Conseqüências

Obs 1: Saint Seiya não me pertence, como todos devem saber. Por ser um fic de Universo Alternativo os personagens deverão sofrer algumas alterações em suas personalidades.

Obs 2: o nome Carlo designado a Máscara da Morte foi originalmente criado pela Pipe. Todos os créditos à ela.

Obs 3: Este é um fic dedicado especialmente à uma grande pessoa. À uma amiga de todas as horas, batalhadora, sincera e que sempre procura ajudar em todos o momentos. Acredito que não é necessário uma data comemorativa para dedicarmos algo feito de coração à uma pessoa especial. Valeu Nehe-chan \o/

Obs 4: O casal principal dessa história é Milo e Aiolia. Eu sei bem que existem leitores que simplesmente não aceitam o Milo com um outro cavaleiro que não seja o Kamus. Mas, EU sou a favor dos casais alternativos e amo ver esses dois juntos principalmente porque na MINHA opinião, são os dois cavaleiros mais putos do santuário. Portanto, se você não gosta de ver o Milo com o outro, por favor não leia para depois ficar me enchendo a paciência. Agora se você está aberto a novas experiências, leia e comente. Sem flame! Obrigada! E boa leitura!

12

Quando entrou no seu Mercedes, Milo tremia tanto que teve dificuldades em colocar a chave na ignição. Não conseguindo, resolveu desistir e recostou a cabeça no encosto do acento do carro. Respirou fundo, esperando que a dor diminuísse.

Forçou a mente, tentando pensar em algo mais ameno para não sucumbir à lembrança das duras palavras de Aiolia. Visualizou Seiya, Shaka e Aldebaran.

Os últimos anos da vida de Milo foram vividos de forma bem peculiar. Ele queria ajudar, tinha uma necessidade visceral de auxiliar as pessoas. E, apesar dos pesares, possuía algo para oferecer. Ao menos, num caso bem particular.

* * *

Vários dias depois, Milo parou em frente à igreja e dirigiu-se ao escritório de Aldebaran.

- Mas que surpresa agradável! – exclamou o pastor, ao abrir a porta e convidá-lo para entrar na pequena sala. – Já faz um bom tempo. Como vai você?

- Bem, obrigado.

O grandão fitou o loiro por alguns instantes.

- Estou vendo que a saúde vai bem. E quanto aos outros aspectos da vida?

Milo olhou para o jardim, esforçando-se por evitar as lembranças do encontro caloroso com Aiolia, na última vez em que esteve naquele espaço. Voltou a atenção para Aldebaran.

- Poderiam estar melhor.

- Bem, posso imaginar, já que Aiolia anda com uma disposição péssima, também. – Aldebaran sorriu e ofereceu-lhe uma cadeira.

- Então, você entende por que precisei desaparecer por um tempo – comentou Milo, sentando-se.

- Acho que podemos definir desse modo. – Milo ria do bom humor do pastor.

– Aiolia deixou bem claro que não me quer interferindo em "seu mundo", como ele mesmo diz.

Lembre-se de uma coisa, Milo: independente do que Aiolia diz, você é sempre bem-vindo aqui.

- Obrigado, Aldebaran. – A amigável recepção do pastor suavizou a dor que vinha crescendo no peito de Milo. – Suponho que Aiolia tenha lhe dado alguma versão da minha história de vida.

Aldebaran sentou-se em frente à mesa, de forma displicente, e Milo ainda se surpreendia com as atitudes pouco convencionais do pastor.

- apenas os fatos mais pertinentes. O seu nome, por exemplo. E que sua profissão está... Como diríamos... A favor da lei.

- Ao menos, ele não o incomodou muito – disse Milo, seco.

- Tenho a impressão de que existem outros detalhes bem mais interessantes por trás do que Aiolia me confessou.

Constrangido, Milo mudou de posição na cadeira.

- Desculpe-me. Tenho o velho habito de me intrometer em assuntos delicados. Esqueça o que eu disse. – Aldebaran esboçou seu sorriso sedutor. – O que posso fazer por você?

Aliviado por não ser pressionado, Milo retribuiu o sorriso.

- Estou aqui para oferecer minha ajuda.

- Considerando o encorajamento que recebeu de certa pessoa, é muita generosidade de sua parte. Mas você verá que eu, diferente de Aiolia, aceito todas as ofertas de auxílio. – A expressão de alegria do pastor desapareceu, dando lugar à tristeza. – Há muito o que fazer por aqui. Muito mesmo.

Pegando a carteira, Milo pegou o talão de cheques e uma caneta que estava sempre no bolso de sua camisa.

- Tenho uma condição, Aldebaran – avisou o loiro, assinando o cheque. – Não quero que meu nome circule pelo bairro. Por favor, vamos manter esse assunto entre nós dois apenas.

- Se é isso o que quer...

- Sim, é isso. – Milo entregou o cheque ao pastor.

Após olhar o pedaço de papel, Aldebaran voltou-se para o outro com o rosto atônito.

- Acho que você pôs zeros demais nele, Milo. Isso vai além da generosidade, meu filho.

- O seu trabalho tem muito mais valor que o dinheiro, Aldebaran. E, do fundo do meu coração, quero ajudá-lo. – O loiro abaixou os olhos. – Esse é o único meio que encontrei para não aborrecer Aiolia.

- Não se preocupe, faremos um bom uso desse cheque. Tempos uma porção de projetos ainda pendentes. Creio que não preciso lhe dizer o quanto estou grato, ou melhor, estamos gratos por sua atitude bondosa.

- Oh, Aldebaran, o seu trabalho é tão importante, tão vital... Eu gostaria... – O loiro quase se traiu com palavras espontâneas. Então, olhou o relógio. – Bem, preciso ir. Foi ótimo vê-lo de novo.

Levantando-se, o pastor aproximou-se e pousou os braços sobre os ombros de Milo.

- Obrigado pela visita, filho. – Apontou o cheque sobre a mesa. – E não estou me referindo à sua oferta generosa.

- Obrigado, querido amigo. – O loiro tirou um cartão de visitas da carteira. – Estou preocupado com Seiya. E com o problema de Shiryu. Se você precisar de algo, qualquer coisa, por favor, entre em contato comigo.

- Noto que não mencionou o nome de Aiolia. – Aldebaran deu-lhe um abraço solidário. – Não desista dele.

- Creio que não tem mais jeito. – murmurou Milo, esforçando-se por conter as lágrimas. – Ele já desistiu de mim.

- Minha oferta ainda está de pé. Quando quiser conversar, estarei disponível. Aiolia pode ser um tolo, mas eu não sou. – O pastor riu do próprio pensamento. – Pelo menos tento me convencer disso.

- Obrigado, mais uma vez. – Milo beijou-o no rosto. – Você é um grande homem, Aldebaran. Cuide-se bem.

Saindo da igreja, Milo virou a esquina e quase colidiu com um homem que vinha na direção oposta. Tocando o braço dotranseunte, ele parou para se desculpar.

- Sinto muito. Eu não estava atento... Shaka!

- Ora, vejam só quem está aqui. – Shaka fitou Milo dos pés à cabeça. – Como vai indo?

- Estou bem. – Milo notou um tom de reserva na voz de Shaka. – Acho que vai ficar contente em saber que meu médico gostou demais de sua técnica cirúrgica.

A expressão de Shaka tornou-se leve.

- Nenhum dano permanente, certo?

- Na verdade, ele garantiu que a cicatriz não será grande coisa. – Ele hesitou. – Porque precisei sair de forma abrupta no outro dia, não lhe agradeci pelo que fez, Shaka. Muito obrigado mesmo, de coração.

- Tudo bem. – Shaka deixou de lado os elogios. – Nós temos um acordo, Aiolia e eu. Ele pede e tento corresponder.

Distraído, Milo olhou para a calçada, observando panelas secando ao sol.

- Podemos tomar um café ou uma xícara de chá em algum lugar?

- Tenho uma idéia melhor. Por que não vamos à cozinha da igreja? Aldebaran possuiu um suprimento considerável de alimentos.

- É verdade. – comentou Milo, lembrando-se do dia em que recuperou a memória por causa do chá que Aldebaran lhe oferecera. – Vamos então?

Enquanto caminhava de volta à igreja, ia imaginando o que teria acontecido caso a amnésia permanecesse. Que rumo teria tomado a relação entre ele e Aiolia? Não valia a pena pensar nisso agora. Aiolia Leon não o queria mais.

Depois de prepararem chá e café, Shaka e Milo sentaram-se à mesa, saboreando as bebidas em completo silêncio.

- Penso que Aiolia deve ter lhe contado por que saí de forma tão apressada. – Milo pousou a xícara sobre o pires.

- Aiolia não costuma falar muito. Mas me disse o bastante para me dar uma boa idéia do que aconteceu.

Então, Shaka sabia mais do que ele próprio, refletia Milo com ironia, tentando dar um sentido ao que havia entre Shaka e Aiolia. Não conseguia evitar a inveja da estreita relação de ambos. Pareciam se compreender mutuamente, sem a necessidade de palavras.

Era difícil imaginar que tipo de homem Aiolia Leon preferia. Na certa, Milo não se encaixava no tipo predileto dele. Aiolia se mostrava tão fechado e distante afinal... Será impossível para um homem carente como Milo Scorpio encontrar alguma abertura. Bem, fora mais ou menos isso o que havia deduzido durante a curta estada na casa de Shaka.

- Há quanto tempo conhece Aiolia? – perguntou, tomando um gole de café.

Pensativo, Shaka parecia refletir com extrema cautela. Mas, logo, chegou a uma conclusão:

- Conheço-o desde que éramos garotos. Seu irmão, Aiolos, e eu éramos grandes amigos.

- Você deve sentir saudade de Aiolos, não?

Shaka mostrou-se surpreso.

- Aiolia lhe contou sobre ele?

- Sim, um pouco – hesitou Milo, imaginando o quanto poderia revelar ao bondoso homem.

- Isso é estranho. Ele nunca fala sobre o irmão.

- Aiolia não entrou em detalhes. Mas, pelo que pude perceber, a vida deles foi bem sofrida.

- Juntos, Aiolos e eu, vivemos momentos difíceis e dolorosos. – Havia uma expressão de profunda tristeza nos olhos de Shaka. – Eu sobrevivi. Ele não.

- Deve ter sido um período complicado para vocês dois e Aiolia.

- Foi, e muito. A morte de Aiolos deixou Aiolia sozinho, na época em que ele mais precisava de amparo e ajuda. Eu ainda estava nas drogas; então, não tinha condições de protegê-lo. No entanto, foi esse menino abandonado quem cuidou de mim. Se não fosse Aiolia, eu teria terminado como Aiolos.

Nesse instante, Milo compreendeu por que Shaka era tão próximo a Aiolia. Ele salvara-lhe a vida. A imagem de vê-lo forçado a agir como adulto responsável, em fez de aproveitar a oportunidade de ser criança, bateu fundo no coração de Milo.

Percebendo a culpa estampada no rosto de Shaka, ele resolveu aplacar a tensão.

- Você tem sabido como recuperar o tempo perdido, não é? Talvez seja por isso que Aiolia se sinta tão à vontade em abusar da sua generosidade.

O bom homem soltou uma gargalhada.

- Pode ser. Mas Aiolia sabe o quanto valorizo o trabalho de policial. A morte trágica de Aiolos levou-o a trabalhar com a lei. Penso que foi a forma legal que encontrou para se vingar. – O sorriso se desfez. – É claro que, às vezes, ele tende a ultrapassar os limites da legalidade.

- Sob certos aspectos, não duvido disso. – Milo ria de modo irônico.

- Aiolia nunca pede ajuda.

- Contudo, mais cedo ou mais tarde, todos nós precisaremos de auxílio.

- Mas não o nosso querido Aiolia. Ele sempre irá agir como quer ou morrerá tentando.

- É um caminho solitário e perigoso, Shaka. – Milo serviu-se de café, concentrando-se no que pretendia dizer. – Ele pediu a sua ajuda – murmurou, sentindo uma inveja inexplicável.

- Sim, você tem toda razão. Mas provei a Aiolia que posso me cuidar sozinho. E, com o tempo, ele aprendeu a confiar em mim. – Shaka terminou o chá e deixou a xícara sobre a mesa. – Você precisa entender que Aiolia não quer se responsabilizar por ninguém, não ser por ele mesmo.

- Mas por quê?! – exclamou Milo.

- Porque, desde a morte de Aiolos, ele tem medo de falhar de novo.

- Você é um homem muito astuto, Shaka Virgo. – declarou Milo, sentindo haver mais do que apenas palavras de elogio. – Por que continua vivendo aqui? Por que não aproveita seus talentos em outro lugar, deixando todo o sofrimento para trás?

- Aqui é o meu lar. Cresci neste bairro. E, de certa forma, tenho sido feliz.

- Porém, estes lados não lhe oferecem recordações dolorosas? Ou pior, fortes tentações?

- Sim – os lábios de Shaka se abriram num sorriso terno. – As recordações pertencem a nós, Milo, e as tentações estão por toda parte. Não podemos fugir daquilo que sempre nos acompanha ou vai nos encontrar um dia. O verdadeiro truque é aprender a ser mais forte do que a dor. Além do mais, sei o que os moradores daqui têm de enfrentar todos os dias. – Shaka deu de ombros. – Sendo assim, não me resta nada a fazer, exceto ajudá-los.

De repente, como um clarão de luz, Milo compreendeu a missão de Aiolia, o que o prendia àquele subúrbio. Tal qual um desafio, ele precisava provar a si mesmo ser mais forte do que as tentações e os perigos.

Essa visão era fácil de se entender. Entretanto, Aiolia estava indo longe demais. Lidava com os atuais fatos da vida de acordo com o velho sofrimento que carregava no peito. Dessa maneira, não haveria como transformar a existência em algo mais prazeroso.

Aquela revelação perturbou Milo. O contraste entre a vida de Aiolia e a dele começava a se estreitar.

* * *

Com uma lata de refrigerante na mão, Aiolia jogou-se no velho sofá da casa de Shaka. Tomou um gole e resmungou. O que queria mesmo era uma garrafa de uísque, e sem gelo. Qualquer coisa que fizesse as imagens de Milo sumirem de sua mente, por definitivo.

Não conseguia se lembrar da ultima vez que desejou embebedar-se. Mas seria impossível, não na casa de Shaka. Bebidas alcoólicas ou outro tipo de droga tinham entrada proibida na residência do amigo.

Porém Aiolia não tinha a menor energia ou motivação para ir a algum bar e embebedar-se até cair.

Colocou a lata de refrigerante no chão. Não queria trabalhar. Tinha sérias dúvidas de poder desejar o que quer que fosse naquele instante. O desânimo o dominava. Mas, de certa maneira, tivera sucesso: Milo estava fora do caso e de sua vida.

Então, por que sentia-se tão deprimido?

Recostando a cabeça do sofá, fechou os olhos e esperou a imagem de Milo surgir. Na última vez em que o vira, ele estava tão sensual naquelas roupas elegantes... E tão intocável...

Naquele momento, seu maior desejo fora rasgar-lhe toda a roupa e possuí-lo ali mesmo, no chão da sala do departamento de polícia. Queria recuperar a intimidade, a aparência abandonada que ele adquirira quando fizeram amor. Reviver a expressão de deleite no rostomasculino ao vê-lo atingir o clímax da paixão. O leve e conhecido tremor percorreu-lhe o corpo.

Não! Tinha de pensar sobre sua complicada investigação.

Levantou-se e foi à mesa, onde deixara os relatórios da polícia. Obrigou-se a abri-los.

A gangue que vinha distribuindo uma quantidade considerável de drogas pela região recebia a mercadoria de fora. Aiolia passara a maior parte do ano planejando como capturar o esperto traficante. Agora, graças ao relatório detalhado de Milo, sabia como encontrar o perigoso suspeito: Carlo Cancerini.

Seria esse o seu objetivo primordial. Não iria mais se penitenciar pelo amor que sentia por Milo Scorpio.

Todavia, a sensação de gratificação e o sentido de viver, sempre presentes nos momentos em que se aproximava da captura de um criminoso, haviam desaparecido. Em vez da empolgação habitual, Aiolia se sentia apático.

A culpa o dilacerava. Empurrou os relatórios para o lado. Imaginava se, algum dia, conseguiria apagar da memória o modo como Milo o fitou, quando saíra pela porta daquela sala de reuniões do departamento de polícia, a expressão fria e defensiva marcando o belo rosto.

Sabia muito bem como deveria se sentir, se estivesse no lugar de Milo. Em momento algum Aiolia permitiria ser afastado de um caso. Mas Milo Scorpio era diferente, tentava se convencer.

Ele passara bem rápido pelos exames e treinamentos da polícia. Livrara-se da burocracia, usando as influências necessárias à sua disposição para conseguir o que queria.

Pelo que Aiolia pôde observar, Milo parecia ter prazer em correr riscos e ultrapassar limites. Não havia pago o preço do sangue, da dor e das lágrimas para atingir a posição em que se encontrava. Poderia ser Milo um profissional sério?

Nesse sentido, havia várias semelhanças entre Milo, e Saori. Como uma mulher da alta sociedade, Saori usara suas influências para obter o que desejava, manipulando e iludindo os outros. Ela interferiu na vida de Aiolos sem pensar nas conseqüências. Porém, quando se confrontou com um problema que a incomodava, desapareceu. Fora fatal. A atitude covarde da mulher destruiu a vida de Aiolos.

Pelo jeito, Milo quisera experimentar como vivia a facção marginalizada da sociedade. Ora, ele tivera seu divertimento. Agora era hora de escolher algo mais apropriado para um homem daquele nível social. No mínimo, devia estar exausto desse último joguinho de charadas e resolveu voltar ao mundo dos ricos. Obrigá-lo a se retirar do caso apenas acelerou o processo.

Por mais que tentasse se convencer do contrário, nas profundezas de sua alma, Aiolia sabia que o motivo real de tirá-lo do caso não tinha nada a ver com a seriedade profissional do detetive Scorpio. No fundo, queria evitar que ele se ferisse ou fosse morto no comprimento do dever.

Estava claro como água: Milo conseguira derrubar, de vez, as defesas de Aiolia Leon. Ele dependia da existência do loiro mais do que podia imaginar.

E aquela antiga dor no peito dizia-lhe que talvez não fosse capaz de protegê-lo também.

Precisava distrair-se. Como mágica, o som de passos impacientes vieram ao seu auxílio. A porta da frente se abriu e Seiya apareceu.

Quando avistou Aiolia, o garoto soltou um suspiro de alívio.

– Legal – disse ele. – Você está aqui.

– Parece que sim. – Aiolia conseguiu dar um breve sorriso.

Depois dos cumprimentos, Seiya colocou as mãos nos bolsos e voltou à maneira habitual. Começou a caminhar pela sala.

Aiolia esperou. Sabia que não seria nada inteligente apressar o garoto. Seiya falaria quando estivesse pronto.

Por fim, ele parou de andar.

- Teve notícias de Mac... Quero dizer, Milo?

A pergunta surpreendeu Aiolia. Adolescentes nunca prestavam muita atenção a adultos, e alguém que passou tão rápido na vida do garoto já deixara impressões marcantes. A quem Aiolia insistia em tentar enganar? O loiro com certeza deixara marcas profundas em Leon também.

- Por quê? – resmungou Aiolia. Seria melhor se Seiya não se apegasse tanto a Milo. Já bastava ele próprio estar caindo num poço sem fundo.

Por que aquele loiro se importava tanto com os problemas dos garotos do subúrbio? Não tinha nada em comum com eles, não poderia compreender esse mundo.

- Por nada. – Como era de se esperar num adolescente, agora que Seiya tinha a atenção de Aiolia, estava relutante em revelar o que o aborrecia. Tirou as mãos dos bolsos e resmungou: - Eu... Sinto a falta dele. Nós conversávamos bastante, você sabe.

- Já lhe disse para esquecê-lo. Milo não pertence ao nosso mundo. – Aiolia lutava para tentar convencer Seiya e a si mesmo.

- Você não vai procurá-lo, certo?

Sentindo a frustração do rapaz, Aiolia levantou-se e foi até o sofá.

- Não – informou o ruivo, arrependendo-se de ter sido tão rude. Mas sua consciência o obrigava a isso.

- Ah, Aiolia, que droga! Você sabe que não vale a pena agir assim – O tom de Seiya traduzia frustração, tristeza e algo mais. Precipitou-se até a porta e, em seguida, parou. – Sabe de uma coisa? Pensei que você fosse esperto – Virou as costas e saiu.

"Ótimo", pensou Aiolia, vendo a porta se fechar. "Do jeito que estou agindo, logo toda a cidade se recusará a falar comigo".

* * *

"Adultos!" Seiya meneava a cabeça enquanto descia a rua. "Eles sempre agem com estupidez". Esperava ser mais sensato quando atingisse a maturidade.

Não conseguia entender Aiolia; afinal, Milo era uma boa pessoa. E Seiya sabia que ele não o detestava como queria deixar transparecer. Então, por que insistia em pedir-lhe que o esquecesse?

Bem, Seiya ficara chocado ao tomar conhecimento da verdadeira identidade de Milo. Ora, os policiais eram gente boa. Afinal, Aiolia era uma espécie de policial também. Mas Seiya vira o suficiente na vida para saber em quem confiar. E podia confiar em Milo de olhos fechados.

Ambos conversaram muito sobre Shiryu, e foi de grande ajuda. Na verdade, ficou surpreso por ver como um homem podia ter a natureza tão compreensiva em determinados aspectos da vida. Milo mostrou-se aberto àquele tema. Agora, Seiya necessitava de outros conselhos.

Se Aiolia não queria ajudá-lo, encontraria alguém que o fizesse. Afinal, Seiya não vivera esses anos todos nas ruas para não saber como conseguir aquilo que desejava. Talvez Aldebaran pudesse ajudá-lo.

Não levou muito tempo para Seiya chegar à igreja. Encontrou Aldebaran no jardim, fazendo buracos na terra,

- Olá, Alde! Quais são as novas?

Limpando o suor da testa com o braço, o pastor ergueu a cabeça e sorriu.

- Não muitas até a primavera.

- Como?

Erguendo-se, Aldebaran apontou para os buracos.

- Estou plantando violetas coloridas. Elas só vão florescer na primavera.

Seiya não se impressionou. Tinha assuntos mais importantes a tratar.

- Que bom.

- O que posso fazer por você, Filho?

- Quero encontrar Milo.

Surpreso, Aldebaran fitou-o durante alguns segundos.

- Aiolia sabe que está aqui?

- Não sou criança. Não preciso de permissão para vir à igreja.

- Desculpe-me. – Aldebaran tentou sorrir – Você perguntou a Aiolia onde encontrá-lo?

- Ele não quer saber – O adolescente chutou uma pedra. – Aiolia tem estado muito estranho.

Aldebaran notou a apreensão do garoto.

- Por que precisa falar com Milo?

- Estou preocupado com Shiryu – revelou ao pastor. – E Milo entende isso. Pode me ajudar a encontrá-lo?

Soltando um suspiro de cansaço, Aldebaran lembrou-se do cartão que o loiro lhe dera.

- Talvez. – Pegando suas ferramentas, entrou no escritório. – Vá para casa. Quando souber de algo, entrarei em contato. Ok?

- Obrigado – disse Seiya, antes de sair da sala.

Tão logo fechou a porta, ele parou e esperou. Conseguiu ouvir o pastor falando ao telefone com alguém antes de sair do escritório.

Após ver Aldebaran se afastar, Seiya esgueirou-se pelo corredor e entrou na saleta. Estava certo que Aldebaran sabia onde encontrar Milo. Tudo o que o garoto precisava fazer era dar uma olhada na gaveta do reverendo.

* * *

Aquela parecia ser uma semana como as outras. Desinteressado, Milo olhava os vários relatórios espalhados sobre a escrivaninha de madeira. Levaria quase o dia todo para pôr em ordem a papelada, e sua capacidade de concentração deixava muito a desejar.

A batida na porta contribuiu para piorar o mau humor.

- Entre.

Pandora colocou a cabeça no vão da porta.

- Tem um jovem aqui fora dizendo que o conhece.

- Tudo bem. Mande-o entrar. – Milo esfregou os olhos cansados.

A porta se abriu, e Seiya deu um passo à frente. Parou e fechou a porta, temendo o tipo de recepção que poderia ter.

- Seiya! – A surpresa não seria suficiente para descrever a reação de Milo. – O que está fazendo aqui?

Dando de ombros, ele colocou as mãos nos bolsos da jaqueta.

- Acho que vim ver você.

- Então, entre. Seja bem-vindo. Aiolia sabe que está aqui?

- Por que todos me perguntam isso? – esbravejou. – Ele não é meu pai.

Através do olhar doce e amigável, Milo informou-o que ele mesmo contaria a Aiolia sobre a inesperada visita.

- Sim, ele sabe – confessou Seiya.

Havia algo naquele tom de voz que fez o loiro suspeitar da resposta, mas resolveu ignorar. Pelo pouco que conhecia de Seiya, tinha certeza de que ele não mentiria.

- Sente-se – ofereceu Milo, indicando a cadeira diante da mesa. – Como vai indo?

- Bem, eu acho – Seiya se jogou na cadeira.

- Como conseguiu chegar até aqui?

- Vim de metrô.

Assentindo, Milo teve a nítida sensação de que essa conversa não seria fácil. Tentou outra tática.

- E Shiryu? – perguntou, notando a expressão de alívio imediato no rosto do adolescente.

- Não vai nada bem. Não consigo fazê-lo me escutar.

Empurrando alguns papéis para o lado, Milo pousou as mãos sobre a mesa, pensando na melhor maneira de administrar a situação.

- O que está acontecendo?

- O de sempre. Se ele não tivesse esse problema, não sei se aquela gangue teria tanta importância. – Seiya ajeitou-se na cadeira, fixando os olhos em Milo para se fazer entender. – O modo como Shiryu anda... O deixa envergonhado. E os rapazes da gangue deram um jeito de mostrar que não se importar com esse defeito, que gostam dele como ele é. Mas é tudo fingimento, entende? Eles enganam as pessoas até conseguiram enredá-las. Depois é tarde demais.

Esse foi o discurso mais longo de Seiya desde que Milo o conhecera. Mas ele também percebera que, embora fosse de personalidade introvertida, o garoto se envolvia de forma apaixonada. Shiryu era um desses envolvimentos. E Aiolia também.

O excesso de maturidade de Seiya o preocupava. Ele possuía experiências de vida que alguns adultos nem sequer imaginaria existir.

- Shiryu já conversou com os pais sobre esse defeito?

Levantando-se, o garoto começou a caminhar pela sala. Absorto, Seiya passou os dedos nos livros da estante, viu os prêmios que Milo ganhara e fitou as fotos da família na parede.

- Eles não se importam – revelou o garoto. – Dizem que ele tem de aprender a conviver com isso.

Enfurecido, Milo meneou a cabeça. Por que alguns pais eram tão insensíveis com relação às necessidades dos filhos?

- O que Aiolia diz sobre esse assunto?

- Não posso conversar com ele. Aiolia está... Diferente. Acho que tem algum problema sério.

- Por que acha que ele tem algum problema? – indagou Milo, franzindo a testa.

- Tem trabalhado o tempo todo. Não come direito e não dorme. – Seiya passou os dedos entre os cabelos. – E anda fazendo coisas esquisitas.

O estômago de Milo se contraiu.

- Esquisitas?

De súbito, Seiya ficou agitado, como se tivesse falado demais.

- Estou preocupado, Milo. Aiolia é legal. Ele me respeita, sabe? Não quero que nada de mal lhe aconteça. – Respirou fundo, antes de prosseguir. – Por isso eu vim até aqui. Talvez você possa me dizer o que fazer.

Vindo de um adolescente, esse pedido significava um apelo. Ainda mais de alguém tão taciturno quando Seiya. Dois discursos em apenas dez minutos transmitiam o valioso afeto que ele sentia por Aiolia e Shiryu.

Um problema de cada vez, refletia Milo. Havia grandes possibilidades de resolver a questão de Shiryu. Aiolia era outro assunto, bem diferente.

- Aldebaran me disse que Shiryu precisa de uma operação. Seu eu puder conseguir essa cirurgia, de graça, você acha que os pais dele vão permitir?

Milo preferiu omitir o fato de que os pais do menino, segundo Aldebaran, eram contra qualquer ato de caridade. Mas sempre havia a esperança de eles mudarem de opinião.

O sorriso de Seiya foi luminoso.

- Acho que sim. Teremos de falar com eles.

- Certo. Vamos combinar o seguinte: vou ver o que posso arranjar, se você se comprometer a conversar com os pais de Shiryu. Feito?

- Feito. – aceitou o adolescente, de imediato.

- Agora me diga o que está acontecendo com Aiolia.

Voltando a sentar-se, Seiya colocou de lado todo o entusiasmo.

- Ele age como um desesperado. Acho que Aiolia sente saudade de você.

Continua...

Bem, minha intenção era fazer um capítulo de tranqüilidade e paz, mostrando como os dois estavam vivendo ou tentando viver sem o outro. Parece que não consegui atingir bem meu objetivo, mas tudo bem. Agradecimentos à: Graziele, Dea, Naya Yukida, Leo no Nina e Kyara Sallkys. Agradecimentos especiais à Akane M.A.S.T. pela betagem. Eu espero que estejam gostando do fic. Meus dedinhos tem estado muito felizes esses dias. Obrigada pelas reviews. Beijos da Muk-chan \o/