No capítulo anterior...

Mais afastado, Yun observava os dois. A preocupação era evidente em seu semblante.

"Então aqueles dois já começaram a agir..." – sentia a impotência pesar em seu peito, mas não havia nada que pudesse fazer...

Seus discípulos precisavam resolver aquela situação sozinhos, ao mestre só restava aprimorar os poderes deles e torcer para que conseguissem passar por aquela provação e saírem inteiros...

Ás vezes era muito difícil ser o mestre... E se colocar às margens do problema... A paciência era uma virtude que precisa ser cultivada com afinco. Contudo, observando os dois adolescentes dormindo encostados um ao outro, era muito difícil para Yun cumprir o seu dever.

Só esperava que depois do rebuliço que estava por acontecer, viesse mesmo a tão almejada calmaria...


... E agora...


CAPÍTULO XII

Depois de uma manhã inteira "lutando" para aprender o teletransporte, suportando a supervisão de um mestre que beirava a insanidade ditatorial, dois adolescentes arrastavam os pés pela floresta, em busca de um lugar longe o bastante da ira do, já mencionado, mestre do mal.

- Kami do céu, eu já imaginava que essa estória de teletransporte seria difícil, mas isso é ridículo! – Sakura mal tinha condições para falar e andar ao mesmo tempo – O tratamento que estamos tendo é quase desumano!

A técnica em si era bastante difícil, mas ao mesmo tempo, imensamente simples... Exigia, basicamente, muita concentração, poder mágico e conhecimento geográfico. Depois de todo esse tempo em que estiveram sob os cuidados de Yun e tudo o que aprenderam com ele, não tiveram muitos problemas com a concentração, mas a situação se complicava quando o assunto era o consumo de energia que era exigido durante o bendito teletransporte. A sensação que tinham era de uma onda de energia era arrancada de seus corpos com uma força e velocidade tão grande que fazia com que acabassem perdendo o foco de para onde queriam ser transportados e terminavam nem saindo do lugar.

- Talvez não estivéssemos sofrendo tanto se o mestre não estivesse possesso! – Shaoran a fitava com o rabo do olho.

A "escapadela" deles no vilarejo tinha deixado o velho chinês praticamente tremendo de raiva, o castigo viera pesado, mas para Shaoran, por mais que se repreendesse... que achasse que devia ter se comportado de forma diferente, os momentos passados no vilarejo e, principalmente, no festival valiam qualquer castigo do mundo, e o pingente rosa adornando o pescoço esguio da japonesa ao seu lado só fazia com que sentisse uma satisfação enorme em seu peito.

Ela estava usando algo dado por ele!

Só de lembrar o momento em que entregara o presente... o momento que seus dedos tocaram a pele macia quando colocara o colar... Sentia as mãos formigarem de vontade de tocá-la outra vez!

Sentindo o coração começar a palpitar no peito, tratou de afastar aqueles pensamentos para os confins de sua mente.

Tempo.

Era tudo o que precisava... Bem como uma boa dose de calma e coragem.

- Hum... Ele está com raiva, isso é verdade, mas eu não diria que está possesso, seria um exagero... – Sakura amenizou.

-Exagero!? – Shaoran a encarava diretamente agora – Ele não teve o mínimo de paciência conosco hoje! E eu tenho galos na minha cabeça que provam isso! – se referia as inúmeras cacetadas que Yun distribuía com a antiga, e quase aposentada, varinha. – Ele está possesso e ponto. Tão irado que nem quis almoçar em nossa companhia! – Ergueu os dois recipientes de plástico que comportavam o almoço de ambos – Ele praticamente nos enxotou!

Diante disso Sakura coçou o queixo, pensativa.

- Eu ainda acho que não é para tanto... Se ele estivesse assim beirando um ataque apoplético, como você diz, poderíamos ter muito bem ficado sem almoço ao invés de sermos obrigados a comer ao ar livre, e, apesar de toda a sua irritação, ele nos liberou para mais de duas horas de almoço, o que nos deixa livres e confortáveis para descansar um pouco até que tenhamos que voltar às torturas... Então acho que ele está até bem bonzinho...

Shaoran, com um arquejar rápido de sobrancelhas, admitiu o raciocínio lógico da japonesa.

- Talvez você tenha razão – concedeu – Acho que eu me desacostumei com a didática extremista dele...

Sakura soltou uma risadinha.

- Se é que é possível se acostumar com uma insanidade dessas! Estou falando sério... – sentou-se embaixo da sombra de uma árvore – Não vou me levantar daqui nos próximos dez dias! – encostou-se no tronco.

- Deixa de brincadeira – Shaoran estendeu para ela uma das tigelas de plástico que trazia.

Por razões que não queria averiguar, não quis arriscar que a japonesa se queimasse, então fizera questão de trazer os dois recipientes, que estavam fumegantes, quando Shin tinha lhes entregado. Graças aos deuses ela não fez nenhuma pergunta sobre seu comportamento e nenhuma cena embaraçosa surgiu do seu comportamento beeeeeeeem embaraçoso.

- Obrigada, Shaoran-sama! – Sakura foi logo abrindo para saber o que teriam para o almoço.

- Hunf... De nada – Sentou-se ao lado dela – E o que temos hoje? – abriu o seu.

- Aff! Você não vai querer saber – Sakura respondeu, olhos fixos no arroz branco coberto por pedacinhos de peixe.

- Puxa... – Shaoran não era de ter muito luxo quanto à comida, mas aquilo era demais... Tentando não demonstrar todo o desamparo que estava sentindo, levou um bocado de arroz à boca.

- Puxa mesmo! Até parece que estamos em algum tipo de prisão radical chinesa! – Provou o peixe e descobriu duas coisas. A primeira era que o gosto era tão ruim quanto à aparência; e a segunda era que havia sido um desperdício o sacrifício daquela criatura... Depois de todo o sofrimento da morte, ser temperado apenas com sal e cozido até ganhar aquela consistência borrachuda?!

Desalentador!

- Um... – Shaoran mastigou lentamente e engoliu, o gosto era quase repugnante.

Desejando que tivesse um copo de suco para ajudar a fazer aquela... aquela... iguaria grotesca descer pela garganta, voltou-se para a japonesa.

- Correndo o risco de presenciar mais um de seus momentos insanamente criativos e, muito provavelmente, me ofender com isso – ergueu o canto dos lábios – Me conte mais sobre a sua teoria da prisão chinesa, mas, por favor, lembre-se que sou chinês.

Sakura ergueu as sobrancelhas, não teria cuidado com as palavras, afinal não diria nenhuma mentira.

- Estamos sob constante observação, não podemos ir além de limites pré-estabelecidos, somos totalmente subservientes... – quanto mais pensava no assunto, mais se dava conta de que estava certa – Nos obrigam a fazer trabalhos forçados... e em troca ganhamos essa...isso como refeição! – apontou para a mistura de arroz e peixe.

Apesar da situação desanimadoramente deprimente, Shaoran achou graça.

- Acho que você tem razão – deixou escapar uma risadinha – Imagino quando teremos anistia... ouvi dizer que as autoridades chinesas não são conhecidas por sua condescendência – voltou a encher a boca com arroz.

Sakura franziu o cenho. Ainda ficava surpresa com a transformação de Shaoran... Há tão pouco tempo ela a tratava com tanta frieza e hostilidade... E agora lá estava ele fazendo piada e rindo! Sentia o pingente de pétala de cerejeira quase queimar em contato com a sua pele e isso mais o comportamento atual do chinês dava-lhe ganas de saltar sobre ele e abraçá-lo, mas infelizmente isso seria bastante inapropriado, suspirando grudou os olhos em sua comida.

Quem sabe em breve...

- Você não devia rir disso... – levou mais um bocado do seu almoço à boca tinha ímpetos de jogar todo o conteúdo da tigela no arbusto mais próximo, mas sabia que barriga vazia não aguentaria nem um minuto de treino – Ah, que saudade da comida do meu pai! – suspirou.

Shaoran franziu as sobrancelhas e virou-se para ela.

- Seu pai cozinha? – Perguntou de boca cheia. Esta era uma coisa que nunca tinha visto. Um chefe de família cozinhando.

Sakura o encarou com os olhos verdes cheios de orgulho e Shaoran quase suspirou de admiração.

- Meu pai poderia trabalhar num restaurante como chef de cozinha se ele quisesse! – estreitou os olhos – você tem algum problema com homens que cozinham?

Shaoran tratou de desviar o olhar, as faíscas que pareciam saltar dos olhos verdes da japonesa faziam com que seu corpo recomeçasse com aqueles sintomas esquisitos como coração acelerado e a sensação de que o rosto estava em chamas.

Descobrira, com o tempo, que a japonesa era muito passional por aqueles com quem se importava, se perguntava se ela agiria assim por ele algum dia...

"Pronto, pensamento desnecessário de novo! Que droga!"

- N-não! É claro que não! É que, francamente, não me lembro de ter, alguma vez, visto a minha mãe dentro de nossa cozinha – o chinês revelou. Ele próprio nunca tivera que fritar um ovo sequer... e nem tinha vontade de começar a fazê-lo.

- Uau! Pois lá em casa todo mundo... – parou de falar de repente, franzindo o cenho.

- O que foi? – Shaoran indagou ante a pausa abrupta.

Sakura passeou os olhos pelo lugar em que estava, incerta.

- Essas árvores... – colocou a vasilha de lado e se levantou – me parecem familiar de alguma forma...

Não podia ser... Podia?

Shaoran a encarou com estranheza.

- Kinomoto, nós temos vivido por aqui por um bom tempo, então...

- Não, não é... – nisso seus olhos se arregalaram e ela saiu em disparada em direção à casa de Yun.

-Ei! – Shaoran gritou, mas foi ignorado – Mas que droga! – pegou as tigelas vazias e correu atrás da japonesa.


"Mas o que significava aquilo?"

Sakura estava pasma.

- Por acaso você ficou maluca? - Shaoran exclamou quando finalmente a alcançou.

A japonesa estava encarando a parede dos fundos da casa do mestre. Os olhos vidrados.

- Nós estamos ferrados, Shaoran – murmurou.

O chinês ergueu uma sobrancelha.

- O que...

Sakura virou-se para ele, o rosto vazio.

- Nós acabamos de almoçar no lugar onde passei a noite inteira cortando madeira – revelou.

Shaoran fez que não com a cabeça.

- Impossível! Não tinha sinal de árvore cortada... Você deve ter se enganado...

Sakura passou a mão pelos cabelos.

-Aqui – apontou para a parede – deveria ter umas cinco fileiras de lenha cortada e encostadas a essa parede.

Mal a garota terminou de falar, Shaoran saiu correndo.

Sakura sabia exatamente para onde ele estava indo, por isso não teve pressa em segui-lo.

- O quê...?! – com os olhos cheios de espanto, Shaoran encarava o reservatório de água.

Ao se aproximar, Sakura não se surpreendeu. Estava quase vazio.

O resultado de todo o trabalho que tiveram durante a noite havia desaparecido.

- Ora, ora... Vejo que já descobriram o meu segredinho – Yun falou às costas dos discípulos – A magia é uma coisa maravilhosa, não concordam? – Sakura e Shaoran estavam muito chocados para se virarem e encararem o sorriso presunçoso do mestre.

Ao observar as expressões de desalento dos dois jovens, Yun tinha certeza que, daqui em diante, eles pensariam muito bem antes de desobedecerem as suas ordens.

- Vocês acham que é mesmo uma boa ideia ficar encarando esse reservatório vazio durante toda a pausa para o almoço? – virou-se, se afastando lentamente.

"Mas que filho da mãe!"

"Maldito coração de porco!"

Ao mesmo tempo, Sakura e Shaoran xingaram em pensamento.

_LINHA_

- Essa história de ficar ligado vinte e quatro horas por dia vai acabar mal...

Shaoran resmungou, encarando o próprio reflexo na água do rio.

- Quem iria dizer que você é do tipo que fala sozinho, hein, Shaoran? – a imagem de Elizabeth apareceu ao lado da sua na água prateada, fazendo com que se sobressaltasse e acabasse sentado na terra úmida da margem do rio.

- Puxa, será que sou tão feia assim? – com um brilho brincalhão nos olhos, Elizabeth estendeu a mão para Shaoran. – Sempre que eu chego acabo assustando você.

Com o rosto em chamas, o chinês tomou a mão que lhe era estendida e levantou-se, não pôde deixar de notar a maciez da pequena palma de Elizabeth.

- N-não... – pigarreou – Você não é feia de jeito nenhum... – e lá estava ele tropeçando nas palavras outra vez – É só que você se aproxima de um jeito que eu não percebo...

"Como esta criatura é lenta..." – Elizabeth pensou com desprezo – "Se ao menos ele se ouvisse falando..." – isso fazia com que o achasse ainda mais idiota – "Será que não percebe que não está sentindo a minha presença?"

Era melhor deixar de pensar naquilo, ou não haveria poção no mundo que conseguisse mascarar toda a sua repulsa.

- Isso pode ser muito perigoso, sabe... – deu um passo para frente.

Shaoran engoliu em seco.

O sorriso de Elizabeth se alargou de tal maneira, que Shaoran achava que estava refletindo a luz da lua. Seu coração desatou num ritmo frenético, muito parecido com o da noite anterior.

Deu um passo para trás.

- O-o... humhum... O que quer dizer? – gaguejou. Elizabeth o brindou com um sorriso enigmático, enquanto dava um passo a frente.

- E se fosse algum mal intencionado que se aproximasse sorrateiramente? – tocou o peito dele com o indicador, fazendo um arrepio percorrer a espinha do chinês – Com a intenção de machucar você...?

Apesar da noite fria, Shaoran sentiu o suor acumular-se na têmpora.

- E-eu... Acho que... que ficaria bem... – respondeu, sentindo-se trêmulo.

Elizabeth cruzou os braços às costas.

- Tenho certeza que sim – na verdade achava que ele estaria numa enrascada se resolvesse atacá-lo.

"Pobre diabo..."

Encarando o rosto corado do chinês a sua frente, Elizabeth teve quase certeza de que o futuro do Clã Li estava em sérios apuros se o melhor guerreiro que eles tinham era aquele garoto...

- E então, o que faz por aqui tão tarde? A sua madeira não pode já ter acabado, pode? – Shaoran orgulhou-se de ter conseguido falar uma frase inteira sem gaguejar.

- Bem... é que... – grudou os olhos no chão, bancando a envergonhada – Acho que a bateria que usamos para fornecer energia acabou e tudo ficou escuro... – voltou-se para ele – E como eu sabia que você estaria aqui...

Shaoran engoliu em seco.

- Va-vamos lá, eu dou uma olhada nisso para você – sabia que não tinha escapar da situação. Não podia deixar uma garota passar a noite num apuro daqueles.

- Sabe, Shaoran... – pegou a mão dele – Você é um amor de pessoa – abriu um sorriso ao perceber que o garoto começou a respirar pesadamente.

"Que imbecil"


Um golpe certeiro e a madeira se partiu em duas partes iguais. Começava a ficar boa naquilo.

Com um sorriso de puro contentamento, Sakura deixou o machado sobre o toco de árvore que usava como suporte para cortar a lenha e largou-se no chão. Exausta, decidiu que já estava mais do que na hora de descansar um pouquinho.

Com as costas estiradas na relva, deixou-se inundar pela visão do céu estrelado.

Quantas estrelas...

Essa era uma das vantagens de se viver num lugar tão afastado. Fechou os olhos, inspirou profundamente e, enquanto seus pulmões se enchiam com o ar frio da noite, pela milionésima vez só na última hora, seus pensamentos se voltaram para Shaoran.

Apesar de apreciar o cenário noturno, detestava ter que admirá-lo sozinha.

Depois de tanto tempo trabalhando juntos, se acostumara a ter sempre a presença de Shaoran ao seu lado e nos últimos dias a relação deles tinha ficado muito mais... agradável.

Só de pensar nisso seu sangue começou a correr mais rápido...

Já estava se habituando ao fato de Shaoran ser, agora, uma figura constante em seus pensamentos, só faltava o seu coração começar a se habituar a.

Alcançou o colar que o garoto havia lhe dado e o apertou entre a mão.

Certamente algo tinha mudado no comportamento do chinês. Sakura não precisava pensar muito para saber que estava ficando caidinha pelo carrancudo Shaoran, mas e quanto a ele? O que pensava dela?

Shaoran era tão estranho que Sakura não se arriscava a dar nenhum palpite sobre os sentimentos dele, mas tinha certeza que mexia com ele de alguma forma...

Abriu os olhos para encarar o céu repleto de estrelas.

Talvez estivesse na hora de ir a procura de seu companheiro de treino e avaliar de perto o efeito que exercia sobre ele.

Sentiu um sorriso formar-se em seus lábios ante a ideia.


- E então, acha que pode consertar? – Elizabeth se perguntava quanto tempo aquele asno levaria para descobrir o pequeno truque que fizera.

Shaoran franziu de leve o cenho, procurando qual seria o problema com a energia, mas estava tão escuro que quase não conseguia ver nada, cogitava pedir a Elizabeth que trouxesse algo para iluminar um pouco o lugar, quando descobriu o que havia de errado.

- Ah, aqui está! – remexeu dentro da caixa que guardava a bateria e uns segundos depois a luz da cozinha se acendeu, transformando a escuridão dos fundos do chalé numa leve penumbra.

Tudo resolvido, virou-se apenas para descobrir que Elizabeth estava parada a poucos centímetros dele, Sentiu o rosto esquentar.

- Você é muito esperto! – pousou a mão no ombro dele – Obrigada, Shaoran – aproximou-se um pouco.

Shaoran engoliu em seco.

- É melhor você entrar, está... está escuro aqui fora – detestava a falta de controle que tinha diante de Elizabeth.

Com um sorriso no rosto a inglesa se aproximou ainda mais e pousou a outra mão no rosto de Shaoran.

- O escuro o incomoda? Acaso tem medo dele? – com as pontas dos dedos percorreu a linha do queixo do garoto – ou será que é a mim que teme? – a voz não foi mais que um sussurro.

Naquele momento, Shaoran achou que o timbre baixo somado ao sotaque de Elizabeth seriam os causadores do seu coração escalar todo o caminho até a sua boca, já que o pobre órgão já estava dando chicotadas dentro do peito. Voltou a engolir em seco.

- Não é isso... É só que... – se interrompeu quando as pequenas mãos de Elizabeth pousaram em seu peito – Que tenho que voltar... – apesar do que dizia, sentia como se alguma força invisível o prendesse ali. E a prova maior disso era que as suas mãos, como que por vontade própria, alcançaram a cintura da inglesa.

O sorriso de Elizabeth se alargou de antecipação. Finalmente estava tendo algum progresso.

Aproximou-se um pouco mais e, nas pontas dos pés apoiou o queixo no ombro do chinês.

- Você é tão atraente, Shaoran – encostou o nariz no pescoço dele e inalou profundamente, fazendo com que arrepios percorressem o corpo do chinês – E tão másculo – completou num sussurro.

Shaoran sentia algo queimar em seu ventre, uma vontade frenética de apertar Elizabeth de encontro ao seu corpo e encostá-la à parede, mas a mesma medida algo o detinha e o impelia para que saísse imediatamente dali.

Olhos verdes brilhando de alegria com os fogos de artifício.

O suor escorria quente por suas costas e suas mãos tremiam ante aos sentimentos ambivalentes que o tomavam.

Quando as mãos de Elizabeth correram por seu peito e o enlaçaram pela cintura foi como se um estalo se desse em seu coração.

Deu um passo cambaleante para trás.

- Eu realmente preciso... – inspirou profundamente e deu mais um passo para trás se desvencilhando do abraço em sua cintura – Preciso ir.

Elizabeth teve ganas de soltar um rosnado de frustração ao ver o chinês lhe dar as costas.

- Não quer nem tomar uma xícara de chá? – fez mais uma tentativa, embora já soubesse que era totalmente em vão, não conseguiria mais nenhum avanço essa noite. Embora tivesse certeza de que no estado em que o rapaz estava, mais um pouco de sua poção e ele estaria em suas mãos.

Shaoran lançou-lhe um olhar por cima do ombro.

- Infelizmente terei que recusar, mas obrigado mesmo assim. Até mais – e afastou-se apressadamente.

- Voltará para me visitar amanhã? – a inglesa gritou.

Shaoran parou de supetão.

- Sim – respondeu sem se virar e desapareceu entre as árvores.

Elizabeth o observou afastar-se com uma expressão de satisfação. Sabia que ele estava quase ganho. Mais um pouco e começaria a colher os frutos de seu plano e aquele chinês não teria olhos para nenhuma outra.


- Mas onde será que ele se meteu? – Sakura havia descido até o rio, apenas para encontrá-lo vazio – Não topei com ele na descida... Para onde ele foi? – murmurou para a escuridão.

"Será que ele teve a coragem de escapar para dormir?" – pensou coçando o queixo.

Um arrepio correu pela sua espinha...

Luta.

Muito sangue.

Um medo horrível a dominou.

E por último ouviu um vulto negro gritando seu nome, pedindo algo que ela já não podia dar

Todo o ar fugiu de seus pulmões...

Cerrou os olhos e fechou os punhos com força, tentando recompor-se.

De onde viera aquilo? Um flash do sonho assim do nada?

Estranho... Muito estranho, mas não estava com ânimo para analisar a situação...

Suspirou.

- Se aquele chinês estiver por aí dando uma cochilada... ele vai me pagar! – virou-se para voltar, quando levou um encontrão que quase a fez cair sentada no chão, o que só não aconteceu por causa de um quente par de mãos que impediram que caísse, ao segurá-la pelos braços - Mas o qu...? – calou-se ao descobrir que quem havia lhe atropelado fora ninguém mais, ninguém menos que a pessoa a quem viera procurar.

– Shaoran? – Sakura arregalou os olhos ao notar que o garoto parecia estar fora de si, ofegante e pálido parecia ter visto um fantasma.

- Ki... Kinomoto? – era impressão sua ou ele tinha ficado ainda mais pálido?

- Mas o que houve com você? – perguntou se aproximando dele, surpreendeu-se ao vê-lo dar um passo para trás.

- Hã... o quê...? Na-nada eu só... – coçou a nuca.

Sakura franziu as sobrancelhas ao o vê-lo dar outro passo par atrás. Era como se o estivesse assustado... como se a estivesse temendo!

- Onde estava? – se afastou para encostar-se a uma árvore próxima. Percebeu, com estranheza, que ele pareceu aliviado.

- Bem... – encarou o rio – eu estava... – pigarreou – A Elizabeth estava com problemas em casa e me pediu ajuda, então...

Sakura sentiu uma pontada no peito.

Elizabeth.

- Então você estava na casa da Elizabeth? – sentia uma raiva irracional começar a crescer dentro de si.

Shaoran aquiesceu.

- E o que exatamente você fez lá? – podia ser imaginação sua, mas algo naquela inglesa despertava todos os seus sentidos... Não conseguia acabar com a sensação de desconfiança que sentia. E detestava que o chinês interagisse com ela de qualquer jeito. Começava a sentir o seu sangue borbulhar.

Shaoran sentiu o rosto esquentar.

- Eu só... – pigarreou – Consertei os plugs da bateria da casa.

Sakura ergueu as sobrancelhas, incrédula.

- Não sabia que entendia dessas coisas, eu achava que o seu negócio era apenas magia e artes marciais... – estreitou os olhos - Mas é claro que você deu um jeito para ajudar a Elizabeth, não é? – sentia vontade de bater nele com um tijolo.

- É... bem...

Sakura rangeu os dentes ante a figura nervosa do chinês e então deixou os ombros caírem. Não tinha por que ficar irritada com ele.

- Que bom que você pôde ajudar – desencostou-se decidindo que o melhor a fazer agora era voltar para o castigo, se ficasse mais um minuto ali corria o risco de fazer uma cena e não estava disposta a fazer papel de idiota. Contudo não tinha dado nem dois passos quando uma mão quente segurou o seu cotovelo.

Surpresa, Sakura virou-se a tempo de ver Shaoran afastar a mão como se tivesse tocado em brasa.

Olhou para ele questionadora.

- O que... – ele certamente achava que algum ponto acima da cabeça de Sakura era muito interessante, pois não desgrudava os olhos de lá – hum-hum... o que veio fazer aqui?

A japonesa sentiu o rosto esquentar e tinha certeza de que havia ficado vermelha.

- Bem eu... – Será que devia dizer que viera tentar repetir a cena do festival? Com certeza não. – Vim dar uma pausa, conversar um pouco com você, sabe? – deu uma risadinha que pareceu forçada até para os seus próprios ouvidos – Eu já estava pensando em começar a falar com a lenha! Ehehe...

- Ah! – o chinês estava de ombros caídos.

Sentindo as mãos formigarem Sakura enfiou-as nos bolsos.

Um silêncio tenso caiu sobre ambos.

Shaoran não se lembrava da última vez que se sentira tão confuso como se sentia agora. Vários sentimentos o dominavam de uma maneira que não conseguia entender! Queria poder sentar no chão e conversar com a japonesa durante toda a noite... e ao mesmo tempo gostaria que ela fosse embora para que pudesse correr e voltar para Elizabeth, mas só a ideia de reencontrar a inglesa fazia com que cubos de gelo imaginários surgissem dentro do seu estômago...

"Aaah, que droga!"

Sakura, por sua vez, não conseguia entender o porquê daquele clima tão tenso. Como, num espaço de poucas horas, a relação deles tinha ido de leve e brincalhona à estranha e forçada? Sentindo o cansaço finalmente abatê-la, concluiu não estava com humor para tentar analisar aquela situação... pelo menos não agora.

- Já... – deixou escapar um pesado suspiro - Já está bem tarde então... Eu vou indo. Até mais! – queria sair dali o mais rápido possível.

- Mas já vai? – Shaoran perguntou num impulso. E quando a japonesa parou e o encarou, ele se sentiu ao mesmo tempo, aliviado e nervoso.

- Hm? – Sakura ergueu uma sobrancelha.

- V-você disse que queria conversar um pouco, então – coçou a cabeça – Por que não fica mais um pouco? – sentia o rosto quente.

- Bem, o fato é que eu cheguei aqui há um bom tempo para... para... conversar com você... e adivinha? Não tinha ninguém aqui! – não conseguiu fazer com que o tom acusador deixasse a sua voz.

Shaoran deu um passo para trás, não sabia o que tinha feito para deixar a japonesa tão irritada.

- Eu já disse que tive que ir ajudar a Elizabeth...

- Sei, sei... – falou por entre dentes cerrados.

Shaoran observou com cautela, a garota caminhar até uma árvore e deixar cair-se sentada em baixo dela.

- Eu estou cansada... muito, muito cansada... não devo estar pensando com clareza – encostou-se ao tronco e fechou os olhos.

O chinês, ainda incerto sobre ser ou não seguro se aproximar dela agora, engoliu em seco e sentou-se ao seu lado. Sakura afastou-se um pouco, abrindo espaço para que ele também pudesse se encostar ao tronco.

- Esse castigo é um pedacinho de inferno – Sakura decidiu que se estava tão cansada a ponto de não conseguir controlar a irritação por Shaoran ter ido até a casa e Elizabeth e também sem ter como saber por que estava irritada com isso, iria disfarçar e deixar o assunto para lá... Pelo menos por enquanto.

- Nem me fale... – vendo que a japonesa parecia ter voltado ao normal, Shaoran sentiu-se relaxar lentamente.

Mais uma vez o silêncio se fez presente e nenhum dos dois sentia vontade de quebrá-lo. Não queriam ter que analisar os sentimentos que experimentaram aquela noite... Queriam apenas desfrutar da tranquilidade do momento, esquecer as preocupações e, mesmo que por um tempo curto, só queriam aproveitar a campainha um do outro e não pensar em nada mais.

Com o silencioso acordo de paz que os rodeava, Sakura não sentiu nenhum constrangimento em encostar a cabeça no ombro de Shaoran, que surpreendendo até a si mesmo, tomou uma das mãos da japonesa entre a sua, entrelaçando os dedos. Suspirou e encostou a têmpora no topo da cabeça da garota.

Naquele momento era como se Elizabeth não existisse no mundo. Só o que existia era os dois e a calma que os rodeava.

Não demorou muito e ambos caíram num sono pesado, sem sonhos ou pesadelos.


O celular tocava insistente sobre a escrivaninha.

Tomoyo não estava com a mínima vontade de conversar com ninguém, por isso se virou no leito ignorando-o, com o movimento, seus olhos pousaram numa pequena caixa que repousava em seu criado mudo.

Sentando-se, alcançou o objeto e abriu-o.

Escondido em meio a centenas de pétalas de cerejeira, estava um pequeno saco onde guardava o primeiro presente que Sakura havia lhe dado. Uma pequena borracha em forma de coelho.

O telefone finalmente silenciou-se.

Segurando o presente, Tomoyo deixou-se ser tomada pelas lembranças da amiga.

Sentia tanta saudade que chegava até a doer! Não tinha ânimo para fazer nada... Queria apenas que Sakura voltasse.

O telefone voltou a tocar, mas Tomoyo nem sequer piscou, apenas suspirou e apertou a borracha que segurava.

Suspirou e resolveu que era melhor parar com aquilo, ou acabaria louca. Guardou a borracha de novo no saco e o colocou dentro da caixa. Ficou parada encarando a caixinha que guardava o seu tesouro mais precioso juntamente com o da sua mãe.

Voltou a suspirar.

Assustou-se quando o telefone tocou de novo.

"Quem pode ser uma hora dessas?!" – pensou irritada. Deitando-se na cama, fechou os olhos.

O aparelho continuava a tocar impedindo que tivesse um pouco de paz.

- Droga! – levantou-se, foi até a escrivaninha e pegou o pequeno aparelho.

- Alô? – respondeu tentando esconder a irritação.

- Hã... Daidouji-san? – Tomoyo franziu o cenho. Não esperava ouvir uma voz masculina, muito menos uma desconhecida.

- Sim, quem fala?

- Hã, me desculpe por ligar assim tão tarde, aqui é o Tomoe Ryo.

Tomoyo se controlou para não desligar o telefone na cara dele.

- Como conseguiu o meu número? – tentava esconder a irritação.

- Bem, eu perguntei à Chiraru... É que eu quase não te encontro na escola... – ele parecia sem jeito – Me desculpe.

Será que ouvira bem? Ele pedira seu número à Chiraru? Onde é que o mundo iria parar?

- Tudo bem – suspirou – E então, o que você queria falar comigo?

- É que... Bem... É-é... – um pigarro se fez ouvir – é que eu queria saber se a Sakura se comunicou com você.

O corpo de Tomoyo reagiu à citação do nome da amiga feita pela voz daquele garoto... Um arrepio de desagrado percorreu sua espinha.

Nada bom.

Respirou fundo.

- Não, ainda não – respondeu por fim.

- Puxa – podia sentir o desapontamento na voz dele – Eu sei que parece idiotice, mas estou começando a me preocupar.

Tomoyo se compadeceu pelo rapaz, sabia bem como era aquela sensação, só que já começara a se preocupar a muito tempo, desde que ficara sabendo que Sakura iria partir.

- Não tem porque se preocupar – mentiu descaradamente – Não é como se ela tivesse ido para uma escola militar ou coisa do tipo – foi até a cama e se sentou.

- Hummm, você tem razão... – riu – Eu estou me comportando como um idiota.

Fez-se um pequeno silêncio.

- Hum-hum, me... desculpe por ter pegado o seu número sem seu consentimento.

- Não tem problema – parte da culpa era dela mesmo, afinal ficava evitando o pobre garoto na escola e naquele momento decidiu que era muita infantilidade de sua parte fazer uma coisa daquelas, uma vez que já não tinha motivo nenhum para não gostar dele, se é que algum dia tivera.

Tinha que admitir: ressentimento irracional aquele...

- Certo – Ryo hesitou por um momento – Boa noite Daidouji.

- Boa noite – desligou.

Tinha que parar de ser tão ranzinza com Ryo, o garoto era até um pouco legal e educado...

Suspirou e se deitou na cama.

Sabia que Sakura aprovaria a sua atitude... Já que a própria Sakura não conseguia tratar ninguém com nada que não fosse cordialidade e simpatia. Ela simplesmente não conseguia guardar rancor...

Tomoyo fechou os olhos e franziu o cenho.

Só gostaria que a prima voltasse logo... Essa longa ausência e falta de notícias a estavam matando.

Pousou o braço por sobre os olhos e reprimiu um suspiro de tristeza.

Sakura.


Kyle virou-se preguiçosamente na cama e passou o braço por sobre a figura adormecida ao seu lado, puxando-a para mais perto.

Azumi.

Quem iria dizer que toda a campanha para reaver a honra de sua família ia fazer com que se reaproximasse daquela a quem pertencia o seu coração? Claro que ela estava sob o efeito de seu poder mágico, mas assim que saísse vitorioso de toda aquela situação tinha certeza que a Azumi iria perceber quão errada estava... E finalmente poderiam ficar juntos sem nenhum empecilho... Seriam completamente felizes.

Suspirou e afundou o rosto na curva do pescoço da japonesa, perdendo-se no perfume da sua pele e deixando que os longos cabelos negros fizessem cócegas no seu nariz.

Sentia-se tão satisfeito e relaxado que quase preferia ficar ali a ter que se lançar naquela empreitada.

Quase.

Tinha que preparar tudo e terminar com aquilo o mais rápido possível...

- Kyle – um sussurro se fez ouvir no quarto.

Que inferno!

- Izzie, que satisfação em reencontrá-la – sussurrou para a figura da irmã que apareceu ao lado da sua cama – Como sempre aparece nos momentos mais propícios – completou não desfazendo a posição em que estava. Abraçado à Azumi.

- Desculpe, vejo que está bastante ocupado – sob o efeito da magia, seu tom, normalmente frio, saiu carregado de sarcasmo – Mesmo assim tenho que saber como anda o seu progresso... E posso ver que anda bastante... compenetrado no trabalho. – mirou a mulher adormecida ao lado do irmão.

O maxilar de Kyle se enrijeceu.

- Espero que não tenha aparecido aqui para avaliar o meu trabalho, querida irmã – falou baixinho, Azumi suspirou e mexeu-se levemente sob seu braço – Sabe que detesto intromissões – completou num sussurro e depositou um beijo no ombro nu da japonesa.

-Posso imaginar... – Elizabeth levou as mãos à cintura – Não que você esteja interessado, mas também apareci para avisar que as coisas por aqui vão indo muito bem... Logo, logo tudo estará pronto para a nossa investida.

Ante as palavras da irmã, um meio sorriso se formou nos lábios de Kyle.

- Nunca duvidei da sua capacidade, irmãzinha – Azumi virou-se na cama e os olhos negros fixaram-se nos de Kyle que logo escureceram imediatamente, cheios de luxúria – Mas peço para que entenda que agora estou muito ocupado – num movimento rápido posicionou-se entre as pernas de sua mulher, fazendo com que as cobertas caíssem revelando seus corpos nus.

Elizabeth soltou um suspiro exasperado e desapareceu.

- Espero que sua libido não o faça esquecer a importância do que estamos fazendo, Kyle – sua voz ainda soou no quarto, o rapaz não deu a mínima.

Elizabeth se preocupa demais...


Continua


Ufa, finalmente consegui terminar esse capítulo e espero que vocês não tenham ficado muito desapontados! (TT-TT) Porque, francamente, eu não fiquei muito satisfeita não... (u.u)

Eita, a Sakura está se apaixonado cada vez mais pelo Shaoran, que está completamente dividido pelos sentimentos que tem pela Sakurinha e pelas "sensações" que a Elizabeth o faz sentir... ui, ui, ui...

Não sei por que, mas as cenas do Kyle sempre me vêm com uma facilidade incrível! Apesar de ele ser um "vilão" gosto muito do cara! Eheheheheheh

Well, well, well... por enquanto é só! Não farei promessas de quando postarei outro capítulo, mas espero que não demore tanto quanto esse e quero ressaltar que DE JEITO NENHUM ABANDONAREI A FIC!

Beijos para todos que ainda estão comigo nessa aventura e até o próximo capítulo!

P.S. reviews são o combustível para essa pobre ficwriter trabalhar mais rápido!

(^0^)