. Naruto estava quase colado nela.
Assustada, ela gritou empurrando ele para longe:
- Aieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!
Naruto se desequilibrou e caiu da cadeira, virando-a para trás e batendo com a cabeça no chão. O súbito grito de Hinata o deixou totalmente sem jeito, e envergonhado.
"O que eu estava fazendo? Que tipo de amigo eu sou? Como vou me explicar?!" pensou desesperado.
Hinata estranhou o quarto em que se encontrava. Tentou se levantar, mas uma dor no estômago a impediu. Levando a mão à barriga, ela viu um fino tubo que entrava pelo seu braço até perfurar sua pele através de uma agulha. Foi então que percebeu que estava no hospital de Konoha e que o tubo era fio do soro que gotejava lentamente no frasco. Naruto se levantava desajeitadamente, passando a mão na cabeça, no lugar dolorido que tinha batido no chão.
Olhando totalmente enrubescido para ela, ele falou timidamente:
- Olá!
"Olá? Que tipo de imbecil diria isso para alguém que acabou de acordar de uma cirurgia e que fora incumbido de cuidar dela, mas que quase a beijara?" pensou irritado consigo mesmo.
Ela olhava para ele com as bochechas totalmente rosadas.
- Naruto-kun, o-o q-q-que v-você e-estava f-f-fazendo ?
- Ah... Foi que... Que... Sabe... A vovó Tsunade me pediu pra ficar com você para poder verificar sua temperatura, sabe já que não tinha enfermeiras e... – ele falava rapidamente sem respirar – e eu tava verificando sua temperatura só isso...
- E por que eu estou no hospital? – perguntou com a voz fraca.
- Você não lembra que tava passando mal?
A verdade é que a mente dela estava muito confusa devido à anestesia. Lembrava vagamente de ter se sentido mal... Mas qual fora os motivos mesmo? Ela sabia que era algo muito doloroso, mas o entorpecimento de sua mente não permitia que ela tivesse acesso àquelas informações.
- Bem... Não tente se esforçar. Desculpe se a assustei, não foi minha intenção... Mas como você está se sentindo? Dor no estômago? Tontura? Fome?
- S-Sim, fome sim.
- Ah, mas a vovó disse que você não podia comer, mas que podia tomar água. Você quer água?
Ela afirmou com a cabeça.
- Tem uma jarra com água aqui, vou lhe dar um pouco.
E virou as costas para ela enquanto procurava um copo. Hinata começou a se perguntar por que Naruto estava ali e não alguém do clã, como Neji ou sua irmã. Será que não sabia que ela estava internada? Ou que simplesmente não se importavam?
Foi então que finalmente lembrou os motivos de ter passado mal. Seu pai iria obrigá-la a deixar de dar aulas para Naruto e também não queria que ela o visse mais. Então por que Hiashi permitia que ele estivesse ali, cuidando dela? Teria ele falado alguma coisa com Naruto?
- Naruto-kun – começou ela quando ele a ajudava a se sentar para beber a água – Por que não tem ninguém do clã aqui comigo?
- Bem... – começou ele sem saber o que dizer. Será que deveria contar? – Eu mandei avisar que ficaria aqui com você e eles não se importaram.
Hinata sabia que ele estava mentindo para poupá-la de algo. Seu pai jamais permitiria que ele ficasse ali com ela.
- Ele não deixou ninguém vir, não foi mesmo? Meu pai... Não permitiu que ninguém viesse...
Naruto olhou assustado para ela. Como ela poderia saber? Mas já que pensava assim, melhor não continuar enganando-a.
- Sim, ele não deixou. Então eu me ofereci. Espero que você não fique chateada comigo por isso.
- Por que eu ficaria chateada, Naruto-kun? Por você está cuidando de mim? – ela sorriu timidamente – eu fico feliz que tenha alguém que se preocupe comigo...
- Não fale assim Hinata, como se você fosse sozinha no mundo – ele lhe ofereceu o copo d'agua – Você tem uma família que se preocupa com você... Seu pai deve apenas estar ocupado e...
Ela balançou a cabeça.
- Não, ele não está preocupado. Nunca esteve. Talvez fosse melhor se eu morresse assim Hanabi assumiria a liderança do clã. Ela é infinitamente melhor que eu.
- Não fale isso nem de brincadeira! – protestou Naruto – Isso não é verdade! Você é muito capaz! Veja só, você conseguiu me ensinar! Quem mais fez isso? Eu burro de jeito que sou e você fez com que eu aprendesse!
- Você nunca foi burro Naruto-kun. Só um pouco desligado...
- Hehe... Assim eu fico encabulado – falou coçando a cabeça – E tenho certeza que você será a melhor líder de clã que essa vila já teve! E quando eu for Hokage e você a líder, a gente dá uma revirada bem grande nessas tradições chatas, que tal?
Para a grande surpresa e desespero de Naruto, ela começou a chorar quando ouviu isso.
- Qual o problema? Ta sentindo dor?
- Nunca ninguém me disse que eu pudesse ser boa para o clã. Apenas afirmavam que eu iria destruí-lo. – falou entre soluços.
- Então eles são uns bandos de retardados piores que eu. – ele falou irritado. – E vão engulir a língua grande deles quando você começar a fazer seu trabalho.
Ela olhou para ele e o deixou totalmente sem ação. Seus olhos brilhavam, não por causa das lágrimas, mas por algo a mais que ele não soube distinguir. Apenas o fez se sentir muito melhor do estivera por todos aqueles dias.
- Obrigada, Naruto-kun. Por estar ao meu lado.
- Jamais deixaria você sozinha. Eu vivi toda minha vida sem ter a alguém que pudesse se preocupar comigo, sem ter quem me elogiasse, sendo maltratado por todos. Eu não deixarei ninguém mais ficar sozinho.
- Nossas infâncias foram bem parecidas... – ela murmurou.
Naruto a olhou, surpreso.
- Não estou entendendo Hinata. Você tem sua família e eu cresci sozinho...
- Eu posso até ter tido uma família, mas sempre me senti muito sozinha, sem ter quem pudesse se preocupar comigo, sem ter quem me elogiasse, sendo maltratada por todos... Apesar de ser da Souke e ser a herdeira, eu cresci igual a você...
Não havia motivos para duvidar da veracidade das palavras de Hinata. Ele podia ver toda a dor que seus olhos transmitiam quando falava disso. E quando as lágrimas ameaçavam cair novamente, Naruto fez a última coisa que Hinata esperava que ele fizesse. Ele a abraçou. Um abraço tenro, sem maldade ou malícia, que a fez se sentir segura e protegida. Aninhou a cabeça em seu peito, e deixou que as lágrimas molhassem a camisa dele. Naruto não se importou. Tudo que queria era que o pranto dela parasse e que aquele sorriso bonito voltasse aos seus lábios.
Continuaram abraçados por um tempo até que ela se sentindo melhor olhou para ele e soube que havia chegado à hora de cumprir a ordem se seu pai. Apesar de amá-lo, ainda tinha as obrigações como herdeira.
- Naruto-kun... Sobre suas aulas...
- Ah, eu queria mesmo falar disso! – apressou-se ele em falar - Você não precisa se preocupar comigo! Como só faltam três dias eu quero que você descanse e pode deixar que eu vou estudar sozinho exatamente da forma que você ensinou. Vou apenas revisar os pontos que tenho mais dificuldade. Só peço uma coisinha. – ele corou nessa hora – Quando eu tiver dúvida, posso vir aqui te visitar?
Ela sorriu aliviada. Não precisava magoá-lo. E uma visita em um hospital não poderia ser chamada de "aula", então seu pai não teria do quer reclamar por hora.
- Pode me visitar a hora que você quiser Naruto-kun.
Ele sorriu satisfeito.
- Agora eu quero que você durma mais um pouco – pediu ele – Já está quase amanhecendo e se a Sakura-chan ou a vovó Tsunade souber que você ficou tanto tempo acordada, vão tirar meus órgãos e vender no mercado negro!
Shizune estava quase adormecida no balcão do hospital Dormira pouco mais de quatro horas e já estava de pé novamente. Precisava assumir o lugar de Naruto em poucos minutos, e a lembrança não era muito agradável. Não que ela se recusasse a cuidar da menina, longe disso. Mas tudo que queria era estar na cama. E de preferência com Kakashi de seu lado.
Como se tivesse lendo a mente dela o jounin em questão apareceu tão de repente atrás dela que a fez sentar-se ereta de um pulo, com o coração acelerado.
- Calma... – pediu Kakashi sorrindo por trás da máscara. – Apenas vim ver como você está... E lhe trouxe algo pra comer! – E mostrou um copo grande descartável, com café fumegante e uma sacolinha parda que ela tinha certeza se tratar de alguns salgados e pãezinhos.
- Você salvou minha vida... – falou ela aceitando o pacote.
Enquanto Shizune abria o pacote animadamente e sorrindo, esfregou um pouco os olhos. Eles estavam levemente vermelhos, reparou Kakashi.
- O que aconteceu? Você tem um problema não?– perguntou ele antes que ela houvesse dito qualquer coisa.
- Como sempre você acerta na mosca. – confirmou ela tomando um pouco de café.
Lentamente ela relatou os acontecidos da noite passada e como naquele momento Naruto provavelmente ainda estava com Hinata.
- São quase seis da manhã. – disse Kakashi olhando no relógio – Então você assume daqui a pouco não é?
- Isso mesmo. E a coitada da Sakura mais uma vez teve sua folga adiada. Já é a terceira vez...
- Não me espanto que a Hinata tenha parado no hospital... Todos nós sabemos que em breve ela assumirá o clã e que por isso o pai dela deve estar exigindo muito esforço de sua parte.
- E além do mais – acrescentou Shizune – Ela tem se dedicado ao Naruto e ao time...
Ele esperou, em silêncio, que ela terminasse o lanche e depois a acompanhou até a porta do quarto onde estava Hinata.
- O Naruto está se tornando um homem, mas a ingenuidade dele ainda é de menino... Ele não sabe o peso que a Hinata carrega nas costas...
- Mas não existe nenhuma pessoa no mundo que possa ajudá-la mais que ele... – revelou Shizune sorrindo.
- Isso é verdade... - e estreitando o olho ele falou em um tom mais suave – Mas estou com saudades quero jantar hoje na sua casa...
- Ás oito... - Falou ela sorrindo antes de entrar na sala.
Era como se fosse ele quem tivesse passado por uma cirurgia. Naruto levou a mão ao estômago dolorosamente enquanto bebia um copo de leite na esperança de acalmá-lo. Quando Shizune o chamara eram quase seis da manhã, e ele ainda estava acordado.
- Vá pra casa e durma... – disse ela carinhosamente retirando ele do quarto de Hinata.
Relutantemente ele fora embora, mas não sem lançar um ultimo olhar para a cama. A aparência de Hinata era com certeza bem melhor que a que ela apresentara na noite anterior e isso lhe dera coragem de se retirar do quarto.
Ao chegar ao seu apartamento, ele se atirara na cama sem nem ao menos retirar a roupa e dormira por três horas. Depois, não conseguira dormir nenhum minuto a mais. Tomara um banho rápido e agora bebia leite para poder ir ao hospital.
Sabia que não conseguiria estudar sem ver com seus próprios olhos que Hinata estava bem.
E pegando a mochila, prometeu a si mesmo que não demoraria muito, para permitir que ela descansasse.
"Deixo pra comer depois de sair de lá..." pensou ele passando direto pela barraca de ramen. Mesmo que quisesse, não podia comer. A cena de Hinata cuspindo sangue ainda não saíra de sua cabeça e ele estava mais decidido que nunca em saber o porquê daquela reação. Estava bem distraído em seus pensamentos quando sentiu alguém tocar seu ombro.
- Naruto? Você está bem?
Era Shikamaru. O rapaz parecia ter acabado de sair de casa, pois assim como Naruto, exibia traços de sono no rosto. Todavia, Shikamaru pode perceber bem mais que cansaço no rosto do amigo. Percebia preocupação e sofrimento.
- Qual o problema? – perguntou o jounin.
Naruto suspirou tristemente.
- Hinata. – falou simplesmente.
A cena de Hinata com seu pai não saíra de sua cabeça também, mas nem mesmo ele podia supor que a situação fosse tão grave como Naruto agora lhe revelava.
- E então – concluía o genin – Ela não pode me dizer o que tinha provocado tudo isso... Nem o que queria falar comigo...
Shikamaru olhou com canto do olho para Naruto. Ali estava um dos amigos que ele mais prezava e a quem queria muito bem. Sabia que, se um dia estivesse em uma luta e não pudesse se defender, Naruto seria o primeiro a pular em sua frente e protegê-lo com o corpo se assim fosse necessário. Mas ele tinha um defeito que o deixava vulnerável. Naruto não tinha malícia nem perversidade. Nem mesmo ironia podia se distinguir no meio de suas palavras. Aquilo não significava burrice. Se Shikamaru fosse definir, seria falta de noção.
Exatamente. Naruto não tinha muita noção do mundo por que estava sempre ocupado em tentar construir o mundo à sua maneira.
Então, ele nem desconfiava que o problema de Hinata pudesse ser exatamente ele.
Diferente do amigo, ele conseguia exatamente prever o que se passava dentro do clã Hyuuga, e mesmo que aquilo não lhe importasse, sabia que para Naruto era exatamente o contrário.
Todavia, contar a Naruto o que ele desconfiava poderia desencadear uma reação não muito agradável e nem um pouco discreta que poderia agravar a situação de Hinata. Então, quando o amigo continuava a falar em como iria descobrir tudo, Shikamaru simplesmente falou coçando o ouvido com o dedo mindinho:
- Eu acho que você não deve se envolver agora nisso, Naruto.
O rapaz olhou surpreso para o amigo.
- E por que não? – perguntou.
- Hinata está doente e no hospital. Questioná-la nessa hora pode fazer com que ela fique mais doente ainda...
- Bem, isso é verdade... – concordou Naruto.
- Além do mais – continuou Shikamaru – Tenho certeza que na hora certa, Hinata irá compartilhar com você que a aflige...
- Você acha? – ele não aprecia muito confiante
- Tenho quase certeza. – afirmou o outro.
Olhando para o chão e chutando uma pedrinha, Naruto questionou:
- O que posso fazer para ajudá-la agora?
A mente mais brilhante de Konoha não precisou de muito tempo para responder o questionamento de Naruto. Apontando para uma pequena, mas elegante loja, falou sorrindo:
- As mulheres adoram flores... Isso é unânime... Não sei o que elas vêm nessas coisas sem graça, mas pelo menos é um presente que se pode dar sem medo... – e suspirando acrescentou - É uma das poucas coisas que as tornam menos problemáticas...
Com um sorriso no rosto, Naruto começou a se dirigir rapidamente à loja, sem nenhum traço de cansaço em seu rosto.
- Obrigado Shikamaru!!! Fico te devendo essa!!!
E deixou o amigo para trás, que sorria satisfeito por ter feito uma boa ação naquele dia.
Agora era só esperar que Naruto descobrisse por si próprio que a melhor coisa para Hinata naquele momento era a presença dele.
E um buquê de flores ajudaria bastante.
Hyuuga Hiashi chegou ao hospital um pouco depois do meio-dia. Passara a manhã treinando Hanabi e só agora decidira procurar saber o estado de sua filha mais velha. Não que tivesse esquecido, pois Neji fizera questão de passar toda a manhã lhe dando várias indiretas quanto ao fato de Hinata está ali sozinha. Deixou o rapaz resmungar um pouco mais pela casa para só então ir ver como estava à menina.
Quando chegou à recepção, a enfermeira o olhou com reverência e cumprimentou solenemente:
- Bom dia, Hyuuga-sama.
- Qual o quarto onde está a minha filha? – perguntou friamente sem retribui o cumprimento.
- Bem – a garota ficara totalmente sem jeito – Siga-me, por favor.
Ela o levou até o segundo andar onde ficava o quarto de Hinata.
- Aqui, Hyuuga-sama. Mas eu creio que a Hokage-sama esteja examinado-a.
Ele apenas concordou com a cabeça e entrou em seguida. Realmente Tsunade se encontrava no quarto e verificava o estado da garota. Ao lado dela, Sakura tomava o pulso de Hinata e foi a primeira a ver o pai da amiga de pé na porta.
- Parece que você tem visitas, Hinata. – avisou ela.
Hinata olhou demoradamente para o pai quando o viu. Deu graças pelo fato de Naruto já ter se retirado do quarto momento antes, onde deixou um vaso cheio de lírios para ela. Agradecer Naruto pelas flores e pela atenção e o aconselhar a estudar ao invés de se preocupar com ela, fora bem mais fácil do que ser analisada de cima a baixo pelo pai.
Simplesmente não sabia o que dizer a ele. Estava envergonhada pelo estado em que se encontrava e sabia que seria duramente criticada. Temia que todos soubessem que a grande causa de seu mal estar fosse devido às pressões que seu pai lhe impunha. Não queria que o pai fosse criticado. Tinha consciência que ele apenas tentava ajudá-la, mesmo que sua forma fosse um pouco distorcida.
Mas tinha que admitir que aquela situação estava destruindo-a aos poucos.
Tsunade também parecia estar pensando a mesma coisa. E foi ela quem iniciou a conversa. Colocou as mãos na cintura e se voltou para o homem que adentrara o quarto.
- Ora, ora, Hiashi-kun. – falou em tom de deboche - Que satisfação em vê-lo. Parece que finalmente você lembrou que tinha uma filha doente.
Ninguém nunca falara assim tão informalmente com Hiashi na frente de Hinata, nem tão pouco o criticavam e aquilo a surpreendeu. Mas para Tsunade ali não estava o líder do clã Hyuuga, mas um garotinho que ela vira crescer e que precisava urgentemente de um puxão de orelha. Hinata percebeu que, por um momento seu pai pareceu extremamente envergonhado. Mas foi só por um momento. Logo recuperou a sua habitual compostura.
- Eu gostaria de falar a sós com minha filha, Tsunade-sama. – pediu ele formalmente.
- Claro. – Tsunade sorriu displicentemente – Mas lembre Hiashi-kun, sua filha ainda está sob observação. Ela não pode ter nenhum tipo de aborrecimento ou irritação. Quando terminar, eu volto. – disse falando com Hinata agora – Até.
E saiu acompanhada por Sakura que antes de sair acenou para Hinata, que retribuiu o aceno.
Agora estavam somente ela e seu pai. Um silêncio mórbido se instalou entre os dois. Hinata sentiu seu estômago se contrair dolorosamente e desejou ardentemente que nem Sakura nem Tsunade tivessem saído.
Hiashi continuou encarando a filha e não se sentou. Limitou-se a fita-la, de pé perto da cama.
- N-Não vai sentar pai? – perguntou ela sabendo que se sentiria melhor se pudesse conversar de igual para igual.
- Não é necessário. – cortou ele, mas depois acrescentou um pouco mais sereno - Como você está se sentindo?
- Bem melhor... – respondeu ela baixando levemente a cabeça.
- Isso é bom. Cuide de sua saúde, afinal sua posse está bem perto.
- S-Sim.
O silêncio mais uma vez se abateu sobre eles. Como era difícil se entenderem, mesmo sendo pai e filha. E como era difícil deixar que ele visse um pouco de sua alma e pudesse perceber que a fazia sofrer!
Se em algum momento Hiashi percebeu a dor que rondava os olhos de Hinata, não deu a entender, muito pelo contrario. Perguntou friamente:
- Você já fez o que eu lhe mandei fazer? Já falou com Uzumaki Naruto?
A pontada foi no coração de Hinata e não em seu estômago.
- Não foi necessário. - falou apressadamente - Ele mesmo disse que podia estudar sozinho já que eu estou internada...
Para ela não havia necessidade de dizer que Naruto viria tirar dúvidas durante suas visitas. Seu pai não precisava saber disso.
- Ótimo. – comentou Hiashi aparentemente satisfeito - Parece-me que este rapaz tem algum bom-senso. Então será capaz de entender que deve se afastar de você, certo?
Hinata desviou os olhos do pai e enrubesceu. Hiashi logo percebeu o que ela quisera dizer com aquela ação.
- Você não falou isso, não é? Previsível. Já que você não parece capaz disso, eu mesmo falarei para ele.
- Por que pai? – ela perguntou em tom de súplica – Por que eu tenho que me afastar do Naruto? O que isso vai mudar no fato que eu herdarei o clã? Ele nem gosta de mim mesmo...
Havia uma profunda dor nessas palavras. Uma dor tão profunda que nem o frio homem à sua frente conseguiu ignorar. E baixando o tom de voz, ele indagou:
- Você gosta tanto assim desse rapaz?
Sem escolha, ela confirmou com a cabeça.
- Mas um motivo para afastá-la dele. – murmurou sóbrio - Seu compromisso é para com o clã e não com sentimentos inúteis como o amor...
Com as mãos sobre o peito, como se acalentasse o coração, Hinata olhou profundamente para o pai.
- Pai... O senhor nunca amou?
O silêncio reinou durante mais alguns instantes no quarto. Hinata não sabia por que, mas aquelas palavras pareciam ter afetado seu pai. Ele fechou os olhos como se lembrasse de algo e suspirou. Quando olhou novamente para ela, seus olhos estavam menos frios e exibiam uma profunda dor.
- Sim eu já amei. E por isso eu quero que você desista desse amor, Hinata. Principalmente pelo fato de não ser correspondida.
Hinata olhou para suas mãos. Não sabia como contestar o que seu pai dizia. Baixou a cabeça e pôs-se a chorar silenciosamente. Seu amor estava prestes a morrer sem ao menos ter nascido. Seus sentimentos seriam enterrados vivos debaixo de uma montanha de suas obrigações.
Hiashi observou o sofrimento de sua filha, maldizendo a existência de Naruto.
- Muito bem – falou ele – Irei te dar uma chance de viver sua ilusão Hinata. De hoje até o dia de sua posse, você estará livre para fazer o que quiser. Nem eu, nem ninguém do clã iremos impedir nada. Serão onze dias nos quais você poderá realizar todos seus desejos, sejam eles qual forem. – e dando uma pausa viu os olhos de Hinata se iluminarem - Porém, ao final desses dias, você irá acordar desse sonho feliz, voltará para a realidade cortando todos seus laços que a ligam a esse rapaz e se dedicará somente ao clã. Essa é a única opção que te ofereço.
"Onze dias" ela pensou tristemente "Onze dias para ser feliz".
- Então, o que me diz? – indagou ele - É claro que se você quiser poderá apenas deixar tudo pra lá e fazer o que mandei inicialmente.
Não havia o que pensar. Seu coração clamava por aquilo. Ela precisava daquilo. Precisava estar de Naruto um pouco mais... Só um pouco mais...
- Eu aceito sua proposta. – falou convictamente - Viverei intensamente a oportunidade que acaba de me dar, pai. E depois, obedientemente, assumirei a liderança do clã. – e pensando nas palavras que Naruto lhe dissera noite passada acrescentou – Dedicarei a vida a ele e serei a melhor líder de clã que a vila de Konoha já viu.
Hiashi sorriu.
- Assim espero.
Olá pessoal!! Aqui quem fala é a Joy, escritoa da fic acima!!! Tão gostando? Sim? Não? Mande reviews!!! Desde já agradeço a todos os que me mandaram, lembrando que como sou uma professora, meu tempo é bem curto e eu não tenho tempo de responder todos individualmente... Mas mandem mesmo assim, ok? Bjs a todos!!!
