Capítulo Doze - Luvas e lágrimas
Hermione estava sentada no chão, encostada à parede, com um dos seus volumosos livros sobre o colo, totalmente absorvida na leitura, mesmo que parecesse bastante irritada. Ao seu redor, os alunos da Grifinória e da Lufa-lufa esperavam a chegada dos grupos da Sonserina e da Corvinal, que ainda estavam saindo de suas outras aulas. Ao mesmo tempo, Snape andava de um lado para outro no Salão Principal, parecendo estranhamente preocupado com alguma coisa; ocasionalmente, lançava olhares furtivos e irritados aos alunos, como se eles fossem os culpados do que quer que estivesse aborrecendo-o. Quanto a Lupin, ainda não tinha aparecido, e havia um temor entre os alunos de que o professor não fosse mesmo aparecer àquele dia.
Harry e Rony, também sentados no chão, encostados à parede oposta à de Hermione, observavam a garota do outro lado do Salão. Durante todo o dia, ela e Rony não tinham trocado sequer uma palavra, e Hermione tinha preferido sentar longe deles nas refeições e na maioria das aulas. Nos momentos que esteve junto dos garotos, Harry precisou servir de intermediário, pois eles nunca se dirigiam, fingindo que o outro não existia. Era uma situação ainda mais constrangedora do que das outras milhares de vezes que isso tinha acontecido, pois, dessa vez, parecia ser realmente sério.
Rony observou Hermione com um olhar chateado por alguns instantes antes de se dirigir a Harry.
- Até quando você acha que isso vai durar?
- Até vocês deixarem de serem teimosos. - Harry respondeu distraído, observando com desconfiança o nervosismo de Snape, que agora dava um esporro desnecessário num grupo de meninas da Lufa-lufa por estarem rindo. - Ah, esqueci, isso nunca vai acontecer...
- Eu estou falando sério! - Rony retrucou ofendido. - Você acha que foi, sabe... pra valer?
Harry se virou para ver o rosto aflito do amigo que, longe de Hermione, falava abertamente sobre ela, revelando a Harry o que fingia não estar acontecendo na frente de Hermione: que ela ainda estava bastante presente em seus pensamentos.
- E eu também estou falando sério, Rony.
Ele cruzou os braços, bufando de raiva e mandando Harry para um lugar onde não havia sol.
- Eu nunca vou entender as garotas. - o amigo disse por fim, apenas por dizer.
- Nisso eu concordo com você. - Harry admitiu, pois, como qualquer membro do sexo masculino no mundo, também achava que o cérebro das mulheres era o maior mistério da humanidade. - Mas...
- Mas o quê? - Rony perguntou rápido.
- Mas tenho que admitir que Hermione teve lá os seus motivos... - ponderou. - Você estava realmente muito chato com aquela história!
- Ora, Harry, de que lado você está?
- De nenhum. - o rapaz respondeu incisivamente.
Rony bufou mais uma vez.
- Mas eu tenho os meus motivos também! - ele continuou, reunindo toda a sua dignidade. - Aquela cara da Corvinal não desgruda dela!
- Eles são monitores-chefes, não? E estão na mesma dupla de Defesa também. - Harry lembrou, com metade da sua atenção presa na conversa com Rony; a outra metade ainda estava intrigada com Snape, que não parava de andar de um lado para o outro, resmungando, o que certamente não fazia seu tipo. - É normal que eles estejam próximos por isso...
- Mas não tão próximos!
- Defina "próximos".
- Tão próximos que riem juntos! - Rony alegou emburrado. - E não venha me dizer que não teria a mesma reação se fosse com você.
- Não tem como eu lhe dizer uma coisa dessas, Rony. Eu não vejo a Hermione como você v, logo, os outros amigos dela são apenas assunto dela para mim.
As orelhas de Rony ficaram avermelhadas por causa do comentário, mas ele não desistiu.
- E se fosse com alguma garota que você gostasse? E se fosse com a Gina?
A última pergunta despertou em Harry uma fúria implacável que ele não experimentava há algum tempo. Ele esqueceu por definitivo de observar Snape e sua caminhada interminável pelo Salão, e se virou diretamente para Rony, sabendo que sua cara deveria estar muito feia e que seus olhos soltavam faíscas perigosas. O amigo percebeu que tinha falado besteira e se apressou em corrigir a pergunta.
- Quer dizer, isso que está acontecendo comigo está muito próximo de como você se sentia na época de Gina. - ele falou lentamente. - Por causa do Cavendish... Ou você vai me negar que ficava louco da vida por causa disso? Eu não sou cego, Harry, eu notava! Ainda mais porque era com minha irmã...
Rony virou a cara, muito aborrecido agora. Harry se sentiu um pouco envergonhado por aquele assunto ter vindo à tona; não gostava que aquela ferida fosse remexida. E ainda mais, o que o deixava mais doido era que Rony não estava errado; Harry realmente sentia ciúmes naquela época da Gina... e talvez ainda... não, não sinto! Eu não me importo mais com ela, que droga! Ele suspirou longamente, preenchendo aquele silêncio.
- O.k., eu admito... eu sentia sim. - disse lentamente, dando uma especial ênfase ao verbo "sentir" no tempo passado. - Mas talvez fosse só besteira minha também! - completou, tentando convencer Rony, mesmo que não estivesse tão convencido assim. - Talvez eu estivesse vendo coisas.
Rony ergueu as sobrancelhas para ele.
- Não era besteira, não. Até eu já percebi que o Cavendish é caidinho pela minha irmã. Idiota. - comentou só para constar.
Harry, no entanto, se sentiu um pouco melhor em saber que não era o único que achava aquele garoto um idiota de marca maior. Mas ele tratou logo de se desviar daquele assunto desagradável, retomando o ponto inicial:
- Afinal de contas, você vai falar com a Hermione?
- É claro que não! - Rony retrucou tão rápido e com tamanha veemência, que Harry se assustou por um instante. - Eu não vou me rebaixar, ela que venha falar comigo!
Foi a vez de Harry bufar de irritação.
- Então fique aí, esperando sentado, porque não acho que ela vá fazer isso... - Harry retrucou, observando a amiga virar mais uma página do seu livro com tamanha violência, que por pouco não rasgou o papel.
- É o que eu vou fazer mesmo, porque não vou me humilhar de jeito nenhum! - Rony respondeu irritado, mas sua determinação desapareceu logo depois. - Você acha mesmo que ela não vai ceder?
Harry lançou a Rony um olhar oblíquo.
- Não é do feitio dela, você sabe. Mas a verdade é que... - Rony o incentivou com o olhar. - ...é que eu não vou mais me meter nesses assuntos! Vocês que se resolvam sozinhos, eu não tenho nada a ver com isso e não vou me desgastar com a teimosia de vocês! - Harry completou furioso.
Rony mordeu o lábio inferior e fez uma careta.
- Eu não disse pra você fazer isso!
- É bom mesmo! - Harry salientou, ficando em silêncio por alguns instantes antes de retomar a palavra. - E isso significa que se vocês dois resolverem se matar na minha frente, eu não vou impedir!
Rony ia dizer algo depois disso, mas as palavras se perderam e ele optou pelo silêncio, mesmo que resmungasse palavras incompreensíveis consigo mesmo ainda por algum tempo. Harry preferiu desviar sua atenção, mas seus olhos bateram em Snape novamente; ele agora observava um ponto qualquer na parede do Salão como se estivesse vendo muitas coisas; ficou claro para o rapaz que ele estava preocupado com algo, e o qu era esse algo era o que Harry daria tudo para saber. No entanto, não teve muito tempo para pensar no assunto, porque Snape, como se tivesse uma antena em seus cabelos oleosos, percebeu rapidamente que Harry o observava e lançou-lhe um olhar que deu ao rapaz a nítida impressão de que não havia mais nada no momento que Snape desejasse a não ser fervê-lo num caldeirão quente.
Harry desviou o rosto para não arranjar encrenca, ao menos daquela vez; além disso, poderia pensar no que Snape estava tramando sem a necessidade de encarar seu nariz adunco, mas não escapou da visão não menos desagradável dos alunos da Sonserina entrando por porta.
Draco Malfoy e seu grupo vinham na frente, todos rindo e falando alto. Passaram mais alguns alunos até que Harry visse Katherine Willians no fim da turma. Ela andava devagar, mancando um pouco quando apoiava o pé direito no chão; Harry, então, se lembrou do dia anterior e de tudo que tinha acontecido; ainda não tinha pensado direito em tudo aquilo, depois de toda a história de Rony e Hermione. Katherine parecia ter dificuldades em caminhar daquele jeito, carregando sua mochila e todos os livros, e Harry pensou consigo mesmo, revoltado, em como seria possível que nenhum dos colegas sonserinos estúpidos dela tivesse percebido isso e se disposto a ajudá-la. Dois segundos depois, aborrecido, Harry se perguntou por que diabos estava se importando com isso. Mas ele não teve muito tempo para pensar no assunto, pois percebeu que a própria Willians, a passos lentos, estava tomando a direção na qual ele se encontrava. Qual era a dela? Logo depois, ele se lembrou que eles eram duplas na aula de Defesa e que, provavelmente, era esse o motivo de ela estar se aproximando. Era óbvio que ela não estava fazendo isso porque queria.
Harry desviou o olhar de Willians antes que ela notasse que ele a observava. Notou que a turma da Corvinal tinha acabado de chegar e estava perdendo pontos também, pois Snape alegava que eles tinham atrasado a aula (parecia ao professor que o horário que os sonserinos chegavam era o certo, e qualquer minuto depois disso era tarde demais). Por estar distraído, o susto de Harry foi maior quando Willians soltou de uma vez todo o seu material no chão, ao lado do rapaz, com estrondo. Rony soltou um palavrão por ter sido desperto dos seus pensamentos depois de tanto tempo e de maneira tão brusca.
- Tá doida, garota? - ele perguntou em seguida.
Ela lançou um olhar fuzilante para ele por detrás da cortina de mechas negras que caía na frente do seu rosto. Rony resmungou, rabugento:
- Vou ficar distante de pessoas do sexo feminino hoje.
- É melhor mesmo, ou periga você não sobreviver até a noite. - Harry zombou, segurando o riso. Katherine esboçou um meio sorriso depois da frase de Harry, mas disfarçou rapidamente.
Rony, no entanto, não estava mais prestando atenção; ele já tinha se levantado e soltava fogo pelas ventas, seus olhos esbugalhados de raiva.
- Tá vendo isso, Harry? Eu não disse? O que aquele merdinha tá fazendo lá com ela?
E, sem ouvir mais nada, Rony começou a caminhar desaforado em direção ao outro lado da sala, onde Brendon Summerfield conversava animadamente com uma Hermione um tanto quanto retraída. Katherine, que também tinha se virado para ver do quê se tratava, voltou-se para Harry:
- O que aconteceu com o Weasley?
- Ah, ele só está enciumado por causa da Mione... - Harry respondeu casualmente, achando graça na atitude do amigo, que agora vigiava Hermione de perto, com uma cara de poucos amigos. Então, subitamente, Harry percebeu o que estava dizendo para Willians e remendou: - Não que isso lhe diga respeito.
- E não diz mesmo. - ela retrucou calmamente, mancando mais um pouco e recostando-se à parede com um suspiro mais forte.
Harry não sabia por quê, mas a situação o constrangia agora que eles estavam a sós. Talvez fosse por causa da noite anterior.
- Como está o seu pé? - ele perguntou tentando soar normal.
- Melhor. - ela respondeu, observando o próprio pé, que ainda estava um pouco inchado. - A Madame Pomfrey deu um jeito nele, não foi muito difícil para ela juntar os ossos... Mas ela falou que vai demorar uma semana para desinchar e parar de doer quando eu ando.
Harry se levantou, permanecendo encostado à parede enquanto fazia o movimento. Ele olhou para Katherine, que estava um pouco mais abaixo dele agora que estava de pé.
- Vou tentar não te irritar, então. - ele disse em tom de zombaria. - Porque esse seu pé grande pode ser uma arma, pentelhinha.
Ela pareceu intrigada de início, mas depois riu pelo nariz, como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir. Após saírem de sua boca, as palavras também soaram estranhas para Harry; ele não tinha pensado antes de falar e aquilo saíra sem querer. Mas serviu para descontrair o ambiente, de qualquer jeito.
- Pentelhinha? - Willians repetiu com um sorriso cômico. - Isso é ridículo.
- Mas é o que você é, não? - Harry retrucou com dignidade, preferindo não olhá-la enquanto falava. - Uma pentelha em minha vida.
Ela não retrucou dessa vez. Harry se sentiu quase como se tivesse voltado ao dia anterior, quando eles estavam unidos para se ajudarem naquele cemitério. Era uma sensação muito esquisita, mesmo que não fosse de todo ruim; ele estava se sentindo... à vontade... O silêncio não o incomodou naquele momento.
Porém, logo, seus pensamentos foram interrompidos pela voz seca de Snape, que chamava a atenção dos alunos para a aula. Harry e Willians se dirigiram para o centro do Salão, aproximando-se dos outros alunos de forma lenta, já que a garota mancava. Com extremo aborrecimento, Snape começou a falar:
- Acho que a maioria de vocês não vai ficar muito satisfeita em saber que a aula será ministrada apenas por mim hoje. - o professor informou mau humorado. Vários alunos se entreolharam com caretas desgostosas e, em contrapartida, alguns sonserinos riram de prazer. - O Prof. Lupin está adoentado e não pôde vir hoje. - Snape continuou, um meio sorriso tremendo em sua boca. Harry viu Draco Malfoy fazer um comentário maldoso, com certeza sobre a condição de lobisomem de Remo, ao que Rony respondeu com uma grosseria qualquer. - Portanto, como não sou tão frouxo quanto Lupin, eu quero o máximo da atenção de vocês e nem um pio enquanto dou as instruções da tarefa de hoje.
Harry suspirou; seria uma longa, longa aula... Ele trocou um olhar com Willians, que não parecia tão abalada com a notícia quanto ele; no entanto, ela lhe dirigiu um sorriso involuntário que fez Harry também sorrir sem saber por quê.
A espada com que Harry treinava voou pela terceira vez e foi parar a alguns metros dele, fincando sua ponta no tapete, tinindo até parar de se mexer. Ao mesmo tempo, a ponta afiada da lâmina brilhante de outra espada mirou exatamente o seu pescoço; Harry prendeu a respiração até que Dumbledore a recolhesse.
- Você está desatento, Harry. - ele repreendeu novamente, fazendo o rapaz se sentir um pouco envergonhado. - Um oponente levaria vantagem nisso com facilidade... - o diretor explicava com paciência. - Eu já lhe disse que a maior arma que alguém pode ter é seu autocontrole sobre as próprias emoções.
- Eu sei, professor. Isso não vai se repetir.
- Receio que vá, Harry. - Dumbledore disse calmamente, recolhendo a espada; ele caminhou até aquela que Harry utilizava, retirou-a do chão e guardou-a junto com a outra. - Você não está concentrado hoje. Aconteceu alguma coisa?
Se tinha acontecido alguma coisa? Não tinha sido apenas uma, ou duas. A aula de Defesa Contra as Artes das Trevas tinha sido um verdadeiro inferno, com Snape pegando ainda mais no seu pé do que nas aulas de Poções; Rony e Hermione sem se falar não tinha ajudado nem um pouco durante o jantar, isso sem contar a montanha de deveres e cobranças diárias, o que já estava se transformando em rotina. Alguém poderia se concentrar desse jeito?
- Não, não aconteceu nada, professor.
O olhar que o diretor lhe lançou por cima dos óculos de meia-lua dizia com todas as letras que ele não tinha acreditado em nenhuma palavra da última frase.
- O menino está absorto por ser deveras irresponsável, isso é o que é! - o quadro de Salazar Slytherin provocou, ao que Godric Gryffindor respondeu grosseiramente, fazendo Dumbledore intervir e mandarem se calar.
Harry já estava se acostumando com aquelas intervenções dos quadros, mas preferia quando eles estavam dormindo ou fora de suas molduras. Tê-los ali era como se quatro pessoas estivessem assistindo ao seu treino... e aos seus erros. Não era uma sensação agradável. No entanto, Dumbledore sempre intervia quando eles exageravam.
- Vamos terminar por hoje, Harry. - o diretor mandou, acompanhando Harry para a sala ao lado, enquanto Gryffindor e Slytherin continuavam a discutir em suas molduras.
Após atravessar a porta, Harry recolheu sua mochila e colocou-a em suas costas; antes de sair, dirigiu-se até o poleiro de Fawkes para acariciá-la. Sabia que Dumbledore o observava atentamente.
- Tem certeza de que não aconteceu nada, Harry? - o diretor insistiu. - Ou que está acontecendo?
Harry suspirou desanimado. Acontecer, estavam acontecendo várias coisas, muitas das quais ele não achava que pudesse contar a Dumbledore e outras que não tinham importância mesmo. No entanto, havia uma questão que o atormentava todas as vezes que vinha ter aulas com o diretor; e Harry estava dividido entre contar e não contar, mesmo que soubesse que era sua obrigação falar. Ele escolheu um meio termo, no qual não precisasse contar tudo, apenas sondar a questão.
- Professor, por que exatamente o senhor confia em Samantha Stevens?
Houve um instante de silêncio. Harry continuou acariciando Fawkes, e apenas o pio canoro dela preencheu o ambiente.
- Seria o mesmo que me perguntar por que eu confio em Severo Snape, Harry. É algo que só diz respeito a mim.
O rapaz não respondeu. Não achava mesmo que Dumbledore fosse responder à pergunta, mas a resposta o constrangeu. Porém, mesmo assim, ele precisava continuar, tentar entrar no assunto, ou sua consciência não o deixaria em paz.
- O senhor confia nela mesmo sabendo que ela trabalha para Voldemort?
A pergunta soou incisiva até mesmo para Harry em seus ouvidos. Dumbledore, no entanto, continuou a falar com o mesmo tom brando.
- Então você sabe disso, Harry?
Ele se virou para observar o diretor, o choque estampado em sua face. Dumbledore, por sua vez, mantinha o mesmo olhar paciente da aula, como se estivesse explicando uma matéria difícil para Harry.
- E o senhor não se importa com isso? Como pode? Ela não é confiável!
- Essa é a sua opinião, Harry. Ela é muito útil. E eu confio nela. - Dumbledore encerrou. - Acho que já está na hora de você ir para a sua Casa, Harry.
O rapaz percebeu que não havia mais conversa, mas isso não o impediu de lançar um olhar desolado a Dumbledore; poderia dizer naquele momento que Samantha era filha de Voldemort? Mas, e depois? E se Dumbledore não se importasse? E se ele até já soubesse? Não, não deveria saber... Pela aquela conversa que Harry teve com ele, o diretor não parecia ter conhecimento disso... muito menos do que tinha acontecido entre Samantha e Harry no fim do ano anterior. Se Harry contasse isso, com toda a certeza ele iria acreditar que Samantha não era mesmo flor que se cheirasse. No entanto, quando Harry abriu a boca, decidido a contar, Dumbledore disparou:
- Você pode me dar licença, Harry? Eu ainda tenho alguns assuntos particulares para resolver.
Harry fechou a boca, desanimado, e saiu, fechando a porta ao passar. Não adiantaria tentar falar; Dumbledore tinha dito com todas as letras que a conversa tinha terminado. Ou então você está adiando essa conversa novamente. Ao deixar o gárgula de pedra para trás, Harry ajeitou melhor a mochila nas costas e, com um aceno de cabeça, tentou espantar o assunto de seus pensamentos.
Os corredores sempre estavam vazios e silenciosos quando Harry voltava das aulas com Dumbledore, que geralmente terminavam bem mais tarde do que o horário permitido aos alunos perambularem pelo castelo. O diretor contara a Harry que já tinha avisado a alguns professores para que não o castigassem se o encontrassem em horários como aquele fora dos limites; essa permissão dava a Harry uma certa liberdade que ele, por enquanto, ainda não tinha se aproveitado; andava sempre cansado demais para aprontar qualquer coisa. Mas ele sabia que aquilo poderia ser conveniente algum dia.
Ao passar pelo quadro da Mulher Gorda, Harry esperava que ninguém mais ocupasse a sala comunal. Geralmente, ele saía de lá quando a sala estava cheia (utilizando a Capa de Invisibilidade herdada do pai), e só voltava quando ela já estava vazia. A contragosto, Harry inventava desculpas cada vez mais mirabolantes para Rony e Hermione quando não conseguia esconder deles que ia sair; Dumbledore insistia para que ele mantivesse em segredo as aulas se fosse possível. No entanto, Harry sabia que seus amigos não estavam mais engolindo suas desculpas esfarrapadas e, logo, ele teria que ir contra a vontade do diretor e contar o que estava fazendo.
Contudo, contrariando suas expectativas, a sala comunal não estava vazia; Harry se deparou com Hermione ao entrar. Ela tinha um livro de capa grossa sobre o colo, mas não o lia; seus olhos perdiam-se nas chamas da lareira, que já estavam fracas. Harry se sentiu mal pela amiga; sabia que ela não estava bem. Hermione levantou os olhos ao vê-lo passar pelo retrato.
- Pensei que estivesse no seu quarto. - ela disse lentamente, mas Harry percebeu com alívio que não era uma acusação. - Não precisa me dizer aonde foi. - ela completou.
- Obrigado. - ele murmurou sinceramente agradecido por ela não lhe fazer mais perguntas.
Ele atravessou a distância entre os dois e se sentou perto dela, numa das poltronas favoritas deles. Havia ainda uma terceira poltrona vazia; estava faltando Rony para completar o trio. Hermione notou o mesmo que Harry.
- Como ele está?
A voz dela demonstrava claramente o quanto ela estava magoada.
- Chateado. - Harry respondeu vagamente. - Você sabe como ele fica... quer dizer... - ele remendou quando ela fez uma cara de "se-eu-perguntei-é-porque-quero-que-me-diga". - A verdade é que ele está apavorado pensando que vocês nunca mais vão reatar. - Harry revelou.
Hermione se ajeitou na poltrona, tomando uma posição mais ereta e altiva.
- Quem sabe ele possa estar certo.
Um alarme se acendeu dentro de Harry; ela não poderia estar falando sério.
- Mione...
- Dessa vez ele foi longe demais, Harry. - ela respondeu firmemente. - Ele não confia em mim. Não dá para continuar desse jeito!
- Mas vocês se gostam, é o que importa! - Harry insistiu. - Vocês...
- Não é só o que importa, Harry! - Hermione retrucou. - Não quando ele ainda é criança demais para entender que certas coisas não podem ser como ele quer!
Harry se calou por alguns instantes. Aquilo não estava indo bem. Mas ele continuava sentindo (mesmo que tivesse dito o contrário a Rony pela manhã) que era seu dever impedir que seus dois melhores amigos se separassem daquela maneira.
Hermione voltou a encarar as chamas, que tinham se transformado em cinzas.
- Hermione... - Harry recomeçou, hesitante. - Aquele monitor da Corvinal...
- Brendon? - a garota perguntou com um olhar de desconfiança para Harry.
- Isso. - ele confirmou e umedeceu os lábios antes de prosseguir. - Ele... só quer ser seu amigo mesmo?
Hermione se levantou num ímpeto de fúria. Harry se assustou um pouco com o movimento dela e percebeu que tinha ido longe demais.
- Eu deveria saber que você estaria do lado do Rony! - ela acusou. Harry se levantou também, observando a amiga que era um pouco mais baixa que ele.
- É claro que não, Hermione! Eu não estou do lado de ninguém, eu só...
- Volte para o seu quarto, Harry, e diga ao seu amigo que eu não me importo mais! Que acabou!
- Mione, você não enten... - ele tentou se explicar, mas ela já tinha subido as escadas dos dormitórios femininos. - ...deu... - ele completou desanimado, chutando uma caixa vazia de Feijõezinhos de Todos os Sabores que alguém tinha largado no chão e murmurando um palavrão de raiva.
Ele percebeu que chutar coisas não melhoraria sua frustração, então subiu rapidamente as escadas dos dormitórios masculinos, xingando-se de todos os nomes possíveis pela sua extrema burrice. Quando ele iria parar de achar que podia consertar todas as coisas? A briga de Rony e Hermione era assunto deles, e apenas deles, e ele já deveria ter percebido que aquilo não lhe dizia respeito. Burro, idiota, estúpido...
POW.
- Ai!
- Porr... Rony!
O amigo estava a apenas alguns degraus da sala comunal; seu rosto sardento, parcialmente nas sombras, encarava Harry assustado e ao mesmo tempo envergonhado.
- Você ouviu tudo? - Harry murmurou sigilosamente, referindo-se à sua conversa com Hermione.
Rony suspirou, chateado.
- Não tudo... peguei a conversa quando ela disse que nós... eu e ela...
- Talvez ela só tenha falado aquilo porque está brava com você. - Harry sugeriu incerto, tentando consolar o amigo. - Logo vai passar...
- Eu não sei, não...
- Se é assim, por que você não vai falar com...?
- Não! Já disse que não, Harry, pombas!
Harry bufou. A única luz que os iluminava era da pálida claridade da lua cheia no céu. Harry se lembrou com pesar de Remo.
- Mas que você tinha vindo falar com ela agora de noite, você tinha. - Harry sentenciou, fazendo as orelhas de Rony ficarem vermelhas enquanto ele o seguia, tentando convecê-lo inutilmente de que apenas estava "sem sono". Quando eles chegaram à porta do dormitório do sétimo ano, Harry encarou Rony seriamente. - Eu estou falando sério, Rony. Se você não agir rápido para reconquistar a Hermione, outra pessoa pode passar na frente. E aí será tarde demais...
Havia algo que se remexia no estômago de Harry que o incomodava. E não eram os ovos mexidos que ele tinha acabado de comer no café da manhã.
Já fazia cinco dias que Rony e Hermione tinham brigado e, mais uma vez, Hermione estava sentada a pelo menos uns dez lugares distante de Harry e Rony. Ela parecia mais imersa em seus livros, N.I.E.M.s e tarefas da monitoria-chefe do que nunca, o que fazia Harry ter certeza de que aquela separação não estava tendo nenhum resultado positivo nem do lado de Rony, muito menos do lado da amiga.
No entanto, não era esse o motivo que fazia o estômago de Harry se revirar naquela manhã. O motivo era uma ruiva risonha que ria com o intragável Jonnathan Cavendish que, por um milagre da natureza, estava sorridente àquele dia. Harry sabia que aquilo não lhe dizia respeito, que não deveria estar se importando e que, raios, era totalmente vergonhoso para si mesmo que aquilo o incomodasse. Entretanto, ele não tinha controle sobre seu estômago, que não parava de se revirar, muito menos dos seus olhos, que insistiam em continuar estreitando-se e observando aqueles dois.
Harry sabia o que significava aquilo. É claro que não era nada bobo como ciúmes, ele não tinha ciúmes de Gina agora (tinha?). Era porque ele, como todo homem, odiava mais do que tudo na vida ser trocado por outro. Mesmo que já estivesse separado de Gina por quase um ano...
É, é claro que era isso.
- Harry, em que planeta você está?
- Hã? O quê?
Rony revirou os olhos.
- Você não estava me ouvindo?
- Claro que estava... você estava falando... do que você estava falando?
- Pra onde é que você estava olhando, hein? - ele perguntou, procurando a direção do olhar de Harry anteriormente.
- Lugar nenhum. - Harry respondeu seco, tentando desviar a atenção dele. A última coisa que queria no momento era que Rony percebesse que ele observava Gina e começasse a soltar suas frases de efeito. - O que você dizia mesmo?
- Eu perguntei se vamos ter mesmo treino de quadribol amanhã! - Rony retrucou emburrado. - E aí?
- Vamos, o jogo contra a Corvinal é semana que vem, temos que treinar!
- E o que é que o estava distraindo tanto, hein? - Rony insistiu, curioso.
- Nada! - Harry respondeu entredentes.
Rony bufou e revirou os olhos para o outro lado da mesa; Harry não precisava ser vidente para saber que ele tinha olhado para Hermione. No entanto, os olhos de Rony se esbugalharam ao observá-la.
- O que está acontecendo com ela?
Harry se virou displicentemente para o local onde estava sentada a amiga e viu que ela tinha acabado de cuspir todo o suco de abóbora no Profeta Diário que estava lendo e, por pouco, não tinha acertado Neville Longbottom, sentado à sua frente. E Hermione só fazia aquele tipo de coisa se fosse por um motivo muito sério.
- Eu vou lá. - Harry decidiu, levantando-se. Rony o puxou de novo pela manga.
- Não! Esqueceu que ela não tá mais falando nem comigo, nem com você?
- É, porque ela acha que eu tô mancomunado com você. - Harry disparou. - Mas a briga de vocês não me importa agora, o que fez ela cuspir no Neville pode ser importante!
- Como o quê? Greve dos duendes no Gringotes? - Rony sugeriu, tentando de todas as formas não se aproximar de Hermione.
- Não, seu besta! Pode ser algo sobre Voldemort!
Rony estremeceu ao ouvir o nome do bruxo, mas não o impediu de se levantar dessa vez. Harry percorreu os quase dez lugares que o separava de Hermione e sentou-se ao lado da amiga, que ainda encarava o Profeta sujo de suco com os olhos do tamanho de laranjas.
- Ah, olá, Harry. - Neville cumprimentou.
- Oi, Neville. Mione...
A garota, que estava tão absorta com o jornal, espantou-se ao perceber a presença de Harry ao seu lado, mas não o mandou correr dali como certamente Rony previra. Pelo contrário, ela brandiu o jornal na frente do rosto dele, conservando uma expressão de choque no rosto.
- Você já leu isso?
- Não, eu costumo saber as notícias por você, mas como você não está mais...
- Que seja! - ela retrucou nervosa, praticamente enfiando o jornal debaixo do nariz dele. - Leia isso!
Harry apanhou o jornal um pouco assustado pelo estado da amiga e leu o título da notícia que ela indicava, com uma enorme mancha abóbora, sendo observado por ela e Neville.
Incêndio na periferia de Londres assusta trouxas
- Um incêndio de trouxas? - a voz de Rony soou atrás de Harry; ele lia a notícia por cima do ombro do amigo. - O que isso tem a ver?
Hermione lançou um olhar fuzilante para ele, mas mesmo assim não lhe dirigiu a palavra.
- Leia aqui, Harry. - ela indicou um parágrafo mais abaixo.
Os peritos trouxas anunciaram que o incêndio foi causado por uma explosão de gás, mas não havia provas conclusivas que o comprovassem; os moradores locais discordam. Muitos afirmam terem visto homens estranhos, vestidos com longas capas negras e encapuzados rondarem a casa pouco antes da explosão.
"Pode sim ter sido um incêndio criminoso", afirmou o Ministro da Magia, Arthur Weasley, exclusivamente ao Profeta Diário. "Estamos passando por uma época difícil e acontecimentos como esses, principalmente com os trouxas e seus descendentes no mundo bruxo, infelizmente, são esperados. A descrição que os trouxas fizeram dos homens encapuzados leva-nos a crer que seja mais uma obra dos Comensais da Morte."
Não foi descartada a hipótese de que a única mulher que tenha morrido no incêndio fosse bruxa ou tivesse alguma ligação com o mundo mágico, já que, se fosse uma ataque a trouxas, seria improvável que os vizinhos fossem perdoados. O departamento especial do Ministério ainda está investigando o caso. É recomendada extrema cautela à população.
Neville soltou um som engasgado quando Harry levantou os olhos.
- Credo... - ele disse horrorizado. - Morrer queimado deve ser uma das piores mortes que existem...
- Mas, como meu pai disse, numa época como essa, esses ataques são esperados. - Rony falou, sustentando no rosto uma careta após ler a notícia. - Só me surpreende que tenham matado apenas uma pessoa.
- Será que vocês não percebem? - Hermione exclamou. - Isso foi planejado! Eles tinham a intenção de matar apenas essa pessoa. Com certeza isso foi obra de Comensais da Morte!
- A mando de Voldemort... - Harry murmurou.
Neville se arrepiou todo.
- Estava escrito na reportagem que todas as portas e janelas estavam vedadas... e todos os cômodos da casa estavam totalmente carbonizados. - ele engoliu em seco. - O corpo foi reduzido a cinzas... totalmente irreconhecível.
- Provavelmente a pessoa morreu asfixiada antes de carbonizada. - Hermione disse. - O que não melhora em nada o quadro.
- Um Avada Kedrava seria mais caridoso... - Rony murmurou lentamente.
Harry sentiu um nó involuntário na garganta; subitamente, aquela imagem que vira em seus devaneios na Terra das Sombras, de sua mãe sendo morta friamente pelo feitiço de Voldemort, logo após seu pai ter morrido da mesma maneira, voltou aos seus pensamentos. Ele fechou seus olhos por um segundo, sentindo os músculos se contraírem em seu corpo pelo ódio que sentia de Voldemort, e quando os reabriu, sua voz saiu rouca pela boca.
- Não se sabe a identidade da vítima? - perguntou, retomando a conversa ao ponto inicial.
- Os vizinhos não a conheciam muito bem, apesar da mulher morar na casa há vários anos, junto com a neta. - Hermione informou com pesar. - Parece que elas não eram muito sociáveis. E não dava para reconhecer pelo corpo.
- Ela tinha uma neta? - Rony perguntou subitamente, parecendo não se lembrar naquele momento que não estava mais falando com Hermione. - Isso quer dizer que a pessoa já era idosa.
- Era sim. - Neville disse sombriamente. - Esse tipo de gente... - ele continuou, referindo-se aos comensais. - ...não se importa com nada, apenas matam e torturam... como se a vida das pessoas fosse um joguete.
Houve um momento de silêncio após as palavras de Neville. Harry se lembrou dos pais dele, que enlouqueceram após uma seção de tortura feita por comensais. Sentiu ainda mais ódio de Voldemort ao pensar nisso, e em quantas vidas como a dele, de Neville e tantos outros o bruxo já tinha arruinado.
- E essa neta dela? - Harry perguntou, finalmente quebrando o silêncio que tinha se instaurado. - Não estava na casa no momento do incêndio?
- Não. - Hermione disse. - Parece que a garota estudava fora da cidade, pois só aparecia por lá nas férias e, por isso, não estava presente. Os trouxas estão tentando localizá-la e também os bruxos, já que o caso tem ligação com o nosso mundo.
Eles voltaram a um silêncio pensativo até que a sineta tocasse, anunciando o início das aulas. Neville, ainda circunspecto, despediu-se deles e seguiu na frente para as aulas. Harry, Rony e Hermione seguiram juntos para a primeira aula do dia, Feitiços, que era a oportunidade ideal para que juntassem suas cabeças e conversassem a respeito do caso do incêndio sem que ninguém os vigiasse, já que a aula do Prof. Flitwick era sempre uma bagunça generalizada.
- Se essa mulher que morreu fosse mesmo uma bruxa... - Rony raciocinou em voz alta com os amigos, enquanto os três começavam a descarregar os livros das mochilas numa mesa ao fundo da sala. - ...e a sua neta estudava fora...
- Você quer dizer que ela pode estar aqui, em Hogwarts? - Hermione o interrompeu. - Eu já pensei nisso também, e é bastante provável, já que elas moravam em Londres.
Rony pareceu se surpreender que Hermione achasse alguma idéia sua "bastante provável", mas não expressou seus pensamentos em voz alta, talvez porque temesse que esse comentário pudesse abalar a trégua que tinha se estabelecido entre os três. Harry, que àquelas alturas estava muito mais interessado na conversa do que na briga de Rony e Hermione, virou-se para a amiga:
- Mas, se essa garota está em Hogwarts... quem poderia ser ela? Quer dizer, ninguém sabe ao menos a faixa etária dela?
- Não dizia na reportagem. - Hermione disse, abrindo seu livro de Feitiços na página indicada por Flitwick na lousa. - Talvez por proteção, para que não tentem descobrir quem é a tal garota como nós estamos fazendo.
- "timo! - Rony exclamou. - Isso nos dá umas quinhentas possibilidades, contando todas as garotas do primeiro ao sétimo ano. Excluindo-se as que conhecemos, devem sobrar cerca de trezentas e qualquer coisa... Se fôssemos especular quem seja, levaríamos o mês inteiro!
- E por que não pode ser até mesmo alguém que conhecemos? - Hermione perguntou. Harry, que estava sentado entre os dois, observava a discussão que estava se iniciando como se assistisse a um jogo de pingue-pongue.
- Eu quis dizer as que conhecemos bem. - Rony retrucou. - Acho que nós saberíamos se fosse alguma garota da Grifinória, por exemplo.
- Talvez não. - Hermione ponderou. - Eu, por exemplo, não sei se a Lilá mora com os pais ou com a avó.
- Lilá? - Harry repetiu, observando a garota sentada a algumas mesas deles, conversando e rindo com Parvati. - Acho que não...
Rony, que também estava de olho nas garotas, fez pouco caso.
- E Parvati tem uma irmã. Não dizia nada na reportagem sobre a tal garota ter uma irmã. - ele disse. - Qual era mesmo o nome da irmã da Parvati?
- Padma. - Hermione lembrou irritada. - Você foi com ela no baile do quarto ano, como pôde se esquecer?
Rony deu de ombros.
- Isso eu sei. - Harry se intrometeu, num tom de provocação para os amigos. - Porque ele estava muito preocupado em te observar dançando com o Krum, Hermione, para notar alguma coisa a mais.
Hermione ruborizou instantaneamente e preferiu não olhar para Rony. Este, por sua vez, lançou um olhar feio para Harry, que conseguiu abrir um sorrisinho cínico para o amigo.
- Não vamos chegar a lugar nenhum se continuarmos especulando isso. - Hermione disse após algum tempo, mas Harry reparou que suas bochechas ainda estavam ligeiramente avermelhadas. - A identidade dessa garota provavelmente ficará em sigilo, pois, se assassinaram a avó, ela também pode estar sendo visada. O que eu mais queria saber mesmo é o motivo para esse assassinato... o que essa mulher poderia representar para ser assassinada de uma maneira tão cruel?
Harry apoiou o queixo nas mãos, seus olhos focalizados no miúdo Prof. Flitwick, mas seu pensamento vagando longe.
- A resposta para essa pergunta só poderia ser obtida se perguntássemos para o próprio Voldemort em pessoa. - ele disse pensativo. - Ou se pudéssemos saber o que ele está pensando.
Tanto Rony quanto Hermione se remexeram incomodados nos seus assentos e resolveram não tocar mais no assunto.
Ao menos aquela história tinha servido para que eles se juntassem novamente, Harry pensou ao caminhar entre os dois amigos, após voltarem do jantar. Hermione tinha assistido todas as aulas do dia junto de Harry e Rony, bem como feito a refeição com eles no almoço e no jantar, mesmo que, em todos esses momentos, Harry tivesse que sentar entre eles. Mas, pelo menos, Rony e Hermione já trocavam palavras e até mesmo frases inteiras, o que era uma evolução, visto que eles trocavam resmungos ou simplesmente nem se dirigiam a palavra ainda pela manhã.
Harry teve a impressão de que só eles três deram importância à notícia do incêndio em toda a escola. Bem, eles e algumas poucas pessoas; Neville, por exemplo, e também um grupo de Lufa-lufas que os três surpreenderam conversando sobre isso na aula de Herbologia. Ernie Macmillan, que comentou o assunto com Harry, Rony e Hermione enquanto enchiam um vaso com terra, estava horrorizado com a notícia, enquanto Ana Abott parecia bastante assustada. Harry ficou imaginando se ela poderia ser a tal garota, mas descartou a possibilidade quando ela disse que seus pais chegaram a cogitar durante as férias se seria mesmo seguro permanecerem na Inglaterra.
Quando os três chegaram ao sexto andar, Harry disse que teria de se separar deles ali.
- Onde você vai? - Rony perguntou alarmado com a possibilidade de ficar sozinho com Hermione.
- Treino de Defesa... - Harry disse desanimado. - Eu marquei com a Willians hoje à noite.
Hermione soltou um comentário negativo qualquer sobre a sonserina.
- Mas... você não tinha avisado... - Rony balbuciou, agora definitivamente apavorado. Hermione também olhou para Harry um tanto alarmada, abraçando-se aos livros que trazia junto ao peito. - Você não disse...
- Ué. - Harry provocou os dois com um sorriso irônico. - E eu precisava ter avisado? Ou será que vocês dois não vão encontrar o caminho para a Torre da Grifinória sem minha ajuda?
Hermione rolou os olhos, impaciente, e seguiu adiante, deixando os dois garotos sozinhos. Rony fitou Harry como se ele tivesse batido a cabeça em algum lugar e perdido sua sanidade.
- Traidor!
- Vai atrás dela logo, seu pateta!
- Harry, seu...
- Eu não vou ficar servindo de babá pra vocês o tempo todo, tenho mais o que fazer!
E, deixando um Rony abobado para trás, Harry seguiu o caminho oposto, na direção daquela sala secreta onde se encontrava com Katherine Willians para os treinos de duelos e estudos. Ele parou em frente à tapeçaria dos centauros e disse a senha - "sabedoria" - com impaciência. Mas as estrelas não se organizaram formando a porta e a maçaneta.
- Sabedoria! - Harry repetiu com maior veemência, mas o centauro grande e ameaçador o encarou com indulgência.
- Você sabe ler as estrelas? - ele perguntou.
Harry bufou e observou as estrelas, mas elas não formavam uma palavra dessa vez. Ele olhou de novo; não era possível que aquela pentelha da Willians tivesse mudado a senha, era muita sacanagem dela. Mas a pentelha tinha mudado. Ele observou as estrelas com maior atenção - não desistiria facilmente, só para provocar aquela garota - e reparou que elas formavam um desenho. Algo parecido com o Cruzeiro do Sul, que ele já tinha visto em suas aulas de Adivinhação.
- Cruzeiro do Sul? - Harry arriscou. Dois centauros da tapeçaria levantaram suas flechas e apontaram para ele; o centauro maior o encarou ameaçadoramente.
- Você tem mais duas chances.
- E se eu errar?
Um terceiro centauro aprontou a flecha.
- Nós temos magia para machucá-lo. - o centauro respondeu. - Portanto é melhor acertar ou desistir de uma vez.
Harry olhou de novo para as flechas apontadas para ele. Aquela Willians ia lhe pagar caro por isso. Mas ele não ia desistir. Resolveu arriscar novamente.
- Cruz?
Os centauros se aprontaram para atirar as flechas e fizeram mira.
Harry bufou mais uma vez. Cruz? O que isso lembrava? Cruz... cruz... religião? Improvável. Poderia ser algo no mesmo sentido que a senha anterior, sabedoria? Hermione tinha que estar aqui... Sabedoria era uma palavra subjetiva... Cruz, cruz... cruz era uma palavra concreta... cruz, cruz, o que lhe lembrava a figura da cruz?
- Vai desistir? - o centauro perguntou.
- Sofrimento?... - Harry disse em forma de pergunta, hesitante, desejando ardentemente que não estivesse errado.
O centauro o encarou por alguns instantes tensos até que sorriu misteriosamente. Os outros companheiros dele abaixaram as flechas, ao mesmo tempo em que as estrelas se reorganizaram formando a porta. Harry sorriu pela sua inesperada genialidade e girou a maçaneta brilhante.
A sala continuava fracamente iluminada, como das outras vezes; uma nesga da luz opaca da lua cobria o piso escuro e as estrelas que ficavam no teto estavam menos brilhantes. Harry não enxergou Willians em lugar algum.
- Ei, sua pentelha, você tá aqui? - ele chamou aborrecido.
Ele ouviu uma respiração mais funda.
- Potter? - ela chamou com a voz anasalada, num tom de surpresa. - Como você descobriu a senha?
- Que idéia foi essa de trocar a senha, hein? - ele perguntou irritado, largando a mochila no chão de qualquer jeito e fitando o lugar de onde provinha a voz, percebendo os contornos da garota, encolhida nas sombras de um canto da sala. - E ainda por cima, era uma charada! O que você tem na cabeça, garota?
Willians respirou fundo novamente; seu nariz parecia estar entupido ou coisa parecida. Ela se levantou num ímpeto, cruzou a sala e posicionou suas mãos enluvadas no tórax de Harry, empurrando-o para trás.
- SAIA DAQUI, POTTER! - ela gritou com aquela mesma voz anasalada, só que num tom muito mais alto e descontrolado. - EU QUERO FICAR SOZINHA, SAIA!
- O que deu em você? - Harry perguntou sem entender, dando alguns passos vacilantes para trás devido à força que ela fazia para empurrá-lo. - Endoidou de vez, foi?
- SAIA, SAIA, ME DEIXE EM PAZ! - ela repetiu gritando, seus punhos socando nervosamente no peito de Harry, enquanto girava a cabeça de um lado para o outro, seus longos cabelos soltando-se da fita frouxa que os prendiam. - VÁ EMBORA!
Harry segurou os punhos dela com força, antes que ela mesma acabasse se machucando. Como resposta, a garota começou a se movimentar com maior intensidade, completamente fora de si, tentando se desvencilhar do aperto das mãos do rapaz, tentando socá-lo, chutá-lo, acertar qualquer lugar dele que conseguisse, sempre gritando com visível desespero, como se daquilo dependesse sua vida. Harry, mesmo que não quisesse machucá-la, teve que forçar mais o aperto nos pulsos dela para que ela parasse de se movimentar, e acabou levando um dolorido chute na canela.
- SAIA, POTTER, EU JÁ DISSE PRA ME DEIXAR SOZINHA!
- O que está acontecendo? O que aconteceu com você? - Harry perguntou inutilmente, pois a sua voz não sobressaia à gritaria desesperada de Katherine, que girava todo o corpo, tentando se soltar; seus cabelos estavam quase inteiramente soltos pelos movimentos bruscos que ela fazia, e Harry percebeu intrigado que ela apertava os olhos com força; quando a luz da lua incidiu em seu rosto, ele viu que seus olhos estavam inchados e extremamente avermelhados.
- SAIA, POTTER! - ela gritou, chutando a canela dele no mesmo lugar, com tamanha força, que ele soltou um urro de dor e acabou puxando-a para si, abraçando-a contra seu corpo para prendê-la e fazê-la parar de mexer.
Não adiantou muita coisa; ela continuava se mexendo e tremendo violentamente seu corpo envolto pelos braços do rapaz, sua voz abafada por ter sua cabeça encostada na camisa dele. Ele esperou por alguns minutos até que ela começasse a se acalmar, sentindo o cheiro de canela que emanava do seu cabelo; seu queixo estava posicionado sobre os cachos aveludados e negros da cabeça da garota. Ele não entendia porque estava fazendo aquilo; podia muito bem fazer a vontade dela e sair, pouparia muito trabalho e ele ainda teria sua canela inteira, mas havia alguma coisa naquela situação - ou em Katherine - que não o deixava sair sem antes tentar ajudá-la de alguma maneira. Talvez fosse um sentimento de dívida por aquele dia do cemitério, ou talvez fosse outra coisa qualquer, ele não sabia; mas Harry não sairia daquela sala antes que ela se acalmasse e explicasse porque tinha atentado contra a sua vida quando ele irrompeu pela porta.
Ele sentia todo o corpo dela tremer enquanto encostado no seu; esporadicamente, ela fazia algum movimento brusco, tentando se soltar, mas Harry era muito mais forte. A respiração dela era acelerada, rasa e barulhenta, rasgando o silêncio da sala. Aos poucos, os punhos dela pararam de socar seu tórax; ela enterrou ainda mais sua cabeça na camisa de Harry, e ele percebeu que seu corpo tremia mais do que nunca. O forte calor que ela emanava confundia-se com o seu próprio calor.
- Você andou chorando? - Harry perguntou depois de muito tempo, sua voz representando apenas um murmúrio lento.
A pergunta fez as suas inúteis tentativas de se desvencilhar dele cessarem de imediato, no entanto, seu corpo tremeu ainda mais, se isso era possível. A quentura do corpo dela era tão intensa, que Harry chegou a pensar que ela estivesse febril. Sua respiração se tornou mais lenta e profunda, e o barulho que ela fazia quando aspirava o ar se tornou maior, como se o nariz dela estivesse totalmente entupido. Então, gradualmente, seu corpo começou a dar espasmos cadenciados e, quando Harry se deu conta, Katherine estava chorando e soluçando em seus braços.
Num primeiro instante, ele se surpreendeu com a situação e não teve a mínima idéia do que fazer. Katherine Willians estava chorando, descontroladamente e desesperadamente, em seus braços. Ele apenas permaneceu por algum tempo abraçado a ela, sentindo seus soluços, tão fortes que faziam seu próprio corpo balançar junto com o dela; sua camisa já estava molhada no local onde ela vertia suas lágrimas desesperadas, e parecia que Katherine apertava cada vez mais sua cabeça no peito de Harry, como se estivesse envergonhada de estar chorando e quisesse se esconder, mas ao mesmo tempo não conseguisse parar. Harry enterrou suas narinas nos cabelos dela, sentindo cheiro do suor que ela emanava, misturado ao próprio cheiro do seu corpo e seu perfume agressivo. Ele nunca tinha percebido que os cabelos dela eram tão macios.
Harry percebeu que deveria consolá-la, então, desajeitadamente, começou a alisar suas costas onde as tocava antes apenas para segurá-la; sentiu algo estranho percorrer seu corpo quando se deu conta de que apreciava as curvas da garota e se assustou com seus próprios pensamentos, mas não podia evitá-los; já fazia algum tempo que ele não ficava tão próximo de uma garota daquela maneira.
- Shhh... Está tudo bem... - ele sussurrou calmamente no ouvido dela, tentando inutilmente desviar seus pensamentos para o que quer que fosse o problema de Katherine. - Shhh... tudo bem...
Muito devagar, os soluços dela começaram a se tornar mais esparsos e suas lágrimas menos abundantes. Finalmente, ela estava se acalmando. Seu corpo foi parando de tremer e sua respiração se ritmou. Passaram-se mais alguns minutos até que, lentamente, ela começasse a se separar dele; Harry ainda a manteve em seus braços até que percebesse que era seguro soltá-la - ela não gritaria mais.
Katherine deu um curto passo para trás, levantando o rosto para encarar Harry nos olhos; a sua boca, ele notou, estava entreaberta, seus lábios muito vermelhos, bem como o nariz e os olhos inchados. As bochechas estavam encharcadas pelas lágrimas, e alguns fios soltos do seu cabelo grudavam nelas.
Harry soltou o ar longamente pela boca.
- Vamos... - ele começou, sem saber o que dizer ao encarar os olhos tristes dela. - Venha... venha se sentar... um pouco...
Ele posicionou sua mão direita nas costas dela e a conduziu até a parede oposta à uma das janelas, por onde ainda incidia a luz opaca da lua. Katherine praticamente escorregou até alcançar o chão, enquanto Harry se sentava ao seu lado, ainda encarando-a nos olhos; os dela procuraram o chão, vexados.
- Você está melhor agora? - Harry perguntou.
Ela umedeceu os lábios com a língua, mas sua resposta foi um mero aceno positivo com a cabeça. Harry pigarreou, respirando fundo, e desejou que ela não recomeçasse a gritar depois da pergunta que ele estava prestes a fazer.
- O que aconteceu com você?
Os lábios dela tremeram furiosamente, ao mesmo tempo em que ela fechava os olhos com força.
- Ela... - sussurrou com a voz morrendo. - Ela... se foi...
- Quem é ela?
- Ela... minha avó... se foi... incêndio... não vou poder... - uma respiração mais funda. - ...não vou poder... nem ver... seu corpo...
Foi então que Harry ligou os pontos. Incêndio, avó, corpo. Ele arregalou os olhos, chocado; tinha encontrado a garota da notícia do jornal.
- Então... foi a sua avó que...
- O que eu vou fazer? - Katherine perguntou, cobrindo o rosto com as mãos enluvadas, seu corpo começando a se balançar todo novamente pelos soluços. - O...o... que eu... v-vou... fazer ag-gora? Ela era... a únic-ca... p-pessoa... que eu t-tinha... no mu-undo...
Harry teve vontade de afastar as mãos dela e acariciar seu rosto, mas acabou se contendo. Um sentimento estranho, de pena, percorreu-lhe o corpo. Ele estava com pena daquela menina... Ele sabia o que era perder alguém importante em sua vida.
A imagem de uma velha senhora de cabelos brancos, presos num coque mal feito, abraçando afetuosamente aquela garota que agora soluçava à sua frente, perguntando se a neta tinha se divertido e agradecendo ao rapaz desconhecido que a tinha deixado em casa, se formou na mente de Harry. "Somos só eu e minha av", ele se lembrou da voz de Katherine quando explicou a ele porque elas moravam numa casa tão simples, mesmo pertencendo a uma família rica como a dos Malfoys. Ela só tinha aquela senhora... e agora não tinha mais ninguém...
Harry afastou as suas mãos enluvadas do rosto lavado pelas lágrimas; os olhos inchados de Katherine fitaram o rapaz sem entender, então ela soluçou mais forte e fechou-os, encostando novamente sua cabeça no peito dele, permitindo-se chorar. Harry envolveu-a com o braço ao redor das suas costas. Não saberia precisar por quanto permaneceram daquela maneira; Katherine chorou sobre ele até se acalmar e, sem que percebesse, adormeceu nos braços de Harry.
- O balaço! COLIN!
Ele se abaixou quando um balaço passou zunindo pela sua cabeça. Viu quando Colin Creevey o rebateu bem na direção do novo apanhador da Corvinal, que se abaixou também, mas não rápido o suficiente; foi acertado no braço e soltou um grito de dor.
Foi o suficiente para que Harry disparasse com folga na direção do pomo de ouro, que reluzia próximo às balizas da Corvinal.
Ele ouvia o barulho que a torcida fazia misturada à voz de Ernie Macmillan, informando que Peta Spencer tinha acabado de marcar mais um gol e convertido o placar em 160 a 90 a favor da Grifinória; se Harry conseguisse apanhar o pomo naquele momento, eles venceriam com uma boa vantagem, o que os colocaria em primeiro lugar no campeonato.
- Harry, abaixa a cabeça! - alguém gritou acima dele, e Harry sentiu um balaço roçar seus cabelos. Ele olhou para trás e viu o apanhador da Corvinal em seu encalço.
Ele focalizou o pomo voando quase alegremente aos pés da baliza adversária, próximo ao chão; embicou a Firebolt para baixo, deitou o corpo sobre o cabo da vassoura e disparou como uma flecha, contornando os aros e raspando o gramado com a ponta dos pés. Sentiu algo gelado se agitar inutilmente ao redor dos dedos e girou a vassoura no ar, aprumando-se.
O inexperiente apanhador da Corvinal tinha se chocado com o chão no ímpeto de alcançar Harry e apanhar o pomo. Ernie Macmillan gritava que a partida tinha terminado, ao mesmo tempo que a Grifinória gritava de alegria. Madame Hooch se aproximava do apanhador da Corvinal, que tinha luxado o nariz com a batida; Harry fez uma careta ao observá-lo, sabia que aquilo doía de verdade.
Os outros jogadores da Grifinória aterrizaram no gramado, próximos a Harry, e cumprimentaram-no pela captura do pomo, todos contentes pelo resultado. Mas a atenção de Harry estava focada nos dois únicos jogadores ocupados demais para se juntar aos outros; Gina e Jonnathan, que vinham comentando a partida com enormes sorrisos nos rostos. Harry sentiu o estômago se revirar sozinho novamente.
- Você viu aquela minha defesa, Harry? - Rony perguntou animado enquanto entravam no vestiário, cansados e suados, mas sorridentes. Harry continuou observando Gina e Jonnathan com o rabo dos olhos; eles conversavam perto dos armários, o garoto muito mais alegre do que o normal, se é que era normal ele desamarrar a cara.
- Ahhh, mas você deixou passar várias bolas... - Peta caçoou.
- Porque eu levei um balaço na barriga!
- E você já está melhor? - Colin perguntou; Harry teve certeza de que Jonnathan estava se insinuando para Gina quando ele apoiou a mão no armário, cercando-a. Gina riu.
- Eu resisti bravamente, mesmo que não estivesse em condições!
- Nós temos uma boa vantagem agora... - Dênis lembrou. - A Sonserina não conseguiu abrir tantos pontos quando jogou com a Lufa-lufa duas semanas atrás.
- Mas nós não podemos parar de treinar, esse foi só o primeiro jogo. - Harry falou seriamente, seus olhos estavam focados ainda em Gina e Jonnathan. - Vocês escutaram isso? - ele perguntou incisivamente, dirigindo-se aos dois.
Eles finalmente se viraram para prestar atenção nos outros; Harry percebeu que Rony lhe lançou um olhar como quem estava percebendo o que estava acontecendo, mas ele nem se importou com Rony naquele momento; estava com muita raiva para se importar com qualquer coisa. Jonnathan estreitou os olhos para Harry, furioso, mas Gina tomou ares de desimportância e superioridade.
- Não se preocupe, capitão. - ela disse num claro tom de provocação. - Nós não vamos decepcioná-lo. - ela finalizou com o nariz empinado, fazendo Harry ficar com uma raiva ainda maior; Gina, então, fechou seu armário com estrondo e saiu do vestiário, sendo seguida de perto por Jonnathan.
- Ela está com esse sujeito? - Rony disparou a pergunta à queima roupa para Peta.
Ela arregalou os olhos a princípio, olhou para o lugar por onde Gina e Jonnathan tinham saído, e depois soltou uma risadinha que irritou Harry ainda mais.
- Estão, é? - ela perguntou de volta. - Eu não sabia dessa! Gina costuma ser bastante discreta comigo...
- É, por que será? - Colin perguntou ironicamente.
- Ahhh, eu não sou de sair falando por aí as intimidades dos outros!
Todos a encararam com caras descrentes. Dênis soltou um sarcástico "humhum". Peta resmungou qualquer coisa e saiu batendo os pés, emburrada, Colin seguindo-a rindo e tentando se explicar. Dênis logo após também se despediu e foi embora. Rony se sentou num dos bancos.
- Não estou gostando disso. - ele resmungou com rabugice. - Não estou mesmo.
- Do quê? - Harry perguntou mesmo sabendo a resposta, indo mexer no seu armário.
- A Gina e esse cara... eu não gosto dele. E você também ficou mordido com isso, não?
- Claro que não! - Harry respondeu rápido, como se levasse um choque elétrico. - Eu nem me importo, ela que saia com quem bem entender!
O "humhum" de Rony soou para Harry como o "humhum" de Dênis tinha soado para Peta.
- Você e Hermione continuam na mesma? - Harry perguntou só para mudar de assunto; sabia muito bem que os seus dois amigos teimosos continuavam se falando, mas com a mesma formalidade de dois estranhos.
Rony deu de ombros.
- Não me importo mais com ela.
- Humhum... - Harry fez como o amigo. - Deixa de besteira, Rony, você nem consegue dormir direito por causa disso!
- Como você sabe?
- Porque agora só o Neville ronca de noite.
- Eu não ronco!
- Se eu pudesse gravaria seu ronco pra você ouvir!
- Ah, não enche, Harry! - Rony exclamou por fim, também saindo do vestiário. Harry riu sozinho, mas um minuto depois Rony estava de volta, com um olhar intrigado no rosto.
- Que foi? - Harry perguntou rindo. - Viu assombração?
- Tem uma pessoa te esperando lá fora. - Rony apontou o polegar para trás. - Estranho...
Harry ergueu as sobrancelhas.
- Quem?
- A prima do Malfoy. - Rony fez uma careta. - Ela não tava sumida da escola?
Harry se lembrou daquela noite na sala redonda; tinha sido a última vez que tinha visto Katherine, quando ela tinha chorado daquela maneira constrangedora em cima dele, cochilado em seus braços e depois acordado assustada e saído correndo da sala. Durante aquela semana, ela não esteve presente nem nas refeições, nas aulas de Defesa, nas de Poções ou em qualquer coisa. Harry chegou a dar uma passada na ala hospitalar (não que ele se importasse, no dia que tinha passado por lá a ala estava no seu caminho) para ver se a garota estava por lá, doente ou qualquer outra coisa. No entanto, ela parecia ter desaparecido do castelo. Harry voltou ao mundo real com um baque quando percebeu que Rony o encarava de uma maneira esquisita.
- Eu esbarrei nela quando tava saindo... - ele disse lentamente, como se estivesse sondando Harry. - Ela perguntou se podia entrar para falar com você...
- Ah, tá, tudo bem. - Harry respondeu distraído. - Deve ser para falar da redação do Lupin...
- Hum... - Rony resmungou descrente. - Eu vou ir embora mesmo para Torre e falo para ela entrar quando eu sair... Você vai para lá depois? Vai ter comemoração...
- Vou, vou... - Harry disse sem prestar atenção nas palavras. Por que ela tinha vindo procurá-lo?
- Está tudo bem com você, Harry?
Ele percebeu que Rony o estudava.
- Tá, Rony, tudo bem!
- O.k... depois a gente conversa, então...
Harry acenou com a cabeça, escutando os passos de Rony se afastando. Ele apoiou os braços sobre o armário e seu queixo tocou sua pele; ainda não conseguia entender por que diabos ela tinha aparecido agora, depois de tanto tempo sem dar sinal de vida. Aquela menina era maluca. O que será que tinha acontecido para que ela sumisse da escola por uma semana? Será que tinha algo a ver com a morte da avó dela?
- Ei! - ele se assustou com a voz dela. - Tá com a cabeça nas nuvens, Potter?
Ele se desencostou do armário para vê-la, parada à porta, encarando-o de volta. Pôde perceber que seus olhos estavam mais fundos, seu rosto pálido emoldurado pelos cabelos ainda mais desalinhados. Ela parecia um pouco abatida, nem parecia aquela Willians que ele conhecera. O que uma perda não podia fazer com uma pessoa...
- O que você está fazendo aqui? - ele perguntou sem pensar.
- Vim conversar com você, não deu pra notar, não? - ela retrucou, mas não parecia irritada. Cruzou os braços, encolhendo-se um pouco, como se estivesse com frio, e caminhou até a porta que dava para o campo de quadribol, encarando-a pensativa e permanecendo de costas para Harry.
- Você desapareceu. - ele disse, encostando-se aos armários e também cruzando os braços, fitando as costas dela. - Pensei que tivesse fugido da escola... tive que fazer a aula de Defesa na segunda sozinho.
- O diretor veio falar comigo... - ela respondeu com a voz lenta e rouca. - Eu fiquei fora para resolver alguns assuntos da minha avó... por causa da... você sabe.
Harry ficou em silêncio, sem jeito para dizer qualquer outra coisa.
- Eu queria... - ela começou hesitante. - Eu queria... lhe dizer... - ela fez uma pausa. - Eu queria lhe dizer obrigada, Harry.
Ele levou um choque tão grande que acabou se atrapalhando todo e dando uma cotovelada no armário às suas costas, produzindo um barulho metálico que ecoou pelo vestiário vazio.
- Obrigado? - ele perguntou sem entender, alisando o cotovelo dolorido. - Obrigado por quê?
- Porque... - ela fez outra pausa. - Por causa daquela noite... porque você foi gentil comigo... Aquela conversa... me fez bem...
Harry sentiu algo que não sentia há muito tempo; suas bochechas ficaram quentes e seu estômago afundou um pouquinho.
- De nada. - ele respondeu bestamente e depois quis se matar por dizer isso, remendando em seguida: - Tudo bem, eu... fico contente que... tenha te ajudado...
Era uma situação esquisita; Harry não sabia o que dizer nem como se portar. Ele engoliu em seco, percebendo que sua garganta estava seca.
- Você me chamou pelo primeiro nome... - ele murmurou a primeira coisa que passou por seus pensamentos e, novamente, soou idiota aos seus ouvidos.
Ela se virou para olhá-lo, um pouco encabulada.
- Me desculpe. - disse depressa. - Eu...
- Não, tudo bem... - ele sorriu sem jeito. - Pode me chamar assim se... se eu puder chamá-la de... pentelhinha.
Ele se sentiu estranhamente contente quando conseguiu arrancar uma risada fraca dela.
- E por favor... não conte para ninguém que me viu... chorar... - ela pediu com a voz baixa e rouca.
- Pode estragar sua pose de durona, huh? - ele brincou; ela sorriu timidamente. - Eu não tenho porquê contar...
- Obrigada...
- Hey... pare de me agradecer ou vou acabar ficando metido... - ele zombou.
Ela sorriu mais uma vez, seus olhos procurando focalizar qualquer coisa que não fosse Harry; então, ela deu alguns passos na direção dele e, quando o encarou, estendeu sua mão num gesto de amizade. Harry a olhou por alguns instantes, sua boca entreaberta de espanto, então acabou apertando a mão dela, sentindo o tecido grosso e quente das luvas negras dela.
Ele estava fazendo amizade com uma sonserina.
Mas mesmo assim, sentiu-se um pouco mais leve depois daquilo...
Nota da autora:
Gente, MIL desculpas pela demora... aconteceu tanta coisa. Primeiro: bloqueio básico, eu olhava para a tela do meu pc, ele olhava para mim e não rolava nenhum clima. Segundo: p/ ver como o meu pc não estava a fim de mim, ele ainda foi pifar e quase que me deixou viúva! Pode? Pois é, duas semanas no conserto e duas semanas sem internet. E o pior é que eu já sabia que o capítulo betado estava no meu e-mail, mas não tinha computador onde pudesse postar, uma droga mesmo. Mas, entre mortos e feridos, estou aqui, postando o capítulo e pedindo mil desculpas! E agora, sobre a fic; vocês gostaram dessa amizade do Harry e da Katherine ou estão a fim de me matar por isso? Hehehe Bjks!morgana:
Huhauhauhua, putz, você nem é indecisa, hein? hehehe Quando eu terminar meus rolos de vestibular aqui eu leio, hehehe :DDiu Hiiragizawa:
hahahahaha, bom, agora acho que você pode parar de ler os capítulos no meu site, porque pretendo postar simultaneamente lá e aqui no ff, hehehe. Ou então você lê lá e deixa coment no GB ;) É isso aí, a Mione se revoltou (certa ela, homens precisam sofrer nas mãos das mulheres, principalmente quando dão uma de bobos hehehe) Agora, se eles vão voltar... logo... não posso dizer nada, hahahaha :D Ahhh, o Sirius é demais mesmo, me dá uma saudade dele quando eu escrevo ele aqui na CdE... tadinho. Ahhh, e que bom que você gostou da parte do cemitério, foi bem difícil escrever aquilo, aiai. Eu tava meio dark quando escrevi os vampiros hehehe Bjks!Lo26:
Cumadiiiiiiiiiii, que saudade docê!!!! Mininahhhh, já te disse no mail que mandei p/ vc e as cachaceiras, mas meu pc pifou de vez e num deu p/ entrar na net duas semanas! Puuuutz, maior transtorno, e eu aki, com MTA saudade de vc e de todas as mininas!!!! Ahhh, e sobre tua review, miga, é claro que o meu tilido "Vovô Voldie Star" é o melhor vilão da novela das oito! Que Nazaré que nada, é Voldie na cabeça! Uhauhauhah Harry e Katita, fia?? Hahahhaha "Katita", dorei essa :p Quer dizer que vc gostou do que aconteceu no outro cap? Imagine nesse, acho q a Angie péssima influência, hahahaha vai surtar e gritar muuuito hehehe Mininah, temos q parar de nos comunicar por review! ENTRA NA NET JÁ! Hehehehe Bjks, cumadi, tô surtando de saudade, te doro muitoooo ;)Talitablack:
Miga! Q saudades!!! Huahuahuha, o Harry é MTU cabeça dura, mas é exatamente por isso q eu amo esse mininu suspiros Tira o olho! Heheheh Hum... sobre o H/G... pimenta? Acho q vai ser mais q isso, uhauhaha :p E nisso vc tem razão, o Malfoy tem que perder TUDO para o Harry, ahhahahaha Hum.. quer dizer que tu boiou no lance do cemitério? Pois é, já percebi que ng vai conseguir decifrar o código se eu não ajudar.. mas eu não vou ajudar! Hahahha Vcs terão mtus caps até o código ser decifrado p/ descobrirem o q ele significa hahahaha :D Vixe, menina, calma que o Sirius aparece sim, heheheh Q quer o Harryzinho p/ ti que nada, menina, ele é MEU e ng tasca! Eu soh "empresto" p/ as personagens na fic, uhauhaahah Vou indo, te doro de montão, bjkssss