Capítulo 11

Lily sentiu o coração acelerar, como sempre acontecia, quando sua mente vagava para longe de tudo que lhe cercava em realidade e passeava pelas memórias que rondavam sua cama antes de dormir.

Arrumou suas pastas meticulosamente sobre sua mesa e desligou o computador. Sabia que não era indicado, mas estava fazendo horas extras na editora para ocupar mais seu tempo e ficar cansada o suficiente para chegar em casa, tomar banho, beliscar qualquer coisa e dormir. Além de suas lembranças inconvenientes, não gostava do novo apartamento. O aluguel era caro demais para o que oferecia, e tinha algo nele que não a deixava de sentir em casa. Quem sabe algo faltando. Gostava de pensar que ainda não havia descoberto qual era o problema.

Juntou a bolsa para mais perto do corpo antes de sair para a rua. Inspirou o ar gelado de entardecer e pensou que estar ao ar livre lhe fazia muito bem depois de tanto tempo revisando textos intermináveis. Mas a rua lhe oferecia riscos, então olhou para os lados muitas vezes, e arriscava olhar para trás também, para ter certeza de que não estava sendo seguida. Todo o dia seu trajeto de ida e volta do trabalho exigia aquele novo ritual. Não podia se dar ao luxo de se ver em apuros por falta de atenção.

Chegou ao prédio e sentiu-se segura novamente. Puxou o cachecol para longe do pescoço e subiu as escadas devagar e segurando o corrimão. Parou em frente à porta do apartamento e girou a maçaneta para descobrir que estava aberta. Não se lembrava se a havia trancado ou não. Sentiu o coração gelar e mordeu o lábio inferior, parada no hall, sem saber se entrava no apartamento.

Amaldiçoou o dia em que decidira viver ali. Mas girou a maçaneta novamente e entrou. Estava tudo escuro e muito quieto, mas foi dar alguns passos para a sala para sentir o sangue sumir de todos os membros, tropeçando para trás e derrubando a bolsa no chão.

- Como você conseguiu entrar aqui? – ouviu-se perguntar, a voz mais trêmula do que havia previsto. Conhecia bem aquele vulto escuro, mesmo com o contraste com as luzes de fora, que entravam pelo vidro da sacada.

- Essa é a sua dúvida? Como eu entrei aqui? – perguntou ele, finalmente olhando para ela. Lily sabia que aquela conversa aconteceria cedo ou tarde, mas havia algo que precisava ser mantido em segredo, ao menos por enquanto, e temeu fraquejar. – Eu também tenho algumas perguntas pra você, Lily.

Ela baixou os olhos ao ouvir seu nome na voz dele e sentiu-se fraquejar imediatamente. – Eu sei.

Observou-o caminhar por sua sala, atenta aos movimentos dele. Juntou as mãos na frente do corpo na tentativa de fazê-las parar de tremer enquanto o via aproximar-se dela. Ele parou a uma distância curta. Estava usando uma camiseta branca lisa, simples, e dali Lily pôde notar uma ferida no supercílio esquerdo. Quis perguntar o que era, o que tinha acontecido, mas não sabia de tinha mais o direito de saber. Ele tinha o direito de saber.

James ficou parado, encarando-a por um bom tempo, provavelmente tentando entender aquela cabeça ruiva, e Lily conteve o nervosismo e esperou.

- Por que você foi embora, Lily?

A pergunta havia sido feita de maneira pausada, e séria, como se a resposta fosse a informação de que precisava para juntar as peças. Lily sentiu a primeira lágrima escorrer quente pelo rosto, e decidiu que mentir não era uma opção.

- Porque eu estava apavorada. – Era verdade. O olhar duro de James pareceu vacilar por um instante, mas Lily sabia que isso não era suficiente. – Eu fui até o Queens. Fui até lá e vi tudo desmoronando, eu vi o Benji inconsciente no chão, eu vi... Vi Sirius quase morto no meio daquele caos...

Ela pausou e desviou o olhar, enxugando o rosto com o antebraço.

- Tentei procurar por você, mas Dorcas me arrastou para longe, e fiquei na casa dela por uns dias até arranjar um lugar pra ficar. – Também era verdade.

- E? – perguntou James. Ele estava impaciente. Lily deu alguns passos para trás em direção à parede atrás de si, mas ele não desistiria tão fácil. Se estivesse em seu lugar, teria morrido certamente, corroendo-se sem saber ou entender o que havia acontecido. O fato é que eles haviam brigado feio naquele dia, mas Lily sabia que, embora a discussão a tivesse magoado muito e costumasse ser muito orgulhosa, o desentendimento não podia ser o bastante para que ela evaporasse.

- Foi isso, só isso.

- O que aconteceu naquele dia, Lily? – ele estava puto, ela sabia. O coração acelerou como havia acelerado mais cedo na editora. Apertou as mãos uma na outra.

- Eu vi tudo, fiquei desesperada...

- Você se machucou? Alguém te ameaçou? – ele se aproximou mais, e Lily sentiu as costas encostarem-se à parede, sem ter para onde correr.

- Não. – crispou os lábios, porque sabia que não havia soado convincente. As mãos tremiam muito agora, sentiu frio, como naquela noite. James escolheu o silêncio, mas aproveitou-se do fato de que ela não podia escapar e deixou sua boca a centímetros da de Lily.

- O que ele fez com você, Lily? – sua voz rouca soou gentil pela primeira vez. Sentiu-se entorpecida com o cheiro dele e segurou seus braços para firmar-se e tentar desviá-lo do assunto.

- James, eu não...

Ele selou os lábios nos dela devagar e depois se afastou de novo. Lily mal teve tempo de inspirar antes que ele se inclinasse de novo para um beijo mais urgente, de raiva e saudade. Prensou-a contra a parede e apertou sua cintura. Quando ele separou seus corpos, Lily podia escutar o próprio coração martelando contra o peito e deixou as lágrimas caírem. A respiração de James contra sua bochecha era descompassada. E, naquele mesmo instante, ele já rumava para fora, batia a porta do apartamento, distanciando-se dela e deixando-a sozinha de novo.

Lily tentou berrar para que ele voltasse, que não fosse burro, que não se colocasse em risco de novo. Sentiu que havia fracassado, que toda a farsa que as contingências lhe proporcionaram havia caído por terra, que todos o seus esforços em esconder o que havia vivido naquela noite foram em vão. Suas tentativas de afastá-lo daquele mundo sempre haviam sido inúteis. E a dor no peito latejando muito mais forte do que antes.