Capítulo 12
Vivendo na surdina
Caminhei durante vários minutos pela passagem que me levaria até a caverna, mas cada minuto mais parecia como uma hora inteira. Eu sentia dores em todo o corpo, e a exaustão falava mais alto. E como se não bastasse, meus sentimentos estavam completamente destroçados.
Depois do que me pareceu uma vida inteira, cheguei à caverna. Ela era completamente blindada com magia, o que me garantia uma proteção quase impenetrável – desde que eu não pagasse de idiota e falasse "Voldemort", tudo estaria ótimo. Vocês sabem por quê. O tabu e etc. Num canto, havia uma barraca que Severus armara tempos antes para quando esse dia chegasse. Posso ser boa em magia, mas em montar barracas... sou uma negação – tanto no mundo mágico quanto no trouxa.
Peguei uma velha panela enferrujada que estava no canto e conjurei fogo para me manter aquecida durante a noite. Entrei na barraca e dormi do jeito que estava.
-x-
Na manhã seguinte, acordei grogue, ainda vestindo o uniforme de Hogwarts com o símbolo de Potter. Sorri tristemente ao vê-lo.
Eu ainda sorria, bestificada, quando ouvi um ruído que me assustou para valer. Havia alguém comigo na caverna, e fosse quem fosse, chutou uma pedra no escuro ou coisa assim. Talvez fora isso o que me acordara. Tapei a boca, reprimindo um grito. Minha respiração era falha e meu coração estava frenético. Um momento depois, me lembrei dos meus feitiços de proteção, e isso acalmou um pouco meu coração.
Foi aí que eu ouvi um pio muito familiar.
— O que diab...? EDWIN?!
Durante todo esse tempo eu nem sequer me lembrei que tinha uma coruja. Juro por tudo o que há de mais sagrado. Eu me sentia uma idiota. Como podia tê-la esquecido assim?
E por onde andara – ou melhor, voara – durante todo este tempo?
Ela não podia nem me ver e nem me ouvir. Mas piava, irritada e insistente, como se dissesse "você não pode se esconder de mim, sei que está aí". Removi meus feitiços, receosa, e a coruja voou para perto de mim. Apressei-me em refazer todos os feitiços e então, finalmente, me virei para ela.
— Edwin! Oh, meu Deus, mas que dona desnaturada... Por favor, me perdoe!
Ok. Vamos esquecer a parte em que estou falando com uma coruja e eu não parecerei tão louca.
Edwin piou alto, um som ameaçador, como se me acusasse. Juro que não estou louca; ele realmente o fez.
— Não foi por mal... Juro, não foi mesmo por mal...
Um pio mais suave. "Eu entendo", era a mensagem.
— OWN, EDWIN, QUEM É A CORUJA MAIS FOFA?
Um pio arrogante (se é que isso é possível).
— Menos – eu disse.
Ele estendeu a perna e eu recolhi um rolo de pergaminho bem grosso. Sorri para a coruja e acariciei suas penas.
— Você deve ter sido bem esperto... aposto que esteve em Hogwarts este tempo todo, né? Ah, Edwin, você é muito esperto!
Argh, se coruja tem ego, o de Edwin é bem grande.
Desenrolei o pergaminho enorme, e comecei a ler.
Gabby! Espero que não se meta em apuros por nossa causa. Você sabe, por esta carta. Só queríamos que soubesse das últimas novidades. Aposto que você ficou curiosíssima. Gina W.
Snape ficou completamente ensandecido quando soube que você fugiu. Eu contei a ele que você tinha me dito que iria partir (ele ameaçou torturar toda a AD) e ele falou que você era uma covarde, e muitas coisas mais, isso na frente de toda a escola. A Sonserina riu muito, Parkinson fez piada, o de sempre. Mas Draco estava definitivamente triste. Ficou em choque quando ouviu que você tinha desaparecido, e quase chorou quando Amelia devolveu a pulseira a ele (ela me contou; espero que não se importe).
A verdade é que meu sangue ferveu. Eu o xinguei (de tantas coisas feias que não me lembro da maioria), disse que ele era um hipócrita que além de levar seus pais para a morte, Gabby, ainda finge que se importa com você. Então o amaldiçoei no corredor do sétimo andar; ele está na ala hospitalar, cheio de dores.
Ganhei uma detenção extra por isso, nada demais, mas valeu
Ah, e nós da AD só vamos cumprir detenções na Floresta Proibida. Nada nos acontecerá! Hagrid estará conosco.
Espero que esteja bem, de verdade. E não se importe com nada; se a coisa ficar feia, nos avise, ok? Dane-se se vai alterar o que deve acontecer. Todos devemos ficar bem, entendeu? Isso inclui você.
Abaixo da carta de Gina, no mesmo pergaminho, havia uma nota de Luna e outra de Neville.
Queríamos estar aí com você; tememos por sua segurança. Procure por Harry, fique com ele, e volte para nós quando ele voltar. Sei que ele vai voltar. Você e ele são as nossas esperanças. Neville L. Faço minhas as palavras de todos. Você é uma ótima pessoa, assim como Harry. Sentirei sua falta. Todos sentiremos. Luna L.
Fique segura.
Eu já podia sentir a saudade me apertando o peito. Eles eram importantes para mim, eram o que me mantinham em sã consciência. Eu sentia que, sozinha, iria enlouquecer.
Mas eu não podia. Eu tinha muito a fazer.
E era melhor começar.
Para variar, eu não tinha a menor ideia de que ou onde procurar. Garanto que passou pela minha cabeça, tipo, umas milhares de vezes, a ideia de ir até nossa ilustre J. K. Rowling e perguntar por que diabos ela esqueceu de me incluir na historia dos livros 6 e 7. Depois lembrei que não era culpa dela que eu tenha decidido, afinal, vir para Hogwarts. Minha decisão, minha culpa.
Eu tinha me perdido nestes devaneios, e Edwin chamou minha atenção – e deixou um belo corte no meu dedo.
— Não finja que foi só pela falta de atenção! Sei que está se vingando, espertinho.
Ele se fez de desentendido, olhando para os lados.
Mas é claro que ele olhou para os lados, Gabriela Burra. Ele é uma ave.
Apressei-me em escrever uma resposta; convoquei uma pena, tinteiro e pergaminho de dentro de minha bolsa e comecei. Disse que estava tudo entediante, mas bem e que eu não estava em problemas, e nem estaria. Disse também que não me escrevessem mais; eles poderiam ser pegos e entrar numa enrascada. Falei que fiquei feliz por não tê-los deixado em apuros, e falei que já sentia falta. E sobre Malfoy...
E quando o assunto é Malfoy, só há uma coisa a se dizer, escrevi. Que o que aqui se faz, aqui se paga. É algo que os trouxas dizem em meu país. Mas digo: não há coisa mais verdadeira.
Enrolei o pergaminho e antes de amarrá-lo em Edwin, olhei para ele.
— Desculpe, ok? Não quis te deixar de lado. Continue em Hogwarts; eu morarei aqui durante muito tempo e, como vê, não é confortável. Mas eu prometo que se escapar disso, eu vou cuidar de você, como costumava ser. – E sorri, amarrando o pergaminho à perna dele.
A coruja se aproximou para que eu a acariciasse e isso era o mesmo que dizer: cuide-se. Eu ficarei bem.
E então partiu.
Novamente solitária, aproveitei para me acostumar com a ideia de que assim seria dali em diante. E para minha alegria, tomei algumas decisões. Primeira, eu iria ao Brasil pegar todo o dinheiro que herdei dos meus pais. Segundo, eu iria ao Beco Diagonal comprar vestes bruxas; deixaria todo o meu lado trouxa para trás. E terceiro, eu não sabia o que procurar, mas sabia com quem. Decidi que seguiria os Comensais, investigaria ao máximo. Era isso ou ficar sentada numa caverna mofada sem fazer absolutamente nada.
A última opção é inviável. E tentadora.
Eu não queria, de forma alguma, retornar ao meu país natal. Só de cogitar o pensamento, eu tremia. A dor... a excruciante dor que esta pequena visita me traria... Eu não precisava disso, mas era necessário.
Juntei tudo o que me pertencia e coloquei de volta na pequena – e agora inseparável – bolsa. Antes de remover a barreira protetora que a caverna tinha, fiz o feitiço da desilusão e, uma vez que tudo estava pronto, aparatei na praça que ficava perto de onde, um dia, fora minha casa. A mesma onde eu encontrara Malfoy naquele maldito dia. A mesma que me trazia as piores lembranças.
Tentando ignorar tudo isso, olhei o movimento ao meu redor, encostada numa árvore, onde ninguém poderia esbarrar em mim por acidente. Havia algumas pessoas passando aqui e ali, nada demais. Mas também havia aqueles dois sujeitos em vestes bruxas, parados a alguns metros de distância, num vácuo onde um dia fora minha casa. Estavam olhando para onde eu estava, atraídos pelo som da minha aparatação. Um deles levantou a varinha exatamente em minha direção, e o raio verde levou um segundo para cruzar a distância entre nós. Só tive tempo de mover a cabeça, e a Avada Kedavra acertou a árvore atrás de mim.
— Filho da puta! – gritei, desfazendo meu feitiço da desilusão e partindo para cima deles. – Como – Bombarda Máxima. – você ousa – Bombarda Máxima. – me atacar – Bombarda Máxima. – desta maneira? –Bombarda Máxima. As curtas pausas em minha fala foram pontuadas por estrondos do feitiço, tão fortes que o chão vibrava. – VOU ACABAR COM VOCÊS DOIS, MALDITOS, IMUNDOS, E...!
Os dois me atacaram de uma vez, e eu tive que me desviar, fazendo movimentos dignos de Matrix.
Ok, é mentira.
A verdade é que eu quase fui acertada, e isso só me deixou mais irritada e, aparentemente, cega. Eu não sabia o que eu atirava (que tipo de maldição, ou coisas, já que, repentinamente, muitas coisas começaram a voar), menos ainda em quem. Os dois à minha frente eram dois borrões, e eu ia em direção a eles. E, então, com um alto creque, os dois sumiram no ar.
— COVARDES! – gritei, mesmo sabendo que eles já podiam estar na China àquela altura.
Precisei de um breve momento para respirar fundo e olhar o estrago à minha volta. À esquerda, uma árvore estava rachada, efeito de um Bombarda Máxima; um gato jazia no chão, imóvel e coberto de sangue; provável que fosse efeito da Sectumsempra. À direita, um cachorro estava morto; sua imobilidade denunciava isso, mas nenhum ferimento. Avada Kedavra. Mas o pior estava atrás de mim.
Três cadáveres. O pai, a mãe e a filha. Inocentes transeuntes, que nada tinham com isso, e que agora jaziam no chão, atingidos por maldições que eram para mim. Eu senti ódio. Muito ódio. Eu queria o sangue daqueles dois em minhas mãos.
Eu queria o sangue de Voldemort em minhas mãos.
Não sei quanto tempo fiquei encarando o chão. Sei que, quando saí de meu transe, estava cercada por viaturas, de todos os lados. Todos miravam em mim suas armas.
Perfeito.
Eu não sabia o que fazer. Então, simplesmente desaparatei. Imagine agora a cara de cada um dos policiais quando me viram sumir no ar.
Impagável.
Quando aparatei, estava numa rua bastante movimentada de minha cidade. As pessoas nem notaram quando apareci, não viram que eu surgi no ar. Então, sem perder mais tempo, fui ao banco em que sabia que estava todo o dinheiro dos meus pais. Confundi os funcionários, e eles me entregaram todo o dinheiro.
Parti sem olhar para trás. Eu não podia ficar por muito tempo em nenhum lugar. Precisava me manter fora das vistas dos comensais.
Ao retornar para Londres, fui mais cuidadosa. Aparatei em lugares que eu sabia que estariam repletos de gente, onde seria confuso de me perseguirem. Aprendi isso com Hermione na sua fuga do casamento de Bill e Fleur. Lugares tumultuados, confusos, e que possibilitava perfeitamente que eu me misturasse.
Não encontrei companhia, o que foi um alívio. Pude ir ao Caldeirão Furado e chegar ao Beco Diagonal através de sua passagem.
Não era nada como eu me lembrava ano passado. Já estava ruim, isso é fato, mas agora, era deprimente. Tudo destroçado, lojas desativadas, e os transeuntes eram bruxos maltrapilhos e sombrios ou bruxos assustados, que procuravam sair de vista o mais rapidamente possível. Respirei profundamente e aumentei o ritmo de meus passos. Passei em Gringotes para trocar o dinheiro trouxa pelo bruxo. Sem parar e nem hesitar, adentrei a loja "Madame Malkin – Roupas para todas as ocasiões".
A loja tinha um ar triste que eu não vira no dia em que entrara ali para comprar meu uniforme. Será por que eu estava excitada naquele dia diante da perspectiva de ir à Hogwarts? Meu mau humor estaria agora tornando a paisagem triste e desanimadora?
Era uma explicação aceitável. Tudo ao meu redor parecia deprimente. Triste, eu passei a acreditar que tivesse relação com meu próprio humor.
— Olá, querida, em que posso ajudá-la?
Os olhinhos de Madame Malkin brilhavam. Aparentemente, estava feliz por ter uma cliente. Os negócios não deviam estar indo bem.
— Olá! – cumprimentei com um sorriso, e seus olhos se espremeram, como se ela estivesse pensando se já me vira antes ou não. – Eu gostaria de ver e experimentar algumas vestes... comuns.
— Ah! Por favor, em acompanhe! – Ela me deu as costas e caminhou pelo lugar movendo algumas araras, procurando. Eu a seguia de perto, observando as araras e procurando coisas que pudessem me interessar. – Preferência por cores e estilos?
— Discretos – respondi. Ela sacudiu a cabeça em resposta, dizendo que entendera. Foi separando umas peças aqui e ali, e logo tinha uma grande variedade. Eram peças bonitas. Animei-me e comecei a experimentar.
Uma hora depois, eu já tinha um ótimo número de roupas discretas e muito legais. Paguei a ela. Quando ia saindo, ela me chamou:
— Ei, querida, nós não nos conhecemos?
— Claro. Você me vendeu vestes para Hogwarts ano passado.
— Sim, mas... Sinto que a vi em algum outro lugar...
Saquei onde ela queria chegar. Meu nome com certeza devia estar sendo cada vez mais e mais manchado pelos jornais. Eu era o mau elemento, assim como Potter. Poderei antes de responder. "Que se dane", pensei.
— Claro. Talvez n'O Profeta Diário. Soube que eles andam falando muito de mim por aí. Você sabe, a lunática que assassinou os pais trouxas a sangue-frio. – Os olhos dela se arregalaram de pavor. Não era culpa dela. Ela não merecia que eu me portasse de tal maneira, mas eu não me importava muito, para ser sincera. – Passar bem, Madame.
Com isso, deixei a loja, e aparatei o mais cedo possível.
Voltei para a caverna, tomei um banho e me vesti, depois guardei o resto de minhas coisas na bolsinha. O tempo passava tão rápido que eu nem notei, mas já era noite. Eu precisava agir. Precisava! O tempo passava muito rápido, e se eu continuasse nesse ritmo, não ia chegar a lugar algum.
Eu estava bastante estressada por isso quando cheguei. E meu estresse só foi piorando e piorando.
Quase não dormi naquela noite.
-x-
Eu estava pronta para a ação. Para sair dali, arriscar meu pescoço e, quem sabe, conseguir alguma informação útil. Por isso, não tardei em fazer jus aos meus sentimentos: eu me sentia pronta, então ia provar.
Eu usava uma longa veste preta e discreta, que era colada ao meu corpo na cintura e folgada partindo dali. Ia até meus pés. Era bastante confortável e não era muito diferente do que as bruxas usavam no dia-a-dia – e era essa a ideia, afinal. Havia um detalhe no decote, um cordão que ficava amarrado num laço. Na cintura, mais detalhes, como um cinto. Era bonito. Enfim, peguei todas as minhas coisas e coloquei na bolsa. Eu não era idiota de arriscar tudo o que eu tinha deixando fora de meu alcance, então, por mais que eu fosse voltar para a caverna no fim do dia, eu não deixaria nada que me pertence para trás. E se algo desse errado? Eu não podia me arriscar, nunca. Passei a alça pela cabeça e a coloquei no ombro direito, e então, fazendo o feitiço da Desilusão em mim mesma, saí da caverna para Hogsmeade.
Não havia muita gente por ali. Alguns baderneiros, que eu imaginei que fossem Comensais ou caçadores. Excluindo eles, ocasionalmente um bruxo ou outro passava apressado, sempre com a maior rapidez possível para chegar ao seu destino. Fiquei à espreita, observando os estúpidos que estavam ali adiante, rindo e conversando. Não tardou para que tomassem rumos diferentes, e eu escolhi o único que não aparatou para seguir.
Não seria fácil seguir esses caras. Quero dizer, eles simplesmente aparatam... e se eu chegar perto o suficiente para ir junto, posso não gostar nada do que irá acontecer.
Ele caminhou, caminhou e caminhou. Era maltrapilho e bem porco, claramente não tomava banho há muito, e bebia uma garrafa do que eu supunha que era Whisky de Fogo enquanto caminhava. Não demorei a reconhecer o caminho; ele levava à mansão Malfoy.
Por que todo caminho que eu escolho me leva em direção à ele?
Ignorando minha revolta, eu continuei a segui-lo.
No fim das contas, não deu em nada. Eu fiquei parada do lado de fora da mansão dos Malfoy, e nada consegui. Ocasionalmente alguém entrava ou saía, mas não me deu nada para prosseguir. Voltei no fim da noite, frustrada, para a caverna de onde eu havia saído.
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Imagine a minha surpresa quando eu cheguei à caverna e encontrei Edwin lá, esperando-me para entregar uma nova carta. Encarei-o, estupefata, enquanto ele encurtou a distância entre nós e, piando alto, estendeu a perna, como que dizendo "você não acha que já esperei o suficiente?"
Sorrindo, peguei a carta, e ele levantou voo, deixando a caverna. Provavelmente iria caçar.
Removi a fitinha e desenrolei o pergaminho. Meio queixo caiu com o que eu li.
Hey, Muniz... Eu não sei porque estou fazendo isso. Escrevendo para você, quero dizer. Nós não estamos nos dando bem, nem de perto, e mesmo assim, eu não consigo deixar você para trás. D. Malfoy
Sei que você não vai me perdoar nunca pelo que eu fiz. Eu não tive a intenção de... você sabe, mas também não tive a coragem necessária para fazer algo à respeito.
E eu lamento por isso, e me arrependo amargamente.
Quando Amelia me entregou sua pulseira... Gabby, eu queria fugir. Queria ir para junto de você. Sinto sua falta, e faz pouquíssimo tempo que você partiu. Não sei como lidar com isso.
Fique segura, Gabriela. Viva e se imponha. Se tem alguém que pode superar isso é você.
Espero te ver de novo, em breve. Mesmo que você me trate como lixo, como sempre. Melhor isso que nada. Melhor ver você me odiando a cada dia que passe do que não te ver.
Não tenho mais nada a dizer. Só que... eu me arrependo amargamente por não ter te dado ouvidos, e você sabe disso.
Malfoy. Malfoy. Fiquei a encarar o nome dele. Ainda não conseguia acreditar que ele escrevera para mim. Não sabia o que fazer. Tinha uma carta dele em mãos, meus olhos marejavam e eu não precisava fingir que não me importava com ele. Eu o amava e odiava ao mesmo tempo, e ambos os sentimentos eram grandes, e eles me dominavam ali. Pressionei a carta junto ao meu rosto, sentindo o perfume, que era o mesmo que ele usava. Eu chorava, e nada me faria parar. Aquele era o modo que minha dor encontrou para sair. Aquilo aliviava meu coração partido.
Eu não ia responder. Não queria e não podia. Por um instante, cogitei a ideia de rasgar em mil pedaços, mas percebi que parte de mim não queria isso. Então, não o fiz. Sentei-me o chão, a carta amarrotada ainda em minhas mãos, a mente vagando para as memórias que eu tinha dele. As boas. As ruins. Cada uma delas.
E, de repente, eu já não chorava só por Draco. Chorava por meus pais, pelas pessoas inocentes que morreram por minha causa, pelos meus amigos, e por todo o resto. Chorei até não aguentar mais, e isso demorou bastante.
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Mesmo com olhos fechados, o brilho invadia minhas pálpebras. Era uma luz muito forte, e primeiramente eu pensei que fosse o sol, mas depois eu me lembrei de que estava numa caverna e estranhei. Eu me questionava internamente sobre de onde vinha esse "clarão". E, detalhe, isso tudo semiacordada e ainda deitada na cama.
Por fim, me dei por vencida e abri meus olhos. E então, rapidamente, eu estava bem acordada.
Era um patrono, isso eu podia ver. Uma corsa prateada que brilhava fortemente. À princípio, seu brilho machucou meus olhos, mas não importava. Eu dava cambalhotas de alegria internamente.
Era Sev, eu tinha certeza disso. Eu estava tão animada! Desfiz toda a proteção e esperei, ansiosa, olhando para a passagem que ia dar em Hogwarts. Não demorou muito, e logo Sev apareceu, hesitante, olhando ao redor com sua habitual desconfiança.
— SEV! – gritei, correndo para abraçá-lo. Literalmente me atirei contra ele, e senti que ele se desequilibrou um pouco. Sentindo seu corpo enrijecer de choque, soltei-o, um sorriso sincero cravado na expressão. – Oh, Deus, como estou feliz por te ver!
Ele murmurou algo como "é, posso ver", meio que para si mesmo, e eu ignorei.
— O que faz aqui? Pensei que não fôssemos mais nos ver!
Cauteloso, ele caminhou para perto da barraca. Parecia intrigado.
— Você anda recebendo cartas? – perguntou, com aquele tom de um pai que descobre uma travessura do filho e está prestes a puni-lo.
Olhei para onde ele olhava, e lá estava Edwin, parado e empertigado, observando-nos.
— Hm... mais ou menos.
Severus cravou seus olhos em mim.
— Gabriela...
Odiei o tom dele. Parecia minha mãe quando achava que eu estava mentindo.
— O quê? Foram só duas cartas...!
— Que vieram por uma coruja que pode facilmente ser interceptada!
— Eu sei! Desculpe!
Ele me olhou seriamente.
— Quem anda escrevendo para você?
— Gina, Luna e Neville escreveram uma só para me dizer que estavam todos bem; eles não sabem que eu já sei tudo isso. E, bem...
Parei. Não queria lembrar daquilo.
— Continue – disse.
— Draco escreveu a última.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Pensei que não estivessem mais se falando.
— Não estamos.
Ele semicerrou os olhos.
— Gabriela, acho que você não compreende a seriedade de toda essa situação...
— Compreendo, Severus. E eu não respondi e não irei responder a esse idiota. Ele não merece. Nem sei para que escreveu, para início de conversa.
Endureci a expressão, encarando fixamente um ponto atrás dele. Podia sentir que seu olhar procurava entender minhas atitudes, mas eu tentava com todas as minhas forças não pensar em Malfoy e nem em nada que deixara para trás.
— O melhor que faz é não responder mesmo – disse Severus, num tom um pouco mais leve e muito mais cauteloso. Como quem se desculpa. – Vim aqui para saber dos seus planos – informou, mudando o rumo da conversa.
Apressei-me em contar sobre a inutilidade da minha primeira tentativa. Contei do que aconteceu no Brasil, e de como fiquei plantada do lado de fora da mansão dos Malfoy, e que nada obtive.
— Você não precisa ficar de tocaia, Gabriela – disse-me ele, assim que acabei de lamuriar. – Sei de tudo o que se passa lá dentro. Posso informar a você.
Suspirei.
— Isso só me deixa uma opção.
Olhei nos olhos dele pela primeira vez desde que ele chegou. Eu não aguentava olhá-los, pois sempre me lembrava do que eu lera no "Harry Potter e as Relíquias da Morte", do que eu vira no "Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2". Nagini atacando-o por ordens de Voldemort. Ele agonizando. Morrendo.
— Será uma missão suicida, Severus. Não quero chegar a esse ponto. Estou apavorada; a perspectiva de me deixar ser torturada por Riddle só p...
— O quê? – A voz de Severus foi baixa como um silvo. Estremeci e desviei o olhar. – Você não fará isso, está me entendendo? Não! De forma alguma!
— Eu apreciaria palavras encorajadoras – eu disse, baixinho. – Estou apavorada, como já disse, diante desta perspectiva.
— Não! – repetiu. – Você não pode fazer isso! E você não vai.
Era claro que eu iria, e nós sabíamos bem disso. Enquanto eu encarava o chão, buscava forças para olhá-lo nos olhos e mentir, mas mentir com maestria, porque, se Severus Snape percebesse que eu mentia para ele... nem imagino o que ele faria.
Obriguei-me a encará-lo, com a expressão mais vazia que eu conseguia elaborar. Sustentei esse olhar por instantes e, por fim, veio a mentira:
— Você tem razão, Sev. Não farei isso. De nada adiantaria.
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Severus não demorou a ir embora. Atualizou-me de algumas coisas dos Comensais e logo se foi. Eu senti alívio por não ter mais que fingir que eu ia sentar e esperar que tudo desse errado, só para não me arriscar. Mas também senti uma dor enorme ao vê-lo ir. De novo, eu não sabia se o veria novamente... vivo.
Sentei dentro da barraca, no chão frio e duro, pernas cruzadas, braços apoiados nos joelhos, cabeça enterrada nas mãos. Minha testa estava franzida do esforço. Eu pensava, e com uma concentração que jamais tive. Eu analisava tudo o que eu conhecia sobre Voldemort. Cada lugar importante para ele... A caverna, Hogwarts, Gringotes... As casas onde assassinou seus familiares (já que escondera um anel lá), talvez Kings Cross (por levá-lo à Hogwarts; vai saber), o Ministério (ideia de poder e dominação; mais uma vez, vai saber, né). E, então, depois de um tempo pensando e uma dor de cabeça, eu tinha lugares para procurar. O Ministério, Kings Cross, e a casa de seu pai. A última me parecia mais provável. Ele passara tempos lá antes de retornar e recomeçar a causar pânico e discórdia, no quarto ano de Harry em Hogwarts. Você sabe.
Decidi que seu lugar utilizado para as reuniões (também conhecido como a mansão dos Malfoy) era um lugar insignificante. Quero dizer, que importância tinha um lugar em que ele reúne um bando de bruxos idiotas que não significam nada para ele pode ter? Ele não tinha lembranças marcantes de lá, nem teria. E daí que era lá onde ele passava a maior parte do tempo? Eu imaginava que lá não seria um grande esconderijo.
A casa de seu pai trouxa, por outro lado...
Ele assassinara o pai, o avô e a avó naquele lugar. Vira a luz deixar seus olhos, sentira prazer com isso. Definitivamente, um lugar que eu deveria e iria visitar.
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Apanhei todos os meus pertences e me preparei psicologicamente no processo. Eu não sabia com o que eu poderia me deparar, mas sabia que não seria nada de bom. É de Voldemort que estamos falando e, com ele, nada de bom poderia ser esperado.
No fim, com tudo o que me pertencia dentro de uma pequena e inseparável bolsinha, aparatei, a casa que eu só vira no filme em mente. Quando abri os olhos, estava no meio do caminho para a casa. Agradeci a Deus pelo filme ter tido um cenário tão parecido com na realidade.
Para ser sincera, o filme não tinha sido tão realista, mas sim realista o bastante. A casa que pertencera aos Riddle era mil vezes mais horripilante que o filme "Harry Potter e o Cálice de Fogo" nos mostrou.
Fiz o Feitiço da Desilusão ao meu redor, fechei meus olhos e apurei os outros sentidos. Snape me ensinara a fazer isso. Ele me disse que com esforço e concentração eu poderia sentir lugares que foram tocados, afetados por magia de alguma forma. Ainda mais facilmente se fosse magia negra. Era algo tão poderoso que sempre deixaria um rastro... e eu precisaria encontra-los. Era o único meio de achar algo que permita que o Lord das Trevas triunfe no final.
Eu senti. Era algo forte, aterrador, e sussurrava por mim. Me induzia a entrar. Era, eu imaginava, como o efeito da Maldição Imperius: uma vozinha dentro de minha cabeça, instigando. Mas, diferentemente da maldição, eu podia simplesmente virar e sair dali.
Mas, é claro, não o fiz.
Caminhei vagarosamente, agora de olhos abertos e atentos. Estava silencioso – nem um grilo sequer fazia sons –, e isso me deixou ainda mais perturbada. Nada que espante esses pequenos animais pode ser bom. Tentei não hesitar em momento algum e simplesmente ir de uma vez e acabar com o maldito suspense.
Isso não aliviava nem um pouco meu medo.
Quê? Eu estava com medo, e aí? Nunca disse que eu era a pessoa mais corajosa do mundo.
Com um "que se dane" em alto e bom tom, andei rapidamente até a porta. Como nada me deteve, não hesitei ao girar a maçaneta – e me ferrei, como consequência.
Galhos enormes se ergueram do chão. Tinham vida própria. Ok, era só um maldito feitiço, igual ao do labirinto do quarto livro/filme, no Torneio Tribruxo. Eles se enrolaram aos meus tornozelos e me derrubaram de queixo no degrau, e na hora comecei a sangrar.
— Merda – gemi. Os galhos tinham imobilizado meus braços e pernas. As mãos, felizmente, eu ainda podia usar.
— Reducto – disse, e o galho se partiu em minhas pernas. – Redcuto! Reducto! Reducto!
Por fim, me livrei. Praguejando alto, peguei minha varinha, que havia caído no chão, e entrei – dessa vez abri a porta com o Alohomora. O feitiço utilizado nos galhos devia ser para os trouxas, já que se manifestou ao meu toque. Nota mental: somente abrir portas de casas que estou invadindo com o feitiço. Nada de tocar.
Adentrei o lugar. Meus pés doíam. Dando uma boa olhada, reparei que os galhos destruíram minhas botas (que eu adorava) e eram elas quem cortavam meus pés.
— Ah, ótimo – disse. – Eu gostava dessas botas! – Arranquei-as e joguei dentro da bolsinha. Logo depois ouvi um baque e o som de frascos rolando.
— Ótimo. Lá se vão meus ingredientes. – Eu me referia ao meu estoque de ingredientes de preparo de poções.
A casa fedia. Era escura e muito imunda.
— Eca – murmurei, pensando "lumus" e a ponta de minha varinha se acendeu.
Eu não sabia o que procurava, nem onde procurar. Apenas olhei a casa. Fotos dos Riddle tomavam as paredes. Eram fotos ao estilo trouxa, comuns, portanto, não se mexiam.
Tom Riddle fora um lindo rapaz, realmente. Feições suaves, agradáveis. Com certeza o filho herdara a aparência.
Imagino como ele se sentiria agora que seu filho aparentemente não tem nariz.
Ok, eu não disse isso.
A sala não era o esconderijo, estava claro. A cozinha imunda também não. Nada no andar de baixo.
Mas por que o feitiço de proteção se não há nada a proteger?
Havia algo ali.
Subi as escadas.
No andar superior, tornei a sentir aquilo que senti lá embaixo, antes de entrar. Vasculhei minuciosamente cada cômodo.
Mas o que se procura sempre está no último lugar em que olhamos.
Não toquei a maçaneta. Não sou tão burra.
— Alohomora – e a porta se abriu para mim.
A escuridão naquele quarto não era comum. Era intensa demais, e minha luz de nada servia.
— Lumus máxima. – Uma esfera de luz se desprendeu de minha varinha e brilhou por um instante antes de sumir. – Ótimo – murmurei, amarga.
Dei o primeiro passo, às cegas. Era uma escuridão terrível. Então, bati o pé em alguma coisa, e uma dor aguda me indicou que machuquei feio meu dedinho. Doeu. Muito.
— Que porra, ai, isso é tudo culpa desse filho da puta desse Vol...
Voldemort é um tabu. Voldemort é um tabu. Sua burra, Voldemort é um tabu; não diga!
— ...demort.
Creque. Escutei pelo menos uns quatro.
Sim, eu estava ferrada. Tudo isso por ter me zangado por bater meu dedo num móvel, ou numa parede.
— Quem está aí? – Alguém perguntou. Eu não reconhecia a voz, logo, imaginei que não conhecia a pessoa. Um longo segundo se passou, e então vi um jorro de luz verde cortar a escuridão em minha direção.
Infelizmente, ela estava perto demais quando a vi.
Acho que, à esta altura, todos sabemos qual maldição é a caracterizada pela luz verde. Para refrescar a memória, só uma pessoa sobreviveu à ela até hoje.
O menino da cicatriz. O Eleito. Harry Potter.
