Cap. XII – Hera

A revelação de que a inimiga identificada por Julienne era, na verdade, Hera, a esposa do grande Zeus, havia causado uma reação muito diferente do que Raisa mesma esperava. Antes confiante de que com seus poderes, acrescidos do poderosíssimo cosmos de Hércules, seria páreo para a Deusa, agora a desagradável realidade acabara quase que completamente com sua confiança.

Não só isso, mas o fato de ter sido tão pretensiosa antes a martirizava. Aquele olhar ameaçador, e ao mesmo tempo puro, daquela que há pouco tempo atrás era a Amazona de Camaleão, impunha-lhe medo.

A brisa vinda do oceano aumentava de intensidade e agitava os cabelos das três amazonas. O único som que se podia escutar era a da maré batendo calmamente no que restou da prisão. O sol do meio dia raiava sobre a cabeça das três, formando sombras bem escuras sob seus corpos.

Raisa tentava a todo custo conter os tremores de seu corpo. Como uma amazona de Athena, ela deveria encontrar a coragem, a valentia, mesmo em situações difíceis como aquela. Mas ela nunca passou por nenhuma posição tão perigosa, e talvez nunca mais passe.

Esses pensamentos deveriam sair de sua mente, pois era hora de lutar. Mas como controlar o medo? Durante seu treinamento, Valentin ensinava que um cavaleiro deve sempre lutar, se necessário morrer lutando, com bravura e determinação, por Athena.

Sua razão dizia que a causa de Athena era justa, mas seu corpo reagia instintivamente quase lhe obrigando a fugir covardemente de lá aos prantos.

Seu queixo começara a tremer, era inevitável. O suor corria pelas sobrancelhas e lhe caia sobre os olhos, obrigando-a a limpar-se. Quando volta a sua posição original, Julienne segura-lhe ternamente a mão. Raisa olha para ela, com os olhos arregalados.

- Raisa, não se preocupe. Tudo vai dar bem no final.

Julienne tinha marcas roxas bem escuras no pescoço, alguns cortes e a marca das correntes afundando-lhe os músculos alguns milímetros. Mas seu rosto transmitia serenidade.

Naquele momento, a Amazona de Cisne parou de tremer. Por mais simples que tenham sido as palavras da Amazona de Andrômeda, de algum modo aquilo mexeu com seus nervos. Agora estava confiante para lutar, talvez até morrer, em nome de Athena. E Julienne, agora de pé ao seu lado, lhe auxiliaria naquela batalha.

Em nenhum momento a Deusa mexeu um músculo sequer. Até que, com o mesmo olhar perdido, ela tentou acabar com as esperanças delas.

- Irredutivelmente irei jogá-lo de volta ao mundo dos mortos, Hércules. Acabarei com toda esta zombaria criada por Athena. Admito que a confiança que expressam é bem comovente. Mas a vontade de um Deus é máxima e irreversível e seu destino já foi decidido.

A Amazona de Andrômeda sorri para Hera, que lhe devolve um olhar de estranheza. Um mero humano atrevia-se a gracejar em uma situação como aquela.

- Hera, se o seu desejo era que Hércules não retornasse mais ao mundo dos vivos, que fizesse logo um acordo com Hades, que fosse pessoalmente até o inferno enquanto a alma dele estava à mercê do deus das trevas inferiores. O que houve? Não vá me dizer que Zeus a traiu mais uma vez e trouxe seu amado filho de volta a Terra sem te avisar? É um caso perdido mesmo, não cansa de ser enganada.

O cosmos de Hera explode. A terra treme violentamente, fazendo com que enormes blocos se deslocassem no ar. O mar atrás de Hera afastou-se vários metros, formando uma espécie cúpula invisível de ar. Ao mesmo tempo, Julienne aumentava mais ainda o sorriso em seu rosto, debochando da deusa.

Raios riscavam o vento em direção das duas amazonas. Parecia impossível desviar daquele poder, naquela velocidade.

Raisa salta a frente e tenta segurar aquele ataque com as mãos. No entanto, era mais forte do que ela. Aquela bola de energia forçava suas mãos e braços para junto de sue corpo.

Até que não agüentou mais.

As armaduras de cisne e de andrômeda se quebravam em vários pedaços enquanto as amazonas foram arremessadas para trás. Várias explosões ocorriam por toda a pele, tão rápidas que pareciam estar sendo feitas ao mesmo tempo. Pouco sobrara das armaduras, o que mal dava pra proteger seus corpos.

A armadura, que Raisa batalhou tanto para conquistar, agora estava arrasada. Foi o que lhe veio à cabeça antes de desfalecer.

No entanto, mais uma vez, a Amazona de Andrômeda estava de pé.

- Eu esperava que somente a Amazona de Cisne suportasse este meu ataque. Vejo que a superestimei. Por outro lado, vejo que não avaliei corretamente a sua resistência, Andrômeda.

- Eu não tenho medo de você, deusinha chorosa.

- Insensata e arrogante. Me pergunto o que a faz ser tão temerária.

- Simples: é porque eu descobri o seu ponto fraco. Eu sei como derrotá-la.

Hera mantém-se calada, curiosa com a ousadia daquela simples amazona de bronze. Mesmo assim, deixou-se escutar.

- Apesar de ter este cosmos tão descomunal e monstruoso, quando me atacou o poder de destruição não foi tão grande assim. Pelo que calculei, não foi nem do nível de uma técnica de um cavaleiro de ouro. E eu direi o porquê: este receptáculo, que não é seu, te deixa fraca!

A deusa sequer reagiu àquela constatação, permanecendo com o mesmo semblante de antes, ainda deixando a amazona falar.

- E mais uma coisa: por mais que tente esconder as suas intenções e sentimentos, eu entendo como é frustrante para uma deusa olimpiana não conseguir derrubar uma amazona de bronze. Mas não se preocupe, eu não sou uma amazona comum, e em seguida a despacharei deste corpo.

Hera cerra os olhos e aponta o indicador para Julienne, que ainda se mantém confiante.

- Paladar.

Uma chama de fogo se forma dentro da boca de Andrômeda, queimando sua língua e lábios. Seus olhos arregalam-se, enquanto segura a boca. Uma fumaça negra sai por entre os dedos. Ela não conseguia falar.

- Este é o castigo por ter blasfemado. Visão. Tato.

Desta vez os olhos de Julienne se incendeiam, fazendo com que a íris se embranquecessem. Em seguida os tendões e músculos de seu corpo se contorceram nas direções opostas àquelas que deveriam. Os membros, o tronco e o pescoço estavam totalmente tortos, como se fosse deslocar o corpo todo.

- E enquanto ainda tem audição, escutará de minha boca esta mensagem: providenciarei junto a Hades o pior castigo já submetido a qualquer humano no inferno. Olfato. Sofrerá por toda a eternidade. Audição.

O nariz e os ouvidos de Julienne explodem, deixando-a em um vazio. Não tinha contato algum com o exterior, noção alguma de onde estava. Era como se não possuísse mais corpo, restando-lhe apenas a mente. Não havia noção de tempo, não havia noção de espaço, não fazia frio, não havia ruído. Não conseguia nem gritar.

- Tornou-se uma boneca de pano. Se eu desejasse, a deixaria aqui tentando desesperadamente voltar à realidade. Intuição!

O corpo da Amazona de Andrômeda estendeu-se no chão. Hera, pela primeira vez, sai de seu lugar, e aproximava de Julienne. Agachou-se sobre o corpo dela.

- Porém, com minhas próprias mãos irei enviá-la para o inferno.

Os dedos de Hera estavam prontos para cravarem-se no coração de Julienne. No entanto, mesmo a uma distancia tão curta dela, Hera atacou apenas o chão. O corpo de Julienne não estava mais aos seus pés. Sumira de sua visão sem que tivesse conseguido perceber.

Hera ergue-se do chão. Notara que o cosmos de Julienne havia se reacendido e estava atrás dela.

- O sétimo sentido... Não esperava que fosse me dar tanto trabalho, Andrômeda.

Hera prepara-se para extinguir este sentido também. Afinal, seria impossível que ela alcançasse o Oitavo Sentido. Quanto ao Nono Sentido, seria uma fantasia cogitar a possibilidade.

No entanto, ela não pôde lançar o golpe, pois seu corpo se paralizara. Como seria possível? Ao redor da deusa, o que existia era uma ventania muito poderosa, que aumentava rapidamente de velocidade. O corpo que ela havia possuído erguia-se do solo, e não conseguia mexer um músculo sequer. Aquela amazona estava lhe derrotando?

A Nebulosa de Andrômeda aparecia atrás do corpo de Julienne. Hera sentia seu corpo humano sendo esmagado. Enquanto tentava se livrar daquela ventania, ouviu uma voz em sua mente.

- O que houve? Não ia me calar? Não ia me matar? Você teve a sua chance, agora é minha vez. Destruirei seu corpo com o meu mais poderoso golpe, a Tempestade Nebulosa! Da próxima vez, venha com seu próprio receptáculo, se quiser mesmo acabar com Hércules ou os Cavaleiros de Athena... deusinha chorosa!

O sangue escorria de feridas abertas no corpo que fora possuído por Hera. Desta vez, ela demonstrava preocupação. Se aquele corpo humano não resistisse... seria humilhante. A deusa aumentou o seu cosmos, forçando mais ainda aquele corpo. O sangue agora escorria em um fluxo muito volumoso dos olhos, nariz e ouvidos. Saia de todos os poros daquele corpo.

Hera consegue mover seu braço direito. Enquanto o mesmo é cortado várias vezes pela Tempestade, os vasos capilares explodem devido ao imenso cosmos da Deusa. Era o suficiente para atacar Andrômeda.

O pescoço de Julienne começou a se contorcer para a direita. Entendendo que aquele era o ataque de Hera, Andrômeda tentou forçar o movimento oposto para, pelo menos, ganhar tempo para expulsar Hera do Santuário. Não importaria se ela morresse no processo. Ao mesmo tempo, tentava manter a intensidade da Tempestade Nebulosa. O corpo possuído por Hera também estava morrendo, talvez aquela fosse a única chance que tinha.

Por muito tempo, uma tentou matar a outra a distância. O esforço de Julienne era impressionante, ela estava se equiparando a uma deusa, mesmo esta não podendo utilizar força total. Por outro lado, Hera tinha pouco tempo antes de seu corpo ser destruído.

Os ventos da Tempestade Nebulosa cessam. Seria a derrota de Julienne, que não tem mais forças para competir com uma deusa. Andrômeda se ajoelha, enquanto usa suas ultimas forças para resistir ao ataque de Hera. Seu pescoço estava quase se quebrando.

A deusa para o ataque antes do fim após sentir o cosmos da outra amazona.

- Finalmente veio tratar pessoalmente comigo, bastardo?

Aquela não parecia mais ser Raisa. Seus cabelos estavam negros e seus olhos agora se tornaram castanhos. Hércules havia tomado conta de seu corpo, integralmente.

- Vá embora, Hera. Volte quando estiver com o seu corpo de verdade, para acertarmos as contas.

- Não seja presunçoso a ponto de querer me dar ordens, Hércules.

Hércules e Hera queimavam seus cosmos. A luz se refrata e quebra o ambiente em dois, como se o céu e a terra tivessem rachado ao meio. O restante de chão que ainda sobrara no Cabo Sounion se esfarela, só restando o mar.

Ambos flutuam sobre as águas agora violentas, a alguns metros de distância acima do mar. As nuvens mudam o formato e viram um imenso buraco nos céus. O corpo de Julienne, que estava inconsciente, cai na água e afunda.

Naquele momento, alguns guardas do Santuário, que haviam sentido antes o cosmos da batalha e só chegaram agora, olhavam espantados para a cena. Sabiam que nada podiam fazer naquela situação. Um deles correu desesperado a procura de algum cavaleiro. Nenhum deles se atreveu a se aproximar, nem sequer para salvar Julienne.

Hera fraqueja, e o cosmos de Hércules a sobrepõe. O corpo que era de Kendall parecia um animal esfolado vivo que mal podia se manter vivo, sangrando por toda a pele.

- Neste caso, Hércules, você não me deixa alternativa. Este corpo só agüentará alguns poucos segundos, portanto partirei imediatamente. Saiba que, quando estiver em meu receptáculo você não terá chance alguma.

Hercules baixa a guarda. Hera baixa a sua também e vira de costas para ir embora e preparar-se para deixar o corpo de Kendall.

- Mas antes de ir embora... Selo Divino!

O corpo de Hércules se paraliza. Os cabelos e os olhos voltam a cor normal e, agora como Raisa, a Amazona de Cisne cai de joelhos.

- Mas o quê? O cosmos de Hércules...

A deusa ri desdenhosa daquela situação.

- Sim, o cosmos e o espírito de Hércules foram selados. Eu mesma não pude matá-lo, mas meus servos completarão o trabalho, para garantir. Adeus, Amazona de Cisne.

O corpo de Kendall entra em combustão e cai na água completamente carbonizada. Um forte cheiro de carne queimada empesteia o lugar.

Mesmo chocada com a cena de Hera deixando o corpo, Raisa se recompõe para ajudar Julienne, antes que se afogasse. Ela tira a Amazona de Andrômeda da água e a segura no colo.

- Julienne! Julienne! Você está bem?

Ela abre lentamente os olhos. Tosse uma vez e mantém os lábios semi abertos.

- Julienne, você acordou, que bom. Por favor, me diga: está tudo bem?

A Amazona de Andrômeda a olha por alguns instantes. Suas íris tremem, enquanto Raisa a olhava de volta, preocupada.

- Raisa... por favor, finja que isso que farei não é nada.

- Isso o q...

E Julienne segura o rosto de Raisa enquanto a beija.