Capítulo 12
Draco observou Hermione ir numa frieza distante.
Não se incomode, queria dizer. Não vai mudar nada. Já basta que ela saiba.
Mas importava. Ainda tinham que controlar os estragos. Então ficou quieto e abençoou sua habilidade de esconder os sentimentos. Se havia um momento em que precisaria disso, era agora.
Tinha revelado seu desejo e o perigo a Hermione, e era tudo em vão. Mal tocara seus lábios antes de estar tudo terminado.
Tudo acabado. Pra sempre.
Não, não devia pensar nisso agora. Teria tempo suficiente para lamentar a perda depois, mas agora precisava fazer aquela puta ruiva calar a boca.
Merlin, como a odiava.
Tinha algumas ideias de como poderia arrancar a memória à força de sua mente, mas sabia que Hermione jamais deixaria. Poderia até odiá-lo por sugerir isso. Considerou fazer assim mesmo, pois tinha certeza do enorme risco que só o fato de ela saber traria, mas ao pensar em tudo que poderia dar errado, deixou a ideia de lado. Se usasse um feitiço, podia meter a fedelha em coma ou pior. E não era porque se importava se o cérebro dela parasse de funcionar; era uma Weasley afinal, e dificilmente faria alguma diferença. Era por conta da dor que causaria a Hermione, e o quanto o desprezaria por isso. Logo estaria magoada e o odiando de qualquer maneira, mas ao menos ainda teria sua amiga.
Odiava se importar com ela. Odiava se importar com seus sentimentos. Odiava a maneira com que o encarava com aqueles olhos enormes e castanhos, e o fazia se sentir como um aproveitador quando estava apenas dizendo a verdade. Odiava ter quase certeza de tê-la feito chorar no dia anterior. Odiava ter certeza de que a faria chorar outra vez. Possivelmente hoje.
Como desejava poder voltar a odiá-la.
Ah, mas você nunca a odiou tanto quanto deveria, não é?
Tinha que admitir que não. Sempre vivera muito protegido do mundo lá fora, e Hermione fora uma das primeiras nascida-trouxas que conhecera. Provavelmente nem a teria notado de início, se não estivesse andando com aquele babaca e prepotente Potter. Não é que estivesse atraído por ela, era novo demais para sequer contemplar isso, mas não sentira o mesmo nível de desprezo pela garota que sentia pelo Santo Potter e o Weasel, mesmo depois de saber de seu sangue. Inventara alguns insultos da melhor maneira que pudera, mas não parecia funcionar. Ela não era nada do que esperara e ouvira dizer de sangues-ruins.
Ainda assim, era um longo caminho ir de quase-não-odiar alguém para... para...
Os sentimentos de Draco ameaçaram voltar à superfície, então os bloqueou imediatamente. Não tinha tempo para isso. Tinha que manter a postura para fazer o que devia ser feito.
Tão calmamente quanto pôde, esperou.
Quando Hermione finalmente voltou, parecia abalada e seus olhos estavam avermelhados. Aparentemente, as coisas não tinham ido muito bem.
"Ela vai falar?" Draco perguntou, vagamente consciente da distância e frieza em sua voz.
Hermione o encarou e engoliu. "Não... não, ela não vai falar nada," disse, trêmula. Tinha certeza de que não estava contando tudo.
"E então?" perguntou.
A garota parecia prestes a chorar, e ele nem tinha começado ainda. Que merda aquele projeto ridículo de bruxa dissera? Sentiu a raiva inflando dentro de si, e logo a reprimiu.
"Ela disse..." começou, então vacilou por um segundo, respirou fundo e tentou novamente. "Ela disse que eu devia contar aos meus amigos."
"Nem sonhe com isso, Granger," disse. Os olhos dela se arregalaram ao uso de seu sobrenome. "Você não vai dizer nem uma palavra a eles," impôs, friamente.
"Ela não vai ficar parada e deixar isso continuar," sussurrou, percebendo claramente para onde isso estava caminhando.
Tinha que sair dali, não podia fazer isso. Ainda não. "Foi divertido," disse. "Mas você sabe tão bem quanto eu que estava acabado no minuto em que ela nos viu."
"O que aconteceu com 'não consigo ficar afastado'?" sussurrou. "O que aconteceu com 'não consigo resistir'?"
Draco sentia o controle escapando rapidamente; tinha que terminar com isso agora. Violentamente, agarrou a garota pelos ombros, fincando os dedos em sua carne macia através do tecido de suas vestes, com a expressão mais sarcástica que conseguiu fazer, diante daquele rosto assustado. "Eu disse que ninguém pode saber," rosnou, sacudindo-a um pouco. "O que pensa que isso é? Alguma história de amor impossível? Nós fodemos, fomos pegos, e agora está acabado! A vida real é assim, princesa." E empurrou-a, fazendo com que tropeçasse, e saiu, desejando por tudo que não se rendesse ao ouvir o som abafado dos soluços dela.
Draco logo descobriu-se lutando uma batalha perdida. Tinha ido ao seu refúgio recém-descoberto, a porcaria do banheiro das garotas no segundo andar. Aquele fantasma infeliz chamado Murta-Que-Geme estava efetivamente mantendo todo mundo à distância, e ninguém sonharia em procurá-lo ali. Suas mãos agarraram a pia de pedra com força; estava hiperventilando.
Não é tarde demais, pensou. Se eu voltar lá e disse que sinto muito...
NÃO! Não podia. Se fizesse isso, ela estaria tão segura quanto à beira da morte. Todos estariam. Uma imagem de Hermione morta surgiu em sua mente como um flash, os olhos cegos e vidrados.
Segurou a pia com mais força ainda. Podia fazer isso, podia deixá-la ir.
Para ela, era apenas sexo, de qualquer maneira. Não valia a pena morrer por sexo. Só se houvesse mais. Havia mais? NÃO! Não importava. Não valia arriscar a vida da garota por isso. Sua existência miserável certamente acabaria logo, mas ela viveria! A guerra poderia até matá-la, mas Draco não podia ser a razão. Não podia.
"O que há de errado?" Murta perguntou, enfiando a cabeça para fora de uma cabine.
Claro. Era pedir demais pra ser deixado em paz.
"Nada," engasgou, surpreso pela dificuldade que seu corpo tinha em absorver oxigênio. "Eu só preciso..." Nem terminou a frase. Não conseguia. O que deveria dizer? 'Preciso juntar os pedaços do meu coração, pra que possa sair daqui e fingir que não suporto a garota que protagoniza todos os meus sonhos, e todas as minhas fantasias'? Estava ferrado.
"Não parece nada," Murta observou. "Você pode me contar."
Ele queria, percebeu, para sua grande surpresa. Queria muito contar para alguém. Mas não podia. Murta não era a pessoa – ou fantasma – mais inteligente e não dava pra confiar que não deixaria escapar alguma coisa.
"Estou bem," disse. "Por favor, me deixe sozinho."
Queria ter dado mais valor a Hermione – sido mais gentil, ou algo do gênero. Ansiava por apenas abraçá-la e se amaldiçoava por não ter aproveitado quando tivera a chance. Sempre pensara que haveria outra vez, outra chance. Não haveria agora, nem nunca. Mesmo que o Lorde das Trevas fosse derrotado, nunca teriam uma chance. Ele estava do lado errado. Mataria Dumbledore ou morreria tentando, e ela o odiaria para sempre por sua traição. E mesmo que viesse a entender seus motivos, o odiaria por não fazer o que chamaria de a coisa certa.
Suas chances de sobreviver aos próximos meses eram muito ruins, de qualquer jeito.
Quando percebeu que de fato a amava, quisera terminar imediatamente. Sabia que embora pudesse se doar um pouco por ser uma relação física, amá-la era inaceitável. Mesmo seus pais poderiam deserdá-lo por isso. Mas então, depois de pensar muito, chegara à conclusão de que ia morrer mesmo e ninguém se machucaria se fosse um pouquinho feliz antes de acontecer. Amaria Hermione o tempo todo e tanto, mas tanto, que a garota não teria motivos pra reclamar. E teria certeza de que não se arrependeria, mesmo depois de saber quem ele era.
Mas não acontecera assim. Foram pegos antes mesmo de conseguir um beijo satisfatório.
Sentiu as bochechas úmidas e zombou da própria imagem no espelho.
Controle-se!
Não podia se controlar. Uma vez que a torneira fora aberta, o fluxo só piorara.
Nunca a tocaria outra vez. Nunca a beijaria. Ela nunca saberia o quanto a queria. Tinha que acreditar que era um bastardo sem coração que apenas a usara, quando nada podia estar mais longe da verdade.
Um soluço de cortar o coração estremeceu todo o seu corpo.
"Talvez melhore se falar a respeito..." Murta disse, numa voz gentil.
E para seu grande horror, ele o fez.
Draco começou a evitar Hermione, mas sabia que era perda de tempo. A garota o procuraria depois de um tempo. Podia achar-se fraca, e que ele fosse um babaca frio e arrogante, mas na realidade era forte e determinada, e o conhecia muito melhor que ambos admitiriam abertamente. Essas eram coisas que amava a respeito dela, mas também o obrigavam a ser impiedoso. Se começasse a segui-lo, sem dúvida sucumbiria a seus avanços, e não poderia deixar isso acontecer em hipótese alguma.
Uma semana passou. Duas. Os dias se embolaram em um borrão sem sentido, e as semanas só passaram e passaram. Isso agradou Draco, porque lhe dava tempo pra se recompor e desejar que realmente estivesse tudo acabado. Nem mesmo quase matar Ronald Weasley por engano o animou. Provavelmente era a parte do 'quase' que estragava tudo, porque Merlin sabia que adoraria ver todo o clã Weasley erradicado.
Potter quebrar a cabeça em outra partida de Quadribol à qual Draco escolheu faltar ajudou um pouco mais, mas ainda assim – o fato de ter se recuperado arruinava tudo. Isso, e o fato de ter visto uma Hermione preocupada e aliviada mais tarde naquele dia. Nunca desejaria sua infelicidade. Se o fato de Potter estar vivo lhe deixava feliz, então toleraria sua existência quase alegremente.
Isso o estressava. Desde quando era um idiota tão apaixonado? Nunca ficaria com a garota, e se isso era estar apaixonado, então que se livrasse disso logo! Não gostava de estar sujeito a seus humores e caprichos, quando não se falavam havia semanas! Não queria desejá-la toda noite! Não gostava nem um pouco de todo este... sentimento! Tolerar alegremente a existência de Potter, ah sim!
Ainda assim, não mudaria uma vírgula do que acontecera. Se pudesse, faria tudo outra vez, só que não seria pego.
Ginny Weasley o olhava com mais desprezo do que o comum, o que não o incomodava nem um pouco, mas seu relacionamento com Hermione parecia abalado. O que havia de errado com a putinha sem cérebro? Não conseguia ver que a morena provavelmente precisava de uma amiga que soubesse o que acontecera? Podia não amá-lo, mas Draco fora seu primeiro amante, e agora estava sendo um cretino com ela a cada chance que tinha. Via a dor em seus olhos quando a provocava, e isso acabava com ele. A maldita Weasley devia servir pra confortar, e não julgar.
Merlin sabia que ele se sentia melhor por ter alguém pra conversar sobre pelo menos parte dos acontecimentos, mesmo que fosse um fantasma bobo, e mesmo que nunca fosse muito específico. De alguma forma, ouvir alguém dizer que não era a escória do mundo, e que tudo ficaria bem, fazia as coisas ficarem mais fáceis. Mesmo sabendo que era tudo mentira.
Estava imerso em pensamentos enquanto andava rapidamente pelo corredor do quarto andar. O lugar estava deserto, pois as aulas já haviam começado. Estava atrasado de novo, e não se importava nem um pouco.
De repente, uma certa morena saiu das sombras e bloqueou seu caminho.
"Sai da minha frente, sangue-ruim," rosnou. O acordo terminara assim que não precisara mais dela, o que era irônico à sua própria maneira.
"Não," Hermione respondeu numa voz clara e firme.
"Estou atrasado para a aula," disse, tentando empurrá-la para longe, mas encontrando-se na outra ponta da varinha dela.
"Que pena, não é mesmo?" disse friamente. "Nós vamos conversar."
Nunca pensou que viveria pra ver o dia em que Hermione Granger não se importaria com as aulas. "Não tenho nada pra falar com gente do seu nível," respondeu. "Agora tire essa merda de varinha da minha cara e suma."
A garota revirou os olhos. "Você está se esforçando demais," o informou. "Por quê?"
"Pelo contrário, minha pequena puta sangue-ruim, eu parei de tentar de uma vez." E encostou lentamente o ombro à parede.
"Não acredito em você."
Suspirou. "Olhe, Granger," disse calmamente. "Sei que vai ser difícil me substituir, mas você vai ter que tentar."
Ela estreitou os olhos. "Quem é você?"
Você não quer saber.
"Você sabe muito bem quem eu sou," disse, irritado. "Não é minha culpa que você seja tão ingênua a ponto de pular na cama de qualquer um que te dê bola."
Percebeu a dor nos olhos da garota antes que pudesse esconder. Por que não podia deixá-lo em paz? Queria apenas puxá-la para perto e beijá-la até que o mundo virasse pó, e ao invés disso, tinha que ficar ali parado, vendo-a engolir suas ofensas. Por quê? Por que não podia simplesmente desistir? Por que não podia parar de ser teimosa, só dessa vez?
"Não te vi reclamando," respondeu calmamente. "Mesmo eu sendo sangue-ruim e tudo o mais."
"Bem," disse, deliberadamente dando seu olhar mais devasso. "Devo admitir que você foi boa. Podia facilmente se profissionalizar, sabe... acho que gente do seu tipo tem seus usos."
Ela arfou como se a tivesse estapeado. De alguma forma, era como se o tivesse feito. Calmamente olhou em seus olhos. A garota lutava por algum controle. Queria muito que ela lhe desse um tapa e dissesse pra nunca mais se aproximar.
"Essa não é a última vez em que nos falamos," disse numa voz trêmula, antes de virar e se afastar.
Tinha medo de que estivesse certa.
Draco não bebia. Álcool servia para pessoas fazerem coisas estúpidas e vergonhosas, e nunca vira o apelo nisso. Preferia apontar e rir para aqueles que bebiam e, quem sabe, chantageá-los no dia seguinte com fotografias em posições comprometedoras. Pelo menos, era seu modus operandi normal.
Nesta noite, porém, decidira esquecer tudo e roubar o estoque de Crabbe. Bem, não literalmente roubar. Tinha, na verdade, pago muito bem pela garrafa. Só queria muito poder dormir e fora assegurado de que se tomasse firewhisky o suficiente, dormiria como um bebê por várias horas. Estava trabalhando nisso. Não podia beber rápido demais, apesar disso, ou ficaria enjoado. Felizmente, talvez não precisasse de muito, já que não estava acostumado a isso.
Fez uma careta ao tomar outro gole. Queimava. Até gostava da sensação, na verdade; combinava com seu humor. Mas ainda precisava de um pouco mais pra se acostumar.
Estava jogado em um sofá confortável na Sala Comunal, que já estava deserta. Bem, não tão 'já', eram duas da manhã, mas era sexta-feira e isso normalmente significava que algumas pessoas ficariam acordadas até mais tarde. Mesmo assim, não importava; não estava com vontade de ser sociável.
Outro gole; outra careta.
Quando esse negócio começaria a funcionar, afinal? Não sentia nada. Estava cansado, com certeza, mas sempre estava. Não tivera uma noite decente de sono desde que começara a dormir sozinho novamente. Costumava não ter pesadelos, ou acordar e ouvir a respiração suave de Hermione, sentir seu coração batendo devagar, o corpo quente entrelaçado ao dele. Enfiaria a cabeça nos cabelos cheios, e isso o acalmaria e o ninaria até dormir outra vez. A escuridão fria e vazia não tinha o mesmo efeito.
Estava levando o copo aos lábios novamente quando Shaw entrou na sala, vinda dos dormitórios. Talvez não conseguisse dormir também.
"Bebendo sozinho, Draco?" perguntou, parecendo achar engraçado. "Nunca é um bom sinal."
"Cale a boca," disse sem cerimônias, enquanto tomava outro gole.
"Você é um idiota," disse, mas ao invés de deixá-lo sozinho, andou em sua direção e sentou-se ao seu lado. Infelizmente, o conhecia bem o suficiente pra não levar suas palavras em consideração. "Posso tomar um gole?"
"Só tenho um copo," disse, pronto para erguê-lo outra vez, quando foi arrancado de sua mão, e a loira bebeu tudo de uma vez só. Ele a encarou, achando divertido; certamente não era tímida.
"Então," disse, fazendo uma careta. Draco estava contente por não ser o único a fazer isso. "Eu sei por que estou bebendo, e você, por que está?"
"Não é problema seu," disse, pegando o copo de volta e enchendo-o outra vez.
"Você está uma coisinha alegre hoje, Draco," disse, encostando novamente e se espreguiçando, o que incidentalmente mostrou seus seios em toda a sua exuberância. Draco nem sequer se incomodou em fingir que não estava olhando, já que tinha certeza de que ela sabia. "Aposto que o problema é uma garota," adicionou.
"Já te disse que não é da sua conta," disse, irritado, bebendo metade do copo de uma vez e estremecendo quando a queimação trouxe lágrimas aos olhos. Tossiu um pouco.
"Ela é bonita?" provocou. "Como se sente, não tendo o luxo de não se importar?"
"Então, qual é o seu problema, Marylin?" retrucou. "Ainda está se derretendo pelo Zabini, enquanto ele continua a foder Pansy escondido por aí? Ou ele nem se importa mais em esconder?"
Isso conseguiu irritá-la. "De que merda você sabe?" rosnou, novamente pegando o copo e bebendo tudo. Seus olhos estavam brilhantes e as bochechas, tingidas em um tom rosado. Draco sentiu uma breve pontada de empatia, quando se deu conta de que deveria estar sentindo as mesmas coisas que ele.
"Sei que já passou da hora de esquecer esse cara e seguir em frente," disse, aceitando o copo de volta. "Ele nem sequer te respeita. Por que deixa que te trate assim?"
"Olha quem fala," zombou. "Tratou Pansy como lixo por meses e agora está aqui, bebendo, porque seja lá quem for não te quis. Você é mesmo fodido da cabeça, sabia?"
"Quem disse que ela não me quis?" disse sem emoção, arrependendo-se no minuto em que as palavras saíram da boca. Talvez esse troço funcionasse mesmo. Devia tomar cuidado.
Os olhos de Marylin se arregalaram. "Se ela te quer, por que –"
"Cuide da porra da sua vida!" rosnou. "Não é da sua conta o porquê de eu estar fazendo isso!"
Ela se aproximou. "Tá bom," disse. "Mas então vou tomar mais desse negócio."
Entregou-lhe o copo. Três quartos da garrafa já tinham ido embora. Será que era muito? Não fazia ideia. Mas seus pensamentos eram menos intensos e só isso já era um alívio. Ela se inclinou para pegar a garrafa e os olhos do garoto repousaram em seus seios outra vez. A loira riu.
"Quer senti-los?" perguntou, tomando um gole generoso do líquido dourado.
Draco arregalou os olhos. "Porra, Marylin, não!" disse.
"Por que não?" perguntou. "Você não seria o primeiro. Provavelmente, nem o último."
"Você está bêbada!" disse, tirando-lhe o copo e a bebida. "Vá para a cama."
"Sua ou minha?" perguntou, piscando.
"Sua," disse, sem hesitar.
A garota fez beicinho. Era uma arte que executava com perfeição. "Eu não quero," disse. "Por que você tem que ser tão chato?"
"Vai me agradecer amanhã de manhã."
"Não, não vou," disse, ficando de quatro no sofá e se aproximando. "Qual o problema? As pessoas já pensam que fazemos isso mesmo..."
"Não sou Zabini," disse. "Não é a mim que você quer."
Era, contudo, incapaz de não reagir à proposta. Duvidava que qualquer garoto na escola toda fosse imune. Mudou um pouco de posição, para que ela não notasse.
A garota sorriu, tristemente. "Se você fosse Blaise, eu ia querer muito mais. Mas, do jeito que as coisas são, isso vai servir." Inclinou-se e o beijou.
O loiro pulou para trás. "Mas que merda, Marylin, pare com isso!" exclamou.
Aconteceu de repente, sua mente se embaralhou como se estivesse envolvida em lã, e começou a achar difícil raciocinar, mas sabia que não queria realmente aquilo. Ao mesmo tempo, estava bem ciente do quão macio o corpo dela era contra o seu, e quão sozinho tivera se sentido nas últimas semanas.
Sua fraqueza quando o assunto eram mulheres era grande demais.
Ela se inclinou e o beijou novamente, e dessa vez a trouxe mais para perto, apertando-a, desejando que se negasse, que o afastasse. A loira não o fez. Era macia e complacente. Draco precisava de alguém quente e dócil. Não podia rejeitá-la, não queria dizer não outra vez.
Bloqueando todos os pensamentos, seu objetivo era esquecer.
Acordou, o coração batendo forte. Não tivera um pesadelo, mas algo o incomodava, sentia-se culpado e no limite. Isso, combinado a uma dorzinha de cabeça e um gosto amargo na boca. Certo. Bebera muito na noite passada. Com um susto, percebeu que não estava sozinho.
Hermione?
Não, não Hermione. Com o coração afundando e a bile subindo pela garganta, percebeu o que permitira que acontecesse. Se afastou o máximo que pôde da forma dormindo, acendendo a varinha, antes de cutucá-la com o pé.
"Acorde!" sussurrou, sem querer ouvir a própria voz. Se não ouvisse, talvez não fosse real. "Vá pra sua própria cama!" Sim, por favor vá para sua cama. Não quero você dormindo na minha.
"Humpf," Marylin murmurou sonolenta. "Voltou ao seu charme usual, não foi?" sentou, esticando-se e bocejando, permitindo-lhe uma visão perfeita de seu corpo nu. Desviou o olhar.
"Você não quer que Zabini te veja saindo da minha cama, quer?" perguntou, amargamente. Não quisera nada disso.
"Você sabe muito bem que ele não se importaria," respondeu, enquanto deslizava pra dentro da calcinha. "E se o fizesse, eu ficaria espantada."
Sim, sabia. Mas não conseguia se livrar dela rápido o suficiente. "Apenas vá embora," disse.
A garota sorriu tristemente. "Não se preocupe, ela nunca vai saber. Não da minha boca."
Um tremor involuntário percorreu seu corpo todo e a visão ficou meio embaçada. "Saia daqui," sussurrou.
Ela colocou as roupas. "Pensei que não havia maneira de você estar pior do que eu, mas estava errada. Não te invejo por ter se apaixonado por Granger, com o Lorde das Trev –"
"O QUÊ?" Empalideceu e ficou a encarando.
A loira parou no meio do movimento de ajustar as roupas e o olhou, reprovando. "Não sou burra, Draco," disse. "Você falou o nome dela."
Tinha mesmo falado? Não conseguia lembrar. Não queria nem tentar. Tinha acabado de colocar Hermione num perigo ainda maior. Agarrou a varinha com força e se perguntou o que precisaria para consertar isso.
"Não precisa me olhar desse jeito," continuou. "Seu segredo está seguro comigo. Não tenho razão para machucar nenhum de vocês dois."
"Eu te mato antes de machucá-la," disse, nem se importando do quanto revelava com essa afirmação.
Ela aquiesceu. "Já suspeitava disso. Mas cuidado com os nomes que fala na frente de suas parceiras, nem todo mundo vai ser tão compreensivo como eu."
"E por que você aceitaria ser usada para preencher o lugar de uma sangue-ruim?" teve que perguntar.
"Eu já sabia que estava sendo usada, assim como você, e meu irmão casou-se com uma, para o grande desgosto de nossos pais. Eles são muito parecidos conosco, não são?"
Draco não respondeu. Não, não eram. Se Hermione fosse alguma referência, eram muito melhores.
Marylin sorriu suavemente para ele. "Te vejo por aí," disse baixinho, deslizando pela cama, e então desapareceu.
Ele deitou e finalmente se deixou consumir pelo remorso que o ameaçava desde que acordara.
Agora ela vai ter ainda mais razão de me odiar. Tudo o que eu queria era ela, e nem posso dizer isso.
Sabia que não estava mais com Hermione; sabia que nunca realmente estivera. Sabia que nunca poderiam ficar juntos de novo. Ainda assim, sentia como se a tivesse traído. E sabia que ela sentiria o mesmo se soubesse. Engoliu em seco, as lágrimas escapando dos olhos, como sempre acontecia desde que haviam sido descobertos. Não queria machucá-la. Não queria que o odiasse. Queria desesperadamente que ela se apaixonasse por ele também.
Mas sabia o que tinha que fazer.
Draco não precisou esperar muito. Na verdade, a espera foi lamentavelmente curta. Quase entrou em pânico quando ela o encurralou em público. Não podia usar força para intimidá-la ou afastá-la sem atrair atenção. Ainda assim, o plano da garota era um pouco falho, pois não poderiam conversar civilizadamente também. Isso não pareceu desanimá-la.
"Por que não vai brincar um pouco com aqueles primeiranistas da Lufa-Lufa?" perguntou a Crabbe. "Parece que eles não sabem as regras." Acenou para um grupo de crianças cujo único erro era não ficar suficientemente fora do caminho. "Você também, Goyle."
Eles o olharam desconfiados, mas obedeceram. Não estavam totalmente preparados para afrontá-lo ainda, mas isso se tornava uma tendência. Sabiam que a família de Draco estava caindo rapidamente no conceito do Lorde das Trevas, e se não finalizasse logo sua missão, eles se rebelariam. Supunha que era puro instinto de sobrevivência.
"Encantador," Hermione disse, secamente. "Para meu benefício, suponho?"
Ela está linda hoje. Alguém disse isso a ela? Pois deveriam.
"O que você quer, Granger? Não tenho o dia todo." Olhou para o lado, já que não podia olhá-la nos olhos, o coração batendo com quase-pânico. Ao invés disso, acabou por chamar a atenção de Marylin sobre o ombro de Hermione. Não estava perto o suficiente para ouvir o que falavam, mas o olhar de simpatia era evidente.
"Quero que você cumpra a última parte do nosso acordo," disse, calmamente.
"Do que você está falando?" zombou.
Ela sorriu, sarcástica. "Conveniente você esquecer, não? Meu pedido livre."
'Terei um pedido livre. A qualquer momento, posso te pedir uma coisa e você vai ter que fazer ou me dar.'
Tinha mesmo esquecido. Não conseguia pensar em nada que pudesse fazer ou dar a ela, e que não entraria em conflito com sua própria estipulação: Só se for possível, sem arriscar minha vida, ou pior, arriscar a dela.
"O que é que você quer, então?" perguntou, meio rouco. "Compensação por seu... tempo?"
Seus olhos queimaram com raiva. "Pode parar com isso, Malfoy. Nós dois sabemos que é ridículo."
"Então o quê?"
"Me diga o que está acontecendo," disse. "Me diga por que está agindo assim."
Draco sentiu como se tivesse levado um soco, e seus olhos se arregalaram um pouco, deixando a surpresa evidente. Não podia dizer que estava tentando mantê-la a salvo, porque a garota apenas zombaria e diria o quão capaz era. Não podia falar sobre a extensão do perigo, porque ela iria querer saber mais, e realmente não podia falar sobre essa missão. Se contasse, então ela esperaria que se tornasse a porcaria de um herói, e quando falhasse, não teria escolha além de levar a informação à Ordem da Fênix. Não podia dizer absolutamente nada. Considerou brevemente quão ruim seria a azaração que a garota adicionara a esta cláusula em específico.
"Bem?" perguntou, impaciente. "Estou esperando."
"Tem outra pessoa", deixou escapar. Não era uma mentira, mas também não era resposta à pergunta. Suspeitava que se a garota tivesse realmente adicionado uma azaração à cláusula, estaria relacionada à verdade contida na resposta, e não se a respondesse de fato. Também percebeu que precisava dizer isso para que ela se afastasse, e fazê-lo aproveitando o fato de que tentava extrair-lhe a verdade à força não era um mau plano. Na realidade, era cruel e maldoso e Hermione nunca o perdoaria, mesmo se descobrisse que estava distorcendo a verdade.
Sentiu o pânico subindo pela garganta outra vez, pois sabia que não teria como voltar atrás. Talvez não fosse necessário dizer-lhe. Talvez ela aceitasse se dissesse ter perdido o interesse. Não queria dizer isso, não queria ver sua expressão quando a verdade lhe batesse na cara, não queria realmente aliená-la.
Não queria erradicar toda a esperança.
A morena obviamente não acreditou. "Sério?" perguntou. "E quem seria?"
Seus olhos se voltaram para Marylin, que ainda os observava, e Hermione acompanhou o olhar.
"Ela? Ah, por favor, Malfoy! Você já tentou isso comigo uma vez."
É, não é irônico? Nem mesmo naquela época eu a queria. Só quis provocar aquele fogo e ferocidade em você que quase te fizeram me devorar inteiro.
Devagar, desfez o nó do cachecol que usara sob a desculpa de um friozinho. Percebeu os olhos de Marylin se arregalando quando se deu conta do que ia fazer. Ela até mesmo sacudiu a cabeça para Draco, para fazer com que parasse, mas optou por ignorá-la. Tinha que fazer isso.
Tirando o cachecol, esticou o pescoço para que Hermione tivesse uma visão melhor das marcas que começavam a sumir, e que cobriam o pescoço e desciam pelos ombros. A noite que passara com Marylin não fora nem um pouco gentil, e sabia que isso aparecia em sua pele. Foderam com força, quase machucando, e ele continuara a pedir por mais, e nada tivera sido suficiente.
Não queria dizer que não gozara, apenas que não fora satisfatório como fazer amor com Hermione. Nem perto disso. Sabia que a morena reconheceria as marcas pelo que eram, tendo administrado algumas nele ao longo dos meses.
"Quer ver minhas costas também?" perguntou, numa voz distante. "Ouvi dizer que são uma visão impressionante. E meu braço esquerdo..."
Hermione ficara completamente imóvel. Parecia aflita e um pouco enjoada. Sabia o que era. Lágrimas começavam a se formar em seus olhos. Porra, aqui não. Apressadamente, colocou o cachecol no lugar, bloqueando a visão, cuidadosamente evitando olhar para Hermione ou Marylin.
"V-você jurou que não estava afim dela," a morena disse numa voz baixa, magoada e confusa. "Você disse..."
"E te surpreende que eu tenha mentido? Por quê?" perguntou, desejando estar morto. "Eu traí Pansy com você, e ter dormido com Marylin sequer se qualifica como trair alguém."
Fui infiel com você, eu sei. Por favor, me perdoe quando eu estiver morto, mesmo que não saiba as minhas razões.
"Você a ama?" perguntou. "É por isso?" A garota realmente perdoaria o suposto erro se ele tivesse se apaixonado? Sim, supunha que sim. Ela tinha honra o suficiente.
Draco deu uma risada curta e amarga. "O que amor tem a ver com foder?" perguntou. "Espero que seja esperta o suficiente para não misturar as duas coisas. Detestaria ficar preso a uma sangue-ruim cheia de sentimentos pra cima de mim."
Já está brava o suficiente? Consegui fazer a dor queimar dentro de você? Tentar cauterizar suas feridas é o mínimo que posso fazer, pra evitar que você sinta minha agonia.
A garota foi incapaz de conter um soluço quando as lágrimas escaparam de seus olhos. Isso partiu seu coração em mil pedaços outra vez. Por que tinha que ser tão bom em machucá-la? Queria dizer algo que confortasse, mas não podia. Ao invés disso, ficou ali parado, observando, enquanto ela se virava e corria dele. Estava chorando abertamente, nem se importando se alguém a visse.
Marylin começou a andar em direção a ele, mas antes que pudesse alcançá-lo, alguém agarrou seu braço com violência e atirou-o contra a parede.
"O que você fez com ela?" Potter gritou, furioso. "O que disse para ela, seu monte de merda?" Draco nem tivera tempo para responder antes de levar um soco no estômago.
Quase satisfeito com a desculpa para brigar, revidou.
Continua...
