Eclipse por Mijan

tradução por Aluada Rock
tradução betada por Hanna Snape

Capítulo Onze: Montanhas e Vales

O sol estava alto no céu, lançando sombras verdes e marrons por entre as árvores. A sombra parecia fresca, mas não oferecia muita proteção contra o calor do meio dia. A folhagem espessa das árvores parecia impedir quaisquer sinais de vento. Quente, o ar parecia grudar na pele, e a viagem pelo vale era mais íngreme do que parecia. Dias quentes, noites frias, e terreno difícil. O tempo e o cansaço haviam acabado com a adrenalina da fuga, e os deixado com nada além da realidade desanimadora da situação: eles ainda tinham um longo caminho a percorrer. Por dois dias, Harry havia trocado a liderança com Draco, nenhum dos dois queria ser o que tomaria a decisão cruel de virar para o sul e por cima das montanhas quando o vale se virou lentamente para oeste. Finalmente, na terceira manhã, Harry tomou a decisão, o que permitiu a Draco tomar parte em sua atividade favorita: reclamar.

Uma vez na vida, Harry sentiu que Draco tinha o direito de reclamar. Depois de três dias viajando pela paisagem local ininterruptamente, tinha que admitir para si mesmo que também estava ficando cansado dela. Não que ele fosse deixar Draco saber. Ainda assim, apesar do próprio cansaço, parecia que o outro estava bem pior do que ele.

Harry suspirou profundamente enquanto usava as árvores menores para se apoiar na subida de um declive íngreme, e olhou para Draco, cujo rosto brilhava com o exercício.

O tom esverdeado das árvores fazia a pouca cor de Draco parecer pior, e os círculos escuros debaixo de seus olhos o faziam parecer fisicamente maltratado. Harry suspeitava de que mesmo se Draco estivesse menos cansado, ele ainda não acharia fácil subir uma montanha. Ele não era muito do tipo aventureiro.

Harry ainda estava sentindo os efeitos colaterais de sua prisão, e estava mais do que disposto a manter um ritmo lento. O que deixou Draco com fôlego suficiente para falar. Ele era muito bom de conversa, Harry supôs, dependendo do ponto de vista. Quando Draco havia finalmente acabado com as reclamações, o que levou a maior parte de uma hora, ele voltou para sua lista aparentemente interminável de assuntos ao acaso.

"Quando eu tinha seis anos a minha babá disse que havia círculos de fadas aqui ao norte".

"Sério?" Harry perguntou automaticamente, sabendo que Draco ia continuar de qualquer jeito. Havia se tornado um padrão pelos últimos dois dias. Draco começaria com algum pronunciamento grandioso sobre alguma coisa mágica obscura. Harry então fingiria indiferença, mas na verdade ouviria atentamente enquanto Draco revelava mais um pedacinho fascinante do mundo bruxo.

Havia certamente muito a aprender; coisas muito além dos truques de transfiguração que Harry memorizara, e completamente diferente do mundo de livros e pergaminhos de Hermione. Havia toda uma profundidade do mundo mágico que Harry não percebera que existia. Era sobre ver tudo em termos de magia primeiro, física em segundo. A perspectiva era fascinante, e Harry desejou que tivesse sido criado assim, para entender coisas que nunca entenderia totalmente agora. Ele quase podia entender porque algumas pessoas queriam tão desesperadamente ter a certeza de que todos os bruxos e bruxas fossem criados por bruxos e bruxas, e o desejo de afastar as influências trouxas.

Quase.

Sem nada mais, ele podia ouvir a Draco agora, e tentar aprender o que pudesse. Além do mais, falar parecia manter Draco andando.

"Bom, ela realmente me disse isso, mas eu sempre achei que a Matilda era só uma velha doida. Ela gostava de contar histórias", Draco explicou, enquanto se abaixava para passar por um galho. "Fadas gostam de climas mais quentes do que esse, e eu nunca ouvi de uma visão confiável de um círculo de fadas verdadeiro. Daí o termo 'contos de fadas', se você me perguntar".

"E você tocou nesse assunto por quê?" Harry perguntou, com a voz neutra.

"Não sei direito - cuidado com a cabeça - mas acho que a paisagem aqui parecia com o que ela descrevia, e eu só lembrei".

"Aha!" Disse Harry enquanto desviava de outro galho baixo.

"O quê?"

"Se a paisagem está te fazendo lembrar de círculos de fadas, então você deve estar começando a gostar". Harry sorriu por sobre o ombro enquanto Draco afastava o galho do caminho.

A expressão de Draco se tornou entediada. "Não confie muito na sorte. Esse maldito morrinho é montanha mais do que suficiente. Eu odeio isso. 'Temos que escalar para fora do vale' você disse. Porque não podíamos ter esperado até o vale acabar?"

"Porque da última vez que eu verifiquei, estávamos tentando chegar a Hogwarts", Harry disse, calmamente. "E para isso, temos que viajar para o sul, não para oeste."

"O vale podia ter virado para o sul de novo", Draco disse, com desdém. "Grifinórios. Não tem paciência".

"Você sabe tão bem quanto eu que não havia sinais do vale virar para o sul. Eu só espero que já não tenhamos saído demais do caminho".

"Não saímos". Draco fez uma pausa, e então franziu a testa, mal-humorado. "Eu quero a minha vassoura".

"Bom, vamos ver o seu melhor Feitiço Convocatório, e estaremos em Hogwarts ao pôr-do-sol".

"Cala a boca, Potter", Draco disse, mas sua voz carregava cansaço, não maldade.

"Só estava brincando, Draco".

"Eu sei. Eu também".

Harry abaixou a cabeça por um momento. De vez em quando, Draco dizia alguma coisa com aquele tom de voz exausto. Parecia tão superficial, nem parecia à voz de Draco, e fazia Harry querer estremecer. Ele não sabia por que o incomodava tanto.

Harry observou Draco criticamente enquanto eles se esgueiravam por um pequeno desfiladeiro. Ele realmente não estava tendo facilidade em nada, e Harry achava que ele havia sido bem resistente, considerando tudo. Ele não havia tido mais nenhuma visão verdadeira, mas Harry acordara várias vezes cada noite com Draco gemendo, preso em algum pesadelo terrível. Draco dizia que não podia se lembrar de nenhum detalhe, e Harry deixou assim. Ele sabia o que era estar do lado da situação de Draco. A última coisa que ele queria era que as pessoas o incomodassem com perguntas; portanto, ele não faria isso com Draco. Com toda a honestidade, era realmente bizarro ver coisas acontecendo com Draco que geralmente só aconteciam com ele. Isso também o fez se sentir estranhamente culpado. Como se ele realmente se importasse. E se importava, ele tinha que admitir. Talvez.

Era estranho, no entanto. Apesar da trégua deles, sua cooperação, e mesmo o fato de que eles dormiam encostados um no outro, debaixo da mesma capa todas as noites, algo não estava totalmente certo nessa quase amizade. Na ausência do perigo imediato, Harry ficava pensando às vezes em com quem exatamente ele estava viajando. Verdade, Draco havia tomado um passo decisivo para longe de suas velhas lealdades. Ainda assim, o estranho senso de preocupação que Harry havia desenvolvido era rivalizado por uma desconfiança que ele não podia afastar. Ele não podia acreditar totalmente que Draco havia completamente rompido sua lealdade em um tempo tão curto.

Draco ainda era leal a seu pai; ele o dissera. Ele também estava morrendo de medo do homem. Isso deixava Harry um pouco nervoso. Então, havia seu rosto. Ainda era o rosto de Malfoy: o mesmo rosto que Harry conhecia de Hogwarts, que zombava dele, e fechava o rosto e sorria maliciosamente, impossível de se ignorar. Sim, Draco sorria, e até ria, e parecia autentico... mas, ainda parecia fora de lugar. E finalmente, de vez em quando, Draco dizia algo estranho, em um tom de voz impenetrável - aquele tom superficial que acabara de usar - como se estivesse escondendo algo de Harry. Era isso que mais deixava Harry desconfortável.

Apesar do desconforto de Harry com a situação, ele não tinha realmente uma escolha. E a verdade, Draco não era tão desagradável. Considerando tudo, eles pareciam se dar muito bem. Extremamente bem, na verdade.

E talvez este fosse o verdadeiro problema. Ele e Draco Malfoy não deviam ser amigos. Mas, em todos os sentidos, era isso que parecia. Era um sentimento bem convincente, também. Às vezes, ele quase se sentia como se eles tivessem sido amigos... Muito amigos... Por um longo tempo. Era completamente errado, mas por hora, era o que ambos precisavam. Não havia sentido em estragar nada agora.

"Então", Harry continuou, com o tom de voz mais casual que conseguiu, "me conta sobre os círculos de fadas?".

Draco revirou os olhos teatralmente, forçando Harry a esconder uma risada. "Exigente você, não?".

"Você começou. É justo agora terminar o assunto".

"Tudo bem. Mas só se pararmos para descansar um pouco. Essa colina vai me matar".

"Tem muito mais de onde essa saiu".

"É, mas se não pararmos para descansar eu não vou chegar na próxima", Draco agarrou um galho e apoiou para subir. "E o que, em nome de Merlin, você faria sem a minha companhia?".

Harry parou diante de Draco e o observou criticamente. "Bom... acho que sobrariam mais biscoitos para mim".

"Potter!".

"Relaxe, Draco", Harry disse com facilidade enquanto encostava-se a uma árvore. "Acho que eu devo precisar de você para alguma coisa. Quer dizer, sem você, quem carregaria os meus biscoitos?".

Harry não teve tempo de se abaixar antes da sacola de viagem atingi-lo no rosto. Ele a segurou sem jeito, rindo enquanto Draco fechava o rosto para ele.

"É para isso que servem os elfos domésticos. Pra carregar as coisas para mim", Draco murmurou. "E você teve que libertar a minha".

"Bom", Harry disse lentamente, enquanto vasculhava a sacola, "precisávamos mandar uma mensagem pra Dumbledore? Quem sabe? Dumbledore pode estar atrás da gente de algum jeito. Ele pode nos achar a qualquer minuto, e você poderá estar dormindo em sua cama macia e quentinha essa noite". Ele enfiou o braço dentro da sacola até o ombro, procurando um dos sanduíches de rosbife que sobravam. "E como que a comida fica fresca nessa coisa? Eu ia te perguntar, mas esqueci".

Draco riu. "Eu não vou brigar com você por causa do Dumbledore, mas seja o que for. Eu ainda não boto muita fé nele... pra nada. E a sacola tem um feitiço para conservar a comida. Biddy deve ter posto enquanto preparava tudo. Eu só queria que ela tivesse posto alguma outra refeição principal além de sanduíches de rosbife. Talvez um frango assado. Se essa colina não me matar, a falta de variedade na comida com certeza vai".

"Aaaahaaaa", Harry disse lentamente enquanto puxava um sanduíche.

Draco riu. "Eu me pergunto como os trouxas conseguem manter a comida fresca. Deve ser impossível... e bem fedido".

"Na verdade... eles usam geladeiras", Harry disse simplesmente, enquanto entregava um sanduíche a Draco.

"Gela-quê?".

Foi a vez de Harry sorrir. "Parecem umas caixas grandes que mantém a comida fria ou congeladas, pra não estragar. Você tem que ligar numa tomada elétrica pra fazê-las funcionar, então acho que não serviriam pra muita coisa aqui no meio do nada". Ele mordeu um grande pedaço do sanduíche.

"Ecleric-quê?".

Harry sorriu, engoliu o sanduíche e começou a explicar a tecnologia trouxa básica. Quando ele acabou, Draco havia se tornado completamente interessado em observar um besouro andando em uma pedra, e Harry havia terminado o sanduíche.

"Então, você tem que admitir", Harry continuou, "a maioria dessas coisas é bem inteligente. Sem mágica, e eles conseguiram fazer tudo isso".

Draco resmungou.

"Admita, Draco, os trouxas podem ser bem espertos".

Sem olhar para ele, Draco respondeu. "Ta bom, então talvez os trouxas não sejam tão idiotas pra compensar pelas outras falhas."

"É". Harry ajeitou a alça da sacola no ombro.

"Mas..." Draco olhou para Harry maliciosamente. "Eles podem fazer isso?".

Antes que Harry pudesse se mover, Draco havia sacudido a varinha para a árvore acima dele. Houve um repentino WHOOSH! E antes que pudesse reagir, Harry se viu enterrado em um monte de folhas até o pescoço. Por um longo momento, ele não se moveu, olhando com raiva para Draco, que sorria docemente para ele, a imagem da inocência. Então Harry olhou para cima rapidamente para observar a árvore nua acima dele. Quanto ele finalmente abriu a boca para reclamar com seu companheiro de viagem, ele teve um ataque de espirros. O que só fez Draco rir.

"Você devia ter visto a sua cara!".

"Eu juro, Malfoy, isso vai ter troco".

"Como quiser, Potter".

"Eu quero que você me tire dessa merda", Harry disse, calmamente.

"Só se você prometer não me matar. Eu já tenho um bruxo doido querendo a minha cabeça. Não preciso de outro".

"Draco...".

"Tá bom. Você não tem a mínima graça".

Mas mesmo enquanto falava, Draco estava obviamente lutando para esconder um sorriso, que combinava com o que ameaçava se espalhar pelo rosto de Harry.

Harry havia descoberto que Draco tinha uma tendência maliciosa que aparecia nas horas mais aleatórias; era inesperado, mas agradável de um modo revigorante. Ele não tinha idéia daquele lado de Draco. E Harry tinha que admitir eram coisas como aquela que o faziam sentir que eles eram realmente amigos. Vinha tão naturalmente, e Harry não tinha bem certeza do que pensava sobre aquilo.

Alguns minutos depois, eles estavam andando de novo, desta vez com Draco na frente. Harry ainda estava catando folhas das vestes enquanto andava.

"Talvez no topo dessa colina a gente consiga ver Hogwarts à distância", Draco disse, pensativo. "Quer dizer, a Torre Norte é bem alta, certo?".

"Acho que não é alto o suficiente".

"Ah".

Mais alguns minutos se passaram.

"Harry... você realmente acha que Dumbledore vai nos achar?".

Harry pensou cuidadosamente. "Acho que ele não vai desistir até achar".

"Ah".

"Está com medo de que os biscoitos acabem?" Harry perguntou, mas de um jeito que deixaria Draco saber que ele estava abrindo a conversa para qualquer preocupação que Draco pudesse ter. Ele esperou enquanto Draco continuou andando estoicamente para frente, sem olhar para trás nenhuma vez.

Finalmente, com uma voz que mal se podia ouvir com o som das folhas sendo esmagadas, Draco disse, "Não".

Harry fez uma careta com o tom de voz de Draco. "Nós só estamos viajando há quatro dias -"

"Quatro e meio. Quase cinco".

"Certo, quase cinco. Quer dizer, ou o Dumbledore vai nos achar, ou chegaremos lá a pé. Não tem problema. Isto é, a menos que você esteja preocupado em se atrasar pras aulas, mas se esse for o caso, nós provavelmente já acabamos com os pontos de atraso das nossas casas".

Com isso, Draco estremeceu visivelmente. Harry inclinou a cabeça, confuso. Essa era uma daquelas coisas estranhas que faziam Harry se perguntar o que Draco estava escondendo. Cada menção do tempo parecia criar uma reação estranha em Draco. Era como se ele estivesse com pressa, mas não quisesse demonstrar. Certamente, ambos queriam chegar em casa, mas Draco estava se comportando muito estranhamente. Harry estava tão preocupado tentando descobrir a reação peculiar de Draco que deu de cara num galho baixo.

"AI!" Ele cambaleou para trás, agarrando a testa.

Draco olhou para trás com uma expressão de divertimento. "Colocando mais uma cicatriz na coleção?".

"Cala a boca, Malfoy".

"Quer que eu dê um beijinho pra sarar?".

O estômago de Harry se revirou desconfortavelmente. "Não", ele disse, friamente, e parou de esfregar a testa.

Draco balançou a cabeça, seu rosto se tornando ilegível, e se virou para ver para onde estava indo. Harry esfregou novamente o galo que se formava em sua testa.

"Falando nisso, Harry... a sua cicatriz tem doído ultimamente? Quer dizer... você disse que dói quando Você-Sabe-Quem -".

"Voldemort".

"Está irritado. Doeu? Ou sonhos? Eu ouvi que você costumava ter sonhos com ele".

Harry abriu a boca para responder, mas parou e franziu a testa. "Na verdade, não. Não dói desde aquela primeira noite. Por quê?".

Draco sacudiu a cabeça sem olhar para trás. "Só curiosidade".

Harry tentou descobrir aonde Draco queria chegar. "Talvez o Desviador o bloqueie de algum jeito...?".

"Pense, Harry. Se isso fosse verdade, ele não teria conseguido me atingir".

"Ah. Bom... talvez seja à distância. Estamos nos afastando".

"Potter, você pensa antes de falar?" Draco se irritou, olhando por cima do ombro brevemente.

"Penso! Eu estou tentando descobrir -".

"Então pense no que a faz doer. Você mesmo me disse".

Harry parou, com a boca aberta. Ali estava ele, recebendo lições de Draco Malfoy sobre a sua própria cicatriz. Cabeça de cicatriz. Ele suspirou e recomeçou a andar. "Quando Voldemort está com raiva, ou -".

"Aí está a sua resposta, gênio".

"Você está dizendo que Voldemort não está com raiva?" Harry disse, rapidamente, enquanto afastava um galho. "Isso é ridículo. Tenho certeza de que ele está tão furioso com a nossa fuga quando na primeira noite, e está simplesmente se recusando a nos deixar saber o quanto irritado está. Tomando seu tempo. Provavelmente tentando abalar sua confiança. Ou nos confundir".

Draco sacudiu a cabeça. "Deixa pra lá, Harry. Talvez eu esteja só paranóico". Ele se curvou um pouco. "E cansado. E talvez você esteja certo, e Dumbledore vai nos achar. Mesmo ele sendo um bode velho". Não havia maldade em sua voz. De fato, ela estava quase se tornando o tom superficial que Harry odiava.

Harry tentou parecer irritado para Draco, mas somente conseguiu um sorriso cansado. Mesmo que estivesse se preocupando com o comportamento enigmático de Draco, e um pouco irritado, ele não podia deixar de notar que tinha uma opinião melhor sobre o senso de humor sarcástico de Draco. De um jeito estranho, ele estava começando a apreciá-lo. Gostar dele, até.

Hermione só era sarcástica quando estava sendo do contra e tentando forçá-lo a estudar no fim de semana. Ron... Harry se perguntou se o conceito de sarcasmo completamente subiu à cabeça de Ron.

Harry suspirou e fechou o sorriso e franziu a testa. Ron e Hermione. Ele veria seus amigos de novo. Nenhuma quantidade de esperteza, provocações e sarcasmo inteligente poderiam substituir seus amigos, mas pensar neles só o magoava mais. Ele sacudiu a cabeça como se pudesse sacudir a solidão pelos ouvidos, e olhou de novo para Draco.

"Então... você já descansou. Me conte sobre os círculos de fadas".


Círculos de fadas eram aparentemente uma daquelas coisas que eram mito em ambos o mundo bruxo e, para a surpresa de Draco, o mundo trouxa. Como os trouxas saberiam qualquer coisa sobre essas coisas, ele só podia imaginar, vendo que bruxos haviam tido problemas suficientes para decidir o que era real. Nunca tinha havido uma visão confiável. Ainda assim, dos relatórios não oficiais que existiam, havia muitas teorias interessantes.

"Bom", Draco disse, lentamente, "teoricamente eles se formam em campos abertos, ou perto da água, e só à noite. Dizem que um único círculo tem centenas de fadas de uma vez, voando numa dança lenta logo acima do chão".

"Deve ser bem impressionante", Harry disse, calmamente, enquanto ajeitava a sacola no ombro.

"Se forem reais, com certeza são", Draco disse, tentando não parecer desejoso.

"Pena que nunca vamos ver um, então".

Draco sentiu um leve lampejo de irritação com a resposta casual de Harry. Ele quisera ver um círculo de fadas desde que Matilda lhe contara do fenômeno como uma história na hora de dormir. "Bom, você certamente nunca vai ver um porque não acredita que sejam reais, então não há problema".

Harry olhou para ele com um sorriso estranho. "Você acha que eles são reais".

"E daí se acho?" Draco engoliu em seco. A maioria dos bruxos parava de falar sobre essas bobagens muito antes de irem para Hogwarts, mas Harry não sabia nada sobre elas, então não tinha razão para rir. Tinha?

"Bom, se ninguém nunca viu um".

"Harry, só porque não houve nenhuma visão confiável 'oficial' não quer dizer que ninguém tenha os visto", Draco disse, calmamente. "As pessoas que fazem os relatórios só não tem provas, então o Ministério não certifica os relatórios".

"Parece que você queria que eles fossem reais". Havia alegria na voz de Harry dessa vez; era esperançosa.

"Quem não ia querer?" Draco disse. "Eles devem ser incríveis. Algumas pessoas dizem que ficar dentro de um círculo de fadas traz à superfície os seus sentimentos ou pensamentos profundos, e te carregam quase como estar bêbado com a magia".

Harry o observava atentamente enquanto ele falava, e pela expressão pensativa em seu rosto, Draco podia ver que ele estava considerando cuidadosamente. Então a expressão foi rapidamente foi substituída por um sorriso cansado. "É... eu podia usar uma bebida forte agora".

"Agora isso seria engraçado. Duas visões místicas de uma vez só: círculos de fadas e Harry Potter, bêbado".

"Aposto que você não agüenta beber muito, Malfoy".

Draco rapidamente limpou a garganta. "É, como eu estava dizendo... outras coisas... hmm..." Ele pensou rapidamente em qualquer coisa que tivesse ouvido sobre círculos de fadas. Um sorriso repentino se iluminou seu rosto. "Algumas pessoas dizem que não pode chegar perto de um a menos que seja virgem. Então acho que você ainda tem uma chance, Potter."

"Bom, então somos dois, não?" Harry disse, rindo.

Draco tossiu uma vez. "É, bom...".

"Ha! Você acabou de admitir".

"Merda".

"Tudo bem, Draco. Eu não vou contar pra ninguém... mas se um dia eu precisar te chantagear ".

"Potter!".

A discussão sobre círculos de fadas levou à conversa sobre elfos e gnomos. Draco achou todas as falhas no conhecimento de Harry imensamente divertidas. Claro, Harry havia lembrado de feitiços e transfigurações aleatórios, e foi bem impressionante na hora... Não que Draco fosse admitir estar impressionado...mas era incrível quantas coisas que Draco subestimava que eram completamente desconhecidas para Harry. Ele aparentemente não tinha idéia de que havia quatro raças de elfos, e ao menos onze tipos de gnomos só no norte da Europa, ainda que não parecesse surpreso em saber que todos os gnomos eram considerado parasitas comuns.

Coisinhas irritantes, os gnomos, ele dissera, distraidamente massageando o dedo.

Dali, a conversa mudara para várias criaturas encontradas na floresta, e Draco mais uma vez se achou preso num assunto onde ele desesperadamente não tinha informação: criaturas mágicas perigosas ou mortais. Ele quase desejou que tivesse prestado atenção àquele grande idiota do Hagrid.

Era estranho, no entanto; aonde o conhecimento de Draco faltava, o de Harry parecia completá-lo. Era como se suas experiências e conhecimentos se complementassem; eles eram mais fortes juntos do que separadamente. Draco não queria insistir no fato, mas tinha que admitir, eles faziam um bom time.

Talvez.

Havia algo na noção de que eles faziam um bom time que incomodava Draco. Era agradável. Era divertido. Harry era na verdade uma boa companhia. E era por isso que estava tudo errado. Eles não deviam ser assim. E enquanto isso, a antiga lealdade de Draco estava milhas de terreno miserável atrás dele. Não que ele quisesse - ou pudesse - voltar. Por auto preservação, claro. Mas seus pais...ele sabia que nunca poderia vê-los de novo, e esse fato se instalou no fundo de seu estômago como uma pedra enorme. Ainda pior, seu pai nunca o respeitaria. Essas eram as conseqüências de suas ações nas quais ele não pensara antes.

Em essência, ele trocara seus pais por Harry Potter. Na hora, parecera a única escolha. Tinha que ser a decisão certa; ele não podia estar errado. Não depois de tudo que passara. E se ele tivesse que enfrentar a situação de novo, sabia que faria a mesma escolha. O que o incomodava era o porquê de ter feito essa escolha. Pensando bem, sim, Harry tivera algo a ver com sua decisão (ainda que ele não soubesse bem o que), e sim, ele decidira que não queria ser o fantoche do Lord das Trevas, mas principalmente, ele fugira porque tinha medo. Não era a melhor razão para fazer nada. De fato, era uma razão de merda.

E se isso já não fosse ruim o suficiente, havia a falta de esperança da situação. Eles ainda podiam ser pegos. E mesmo se não fossem, poderia ser tarde demais para Harry.

Draco sacudiu a cabeça para se livrar do pensamento. Em cada momento de silêncio que eles tinham, Draco havia considerado as possibilidades de uma contra azaração, apenas para se frustrar. Ele não podia fazê-lo. Snape podia. Talvez Dumbledore. Mas por mais que se orgulhasse de suas habilidades em Poções, Draco sabia que ainda era só um estudante. E sua falta de uma solução era prova disso. E acima de tudo, ele ainda não havia contado para Harry.

Com um suspiro, Draco tentou afastar esses pensamentos de sua mente.

"Que coisas você acha que estão a solta nessa floresta?" Draco perguntou, tentando manter a voz casual. "Quer dizer, nós ouvimos as criaturas se moverem à noite, mas elas não chegaram perto. Você acha que tem algum motivo?".

"Porque você cheira mal", Harry disse, tão serio que Draco sentiu suas bochechas queimando antes de notar o sorriso de Harry.

"Babaca. Não, sério, tem que ter um motivo", Draco resmungou, enquanto subia numa pedra. "Animais são coisas sanguinárias que não pensam e que com certeza não adorariam nada mais do que enfiar os dentes numa carne macia como a minha. Mesmo os normais, não mágicos, ainda que eles não apreciariam todos os meus melhores atributos. Você, por outro lado... não é surpresa que se sinta seguro. Você provavelmente é fibroso demais".

"Draco, só você acharia algum tipo de mérito em ser o mais provável a ser comido".

"Não tenha ciúme, ó fibroso".

"Bom, se você é tão gostoso", Harry disse, com um tom pensativo, "e a variedade da comida na sacola está enjoando, talvez eu possa te colocar no cardápio. Draco assado".

"Potter, você é doente".

"Durma com um olho aberto, Malfoy".

Draco virou o rosto, enojado, e mudou de assunto. Talvez eles estivessem no sol tempo demais, ou tivessem dormido de menos, mas a idéia de "Draco assado" era estranha demais, em vários níveis. Mesmo para Harry. "Então, por que você realmente acha que os animais não nos incomodaram?".

Houve um silêncio por um momento, salvo pelo som da respiração e as folhas e galhos secos sendo esmagados.

"Talvez eles evitem mágicas... as criaturas não mágicas, quer dizer. Deve afastá-los, assim como as criaturas mágicas geralmente evitam trouxas".

Draco considerou isso. "Se isso for verdade, então estamos a salvo das criaturas não mágicas, mas e as mágicas? E se encontrarmos um dos explosibuns de Hagrid?"

"Ex... quê? Explosivins?".

Draco rilhou os dentes e concordou, apenas para ficar mais irritado quando Harry riu.

"Não vamos. Eles eram uma mistura... Hagrid os criou. Não vamos achá-los na floresta".

"Claro... a menos que Hagrid tenha decidido que precisava popular a Terra com eles".

Harry pareceu pensativo por um momento. "Não, porque ele nunca conseguiria se separar deles".

Isso fez Draco rir antes que pensamentos de outras criaturas horríveis o fizessem parar. "E hinkypunks... ou barrettes vermelhos? Ou vampiros? Ou lobisomens?".

"Nós cobrimos tudo isso em Defesa Contra as Artes das Trevas. O professor Lupin ensinou... mas você provavelmente não se incomodou em escutá-lo, certo?".

Draco recuou com o tom acusador da voz de Harry. "Tudo bem, Potter. Eu pedi a sua opinião, não uma lição de moral".

"Vamos lidar com eles quando chegar à hora". Harry xingou. "E quanto aos lobisomens, não precisamos nos preocupar com eles até a lua cheia".

Draco quase se engasgou - à noite da lua cheia era à noite do eclipse - mas engoliu o pensamento. "Bom, temos bastante tempo então, não temos?".

"Claro", Harry disse, antes de quase tropeçar numa pedra.

Draco riu. "Sua linda paisagem está te fazendo tropeçar agora, não está?".

Harry franziu a testa. "Ou então eu estou cansado. Tente me dizer que não está. E falando em criaturas, talvez a gente tenha a sorte de encontrar um hipogrifo".

Pego de surpresa pela repentina imagem mental de seu ultimo encontro com uma dessas bestas, desta vez, Draco realmente se engasgou. "Você ficou completamente louco, Potter?" Ele se virou, quase tropeçando. "Eu sei que você acha que eles são bichinhos de estimação, mas eu não tenho vontade de morrer!".

Harry riu, obviamente gostando da memória, muito para a irritação de Draco. "Não, eu achei que um hipogrifo podia nos dar uma carona de volta para Hogwarts". Ele murmurou enquanto subia num tronco caído. "Não é tão bom quanto uma vassoura, mas é mais rápido que isso".

Draco sentiu seus olhos se arregalarem. "Depois de ser arranhado - quase morto - por um desses monstros malignos? De jeito nenhum pelas malditas barbas de Merlin que eu andaria numa dessas bestas".

Harry deu de ombros. "Só o que você precisa fazer é usar um pouco dessa famosa simpatia dos Malfoy. Pessoalmente, eu prefiro voar pela floresta do que rastejar por ela. Especialmente quando chegarmos à Floresta Proibida. Se vamos encontrar alguma dessas criaturas, vai ser lá. Eu não tenho idéia de quanto tempo vamos viajar pela Floresta, se acabarmos andando o caminho todo."

"Você sabe aonde a floresta normal acaba e a Floresta Proibida começa?".

"E como que eu ia saber disso?".

"Sei lá, Potter. Só estou perguntando. Você parecia passar muito tempo lá". Draco respirou fundo, agarrou um galho e se apoiou para subir em mais um declive. "Talvez dê pra ver daqui quando chegarmos ao topo dessa maldita montanha. Se conseguirmos chegar ao topo".

"Estamos quase lá, sabe. As árvores estão ficando menores aqui".

Draco piscou e olhou em volta. Harry estava certo. As árvores eram mais baixas, e mais espaçadas. Parecia haver uma clareira mais acima.

"Aposto que é ali!" Harry exclamou. "Ganha quem chegar primeiro".

Draco sacudiu a cabeça. "Não estou interessado. Já estou exausto e dolorido. Você quer que eu fique exausto, dolorido E de mau humor?".

"Você já está de mau humor, então não vai ser nenhuma perda tão grande".

"Potter!".

"Anda, vai ser como uma corrida para o pomo. Depois do ano passado, eu sinto falta da competição".

"Sem chance".

Harry pensou um pouco. "Claro, Draco. Porque, igualzinho ao quadribol, você ia perder".

Antes que Draco pudesse piscar, Harry havia começado a correr colina acima, chutando folhas na direção de Draco pelo caminho. "Potter! Você... isso não é justo! POTTER!".

Draco respirou fundo e saiu correndo atrás dele. Seu cabelo voava em seus olhos, galhos batiam em suas pernas, e ele só conseguia pensar em manter os olhos no suéter vermelho de Harry, e ter a certeza de que ele não se afastasse mais.

Eu odeio isso, eu odeio isso, eu odeio isso, AI, a droga do meu dedão! Eu odeio isso, eu odeio isso, eu vou te MATAR quando chegarmos lá em cima, Potter! Eu odeio isso, eu odeio...

Ah meu grande ovo de dragão e malditas barbas de Merlin.

Se Draco tivesse algum fôlego sobrando, ele teria dito isso alto. Do topo da montanha, o mundo inteiro parecia estar a seus pés. Uma brisa fria afastou seu cabelo suado da testa, lhe dando uma vista desimpedida das montanhas, vales e rios. O céu estava um azul pálido no horizonte, mudando para um tom mais escuro diretamente acima, sem uma nuvem no céu. Era...lindo. E então seu dedão latejando e a queimação em seus pulmões sobrecarregados o lembrou de que tais pensamentos eram loucos. Mas ainda assim...

"Eu ganhei".

Draco tossiu uma vez e olhou para Harry. As bochechas de Harry estavam vermelho vivo, seus olhos estavam arregalados, e sua boca aberta num grande sorriso, mesmo enquanto ele ofegava. Apesar da dor em seus pulmões, Draco mal pode esconder um sorriso pelo entusiasmo de Harry. Ele tinha a mesma expressão de quando conseguia agarrar o pomo bem debaixo do nariz de Draco. Ela costumava fazer Draco querer lhe dar um soco na cara. Agora, não parecia bem a mesma.

"Eu não estava apostando corrida mesmo", Draco disse, calmamente. "Então você venceu. Que bem isso te faz?".

"É a minha montanha agora. Monte Potter".

"Que seja".

Draco apertou os olhos e observou o horizonte. Civilização. Segurança. Nenhum sinal de nenhum dos dois. Ele sentiu um lampejo de tristeza e isolação. Ele esperava que quanto mais longe de seu pai ele ficasse e quanto mais tempo passasse com Harry, mais esses sentimentos desapareceriam, mas isso não aconteceu. Mais uma vez, eles voltaram. Mesmo assim, ele sabia que se deixar levar por eles não faria bem nenhum. Ele respirou fundo mesmo com a dor em seus pulmões. "Você vê algum sinal de Hogwarts? Ou fumaça de Hogsmeade?".

"Não há sinal de nenhum dos dois. Pode estar escondida por uma montanha".

"Pode ser". Draco ficou nas pontas dos pés, mesmo sabendo que era inútil. Até aonde a vista alcançava, não havia sinais de uma cidade, ou pessoas. O mundo civilizado parecia tão longe. Ele olhou por sobre o ombro para o vale estendido atrás deles. Ele não tinha idéia do quanto haviam caminhado, nem da distância que ainda tinham que percorrer. Ele não podia imaginar que a viagem seria muito rápida com o terreno diante deles. "MILMILHAS, quilômetros deve parecer o quanto longe?".

"Não sei te dizer", Harry disse. "Mas daqui de cima do lindo Monte Potter, MILMILHAS, quilômetros parecem nada mais do que um mero passeio no parque".

"Você é doido".

"Você só está com inveja porque não tem sua própria montanha".

"Meus pés estão doendo, minhas pernas estão doendo, e minha cabeça está rapidamente começando a doer. Eu acho que sou alérgico ao seu entusiasmo sem sentido".

O sorriso de Harry se tornou mais gentil. "Bom, só vamos descer por um tempo, e acho que vamos acampar em algum lugar no vale ali -" ele apontou, "- esta noite".

"Tão perto?" Draco sentiu uma pontada de nervoso em seu peito.

"Acho que sim. Olha como a floresta é espessa. Viagem lenta. E mais, já é de tarde". Harry acenou com a cabeça em direção ao vale diante deles. "Temos que começar a andar. Acho que eu vi um rio lá em baixo. Vamos acampar perto do rio hoje à noite. Talvez dê pra pegar um peixe pro jantar".

"Que nojo".

"Tudo bem", Harry disse, começando a descer a montanha. "Eu vou comer comida fresca, e você pode comer outro sanduíche. Acho que temos um excesso de carne conservada".

"Bom... eu... eu não vou tocar no peixe se estiver cru".

A risada de Harry ecoou pelo vale.


O sol estava quase se pondo na hora em que eles acamparam as margens do rio. Draco estava dividido entre a necessidade de caminhar o mais longe possível cada dia e a dor e exaustão que insistiam que ele precisava de descanso. Harry parecia cansado também, e Draco sabia que se insistisse demais no assunto, Harry ia desconfiar. Então Draco sentou-se às margens do rio enquanto Harry espirrava água tentando pegar um peixe com as mãos. Ele não estava tendo muita sorte.

"Pena que você não conseguiu transfigurar um pau de pescar direito, Harry".

"É uma vara de pescar, Draco - ugh!" Ele tentou agarrar um peixe, e mais uma vez ficou de mãos vazias. "Além do mais - nnynngh! - eu vi ursos fazendo isso num documentário que o meu primo estava assistindo".

"Seria bom se ao invés de precisar pescar tivesse uma cesta de piquenique em algum lugar por aqui...".

Harry começou a rir tão repentinamente que escorregou em uma pedra e caiu na água. Ele continuou a rir enquanto se levantava, pingando.

Draco franziu a testa, confuso. "Qual é o seu problema?".

"Nada. É... Isso é de um desenho trouxa", Harry conseguiu falar entre as risadas. "Tem a ver com ursos... Você não entenderia a menos que já soubesse".

Mesmo sendo curioso, Draco estava ficando um pouco cansado da infinidade de coisas trouxas que Harry citava - era como uma janela embaçada para um mundo que ele não entendia...ou talvez uma parede de tijolos com alguns faltando. Mesmo assim, ele não ia parecer curioso sobre a cultura trouxa, então ele se inclinou para trás e suspirou. "Seja o que for. Você vai pegar um peixe?".

"Claro - espera... aí vem um grande... só um Segundo... mais perto... URGH!" Mais uma vez, ele ficou de mãos vazias. "Droga!".

Draco riu. "Potter, tem um jeito mais fácil".

"Tem, é?" Harry cruzou os braços. "E você vai descer aqui e transfigurar uma vara de pescar pra mim? Molhar os seus pés?".

Draco se levantou com um grande floreio. "Molhar os meus pés? Merlin, não! Harry, você não está pensando como um bruxo. Eu não te ensinei nada?" Ele limpou a garganta, puxou a varinha do bolso e apontou para a parte do rio onde Harry estivera olhando um momento antes.

"ACCIO PEIXE!".

Uma fração de segundo depois, uma grande truta se debatia aos pés de Draco. Ele torceu o nariz. "Tudo bem, Harry. Eu peguei o peixe. Agora você sobe aqui e cozinha".

Harry não se moveu por um momento, sua boca ligeiramente aberta, os olhos com um brilho ligeiramente assassino. Draco não sabia se começava a rir ou corria para sua própria segurança. Finalmente, Harry sacudiu a cabeça e voltou para a terra. "Comece uma droga de fogueira, Malfoy", ele disse, calmamente. "Uma daquelas adoráveis, sem fumaça que você tão gentilmente me lembrou como se faz".

"Não fique tão mal humorado, Harry. Nem todo mundo pode ser tão esperto como um urso. Apesar de que o seu cabelo parece um pouco com pelo de urso. Talvez -".

Houve um WHOOSH! repentino e uma cascata de folhas caiu como pedras das árvores acima de Draco, o enterrando até o nariz.

"Blah! P-tuey! Phfffbbttt! Potter!".

"Nunca me mostre um feitiço se não quiser que eu o aprenda", foi à resposta satisfeita.

Draco soltou os braços e empurrou as folhas para longe do rosto. Ele abriu a boca para xingar Harry, mas não pode pensar em nenhuma resposta que fosse irritá-lo. "Só me tire daqui e faça o meu jantar".

"Você gostaria de leite à parte?" Harry perguntou, enquanto afastava algumas folhas e tentava soltar Draco.

"Phfffbbbttt... malditas folhas... leite?".

"É", Harry disse, seriamente, enquanto agarrava a mão de Draco. "Pra ver se você para de choramingar".

Draco já estava quase fora das folhas quando entendeu o comentário de Harry. Com sua mão livre, ele agarrou um punhado de folhas, e se inclinou para frente para colocá-las dentro da camisa de Harry.

"Ei!" Harry gritou, soltando a mão de Draco.

Draco caiu de novo na pilha, rindo, e imediatamente encheu a mão e novo e jogou as folhas no rosto de Harry.

Harry afastou as folhas com as mãos e olhou para Draco por cima dos óculos com um sorriso maligno. "Ah, agora você tá ferrado!".

Com um grito de batalha que soou como uma risada disfarçada, ele avançou em Draco.


Quando o peixe já estava assado num galho sobre a fogueira, Draco havia quase tirado todos os pedaços de folhas de suas roupas e cabelo. Ele ficara enojado de achar alguns em sua cueca, e não queria saber como eles chegaram ali. Mesmo assim, tinha sido divertido. Muito divertido. E Harry ainda tinha algumas folhas presas no cabelo...não que Draco fosse contar para ele tão rápido.

Brigas de folhas a parte, ele tinha que admitir que pescar havia sido uma boa idéia. Era a primeira comida quente que ele comera em dias, e era na verdade bem gostoso. A noite estava ficando fria, mas a pequena fogueira verde parecia mais quente do que o normal, e não produzia luz suficiente para ser vista por olhos espiões antes de escurecer. Tornara-se um ritual noturno confortável: sentar em volta da fogueira, falando sobre nada. Harry era realmente uma boa companhia. Amigo. Talvez.

"Onde você aprendeu a cozinhar?" Draco perguntou, com a boca cheia.

"Eu costumava cozinhar pros meus tios, lembra?".

"Ah, certo". Ele engoliu em seco. "Bom, está gostoso. Será que a gente pode arranjar outras coisas pra comer?" Ele de repente sentou-se mais reto. "Eu não acredito que acabei de dizer isso. Olha pra mim. Eu pareço um caçador comum. Que... que...".

"Preciso?" Harry sugeriu.

"Nunca". Draco inclinou a cabeça, pensativo. "Bom, talvez".

"Não se preocupe. Eu não vou contar pra ninguém. Incluindo o fato de que você mesmo pegou esse".

"Eu... ah não... eu peguei, não peguei? Como eu pude me deixar -" Ele foi interrompido por um bocejo repentino.

"Com sono?".

"Nem um pouco", Draco franziu a testa. "Agora, onde está o meu ursinho de pelúcia?".

"Pescando. Era o mais esperto".

"Ah, então acho que não posso dormir ainda, posso?".

Harry sorriu, o que pareceu aterrorizante na trêmula luz verde. "Apague o fogo, Draco. Vamos começar a andar de novo ao nascer".

O fogo voltou para a varinha de Draco, e Draco começou a estender a capa para os dois, mas Harry não fez menção de se deitar. Draco olhou para ele. "Que foi?".

"Eu estava pensando... no que você disse... sobre Voldemort não estar com raiva". Harry parou, significativamente. "Você acha que é verdade? Quer dizer... o que ele pode fazer com a gente se não pode nos achar? E se houvesse alguma coisa que ele pudesse fazer, já não teria feito?".

Draco havia congelado no lugar, e sentiu como se seu peito estivesse sendo comprimido. Ele forçou-se a respirar, dolorosamente. "Eu... foi só uma idéia, Harry. Como eu disse, eu provavelmente estou cansado demais e paranóico".

"Não", Harry disse, com firmeza. "Você pareceu bem convencido. Draco, tem alguma coisa que você não está me contando?".

No meio das barras de ferro apertando seu peito, o coração de Draco tentava desesperadamente bater. Como ele poderia mentir para Harry assim? Não era certo. Não era justo com Harry. Mas não seria justo preocupar Harry com uma coisa que ele não podia parar. E talvez Dumbledore os encontrasse a tempo. E talvez Snape teria uma contra azaração fácil esperando quando eles chegassem. E talvez...

"Não. É... não tem nada, Harry. Acho que só estou assustado".

Harry concordou com a cabeça, cético. "Certo. Só... me diz se alguma coisa acontecer, tá bom?".

Draco engoliu em seco e concordou. Harry continuou a encará-lo por um momento, os olhos quase queimando Draco, antes de finalmente se virar e mudar sua atenção para uma pedra que achara.

"Vai ficar frio aqui esta noite. Eu estava pensando, talvez eu possa aquecer uma pedra pra cada um, e podíamos usá-las como uma bolsa de água quente".

Draco concordou com a cabeça, mesmo que Harry não estivesse olhando para ele. Então um pensamento estranho o atingiu. "É quente o suficiente com você debaixo da capa". Logo que o dissera, ele ficou mortificado ao perceber o que parecia. "Quer dizer, você é... e eu... e... eu te ofendi de algum jeito, e você vai dormir sozinho hoje? Não que eu precise... mas eu queria ter certeza de que não te ofendi nem nada parecido...".

A voz de Draco sumiu quando Harry virou a cabeça para ele. Ele tinha uma expressão estranha. "Não, eu só não vou dormir agora. Eu achei que você fosse querer descansar, e não queria que você congelasse. Você parecia bem cansado hoje".

"Ah". Fazia sentido, mas Draco não podia afastar o enjôo que tomara conta de seu estômago. Ele deixara Harry chateado. Harry suspeitava de alguma coisa. Isso não era bom. Nem um pouco.

Ele cobriu os ombros com a capa, a estendeu sobre as pernas, e então olhou de volta para Harry. Harry estava completamente concentrado no processo de levantar uma pedra mais ou menos do tamanho de um melão. Draco o observou, se perguntando por que de repente ele ficou tão incomodado quando pensou que Harry dormiria sozinho. Não que ele precisasse...nem gostasse... ah, que inferno. Era frio de noite, e Harry era quente. Estava escuro e Harry era reconfortante. Eles estavam completamente sozinhos e ter Harry bem ali fazia Draco se sentir mais seguro.

Draco se espantou com o pensamento por um momento - que ele gostava de confiar em Harry - quando Harry olhou para ele da pedra que estava tirando a sujeira.

"Draco? Você tá bem?" As sobrancelhas de Harry se juntaram enquanto ele estudava Draco.

Percebendo o que acabara de pensar, os olhos de Draco se arregalaram com humilhação e choque. "Bem", ele resmungou enquanto rapidamente puxava a capa e se virava para longe de Harry.

Atrás de si, ele ouviu Harry suspirar.

Alguns minutos depois, houve um puxão na capa. Por um momento, Draco pensou que Harry decidira ir dormir, mas então ele sentiu a aspereza da pedra quente contra suas costas. Era certamente quente o suficiente, e debaixo da capa, Draco estava fisicamente bem confortável. Fisicamente.

Ele ouviu Harry se mover por alguns minutos. O farfalhar do tecido, as folhas se partindo. Harry parecia estar andando, o que só deixava Draco mais nervoso. Os sons voltaram em direção a Draco, mas pararam a vários metros de distância. Não havia sinal de que Harry ia chegar mais perto.

Finalmente, Draco adormeceu, se sentindo muito vazio.


A escuridão do sono lentamente se misturou com um negrume que era nauseantemente familiar. Draco teria pensado que ainda estava meramente adormecido, exceto que sabia que se estava ativamente questionando se estava dormindo ou não, a resposta era provavelmente não.

Todas as dúvidas sobre seu estado acabaram quando uma voz cruel sussurrou pela escuridão.

"Jovem traidor. Você ainda continua com essa tolice? Ah, mas não há razão para perguntar, há?".

A voz do Lord das Trevas congelou o sangue nas veias de Draco. Ele não tinha certeza se seus olhos estavam abertos ou fechados, mas ele estava tentando fechá-los o mais forte que podia, desesperado para bloquear tudo.

"Não pode se esconder de mim. Não há nada que possa esconder de mim. Até os seus pensamentos são meus, Malfoy". Uma pausa. "O que é isso? Não gosta do seu nome? Você sabe que não é digno de carregá-lo. Que pena. Seu pai ficará envergonhado em saber disso".

Pai...

Uma risada alta ecoou pela escuridão, ecoando em Draco também.

"Seu pai ainda é importante para você? Devia ter pensado nisso antes. Você ainda se importa com a sua mãe? Sim? Ah, mas então talvez Potter seja algo mais para você. Seu pai tinhas esperanças de que você tivesse sido confundido ou enganado por Potter, mas está perfeitamente claro que não é o caso. Vocês certamente estão se tornando...amigáveis".

Mais risada. Se Draco tinha um estômago nesse bizarro não mundo da visão, esse estômago estava certamente se revirando.

"Seus pensamentos te traem, garoto! Você é defensivo para com ele... que adorável. Você deseja protegê-lo...ficar...próximo a ele".Voldemort provocou.

Draco vomitou. Ele nem tinha certeza do que pensava sobre Harry, ou se ele e Harry eram mesmo amigos, mas o próprio Lord das Trevas estava dilacerando esses pensamentos. Draco imaginou que sentia o gosto de bile.

"É tão triste para você que ele deva morrer, de qualquer jeito. Irá quebrar o seu frágil coração?" A voz era monótona, insultante.

Draco tentou dizer a si mesmo que não se importava com Harry, que não importava o que acontecesse com seu companheiro, mas quanto mais tentava forçar o sentimento para fora de sua mente, mais forte ele se tornava. Estava sendo aumentado; ele não podia pensar em mais nada. Seus pensamentos saíam da escuridão e ressoavam nele, o atacando junto com a risada cruel de Voldemort.

"Eu espero com ansiedade a morte de Potter, e enquanto eu possa ter uma vez lamentado ter que te matar, você se provou inútil para mim. Eu o matarei sem piedade, traidor".

A pausa foi ameaçadora. Por que ele está me dizendo isso? Draco se perguntou, se sentindo ligeiramente furioso. Eu já sei disso. Eu tomei minha decisão, eu...eu não sou...eu vou...Ele começou a sentir a necessidade desesperadora de se agarrar a alguma coisa sólida. Se Voldemort já tinha a vida de Harry, e ia eventualmente matar Draco também se pudesse, não havia ameaças sobrando a fazer, certo? Nada mais para segurar sobre a cabeça dele, certo?

Como se em resposta a isso, uma imagem brilhante começou a se formar contra o fundo negro. Draco não podia dizer se a estava vendo com os olhos, ou se ela na verdade estava completamente presa em sua mente, não que realmente importasse. O brilho começou a tomar forma. Humana. Mulher. Figura elegante. Cabelo loiro. Um tom de batom escuro familiar. Feições aristocráticas.

Mãe!

"O garotinho quer a mamãe?".

Ah não...não...ele não pode...ele não iria.

"Ah, mas eu posso, jovem tolo. Não há nada que tenha que eu não possa tirar de você".

Os olhos de sua mãe de repente se arregalarem de medo, uma fração de segundo antes de ela cair no chão, gritando, obviamente de dor.

MÃE! PARE! NÃO A MACHUQUE!

Draco tentou alcançar a imagem caída de Narcissa Malfoy, que se contorcia, mas não podia se mover.

É só uma visão, só um pesadelo. Nem deve ser real. Não é real. Eu não estou vendo isso... NÃO! MÃE!

A risada alta combinou-se com os gritos de sua mãe, e Draco gritou. Ele estava sobrecarregado, tonto, nauseado. Ele vomitou de novo, rezando para que parasse.

Milagrosamente, parou. A imagem de sua mãe parou de gritar e ficou imóvel no chão, com apenas um soluço ocasional escapando dela. Draco tentou se mover em direção a ela mais uma vez, mas antes mesmo de que pudesse fazer o esforço, Voldemort falou.

"Ela irá morrer, traidor. Ela sofrerá uma morte lenta e dolorosa por sua causa, se não devolver Potter a mim em dois dias. Você pode poupá-la desse destino. Tudo o que tem a fazer é se revelar. Eu o encontrarei. Quanto mais esperar, mais ela irá sofrer. O tempo para piedade acabou".

A risada lentamente sumiu, mas a imagem de sua mãe permaneceu. Lentamente, ela se apoiou nas mãos e levantou a cabeça e os ombros do chão. Narcissa Malfoy, tão orgulhosa, tão digna, estava caída no chão com um fio de sangue escorrendo do nariz até o lábio superior.

"Draco... por favor, meu pequeno Draco... você costumava me deixar tão orgulhosa. Tão orgulhosa...".

MÃE!

"Por favor, não me deixe... por favor, volte para mim...".

Mas a imagem desaparecia rapidamente. Mais uma vez, Draco tentou alcançá-la, mas não podia se mover. Ela estava fora de alcance, ele não podia ajudá-la, e ela ia morrer.

Ele podia ajudá-la. Ele podia se entregar. Sua vida não tinha valor. O traidor, Draco, não era nem digno do nome de sua família. Sua mãe linda e orgulhosa...ela precisava dele...ela era mais importante...

Mas e Harry? Ele não podia sacrificar Harry de novo. De novo não. Ele havia feito uma promessa, e se tivesse alguma honra sobrando, ele manteria essa simples promessa. Tinha que manter.

Sua mãe nunca havia gostado muito de crianças. Ela havia o ignorado. Mas ela o amara de seu próprio jeito, ele tinha certeza. Devia amar. Ela o amava mesmo!

Mãe! Por favor, mãe!

Ela ia morrer, e Draco estava sozinho na escuridão, incapaz de alcançá-la, incapaz de ser alcançado.

Ele podia...ele tinha a chave. Ele tinha Harry.

Tão frio. Tão sozinho.

Draco caiu no chão inexistente e se enrolou, soluçando e tremendo.

Ele não podia agüentar isso. Ele tinha pensado que era só sobre si mesmo, mas agora sua própria mãe estava ameaçada, e era por causa dele, e somente dele. E ele estava tão sozinho.

Então havia braços fortes em volta dele.

Uma voz familiar ecoou em seu ouvido. "Draco?".

Levou um momento para reconhecer a voz. Harry?

"Você está bem? Anda, abre os olhos! Eu estou bem aqui...".

Draco estava prestes a protestar que não podia, porque não tinha olhos para abrir, quando se deu conta de que se os braços de Harry estavam em volta dele, ele devia ter um corpo para os braços segurarem. E se ele tinha um corpo, ele devia ter olhos também. Os braços apertaram mais fortes, como se Harry estivesse fisicamente o ancorando para a realidade.

Parecia que tinham colocado chumbo em suas pálpebras, mas ele podia movê-las.

Havia um lampejo de luz à distância. Lentamente, as verdadeiras sombras das árvores contra o céu noturno se tornaram visíveis com a escuridão natural. Até as estrelas estavam vivas, e piscavam para ele. Com um choque repentino, como ser jogado por uma parede de vidro, Draco se sentiu voltando ao seu corpo físico. Ele respirou fundo, trêmulo, então de novo e de novo, desesperado por ar.

"Calma", disse a voz reconfortante em seu ouvido. "Não comece a hiperventilar".

"Eu... quê... ah, pelas barbas de Merlin, Potter", ele estava encostado no peito de Harry, com os braços de Harry o segurando.

"Tudo bem. Você não tem que falar. Só relaxe e respire devagar um pouco".

Draco sacudiu a cabeça com fraqueza. "Não... não posso... ele vai... ele..." A voz dele se transformou em uma série de soluços ofegantes. Ele não podia formar as palavras para explicar, e não queria pensar naquilo.

"Não se preocupe, Draco". Os braços apertaram um pouco mais fortes. "Ele só está tentando te assustar. Ele não pode te tocar aqui. Ele provavelmente percebeu que não estava te assustando o suficiente quando você disse que ele não estava com raiva, então está compensando".

"Não... não é isso... não eu. É...".

"Quem?".

Draco abriu a boca para responder, mas não podia dizer. Se ele falasse, se tornaria real, e teria sido sua mãe de verdade, deitada no chão, gritando e sangrando. Ele mordeu o lábio inferior, levantou as mãos e agarrou os braços de Harry com força, tentando se manter na realidade. Atrás dele, Harry estremeceu, E Draco diminuiu o aperto.

"Você não tem que me contar agora. Eu sei como é isso".

Draco piscou. Ele quase havia esquecido - não, ele havia esquecido - exatamente quem estava sentado com ele. "A sua cicatriz... você sabia?".

Ele sentiu Harry concordar com a cabeça atrás dele. "É, eu senti antes de notar o que estava acontecendo com você. Foi quando eu percebi o que estava havendo".

Então, Harry havia sentido. Distraidamente, Draco se perguntou se Harry podia ver o que ele vira também, mas mesmo enquanto considerava, a imagem de sua mãe apareceu em sua mente. Involuntariamente, ele tremeu.

"Draco?".

Sua língua estava congelada enquanto os gritos de sua mãe ecoavam em seus ouvidos. Ele gemeu baixo e sacudiu a cabeça.

"Tão ruim assim?".

Draco olhou para Harry. "Pior".

Harry pareceu considerar isso por alguns momentos. "Sabe, nem tudo que ele te mostra é real".

Instantaneamente, uma das barras de ferro em volta do peito de Draco se partiu, e ele pôde respirar de novo. "Quê?".

Harry balançou a cabeça, como se a reação de Draco provasse que suas suspeitas tinham fundamento. "Ele vai escavar os seus pensamentos, achar as coisas que mais te assustam, ou as coisas com as quais você mais se importa, e usá-las contra você. E é muito bom nisso também. Convincente".

"Em outras palavras...?".

"Não acredite em tudo que ele te mostrar".

"Como você sabe?".

Harry franziu a testa. "Porque ele fez isso comigo".

Sem saber ao certo como responder a isso, Draco balançou a cabeça, concordando, e olhou para longe. Tinha sido tão real. E mesmo se pudesse ter sido uma ilusão, e se não fosse? Sua mãe precisava dele. Ele precisava ajudá-la...mas ele prometera a Harry. E quanto a Harry...o que o Lord das Trevas havia dito...Claro, ele e Harry estavam se tornando companheiros. Amigos até. Eles confiavam um no outro, mas Harry não era tão importante. Não como sua mãe.

Mas então, ele desistiria de Harry por sua mãe?

Não. Sim. NÃO!

Isso era simplesmente demais. Ele não ia pensar nisso. Não podia. Seu corpo inteiro parecia cansado, como se ele tivesse escalado dez montanhas iguais a que escalara mais cedo naquele dia. Sem ter a energia para se afastar, ele relaxou contra Harry, aceitando o pouco de força e apoio onde podia consegui-lo.

Então algo mais lhe ocorreu.

"Você me tirou da visão".

"Quê?" Harry parecia confuso.

"Da última vez...eu não podia sentir nada na visão. Não havia chão, nem ar. Eu não podia nem sentir o meu próprio corpo. Mas desta vez...eu senti os seus braços. Foi como uma âncora. Você me tirou de lá." Ele parou e mordeu o lábio rapidamente, com medo de que houvesse soado como um idiota, mas naquela hora, ele achou que não pudesse parecer muito mais patético do que já parecia. Ele suspirou. "Obrigado".

Harry deu de ombros. "Você faria o mesmo por mim".

Isso surpreendeu Draco. Ele não havia realmente considerado. "Eu não saberia o que fazer".

"Nem eu sabia", Harry hesitou. "Só meio que segui meus instintos. Eu te agarrei e te segurei, e você respondeu. Então eu não soltei".

"Ah".

Harry fez um barulho rápido, como se fosse dizer algo, mas houvesse desistido.

Draco se mexeu ligeiramente, para poder olhar para o rosto de Harry. "Quê?".

"Desculpa".

Agora era a vez de Draco de ficar confuso. "Pelo quê?".

"Por te deixar sozinho em primeiro lugar".

Draco pensou por um breve momento, então, com um gemido de esforço, rolou para o lado e se sentou para encarar Harry na escuridão. "Que... Harry, você honestamente acha que o fato de você estar sentado a uns dois metros de distância ao invés de bem aqui tem alguma coisa a ver com Você-Sabe-Quem me atingindo?".

"Bom..." Draco podia ver o rosto de Harry bem o suficiente para saber que ele mordia furiosamente o lábio inferior. "Da última vez que você dormiu sozinho foi a noite em que Voldemort te atacou pela primeira vez. Desde então... bom... acho que eu senti que tinha te deixado para enfrentá-lo sozinho,"

Por fora, Draco revirou os olhos, mas por dentro, ele achou que fazia um pouco de sentido. Ele certamente se sentia mais seguro com Harry bem ali. Mas ainda assim, isso não podia ter nada a ver.

"Harry, foi só uma coincidência", Draco disse, tentando parecer muito mais convencido do que realmente estava. "Você-Sabe-Quem provavelmente achou que estávamos ficando relaxados demais, e estávamos falando sobre ele antes, então ele decidiu me atacar de novo; tentar me assustar". Soava falso, mas era o que ele precisava dizer a Harry. Não era a primeira vez que ele mentia para alguém o que eles queriam ouvir. E isso era para o próprio bem de Harry. Ele cutucou o braço de Harry. "E enquanto você estiver por perto, seja embaixo da capa ou a vários metros de distância, ele não pode me assustar o suficiente para me fazer voltar. Já combinamos isso, certo?".

Harry olhou para o céu, então examinou Draco criticamente. "Acha que já está pronto para dormir?".

Draco se enrijeceu imediatamente. De jeito nenhum ele queria voltar a dormir agora. Quer Voldemort mandasse as imagens diretamente ou não, a imagem de sua mãe gritando com certeza assombraria seus sonhos. Ele não estava com tanto sono, na verdade. Ele montaria guarda ou coisa assim. Ele...

Harry balançou a cabeça lentamente. "Achei que não".

Draco se tornou defensivo. "Eu não sou incapaz de dormir sozinho, Potter. Eu só estou completamente acordado, só isso. Claro, um bom susto deixa qualquer um acordado. Eu vou sentar aqui e vigiar -".

Ele havia pretendido se levantar e andar estoicamente até onde a fogueira havia estado antes, mas assim que estava de pé, ele percebeu que havia sido uma má idéia. Suas pernas estavam dolorosamente enrijecidas da escalada da montanha, e a visão devia ter exigido mais dele do que ele pensara. O sangue correu para longe de sua cabeça e de repente ele estava deitado no chão, abrindo os olhos, sentindo a mão de Harry em sua testa.

"Draco?".

Com um repentino lampejo de vergonha, Draco afastou a mão de Harry. "Não faz isso".

"Então não faço", Harry disse, calmamente.

"Eu só me levantei rápido demais".

"Mmmhmm".

O tom de voz condescendente de Harry irritou Draco. Com algum esforço, ele se sentou. "E eu não preciso da sua ajuda".

"Sem problemas".

A paciência de Draco acabou. O perfeito Harry Potter, sempre calmo, sempre o herói, sabe todas as respostas...desgraçado! "Por que você está fazendo isso?".

"Fazendo o quê?" Harry perguntou, com uma calma irritante.

"Eu...você..." Draco levantou as mãos, gesticulando, com os dentes apertados. Era Harry que estava entre ele e salvar sua mãe. Sua aliança com Harry a estava colocando em risco. Era culpa dele...ele não podia...

Percebendo que isso não o levava a lugar nenhum, Draco finalmente abaixou as mãos e olhou para longe. "Pare de ser gentil comigo. Eu vou ficar bem sozinho",

Houve uma longa pausa. "Bom... eu achei que devíamos ajudar um ao outro. E se eu precisar da sua ajuda pelo caminho, me sentiria melhor sabendo que eu te ajudei".

Draco virou a cabeça para ver que Harry havia virado para o outro lado. Com um suspiro, Draco agarrou a capa e começou a ajeitá-la, automaticamente deixando espaço para Harry também. "Desde quando você precisa da ajuda dealguém?".

Muito baixo, Harry respondeu, "O tempo todo."

Draco sentiu a discussão se acabando, enquanto sentou encarando Harry complemente derrotado. Vergonha, raiva, remorso e medo o atacavam por todos os lados, enquanto os olhos de Harry quase o perfuravam na luz fraca da lua.

Finalmente, ele não podia mais agüentar. Com um suspiro, ele passou a capa em volta dos ombros e se deitou de costas para Harry. Ele fechou os olhos e mordeu o lábio com força. Por alguns dias, as coisas haviam sido bem quietas, quase agradáveis. Ele quase se permitira esquecer da ameaça. Ele aproveitara a companhia de Harry. Não que teria dito em voz alta, mas ele realmente considerava Harry seu amigo agora. A viagem seria difícil, e ele sabia disso, mas era o caminho que escolhera. Seus pensamentos haviam oscilado, e ele tinha estado um pouco assustado, mas seu caminho havia sido o certo.

Agora...ele ouvira as provocações de Voldemort. O Lord das Trevas insultando a sua nova amizade e lealdade. O ameaçando. Ele ouvira os gritos de sua mãe. Ele tinha sido tão idiota, e estava tão incerto de novo.

E mais uma vez, ele se sentia muito sozinho.

Draco havia quase se resignado a uma noite longa, fria e sem sono quando sentiu um puxão na capa. Ele achou primeiro que Harry havia reaquecido a pedra, mas então ele sentiu as costas quentes de Harry contra as suas. O calor vivo radiando por sua camisa, os movimentos da respiração de Harry; era...bom.

Harry se ajeitou embaixo da capa e a ajustou por cima de si e de Draco.

Sem saber o que pensar, Draco ficou perfeitamente imóvel, tão nervoso quanto estivera na primeira noite em que eles dividiram a capa juntos. Ele queria relaxar, mas não podia. Havia Harry, vivo e quente contra ele...Alguém que ele viera a conhecer tão bem na última semana...alguém que ele silenciosamente respeitava e apreciava... alguém a quem ele fizera uma promessa.

Então, havia sua mãe. Sua própria mãe; seu próprio sangue.

Como ele podia avaliar sua lealdade?

Ele esperou que Harry dissesse alguma coisa, mas não havia nada além do som do vento nas árvores, e Draco não estava pronto para quebrar o silêncio ele mesmo.

Passou-se um longo tempo antes que Draco adormecesse.

Atrás dele, Harry estava bem acordado, esperando que Draco dissesse alguma coisa. Ele estava preocupado. O que Draco vira em sua visão? Por que ele estava tão irritado? O que ele estava escondendo? Mas Draco não disse nada.

Passou-se um longo tempo antes que Harry adormecesse.


O acampamento foi levantado em silencio com as primeiras luzes da manhã. Estava cinzento e sombrio sob uma camada grossa de neblina. Draco parecia estar num estado mental ainda pior do que estivera na noite anterior, e Harry não estava com humor para começar uma conversa. Ele mal havia dormido, e quando dormiu, seu sono havia sido infestado de sonhos bizarros pela primeira vez em dias.

Ele havia estado no Ministério da Magia, observando o vidro que continha o tempo, mas ao invés do beija-flor, ele continha uma lua em miniatura. A lua mudava de fase várias vezes, nunca ficando totalmente cheia antes de começar a diminuir de novo. À sua volta, ele ouvia relógios tiquetaqueando. Ele olhou para o lado, e Draco estava de pé a uma distância curta dele, não em um corredor do Ministério, mas em um caminho arborizado às margens de um rio. Ele colocara a mão no bolso que tinha uma corrente dourada pendurada, mas ao invés de um relógio de bolso, Draco havia puxado aquele galho que estava marcando toda noite. Estava quase do tamanho de um palito de dentes. Vamos nos atrasar, e é tudo culpa sua, ele dissera. Eu preciso ir pra casa agora. A minha mãe me chamou. Ele colocara o galho de volta no bolso e entrara no rio. Quando estava na metade, ele havia desaparecido.

Era só um sonho, não uma visão, mas tinha sido tão estranho que deixou Harry se sentindo bem inseguro. Ele havia simplesmente adormecido pensando demais, era só isso. Draco tinha estado se comportando estranhamente, e eles estavam na floresta havia tempo demais, e era só um sonho. Muito estresse, nada mais. Isso não havia deixado Harry mais confortável com a presença de Draco quando ele acordara.

Com um suspiro, Harry retornou à tarefa de levantar acampamento. Ele havia transfigurado os ossos do peixe em pedrinhas e agora as atirava no rio enquanto Draco escondia todos os traços da fogueira. Juntos, eles espalharam folhas pelo local para cobrir os lugares que eles bagunçaram enquanto se moveram e dormiram. A capa foi encolhida, mas quando Harry tentou colocá-la dentro da mochila de viagem, Draco a agarrou rapidamente e a passou em volta dos ombros.

Harry se assustou com o movimento repentino, mas se impediu de dizer qualquer coisa. O que ele diria? O frio da noite ainda estava no ar, e era a capa de Draco. Mesmo assim, parecia que Draco estava intencionalmente colocando mais uma barreira entre eles quando se cobria com a capa e então virava de costas para Harry. Harry sacudiu a cabeça, tentando não mostrar o quanto irritado estava ficando. Enquanto ele colocava a mochila no ombro, Draco falou sem se virar.

"Pra qual lado?" A sua voz estava tão fria quanto o ar, e completamente impessoal. Irritava Harry mais do que o silêncio.

Harry colocou a varinha na palma da mão. "Me oriente", ele disse, distraidamente. Quando a varinha parou de girar, Harry começou a andar para o sul sem uma palavra para Draco. Ele não olhou para trás, mas ouviu para se assegurar de que Draco estava na verdade o seguindo. O barulho das folhas confirmou que Draco não estava sendo completamente idiota. Pelo menos ele tinha senso comum suficiente para não se deixar ser pego.

O ambiente lentamente se tornou mais claro, e a neblina se dissipou, mas o céu permaneceu cinzento e nublado. Harry continuou caminhando, tentando não pensar muito. Ele não estava tendo muita sorte.

Depois de quase uma semana viajando e se tornando mais próximo da pessoa menos agradável que ele já havia conhecido - e, para a sua surpresa, gostando da situação - ele se sentiu como se tivesse voltado ao começo, ao primeiro dia. Pela primeira vez em dias ele estava viajando com Malfoy, não Draco. Ele imaginou que podia sentir os olhos de Malfoy em sua nuca como pequenos cubos de gelo, mas quando olhou para trás, Malfoy estava simplesmente olhando para o chão enquanto andava. Pelo menos ele não estava mais tropeçando em galhos e pedras.

Harry olhou de volta para frente e voltou a se concentrar em sua própria caminhada. O terreno naquela planície era diferente do que no grande vale que eles haviam deixado no dia anterior. O solo era macio e quase negro, e ficava afundando debaixo de seus pés. O ar estava pesado com uma umidade fria que atravessava direto a carne e os ossos. Metade das árvores estavam mortas, inclinadas ou faltando galhos grandes que enchiam o chão da floresta. A folhagem mais próxima do chão era na maior parte de samambaias, com uma videira de vez em quando no caminho para ter perigo suficiente de tropeçar para precisar de atenção. Não era um cenário particularmente atraente, mas Harry estava cansado demais para se importar.

Ou talvez ele estivesse cansado porque não se importava no momento.

O silêncio entre ele e Malfoy era terrivelmente desconfortável, mas Harry não ia ser o primeiro a quebrá-lo.

O frio pegajoso se tornou em umidade enquanto a manhã progredia, e Harry tirou o suéter e o amarrou em volta da cintura. Um olhar para trás lhe mostrou que Malfoy ainda estava usando a capa. Ele riu.

"Ainda com frio, Malfoy?" Assim que falou, Harry se amaldiçoou por ter falado primeiro.

Os olhos de Draco se levantaram, com uma fúria que assustou Harry. "Eu não preciso da sua emocionante preocupação de um bom menino grifinório".

Se sentindo muito ofendido, Harry olhou irritado para ele por cima do ombro. "Sinto muito mesmo", ele disse, sua voz cheia de sarcasmo. "Completamente me escapou que eu devia ser um escroto. Eu só pensei que você ia sentir calor com essa coisa".

Draco parou de andar. "Devia ter percebido, Potter sabe o que é melhor". Com um floreio dramático, ele pressionou as costas da mão contra a testa. "Oh, Potter! Você poderia, por favor, me dizer o que vestir, pois eu sou obviamente incapaz de escolher minhas próprias roupas! E por favor carregue a minha capa! É tão pesada para alguém delicado como eu!"

Harry ficou parado, completamente sem saber como reagir a isso. Malfoy olhava para ele com um sorriso de desdém que era muito familiar: o mesmo que usara desde o primeiro ano. Harry estreitou os olhos furiosamente para seu antigo rival.

"Já chega. Ouça bem, Malfoy", Harry vociferou, gostando de ver Draco se arrepiar em resposta. "Eu não sei o que você viu ontem à noite, ou por que você de repente mudou de um ser humano de voltar para o idiota mimado insuportável que eu conheci em Hogwarts, mas sabe do que mais? Eu não me importo!".

Draco quase pareceu hesitar, mas se o fez, ele encobriu imediatamente. "Ah, tenho certeza que não, herói. Não que já tenha se importado. Você só precisava de um jeito de sair das masmorras, e eu era a opção mais conveniente".

Harry não podia acreditar que estava ouvindo isso. O que havia de errado com Malfoy? Harry realmente se importava.

Não, ele havia se importado antes. Toda essa suposta amizade havia sido um erro em primeiro lugar, e agora Harry sabia o porquê. Não era nada além de uma farsa. Era um produto de uma situação desesperada. Era o Malfoy, porra! Sempre havia sido, e isso nunca havia mudado. Ele devia ter visto antes. Do jeito que Malfoy estava agindo agora, o desgraçado não merecia a menor consideração. E se era assim que Malfoy queria, era assim que ia ser.

"Tudo bem, Malfoy, acredite no que quiser. Faça do seu jeito. Foda-se essa merda de 'objetivos em comum'".

A linguagem áspera definitivamente causou uma reação em Draco, que de repente pareceu perceber que Harry estava falando sério. Seus olhos se arregalaram de surpresa, e ele pareceu se encolher um pouco para dentro de sua capa. O covarde! Isso só incitou Harry mais ainda.

"Eu quase comecei a te respeitar, sabe? Eu fui idiota o suficiente pra acreditar que você poderia realmente mudar. Mas você só fugiu por que estava se cagando de medo do Voldemort! E agora você está agindo como um idiota porque não agüenta a pressão. Deixa eu te dar uma dica, Malfoy. A vida não é fácil! Ela não cuida do seu pescoço puro sangue ou das suas mãos perfeitas e sem calos! A vida não se importa com você, ou a sua família, ou os seus amigos, ou ninguém E se você pensou que porque eu sobrevivi ao Voldemort até agora que ficar comigo deve ser uma coisa certa, você é ainda mais idiota do que eu pensei".

Por um momento, Draco parecia vacilar, então rapidamente recuperou a compostura, e Harry tinha a certeza de que estava lidando com apenas uma máscara da pessoa que Draco havia sido por anos. Só que agora, ele realmente não se importava. O tempo inteiro que eles tinham estado viajando, a tensão havia sido tão grande que a trégua e a amizade haviam sido construídas com alicerces muito fracos. Não era páreo para uma velha raiva sob grande pressão. Por mais que ele houvesse tentado consertar as coisas na noite anterior, por mais longe que eles houvessem chegado, naquele momento, não importava. O sangue latejava em seus ouvidos, seus punhos estavam cerrados, e ele estava esperando para ver o que Malfoy ia fazer em seguida.

Draco deu um passo à frente e estreitou os olhos. "E talvez você preferisse estar de volta na sua cela", ele falou, asperamente.

"Você diria isso". Harry quase chegou mais perto, mas de repente teve uma idéia melhor, e deu um passo deliberado para trás. "E talvez você também".

A fúria no rosto de Draco de repente se misturou com medo. "O que você está fazendo?".

"Não faça uma ameaça que não possa cumprir, Malfoy".

Isso era uma loucura absoluta. Depois de serem tão cuidadosos, depois de tudo o que haviam passado, Harry sabia que estava agindo além de toda a razão. Não importava no momento. Harry não estava tentando provar algum ponto egoísta. Ele não estava tentando manipular Draco. Ele estava só furioso.

"Se ele te achar, então eu tenho certeza que ele vai me achar. Do mesmo jeito, se ele me achar, ele te acha. Só que eu tenho um histórico melhor contra ele". Harry tocou a corda do Desviador enquanto deu mais um passo para trás, gostando de ver Draco se tornar vários tons mais pálido. "Agora, eu estou tentado a arriscar!".

"Ha - Harry... não", Draco se engasgou. "Eu... eu confiei em você com isso!".

"E que porra você sabe sobre confiança?" Harry disse, com severidade.

A respiração de Draco estava visivelmente rasa. "Eu sei que não é isso que você quer fazer!".

"VOCÊ NÃO SABE DROGA NENHUMA SOBRE O QUE EU QUERO!" Harry gritou.

"Você... você me disse!" Draco estava olhando o Desviador nervosamente, sem olhar para Harry. Ele não se importava com o que Harry lhe dissesse, Harry pensou amargamente. Ele só estava preocupado em salvar o próprio pescoço.

"Ah, então você só ouve quando é conveniente? Você só dá a mínima quanto é conveniente?" Harry deu outro passo para trás, quase tropeçando no solo macio. "E no segundo em que você se vê em perigo, é de volta ao começo. Oh, mundo, beije os meus lindos pés porque eu sou a porra do Draco Malfoy".

Draco passou de pálido a roxo em uma fração de segundo. "Porque você... seu arrogante, pomposo, ingrato cabeça de cicatriz!".

"Ingrato? Ingrato? VOCÊ ME METEU NISSO EM PRIMEIRO LUGAR!".

"QUANTAS VEZES EU TENHO QUE ME DESCULPAR?" Draco gritou, visivelmente desesperado.

Harry o encarou pelo que deviam ter sido apenas alguns segundos, mas que se esticaram para sempre. Finalmente, ele disse, num sussurro áspero, "Talvez até eu acreditar em você".

A boca de Draco estava ligeiramente aberta, e seus olhos estavam vermelhos, mas secos. Um dia antes, Harry não teria imaginado querer isso, mas agora, emoções irracionais eram uma desculpa suficiente. Ele tinha Draco exatamente onde o quisera por anos: a sua mercê, implorando, choramingando, patético. Ainda assim...Draco estava certo sobre uma coisa. Harry não queria voltar para Voldemort, e ele não sentenciaria ninguém - nem mesmo Draco - a esse destino.

Harry franziu a testa, determinado. "As únicas razões pelas quais eu não vou nos expor são o fato de que eu não tenho nenhuma intenção de voltar pra lá, e porque eu gosto de pensar que ainda tenho alguma honra sobrando".

Draco pareceu ligeiramente confuso, então aliviado, mas de repente seus olhos se arregalaram quando Harry deu outro passo decisivo para trás. "Harry -"

"Eu não me importo com o que você faça. Volte correndo, se quiser, mas eu com certeza não vou com você. Eu vou sobreviver. Eu sou ótimo nisso, parece". Outro passo para trás. Seu pé afundou vários centímetros no chão, mas ele o puxou para fora e recomeçou a andar.

"Harry, espera -".

"Cala a boca!" Harry gritou, e deu outro passo para trás. "É assim que vai ser. Você disse que essa coisa tem um raio de pelo menos vinte e cinco metros. Você fica pelo menos vinte desses metros atrás de mim até decidir agir como um ser humano de novo".

"Harry, pára! Por favor! Você tá -"

"Fica for a do meu caminho, Malfoy, e eu fico fora do seu. Mas você vai ter que me acompanhar, porque eu não vou esperar por você", Harry disse, calmamente. Ele começou a se virar e deu um passo à frente, colocando o pé com firmeza.

Seu pé afundou na superfície do chão.

E não parou. Seu estômago deu uma guinada quando ele começou a cair. Ele tentou se virar no lugar, e viu a expressão aterrorizada de Draco de relance, antes do chão completamente ceder debaixo dele.


N/B: Desculpem o atraso. A culpa é minha. Meu pc quebrou e não tinha como eu betar a fic.

Hanna Snape