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Pelos dias que se seguiram, a monotonia foi predominante. Não houve imprevistos, surpresas, tampouco ação. Durante as últimas semanas, os jovens do Instituto Xavier puderam se dedicar aos estudos e a ser apenas adolescentes, com treinamentos tomando o mesmo tempo de qualquer outra atividade física.

Neste ínterim, Vampira juntava coragem para finalmente voltar a participar dos treinamentos na Sala de Perigo com os demais jovens. Ela tivera apenas três sessões individuais com Wolverine. Após seus encontros com o Professor Xavier terem se tornado diários, Vampira não conseguira dar continuidade ao treinamento.

Esses encontros, entretanto, mantiveram-se diários por poucas semanas, pois estavam evidentemente exaurindo a garota ao ponto de prejudicar sua saúde. Vampira, que já estava abaixo do peso e fora de forma meses antes, parecia estar sempre exausta, tanto mental quanto fisicamente; assim, Xavier decidiu que seria melhor diminuir o ritmo e voltar a ter apenas dois encontros por semana. Duas semanas mais tarde e já era possível notar que Vampira estava melhor, mais disposta e saudável.

Dadas as novas circunstâncias, ela tomou a decisão de voltar a treinar em equipe. Parara de resistir em aceitar apoio dos colegas e, principalmente, de Gambit. Não que seu relacionamento houvesse voltado ao ponto anterior; eles sentiam ter dado um passo à frente.

Em relação aos treinamentos, Gambit, contraditoriamente, sempre encontrava um jeito de fugir da maior parte deles, pois estavam a baixo de suas habilidades. Ele se prontificou a treinar com a equipe em mais de uma ocasião e voltou atrás em todas elas. O mais curioso era que todos pareciam engolir suas desculpas esfarrapadas. Eram todos muito crédulos e ingênuos ou Gambit era ainda mais persuasivo do que se imaginava.

Por outro lado, não era uma tarefa tão difícil assim, já que ninguém além de Hank McCoy parecia perceber sua ausência. Wolverine o acusara de trapacear na primeira e única vez em que Gambit participou do treinamento em grupo e,obviamente, fazia questão de não tê-lo junto de seus pupilos. Se a vontade do canadense fosse feita, Gambit não chegaria nem perto de Vampira, sua favorita e protegida. Claramente, Wolverine nem suspeitava do que se sucedera na primeira noite do cajun no Instituto.

Esses fatos contribuíram para aumentar ainda mais a surpresa de Gambit ao ser intimado pelo carcaju a participar dos treinamentos. Que a verdade fosse dita, Gambit foi praticamente prensado contra a parede. Sabia, é claro, que foi o deboche em seu rosto e a atitude de indiferença que enervaram o canadense. Sabia também ser apenas pose do nanico. Alguém – Xavier, Ororo ou Hank – decerto pedira a Logan que lhe fizesse o convite à sua vontade e maneira.

Hank, ao contrário de Logan, era tão gente boa que Remy estava quase começando a ficar sem jeito de dar tantas desculpas descabidas. O doutor se mostrava sempre tão disposto a acreditar nas pessoas e lhes dar segundas chances, e Gambit o vinha enrolando desde que chegara à mansão, há mais de três meses.

Assim, dois dias antes, em um momento de honestidade, Gambit prometeu a Hank que começaria a participar das simulações na Sala de Perigo. Sua única condição – mesmo não estando em posição de fazê-la – seria, em um primeiro momento, treinar sozinho até se sentir confortável para se juntar aos demais.

Contudo, o que realmente importava então era que Vampira finalmente voltaria aos treinamentos em grupo.

Ela chegou para o primeiro dia de treinamento, fingindo não notar os olhares de espanto dos quais era alvo. Tentava camuflar o fato de estar fora de forma, mas sabia que suas roupas, largas demais para o seu corpo delgado, evidenciavam ainda mais sua magreza indevida.

Há pouco mais de uma semana, Vampira vinha se exercitando na academia do Instituto e fazendo uma hora de corrida todos os dias, na companhia de Remy. Entretanto, era ainda muito cedo para que Vampira estivesse de volta à boa forma física de antes. Seu progresso era evidente, mas ainda se cansava com certa facilidade e recuperara apenas dois dos cinco quilos que perdera indevidamente.

À medida que adentrava a Sala de Perigo, Vampira se sentia estranhamente nervosa. Não pela falta de preparação física, mas porque temia desapontar Logan. A garota que costumava chegar sempre atrasada, desta vez estava vestida e aquecida quase meia hora antes do início do treinamento.

Não querendo chegar adiantada, esperou até o último minuto para deixar o seu quarto. Quando chegou à Sala de Perigo, para a sua surpresa e decepção, viu que já estavam todos lá, posicionados em fila. Deduziu que, por um golpe do azar, seu relógio sobre o criado-mudo devia ter parado. Mais tarde constataria que estava certa. Qualquer tipo de atraso era intolerável para Wolverine e Vampira sabia que os seus cinco minutos de ausência teriam algum tipo de penalidade.

"Ótimo início, idiota!" pensou consigo mesma.

O pior, entretanto, ainda estava por vir. O treinamento do dia consistiria apenas em exercícios de ataque, que eram o ponto fraco de Vampira. Ela não poderia sair deliberadamente roubando poderes. Ninguém estaria disposto a emprestar e muito menos estaria ela em pegar emprestado.

Com poderes como o seu e no estágio no qual se encontravam, Vampira podia contar apenas com a defesa ou ataques corpo a corpo. Nas circunstâncias da simulação em questão, estes não seriam viáveis.

Vampira seria nocauteada e estaria fora dentro dos próximos dez minutos. Contudo, no fim, valeria a pena. Após todos se retirarem, exceto Vampira, que ficara para trás se lamentando pela derrotada, Logan se aproximou e disse: "Bom trabalho, guria" em uma voz hesitante, porém sincera.

O nó que se formou na garganta da garota foi quase impossível de ser desfeito. Achou que fosse começar a chorar, mas conseguiu responder com um "obrigada" com a cabeça baixa e apenas um olhar rápido na direção do outro mutante.

Essa breve conversa mexeria tanto com Vampira, que ela não conseguiria conversar sobre o ocorrido com ninguém. Para quem perguntava como fora o treinamento, ela respondia com um simples "bom". Remy foi o único que pareceu perceber – e insistir – que havia algo diferente. Vampira, entretanto, teimou na mesma resposta e Gambit preferiu deixar de lado. Isso ocorrera no meio da tarde; eles só voltariam a se encontrar novamente à noite, após o jantar. Gambit se ausentara, pois fora convocado por Ciclope a ir a um reconhecimento de campo que tinha tudo para ser chatíssimo.

No fim, acabou por ser mais proveitoso do que Gambit antecipara, pois sentiu que o grupo começava finalmente a aceitá-lo como um deles. Durantes as próximas semanas, Gambit iria ainda a várias outras missões do gênero, com equipes pequenas constituídas sempre dos estudantes mais experientes.

Suas habilidades extraordinárias – que não incluíam apenas as de caráter mutante – se mostravam bastante úteis e versáteis. A preparação de suas habilidades mutantes, assim como as físicas, de concentração e resistência, estavam acima dos demais. Talvez por este motivo fora tão bem-sucedido em se esquivar dos treinamentos até então.

"O ponto alto do meu dia" contava ele enquanto caminhava com Vampira pelo jardim após o jantar "foi quando eu fiz o quatro-olhos passar vergonha na frente da ruivinha" surgiu no seu rosto um sorriso que beirava o cruel.

Vampira gargalhou. "Que maldade!" ela falou só por falar, já que ficou imaginando a cara de vergonha de Scott ao ser humilhado pelo cajun.

"Eu juro que a ruiva se segurou para não rir também."

"E você deixou ele seguir o rastro errado por quanto tempo?"

"Até pouco antes de ele descobrir que estava errado."

Vampira gargalhou mais uma vez. "Mas de quem vocês estavam atrás, afinal?"

"De um suposto grupo antimutante."

"Vocês os encontraram?" ela perguntou, agora com mais seriedade na voz.

"Oui. Chegamos até o esconderijo deles, que ficava no sótão na casa da mãe de um deles" ele riu de leve. "Não passam de um bando de arruaceiros. Nós demos um susto neles, então acho que não vão incomodar por um bom tempo. São desorganizados demais, o líder é um otário" ele então parou de falar; estudou-a por alguns instantes. "Dá para notar que o treinamento te fez muito bem, Vampira."

Ela meneou a cabeça afirmativamente. "Eu sei. Também acho."

Remy chegou mais perto e segurou a mão dela, entrelaçando os dedos nos dela. "Como foi com o Logan?"

"Tudo bem" ela respondeu após disfarçadamente olhar para a mão dele segurando a sua. Queria saber como seria sentir a pele dele na sua e não apenas por cima de luvas.

Assim que se aproximaram do chafariz, Vampira soltou a mão dele e se sentou.

"Ele não ficou pegando no seu pé?" Gambit perguntou após se sentar ao lado dela.

Ela encolheu os ombros. "Não mais que o normal... e com motivo. Ainda não estou na forma física que deveria."

Gambit se segurou para não discordar em voz alta ao quase deixar seus pensamentos falarem. Ela ainda precisava melhorar muito seu condicionamento físico, isso era fato. Seu corpo, em contrapartida, já mudara o suficiente para ser notado.

Vampira usava uma regata justa debaixo de uma blusa verde transparente, calça jeans skinny e tênis. Tinha os cabelos presos para esconder sua verdadeira forma ondeada e a maquiagem que vinha gradualmente ficando mais sutil estava pesada, provavelmente para compensar seu rosto mais exposto e rosado. O batom passara de um azul-arroxeado para bordô. Se ela visava esconder os lábios, conseguiu o efeito oposto.

Gambit notou como as pernas dela agora preenchiam o jeans com perfeição. Observou as curvas que seus seios claramente mais cheios faziam e se segurou para não fazer um comentário inconveniente. "A gente continua praticando até você ficar em forma."

"E quando você vai começar a treinar realmente?" ela perguntou após um breve instante de desconforto; deve ter notado os olhares dele, pois cruzou os braços sobre o peito.

Ele fez uma careta, enrugando o nariz. "Em breve" respondeu, vagamente.


Vampira tinha ainda mais um grande obstáculo para enfrentar. Como faltara demais às aulas no colégio durante os últimos meses, estava próxima da reprovação.

Na verdade, já estaria reprovada se Xavier não tivesse mexido os pauzinhos para que ela tivesse mais uma chance. A ajuda, é claro, viera com uma condição, que seria estudar sem parar pelos próximos meses para recuperar o tempo perdido.

No fim, se passasse em um provão, poderia ir para o último ano do high school sem complicações. Scott e Jean se formariam naquele mesmo ano, mas Vampira ainda teria a companhia de Kurt e Kitty.

Além de Gambit ter se tornado seu parceiro de academia, ele também se oferecera para ajudá-la nos estudos. Isso se ele não fosse, em suas próprias palavras, "tentação grande demais para se manter a concentração."

Tentação ou não, eles já estavam no quarto dia de estudos, e Vampira já estava descontente.

"Não vou conseguir estudar tudo isso em tão pouco tempo" ela disse, desanimada, deitando o rosto nos braços cruzados sobre os livros.

"Vai, sim" ele afirmou, com convicção, puxando os livros sobre os quais ela deitara para forçá-la a levantar a cabeça.

Era fim de tarde e a biblioteca do Instituto estava vazia. Vampira olhou pela janela o dia chegando ao fim. Das árvores lá fora, seu rosto se voltou para Remy. Ela observou o rosto dele atentamente, assim como sua fisionomia de concentração. Nunca iria confessar, mas Remy a distraiu sem nem mesmo ter tentado, apenas com o som de sua voz – tão familiar que ela poderia voltar à infância se apenas fechasse os olhos.

"Você manda muito bem em história, Remy" ela disse, após sair da distração.

Ele colocou o livro que lia de lado. "O foco dos meus estudos sempre foi em geografia e história, principalmente história da arte e antiga."

Ela franziu o cenho de leve. "Você não ia à escola?"

Ele fez que não. Aprendera a ler por mérito próprio quando ainda tinha apenas sete anos, antes de ser retirado das ruas. Quando Jean-Luc o adotara, Remy já estava estudando informalmente há pelo menos três anos com outros garotos, que, também órfãos, viviam sob os cuidados de Fagan. Este, filho deslocado e excomungado de um membro do Clã dos Ladrões e outro dos Assassinos, colocava crianças abandonadas sob sua supervisão. Mantendo laços informais com o Clã dos Ladrões, Fagan ensinava essas crianças a sobreviver, a se esconder e a roubar.

Com o tempo, Gambit passaria a desconfiar de que os anos que passara como parte do Fagan's Mob não foram mera coincidência, tampouco o fora sua tentativa frustrada de roubar a carteira do líder do Clã dos Ladrões de Nova Orleans, para logo após ser adotado por ele.

Assim que se tornou um LeBeau, o garoto passou a ter aulas com diversos membros do Clã – o que incluía seu pai – cada qual especializado em uma área distinta. Apenas em matérias formais como inglês e matemática, Remy teve professores de fora. Sendo a professora de matemática sua primeira paixonite de infância.

"Eu tinha aulas em casa" ele se resumiu a dizer.

Vampira pareceu não perceber que ele ficara perdido em pensamentos, pois assobiou admirada e falou com afetação: "Te poupou muito sofrimento, acredite."

"Vamos voltar aos livros, chérie" ele disse, tentando soar jocosamente sério.


Vampira quase caiu ao tentar desajeitadamente se equilibrar sobre um banquinho na cozinha. Gambit se aproveitou da chance para agarrá-la pela cintura com o pretexto de ter achado que ela fosse mesmo cair. Vampira não se importou.

"Tem certeza de que está aí em cima?" ele perguntou, tentando inutilmente enxergar o fundo do armário.

"Tenho" ela respondeu, convicta. "É que o Wolverine guarda a bebida dele muito bem."

"Eu duvido que ele alcançaria aí em cima."

Ela riu e então gritou exultante: "Achei!" se jogando nos braços dele. Ele a pôs de pé no chão.

Gambit fez uma careta debochada. "Mon Dieu, cheira como o Wolverine, com certeza" disse ao abrir a garrafa de uísque, assim que eles chegaram ao jardim e se sentaram debaixo de uma árvore, sob a qual estariam bem escondidos, ainda que fossem duas da manhã.

"Como você sabia onde estava a bebida?" ele indagou.

"Eu tenho meus segredos" ela respondeu misteriosamente até que na última sílaba percebeu que haviam se esquecido de levar taças. Os dois caíram na gargalhada.

Gambit resolveu o problema tomando pelo gargalo. "Wolvie até que tem bom gosto."

Meia garrafa mais tarde e as gargalhadas deram lugar ao silêncio.

Vampira começou a se sentir sonolenta, não tanto pela bebida, mais pela fadiga de um dia inteiro de estudos. Essa travessura – que fora ideia sua – era sua recompensa do dia.

Gambit apoiou as costas contra a árvore e aos poucos foi atraindo Vampira para mais perto, sem que ela se desse conta disso. Após quase dez minutos de muita paciência, ela por fim deitou a cabeça no ombro dele e Remy envolveu o braço ao redor dela.

A respiração da garota foi ficando lenta até que ela pareceu cair no sono. Remy observou o rosto dela e mais uma vez se viu sorrindo pela ausência de maquiagem. Aproximou os dedos do rosto dela, mas os desviou antes de lhe tocar a pele; eles ficaram parados no ar por um tempo até encontrarem os cabelos dela. Ele deslizou os dedos por macios fios castanhos e brancos.

A garota se moveu e balbuciou palavras desconexas até despertar, instantes mais tarde. Teve um leve sobressalto ao se dar conta de estar nos braços dele, porém não resistiu ao notar que não havia perigo de contato pele a pele.

"É engraçado como as pessoas reclamam da rotina... elas não sabem o que realmente têm" ela deixou escapar; era algo que esteve preso na sua cabeça o dia todo e a leve embriaguez fê-la comentar. Achou que não havia realmente dito aquelas palavras em voz alta; só percebeu quando Remy respondeu com um som rouco vindo da garganta.

Como Vampira passava muito tempo sozinha, acabou se tornando uma boa observadora. Normalmente, em lugares públicos, conseguia se focar no livro que lia ou no notebook que gostava de usar ao ar livre. Mas quando não conseguia se focar, passava o tempo observando as pessoas passarem, imaginando que tipo de vida elas levavam. Sombriamente, de vez em quando, passava pela sua cabeça que apenas um toque bastaria não apenas para saber, mas para tomar uma parte da vida delas.

Por algum motivo, lembrou-se de um casal que vira certa vez no restaurante que costumava ir às quintas-feiras. Era lamentável como eles pareciam entediados com a presença um do outro. Passaram quase meia hora almoçando sem trocar uma palavra. Quando terminaram, levantaram-se e seguiram sem dar as mãos ou esboçar qualquer gesto de afeto. Eram jovens, porém pareciam desencorajados. Vampira só notou que eles eram de fato um casal pelo motivo único de estarem ostentado grossas e idênticas alianças de ouro. Não demonstravam estarem casados de nenhuma outra maneira.

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz rouca de Gambit.

"Talvez você só esteja desejando o que não pode ter. Acredite em mim, Vampira, você não vai querer ter uma vidinha comum" ele disse, sem medir as palavras, sem se dar conta do peso que elas traziam.

Vampira achou que fora a bebida falando por ele, até se dar conta de que Gambit não estava afetado. Falou por indiferença e nada mais.

Ela sentiu a garganta apertar e os olhos arderem. Afastou-se dele bruscamente e se pôs de pé o mais rápido que seu corpo relaxado conseguiu. "Ou talvez seja você que se recusa a acreditar que é isso que quer" ela disse; não com raiva, mas com tristeza e sinceridade "Eu daria tudo por uma vidinha comum."

Gambit a fitou, imóvel. Orgulhava-se de raramente ser pego de surpresa tampouco costumava se envergonhar do que dizia. Desta vez, entretanto, desejou não ter dito.

O pior de tudo era que Vampira estava coberta de razão. Gambit só dissera aquelas palavras para se convencer de que não era verdade, porque se sentia envergonhado de já ter desejado uma vida comum ao lado de Bella Donna. Até se dar conta de que seria impossível.

Ele também se pôs de pé, pois detestou olhá-la de baixo. Curvando o corpo sobre ela, tinha mais uma vez a vantagem da altura. "Pessoas como nós nunca têm uma vida comum, Vampira" ele disse com um tom de voz brando e sincero, tocando o braço dela de leve.

"Mas eu vi—" ela falou de um ímpeto, mas parou a tempo.

Remy franziu fundo as sobrancelhas. "Como assim?" e involuntariamente apertou a mão no braço dela.

Vampira se afastou dando um passo para trás e assim saindo do alcance dos braços dele. "Não é nada. Não quis dizer nada" ela respirou fundo e tentou sorrir. Fingir que estava tudo bem era um hábito. "Estou com sono. Vou entrar" disse com frieza, dando-lhe as costas e fugindo dele com passos tão largos que quase corria.

Gambit a deixou ir; permaneceu no mesmo lugar por alguns minutos, sem reagir. Entornou mais alguns goles da bebida e pensou onde esconder a prova do crime. Mais tarde, perambulou pelo jardim, ao relento, tentando compreender como se sentia após o breve desentendimento com Vampira.

Já passavam das três da madrugada quando ele finalmente voltou para o seu quarto. Entrou pela janela e foi jogando as roupas pelo caminho até o banheiro. Ligou o chuveiro e absorveu o choque térmico da água quente caindo sobre sua pele gelada.

Ao deixar o banheiro, Gambit se jogou na cama vestindo apenas a toalha de banho envolta na cintura. Seu cabelo pingava e sua pele ainda estava úmida. Ele sentiu arrepios frios se espalharem pelo corpo e se lembrou de ter deixado a janela aberta. Os dias iam ficando mais frios à medida que Gambit tentava se lembrar de como se sentia em dias mais quentes e felizes.

Não se deu conta no momento, mas as primeiras imagens que lhe vieram à mente não pertenciam a Bella Donna e à versão mais jovem de si.

Lembrava-se primeiramente de Vampira.


Gambit sentiu Vampira o encarando com o canto dos olhos, mas não teve forças para se voltar para ela.

Depois de alguns instantes, a garota desistiu. Olhou para baixo, para a xícara em suas mãos, para a fumaça que subia e se dissipava. Suas mãos enluvadas seguravam a xícara com força. Estava frio, o vento parecia querer cortar a pele mesmo por sobre seu moletom e o cobertor fino que pendia dos seus ombros.

Vampira sentia que o clima se tornara esquisito depois da noite anterior no jardim. Entretanto, não puderam conversar antes, pois haviam sido novamente separados durante o dia. À noite, Gambit a convidou para ir ao telhado, mas uma vez lá, ele se mantinha tão silencioso que era enervante.

Ela olhou de relance para o rosto dele pela última vez e não encontrou reação. Permaneceu então quieta e imóvel enquanto seu chocolate quente esfriava.

Pela primeira vez desde que chegara ao Instituto, Gambit começava a se sentir um bicho enjaulado. Ou pelo menos era isso que ele achava ser o motivo para sua inquietação. Na verdade, era a maneira que tinha encontrado de lidar com a conversa que tiverem no chafariz na noite anterior. Recusava-se a confessar que mais uma vez ansiava por uma vida normal e tranquila. E como se não bastasse, Gambit recebeu uma ligação de seu pai naquela manhã, que se tornou o estopim para uma explosão de sentimentos que ele vinha tentando evitar.

Receber notícias de casa fez Gambit se dar conta de que não fazia serviços de ladrão desde que pisara na mansão. A falta de ação o estava tornado impaciente. As missões simples, que serviram para distraí-lo em um primeiro momento, agora o estavam enchendo o saco.

Deixando-se levar pela frustração enquanto empurrava outros sentimentos, Gambit percebeu que também estava ficando farto de se sentir atraído por uma garota que não poderia ter. Ainda mais agora que Vampira estava melhorando, e não dava indícios de outra recaída.

Esta noite ela estava abatida, como sempre ficava depois de se encontrar com Xavier. Contudo, era evidente o quanto estava cada vez mais bonita e saudável. Mais um quilo fora recuperado e seu tempo de corrida aumentado.

Ao vê-la esta noite, Gambit sentiu uma onda pungente de reconhecimento tomar controle de seus pensamentos. Lembrou-se de ter sonhado com ela.

No seu sonho, ele estava de volta ao quarto de sua adolescência – única coisa que ali parecia existir – e a tinha nos braços. Ele dizia o nome verdadeiro dela, do qual agora não se lembrava. Vampira não vestia as roupas ou maquiagem costumeiras. Enquanto seu cabelo estava levemente mudado, seus olhos não foram distorcidos pelo ambiente onírico.

Ele a tocava sem impedimentos. Quando deu por si Remy já a havia deitado na cama e a estava despindo. No próximo instante, beijava-a desesperadamente, fazendo tudo que sabia não poder fazer realmente.

De volta à realidade, Gambit sentiu a mão leve dela sobre o seu ombro.

"O que foi, Remy?" ela perguntou, hesitante, notando a distração dele.

"Não é nada, Vampira" ele respondeu, com a voz triste, combinando com os olhos.

Ela hesitou um instante antes de voltar a falar. "Se tem a ver com a nossa conversa no chafariz—"

"Não tem a ver com isso" ele mentiu. "Eu só..." ficou sem palavras, como raramente acontecia. Esfregou a mão direita na barba áspera, que não fazia há três dias. Estava angustiado e agitado, e queria sair dali o mais rápido possível, queria se afastar de tudo que o fizesse pensar. Ele se pôs de pé em um ímpeto. "Tem coisas que... eu preciso resolver" e a deixou sem olhar para trás.

Vampira baixou a cabeça e entendeu que ele queria ficar longe dela. Talvez não compreendesse os motivos, mas sabia que ele precisava de espaço. Vampira tinha conhecimento do telefonema, ouvira parte dele inintencionalmente enquanto o procurava ao voltar da escola. Planejou conversar a respeito disso, mas não encontrou a oportunidade. Além do mais, era evidente que ele não queria conversar.

Era melhor Gambit ir e resolver as coisas à sua maneira.


Assim que deixou Vampira sozinha no telhado, Gambit escapou da mansão sem ser visto. Odiou deixar sua moto para trás, mas o simples fato de ter enganado as câmeras e burlado o sistema de segurança da mansão sem esforço, e usando apenas seu cajado de apoio, animou seu ânimo e seu moral.

Fazendo uso apenas de sua persuasão, em pouco tempo, Gambit chegou a um bar qualquer, barulhento e com bebidas fortes. Talvez conseguisse arrumar algum serviço se desse sorte. Furtar uísque velho do velho Wolverine não teria graça mais de uma vez.

Gambit bebeu, apostou, flertou, como que por hábito, tentando esfriar a cabeça. Horas mais tarde, notaria que não seria o suficiente para tirar o Clã da cabeça. Deixando o barulho para trás, Gambit ligou para o seu irmão. Este se resumiu a dizer que tudo estava bem na medida do possível, não querendo revelar detalhes. A curta ligação não serviu para aliviar o aperto no seu peito; ao contrário, deixou-o mais aflito.

Voltou então para a mansão, entrando da mesma forma que saiu.

Ao entrar pela janela de seu quarto, Gambit estagnou ao encontrar Vampira deitada em sua cama.

Eles sempre davam um jeito de se encontrar após o toque de recolher. Esse jeito normalmente envolvia Kitty levando Vampira através das paredes até o quarto dele. Foi o que Gambit imaginou que havia acontecido. Ainda assim, não esperava encontrá-la ali; não naquela noite.

Olhando para o relógio, eram quase quatro horas. Ela devia ter esperado por ele até adormecer.

Gambit se aproximou para dar uma olhada no rosto dela. Vampira estava deitada de lado, encolhida sobre as cobertas, vestindo pijamas. Sua face estava voltada para a porta – talvez houvesse imaginado que seria por onde ele voltaria. No seu rosto, Gambit esperava encontrar a fisionomia calma de anjo adormecido, porém, para a sua total surpresa e angústia, deparou-se com uma face pálida, contorcida de dor e agonia. Sem notar, ele prendeu a respiração.

Gambit estava ciente de que Vampira tinha noites conturbadas, apenas não sabia a que ponto. Ingenuamente, acreditava que ela havia melhorado, pois esta era a primeira vez que presenciava um pesadelo dela.

Nas noites em que passaram juntos, Vampira dormira razoavelmente bem. Tinha um sono agitado, era verdade, mas nunca a ponto de falar em voz alta ou contorcer o corpo, como agora acontecia. Imaginou o que faria se alguém a ouvisse ali.

Ele podia ver as gotas de suor no rosto dela e ouvir sua respiração acelerada. Seu primeiro impulso foi o de acordá-la para poder aninhá-la nos braços e garantir que tudo ficaria bem. Contudo, segurou-se a tempo ao notar que havia pele exposta demais: mãos, rosto, pescoço. Indagou-se por que ela teria ido ao seu quarto sem estar completamente coberta.

Antes que pudesse decidir o que fazer, Vampira respirou fundo pela boca, criando um chiado doentio no processo, e acordou sobressaltada. Sentou-se na cama, em um primeiro momento, desorientada, sem saber onde estava. Ela se esforçou para controlar a respiração ofegante e então seus olhos encontraram Remy.

Olhando ao redor, ela finalmente se encontrou. "Desculpa ter invadido assim, Remy" ela disse com rouquidão ao sentir a garganta completamente seca.

Quando ela deu a entender que iria se levantar, Remy se aproximou e se sentou ao pé da cama para mostrar que não queria que ela se fosse. "Não tem problema, chérie" ele disse com a voz mais calma que conseguiu criar.

Ela permaneceu sentada, porém se moveu levemente para mais longe dele. Envolvendo os braços em torno do próprio corpo, deixou claro que não desejada ser tocada. Gambit entendeu o recado e permaneceu imóvel.

"A Kitty e as meninas estavam fazendo aquele lance de dormir juntas de novo" ela disse à guisa de desculpas. "Elas insistiram pra eu ficar, eu até tentei. Uns vinte minutos depois arranjei uma desculpa e saí de fininho. Eu não poderia suportar aquelas gargalhadas finas" fez uma careta de desagrado, olhando na direção dele apenas de relance. Havia em sua voz algo de artificial, como se ela se esforçasse para soar casual.

Vampira disfarçou, manteve a cabeça levemente baixa, mas Gambit percebeu que ela o observava de esguelha, guardando para si o que quer que estivesse pensando. Decerto sentiu o cheiro de cigarro e bebida, ele pensou. Sabia que ela nunca perguntaria onde ele esteve e, muito mesmo, com quem, mesmo que a magoasse, como evidentemente era o caso. Ela imaginava que não poderia exigir explicações quando tudo o que tinham era um relacionamento platônico de faz-de-conta.

"Eu estou um caco" ele disse, quebrando o silêncio. "Vou tomar um banho e daí nós podemos dividir a cama."

Ela tristonhamente meneou com a cabeça.

Quando ele voltasse, ela não estaria mais lá.


Gambit dormiu pouco mais de duas horas, pois por mais que seu corpo estivesse exausto, sua mente não parava de correr em círculos. Foi derrotado pelo sono pouco antes de amanhecer. Na manhã seguinte, ele perdeu a hora.

Praguejando quase em silêncio, ele pulou para fora da cama e se vestiu aparvalhadamente. Precisava falar com Vampira, e esperava encontrá-la antes que ela fosse para o colégio.

Correndo até a cozinha, ele notou que chegara tarde demais. Um dos garotos – Bobby Drake – que ficara para trás lhe disse que a tinha visto ir a pé. Sem perder tempo, Gambit apanhou a sua moto e foi atrás dela.

Encontrou-a no meio do caminho.

"Que tal uma carona?"

Vampira parou e girou nos calcanhares, sorrindo timidamente, sem mostrar os dentes. "Você sabe que eu não posso mais gazear. Além do mais, tenho prova de literatura hoje" ela disse, fazendo uma careta tristonha. Então cruzou os dedos caricatamente "Me deseje sorte."

"Vou estar aqui na saída para irmos comemorar" ele prometeu ao deixá-la na porta da escola.

Na saída, entretanto, Gambit não estaria lá.

Vampira esperou por ele em torno de dez minutos, de quando em quando, olhando ao seu redor. Tirou o celular do bolso traseiro da calça e viu uma ligação perdida e uma mensagem, que chegara vinte minutos atrás, na qual Gambit lhe dizia que teve de ir com Ciclope e Jean em mais uma daquelas missões sem ação. Ela, então, voltou caminhando, como normalmente fazia após ter almoçado solitária em uma lanchonete.

Chegou ao seu quarto, torcendo para que Kitty estivesse ausente. Abriu a porta e notou o quarto vazio. Tirou as botas e as arremessou, uma para cada canto. Espreguiçou-se prazerosamente, erguendo os braços esticados sobre a cabeça e curvando as costas para trás, ouvindo os estalos prazerosos que suas juntas fizeram.

Havia sido uma manhã cansativa, porém produtiva. Saíra-se bem na prova e nas demais aulas.

Vampira encarou a sua cama convidativa e se segurou para não cair nela e dormir; sentir-se-ia mais confortável após um banho longo e morno. Retirou o casaco, ficando só de regata. Abriu o zíper da calça jeans enquanto ia buscar uma toalha na gaveta. Foi quando alguém bateu na porta.

Ela fez uma careta, tentada em ignorar. Por fim, decidiu atender. Encontrou Gambit do outro lado da porta. Ele vestia jeans e camiseta; sem sinal do casaco longo, que usara aquela manhã. Ele fizera a barba e estava com o cabelo úmido.

Ela acenou para ele entrar sem dizer palavra enquanto lhe dava as costas e disfarçadamente fechava o zíper da calça.

"Como foi a prova?" ele perguntou, casualmente, parando a alguns passos de distância dela.

"Bem" ela disse, tentando emular o tom de voz dele, contudo ele era melhor nesse jogo do que ela. "Vou saber o resultado amanhã" ela colocou as mãos dentro dos bolsos da calça jeans e encolheu o corpo levemente.

"Por que não esperou por mim ontem à noite?" ele indagou, indo direto ao assunto. Sua voz havia amenizado e ele deu um passo à frente.

"Eu não sei" ela respondeu, dando de ombros. E por mais improvável que fosse, dizia a verdade. "Vi como você estava exausto e não quis incomodar."

Ele deu mais um passo em direção a ela. Antes que tivesse seu espaço invadido, Vampira arranjou o que fazer e foi buscar as botas e as roupas espalhadas e as colocou no lugar.

Ele respirou fundo. Se ela não fosse tocar no assunto, então ele o faria. "Ou ficou chateada e queria saber onde eu estava?"

Ela guardava as botas no armário quando parou na metade. Bateu a porta com força. "Eu não tenho esse direito" ela disse com raiva. Raiva que ela não sabia a quem era direcionada. Cruzou os braços e permaneceu parcialmente de costas para ele. "É óbvio onde você estava. Eu mesma fiz a mesma coisa várias vezes quando precisei ficar sozinha e não suportei permanecer aqui dentro."

Ele não acreditou na compreensão forçada na voz dela. "Eu só bebi um pouco e voltei direto pra cá" ele disse verdadeiramente, não entendendo por que era tão importante que ela acreditasse nele. Ela apenas respondeu com um som gutural de quem entendia. Formando o seu sorriso mais charmoso, ele deu alguns passos em direção a ela, desta vez rapidamente para que ela não tivesse chance de escapar. "Você sabe que só tenho olhos para você."

Vampira voltou o rosto na direção dele e o fitou por alguns instantes com a expressão perfeitamente neutra, então se dirigiu até a cama e se sentou com as pernas cruzadas.

O rosto dele se anuviou ao notar que suas palavras tiveram o efeito oposto do esperado. Foi desesperador não saber se ela realmente acreditava nele. Provou o amargo do próprio veneno. Sabendo que seria mais sensato simplesmente encerrar o assunto, Gambit se aproximou da cama, murmurando: "Quando eu cheguei você estava sonhando."

"Sonhando?" ela perguntou retoricamente com sarcasmo que era direcionado não a ele, mas à sua situação.

Ele mordeu o lábio inferior e pendeu a cabeça para o lado. "Você estava tendo um pesadelo."

Vampira respirou fundo e escondeu o rosto nas mãos enluvadas. "Eu não queria que você tivesse me visto daquele jeito."

Ele mais uma vez segurou o ímpeto de abraçá-la. "Era comigo?" perguntou, sem conseguir camuflar por completo o medo de uma resposta afirmativa.

Ela lhe lançou um olhar de espanto, com os olhos arregalados. Levantou-se e se posicionou de costas para ele, cruzando os braços. A urgência que notou na voz dele a deixou aflita. "Eu não... eu não sei" respondeu amargamente e se virou para ele, com os lábios finos e a expressão dura. "Eu normalmente não lembro."

Ela viu o alívio percorrer o rosto dele. A mesma reação de quando ela o absorveu após o beijo que trocaram quando ele temeu que ela houvesse visto algo sobre o seu passado. Pelo visto, ainda temia, mesmo ela tendo garantido que não se lembrava de nada. Ela se esforçou para afastar todas as indagações que esse fato trazia.

Antes que o silêncio se tornasse constrangedor, Vampira disse que precisava de um banho e Gambit se retirou, cabisbaixo, tentando enganar até a si mesmo ao fingir que estava tudo bem.

Era evidente que ele escondia segredos e receava que ela os conhecesse. Vampira não o culpava por guardar segredos; apenas não sabia se poderia continuar confiando nele plenamente, sem saber quem ele realmente era detrás de tantas máscaras e possíveis mentiras.


"Quando estiver pronto" a voz calma de Fera se fez ecoar pelos holofotes invisíveis da Sala de Perigo, reverberando por suas paredes metálicas.

Era difícil imaginar aquelas placas cinzas se tornarem o que quer que fosse programado.

Gambit, entretanto, já vira acontecer. Parte de sua recusa em treinar com os demais tinha a ver com o fato de ele achar tudo fácil demais. Aos doze anos seu pai lhe fizera passar por simulações três vezes mais letais que os jovens do Instituto passavam, mesmo quando tinham Wolverine no comando.

Certa noite, Gambit entrara escondido nos computadores da Sala de Perigo e descobrira que os níveis avançados talvez lhe servissem de desafio. Perguntou inocentemente a McCoy se havia algo mais desafiador. O Doutor prontamente se ofereceu para ajudá-lo, mesmo recomendando que seria mais sensato começar com os níveis mais baixos. Gambit o convenceu a ajudá-lo com algo mais desafiador, pois precisava gastar suas energias urgentemente. Nada melhor do que causar algum estrago.

Seguindo as indicações de Hank, Gambit parou no centro da enorme sala e assistiu à medida que o cenário ganhava forma em frente dos seus olhos. Quando o doutor lhe perguntou que tipo de simulação Gambit gostaria de ter, este respondeu que preferiria ser surpreendido.

Em questão de segundos, um cenário de devastação começou a rapidamente ganhar vida. A sala pareceu se multiplicar de tamanho. O cenário lembrava uma cidade de algum filme apocalíptico futurista. Havia destroços por todos os lados, escombros e destruição.

O céu estava encoberto por poeira e poluição negras. Alguns raios de sol tentavam encontrar seu caminho em meio à escuridão e se deparavam com mais sujeira. Havia carros abandonados e capotados, postes de luz partidos ao meio assim como construções ruídas. A grama e a vegetação cresciam por toda a parte.

Gambit já estivera no mundo todo, entretanto, não conseguia identificar o lugar exato da simulação. Chegou à conclusão de que saíra da imaginação do próprio doutor. Gambit estranhou algo tão sombrio vindo dele, mas deixou esse pensamento de lado rapidamente em detrimento de sua evidente satisfação.

A voz do doutor mais uma vez ecoou por todos os lados. A simulação teria início em

3...2...1

O solo repentinamente começou a tremer de baixo dos seus pés. Usando seu cajado para impulsioná-lo, Gambit pulou para três metros de distância de onde estava, poucos segundos antes do chão desabar.

A partir disso, os próximos minutos foram uma sucessão de esquivos.

Gambit se movia o tempo todo, pulando antes que o chão o engolisse. Os destroços vinham de todos os lados; ele pulava por sobre os que vinham por baixo e se agachava para não ser atingido pelos que vinham por cima. Ora se esquivava, ora usava cartas para explodi-los. Quando as cartas não eram o suficiente, Gambit apanhava pedras ou qualquer outra coisa que caísse em suas mãos e as transformava em arma.

Antes que uma enorme placa de concreto lhe acertasse, Gambit saltou, dando uma cambalhota para trás e pousando agachado, com seu cajado posicionado.

Explosões aconteciam a todo o momento e por toda a parte.

Alguns minutos bastaram para que Gambit não apenas se acostumasse ao ritmo da simulação, mas como também notasse um padrão de comportamento. Ele fez um sinal para Hank, que observava tudo por detrás de uma parede de vidro blindado, pedindo algo mais desafiador. Este entendeu o recado.

Gambit se levantou e girou o corpo. Ouviu passos vindo de trás de um dos edifícios, passos que faziam o chão tremer, passos que deviam pertencer a algo com mais de vinte metros de altura.

Gambit então viu uma cabeça metálica surgir seguida de um corpo gigantesco. Olhos vermelhos o encontraram e se fixaram nele.

"Um Exterminador do Futuro gigante? Você leu meus pensamentos, Doutor?" Gambit gritou, com um sorriso nos lábios.

Sem perder tempo, o gigante anunciou o mutante localizado e imediatamente lançou uma sequência de explosivos, dos quais Gambit se esquivou por um triz, em seguida arremessando sua própria sequência de mais de vinte cartas. Deitadas em uma de suas palmas, elas eram lançadas pela outra mão em uma sucessão incansável. Todas elas acertaram o alvo com precisão: o pescoço do robô.

Gambit se jogou para o lado antes que fosse atingido por rajadas saídas das mãos da criatura, e caiu sobre o ombro esquerdo. Recuperando-se em poucos segundos, mesmo sentindo o ombro, Gambit lançou mais uma sequência de cartas explosivas. Desta vez o pescoço do gigante se dependurou para trás. Ele atirou a esmo, até que Gambit, com a ajuda de seu cajado, saltou com as pernas esticadas por vários metros e atingiu o peito da máquina com os dois pés, fazendo com que ela caísse para trás. A cabeça rolou.

Com o peito subindo e descendo, Gambit observou a simulação de desfazer.

Fim da sequência. Nível de dificuldade cinco.

Com um aceno de cabeça, Gambit agradeceu Fera e saiu revigorado.

Sua tranquilidade, contudo, não duraria. Naquela mesma noite, o destino lhe pregaria mais uma peça.


Gambit fez uma careta de desagrado ao se dar conta de que naquela noite faria parte da equipe responsável pela bagunça do jantar. Antes de se juntar ao grupo, entretanto, ele chamou Vampira para conversar.

Ainda havia certa estranheza entre os dois, palavras não ditas que gritavam e os sufocavam. Gambit tinha esperanças de que pudessem conversar mais à noite e esclarecer o que quer que os tivesse incomodando, antes que se tornasse irreversível e deixasse cicatrizes.

Foi necessária muita persuasão, mas ele conseguiu convencê-la a ir esperar por ele em seu quarto enquanto ele terminava os afazeres. Terminou suas obrigações dentro de pouco mais de uma hora, contudo, para a sua frustração, foi chamado por Hank para conversar sobre a sua simulação na Sala de Perigo. Tempestade e Wolverine também estavam presentes. No fim, foram necessárias mais duas horas de muita paciência até que Gambit conseguisse finalmente subir para o seu quarto. Chegando lá, Vampira já estava adormecida, desta vez tranquilamente. Devia estar exausta para cair no sono ainda tão cedo, pois mal passava das dez horas.

Antes de se deitar ao lado dela, Gambit tomou um banho e vestiu roupas confortáveis. Ao deixar o banheiro, seus olhos vermelhos se depararam com a imagem que ele torcera para que nunca mais tivesse de presenciar.

Vampira mais uma vez contorcia o corpo, presa em um pesadelo. Murmurava palavras que não se assemelhavam em nada aos gemidos de prazer do sonho de Gambit. Essas eram palavras cruéis. Falavam de lugares e rostos familiares. Falavam de nomes que Gambit não ouvira mais.

Vampira estava sonhando com ele. Não restavam dúvidas. Ela via coisas que ele queria apagar da memória. Imagens que ele enterrara, mas que nunca foram realmente embora.

Amargamente, Gambit percebeu que esse devia ser o seu castigo. Ele estava se apaixonando pela mulher que inconscientemente sabia tudo o que ele queria esquecer.

Ela seria sua lembrança constante de que nunca teria paz.

xXxXx

N/A: Levou um ano e meio, mas finalmente está pronto o capítulo novo. Agradeço a paciência e os reviews deixados mesmo enquanto a história estava parada. Não sei se ficou suficientemente longo para matar a saudade, mas espero que gostem e que a espera tenha valido a pena.