– CAPÍTULO 10 –
TROPEÇOS
Ela tinha adormecido sem sentir, pois o rapaz não voltara para interrogar, ou revistar. O cansanso a abateu e só recobrou a consciência quando foi puxada com força pelo braço e obrigada a se levantar.
"Vamos", bradou um dos rapazes. A pausa tinha chegado ao final.
Pelo que notou no posicionamento das estrelas, não tinha se passado muito tempo desde que tinha apagado, jogada no canto. Eles pareciam não querer se arriscar permanecendo por ali por muito tempo, talvez imaginando que houvessem soldados dos Aliados se arriscando por aquele caminho também, ou que talvez o soldado estranho que tinham encontrado fosse importante demais para ser deixada para trás.
O que fariam se soubessem que ela não era absolutamente nada?
Suspirou audivelmente e continuou a andar, com o outro rapaz loiro e forte que lembrava bastante aquele que havia conversado com ela anteriormente. "Eles são todos iguais", resmungou em seus pensamentos cheios de preconceito.
"Theodore", ela escutou a voz do primeiro rapaz.
"Quê?"
"Seu braço", alertou.
"Não foi nada, apenas um arranhão".
"Por que não cuiudou enquanto estávamos descansando?"
"Por que eu estava ocupado, Draco", resmungou em tom de fim de conversa.
"Certo. Pode deixar que eu levo o prisioneiro. Precisaremos do seu braço e da sua mira no próximo confronto. Não se esforce tanto agora".
Ginny ouviu o rapaz sorrir.
"Obrigado, irmão".
Pararam por dois segundos, enquanto Draco segurava firmemente o braço dela e o outro rapaz, o Theodore, seguia em frente, transferindo o peso em seus ombros para o braço que estava bem.
"Você disse que era filho único", Ginny murmurou.
"E sou"
"E esse outro aí? O Theodore?"
"Esse é o único homem que eu considero como um igual. Somos amigos, nossas famílias são amigas de londas datas e nossos país estão desaparecidos", explicou, e Ginny não entendia porque ele falava aquilo para ela.
"Vocês se parecem", comentou.
"Todos dizem isso, mas no fim das contas, famílias tradicionais como as nossas acabam se casando entre si. Ele, provavelmente, é algum parente distante, mas não saberia dizer ao certo".
"Entendo".
"Claro que não entende. Na verdade eu nem sei como você consegue falar tão fluente o alemão. Você não é alemã, é? Quem diabos é você?"
"Alguém que você nuncaq vaqi conseguir entender, Draco".
Ele parou de andar por alguns segundos e a encarou. Ginny não sabia dizer ao certo o que a expressão dele dizia. Os olhos cinzentos se destacavam no rosto sujo e arranhado.
"Você fala demais", ele advertiu.
"Você também", ela rebateu.
"É, eu sei".
O restante do caminho eles fizeram em silêncio, e isso durou pelo menos três horas. Ginny estava com sede e tinha fome, os passos ficaram mais lentos, assim como os do rapaz, que não parecia se importar. Ela olhou para frente quando escutou um barulho de algo pesado caindo no chão. Draco também ouviu, porque levantou o olhar que antes mirava apenas o chão.
"Miles!", ela ouviu Theodore chamar e, só então ela levantou a vista também.
O rapaz havia caído, e os outros dois homens o cercavam com visível preocupação.
"Draco, vem aqui!", Theodore chamou.
"O que houve com ele?", questionou ao se aproximar, ainda segurando-a com firmeza.
"Ele tinha diminuido muito o ritmo, mas caiu do nada. Desmaiou", alertou o que Ginny tinha identificado desde o começo como o comandante.
"Está queimando em febre", elertou Theodore.
"É a perna dele", Ginny falou antes que pudesse segurar a língua.
Os três homens a encararam, mas continuaram em silêncio como se esperassem que ela falasse mais.
"Infeccionou", completou tentando fazer sua voz soar máscula.
"Vimos que carregava itens de primeiros socorros. É médico, soldado?", questionou o comandante.
"Não", informou, e viu frustração em cada olhar. Depois da frustração, desenhou-se medo em questão de segundos, e Ginny pensou que com aquilo poderia barganhar: "Mas fui treinado para isso. Era da cruz vermelha, fui auxiliar de vários médicos e estudei para me tornar um, mas com a guerra..."
"Pode fazer algo por ele?", Draco perguntou.
"Posso tentar, mas não garanto que-"
"Faça o possível", o comandante ordenou. "Vamos parar um pouco aqui e descansar até amanhecer. Nott, procure água. Malfoy, fique de olho no prisioneiro, eu procurarei um lugar menos exposto."
Dito isso, cada homem foi para um lado e Draco a encarou.
"Me ajude com ele", não soou como uma ordem. A expressão do rapaz era amedrontada. Ele era um misto desproporcional de coragem, medo, esperança e pena. Ginny ficou angustiada apenas em olhá-lo.
"Eu farei o possível", murmurou para si mesma, mas ele ouviu.
"Salve-o e fique certa de que nada acontecerá com você. Miles é um louco, um idiota, mas é nosso irmão. Não podemos deixá-lo para morrer aqui".
"Não posso garantir, sou apenas uma enfermeira", revelou. "Mas o que eu puder-"
"Você está perdendo tempo".
"OK. Bem... vou precisar de uma tesoura, curativos, morfina e álcool... Serve alguma bebida!"
Draco pegou tudo rapidamente em sua mochila. Era ele que carregava boa parte dos primeiros socorros, mesmo que os demais também tivessem suas reservas.
Ginny cortou a calça de Miles e imediatamente viu que o estrago era maior do que pensara inicialmente. Draco virou o rosto e Ginny tomou um longo gole da bebida que o rapaz lhe entregara junto com os medicamentos e, no momento seguinte, deu um tapa na cara de Miles. Ele acordou, zonzo e gemendo, mas não abriu os olhos. Ela se preparou para esbofeteá-lo mais uma vez e Draco tentou interferir, mas ela foi mais rápida.
"O que-"
"Bebe isso!", ela ordenou a Miles.
"Pensei que iria usar no ferimento!", Draco exclamou, surpreso.
"Ele precisa beber isso, mais do que qualquer outra coisa", falou, nervosa. "E eu também", completou. antes de tomar mais dois goles antes de jogar uma parte em cima do ferimento.
Logo depois esticou o braço e entregou a garrafa ao enfermo.
"Beba! Rápido!"
E, ainda zonzo, ele obedeceu. Miles virou o restante do conteúdo de uma vez.
E gritou.
Gritou como nunca havia gritado em sua vida, para no momento seguinte desfalecer em choque, depois ao sentir a dor de ter sua perna ainda mais cortada e castigada, na tentativa de retirar toda a parte que já estava morta para que ele não morresse.
Enquanto fazia o procedimento, Ginny chorava.
Naquele momento ela entendeu que não era tão forte.
E ela chorava.
