Capítulo 12 – Noite passada, manhã seguinte.
Antes de dormir Draco repassou mais uma vez mentalmente o turbilhão que vivera em apenas um dia. Uma filha, uma ex-amiga, uma solidão, uma traição cometida, uma nova amizade que veio junto com uma nova casa.
Aquilo podia mesmo ser chamado de amizade?
Ela também se perguntou no quarto ao lado. Se ele era confiável e se ela fizera certo. Ela estava desafiando Harry, a família as regras morais do ministério (e nesse momento pensou que quase ninguém as cumpria mesmo, abrigar um amigo e sua filhinha era coisa pouca, tinha gente que tinha um caso com alguém do mesmo departamento!) e as suas próprias regras morais e de sobrevivência. Ela sabia que não podia confiar nele, e mesmo que ele tivesse agravantes, não estava nos planos e nas regras dele confiar em alguém como ela, logo ele quebrara uma regra primeiro.
Do outro lado da parede, Draco se revirou na cama. A que ponto ele chegara por uma mentira. Estava se mancomunando com uma Weasley que o odiava. Odiava no passado, o verbo estava conjugado certo. Ela não o odiava mais. Confiava nele, com um pé atrás, mas confiava nele. E era tão bom ter isso vindo de uma pessoa estranha e indiferente a ele.
Ele se sentira humano pela primeira vez em... toda a sua vida.
Mas não era só por ser digno de confiança. Ele que não queria deixar a ninguém o legado de nossa miséria¹, e ter filhos era um plano completamente inexistente em sua vida. No entanto, ele estava feliz agora que tinha um pequeno patrimônio genético para cuidar. Aquilo dera a ele um sentido para a vida. Ele tinha que se preservar e preservar a mais alguém, em nome da vida, da sobrevivência humana. E ele que pensava que se algum acidente de percurso desses acontecesse no meio do caminho, ele simplesmente ignoraria isso e seguiria adiante, apenas cumprindo com sua responsabilidade financeira. Entretanto, ele se viu envolvido naquele problema. E agora agradecia à Amelie pela pequena loucura de deixar a sua filha nas mãos daquele pai inexperiente. Lógico que tudo poderia ter dado errado, mas Draco se deu conta que era mais consciente e racional do que julgava ser. Pelo que viveu, a sua experiência familiar e pessoal de paternidade, jamais deixaria que Camille fosse mais um item ignorado em sua longa lista de omissões. Ele já se omitira muito, não se omitiria para uma coisa tão importante agora que tinha entendido que a vida é mais do que simplesmente deixá-la passar. E Camille não era um item. Era sua filha, sua responsabilidade.
Quem diria que ele seria responsável? Gina não diria, certamente. Mas ficara orgulhosa de vê-lo se tornando alguém. Ele tinha muito o que aprender ainda, como ela vira ao longo do dia. Mas quem disse que ela também não tinha nada a aprender? Aprendeu que todas as pessoas mereciam, verdadeiramente, ser consideradas boas, até que o contrário fosse provado. Não só as pessoas das quais se esperava bondade, mas também as pessoas das quais nada se podia esperar. Afinal, sendo todas as pessoas iguais, como ela poderia supor que Draco não teria um lado bom assim como ela, que também tinha seu lado ruim?
Divagar tanto a tornou mais vulnerável para um sono pesado, que rapidamente a sugou. Draco não teve a mesma sorte e em outra cama, em outro quarto adormeceu pensando em como ele havia deixado de achar Gina simplesmente um pedaço de carne que falava de mais e passara a achar que ela era uma pessoa interessante. Realmente interessante, mas ele acordou junto com os primeiros raios de sol que invadiram a janela. Ele já convivia com essa insônia, qualquer coisa incomodava seu sono, mas ele já estava acostumado a lidar com isso.
Já tinha uma rotina para as noites sem dormir, mesmo que em uma nova e estranha casa onde ele tinha de ser cauteloso. Dessa vez, ele ficou alguns minutos olhando o teto, sem pensar em nada. Então se virou na cama e viu Camille dormindo de lado, com o rosto virado para ele na cama ao lado.
Draco encarou aquela pequena cópia sua. Os mesmos traços, ela parecia um anjo e ele questionava se seus rostos iguais escondiam algo em comum: os dois eram igualmente inquietos por dentro?
Ela estava imóvel, só sua respiração tranquila era movimento. Tão quieta que nem parecia que daria algum trabalho, como não dera até o momento. Draco parou nada que estava fazendo para pensar. Tudo parecia que seria pior, mas não fora tão ruim assim. Ele não tivera ajuda de quem queria: Narcisa, Pansy e talvez até poderia ter sido acobertado por Blaise. Mas, teve ajuda de quem não queria e nem imaginava e tudo fora tão fácil... Pelo menos até agora.
Que droga. Ele se via preso em uma rede de gratidão à Gina. E estava odiando isso. O que ele não teria de fazer por ela. Também não podia recusar os favores que ela estavam o fazendo. E o pior de tudo é que ele não tinha nada para lhe oferecer de volta como pagamento. Seria melhor lhe pagar com a torta.
Ao pensar isso, imediatamente decidiu se levantar e ir comprar mais torta. Ela gostara tanto. Ele queria agradecê-la, de algum modo. E esse era o jeito que encontrara.
Vestiu-se e pôs no bolso do jeans além de dinheiro papel e caneta. Ele não sabia se conseguiria escrever aquela carta. Foi comprar tortas, e enquanto esperava que saísse a primeira fornada do dia, sentou-se à uma mesa no canto da lanchonete, pediu um café e colocou a folha em branco à sua frente. A caneta em suas mãos não lhe dava inspiração para como começar. Mas ele precisava escrever aquelas linhas. Havia prometido à Narcisa. O que o desanimava a escrever era saber que tudo que escreveria não seria verdade. Estava nascendo nele uma vontade de contar tudo à Narcisa.
Mãe,
Cheguei bem ontem à noite, mas como estava muito cansado dormi logo. Hoje acordei cedo como sempre e vim escrever.
Não sei quando volto, mas espero que seja breve. Tudo está indo bem.
Voltando em breve, Draco.
O café já estava fumegando à sua frente sobre a mesa quando o ponto final foi dado. Mais alguns minutos até que a torta ficasse pronta e ele pode sair para despachar depressa a carta. Ele não queria demonstrar nem a Gina nem a ninguém aquela pequena mas significativa demonstração de um complexo de Édipo.
Ele chegou no apartamento abrindo a porta repentinamente. Gina saltou no sofá onde estava sentada, a preocupação de seu rosto se desmanchando em alívio.
-Pensei que tivesse ido embora.
-Pra sempre? – Ele levantou uma das sobrancelhas, incrédulo.
-Ainda não confio em você, Malfoy.
-Deveria confiar. Eu até comprei torta.
Ela sorriu, o rosto um pouco mais animado. Estar de pé cedo sempre era motivo de mau humor pra ela. A torta com certeza ajudaria.
-Sua filha já acordou, mas não quis levantar.
-O que eu faço?
-Fale com ela. Ontem eu cuidei demais dela pra você. Hoje é seu dia, acho que já passou o choque inicial.
-Ok.
Ele pareceu apreensivo, deixando lentamente a torta sobre a mesa.
-Não se preocupe, esse instinto está em você. Mais em mim do que em você, mas ainda assim, você saberá o que fazer. – ela o encorajou.
-Gina, você tem sido muito importante pra mim.
-Eu mereço um obrigado, então?
-Obrigado, Gina.
Ele saiu da sala, Gina ficou só na sala desarrumada. Uma das paredes era azul marinho e as outras brancas, sendo uma delas coberta de livros, em sua maioria manuais e outras publicações técnicas relacionadas a seu trabalho no ministério. Grande parte dos outros livros eram presentes de Hermione. Romances, livros de história ou coisa assim. A sala não era muito grande, mas como também abrigava uma pequena mesa de jantar redonda e branca e um sofá vermelho contra a parede azula marinho, dava a impressão de ser minúscula e abarrotada. Papéis, documentos e sua bolsa estavam sobre um aparador ao lado da porta de entrada. Também havia sobre ele um porta retrato com uma foto de toda sua família, Harry e Hermione reunidos no casamento de Gui. Uma foto de Percy, ausente estava pregada na parte inferior da foto. Ela não gostava de fotos, por isso só havia esta em toda a casa, para lhe lembrar de como sua família e seu namorado sempre estiveram unidos. Todos tinham tantas expectativas sobre esse relacionamento...
Ela havia acordado ao ouvir Draco saindo. Sua apreensão diminuíra quando ele voltara. Ela estava realmente com medo que ele tivesse saído para não voltar. Ele tinha mostrado, em todo o tempo que conviveram que era uma pessoa muito imatura. Ela ainda não tinha total confiança nele, embora ele já estivesse a conquistando pouco a pouco. Ainda assim, ainda estava nervosa e preocupada. Harry lhe prometera uma carta pela manhã, e a ausência longa demais estava deixando-a nervosa e cheia de expectativas. As desculpas para ficar lá por tanto tempo não eram convincentes, mas isso não importava. Ela não desconfiava de modo algum de Harry. Só se irritava com o modo com que estava sendo tratada. Ele mal dava notícias. Ligava ou mandava cartas raramente, e na noite anterior, ouvindo mais uma desculpa Gina o fizera prometer uma carta pela manhã.
Quando estava ansiosa sentia necessidade de mover-se. Fazer alguma coisa, qualquer coisa. Organizou os papéis sobre o aparador e colocou sua bolsa sobre eles arrumadamente. Harry podia ser um pouco menos frio. O próximo passo foi ajeitar as almofadas sobre o sofá. Algumas estavam no chão e ela precisou pegá-las. Se ao menos Harry lhe desse um pouco mais de atenção...
Quando rumava para a cozinha dividida da sala apenas por um balcão para pegar pratos e xícaras para o café da manhã, Draco voltava do quarto, e Camille vinha atrás dele dando pequenos passos, ainda um pouco amassada de dormir.
-Bom dia, Camille!
Pensativa, Gina sorriu enquanto colocava três pratos sobre a mesa. Era tão estranho colocar pratos para mais alguém a não ser ela. Ela não tinha reparado na noite anterior, mas agora percebia que ela e Harry nunca tinham comido ali. Ele sempre a levava para jantar e almoçar em restaurantes, isso quando não iam para a Toca para uma refeição familiar. Aquela mesa de jantar fora, até ontem uma mesa de trabalho usada para eventuais refeições solitárias.
-Draco, você vai trabalhar pela manhã e eu à tarde, porque alguém tem que cozinhar o almoço e temos que revezar para cuidar de Camille.
-Certo.
-Aliás, você precisa aprender a cozinhar, tem uma filha agora. Vou te ensinar à noite quando nós dois estivermos de folga. Arrume seu quarto antes de ir.
Para implicar, ele pôs a mão na testa em posição de sentido.
-Sim senhora. Mais alguma coisa?
Divertida, ela ordenou:
-Ponha água na cafeteira, quero um café quentinho.
Draco observou Gina tomar café enquanto ele dava comida à Camille. Ela dera algumas divas a ele de como cuidar dela durante o café, mas ele percebeu que ela não parava de olhar para a janela, como se esperasse alguma coisa. Talvez estivesse mesmo esperando algo, ele já imaginava o quê. Potter idiota, fazendo-a esperar.
Draco foi trabalhar deixando Gina sozinha o resto da manhã, ansiosamente esperando pela carta de Harry. Preparou um almoço simples enquanto Camille embalava para dormir um grande ursinho de pelúcia que Gina ganhara de presente de Harry. Enquanto punha os pratos na mesa, ansiosa tomou uma decisão. Se Draco entrasse por aquela porta e nenhuma carta tivesse chegado, aquele seria o fim. Ela estava cansada de ser a única a se preocupar.
As duas estavam inquietas. Gina arrumava o cabelo de Camille depois de ter dado banho nela. Era quase meio-dia e nenhuma carta chegava. A porta se abriria a qualquer momento. Nenhum bilhete, telefonema, lareira, qualquer coisa que justificasse a falta ou atraso de uma carta pequena. Camille já dissera que estava com fome. Deixaria que ela comesse antes de Draco chegar, mas pediu para que esperasse. Só mais alguns minutos.
O cabelo de Camille estava penteado e preso para trás. Ela ouvia passos no corredor do lado de fora e sabia que se direcionavam à sua porta. Era Draco. Até que ele abrisse a porta ainda teria alguns segundos. Sentou Camille a seu lado no sofá e continuou olhando para a janela. Draco girava a maçaneta. "Vamos Harry, ainda tem essa chance!" A porta se abriu um pouco, Camille que olhava a janela desviou o olhar para a porta. Gina não. Ainda tinha esperanças. O restante da porta se abria e Gina fechou os olhos contraditoriamente se agarrando a uma última esperança e já se desistindo de esperar por qualquer possível reviravolta de última hora. Seu corpo estava tenso. Draco pisou dentro do apartamento e ela relaxou, virando seu rosto para ele.
Acabou.
Alguma tristeza se mostrava em seus olhos, Draco pode notar. A cena era engraçada. Gina e Camille olhando para a porta, sentadas comportadamente no sofá, como se tivessem esperando por um pai de família que chegava em casa depois de um dia de trabalho. Era mais ou menos isso. Só que ele não era pai daquela família. Gina não fazia parte daquilo existente entre ele e Camille que não podia ser chamado de família.
-Vamos almoçar? - perguntou Gina desmanchando a tristeza, apenas superficialmente, de seu rosto. – Não quero que a comida esfrie.
E serviu aos dois, como se aquela fosse mesmo uma família. A sua família.
N.A: ¹ - "Não tive filhos, não deixei a ninguém o triste legado da nossa miséria" Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Não se esqueçam de deixar reviews pra eu ficar ainda mais inspirada pro próximo capítulo que – ALELUIA- terá action!
Manu Black – Só por curiosidade, estive fuçando seu perfil no e vi uma (song) fics de músicas de BSB! Oh, que mundo pequeno, sou super fã de BSB e lerei suas fanfics assim que tiver tempo (a faculdade ta me sugando o tempo!) Muito obrigada pelo incentivo. Continue lendo e comentando!
Helena Malfoy – Draco pagando com o corpo é loucura! Que bom que você está amando! Fico feliz em saber que tem gente gostando do que eu escrevo. Muito obrigada por ler e continue acompanhando.
Loh Malfoy – Uma nova leitora? Que ótimo! Seja bem vinda a essa humilde fanfic e fique a vontade pra mandar review esculhambando, falando bem ou fazendo criticas construtivas. Que bom que você gostou e continue lendo pra saber o que acontecerá com os nossos heróis [/pedro bial]
