TREINA COMIGO

Carlos Abraham Duarte

11

Olhei o espelho e vi o que estava errado

Tenho de voltar para o meu lugar – o meu lugar.

- Joy Division, Something Must Break

- Morós! – praguejou Sophia ao ver Tsukune afastar-se a passos rápidos para perseguir as vozes sussurrantes que pediam socorro. – Aonde esse idiota pensa que vai?

- Assim é o Tsukune – replicou Mizore em voz baixa e soturnamente fria. – Ele é o tipo de pessoa que está sempre disposto a ajudar qualquer um em apuros.

– Está com cara de ser armadilha dos ghouls – resmungou Sophia. - Sabia que atraem crianças pequenas chamando subsonicamente seus nomes e as devoram? Nos países da África Subsaariana e da África Mediterrânea, como Sudão, Tanzânia e Marrocos...

- Tsukune...! – Mizore exclamou nervosa. Sentia-se dividida, queria correr atrás dele, porém, não queria deixar Kurumu e Yukari sozinhas com aquela estranha na qual não confiava plenamente (ainda!). A indecisão durou um átimo de segundo, então ela disse: - Sophia-san...

- Não, Shirayuki-san – atalhou a outra garota, que parecia adivinhar o que ia pela mente da mulher da neve. – Eu vou. Treinei minha vida toda para matar monstros. A mais, minha espada ninja e meu escudo são feitos de uma liga de bronze celestial com grafeno, mais forte que diamante, e este uniforme, das botas à couraça de couro, é composto de fibra de carbono e titânio. Fique você aqui, tomando conta das suas amigas até o socorro chegar. - Depois acrescentou, em tom enfático e apaziguador: - Ninguém vai sequestrar o Aono-san, eu prometo a você. Acredite-me, a segurança dele é minha prioridade número um.

A voz dela soava tão persuasiva e seu olhar cinéreo era tão vidrado e hipnotizante por trás das lentes dos óculos que Mizore mudou de ideia. - É, você tem razão – a yuki onna disse baixinho. No fundo, chegou a admirar-se com a facilidade com que se rendera perante os argumentos daquela garota gaijin que ela nem conhecia.

Voz persuasiva e olhar magnético... Uma combinação perfeita que nunca falha.Com um sorriso autoconfiante, de lábios fechados, Sophia foi ao encalço de Tsukune.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça e ativou a interface HUD dos óculos táticos, verificando a massa de dados de vigilância projetados diante de seus olhos (que não se desviavam do alvo à sua frente). Isto é como um videogame 3D. Sempre tão divertido... Podia conectar-se a qualquer sistema teleinformático nas imediações, tanto por comandos de voz quanto mentalmente, ver pelos olhos eletrônicos de sua pet espiã, uma coruja-robô que naquele momento sobrevoava a área em total silêncio (um tipo de "elemental superior" controlava a matriz tecnomágica que dava vida ao robô). Como se não bastasse, tinha um GPS particular que operava com um sinal secreto, só recebido por seus óculos táticos, graças a um satélite "clandestino" – protegido por uma barreira especial tornando-o invisível e indetectável para os humanos e seus radares – em órbita polar ao redor da Terra (ou seja, não dependia em nada da rede de 24 satélites criada e mantida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos). Seu sinal, assim como o do "futurístico" intercomunicador-transceptor de pulso fonoativado (por reconhecimento de voz), atravessava sem dificuldade a grande barreira que separava a Academia Youkai do mundo dos humanos.

Caríssimos brinquedos high-tech, cuja mera existência era um segredo guardado a sete chaves. Sophia torceu de leve a boca. Tinha consciência de que gigantes da tecnologia da informática tais como o Google, a Apple, a Intel, a Microsoft, a Motorola, a Nokia, a Samsung e várias outras pagariam bilhões de dólares para se apoderar dos mesmos e desvendar seu funcionamento.

Tudo aquilo era o produto mais recente, de ponta, dos laboratórios industriais do Olympus Group Technology Solutions, Inc, uma subsidiária do Olympus Group dirigido por seu pai. Quando a alta tecnologia dos humanos e a ciência tecnomágica olimpiana dão-se as mãos, o resultado é isso aí!

Sophia concentrou-se para se envolver em uma camuflagem de "sombra psíquica", tornando seu aspecto semelhante ao de uma sombra, a fim de dissimular sua presença.

Localizou Tsukune do outro lado de um muro de pedras musgosas semiderruído. Estava envolvido numa luta corpo a corpo com um ghoul. Dois outros carniçais que se mantinham camuflados na forma de colunas rochosas reassumiram suas verdadeiras formas e juntaram forças com o primeiro, subjugando Tsukune, apesar da brava resistência do rapazola japonês. Sophia viu o primeiro ghoul agarrar o rosto de Tsukune aproximando-o do seu e imediatamente compreendeu o que o mononoke pretendia fazer. "Não conseguirei chegar lá a tempo pra impedi-lo de usar Qalit'Ayn contra o Aono-san", raciocinou Sophia com o maior sangue-frio, não despendendo mais do que uma mera fração de segundo para calcular suas chances (ela que herdara do pai a habilidade natural de identificar as variáveis e possibilidades quânticas em qualquer situação).

"Neste beco só há uma saída", refletiu Sophia, soltando o escudo de bronze celestial e grafeno preso ao braço direito e o arremessando com maestria contra os três ghouls que se encontravam a doze metros de distância. O escudo redondo de 60 cm de diâmetro derrubou de um único golpe o trio de demônios com uma precisão fulminante e retornou que nem bumerangue para a mão de sua dona (que o prendeu novamente no braço). Os ghouls nem souberam o que os atingiu. Antes de terem tempo de esboçar a menor reação, já estavam caídos no solo pardacento, desfazendo-se em impalpável poeira cinza-amarelada.

"Bronze celestial faz qualquer monstro virar pó", pensou a garota com satisfação.

Tsukune estava prostrado, caído de joelhos na terra marrom parcialmente recoberta por gramíneas secas, e Sophia correu para ajudá-lo. Depois de se certificar que não havia mais ghouls por perto, abandonou a "sombra psíquica", tornando-se novamente visível aos olhos da mente mortal, pegou Tsukune pela mão e levantou-o. Pôde constatar, com efeito, que os orbes castanhos exibiam o olhar vazio e nenhum sinal de emoção que caracterizava a vítima do mais temível poder do Ghoul Ritualístico: o "Olhar da Morte".

- Malditos ghouls ritualísticos! – Sophia praguejou em voz baixa. – O pobre coitado caiu em total desesperança. Pela armadura divina da minha mãe! Vamos, Aono-san! – Ela puxou Tsukune pela mão (e ele seguiu-a cabisbaixo, murmurando palavras desconexas).

Entrementes, ela viu o que sua coruja robótica via enquanto voava (tendo as imagens em 3D projetadas no visor HUD de seus oculares).

- Suas amigas estão com problemas, Aono-san – resmungou Sophia, como se o garoto pudesse ouvi-la e entendê-la. – Pra variar.

Usando de cosmoenergia – a energia vital de seu microuniverso consciencial – ela envolveu a si própria e a Tsukune em uma camuflagem de "sombra psíquica", de modo que youkais e humanos os veriam como meras sombras, e acelerou o passo, correndo de volta até o local onde deixara Mizore, Yukari e Kurumu, arrastando consigo o jovem vitimado pelo sinistro "Olhar de Iblis" dos ghouls de Shapur al-Gozz.

Avistaram Mizore! A yuki onna defendia-se desesperadamente e às suas duas companheiras feridas e imobilizadas, despejando uma verdadeira tempestade de neve em cima de outros três ghouls que investiam contra elas.

Sophia "desligou" a sombra psíquica que a obliterava juntamente com Tsukune.

- Tsukune! Sophia-san...! – Mizore ofegou, dando evidentes sinais de cansaço. Seu ataque elemental gélido começava a esmorecer – e os demônios transmorfos a avançar.

- Deixa comigo! – Sophia deixou Tsukune de lado e desembainhou sua espada ninja das costas, usando a mão esquerda (era ambidestra), com incrível agilidade. Ato contínuo, ela lançou-se ao ataque, e, em um único movimento no intervalo entre uma batida cardíaca e outra, decepou a cabeça do ghoul que se achava mais próximo. No mesmo instante o corpo decapitado caiu desfeito em pó e em cinza.

- Um bicho abjeto já foi, faltam dois – disse Sophia. – Quem quer ser o próximo a pedir a benção a Iblis, Azazil e Al-Lat no Inferno?

Na mesma hora os ghouls restantes esqueceram-se das garotas youkais e juntos precipitaram-se sobre a desconhecida que surgira tão inopinadamente.

- Uma humana raquítica não é páreo para Shabah ibn-Awa! – rugiu um dos ghouls.

- Saqr ibn-Awa vai triturar e moer seus ossos! – rosnou o outro.

- Tsc, tsc, tsc... Vocês, demônios, são tão previsíveis – zombou Sophia, defendendo-se habilmente com o escudo que trazia no braço direito. Embora os brutos investissem com toda ferocidade contra ela, o escudo de bronze sagrado aparou as patadas cheias de garras com estrépitos assustadores de queratina demoníaca contra metal olímpico. Em resposta instantânea, uma força invisível jogou para longe os dois atacantes.

- O encantamento deste escudo repele qualquer coisa que o atinge! – Sophia exclamou triunfalmente, pulando em cima de seus adversários. Um único golpe e o fio de sua shinobi katana amputou um dos braços de Saqr ibn-Awa que, possuído de indescritível terror, viu o próprio corpo começar a desintegrar-se em ritmo super-hiperacelerado. Em segundos, o que havia sido um mononoke transformou-se num montinho de cinzas.

- Nafrat angaiz! – vociferou Shabah ibn-Awa, tresloucado, tentando retalhar Sophia com suas garras longas, mas errando o alvo em face da agilidade tremenda daquela garota que acabara de matar seu irmão. – Quem... O que é você, maldita kafir?

Sophia sorriu maldosamente. – Sou a última coisa que você verá nesta vida. – Em seguida, com um rápido e certeiro movimento de sua espada forjada em bronze celestial e grafeno, ela decapitou a malfadada criatura que se esboroou, desfez-se em pó tal qual seu irmão. Que nem bonecos de areia!

Mizore, que a tudo testemunhara, estava perplexa. – Um ghoul se transformar em pó numa questão de segundos... Como é que pode?!

- Bronze celestial – respondeu Sophia, lacônica. – Um metal "quadridimensional", ou "pentadimensional", se você considerar o tempo como sendo apenas a "4ª dimensão" do continuum espaço-temporal... Oh, sim! Bronze celestial... É forjado nas ferrarias olimpianas do titio Hefesto, e é um dos segredos industriais mais bem guardados da Orbe de Urântia. Mata demônios instantaneamente; à menor lesão, puft!... O bicharoco explode em poeira. Mas é inofensivo para criaturas normais, humanas ou não. Por outro lado, esta espada, assim como este escudo e o par de adagas que eu carrego por dentro das minhas botas, são compostos de uma liga especial constituída de bronze celestial e grafeno, que é um material sintético super-resistente recém-inventado, mais duro que diamante. Quer dizer que com estas armas, feitas com uma substância que é metade mística e metade mundana, posso ferir e até matar qualquer ser vivo, sobrenatural ou não... Imortal ou mortal! Maneiríssimo, né? Mais um segredinho industrial superprotegido do Olympus Group Technology Solutions. – Ela repuxou os cantos da boca em um dos já seus emblemáticos sorrisos de lábios cerrados. – Negócios de família.

Ela ainda estava falando e Mizore corria ao encontro de Tsukune. Porém, a dama das neves deteve-se quando viu a expressão vazia - misto de sonolência, frio e torpor - no rosto dele. Era a inexpressividade do "morto-vivo", ou "vivo-morto".

Mizore ficou chocada.

- Kami-sama...Meu Deus, Tsukune, que foi que fizeram com você? – gemeu aflita a garota de cabelo roxo cintilante.

- Ele encarou o "Olhar da Morte" de um ghoul ritualístico, o que você esperava? - retrucou Sophia em tom de recriminação, reembainhando sua espada na saya que trazia nas costas. – Quem sofre essa experiência traumatizante termina do jeito que você vê, abatido, deprimido, aniquilado espiritualmente pelo desespero. A pessoa fica com a fé despedaçada, aos cacos pelo chão, e perde todo sentido da vida. Já vi essa desgraça uma vintena de vezes, é batata! Vamos levá-lo pra enfermaria da Academia Youkai e torcer pra que lá eles tenham magias, poderes sobrenaturais e/ou médicos experientes capazes de restituir ao Aono-san a sanidade consciencial.

- Tsukune – falou Mizore para ele com sua voz sussurrante ao ouvido. – Eu sei que cê taí, e sei que tá me escutando. – Ela levantou a voz. – Volta, Tsukune! Fala comigo! TSUKUNEEEEE!

Sophia meneou a cabeça. - Não vai adiantar nada. Ele é igual a uma lata de conserva da qual se extraiu o conteúdo... Ou uma estrela morta, uma anã branca que esgotou seu combustível nuclear e se apagou... Para todos os efeitos a vítima do Qalit'Ayn está "morta em vida", ou semimorta, e pode permanecer assim por tempo indeterminado... Uma hora, um dia e uma noite, uma semana, um mês, um ano, uma década... Talvez pelo resto da vida.

Entrementes Yukari deu sinal de vida. – Mizore-san – ela gemeu. – Infelizmente a Sophia-san tem razão... Eu avisei... Mais de uma vez, eu avisei...

Mizore respirou fundo. – Uma sabichona dá pra aguentar, mas duas... Tá legal, então ele esfriou, se afastou... Uma dama das neves sabe esquentar as coisas. – Pensou: "Kurumu-chan, me perdoe pelo que eu vou fazer, mas é por um bem maior."

Por um segundo os orbes azuis-violeta glaciais da yuki onna pareceram coruscar um fogo incontido. Ela tirou o pirulito gelado da boca perfeita de lábios bem desenhados e, sem pensar duas vezes, com um movimento rápido colou sua boca na de Tsukune, num beijo carregado de sensualidade que durou poucos segundos. Durante esses poucos segundos, foi como reviver em forma de flashes aquela longínqua madrugada de amor – a primeira e única – entre ambos, no seu quarto, na sua casa, na sua dimensão natal ora distante. Lembre-se, Tsukune...! O sabor dos meus lábios nos seus lábios... A minha língua pressionando entre seus dentes, depois rolando no céu da sua boca... Isso é estar vivo!

Todos esses pensamentos e sensações perpassaram a mente e o corpo de Mizore à medida que ela ia encerrando o beijo pouco a pouco. O ritmo das pulsações cardíacas de ambos estava muito perto do máximo e sua respiração estava ofegante quando seus lábios se separaram. Os orbes dele, achocolatados, e os dela, de um azul-néon violáceo, se encontraram novamente e, dessa vez, a dama das neves viu a centelha divina (ki) que anima todas as criaturas vivas e dá propósito a elas rebrilhar, tímida, bem no fundo dos olhos do homem que ela amava. Você voltou, Tsukune... Que bom... Fico feliz...

(Mizore radical, sempre nos extremos, chuu!)

- Tsukune... – ela murmurou, sentindo um rubor incontido colorir de leve as maçãs de seu rosto branco feito neve. Quente... Quente...

- Mi-Mizore... – Os trêmulos lábios entreabertos de Tsukune deixaram escapar, vacilante, quase inaudível. Tocou com os dedos da mão os próprios lábios pálidos. – Mizore-chan...! – exclamou baixinho, os olhos esbugalhados e a face ainda mais ruborizada do que a da garota das neves, ao se dar conta do que ela tinha feito com ele e ainda por cima na frente de terceiros.

Sophia pigarreou e Yukari tossiu como se tivesse engasgado com a própria saliva.

- Mizore-san – falou a jovem bruxa, com a voz fina igual à de uma criança. – A Kurumu-san vai querer te matar quando acordar e souber do beijo roubado. Pra não falar da Moka-san, é claro.

- Não é nada disso que cês tão pensando! – rebateu Mizore enfaticamente. Virou-se para o atônito e envergonhado Tsukune, e disse em tom de súplica: - Por favor, não pense mal de mim, Tsukune... Eu não quis me aproveitar de você, mas, vendo o estado lastimável em que aqueles ghouls te deixaram, mais morto do que vivo, que nem zumbi... Eu só quis te ajudar! Foi tipo uma respiração boca a boca, sabe... Ou, melhor ainda, como pôr lenha na fogueira, pra não deixar o fogo se apagar... Fogo, vida, manter a fogueira acesa, não desistir de tudo... Tá me entendendo? Espero que sim!

(Ironicamente, a súcubo Kurumu Kurono haveria de usar a mesmíssima "medida de emergência" meses mais tarde, a fim de entrar na mente inconsciente de Tsukune na forma de superghoul através dos lábios e assim resgatar-lhe a alma humana e reintegrar-lhe a consciência... Mas isso é outra história, chuu!)

- Sim! – Sophia exclamou, de súbito, com um entusiasmo inusitado. – Faz sentido, Shirayuki-san. O Aono-san estava morrendo por dentro, como uma chama que se extingue, sua vida consciencial convertida num sofrimento vazio e indiferente... É o que acontece com a pessoa "magiada", enfeitiçada pelo Qalit'Ayn, o "Olhar da Morte" dos ghouls ritualísticos. Quando beijou o Aono-san, você reavivou nele a chama da vida, impediu que ela se apagasse de vez. Tem razão, é como alimentar uma fogueira com mais lenha... Ou, por outra, revitalizar um sol moribundo por meio da fusão do hélio, injetando nele mais hidrogênio pra converter em combustível nuclear... Brilhante! Eu nunca vi nada igual!

Mizore recolocou o pirulito na boca. – Me limitei a aplicar no Tsukune o "remédio" que a Kurumu usou comigo, lá na vila da minha tribo... Funcionou!

- Domo arigato, Mizore-chan – Tsukune agradeceu, sorrindo tímido (era difícil não pensar na língua rosada e gelada de Mizore duelando com a sua!). – Você me salvou. – Ainda meio trôpego, foi sentar-se perto de Yukari e Kurumu. Mizore postou-se ao seu lado, como se fosse seu anjo da guarda. – Eu morri e nasci de novo, ou quase!

- O poder de um beijo – comentou Sophia, com uma expressão compenetrada e sorridente. - Gostaria de ter pensado nisso antes, eu mesma.

Os olhares inquisitivos de Mizore, Yukari e do próprio Tsukune fixaram-se nela, que riu constrangida.

- Não me levem a mal – disse a garota de óculos e olhos cinzentos. – É claro que só estou falando em teoria. Não se ofenda, Aono-san, mas você não é meu tipo de homem.

- Por mim, tudo bem – retrucou Tsukune. – Mas você falou de ghouls ritualísticos, o que é isso? Há mais de um tipo desses seres?

- Eu explico – disse Sophia apressadamente. – Para ser exata, existem os "ghouls ritualísticos" e os "ghouls ferais". Uns e outros comem restos mortais e fedem do mesmo jeito – aff! -, mas os "ritualísticos" são os piores, os mais poderosos e mais cruéis de toda a raça. Fizeram um pacto com Iblis, líder máximo dos djinns do plano dimensional de Sijjin, e em troca receberam poderes mágicos pra infernizar a vida dos humanos que seguem a Bíblia e o Corão: Qalit'Ayn, Ras'Al-Ghul, Metamorfose, Máscara das Mil Faces, Fúria de Energia Demoníaca. Suponho até que poderíamos chamá-los de "aprimoramentos paragenéticos". É o seu modo de lutar por Iblis al-Qadin e Al-Lat, que apadrinharam os ghouls, na guerra de guerrilhas multiplanar contra o totalitarismo monoteísta do Demiurgo da Cidade de Prata, adorado como o Deus único pelos judeus, cristãos e muçulmanos. Mas isso, já é uma outra história... Uma looonga história!

- E os tais ghouls ferais? – quis saber Mizore, que não entendera bulhufas depois de "guerra de guerrilhas".

- "Ferais" ou "selvagens" é como os ghouls ritualísticos chamam seus irmãos de raça que não fizeram o pacto com Iblis, que não têm Iblis como mestre, aliás, não têm quaisquer senhores. Eles mesmos se autodenominam de "O Povo Livre". Não têm poderes especiais, nada de mágika. Existem entre eles alguns cultos devotados a entidades sombrias dos planos dimensionais inferiores da Orbe da Terra, como Nyoghtha, Abhoth, Yibb-Tstill e acima de todos, Mordiggian, o Deus do Abatedouro. E não são necessariamente maus como aqueles que adoram Iblis, o Rebelde. Se bem que eu concorde com o bom e velho Lovecraft: "Um ghoul é um ghoul e, na melhor das hipóteses, uma companhia desagradável para um ser humano". São predadores oportunistas, uma raça de seres vivos notívagos que evoluiu paralelamente ao homem, devido à tendência dos humanos de enterrar seus mortos num único lugar. – Suspirou. - Meu Zeus, cadê o socorro que não chega?

Mizore deu uma piscada maliciosa para Yukari. – Você e ela são um páreo duro!

- Tenho memória eidética – replicou Sophia, exibindo um sorriso de lábios fechados exagerado. – Meus camaradas me apelidaram de banco de dados ambulante. Já deixei mais de um inimigo com os nervos em frangalhos apenas falando sobre os hábitos eussociais da Hymenoptera Apis mellifera, ou seja, a comum abelha-europeia.

- Aqueles ghouls que nos atacaram obedeciam a um bandidão de nome Shersorkh – disse Mizore. – Ele é uma mantícora. E é amigo de uma ex-professora nossa, que é uma medusa com fixação por meninas transformadas em pedra.

- Já matei uma medusa, uma hidra e até um minotauro – disse Sophia, recordando suas bravuras. – Mas matar uma mantícora seria uma sensação formidável... Inigualável. Ah, como eu queria...

Nesse momento, a audição apuradíssima de Sophia (comparável à de uma coruja da espécie Asio stygius) alertou-a para a presença de um predador bípede se aproximando sorrateiramente, os passos rápidos cada vez mais próximos. Passos de pés com os dedos revestidos de casco!

Seis metros... Sorrateiramente, o predador espreita sua presa. E a presa é...

- Aono-san! Shirayuki-san! – ela deu o alerta. – Ghoul!

Tudo aconteceu em uma fração de segundo. O ghoul saltou vencendo a distância de seis metros que o separava de Tsukune, mas foi interceptado por Mizore que, sem pensar duas vezes e de forma atabalhoada, partiu com tudo para cima do gênio diabólico árabe, arriscando a própria vida para proteger a pessoa amada. Yukari soltou um grito agudo. Uma pancada terrível da enorme pata cheia de garras do ghoul fez a jovem mulher das neves cair ao chão sem um gemido. Uma reluzente adaga de bronze celestial atirada por Sophia acertou com exatidão entre os olhos do carniçal, que explodiu em uma nuvem de pó e cinzas.

Usando de telecinésia, Sophia fez a adaga voar de volta para sua mão num abrir e fechar de olhos, e recolocou-a no cano da bota de onde sacara a arma branca. Viu Mizore, que jazia estirada no chão, sangrando, e Tsukune, pondo-se de pé, respirando pesadamente. Depois de hesitar por metade de um batimento cardíaco ela acorreu para socorrer Mizore.

- Se apoie em mim – falou para a jovem dama da neve, ajudando-a a se levantar. – Ou prefere que eu te carregue, como fiz com a bruxinha?

A yuki onna soltou um gemido fraco, e murmurou: - Não, não... Eu posso andar. – Ela sangrava do sobrolho, boca e nariz, e tinha três costelas partidas. Padecia de fortes dores. – Sophia-san...Suas ordens, sua prioridade é defender o Tsukune... Lembra?

- Ele está são e salvo, ao contrário de você – respondeu Sophia, movendo-se com o máximo de cuidado, a fim de não causar ainda mais dor e sofrimento à youkai ferida (conquanto a resistência física desta fosse superior à das amigas súcubo e bruxa), que nela se apoiava e seguia seus passos, capengando, de volta para onde estavam Tsukune, Yukari e Kurumu.

- Mizore-san... Você também?! - gemeu Yukari.

- Mizore-chan! – Tsukune aproximou-se, afoito, mas foi repelido por um gesto de mão imperioso de Sophia. – Tá muito machucada, não tá?

- Eu vou ficar bem, Tsukune, não se preocupe – murmurou ela, para tranquilizá-lo (embora sua dor fosse excruciante).

- Calma, que o socorro já está chegando – disse Sophia, fazendo Mizore deitar-se. – Posso vê-los pela microcâmera do olho da minha coruja espiã que sobrevoa as redondezas.

- Corujas não voam durante o dia – contestou Tsukune.

- É um robô, não um animal de verdade – explicou Sophia sem se abalar. – Temos um link.Tudo que os sensores visuais do robô captam é visto por mim, por intermédio deste belo par de óculos. – Abriu seu estojo de primeiros socorros e pegou gaze médica, pomada antibiótica, bandagens adesivas e todo o restante. – Lá vamos nós de novo, Asclépio – ela resmungou.

Concentrou-se e enviou uma mensagem telepática para o líder dos socorristas que agora se encontravam a uma distância de trinta metros.

"Jared! Ouça-me... Temos mais uma amiga do Aono-san ferida e necessitada de cuidados médicos... Vocês terão que improvisar uma maca para ela..."

- Eu ainda não entendo qual é a sua, Sophia-san – disse Mizore. – Você disse que a segurança das amigas do Tsukune, ou seja, minha, da Yukari-chan e da Kurumu-chan não era sua prioridade.

- Idealmente, deveria ser assim – replicou Sophia, limpando os ferimentos de Mizore e aplicando um curativo de compressão impregnado de unguento antibiótico preparado com musgo-de-sangue ao redor da área afetada. – As ordens recebidas eram pra vigiar sem interferir na luta entre o Aono-san e os demônios açougueiros, a menos que o Aono-san corresse risco de vida, ou de dano permanente. Por outro lado, as amigas youkais eram sacrificáveis porque a visão delas em perigo, ou sendo feridas ou até mortas exacerbaria a raiva do Aono-san, desencadeando seu poder youkai. Lógico, muito lógico. A raiva pode ser um motivador poderoso, disseram. Lógico, mas cruel. De qualquer maneira, eu segui as ordens, fiquei de fora, apenas observando tudo projetada em meu corpo astral, enquanto meu corpo físico permanecia escondido nas imediações por uma capa de invisibilidade. Só uma vez reentrei no meu soma, meucorpo físico, pra disparar minha Desert Eagle e arrebentar o crânio de um ghoul que ameaçava o Aono-san com um tiro de projétil hollow point. Foi jogo rápido. Nem precisei me desvelar, trair minha presença.

- Mas você fez isso ao socorrer a Yukari-chan – lembrou Tsukune.

- Isso mesmo – confirmou Sophia, tranquila e impassível. – Tomei a decisão de desobedecer às ordens e arcar com as consequências. Por quê? Uma questão de justiça. Era a única coisa justa a ser feita. Admiro muito a amizade de vocês, sabe... São tão unidos, cuidando uns dos outros, protegendo-se mutuamente... Pro Tártaro com as tais "ordens superiores"!

- Ordens de quem? - indagou Tsukune. - Você trabalha pra Fairy Tale?

- Não, pelo amor de Júpiter! – ela respondeu com veemência. Terminou de fazer o curativo em Mizore, e disse: - Tetelestai.

Mizore esboçou um meio sorriso. – Sophia-san... Domo arigato.

- Quem, então? - insistiu Tsukune. Foi quando avistou oito jovens, quatro rapazes e quatro moças, carregando padiolas, que se aproximavam correndo do pequeno grupo de estudantes e da misteriosa aliada. Humanos todos, ou, pelo menos, tinham aparência humana. Vestiam uniformes de camuflagem idênticos ao de Sophia, porém – e Tsukune achou isso bem intrigante – as moças escondiam seus rostos sob máscaras estilizadas.

Sophia leu os pensamentos de Tsukune. – Meu pessoal – ela disse, referindo-se aos recém-chegados, que cumprimentaram-na respeitosamente. – Todos aspirantes a cavaleiros e amazonas da minha mãe.

- Sua mãe? – repetiu Tsukune, ainda sem entender muito bem a situação. Nada se podia dizer no tocante à aparência fenotípica das mulheres de rosto mascarado, mas, dos rapazes, um era evidentemente afrodescendente, de tez quase negra e cabeça raspada, dois outros eram caucasianos, de cabelos e olhos claros, e o 4º lembrava um nativo americano, de tez bronzeada e cabelos muito negros. Com seu novo parassentido, Tsukune logo percebeu que nenhum deles – ou delas – possuía youki, a energia espiritual própria dos youkais. A energia que emitiam era humana. Isso o surpreendeu, pois não era permitido nenhum humano legítimo no campus da Academia Youkai (com exceção dele mesmo).

Que nem a própria Sophia-san!Na verdade, ao dar de cara com ela pela primeira vez, Tsukune sentira-se surpreendido por não encontrar sequer o menor vestígio de youki na aura da garota. Agora, pensando bem naquilo, ele podia sentir em Sophia não só a mesma bioenergia que ora sentia naqueles jovens "paramilitares", mas, igualmente, ALGO completamente diferente, uma energia estranha que não conseguia identificar. Sophia-san... O que é você, afinal?

Sophia fez uma pose orgulhosa. - Minha mãe é Atena, deusa da sabedoria, das artes e da estratégia de guerra da dimensão paradisiana conhecida como Olimpo. Ah, e só pra constar, meu pai é Sebastian Tsien, ou Qian, CEO do Olympus Group, atualmente sediado em Singapura, e um dos dez caras mais inteligentes do planeta, com um QI acima de 200, ombreando com pesos pesados do naipe de Kim Ung-Yong, Christopher Hirata, Marilyn Vos Savant e Terence Tao. É isso aí, garotão. Sou uma semideusa.