Capítulo XII

Capítulo XII

Faltava apenas uma semana para a competição.

Vendo o cansaço das meninas, Schimdt achou por bem dar um dia de folga a elas.

-Um dia? Um dia inteiro?

-É.

-Inteirinho?

-Inteirinho!!

Comemoração geral no ginásio. Todas as meninas começaram a fazer milhares de planos. Afinal: quando elas teriam outra oportunidade como aquela?

A reposta era nunca.

Sendo assim o burburinho foi geral. A animação era contagiante. O único que parecia imune a isso era Schimdt com sua costumeira fleuma britânica e frieza alemã. As vezes deixava escapar um sorriso de satisfação, mas a apreensão pela grande ocasião era muito maior.

-E aí, Adelle? Quais são os seus planos? -perguntou Kimberly.

-Ahnn... não tenho idéia. Vou aproveitar pra fazer minha reposição do estoque de doces pessoalmente. Depois não tenho idéia do que vou fazer. E você?

-Sinto tanta falta de ir ao shopping, ao cinema... de um monte de coisas.

-De comer bobagens é uma delas, estou certa?

-Como você adivinhou?

-Desejo secreto de toda ginasta em dia de folga. Podemos fazer isso hoje.

-Mas... se comermos bobagens teremos que...

-E qual o problema nisso? Nós fazemos, já estamos acostumadas.

-Eu não gosto da idéia... odeio fazer isso.

-Ainda acha nojento? Não tiro a sua razão... mas nem tudo tem vantagens. -fez uma pausa -É como ir a praia, mas antes ter que enfrentar engarrafamento... será que você me entende?

-Entendo.

-Pensa bem: quando teremos outra chance dessas?

Kimberly fez um ar pensativo.

"Ela tem razão... quando teremos outra chance dessas?"

Esse era o grande questionamento. Na verdade sabia a resposta. A provabilidade era de uma em um milhão, ou bilhão se quisesse ser mais exata. Só poderiam sair dali em datas especiais como natal, e outras tão importantes quanto.

Pensando no assunto, o diabinho e o anjinho de sua consciência começaram a brigar novamente.

"Isso é arriscado demais. Não pode fazer isso"

"Pensa no quanto seu dia vai ser divertido... não quer se divertir?"

"Não há nada de errado em se divertir. O problema é fazer o que está planejando."

"Você merece um dia fazendo tudo do qual esteve privada durante o período de treinos!"

"Mas o período de treinamento ainda não terminou. Ainda não vai ter folga com o peso."

"Que importa o seu peso? Há meios de mantê-lo."

"Não pode fazer isso. Não quer pôr sua saúde em jogo."

"Ahnn, qual é? Deixe se ser medrosa... é só uma pizza..."

"Não fale..."

"... tamanho família de catupiry... com a massa bem engordurada..."

"Não fale..."

"...mas se preferir pode ser um hambúrguer sem alface e tomate dentro... com aquele molho especial...

"Não fale..."

"... acompanhado por batatas fritas bem crocantes, uma coca-cola gelada, depois um sorvete, ou um milk shake duplo, tanto faz..."

"Pare com isso..."

"... de chocolate ou de morango... pensando bem é melhor que seja de morango porque pode ser que tenha uma torta, ou um bolo de chocolate nos esperando...

"Chega..."

"... ou então uma barra de chocolate enorme e apetitosa! Uau! Estou com água na boca só de pensar nisso!"

"CHEGA!! EU DESISTO!!"

-Kimberly? -cantou o nome de sua "amiga" -Não vai responder não?

-Ai, essa é uma proposta realmente tentadora...! Eu aceito!!

-Ah, que bom... eu não tava a fim de encarar o cinema sozinha. Sabe como é... preciso ter alguém pra me tirar de dentro da sala depois de assistir o Brad Pitt...

-Brad Pitt? Tá falando sério? Tem algum filme dele em cartaz?

Kimberly era uma fã inveterada de Brad Pitt, assim como praticamente cerca de 99,9 de todas as garotas do mundo ( pelo menos as que conhecia ) pareciam ser.

Nisso Adelle não era uma exceção.

-Bom, se não tiver nenhum novo, podemos assistir uma reprise de outro dele qualquer pela milésima vez. -fez uma pausa, falava como se quisesse deliciar Kimberly com a descrição. -Talvez fazer algumas compras, por que não?

Compras: outra coisa da qual Kimberly e 99,9 das garotas também adoravam.

-Mas uma coisa confirmada é que certamente vamos fazer um verdadeiro banquete!

Comida! Comida de verdade! Também estava sonhando com isso.

-E ainda seria melhor se os garotos olhassem pra gente!

Esse era o único assunto no qual não estava verdadeiramente interessada.

-E quando vamos poder realizar esse sonho?

-A folga vai ser amanhã. Podemos sair logo de manhã, afinal, em acordar cedo temos grande experiência.

-Beleza!

Naquela noite todas foram dormir cedo ( fenômeno raríssimo observado apenas em véspera de dias de folga ou de competições ) sonhando com aquele dia de folga que prometia ser maravilhoso e promissor. Dia de rainha para elas, que nessas ocasiões, depois de viverem numa rotina tão dura, fazia com que se sentissem garotas normais, que saiam, se divertiam, faziam compras... ou seja: como as adolescentes que eram.

"Que a noite passe rápido!

Amanheceu.

Todas as garotas já estavam prontas para sair.

Nunca naquele ginásio houve tanto rebuliço por um dia de folga. Talvez fosse resultado da pressão por causa dos torneios. O fato é que isso não passara despercebido aos olhares de Gunthar Schimdt.

"Acho que tenho que fazer isso mais vezes" pensou ele, vendo a ansiedade de suas pupilas. Todas saltitantes por causa disso.

Baby estava ao lado, e esquecendo o seu mau humor costumeiro, fez um comentário respondendo a uma pergunta.

-Não achei que um dia de folga fosse deixá-las tão animadas.

-Elas precisam de um momento para sentirem que são normais.

-O que é isso? Mas é claro que elas são normais.

-Eu não diria isso, senhor.

-Por que não?

Baby ficou quieta. Não sabia se deveria responder a sua pergunta. Não havia forma de não deixá-lo nervoso, e nem via jeito de ser diplomática.

-Baby... o gato comeu sua língua?

-Não senhor...

-Então por que não me responde? Eu realmente gostaria de ouvir o que tem pra me dizer.

-Bom... elas moram longe da família, em regime de concentração numa idade muito complicada... e treinam praticamente o tempo todo. Essa não é a vida de uma adolescente normal.

-Tenho que admitir que realmente não é. Mas essa foi a vida que elas escolheram. -respondeu Schimdt, sério mas sereno. -Esse é um esporte duro, e o sonho delas exige dedicação integral. Elas aceitaram esse preço.

E Baby nem podia argumentar: era a vida que elas escolheram.

No quarto:

-Ai, ai... nem acredito que vamos ter o dia de folga!! O dia inteirinho!!

-Calma, Kim. Daqui há pouco nós vamos sair daqui e colocaremos todos os nossos planos em prática.

-Mal posso esperar!

-Então, vamos repassar o nosso roteiro: compras, cinema...

-Não dá pra ser primeiro o cinema e depois as compras?

-Sei lá! A ordem dos fatores não altera o produto... pelo menos não nesse caso... depois a praça de alimentação!

-Puxa... acho que só vou acreditar nisso quando chegarmos no shopping.

-Então vamos acabar de nos arrumar logo que o dia é uma criança!

Em outro quarto, o clima era o oposto:

-Leslie... levanta daí. Não acredito que vai ficar na cama quando temos um dia de folga pela frente!

-Não tenho vontade de sair.

-Você anda muito nervosa... sair um pouco desse ginásio vai te fazer bem.

-Estou cansada... -disse Leslie, tapando a cabeça com seu travesseiro.

-Está desanimada. Precisa sair desse marasmo.

-Eu sei, mas...

-Vai desperdiçar um dia inteiro de folga?? Leslie, será que estou te ouvindo direito? -fez graça -Pensa bem: não quer se sentir uma garota normal? Como qualquer uma da nossa idade?

-Tem tanto tempo que não sei o que é isso...

-Então! Vamos sair, ir ao cinema e ver um filme com algum gato do momento, comprar "coisinhas" que certamente estamos precisando... aqueles supérfluos básicos...

Kate queria dizer: maquiagem, cds, dvds e quem sabe roupas?

-... jogar conversa fora... olhar para os gatinhos que certamente encontraremos por lá...

A segunda alternativa não interessou muito a Leslie. Rick ainda estava na sua cabeça. Não se sentia capaz de pensar em outros rapazes...

Mas olhar não custava nada...

-É... acho que pode ser uma boa idéia...

-Então sai daí, ou vou acabar jogando um copo d'água gelada na sua cara!

Leslie levantou num pulo. Se arrumou tão rápido que causaria estranheza em qualquer um.

Se arrumar para ela não era algo tão difícil. Simplesmente não tinha mais vaidade. Não perdia tempo combinando roupas com acessórios. O que tinha era o básico e o clássico, para Leslie mais que o suficiente para uma vida social como a sua: extremamente restrita.

-Mas ainda temos que esperar.

-Esperar pelo que? Não está pronta?

-Estou... mas e o café?

-Café? Que café? -pausa -Por acaso acha que alguém vai tomar café aqui?

Kate percebeu a expressão de Leslie, consternada. Estava ansiosa com a perspectiva de comer fora.

-Não esquenta a cabeça com isso. Vamos!

Pegou a amiga pela mão e praticamente a arrastou para fora do quarto.

-Espera aí! A minha bolsa!

Saíram.