DISCLAIMER: Harry Potter não é meu. Sorry.
NOTA: Terminei esse capítulo há uns cinco minutos, mas estava ansiosa para postá-lo. Revisei, mas não foi betado. Leia por sua conta e risco.
Cicatrizes de Batalha
Não é verdade que o sofrimento torna melhores as pessoas. O sofrimento frequentemente embrutece, tira a sensibilidade, tira a esperança, torna cruéis as pessoas. Um Deus – ou força cósmica – que usasse o sofrimento para a evolução seria muito curto de inteligência, não saberia aquilo que os homens aprenderam: que a única força capaz de fazer as pessoas ficarem melhores é o amor. – Rubem Alves
Novembro, 1976.
Lilly seguiu para a classe de Poções Avançadas, uma pilha considerável de livros meio que escorregando em seus braços, que tremiam devido ao peso. Você é uma bruxa ou não? – Severo havia ralhado com ela uma vez, quando ainda estavam no primeiro ano e sua amizade parecia que duraria pela eternidade. Ele então havia sacado a varinha e levitado os livros para ela até a sala de aula. Com o tempo seus modos ficaram sofisticados e ele ensinou-a a reduzir o tamanho dos livros até que coubessem em sua bolsa. Ela, no entanto, sempre se pegava realizando pequenas tarefas no modo trouxa, quase alheia às comodidades ocasionadas por um tolo acenar de varinha. Mas Severo sempre esteve ali para lembra-la desses pequenos deslizes. Até o ano anterior.
Sev. – ela pensou, saudosa. Custava-lhe um pouco admitir que sentia falta dele, principalmente depois que ele havia dito aquelas terríveis palavras: Sangue-ruim. O irônico é que foi ele quem um dia lhe explicou o que a expressão queria dizer. Foi ele que, nos tempos mais remotos de sua infância já perdida, havia, com tal verdade em seus olhos que chegava a doer, lhe dito: Não faz diferença alguma.
E ela acreditou. Ela levou consigo essas palavras como uma verdade absoluta e imutável, mas a mentira dele a impediu de se preparar devidamente. Não faz diferença alguma. Portanto, na primeira vez que ela sentiu o desprezo absoluto sendo lançado em sua face com essas simples palavras ela não estava preparada para a dor que sentiu. Lilly Evans não havia sido criada para lidar com a rejeição. Com o preconceito.
Eu não sou como eles Lilly. Eu não sou. – Severo a havia dito, enquanto a abraçava e enxugava as lágrimas copiosas que derramava. – Eu lhe disse uma vez e volto a dizer: não faz diferença alguma. Para mim não faz diferença alguma.
E novamente ela acreditou nas palavras dele. Porque ele era o seu melhor amigo desde sempre e amigos não deveriam mentir uns para os outros. Mas esse tempo de verdades simples havia sido deixado para trás, na aurora dourada da infância. Agora ela sabia melhor.
Ela o avistou, sentado sozinho na porta da sala de aula, rabiscando febrilmente o próprio livro de poções. Ele tinha aquela expressão focada dele, com as sobrancelhas franzidas, os lábios comprimidos, os cabelos escorregando de detrás das orelhas. Ele levantou os olhos quando ouviu os passos dela se aproximando e Lilly notou a mão direita disparar em direção à varinha.
Parou quando viu que era ela e um silêncio desconfortável pairou entre eles. Ela desejou que pudesse voltar atrás, refazer os seus passos e atrasar-se propositalmente apenas para evitar esse momento constrangedor. Como ela não possuía um vira-tempo ela resignou-se a suspirar e foi encostar-se em uma parede também, recusando-se a olhar na direção dele, enquanto esperava a chegada do professor Slughorn.
Ela ouviu quando ele se levantou, mantendo os olhos resolutamente presos no cinza frio de uma parede. Oi – foi menos que um sussurro, mas no silêncio ensurdecedor das masmorras ela ouviu claramente. Aliás pareceu ecoar por todo o corredor, voltando em seus ouvidos num eco da voz dele. Oi... Oi... Oi...
Por um momento ela quis olhar para ele. Verdadeiramente olhar em seus olhos e ver todo o amor que ela sempre viu ali. Ela sabia. Oh, ela sempre soube. A devoção dele era clara como o raiar do dia. Mas ela podia fingir que não sabia, contanto que ele não dissesse as palavras. Ela podia fingir que nunca notou e ser poupada de fazer essa escolha.
Porque uma partezinha dela achava que talvez o amasse também. Porque ela amava o jeito que os dedos dele ficavam sujos de tinta, porque ele sempre escrevia muito rápido e não dava tempo de a tinta ser absorvida completamente pelo pergaminho. Ou o jeito como ele de repente parava, com os olhos fixos em um ponto qualquer e as sobrancelhas franzidas e ela sabia que ele estava perdido em pensamentos. Ou o modo como ele sempre cheirava a especiarias. Ou o cabelo preto de corvo. Ou como ele sorria raramente, porque ela sabia que ele sentia vergonha dos dentes tortos e amarelados.
Sim, talvez houve um momento em que ela poderia ter correspondido os sentimentos dele. Mas agora havia o peso dessas duas palavras e toda a amargura que apenas um coração feminino poderia carregar. Se ela era capaz de perdoá-lo? Nesse momento não. Sua traição parecia fresca demais. Se esse sentimento inconsolável de perda algum dia iria acabar? Ela achava que não, Severo Snape lhe havia sido caro demais.
_ Ao menos olhe para mim Lilly. – ele disse, com uma voz pequena e triste.
Não. – porque os olhos dele seriam sua perdição, ela precisava, precisava fazê-lo sentir essa dor fresca que ela sempre sentia quando revivia suas palavras. Ela rangeu os dentes, ignorando aquela qualidade miúda na voz dele que sempre fez com que quisesse consolá-lo. E o que havia para eles afinal? Porque tentar remendar os fiapos dessa amizade, quando eles claramente haviam se afastado um do outro ao longo dos anos? Quando ele estava se tornando tudo o que ela odiava? Quando ela era tudo o que ele desprezava?
Não fazia sentido costurar a ferida apenas para rasga-la aberta outra vez. Que ele deixasse essa ferida curar sozinha, levaria tempo e doeria, mas seria melhor no final. Não seria?
Era sábado, Severo estava deitado tranquilamente à sombra de uma árvore. As mãos estavam cruzadas atrás da cabeça, as pernas longas cruzadas na altura dos tornozelos. As sobrancelhas franzidas em profunda contemplação. Ele pensava sobre Jane e... Lilly.
A mera lembrança de Jane, seu corpo quente e os lábios desejosos, assim suavemente pressionada sobre seu corpo sedento de atenção. Jane, Jane... É claro que ele gostava dela. Primeiro sua inteligência o havia encantado, há não mais que um par de meses atrás, quando estavam cercados de livros na velha loja da sra. Greengrass. Depois, ela havia se mostrado uma companhia adorável, alguém que conseguia fazê-lo sentir-se perfeitamente confortável, o que era algo que não acontecia com frequência. Havia sempre essa energia que parecia cerca-los, uma tensão que ele não sabia explicar. Algo sobre essa garota o intrigava.
Os olhos dela eram os de quem tinha visto o lado feio da vida. Algumas vezes pareciam quase pesarosos, mas se iluminavam quando o viam de um jeito que o fazia quase esquecer de respirar. Pareciam ver através dele, direto em sua alma acinzentada e aceita-lo. Eram olhos que o olhavam, viam quem ele era de verdade e ainda assim continuavam a encará-lo, sem medo. Isso o assustava um pouco.
Sim, ele gostava de Jane. Ele gostava muito. Mas ele amava Lilly.
Ela havia sido o centro do seu mundo há tanto tempo. Com ela havia compartilhado seus sonhos, seus medos, suas inseguranças. Mas não todas elas. Algumas ele sempre guardou para si, temeroso que pudesse assustá-la. Agora já não importava mais. O tempo deles parecia que havia passado.
Ele havia escrito algumas cartas para ela durante o verão, todas começavam e terminavam do mesmo jeito: Me perdoe. Todas estavam guardadas, intactas, no fundo do seu malão. Será que ela nunca compreendeu?
Ele sempre foi sozinho. Sempre o menino estranho, alienado, rejeitado. Foi educado em casa, como a maioria dos bruxos e nunca teve a oportunidade de fazer muitos amigos. Quando ele a viu pela primeira vez, pensou absurdamente que parecia-se com uma dessas ninfas que habitavam as estórias que sua mãe as vezes lhe contava. E ela foi gentil, não se distanciou de sua estranheza.
Mas eles eram estranhos não eram? Um par improvável. A prova de que milagres existiam era o fato de que haviam permanecido juntos por tanto tempo. Ela jamais compreenderia suas motivações, o ódio que queimava em suas entranhas. O ressentimento que o perseguia. Não, Lilly era suave demais. Perfeita demais.
Jane, por outro lado, compartilhava essa sua estranheza. Era como um vaso de cristal que se quebrou. Você pode juntar todos os cacos e colá-los novamente, mas ele nunca voltará a ser perfeito. As linhas que marcam cada uma das fissuras estarão sempre ali, cicatrizes que jamais se apagarão. Um vaso quebrado sempre reconhece outro.
Era possível sentir essas coisas que estava sentindo? Severo sabia há muito tempo que o mundo não estava dividido entre o preto e branco, mas que na verdade abundavam os tons de cinza. Mas será que, quando se trata de sentimentos, tudo também pode ser cinza? Certamente não é possível amar uma pessoa e ter sentimentos por outra.
Um lado mais banal de si mesmo poderia dizer que, na verdade, ele realmente amava Lilly e que Jane, sobretudo depois daquela última noite, mexia com partes de sua anatomia que não estavam diretamente relacionadas com o seu coração. Mas não era isso, era?
Sim, bem, ele era um homem depois de tudo. Ele até podia entender a atração sexual. Culpava os instintos masculinos. Mas havia mais, mais para o que ele estava começando a compartilhar com Jane. E havia Lilly.
Sim, ele gostava de Jane. Ele gostava muito. Mas ele amava Lilly. Não amava?
O banheiro estava esfumaçado e quente. Hermione estava sentada debaixo do chuveiro precário, deixando a água escorrer por seu corpo nu na esperança que lavasse todas as coisas que ela sabia que não podiam ser lavadas. Os dedos já estavam enrugados. Ela se perguntou o que aconteceria com seu corpo se ela ficasse ali para sempre? Enrugaria todo e por fim derreteria, escoando pelo ralo? Ah, se fosse assim tão fácil.
Ela finalmente se levantou, sentindo as pernas um pouco dormentes. Enrolou uma toalha precariamente ao redor de si mesma, avançando para se posicionar em frente ao lavabo. Sua mão se estendeu para desembaçar o espelho ovalado e ela encontrou seus olhos no reflexo.
Havia olheiras características de noites mal dormidas e as linha de seu rosto pareciam particularmente pronunciadas. Um cansaço que se infiltrou até em seus ossos. O que você esperava Granger, que seus demônios ficassem para trás?
Granger não. – ela sussurrou para si mesma – Greengrass. Sim, mais um fantasma para se juntar a horda que a perseguia. O fantasma de uma menininha morta.
Todas as manhãs ela faria a mesma coisa: ficar na frente de um espelho e tentar se convencer de que era Jane Greengrass. Jane, ela repetiria para si mesma vezes sem fim, Jane Greengrass. Com esperança de que um dia os olhos que a encaravam de volta no espelho não pertencessem a Hermione Granger.
Duzentas e dez mil cento e trinta e sete horas ainda precisavam ser vividas para que ela voltasse no momento exato em que partiu, em um quarto na Toca, com um vestido branco e um buquê nas mãos. Como diabos ela havia conseguido voltar vinte e quatro anos no passado? Vira-tempos não haviam sido feitos para viagens dessa proporção, é óbvio que a quantidade de magia necessária para trazê-la a essa época acabaria por sobrecarregar o artefato mágico. Mas isso ainda não explicava porque ela havia sido transportada para os jardins da família Greengrass e não simplesmente reaparecer na Toca.
Eu estarei esperando na hora em que você voltar. – Não foi isso que a Sra. Greengrass havia dito? Bem, obviamente que a mulher sabia o que ia acontecer.
Hermione pensou o que faria se soubesse? Ela teria, no auge do seu desespero, arriscado a girar o vira-tempo se soubesse que voltaria mais de vinte anos no tempo? Não, ela tinha certeza que ela não tomaria essa decisão.
Ela teria se casado com Ronald e estaria lutando para fazer as coisas darem certo. Provavelmente teria se candidatado a um emprego no Ministério, como todos pareciam pensar ser a coisa certa a ser feita. Eles viveriam um casamento feliz e suave, desde que ela o mantivesse alimentado o suficiente. Ela ganharia mais dinheiro que ele e teria o maior sucesso profissional. Ele ficaria ressentido. Ela lhe deixaria ter suas pequenas vitórias em casa, como escolher o local de férias ou carrega-la para jogos de quadribol, na tentativa de apaziguar as coisas. Quando a hora chegasse ela lhe daria filhos. Ele ficaria desesperado, num primeiro momento. Assustado com a responsabilidade de cuidar de alguém. Mas depois ele se acostumaria, e lhe daria flores ou algo que o avisaram ser romântico o suficiente para compensar suas reações descabidas.
Seriam dois, um menino e uma menina. Durante onze anos suas vidas seriam preenchidas com os meninos, mas depois eles iriam para Hogwarts e eles se encontrariam presos em uma casa estranhamente vazia e silenciosa, tendo que encarar o fato de que não havia restado muito em comum entre eles, a não ser o fato de que eram marido e mulher. E eles dormiriam de costas um para o outro na cama, salvo nos dias cada vez mais raros em que praticariam a sombra daquilo que um dia chamaram de fazer amor.
Ela sabia, no fundo de suas entranhas, que Ron teria sido seu maior erro, não só porque ambos acabariam por liquidar qualquer chance de serem felizes, mas também porque a amargura dessa infelicidade quase certa acabaria por destruir todas as lembranças puras que haviam criado. Ron não estava preparado para lidar com sua feiura, com esses sentimentos menos que bons que haviam sobrado nela no rescaldo da guerra. Ron que ainda era meio inocente como uma criança grande demais. Doce, doce Ron.
Mas era tarde demais, ambos não viveram juntos por tempo o suficiente para se odiarem e por isso uma dor surda acompanhava o remorso da dor que ela tinha certeza que ele estava sentindo desde a sua partida. Por quanto tempo eles ainda a procurariam? Quanto demoraria para que eles encontrassem as respostas? Em algum momento eles descobririam um jeito de resgatá-la?
A pergunta final, porém, a mais fatal de todas, aquela que era afiada feito um punhal era: Se esse momento chegasse, se Ron ou alguns dos seus amigos se materializa-se nesse tempo, oferecendo-lhe a chance de voltar para casa, ela aceitaria?
Hermione encontrou seus olhos no espelho com assombro. Será? Ela não sabia. Lembrou-se do beijo manso de Severo, de todas as sensações que, mesmo agora, suscitava. Será que ela voltaria? Ela não sabia.
Jane. Jane Greengrass. – voltou a pensar, mas de alguma forma sabia que jamais se convenceria.
A barriga de Slughorn era tão protuberante quanto ela se lembrava e ele continuava a se parecer terrivelmente com uma morsa. Uma morsa com uma cabeleira cor de palha é verdade, mas ainda assim uma morsa. Hermione estava no escritório do professor de poções para conversar sobre suas atribuições especiais, enquanto aluna em regime especial.
_ Bem, senhorita Greengrass, devo assumir que fiquei surpreso com o resultado das suas avaliações. O seu ensaio sobre o uso alternativo de bile de trestálio, particularmente, foi um dos melhores que tive a oportunidade de avaliar.
_ Um dos melhores? – ela deixou escapar, antes que pudesse se conter, deixando o sorriso morrer. Aparentemente, seu desempenho em poções, iria ser para sempre subestimado por seus professores. Primeiro Snape, que se recusava terminantemente a valorizá-la em suas aulas, embora ela claramente fosse a mais apta. Posteriormente Harry, que lhe roubaria os holofotes, ao ser ajudado por... Snape (mesmo que o homem não estivesse consciente disso no momento).
_ De fato! – o professor não parecia consciente de sua ligeira decepção – Você fez uma revisão bastante completa acerca do tema, o que não poderia deixar de ser já que a senhorita me entregou um metro e meio a mais de pergaminho do que o solicitado. O pobre Severo reclamou enfaticamente sobre isso, eu devo dizer.
_ Porquê Severo reclamaria sobre o tamanho do meu trabalho? – estava confusa.
_ Ora, a correção de trabalhos faz parte das atribuições do estágio dele.
_ O quê? – sim, ela estava confusa – Estamos falando do mesmo Severo? Severo Snape?
_ Oh, ele não chegou a lhe contar? Vi vocês conversando no baile semana passada e presumi logo que ele havia lhe contado, mas o rapaz é mesmo muito reservado, então seu silêncio não é exatamente surpreendente. Converse com ele sobre isso depois, tenho certeza que ele ficará satisfeito em contar. Agora, sobre suas atribuições para o próximo mês...
_ Eu não sabia que havia um estágio de Poções. – Hermione disse, à guisa de bom dia. O tom dela transparecia que, se ela soubesse, provavelmente teria entrado no páreo.
O encontrou deitado pacificamente à sombra de uma árvore, um livro aberto descansando em seu abdômen, enquanto ele parecia perdido em pensamentos. Mulciber e Dolohov estavam jogando snap explosivo à alguns passos de distância. Severo abriu um único olho ao ouvir sua voz e ela pode notar uma sobrancelha levemente chamuscada. – Sempre tão cortes, senhorita Greengrass. Um bom dia para você também.
Hermione bufou e atirou-se ao seu lado – Então?
Snape sentou-se, dobrando a ponta de uma página para marca-la antes de fechar o livro – Não há nenhum estágio em Poções.
Ela estreitou os olhos para ele, como um gato – Mas Professor Slughorn acabou de deixar escapar que você é o estagiário dele – Ela não pode conter o tom levemente acusador em sua voz.
Severo se sentou com um suspiro, parecendo desconfortável - É uma situação excepcional – ele disse cuidadosamente – Não creio que tenha havido um estágio assim antes.
_ Como assim? – Definitivamente não está em Hogwarts, uma história.
_ Bem, me ofereceram a vaga depois dos NOM's. Aparentemente eu consegui impressionar o avaliador.
_ Aparentemente eu consegui impressionar o avaliador. – Charles conseguiu com algum sucesso imitar o tom de Severo, embora não tenha se dignado a se virar para olhar para eles – Conta outra Snape. Você praticamente chutou a bunda do bastardo. Foi memorável.
_ O que aconteceu? – ela estava curiosa.
_ Eu apenas demonstrei as minhas capacidades. Foi isso. – Severo estava desconfortável, ele realmente parecia não gostar de estar sob os holofotes dessa conversa.
_ Ele cozinhou a Wolfsbane.
_ O QUÊ? – Hermione sabia que poucos Mestres em Poções no mundo conseguiam cozinhar a Wolfsbane e que Snape viria a ser um deles, mas parecia improvável que ele tivesse feito isso tão jovem - É impossível cozinhar a Wolfsbane em três horas.
Antes que Severo pudesse abrir a boca, Mulciber tornou a falar, dessa vez se virando para eles – Ele não fez em três horas, fez em duas porque foi depois que ele terminou o sonífero que era o teste daquele dia.
_ Você não está falando sério. – Hermione se virou para Severou e notou estranhamente que ele parecia corado.
_ Não seja tolo, Charles. – Ele se remexeu desconfortável – Eu só executei um quarto da preparação da Wolfsbane, ela ainda precisaria de dois dias para ficar pronta.
_ Severo, pare com essa falsa modéstia ou eu vou ser obrigado a lhe dar um cachecol amarelo Lufa-Lufa de natal. E vou logo avisando que ficaria terrível em você. Todos nós sabemos que poucas pessoas no mundo fazem essa poção e nenhuma delas é um estudante. – dessa vez foi Dolohov.
_ Mas como diabos isso aconteceu? – Hermione estava expectante.
Severo abriu a boca, mas não conseguiu ir muito além, sendo interrompido por Dolohov. – Shiu! Você é terrível contando essa história Snape.
_ Todos chegamos nervosos para a prova, porque era nossa primeira avaliação. OOOOOObviamente que todo mundo sabia que esse bastardo aqui se sairia bem, mas ninguém esperava por isso.
Havia alguma coisa nos modos de Dolohov que se destacavam para Hermione, embora ela não pudesse dizer exatamente o que, ela se lembrava fortemente de ter essa mesma sensação com o Justino Finch-Fletchley e só foi entender o que era quando o pegou dando uns amassos com um garoto da corvinal durante suas rondas como monitora.
_ Todo mundo concentrado na prova... diabos, eu ainda nem tinha adicionado o asfódelo em pó... quando ele se levantou e disse que havia terminado. Então veio o examinador, ele ficava te encarando... sujeito estranho aquele, como era mesmo o nome dele Sev?
Algo na expressão de Severo mudou drasticamente, havia um ressentimento quase palpável em sua voz agora – Prince. Andrion Prince.
_ Prince! Isso mesmo. Esse cara veio e disse na cara de todo mundo que você tinha colado. E você... oh, meu mérlin... a cara dele quando você perguntou, como foi mesmo que você disse? Pensei que o senhor havia dito que isso era impossível, que o senhor mesmo havia se prontificado a reforçar os feitiços anti-cola desta sala. Diga-me examinador Prince, seus métodos para salvaguardar esse exame contra eventuais delitos são melhores que o método do ministério para escolher examinadores? Porque se forem no mesmo nível, embora eu claramente não tenha boicotado meu exame, por Salazar, estamos perdidos.
_ Eu não acredito que você tenha memorizado isso Tony, e não consiga memorizar seu horário de aulas cada semestre. Francamente.
_ Você foi épico, cara!
Hermione, embora já se sentisse muito mais inclinada a desobediência a representantes ministeriais desde Umbridge, ainda estava horrorizada com o relato. Alguma partezinha dela ainda era aquela primeiranista que havia tão veementemente ralhado com Harry e Ron: [...] poderíamos ter sido mortos, ou pior expulsos! – E então?
_ Então quando Severo explicou que terminara mais cedo porque havia desenvolvido um atalho na preparação da poção o homem surtou... e mandou ele fazer uma poção nova, pelo menos nível 4.
_ Não! – Hermione levou a mão na boca – Mas poções nível 4 não são exigidas antes do sétimo ano.
_ Exatamente! – completou Mulciber, quase tão empolgado. Aparentemente esse caso era uma façanha para todo mundo, menos para Severo – E o Sev aqui, que não é de levar desaforo pra casa, lascou uma poção nível 7 na cara do idiota. Você tinha que ver a cara dele quando Severo anunciou que ia fazer a Wolfsbane.
_ A cara dele só não foi melhor que a do idiota do Lupin, que por alguma razão parecia prestes a desmaiar e...
_ Já chega. – Severo se levantou, alguma urgência em sua voz – Eu vou voltar para o castelo, você vem Jane?
Hermione se levantou prontamente, segurando a mão que ele havia estendido para ela com deliciada surpresa – Claro.
Ela seguiu junto com ele para o castelo, ignorando a tentativa de um olhar malicioso que os meninos trocaram e o comentário, genuinamente confuso de Dolohov: Porque será que ele sempre fica chateado quando mencionamos os NOM's?
– Estagiário, huh?
Severo olhou para ela com impaciência, ele não gostava desse assunto – Deixe isso quieto.
_ Bem, você não me falou nada. Estou curiosa.
Ele suspirou. – Não há nada para falar mais Jane. Fiz o que deu da Wolfsbane, na frente do examinador. Recebi um O em Poções, nenhuma supresa e uma oferta para participar de um programa especial de estudos esse semestre, baseado no meu e cito " desempenho surpreende" na avaliação. Comecei em setembro, ainda sou obrigado a frequentar as aulas de Poções regulares, mas também estudo separadamente e faço exames em períodos regulares, mais ou menos parecido com o regime em que você está agora. Com a diferença de que, se tudo der certo, daqui a dois anos eu estarei ganhando meu certificado de conclusão formal do ensino mágico, mais um certificado de especialização em poções. É isso.
_ Uau, isso é impressionante Severo. De verdade.
_ Hmm hmm.
Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, um silêncio que em outros momentos Hermione teria chamado de confortável, mas hoje ela tinha muitas questões em mente. Uma coisa que esses momentos compartilhados com Severo haviam mostrado era que ele definitivamente não tinha paciência para as infindáveis perguntas dela, professor ou não.
_ Por que a Wolfsbane? – ela deixou escapar, ainda que o olhasse com um olhar levemente culpado que tentava dizer: eu sei que estou enchendo o saco, mas não consigo me controlar.
_ Porque era difícil o suficiente para acabar com a presunção daquele cara.
_ Definitivamente. Mas posso pensar em uma infinidade de poções que você poderia ter feito e impressioná-lo mesmo assim. Porque, diabos, você sabia cozinhar Wolfsbane?
_ Porque eu não gosto de lobisomens. Se o ministério diz que não podemos extirpá-los, ao menos deveriam mantê-los sob controle, sobretudo na lua cheia. Acho que mandei um recado – havia uma paixão no olhar de Severo agora, algo vil e terrível e ao mesmo tempo bonito de se ver, um ódio que conseguia mascarar a faísca de medo no fundo dos seus olhos. Hermione engoliu em seco.
_ Extirpá-los, Sev? Isso me parece um pouco... radical demais. Lobisomens não são monstros, são bruxos como eu e você.
_ Não seja tola, Jane. Eles podem se fingir de bruxos, como você disse. Mas no fim, todos são monstros na lua cheia.
_ Isso é ridículo. – Você é um dos mocinhos, você não deveria pensar assim.
Ele parou de repente, na frente dela, respirando pesadamente e agarrou seu pulso – Ridiculo? Ridiculo? Eu vou lhe mostrar.
Severo praticamente a arrastou pelos corredores, num aperto firme, até encontrarem uma sala de aula vazia. Ele sacou a varinha quando entraram, trancando a porta e lançando um abafiatto. Ele largou-a finalmente, suas mãos subindo para retirar o próprio casaco. Ele começou então a desabotoar a própria camisa e Hermione pensou que entre uma conversa de lobisomens e uns amassos semi-nus em uma sala vazia, ela escolheria o segundo sem nem pensar duas vezes.
_ Isso parece ridículo para você? – ele disse finalmente, erguendo os lados da camisa para expor suas costelas e ela prendeu a respiração. Oh Deus.
Sobre a pele impossivelmente pálida de seu tórax erguiam-se terríveis cicatrizes avermelhadas e cruas, como se fossem recentes. Eram quase como se fossem... garras.
Hermione foi transportada para uma noite terrível, no final do seu terceiro ano. Peter Petigrew havia escapado e na noite fria a lua cheia tinha escapado de seu berço de nuvens e aparecido no céu para transformar o doce professor Lupin em algo que parecia saído dos seus piores pesadelos.
Professor Snape estava com eles nesse dia, abatido e desarmado pelos seus próprios alunos quando havia saído em socorro deles. Ela se lembra vividamente agora, da maneira como ele se jogou na frente, erguendo os braços para protege-los, mesmo quando ele era o único que não tinha uma varinha ali. Ela se lembra do professor Lupin erguendo a pata, com garras ferozes que deixariam uma marca quase igual a essa.
E ela se lembra agora, de Harry comentando que no quinto ano Sirius quis pregar uma peça em Severo e o enviou para a Casa dos Gritos para encontrar com Lupin na lua cheia, um lobisomem adulto no auge do seu poder. Harry nunca havia mencionado, no entanto, que Snape havia sido ferido. Ela duvidava que mesmo ele soubesse.
_ Oh Sev... oh Sev. – ela se aproximou lentamente, os dedos trêmulos indo tocar a pele maculada dele – Isso é terrível.
Ele fechou rapidamente a camisa – Eu sei que são horríveis, você não precisa me lembrar. E não se preocupe, tão terrível quando pareçam, foram superficiais o suficiente para que eu não tenha sido transformado, embora fosse lua cheia.
_ Não Severo. – ela forçou as mãos dele para baixo, expondo novamente suas costelas magras – Não as cicatrizes, as circunstâncias é que são terríveis.
Ela tocou levemente as marcas avermelhadas, lembrando-se de suas próprias marcas de luta. Severo tremeu sob seu toque, olhando firmemente para algum ponto na parede de pedras a sua direita e ela soube que ele estava envergonhado. Do mesmo jeito que ela se sentia envergonhada das marcas em seu corpo, embora nenhuma delas fossem tão terríveis.
_ Eu não me importo com elas – Hermione disse firmemente – Você não deveria se envergonhar por tê-las.
Severo olhou para ela finalmente, confuso – Por que eu me envergonharia delas?
O que pegou Hermione de surpresa – Você estava envergonhado, logo eu supus que...
_ Não por causa das cicatrizes, Jane. – ele começou a abotoar a camisa – Não foram as primeiras e também não serão as últimas, ouso dizer. Se há algo a se envergonhar é não ter detido o lobisomem, mas ainda há tempo. Ainda há tempo.
Hermione desejou poder acalmar a ira nele, o ódio. Toda a frustração de uma vida injusta e sofrida. Mas nem mesmo a magia era capaz de tanto. Nenhuma poção de cura era capaz de reparar um coração partido.
Dumbledore dizia que o amor pode curar todas as feridas, ela sabia que isso tinha seu fundo de verdade. Durante muito tempo foi o amor que a sustentou e estar aqui com Severo certamente suavizava o que vinha sentindo desde o fim da guerra.
Mas isso, esse amor que agora brotava nela era o suficiente para fazê-la se esquecer de tudo que havia passado, como um passe de mágica? De modo algum. Restariam as marcas da batalha.
Cassandra estava imersa em pensamentos, bebericando uma xícara de chá. Hoje não vestia seu costumeiro turbante, os cabelos brancos se despejavam como uma cascata sobre os ombros magros. Ela sentiu a visão começando, a ligeira dormência nas extremidades que sempre acompanhava suas visões, algo que apenas muitos anos de experiência lhe permitiram perceber. Os olhos viraram dentro das órbitas, uma estranha aura a circulou. Ao longe ela ouviu o som da xícara se partindo.
A sala estava escura e fresca, apenas o centro estava iluminado, onde um vão entre as cortinas permitia uma nesga de luz argêntea que se estendia em um longo retângulo e iluminava uma figura prostrada, encurvada em tal submissão que seu nariz quase tocava o piso.
Havia movimento nas trevas que cercavam o rapaz trêmulo, mas ela não conseguia ver quem era, apenas o suave sussurrar de passos enquanto circulavam a figura ajoelhada como a uma presa. O cheiro metálico de sangue e medo era pungente no ar.
_ Você me serviu fielmente, Severo. Finalmente você provou sua lealdade à nossa causa. Hoje você recebeu a mais alta honra que um Comensal da Morte pode receber, hoje você recebeu a marca do seu mestre.
O homem tremeu no chão, rangendo os dentes para não gritar pela dor que irradiava em seu braço esquerdo. Estava feito, não havia mais volta – Não há honraria maior do que servi-lo milorde, eu estou satisfeito em poder servir aos esforços de nossa nobre causa.
_ As notícias que você me trouxe me permitiram me preparar adequadamente para o futuro Severo, mesmo que incompletas. Eu sou um senhor que recompensa seus servos. Peça-me qualquer coisa hoje e eu o recompensarei.
O homem tomou uma respiração profunda, preparando-se. – A sangue-ruim milorde. Eu a quero sob minha proteção.
Ela voltou com um sobressalto, nunca antes tendo presenciado em suas visões o Lorde das Trevas. Ela nunca o tinha visto pessoalmente, mas aquela presença não poderia ser confundida. E o homem que parecia jovem demais para perceber a magnitude das escolhas que estava tomando, o homem que pedia para si uma mulher. Sangue-ruim. Oh, pobre, pobre menina que havia caído nas graças de um Comensal da Morte. Que destino funesto a esperaria?
Cassandra não conhecia o rapaz tampouco e seu nome não lhe trouxe referência alguma. Ela estava habituada a prever a vida de pessoas que não havia conhecido, ainda. Não fora assim com Hermione? Provavelmente seria assim com mais dezenas de pessoas.
No início ela havia se desesperado, procurando os meios para impedir que as desgraças se abatessem sobre os objetos de suas visões. Quantas vezes ela precisou correr ao encontro de algum desconhecido, na esperança de impedir algum acontecimento funesto, apenas para ver que que a cadeia de eventos resultantes de suas intervenções diretas acabava por desencadear os mesmos eventos que ela queria evitar?
Foi preciso muitos anos até que ela aprendesse. Maktub. Estava escrito. E nada do que fizesse iria impedir o futuro de se realizar. E era isso que ela via, o futuro em sua forma imutável. Foi preciso muita dor e culpa até que a verdade simples do seu dom se infiltrasse em seu coração rebelde: ela via o futuro, mas não havia meios de alterá-lo. Ela podia se preparar para ele, preparar-se para o inevitável, mas tão certo quanto o raiar do dia, ela jamais poderia evita-lo.
E foi esse conhecimento que tirou a leveza dos seus dias. O conhecimento da morte vindoura, da dor e desgraça que paira sob a cabeça dos seus amados como as nuvens de uma tempestade que ainda não caiu. E era esse mesmo conhecimento que voltaria a tirar a leveza dos dias de Hermione.
Quanto tempo levaria até ela perceber? Quanto tempo até ela ver que estava de mãos atadas?
Nota da Autora: Sim, mais de um ano desde minha ultima atualização. Desculpem por isso. Vou fazer um esforço para postar mais rápido dessa vez, mas não estou fazendo nenhuma promessa. Obrigada a todos que tiraram seu tempo para comentar, eu aprecio muito a opinião e o incentivo de vocês.
