Disclaimer: Ghost Hunt não é meeeeu, la-la-lalala!


EPÍLOGO

A Calmaria


Aquele prédio era imenso. Gigantesco, mesmo, como um titã vestindo janelas de vidro. Mai olhou para cima, quase quebrando o pescoço, e só conseguiu ver a silhueta escura recortada contra o céu cinzento de inverno. Sorriu ao encontrar um pedacinho azul turquesa em meio às nuvens cheias de neve. Por alguma razão, aquele retalho de atmosfera vazia trazia uma vontade bizarra de sorrir, como reencontrar um velho amigo.

Quando o único buraco no tapete de cúmulos-nimbos foi soprado para além do terraço do edifício, não sentiu tristeza; apenas conforto. Chegou à conclusão de que gostava no tempo turbulento do inverno. No entanto, estaria melhor se o frio impiedoso de Tokyo não a fizesse ciente de cada um dos vários e vários pontos que mantinham suas mãos ligadas aos braços.

Um empurrão repentino cortou de repente a visão da nevasca que se formava, e Mai acompanhou com curiosidade o trajeto até a rampa de cadeirantes na entrada do prédio. Chacoalhou algumas vezes no mosaico de pedras pretas e brancas da calçada e teve a roda esquerda da cadeira de rodas enganchada três vezes seguidas no degrau da escada de mármore escuro (que ladeava já mencionada rampa) antes de comentar:

- Ne, Bou-san, como puderam deixar você tirar a carteira de motorista?

Às suas costas, Takigawa empurrou a cadeira com mais força do que o necessário, fazendo-a ser jogada para o lado, em uma óbvia tentativa de irritá-la.

- Mai fez uma ótima observação. – Ayako acrescentou, como era de praxe. – Você mal consegue manobrar uma cadeira de rodas com uma garota que pesa menos que um anão de jardim.

Empurrador e cadeirante lançaram o mesmo olhar indignado para a miko ao entrarem, finalmente, no saguão do edifício. A recepção estava praticamente vazia, e o rapaz fardado que estava por trás do balcão do lado esquerdo acenou de leve para o grupo recém-chegado, demonstrando que os vira e aprovando sua presença tacitamente. A próxima contribuição para a conversa ecoou entre as colunas de pedra negra polida.

- Oh, sim, Matsuzaki-san. Taniyama-san está tão magra que você, agora, pesa apenas o dobro dela. – a voz de Masako reverberou, afiada. Mai imaginou que o tom frio e altivo da médium não remetia àquele tipo de discussão idiota. Pensando bem, já deveria estar acostumada com o desenrolar de situações como aquela.

Enquanto a ruiva caminhava, pisando duro, para alcançar a menina e tirar satisfações pelo comentário venenoso, os outros dois membros do quarteto continuaram o trajeto até o elevador principal com portas imponentes de metal e mármore no meio do salão. Mai se deu conta que jamais visitara lugar tão elegante quanto aquele. Sentiu-se subitamente deslocada.

Houshou assoviou, impressionado, e apertou um dos botões do painel lateral para fazer o elevador descer.

- Caramba, é nessas horas que eu lembro que Naru-bou não tem nenhum problema financeiro. – ele riu, olhando ao redor de forma analítica. – É bem a cara dele, esse lugar; estou me sentindo dentro de um filme preto e branco.

- E eu estou me sentindo uma boneca, já que vocês todos insistem em me tratar como uma. – Mai aproveitou o momento para externar, mais uma vez, sua indignação e descontentamento com a situação em que se encontrava. – Ayako me vestiu hoje, como se eu fosse uma criança! E essa cadeira de rodas era realmente necessária?

O elevador escolheu aquele momento para anunciar sua chegada com o toque suave de um sino. Takigawa empurrou a cadeira para dentro da cabine espaçosa – caramba, limite de vinte e quatro pessoas, sério? – e riu da expressão desgostosa de Mai, refletida no espelho que ocupava todo um lado da caixa metálica. Esticou-se para apertar o botão do vigésimo sétimo andar. Três andares abaixo da cobertura. Boa, Naru-chan.

- Ah, mocinha, não seja ingrata. Você acabou de receber alta e, apesar do médico ter dito que poderia viajar de avião para voltar para cá, depois de muita argumentação, por sinal, lembro dele ter sido bem veemente quanto a você fazer esforço físico pelos próximos três meses.

Os andares passavam rápido o bastante para deixar os passageiros meio tontos, mas nada que forçasse Mai a desistir da discussão. Ou, como diria Noll, largar o osso.

- Vestir um moletom não pode ser classificado como esforço físico.

Sorrindo daquele jeito que conseguia desarmar mesmo a pior das carrancas de Ayako, Houshou beliscou de leve a bochecha descorada de sua acompanhante. Mai decidiu que o monge poderia canalizar aquele carisma para a banda da qual fazia parte. Certamente faria maravilhas para o aumento do público feminino.

- As palavras exatas do doutor foram: ela não vai poder levantar nem uma caneta. Então, conforme-se. Do jeito que as coisas estavam, aquela miko ruiva estava prestes a adotar você de vez e, com a quantidade de sangue dela dando voltas nas suas veias, talvez tivesse até o direito de fazer isso se Naru já não tivesse mexido os pauzinhos para ser o seu tutor. Por sinal, considerando o atual relacionamento de vocês dois, estou um pouco preocupado com esse negócio de você mudar para cá.

Mai soltou um muxoxo e ignorou o rubor que começou a escalar seu pescoço até suas bochechas.

- Eu não estou mudando para cá, Bou-san! A minha casa continua sendo a minha casa, até onde eu sei; e de qual relacionamento você está falando, exatamente?

Os olhos castanhos de Houshou (que Mai agora percebia ser da mesma cor dos dela) rolaram uma vez antes de pousarem sobre as mãos enfaixadas da moça. Notando a expressão dividida entre a irritação e a confusão, o monge ergueu as sobrancelhas sugestivamente.

Quatro andares passaram antes de Mai finalmente notar que Takigawa estava usando sua aeróbica facial para apontar a aliança de ouro velho adornando seu dedo anelar esquerdo. A reação imediata da garota foi a de cobrir o anel com a outra mão, e a dor lancinante do ferimento ainda não cicatrizado causou o arrependimento e a careta bastante deformada que se seguiram.

- Está preso. Não tem nada a ver com todo o resto. – ela retrucou, entre dentes, defensiva.

Na verdade, nenhum membro do SPR, com exceção de Mai, Noll e, possivelmente, Lin (ela realmente não queria descobrir) sabiam as verdadeiras condições que levaram a investigadora de meio período barra secretária barra psíquica amadora barra fazedora de chá barra mascote da empresa ao altar de sacrifício. Noll quis evitar que uma sacerdotisa mandona, um monge superprotetor e uma médium rábica agissem de forma dramática e exagerada diante dos fatos reais.

Mai ficou agradecida com a discrição. Não estava exatamente arrependida por ter, basicamente, dado o sangue para vencer uma discussão com seu chefe, mas, não importando o angulo em que se analisava a situação, tentativa de suicídio não era uma coisa que gostaria de ver constando no perfil psicológico de seu currículo profissional. Não podia se orgulhar de ter quase conseguido ir dessa para, err, onde quer que fosse.

(Entretanto, certamente havia adicionado vários pontos para si mesma na contagem mental que fazia da disputa Taniyama Mai versus Hara Masako. Estava na dianteira, agora, depois de perder em Aparência, Atitude, Conta Bancária e empatar em Poderes Paranormais Esquisitos).

Houshou ainda estava rindo do rubor invadindo o rosto da menina quando o elevador começou a desacelerar. Mai amaldiçoou cada gota de Sangue de Ayako que ainda corria em seu corpo, culpando-as por reagir com tanta empolgação às palavras do monge.

Noll estava parado do outro lado das portas silenciosas quando a cabine estabilizou e abriu para um corredor iluminado pela manhã de inverno. As paredes laterais eram feitas de vidro e desembocavam em uma porta de madeira escura. De pé no meio do caminho, o chefe do SPR japonês parecia uma das aparições envoltas e luz que povoavam os sonhos de Mai, etéreo como a névoa.

A voz afiada pareceu mais real do que todo o resto.

- Estão atrasados. – acusou, os braços estendidos ao longo do corpo. Takigawa foi rápido em ignorar a constatação.

- Yo, Naru-bou! Por que você nunca convidou seus estimados empregados para um jantarzinho na sua casa? Que descortês.

Mai poderia jurar ter visto seu chefe rolar os olhos antes de dar as costas para a dupla de visitantes e caminhar até a porta do apartamento. O monge empurrou novamente a cadeira de rodas com a empolgação de uma criança curiosa. A garota sentiu um frio na barriga que não tinha muito a ver com o fato de estar a dezenas de metros de altura.

O apartamento de Naru era, definitivamente, dele. A decoração era sóbria e prática, mas elegante. A predominância de tos escuros não era uma surpresa e contrastava de forma agradável com as janelas de vidro límpido, sem cortinas ou persianas. Infelizmente, as rodas da cadeira engancharam no carpete.

- Err, Naru-chan?

Com um suspiro conformado (como se ele não tivesse sido a pessoa a impor aquela situação, só para variar), o rapaz apontou para os sofás próximos à TV do tamanho de um armário.

- Coloque ela ali.

Mai não teve tempo de expressar sua desaprovação em estar sendo tratada como um caixote de mudança. Antes de abrir a boca para começar a discussão, Houshou levantou-a da cadeira e deitou-a com cuidado no sofá – preto, é claro – maior.

- Fique aí, boazinha.

Sem ligar muito para a possibilidade de parecer ainda mais infantil do que já era considerada, a garota bufou e cruzou os braços. Enquanto isso, o monge dirigiu-se novamente à porta por onde entrara, respondendo, no caminho, à uma pergunta que Naru estivera fazendo sobre Masako e Ayako.

- As duas madames ficaram discutindo no hall. Eu vou descer para pegar as malas da mocinha aqui e, se você vir Lin-san, diga que eu apreciaria uma ajuda. – foi a resposta, dita enquanto Takigawa abria a porta e jogava uma piscadela nada discreta para Mai. A garota rosnou, e Naru não esboçou qualquer reação quanto à saída súbita do monge.

A porta mal tornara a fechar e a menina já voltara sua atenção inconformada para o outro ocupante do aposento. Naru continuou exatamente onde havia parado, no lado oposto da sala, próximo às imensas janelas nuas.

- Isso não era necessário, Naru. Posso cuidar de mim mesma sem ajuda de quem quer que seja.

Naru apenas deixou de encarar a porta por onde Houshou saíra e virou para escrutinar os punhos enfaixados de sua hóspede. Ergueu uma sobrancelha quando ela se apressou em cobrir os curativos com as mangas compridas do moletom. – I-isso foi um caso a parte.

Apertando os olhos e ficando com a mesma expressão de um falcão prestes a estraçalhar uma andorinha desgarrada, o rapaz colocou as mãos nos bolsos das calças e inclinou o corpo na direção dela. Mesmo estando a metros de distância, o movimento fez Mai encostar os ombros no sofá, acuada.

- Você consegue cozinhar?

A pergunta a pegou de surpresa, fazendo-a responder por reflexo. – Não. – percebendo as implicações naquela negação, apressou-se em acrescentar: - Mais eu posso comer em algum restaurante até me recuperar—

- Você pode pegar o metrô para ir à escola ou ao trabalho?

- Não, mas—

- Ônibus?

- Também não, mas—

- A Fundação que cuida dos seus custos com comida e educação está ciente de que você se machucou seriamente e precisa ser observada. Eles teriam mandando um professor cuidar disso, mas como eu já estou definido como seu tutor, essa responsabilidade é minha. Mais alguma pergunta?

Fechando a boca com um estalo, a menina sentiu as bochechas esquentarem com a raiva contida. Observou a expressão irredutível do chefe e jogou os ombros para cima, numa redenção exasperada. Olhou para as próprias mãos por um momento, usando o indicador direito para rodar a alianças na base do dedo. Engraçado como aquele podia ser um anel bem normal, até que alguém tentasse tirá-lo de onde estava.

- Você precisa de alguma coisa, agora?

Erguendo a cabeça apenas o suficiente, Mai observou a imagem através de sua franja (que estava precisando ver uma tesoura). Naru estava na mesma posição de antes, mas olhando pra o lado direito, na direção das janelas translúcidas. De seu lugar no sofá, Mai só conseguia ver as nuvens cinzentas – nenhum outro edifício ou qualquer construção humana parecia existir.

Também sentia o silêncio reinante, e a maneira como os ombros de Naru pareciam tensos, da mesma forma que ficavam quando ele passava um sermão sobre alguma coisa idiota ou inconseqüente que Mai fizera durante algum caso e que poderia tê-la matado ou ferido ou...

Hm. Então ele não estava exatamente confortável com a situação, também. Saber disso era simultaneamente reconfortante e surpreendente. E, no entanto, ele mesmo havia dito, não havia? Você faz com que eu seja irracional, Mai.

Decidindo parar de nadar contra a corrente e aceitar de uma vez que precisaria morar ali pelas próximas semanas, Mai engoliu com dificuldade todos os apelos indignados que preparara nos últimos minutos e resolveu responder a pergunta. Aliás, Naru devia estar realmente fora de si para fazer uma pergunta civil como aquela. Era hora de aproveitar antes de ele voltar ao normal, o que provavelmente aconteceria no instante em que ele se visse na presença dos demais membros do SPR japonês.

- Chá! – ela exclamou, sorrindo.

Com um torcer quase imperceptível dos lábios, Noll apreciou a ironia da situação e considerou fair play. Do lado de fora, as nuvens começaram a se dissolver em neve.


Case Closed


N/A: Maldito Fanfiction ponto Net, tirou todos os meus divisores de tooooodos os capítulos dessa fanfiction. Felizmente eu já estava planejando uma grande revisão nela antes disso acontecer, senão ficaria muito, muito frustrada.

Ahem.

Desculpem a demora. Aqui está o epílogo. Final em aberto para haver a oportunidade de expansão – leia-se, a continuação, que está no terceiro capítulo aqui no meu caderno da Sininho e será postada quando estiver completa. Obrigada a todos vocês que separam parte de seu tempo para ler essa história, e espero que todos tenham se divertido ao longo dessa jornada. Desculpem o discurso de orador de turma, mas estou me sentindo um tanto emotiva em encerrar uma fic com mais de dois capítulos, haha. Eu revisei muito rápido depois da edição inicial, então, sintam-se à vontade para apontar erros de gramática ou concordância.

Fora isso: muitas pessoas me mandaram e-mails e mensagens pelo site questionando onde eu pesquiso sobre a série. Como são muitos links, reuni todos e postei lá no meu LiveJournal, e deixei um link permanente para o post no meu profile daqui. Só avisando aos interessados, já que alguns nem deixaram uma forma de eu contatá-los posteriormente.

Reviews serão respondidas e consideradas com carinho. Se você não for membro do Fanfiction ponto Net, por favor, deixe o seu e-mail para que eu possa responder. (Se não quiser deixar e-mail, eventualmente responderei no LiveJournal, mesmo assim).