Bella foi andando ao lado das outras com determinação. Seus ombros estavam eretos e o rebolar, mesmo que singelo, era altamente sensual. Ao chegar lá, deu-me uma olhada por cima do ombro que eu poderia cair ali mesmo e rastejar aos seus pés.

Edward me acordou antes de sair para sua viagem perigosa de trabalho. Ele nunca me acorda, então senti meu coração pesado desde o momento que me despedi dele na frente do elevador. Sua promessa de voltar está marcada e mal vejo a hora. Não consegui dormir desde então e fiquei ajudando Emmett estudar o assunto da próxima reunião com os acionistas. Edward me deixou participar para falar sobre a produção do vinho e eu fiquei muito feliz que ele realmente estivesse tentando me deixar livre para ter algumas ocupações. Percebi que ele não entende a minha necessidade de sair um pouco e ocupar minha mente, ele já me entregou um jantar para organizar e aos pouquinhos sei que vai perceber que sou capaz de dar atenção a ele e ter meu tempo preenchido com outras coisas, sentindo-me útil.

Ao contrário de mim, Emmett nunca quis ir à faculdade. Quando meu pai morreu, desisti de deixar a vinícola sozinha, senti medo do desconhecido e fiquei em casa, cuidando de Jasper e da casa. Eu gostaria de voltar a estudar, mas sei que é uma guerra que ainda não tenho disposição para enfrentar com Edward. Ele não quer que eu trabalhe, dirá estudar, ainda tenho que pensar em uma maneira de convencê-lo. Alice releu os itens da reunião em voz alta enquanto nos arrumávamos para ir à empresa. Ela faltou à escola e eu liguei para sua diretora fingindo ser Esme para conseguir uma liberação.

- Será que tem como convencer Emmett a nos levar no shopping? Combinei de almoçar com Rosalie. – pedi a Alice, que revirou os olhos.

- Não sei por que você gosta dela, é boca suja e opinativa.

- Eu gosto de você mesmo que tente me manipular para fazer o que quer todos os dias. – retruquei e ela bufou.

- Tudo bem, eu preciso comprar um mousse para o meu cabelo mesmo. Ele vai reclamar, mas não vai negar.

- Oi Jas. – sorri ao ver meu irmão e ele sorriu de volta. Senti alivio. – Vem conosco?

- Edward me pediu para fazer umas coisas em casa mesmo, no escritório.

- Parece que meu marido deixou tarefas para todo mundo. – murmurei ciente que Edward conseguia controlar todo mundo mesmo distante. – Estou pronta.

Chegamos à empresa e fomos recebidos por Victória, que prontamente explicou que a sala de reuniões estava pronta e já tinha uma pequena lista de convidados para o dia de Ação de Graças para minha aprovação, mas eu não conhecia ninguém e fui obrigada a confiar no julgamento dela e experiência com Edward. Claro que não fiz parecer que estava insegura, analisei os nomes e disse que iria pensar em mais alguém, dando uma confirmação prévia.

Não conhecia os acionistas da vinícola, na verdade, era uma equipe de enólogos com uma porcentagem pequena dos lucros para que falassem bem do nosso vinho, com a unificação, eles ficaram preocupados com campanha de marketing que seria lançada então receberiam tudo em primeira mão. Contei a eles sobre como era acompanhar o processo de criação, produção e mostrei fotos pessoais para que ficassem animados. Emmett mostrou a campanha publicitária, o novo nome, entregamos algumas provas e pra mim pareceu bem divertido fazer parte da reunião. Sei que tudo que Edward faz é muito mais obscuros e isso é apenas uma porcentagem que todos pensam que ele é, ou fingem que acreditam que ele é.

Observei com fascínio a transição de Emmett. Ele foi doce e gentil com todos, coisa que normalmente não é. Seu sorriso perigoso e olhar afiado ficaram guardados e me pergunto como é a transição de Edward, saindo do seu lado obscuro para se apresentar na sociedade. No evento que fomos ele agiu como sempre, seco, com um ar perigoso que quem tem juízo se afasta, mas eu percebi que algumas pessoas tem fascínio pelo perigo e até mesmo um pouco de medo de fazer parte do alvo dele. Todos foram muito gentis comigo e extremamente bajuladores com Edward.

Em um determinado momento da noite, eu estava cansada de ouvir tantas conversas chatas. Edward e eu saímos de lá pouco depois da sobremesa, fomos passear no Central Park de madrugada, dançamos, bebemos vinho no carro e fizemos as pazes depois de uma semana inteira brigando o tempo todo. Ele ainda não me deu o cachorrinho conforme prometido, mas foi por falta de tempo. Ele teve uma semana bastante ocupada e pelas conversas que ouvi, o transatlântico está enfrentando problemas com a inspeção policial.

- Sra. Cullen, estes modelos de convite estão do seu agrado? – Victória me perguntou e observei o anel de noivado em sua mão.

- Parabéns pelo noivado. – disse e ela congelou, olhando para sua mão com óbvio desagrado. – Gosto do segundo.

- Obrigado. Assim que ficar pronto lhe envio as prévias.

Intrigada com sua reação ao noivado fui até Alice que estava de braços dados com Emmett, sussurrando e fazendo beicinho. Seguimos para o carro com meu cunhado concordando em almoçarmos no shopping porque ele precisava comprar um relógio. Aproveitei e disse que iria à loja encomendar um vestido para o dia de Ação de Graças.

- Gostou mesmo de fazer compras. – Emmett comentou.

- Gostei sim e também vou almoçar com uma amiga.

- Amiga?

- Sim. Ela é personal shopper da loja e é muito gente boa.

- Bonita?

- Bastante, mas ela acabou de sair de um relacionamento ruim e você é meio galinha, cunhado.

- Não sou galinha, estou solteiro. Bem diferente.

Sorri para sua piscadinha no espelho e seguimos no carro até o centro confuso do shopping. Olhei meu celular e não havia ainda nenhuma mensagem de Edward pra mim, mas sei que ele já falou com Emmett diversas vezes.

- Vocês dois. – Emmett apontou para Mike e mais um. – Vão com elas na loja. Encontro vocês lá e não vamos demorar.

- Tudo bem. Só encomendar, almoçar e saímos.

Rosalie é uma garota legal e muito diferente de todas as pessoas que já me relacionei. Ela realmente é muito opinativa e boca suja como Alice diz, mas apenas porque as duas tem uma personalidade forte e não se bicaram muito. Além do mais, pra mim, é muito importante conversar com alguém fora da minha atual vida confusa.

- Olha aquela blusa! – Alice deu um gritinho e saiu rebocando Mike.

Entrei na loja e o gerente logo chamou Rosalie, que veio sorrindo, mas ela estava completamente desarrumada e com cara de sono.

- O que aconteceu com você?

- Fui numa balada ontem e estou acabada.

- Antes de irmos almoçar, podemos ver aquele seu catalogo legal? Quero um vestido para um jantar de ação de graças lá em casa.

- Chegou um catálogo novo Zuhair Murad, acho que vai gostar. – disse abafando um bocejo.

Entramos na salinha que ficavam os catálogos e ela puxou uma pasta eu me sentei, folheando enquanto buscava alguns modelos que já tinha na loja para que pudesse experimentar. Separei algumas fotos que Alice poderia gostar e outras que se encaixavam razoavelmente com o meu gosto. Não estou acostumada com eventos sociais e sinto muita dificuldade de escolher minhas roupas, porque nunca sei se é demais ou de menos.

Rosalie voltou correndo e trancou a porta.

- O que houve?

- Entraram dois caras apontando uma arma na cabeça do Gerard. – sussurrou e empurrou uma cadeira em direção à porta. Fiquei de pé. – Eles estavam perguntando por você quando cheguei no corredor da escada. Atiraram nele! Atiraram nele! – gritou meio sussurrando.

Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Emmett, digitando de qualquer jeito.

- O seu segurança tá morto no fim do corredor e eles estão procurando.

Ainda era difícil de acreditar, mas meu coração estava batendo forte.

- Existe alguma saída de emergência?

- A sala dos funcionários dá direto para o corredor dos banheiros do shopping. – disse e ficou travada na parede.

- Precisamos sair daqui, Rose. Vamos até lá.

- A loja é grande, mas nem tanto. Eles podem nos ver.

- Não podemos ficar encurraladas aqui. Meu cunhado vai vir nos buscar e vai ficar tudo bem. – disse respirando fundo, minhas mãos tremiam. Abri a porta e vi o sangue escorrendo. Eu não sabia o nome daquele segurança, mas senti meu coração pesar e meu estômago revirar. Tirei os saltos, porque faziam barulho no piso, e Rosalie fez o mesmo. Meu telefone estava vibrando.

- Ali. – Rose sussurrou e apontou. Vi um cara passar com a arma em punho, mas ele não olhou em nossa direção. – Agacha.

Engatinhei até a próxima porta.

- Não vai dar pra chegar na sala dos funcionários. – disse a mostrou onde tinha dois caras na porta dos fundos. – Bella, eles querem te sequestrar.

Balancei a cabeça, assustada até os ossos, mas eu tinha que fazer alguma coisa. Todos eles estavam com armas com canos silenciadores e vimos que as persianas da loja estavam fechadas. Engatinhei até uma sala com várias araras. Entramos e fechamos a porta. Decidi que não sairia dali até Emmett chegar. Ele iria me salvar. Assim que sentei, porque minhas pernas estavam tremendo, alguém me puxou pelo cabelo, fazendo-me gritar.

- Estava esperando você vir aqui. – disse no meu ouvido. – Uhn. Parece que o chefe tem uma mulher bem gostosa. – apertou meu seio e me debati. Havia um cara em cima de Rosalie, tapando sua boca e rasgando seu vestido. Mordi o braço dele e lhe dei uma cotovelada, derrubando um manequim. – Vadia!

Alguém estava tentando derrubar a porta e eu rezei que fosse Emmett enquanto chutava com todas minhas forças o homem que estava em cima de mim. Rosalie se debatia ao meu lado e trocamos um olhar apavorado. Mordi e cravei minhas unhas até que senti uma faca na cintura dele. Dobrei meu joelho, com dor nos seios pelos seus apertos e gritei quando rasgou a minha calcinha, batendo no meu rosto. Bati com a minha cabeça no chão, tonta de dor, chorando com seus dedos dentro de mim bruscamente. Eu não conseguia gritar. Tentei fechar minhas pernas e dobrar meu joelho até que senti novamente a faca e a puxei, fechando meu braço em suas costas e enfiei diversas vezes. Ele caiu, vivo, olhando pra mim, puxei a arma da sua cintura e empurrei seu corpo, disparando na sua cabeça.

Virei para Rosalie.

- Abaixa a sua arma ou ela morre. – ele colocou o corpo dela na sua frente, apontando a sua arma na minha direção. Rosalie estava ensanguentada, tudo por minha culpa, eu deveria ter ouvido Edward. – Muito corajosa, parece que seu maridinho lhe treinou bem, mas ele não será o chefe por muito tempo. Não resista.

Olhei dentro dos olhos de Rosalie desejando que ela abaixasse a cabeça apenas um pouco. Eu não tinha certeza se conseguiria atirar sem atingir nela. Olhei para ele e atirei acima da cabeça distraindo-o e ela abaixou me dando a oportunidade de atirar no meio da sua testa. Rosalie gritou e eu também.

- Você os matou.

- Tem mais lá fora. - abaixei e peguei a arma do outro caído. – Procura meu celular.

No meio da poça de sangue, resgatei meu celular e quando a porta foi arrombada, apontei a arma. Era Emmett.

- Cristo, Bella! Porra! – gritou me abraçando apertando. – Ela está aqui! – gritou e Mike apareceu, seu rosto estava praticamente desconfigurado. Meu cunhado olhou ao redor. – Puta merda, você fez isso?

Balancei a cabeça, incapaz de falar. Olhamos para Rosalie em choque, olhando para suas mãos ensanguentadas. Olhei para meu peito apenas coberto com sutiã e lavado de sangue, virei para o lado e vomitei. Emmett sussurrou que me tiraria daqui.

- Não sem ela. – sussurrei e ele tocou em Rosalie que gritou assustada. – Rosalie, vem. Temos que ir.

Mike me envolveu em seu terno e Emmett tirou o dele, que cobria completamente Rosalie que estava só de sutiã e um short que usava por baixo do vestido. Minha saia estava pesada de sangue. A polícia estava no andar debaixo e eu não sabia até que ponto a nossa família tinha o domínio na força policial da cidade. Considerando que Edward controla até mesmo o governador, eu não tenho dúvidas. Minha mente estava em branco. Emmett me cobriu para sair da loja e entrar no elevador até a garagem. Vários carros da família estavam parados e quando entrei em um, Alice gritou e me abraçou. Ela não estava ferida, mas estava chorando. Não abracei de volta. Meus braços estavam duros.

- Bella? Edward quer falar com você. – Emmett disse suavemente.

Olhei para o telefone. Não podia falar sem desmoronar. Estava me segurando em um fio de sanidade.

- Bella? – olhei para Emmett. Eu sabia que Edward estava gritando porque era possível ouvir. Rosalie estava do meu lado, tão congelada quanto eu, mas ela não saltou quando Alice segurou sua mão que tremia violentamente.

Quando chegamos ao prédio até meus ombros tremiam. Matei duas pessoas. A dor surda entre minhas pernas era o suficiente para me dar vontade de me jogar da sacada.

- Vem, eu vou te ajudar a se limpar. – Alice disse e apenas apontei para Rosalie, que seguia em um olhar vazio. Minha cunhada entendeu e levou minha amiga pela escada em direção a um dos quartos.

- Edward está voltando. – Emmett sussurrou e eu apenas olhei, sem saber como reagir.

A televisão estava ligada e pude ver a cobertura da imprensa em alguma tragédia em vários lugares de Chicago. Meu estômago contorceu novamente. De repente a tevê apagou e Jasper parou na minha frente me olhando. Eu recuei quando sua mão tentou me tocar, ele franziu o cenho e me obriguei a movimentar os pés, subindo a escada lentamente, porque eu sabia que iria cair. Entrei no quarto e tranquei a porta, arrastei uma cadeira até a maçaneta e a travei.

Entrei no banheiro e deixei cair o terno de Mike. Tentei parar o tremor das minhas mãos, acendi a luz e meu rosto estava com diversos hematomas, no supercilio, nos lábios e bochecha. Meu pescoço tinha marcas de arranhões e a dor nos meus seios me fazia lembrar aquelas mãos imundas me tocando com tanta força. Olhei para minha barriga dolorida e abaixo do meu ventre, ainda sentia a dor da invasão. Fechei meus olhos e a sensação da faca entrando nas costas dele com todo seu peso me esmagando ainda era muito real. O olhar dele quando atirei em sua cabeça, a forma como explodiu e sangue voou para todo lado.

Os gritos e súplicas de Rosalie, tudo estava se misturando na minha cabeça como um pesadelo interminável. Escorreguei para o chão e fiquei sentada, com as pernas abraçadas, pensando que eu tinha que tomar um banho, mas não conseguia movimentar meu corpo. Estava inerte e completamente fora de mim. O cheiro do sangue estava me dando náuseas, me arrastei até a área do chuveiro, ligando o jato de água quente, sem sair do chão. Fechei meus olhos e passei a cantar uma cantiga de ninar que meu pai cantava toda noite.

Não sei quanto tempo passou, mas repeti a música incansavelmente, na esperança que os gritos parassem de ecoar pela minha cabeça. Ouvi um estrondo, mas não parei de cantar. Houve um movimento na porta do banheiro e Edward ajoelhou na minha frente, molhando-se completamente. Eu vi o meu desespero refletido em seus olhos. E tudo que estava segurando para não desmoronar escorregou dos meus dedos e fui levada por uma onda de dor, medo, raiva e muita tristeza.

Edward me pegou e me levantou, tirando meu sutiã e a minha saia, puxando o que restou da calcinha junto. Ele me lavou com a esponja e muita espuma, esfregando cada mancha de sangue, meu ou não, beijando minhas feridas enquanto minhas lágrimas escorriam pelo meu rosto. Ele fechou o chuveiro, acionando o aquecedor do quarto, envolvendo uma toalha no meu corpo e um roupão. Erguendo-me pela cintura, pegou a caixa de primeiros socorros e limpou minha ferida acima da sobrancelha, colocando um curativo, passando uma pomada que ardia em meus lábios.

- Eu sinto muito, amor. – sussurrou e deitei minha cabeça em seu peito, chorando, deixando meus soluços saírem. – Eu sinto muito não estar aqui para te proteger.

- Eu matei dois homens. – murmurei e mostrei minhas mãos. – Matei os dois. Estava com tanto medo e eu sei que mataria mais porque eu estava com medo e queria me proteger. Ele me machucou tanto...

- Oh Deus. – Edward me abraçou e gemi de dor. – Deixe-me ver você.

- Ele me tocou. Doeu. Ainda dói. – sussurrei e Edward me olhou, congelando seus movimentos.

- Aonde ele tocou, amor? – perguntou tão baixo que se não fosse o eco do banheiro, não conseguiria ouvir. – Aponte, por favor. – disse entredentes.

Tremula, levantei minha mão e apontei para os meus seios, pescoço e desci, apontando para o meio das minhas pernas. Edward arregalou os olhos e eu vi uma fúria queimar.

- Vem para cama. – pediu e desci, me enrolando. – Preciso chamar um médico.

Edward estava tremendo quando se afastou de mim e me encolhi quando ouvi coisas quebrando fora do quarto. Alguém deu um grito e eu não pude definir quem. Alice entrou com um copo de água e eu bebi tudo, sedenta.

- Rosalie está dormindo. Depois do banho ela ficou muito nervosa e Emmett ofereceu um remédio para ela relaxar. Ela tomou e deitou.

- Obrigada, Alice. – respondi me encolhendo na cama. – Cadê Edward?

- Ele estava muito violento. Saí de perto. – encolheu os ombros.

- Você pode garantir que Rosalie não fique sozinha?

- Claro. Eu vou ajudá-la, eu prometo.

Quando Edward voltou para o quarto acompanhado de um médico, Alice nos deu licença. Ela fechou a porta e meu marido segurou minha mão enquanto relatava ao médico exatamente o que aconteceu. Ele examinou meus seios, para sentir se havia uma formação errada, receitou uma pomada para os hematomas e no exame íntimo, constatou que não havia nenhum ferimento grave e desaconselhou sexo por alguns dias, também receitando uma pomada cicatrizante. Ele passou uma série de exames que são procedimentos nestes casos e a realidade de um resultado permanente me deixou apavorada.

- Leve-a amanhã cedo à clínica e pedirei urgência nos resultados.

Edward acompanhou o médico e eu deitei novamente.

- Tome. É para você dormir um pouco. –deu-me um pequeno comprimido.

- Não me deixa sozinha.

- Eu nunca vou te deixar. – respondeu e tomei o remédio, desejando descansar. - É melhor descansar um pouco agora. O Dr. Banner disse que é melhor que durma já que tem histórico de ataques de pânico.

- Achei que fosse ter um quando Rosalie entrou dizendo que haviam matado o gerente da loja. Demorei acreditar na verdade, mas depois foi me subindo um pânico que tive que controlar. Eu matei duas pessoas.

- Você é a pessoa mais forte e corajosa que conheço. E lutou pela sua vida e de sua amiga. Você precisou matá-los para sobreviver, amor. Não desistiu, estou muito feliz que não tenha desistido de lutar pela sua vida. – disse baixinho e beijou minha testa. – Eu não sei o que faria sem você.

Edward deitou ao meu lado e suas palavras trouxeram um acalento ao meu coração.

- Minha alma também está condenada agora. – sussurrei e peguei no sono.

Sentei na cama desorientada. Tive um sonho confuso e a dor de cabeça me impedia de identificar a hora no relógio digital ao lado da cama. Cocei os olhos e senti dor. Edward não estava do meu lado. Levantei, vesti uma camisola, enrolei-me no robe e no roupão, sentindo frio. Abri a porta do quarto e tudo estava silencioso. Rosalie estava dormindo, completamente apagada, agarrada ao travesseiro. Alice também e pelo frasco ao lado de sua cama, também foi medicada. O escritório estava vazio, desci a escada. Jasper estava na sala limpando uma arma e ele ficou de pé assim que me viu.

- Venha aqui, pelo amor de Deus. – pediu me abraçando apertado. – Sinto muito, irmã. Me perdoe não estar com você.

- Não havia como você e nem Edward saber, não sinta culpa, não culpo nenhum de vocês... Na verdade, eu fui avisada. Meu marido tem conversado comigo que sou ingênua demais para entender o perigo do mundo que vivemos e nunca aceitei. Agora eu sei que Edward estava certo em ser cauteloso comigo. Eu me separei de Alice e Mike, deveríamos ter ficados juntos, assim...

- Não se culpe. Isso nunca deveria ter acontecido com você, por favor, não se culpe.

- Eu matei duas pessoas. Quando iria imaginar que aquelas aulas que você e Edward me deram fariam sentido?

- Emmett disse que você atirou na cabeça de ambos.

- Era onde eu tinha certeza que eles não ficariam vivos. – respondi ciente que assim como todos eles, inconsciente, também tenho um lado obscuro que veio a tona no momento que precisei lutar por mim mesma.

- Eu também matei pessoas ontem e não soube lidar depois, mas no fim do dia, quando deitei na cama, eu percebi que se eu não tivesse os matado, você estaria chorando agora. Então, sempre que alguém tentar te ferir lute pensando no quanto todos nós iremos ficar machucados se você partir. Você é minha família, irmã. Perdemos nossos pais, só temos um ao outro, eu não vou te deixar e não quero que você me deixe.

Jasper me abraçou apertado por um longo tempo e ficamos sentados na sala, juntos. Edward chegou em casa no amanhecer e ele estava no estado de espírito fatal, com a roupa completamente ensanguentada. Não aguentava mais ver sangue na minha frente. No fundo, eu sabia que ele não estava ferido, mas levantei e fui atrás dele no quarto, batendo e derrubando coisas, violento a sua forma. Esperei que se acalmasse, eu não tinha condições de acalmá-lo. E agora sei que sempre que ele volta assim é quando algo ruim acontece e ele certamente matou algumas pessoas no caminho.

- Você está bem? – perguntou e depois riu sem humor. – É obvio que não. – murmurou e entrou no chuveiro, lavando o sangue. Sentei no sanitário, querendo ficar perto. – Temos que ir à clínica médica daqui a pouco.

- Devemos levar Rosalie. Ela também...

- Entendo.

- Ela precisa ser protegida. – sussurrei mordendo meu lábio. – Eu não te ouvi e agora ela está totalmente envolvida nessa bagunça. A vida dela já é uma confusão e olha só o que eu fiz...

- Sim... Você não me ouviu. – Edward não me poupou. – Você precisa me ouvir, mas seguiu a sua natureza de amar e abraçar pessoas que você sente que merece, mas infelizmente você não pode fazer amigos. Em nosso mundo, não podemos em confiar em ninguém.

- Eu confio, infelizmente.

- Sei que sim. Eu também confio em muitas pessoas apesar de achar que não, sei que no fundo confio no meu irmão, no meu pai, no meu avô e até mesmo na maluca da minha irmã, mas todas essas pessoas podem me ferir.

- Confio em você.

- E eu também confio em você, mas é minha esposa. Jurei te proteger... Falhei.

Fiquei de pé.

- Você não falhou. – sussurrei tocando o vidro que nos separava. – Você me protegeu, orientou e me ensinou a atirar mesmo contra sua a própria vontade, eu não te ouvi, mas você esteve o tempo todo me sinalizando que eu deveria ser mais esperta e na minha recusa de aceitar suas ordens, ignorei. Não te culpo e não quero me culpar. Não foi uma falha.

- Foi uma falha, amor. Eu deveria ter cuidado melhor...

- E cuidou. Você está aqui agora. Cumpriu a sua promessa e voltou pra mim.

- Sempre vou voltar, Bella. – Edward envolveu-se em uma toalha. – Passarei o restante da minha vida compensando a você o que aconteceu hoje. Me perdoa, minha vida. – segurou meu rosto.

- Nós encontraremos um meio termo. – sussurrei contra seus lábios. – Não quero te perder para a culpa. Não quero me perder para o medo.

- Você me segura e eu te seguro. – sussurrou bem baixinho no meu ouvido. – Eu encontrei o restante do grupo e matei todos eles. Senti prazer em olhar profundamente nos olhos deles e ver a vida indo embora. Eu nunca senti prazer em matar ninguém, era apenas o que eu tinha que fazer, mas hoje, depois que te encontrei tão quebrada nesse chuveiro, eu senti o verdadeiro gosto da vingança. Não vou parar até terminar.

Eu não podia dizer para Edward não entrar nessa, porque no fundo, eu queria que ele pegasse os responsáveis por essa tragédia na minha vida. Mesmo que eu tenha matado os dois que me pegaram, eles estavam ali por algo muito maior. Não desejei ser hipócrita e não fui. Na verdade, eu me deliciei com o conforto e prazer de que meu marido estava lutando por mim. Seu abraço firme me fez perceber o quanto só ele me faz sentir segura no mundo e o quão profunda é a nossa ligação. A nossa dor é compartilhada. Edward se mostrou carinhoso e compreensivo durante nosso noivado, ele não é um marido ruim, temos nossos momentos de estresse, brigas, farpas e grosserias, mas ele sempre está me dando suporte.

Arrumei-me sem muito esforço. Edward disse que a imprensa sabia do ataque e obviamente ninguém estava mencionando que era envolvido à Família e sim uma tentativa de sequestro, o que não deixa de ser verdade. Ele me informou que há fotógrafos na porta do prédio e que não deveria me preocupar porque eles não me veriam. Coloquei um vestido preto, sem sutiã e mal penteei o cabelo, deixando a maquiagem e qualquer joia de lado. Entrei no quarto de Rosalie e ela estava sentada na cama, olhando para janela.

- O que aconteceu ontem foi real? – perguntou baixinho.

- Infelizmente.

- Você salvou minha vida. – sussurrou e sentei ao seu lado. Ela pegou minha mão. – Obrigada.

- Eu te coloquei nessa, não me agradeça.

- E tirou então isso é o que importa para mim. – murmurou e entrelaçou nossos dedos. – Sonhei a noite inteira com aquele homem me tocando.

- Eu também. Edward ficou conversando comigo para me distrair.

- Não consegui acordar, mesmo que tentasse, era um sonho infinito.

- Nós vamos te proteger.

- Então é verdade? Gerard me disse, mas eu achei que ele estava cheio de merda e fofoca como sempre. Não dá para dar créditos a um cara que idolatrava a Kim Kardashian.

- Ele morreu por minha culpa.

Rosalie ficou em silêncio.

- Olha. – respirei fundo. – Edward diz que o nome máfia é coisa de Hollywood, mas eu não vejo outra forma como te explicar quem somos. E te peço perdão por ter te envolvido nisso. – disse e ela virou pra mim, seus olhos azuis estavam grandes, seu rosto pálido e o cabelo desgrenhado. Ouviu atentamente o que expliquei sobre a família e que agora, infelizmente, ela faria parte porque precisava ser protegida.

- Eu nunca fiz parte de uma família. – disse depois de um bom tempo em silêncio. – Não te culpo, Bella. Não tenho o que te perdoar.

- Muita coisa vai mudar na sua vida. Não sei os detalhes, mas Edward disse que talvez você precise se mudar. Temos que ir ao médico agora e depois ele conversa com você.

- Seu marido é quem manda e você é a primeira dama?

- É. Basicamente. – encolhi os ombros porque não era basicamente, era total verdade.

- Eu nunca fiz parte de uma família. – repetiu voltando a olhar pela janela.

Demoraria um tempo para que a ficha caísse e percebesse que definitivamente não é uma viagem a Disney. Alice acordou e pegamos algumas roupas minhas para Rosalie vestir. Edward e Emmett estavam discutindo na sala quando descemos e eles pararam. Meu marido sorriu pra mim. Abracei Emmett apertado, pegando-o de surpresa.

- Obrigada, cunhado.

- Eu cheguei tarde.

- Você chegou na hora certa. – pisquei para afastar as lágrimas. – Essa é Rosalie, minha amiga e eu já contei a ela o que deve saber. – apresentei e ela acenou, olhando para os dois homens com curiosidade e medo. – Esse é meu marido, Edward. E o grande homem é meu cunhado, Emmett.

- Obrigada por ontem. – Rose disse baixinho a Emmett e eu não entendi o porquê, devo ter perdido algo. Ela virou para Edward. – Obrigada pela acolhida. Você tem uma esposa maravilhosa, ela salvou a minha vida ontem sem medo.

- Ela é perfeita. – Edward concordou e beijou minha cabeça. – Vocês precisam comer e nós devemos ir. Rosalie, você será medicada e examinada. Não se preocupe com nada, agora que faz parte da família, eu tomo conta de tudo.

Eu não estava com fome e com todos sentados a mesa, parecia que iriamos ao funeral de alguém próximo e ironicamente pensei que estava no velório da minha própria inocência. Minha vida, meus pensamentos e ações nunca mais serão os mesmos. Sinto que a cada segundo estou mudando, transformando e cada momento que penso e relembro o que aconteceu ontem, parte de mim quebra, desmancha e desaparece. Meu pai deve ter lutado muito para me manter fora desse mundo, eu não sei se ele tinha esperanças que de alguma forma eu nunca fizesse parte ou simplesmente achou que seria mais fácil descobrir quando adulta. Ou ele tinha vergonha de ser quem era. Não tenho medo de quem eu posso vir a ser.

Ninguém contribuiu para um assunto. Edward me olhava intensamente, Emmett olhava para Rosalie, que olhava para o seu prato, Alice e Jasper estavam nos olhando. E assim eu percebi que aquela era a minha família de verdade e eu iria lutar com e por eles. Não há outra opção além de lutar. Segurei o medalhão da família que estava no meu pescoço, lembrando o quanto aquele homem tentou arrancá-lo. Passei o polegar em cima da imagem de São Francisco de Assis que ficava bem ao meio do círculo confuso com uma citação que encaixava perfeitamente no meu momento: "Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível".