Com passos rápidos e agitados, Ranma andava para os lados daquele quarto até notar a presença da kareteca em companhia da anciã e Mousse. Ryoga, ao contrário do garoto de tranças, permanecia de pálpebras fechadas e em estado meditativo como se quisesse buscar uma resposta nos seus pensamentos.
- Finalmente vocês chegaram! – Saotome continuou, nervoso – Agora explica logo o que está acontecendo velha!
- Acalme-se mukodomo – Cologne disse – Shampoo não vai desaparecer agora, ainda temos um pouco de... – Ranma não aguentou a pressão e socou a parede de madeira, não permitindo que ela continuasse seu raciocínio.
- Como assim acalmar? – Ranma indagou, furioso – Você vê a sua neta está desaparecendo e você não faz nada?
- Eu só que você está preocupado demais com ela – a karateca cruzou os braços e dando as costas para seu prometido, indagou baixinho – Será que se eu estivesse no lugar dela ficaria desse jeito também?
- Claro que sim – Ranma respondeu, soltando a anciã – faz idéia de como fiquei quando eu pensei que tivesse morrido naquelas fontes termais*?
- Seu baka... – Akane murmurou, enrubescida.
Enquanto isso, Mousse sentava a Yu num canto longe dos seus colegas, tentando reanimá-la a qualquer custo, sacudindo os ombros, estapeando o rosto e beijando a boca pálida. Estava bastante confuso com as últimas revelações expelidas pela boca da jovem, experimentando um sentimento de culpa e mágoa ao mesmo tempo.
- Enfim – Cologne interrompeu o clima romântico do casal e prosseguiu, olhando para o amazona tentando reanimar a Yu num canto – eu gostaria muito de fazer algo, mas o único que pode salvar as duas é o Mousse.
Os devaneios do amazona foram interrompidos ao escutar seu nome e disse: - Eu não estou entendendo o que quer dizer com isso – Mousse indagou – se fosse pela Yu ainda vai, mas o que tenho a ver com essa mulher?
Aquelas palavras tão frias e indiferentes despertaram uma fúria incontrolável no Ranma. Ele avançou brutalmente para cima do amazona e o agarrou pela gola da indumentária. Mousse imediatamente desferiu um rápido e poderoso chute na face direita do Ranma, o derrubando no chão.
- Parem vocês! – Akane entrou no meio dos dois, reprovando a atitude do noivo – Você esqueceu que ele continua sem memória?
Será que ele continua sem lembrar de nada?– Cologne indagou, fitando o Mousse.
- E o que mudaria se eu tivesse lembrado de tudo? – Mousse respondeu, sorrindo ironicamente.
- Seu... – Ranma tornou a agarrá-lo pelo pescoço e comentou – seu filho da puta!
- É muito fácil para quem vivia escutando ela falar "eu te amo" todos os dias não é? – o amazona explicou, afastando Ranma à força – O que mudaria se eu voltar a vidinha de antes? Continuarei sendo pisoteado, humilhado e desprezado pela Xian Pu e trabalhando feito condenado naquele restaurante que nunca valorizou o meu serviço. Me diz, o que eu ganharia em troca salvando essa sua neta ingrata?
- Porque Xian Pu e a essa mulher são a mesma existência! – Cologne confessou.
- Não... – Mousse ajoelhou-se e abaixando a cabeça, disse – isso não pode ser verdade...
- Gomen obaachan eu não estou conseguindo acompanhar a conversa... – Akane interviu entre eles, confusa.
- Já devem ter ouvido falar em reencarnação – a anciã explicou – quando você me falou que o corpo da minha neta estava desaparecendo aos poucos, logo deduzi: Xian Pu é a reencarnada dessa mulher...
- Mas porque não aconteceu nada com a Shampoo da primeira vez que nós encontramos com ela? – a karateca indagou, interessada.
- Creio eu porque estávamos na antiga China – Cologne respondeu.
- E provavelmente tem a ver também com a falta memória do Mousse – Ryoga completou.
- Exato – a anciã complementou – uma vez que Mu-Tsu se lembrou de tudo, o Universo não permite que ele ame uma mesma mulher em duas épocas diferentes...
- Isso é mentira! – Mousse esbravejou, descontrolado.
- A vida nos prega uma peça cruel às vezes... – Cologne comentou.
O amazona ignorou os comentários da anciã e continuou: - Yu e a Xian Pu não podem ser a mesma existência! Yu me valorizou como homem, me amou sem se queixar de nada e graças a ela que sou o que sou hoje, agora a Xian Pu sempre me desprezou, nunca me quis, se eu não tivesse ido ao Japão, ela sequer lembraria que eu existo!
- Agora entendi... – Yu disse, ofegante – isso explica o porquê eu tinha sentido um elo forte por ela desde o nosso primeiro encontro...
Mousse disparou para socorrer a amada e ofereceu seu braço para ela ficar de pé. Com pernas trêmulas e fracas, Yu alcançou a cama, ficando perante a sua existência futura.
- Quer dizer que eu vou renascer como essa mulher... – a chinesa sorriu, deixando as lágrimas salgadas banharem sua face.
- Mas se quiser eu – o amazona disse, inpensadamente – eu posso voltar com você no seu mundo e podemos esquecer isso tudo e viver jun... – a jovem não permitiu que Mousse continuasse a falar e reunindo forças do além, esbofeteou seu rosto.
- Você é idiota? – Yu disse, engolindo o choro pela garganta – Sabe muito bem que não podemos mudar a realidade dos fatos!
- O que quer dizer com isso? – Mousse adivinhou os pensamentos da amada – Você não está querendo... – antes que ele terminasse sua frase, Yu interrompeu mais uma vez.
- Isso mesmo... – Yu respondeu, mordendo o lábio inferior – sou eu quem está sobrando aqui...
- Não! – o amazona retrucou – Você não pode fazer uma coisa dessas comigo!
- Mu-Tsu! – Cologne exclamou, chamando a atenção do empregado e da Yu.
A cena a seguir foi bastante forte, intenso e chocante. Uma das guerreiras mais antigas e poderosas do clã de Amazonas ignorou seu orgulho e ajoelhou-se na frente do Mousse, praticamente encostando a cabeça no solo duro de madeira.
- Salve a minha neta por favor! – a anciã implorou – Eu prometo que se você salvar ela, pode fazer o que quiser da minha vida, afinal fui eu quem enchi a cabeça dela de leis e obrigações com a clã. Além disso, em troca lhe darei o Cat Café, pode mandar e desmandar em nós duas se isso vai amenizar sua raiva por mim e pela Xian Pu.
- Eu também te imploro! – Ranma disse, encarando o olhar embaraçado do Mousse.
- Por favor, Mousse! – Akane falou.
- Obrigada... – Shampoo fitou a parede e deixando a franja cair sobre seus olhos marejados, disse – mas Xian Pu concorda com Mu-Tsu, ele tem mil motivos para me odiar...
- Me dê... – Mousse falou – me dê algumas horas para pensar...
O amazona saiu do quarto e seguiu em direção as escadas, alcançando o térreo e em seguida deixou aquele estabelecimento. Tomou um ônibus que o ponto final era a Cidade Proibida e algum tempo, ele estava novamente na pavião principal. Cruzou a entrada e começou a apreciar os edifícios intactos desde o último império chinês, lembrando todos os momentos de sua estadia no século dezenove.
De repente, ouviu vozes infantis gritando no fundo. Olhou de relance para elas e viu uma cena familiar aos seus olhos: uma garotinha batendo num menino. Lembranças afloraram imediatamente nos seus pensamentos.
A pequena amazona "brincava" inocentemente de luta com Mousse. Mal ele sabia que essa brincadeira estava sendo levado a sério pela Cologne para decidir o futuro prometido da sua neta. As regras na vila dos Amazonas eram simples. A mulher seria eternamente devota áquele que a derrotasse em uma disputa.
A batalha não se estendera muito e ele perdera da Shampoo aos seus três anos de idade. O que na atualidade seria levado como uma simples brincadeira entre duas crianças, Cologne contara como sua primeira luta perdida.
Mousse ficaria a saber sobre essa "triste realidade" somente dois a três anos depois. As outras disputas sucessivas também declinara sua imagem diante da anciã e das outras mulheres residentes ali, o obrigando a sair em busca de treinamento árduo.
Uma ira inexplicável tomou conta da sua mente e sacudindo a cabeça, correu para impedir a menina de continuar maltratando o pobre coitado. Intercedeu entre as duas crianças, afastando a garotinha do injuriado. O pequenino chorava compulsivamente e ela mostrava sua lingua. Mousse puxou a menor pelo braço à força, a encurralando na parede.
- Por que fez isso com aquele seu amigo? – Mousse indagou, nervoso.
- Minha mãe... – a garotinha respondeu, envergonhada – minha mãe disse que quando a gente gosta de alguém a gente cutuca ele...
Mousse arregalou os orbes e disse: - Então é por isso que você batia nele? – a garotinha respondeu assentindo com a cabeça em sinal positivo e ele continuou, sorrindo – Sua mãe quis dizer que se gosta tanto do seu amigo tem que tratar ele bem, entendeu? – acariciou a fanja da garota e concluiu – Agora vai lá e pede desculpas.
- Hai! – ela concordou, correndo em direção do amigo.
Ao vê-la ajudar o garotinho a se levantar e dar um selinho tímido nele, o amazona sorriu aliviado e continuou a circular pelos edifícios. Fitou o céu estrelado e desejando contemplar a sua beleza das estrelas num local mais alto, subiu discretamente num dos pavilhões, sentando-se no teto.
Momentos mais tarde, Mousse sentiu a aproximação de uma presença forte e familiar. Ele olhou para trás e encontrou sua amada, admirando igualmente a paisagem esplendorosa. Yu acomodou-se ao seu lado e ficaram calados até que o amazona abriu a boca:
- Você não deveria estar descansando? – ele indagou.
- Por que ia perder meu tempo sabendo que vou... – Mousse não permitiu que ela continuasse a fala, colocando o dedo em riste na boca arosada.
Em seguida, beijou-a com urgência, um daqueles beijos carregados de magia e romantismo. A jovem correspondeu ao gesto sem hesitar, deixando que a lingua experiente do amazona violasse todos os cantos da sua boca. Estava liberta de todas as amarras, segredos ou qualquer coisa que colocasse em dúvida os seus sentimentos por ele.
Aos poucos o beijo foi se tornando mais intenso, fazendo escapar lágrimas de felicidade dos olhinhos da chinesa. Mousse percebeu o choro salgado descer pela sua garganta e afastando-se da boca menor, secou a maquiagem borrada com seu polegar.
- Eu te machuquei? – o amazona indagou, com uma voz suave e gentil.
- Eu estou chorando porque... – Yu respondeu, soluçando – porque eu estou feliz por você ter me aceitado mesmo depois de tudo o que eu fiz...
- Então não chore mais, wo de airen**... – sussurrou carinhosamente no ouvido da amada, beijando a testa.
- Vamos voltar? – sugeriu, ficando de pé.
- Espera... – ele a puxou novamente contra seu peito – eu quero que saiba de uma coisa antes... – respirou fundo e disse – eu só vou salvar aquela ingrata para não ir contra o Universo e as leis divinas porque se dependesse só de mim escolheria você.
- Eu sei disso... – comentou, esboçando um sorriso triste.
- E tem mais uma coisa que preciso te contar... – disse, após uma pequena pausa – eu recuperei minha memória.
- Eu já desconfiava... – respondeu, fitando o céu.
- Quem te contou isso? – indagou, surpreso.
- Você mesmo Mu-Tsu – explicou – quando me comparou com ela.
Nesse instante, os dois pressentiram uma presença poderosa e ameaçadora nos arredores. O amazona fechou suas pálpebras em meditação e pulou para o pavilhão vizinho junto com a Yu. Ficaram eles em estado de vigia por alguns instantes.
- Essa energia... – Yu comentou, desconfiada.
- Lei Li... – Mousse disse, adivinhando os pensamentos da sua amada.
- Que bom que acertaram... meus parabéns! –Lei Li apareceu diante dos dois, sorrindo.
