Como responder perguntas que não querem se fazer em palavras?

Ficaram se encarando por um bom tempo porque estavam adiando esse contato por um bom tempo. Sentiam mais do necessidade de mantê-lo, era praticamente irresistível. Contudo, não conseguiam desferir uma palavra nem um movimento.

Ranma já havia se aproximado dessa maneira de outras garotas antes, não em combate, mas quando desafiado a abraçar ou então a beijar alguém. Mas tinha qualquer coisa de diferente em estar perto de Akane. Porque ao se aproximar de outras pessoas, ele sentia um certo desconforto mas não lhe causava nada mais além disso, da falta de intimidade.

Mas o caso é que ele tinha uma intimidade com Akane que durava anos. Mal se lembrava da parte da vida em que não estivera perto dela. A abraçara em todos os treze aniversários dela e em seus próprios, assim como em todas as datas festivas. Eles já brincaram de twister, dividiram a mesma barraca e diversas vezes as lutas que tinham se prolongavam tanto que um caía de atravessado em cima do outro até alguém reclamar de dor. Não fosse aquela percepção renovada dos corpos, ele nunca sentiria desconforto em estar ali.

Agora, entretanto, a notara.

Ele conseguia sentir cada uma das respirações rápidas dela. Havia uma hipersensibilidade a cada toque e movimento, e sobre tudo, olhar para ela nessa situação, além de irresistível era terrível.

- Por que me derrubou? - perguntou Akane, depois de algum tempo.

- Por que estava tentando me acertar? - perguntou Ranma de volta.

- Eu não sei. - respondeu Akane automaticamente, com a voz falhada. E, aparentemente, Ranma não sabia retrucar essa resposta.

Depois de um tempo, porém, teve que perguntar:

- O que eu fiz para você? Parece que está brava comigo o tempo todo.

- Você nem tem ficado perto para que eu esteja brava com você.

- Você tem passado todo o tempo com Gosukungi. - replicou Ranma baixinho. Akane demorou a entender e encontrar sentido no que Ranma disse, quando entendeu juntou as sobrancelhas e tentou tirar Ranma de cima de si, em vão.

- Vocês estão... juntos? - Ranma ia perguntar "namorando" mas por algum motivo não gostava muito da palavra. Akane continuava se contorcendo e tentando se livrar dele.

- Isso te interessa? - respondeu desafiadora. Talvez tivesse sido mais simples responder o mesmo que respondia a suas amigas, mas ele também não lhe contava mais nada sobre sua vida, então se sentia no direito de deixá-lo na dúvida.

- Só curiosidade.

- Me deixe sair.

- Me responda!

- Olha, quem tem agido como um idiota é você, jogando aquele jogo besta e achando o máximo a Shampoo ficar em cima de você o tempo todo. Então não venha me perguntar da minha vida porque você não tem nada a ver com o que eu faço. - ela disse em um fôlego só. As vezes ela o assustava quando falava tão séria, e de repente ela parecendo tão adulta, fazendo com que ele se sentisse muito infantil e tolo.

- Eu…

- Akane, Ranma! Kasumi pediu para avisar que a janta está pronta! - ouviram a voz de Nabiki gritando lá da casa. Com o susto os dois se levantaram rapidamente e desajeitados. Na verdade, um bom tanto tímidos também. E se alguém tivesse indo até lá chamá-los?

Apesar do clima estranho entre os dois, o jantar foi divertido. Fazia alguns dias que Genma não ia até a casa dos Tendo, mas sua presença era sempre agradável. Ouviam histórias engraçadas sobre a juventude de Soun e Genma, e o tio Saotome sempre tentava roubar comida do prato do seu amigo ou então até do seu próprio filho. E as brigas eram sempre engraçadas - embora as vezes sobrasse bagunça para alguém limpar depois.

Ficaram na mesa por bastante tempo e, depois de arrumar todas as coisas do jantar, Soun e Genma decidiram jogar xadrez. Quando os dois resolviam jogar era sabido que levaria muito tempo até que as partidas, revanches e vinganças tivessem um fim. Nabiki e Kasumi sentaram-se em frente da tv para ver um seriado do qual elas gostavam muito, e depois que Akane já havia tomado banho, Ranma a seguiu até seu quarto (porque era particularmente irritante ver os comentários de Nabiki sobre todas as cenas). No geral, em situações como essas eles também procuravam algum jogo, de cartas ou tabuleiro, para passarem o tempo. Mas parecia que não seria tão simples dessa vez.

Ranma entrou no quarto e fechou a porta. Sentou-se na cadeira da escrivaninha e ficou observando Akane se mover pelo quarto, como se esperasse alguma coisa. Pretendia continuar aquela conversa, por mais constrangedora que ela fosse. Teve coragem de perguntar uma vez, por que não tentar uma segunda?

- Eu não quero falar sobre a escola. - disse Akane, assim que se sentou na sua cama e viu que Ranma estava para retomar o assunto anterior.

- Se você não quer dizer que não, então é verdade!

- Eu não estou namorando com ninguém. O que eu não consigo entender é porque você quer tanto saber disso!

Ranma respirou fundo e reencostou na cadeira. Pelo menos ela havia dito que não, e ela não era de mentir. Por que se sentia aliviado? Precisava bolar uma resposta para Akane. Por que estava tão interessado nisso? Será que ela entenderia se ele simplesmente dissesse que não sabia?

- É que você é tão esquisita que eu achei estranho que você estivesse gostando de alguém. - um livro voou em direção à cara de Ranma, mas ele desviou.

- Prefiro ser esquisita do que assanhada como você!

- Ei! Eu não sou assanhado!

- Você já beijou todas as meninas da sala!

- Isso é mentira! - retrucou Ranma - Eu ainda não beijei você.

Ranma precisou passar no consultório do dr. Tofu depois de sair da casa de Akane. Ele saiu de lá com vários cortes e pedaços de vidro que Kasumi não conseguira tirar da sua pele. Akane atirara um copo nele, mas mesmo assim ele não estava bravo com ela. No fundo sabia que havia passado dos limites, e ela mesma ficou um pouco preocupada por não ter percebido o que lançara (mas não estava muito arrependida).

Haviam algumas coisas que foram essenciais para que ele não saísse xingando ela por ter lhe jogado um copo na cara. A primeira era ele realmente ter passado desses limites. A segunda era que ele estava realmente aliviado por notar que Akane não gostava de Gosukungi e provavelmente passava tanto tempo com ele pois o próprio Ranma andara participando de coisas das quais ela não gostava.

A terceira e não menos importante era: ele realmente ficara pensando em beijar ela.