Capítulo Doze
ESQUADRA SOB O COMANDO DO COMODORO AUBREY ARRUÍNA A MARAVILHA FRANCESA
Notavelmente a ousadia e a coragem de Jack Aubrey, capitão-de-mar-e-guerra feito comodoro na última expedição a ilha de Madeira, conduziu a Marinha Real a fenomenal e devastador combate entre Titãs. Vários relatos, desde almirantes a meros marujos, confirmam que Aubrey é um dos comandantes de maior grandeza que lutam incansavelmente para o bem da coroa. Seu apelido, Jack Sortudo, entre os que o conhecem e que conhecem suas façanhas, só vem a aumentar a crença de que há um toque divino em seu ser sempre que executa manobras e planos.
Navegando contra a mais eficiente esquadra de todos os tempos, a chamada Maravilha francesa, o comodoro liderou o confronto singular que arruinou o convés do Josefine, aplacou a ira do incendiado LaRochelle e fez tremer as bases do Francine. Provocando revolta no restante da esquadra, Aubrey fez que ela o perseguisse até La Corunha, onde encontrou outra poderosa esquadra, a espanhola, sedenta pelo sangue de um único francês: o comandante da Venus, Dantè Berton, cuja luxúria o cegara e o levara ao fim certeiro: a prisão espanhola. Berton extinguiu o desejo do príncipe espanhol em desposar a donzela portuguesa Lady Lourdes Aguiar. Aproveitando-se da cólera dos espanhóis, do vento favorável e dos excelentes oficiais sob seu comando, Aubrey abocanhou, além dos três navios destruídos em Madeira, dois outros franceses lotados de produtos originários das Índias e mais dois que o perseguiam. Em nome da honra e da cordialidade, o comandante da esquadra espanhola cedeu uma pequena vantagem de cinqüenta milhas aos ingleses, já que a guerra entre Espanha e Inglaterra ainda era declarada, para depois persegui-lo e afundá-lo. Porém, a velocidade dos ingleses com seus marinheiros de primeira linha foi infinitamente superior a pouca prática espanhola, que ficou milhas e milhas de distância perdidas em brumas depois que o comodoro os logrou com uma de suas geniais e um tanto inusitadas idéias, penetrar a costa e confundir os espanhóis com a neblina cerrada.
Mesmo sabendo que ao chegar a Plymouth sua nomeação lhe seria retirada, o comandante Aubrey se mostrou solícito e imensamente satisfeito com os resultados de sua incursão. Modesto como sempre, recebeu a condecoração e as menções honrosas corando, mas com grande orgulho por servir a Marinha Real Inglesa.
É deste tipo de homem que as armadas inglesas necessitam. É esse tipo de homem que falta em nossas linhas de batalha.
Esta era a notícia nos principais vespertinos das grandes cidades inglesas.
*****
Relic,
Madeira, 28 de novembro de 1804.
Cara Condessa de Norwich,
É com pesar que escrevo estas mal traçadas linhas. Em verdade, peço desculpas por estar ditando a carta, mas um pequeno ocaso impede que eu utilize a mão direita. Desde que deixei Portsmouth venho ponderando sobre este difícil assunto, porém, sinto-me no dever de lhe enviar esta correspondência ao invés de lhe deixar a par somente quando para aí eu retornar. Meu desentendimento com o amigo Aubrey me levou a crer que não sou homem certo para casar com a senhora. Há muito mais do que posso compreender e aceitar no seu relacionamento com Aubrey. Seria um grande equívoco querer fazê-la esquecê-lo quando ele é o centro de suas atenções e eu, um mero espectador. Portanto, libero-a deste inconveniente compromisso ciente de que a senhora dar-se-á conta de meus motivos reais.
Espero que possamos conversar melhor quando eu retornar a Portsmouth, para deixar claro o assunto. Não quero sua inimizada, muito pelo contrário, espero sinceramente que a senhora abra seu coração e liberte-me.
Sempre seu,
Jake Jankins.
*****
A carta soltou-se lentamente dos dedos da condessa e tocou o chão sem fazer qualquer ruído, no entanto, seu coração aumentou no peito e pulsou quase o rebentando ao compasso das palavras desaforadas repletas de inverdades, suposições e mal-entendidos, recém lidas. Era certo que Jankins estivesse preocupado pouco antes de deixar o chalé da condessa na tarde de seu último dia em Portsmouth, todavia, fora antes do completo entendimento entre eles, antes da jura de amor que ele fizera a ela, antes do envolvente e apaixonado beijo de despedida. Havia que existir explicação melhor. Ela não jamais se deitara com outro homem que não fosse seu falecido marido.
Era continuamente a mesma condição, as pessoas eram distintas, os lugares eram diferentes, mas era continuamente a mesma condição: uma viúva jamais seria benquista, bem vista ou totalmente aceita no cruel mundo social da corte inglesa. Lembrava do tempo da infância, da vida no campo e do quão bem vivera com o pai, com os amigos. Mas era triste pensar no passado porque a direcionava sempre ao mesmo fim: Portsmouth. Se ao menos tivesse esquecido de sua juventude, se tivesse dado ouvidos à arquiduquesa da Áustria e partido com ela no ano seguinte à morte de seu marido, filho da arquiduquesa, tudo estaria completamente diferente.
Então a condessa chorou, e naquele dia não viu a luz do sol, proibiu que os criados saíssem da propriedade e ordenou que fechassem os portões, não esperava receber ninguém. Não queria mostrar-se uma mulher vulgar com os portões sempre abertos a quem desejasse adentrá-los. Contudo, quem a viria visitar se era a única que conhecia o conteúdo da carta? De qualquer forma, cerrou as cortinas de seu aposento de dormir, sentou sobre a cama e continuou a chorar.
Era uma esplendorosa tarde ensolarada de sábado, o duque de Fareham estranhou pela segunda vez consecutiva a ausência da amiga condessa, mulher que o deixava tão em paz quando ao seu lado, era vibrante e gentil, completamente apaixonada pela natureza. Depois de conhecer os jardins de seu castelo nas colinas arborizadas de Fareham, a condessa ansiava rever o duque e lhe entreter, como se somente sua humildade e obediência devessem aos convites que ele lhe fazia.
Nem mesmo lorde Kipling e sua esposa tinham visto ou recebido em sua casa a condessa de Norwich nos últimos dias, eles que andavam quase todos os dias a conversar, jantar ou indo ao teatro.
Antes de se ressentir com o súbito sumiço da condessa, o duque enviou seu servo particular até a casa dela, mas ele retornou três vezes das infrutíferas viagens àquele lugar. Por fim, o duque em pessoa foi visitar o esconderijo de tal gentil senhora, porque se preocupava com ela. Sim, esconderijo era o nome apropriado porque a distinguiu nitidamente espiando por entre as cortinas do andar superior quando sua carruagem alcançou as proximidades da construção. Certamente não era do feitio dela desviar da companhia dele, a condessa jamais fora inconveniente ou enganosa, muito menos declinara de quaisquer uns de seus convites, saborosamente divertidos - como ela os denominava - fossem eles feitos para o dia ou para a noite, porque a condessa tinha uma queda pelo duque anfitrião.
Seria a primeira vez, na história de vida do duque, que corria atrás de uma mulher. E se a principio ele se irritou em ser deixado a esperar - era uma ousadia, um desaforo, era inaceitável, e formou maus pensamentos em relação à educada e polida condessa de Norwich -, no segundo seguinte, não pôde precisar o sentimento que quase o devastou quando a ama apareceu chorando e apelando por desculpas, tagarelando num fraco francês sem cessar. Trazia uma carta nas mãos, já com a tinta borrada, que sacudia de um lado a outro sem se dar conta de que a curiosidade do duque para com o que havia escrito naquele papel crescia instante a instante.
De cima de sua grandeza e posição, o duque arrancou de qualquer forma o papel das mãos da mulher e sem lhe dirigir qualquer palavra pôs-se a ler as mal escritas linhas. De cima de sua grandeza e posição, o duque deitou a carta sobre a mesa de centro e se esparramou sobre o sofá como se fosse um simplório sem classe alguma, como alguém que não tivesse vivido no mundo da educação com base nas regras de etiqueta. Àquela altura, a ama estava de joelhos, as mãos escondiam o rosto de menina no corpo de uma mulher madura tentando abafar o incontrolável choro de desespero e desgosto, murmurando, sem perceber, Pourquoi, mon Dieu, pourquoi à mon bien-aimé dame?
O duque pigarreou e a ama saiu de seu transe.
— Desejo ver a condessa agora - disse fitando os avermelhados olhos verdes da mulher, que hesitou entre desobedecer às ordens de sua senhora e às do duque. Avaliou a situação e decidiu que o auxílio do duque seria melhor do que permitir que mais lágrimas fossem derramadas pelos olhos de sua condessa.
A ama bateu na porta do quarto de sua senhora e a empurrou com suavidade. A luz do corredor mal iluminou o caminho, mas o duque vislumbrou a cama que à condessa servia de jazigo.
— Augusta - a voz grossa a sobressaltou e ela se endireitou sobre a cama, sentando-se ereta. Acreditara que a ama entrara para lhe trazer o chá e lhe dizer que havia dispensado outro serviçal do duque. Sentindo-se atraiçoada, mirou a porta em busca da serviçal para ralhar com ela, mas foi interrompida pela voz grossa do duque, que se aproximou dela, sentando-se à beirada da cama. - Augusta, eu li a carta que Jankins lhe escreveu - e tocou de leve a mão dela.
As chamas das velas clareavam o aposento agora e a condessa viu quando a ama fechou a porta atrás de si, deixando os senhores sozinhos.
— Eu estou aqui para ajudá-la porque me importo com você, Augusta. Você precisa ser forte. Não é a culpada. Eu sei que não é. Se fosse, eu saberia com toda a certeza. Eu sei quando as mulheres são simplesmente ambiciosas, sei melhor do que qualquer outro homem.
Ele realmente era sabedor daqueles assuntos. Era um duque, um homem requisitado, procurada e almejado por mulheres que gostavam muito mais de riquezas do que de carinhos.
— Minha cara, eu lhe asseguro que assim que os pés daquele homem tocarem a Inglaterra nós saberemos a verdade. Ela se revelará e você não terá que se preocupar com bocas imundas e ousadas. Eu lhe asseguro.
— Você assegura, Roderick? Garante?
Não era a mesma mulher, definitivamente. A força interior, a vivacidade, a inabalável imponência haviam se extinguido. Não havia mais aquela certeza de que conhecia a verdade, de que estava acima de quaisquer comentários. Não existia mais a dona da própria vida.
— Eu garanto, minha cara - o duque repetiu, puxando-a para perto de si, fazendo com que ela recostasse a cabeça em seu peito para acariciar-lhe os longos e negros cabelos soltos. Sentiu o choro abafado e pôde conceber Jankins em sua frente: escória, resto dos restos, persona non grata e desleal que subira à custa de outrem e agora apunhalava incansavelmente o peito amigo. Homem que conquistara a total atenção de tão fascinante mulher... Era incrível como certos homens podiam ser tão mais afortunados quanto todos outros e mesmo assim jogavam tudo para o ar para o que, provavelmente, se revelaria um rabo de saia vulgar e incontrolável.
— Darei uma palavra com lorde Kipling...
— NÃO! - ela quase gritou, mas arrependida, o fitou com olhos trêmulos. - Perdoe-me, Roderick. Mas... não quero que isso se alastre. Deixe-me conversar com Jake antes de tudo...
— E você ainda quer vê-lo?
— Não é uma questão de querer. Eu preciso saber o que houve.
Os olhos da condessa lhe sorriram apesar dos lábios não demonstrarem sentimento algum, e o duque, num impulso, segurou o rosto alvo e macio dela com as duas mãos, ficando a mirá-la com ternura. O momento se tornou constrangedor e a condessa baixou os olhos e levantou da cama. O duque a seguiu até a janela, onde ela abriu o cortinado para espiar a entrada da propriedade.
— Você deveria deixar este lugar, Augusta. Venha ficar em Portchester comigo. Divertiremos-nos com mais freqüência...
— Eu... talvez - respondeu ainda constrangida. Ele sorriu.
— Vou pedir que preparem seu malão com as melhores roupas - soou como uma ordem. - O ar daquelas bandas lhe fará melhor. Venha - e estendeu o braço, mas ela não o pegou.
— Eu preciso me trocar - murmurou rindo de si própria.
— E por quê? Está maravilhosa nesse vestido, basta que jogue um xale sobre os ombros e me acompanhe...
— Com esses olhos manchados?
— Com esses olhos manchados.
