12. Verde

Parte I

_Não olha para mim com essa cara, como se os preservativos ainda não tivessem sido inventados.

_Eu odeio ele. –Noin resmungou e tentou se levantar, mas mudou de ideia.

_Agora você odeia, né? –Une provocou com sua impiedosa sensatez.

_Eu vou matar você se continuar aí bancando a esperta. –ela anunciou com os dentes travados, usando o pouco de energia que lhe restava. A tontura prevalecia sobre sua coordenação motora, forçando-a permanecer sentada de frente ao vaso sanitário um pouco mais.

_O que foi que eu fiz? Olha para você… está verde que nem um marciano e mal consegue parar em pé. –Une riu, pouquíssimo impressionada pela ameaça.

Noin bufou, exasperada, baixando a cabeça, sua testa quase se encostando à louça.

Ela nunca soube o que era sentir enjoo. Mesmo quando velejava. Noin passou a maior parte de sua infância em iates e barcos, outro fato que contribuiu para ela escolher a Marinha, e ela nunca sentiu nada de diferente de quando estava em terra. Mas agora, toda manhã era uma tortura de náuseas sem fim.

_Eu não consigo acreditar que isto está acontecendo.

_Pare de sentir pena de si mesma. Vamos, vou te ajudar a levantar. –Une parou atrás de Noin e passou um braço pelos ombros dela. –Um, dois, três…

Noin concluiu que ali era o mais fundo que ela já chegara ao proverbial poço, mas ela não se permitiria morar lá.

_Obrigada. Estou me sentindo melhor agora. –e se arrastou até a cama mais próxima. O que a desacelerava não era mais a tontura, mas a pesada percepção de um fato inegável – ela estava grávida.

Une abriu o pequeno frigobar e tirou uma lata de Limonata, servindo um pouco do conteúdo em um copo. Aceitando a bebida que lhe foi estendida, Noin tomou pequenos goles, suspirando entre cada um.

_Você não estava tomando nada?

_Eu estava com um adesivo, mas não sei o que aconteceu…

_Você é maluca, sabia? Eu nunca pensei que você seria assim tão inconsequente. –Une sentou ao lado dela na cama.

_Nem eu. –ela sorriu. Arrependimento não era algo que vinha a sua mente, nem por um minuto. Mas ela ainda o odiava. E muito.

Ele não tinha ligado nem mandado uma mensagem sequer. O fato de que ela saiu deixando ele falando sozinho até poderia ser considerado como uma explicação para a falta de contato dele. Mas fora ele quem dissera que não conseguia ignorar a conexão que existia entre eles e, se ele realmente tivesse falado a verdade, a reação intempestiva dela não era razão suficiente para ele perder totalmente o interesse nela.

Só de pensar no que houve aquela tarde fazia o sangue dela ferver de ultrajo novamente. Ela ainda estava bem longe de concordar com o jeito dele de lidar com o destacamento.

Por mais bobo que soasse, ela se sentia um tanto traída, ou pelo menos, excluída. Se tão somente ele tivesse compartilhado com ela seus planos e intenções, se tão somente ele tivesse tido a decência de contar a ela o que ele estava buscando. Naquele instante tão pequeno, mas tão decisivo, ela se sentiu como se não fizesse parte da vida dele.

_Você vai contar para ele. –Une não estava pedindo ou sugerindo uma ação, não, ela estava comandando. –Você precisa da ajuda dele.

_Não tenho certeza de que ele está interessado em saber.

_Não me diga que está desistindo só por causa daquela discussão idiota.

_Na verdade, foi ele quem desistiu primeiro.

_Vou culpar seus hormônios por esse seu comportamento irritante, está bem? –Une brincou, mas seu sorriso era de compreensão.

_Ele está Deus sabe onde na porra do Iraque e sobrou para eu lidar sozinha com todas as consequências. –Noin prosseguiu reclamando em uma mistura engraçada de desolação e ultraje.

_Alguém deve ter alguma informação. Ele não está em nenhuma missão sigilosa…

_E que diferença vai fazer? Eu não quero atrapalhá-lo.

_O que quer dizer com isso?

_E se eu contar para ele sobre o que houve fizer com que ele perca o foco? E ele está tão longe… Eu…

_Sim?

Assistindo de perto o rosto de Noin, Une notou um sofrimento silencioso impedindo as palavras da amiga de fluir.

_Não, nada.

_Me fale agora ou eu me demito como sua melhor amiga. –Une apelou para a tática da chantagem como incentivo Noin a continuar.

Primeiro, elas riram juntas, Noin percebendo a calmaria regressando aos poucos a seu peito.

_Não era você que não tinha melhores amigos e dizia que a Marinha não era uma irmandade? –e gracejou, fazendo uma referência as suas primeiras conversas, quando se conheceram.

_As pessoas mudam… –as palavras de Une vieram como sussurros macios de entre seu sorriso composto.

Noin sabia que Une tinha razão. Depois de tudo que viveram juntas, de completas estranhas elas se tornaram as amigas mais próximas da Academia. Nada que Noin dissesse a Une a iria chocar ou ofender. Então, ela voltou a falar de onde tinha parado:

_A verdade é que… eu queria ver a reação dele e saber o que ele realmente sente sobre ter um bebê… comigo.

_Você é mesmo uma romântica incorrigível! Quem diria!

_Não! Não me force a admitir que eu amo ele.

_Mas foi o que acabou de fazer. –Une apontou e Noin revirou os olhos diante da tolice da amiga.

Entretanto, elas tinham perguntas mais importantes para tratar:

_O que eu devo fazer com a formatura? Será que é melhor eu deixar da Marinha depois dela?

_É melhor conversar com o imediato sobre isso. O pior que pode acontecer é você ser mandada para trabalhar nos alojamentos. Eu sei que não é o seu sonho, mas…

_Eu me preocupo com o bebê. Será que eu vou conseguir me separar dele depois que nascer?

Une exibiu um sorriso terno e sacudiu a cabeça:

_Provavelmente não.

A reunião com o imediato era o item mais importante na lista de Noin. Só depois dela que ela poderia acessar os tratamentos especiais para sua situação. Apesar de todo o enjoo matinal, ela sentou diante do homem e descarregou a notícia de uma vez só:

_Eu estou grávida, senhor.

Ele não ficou exatamente agradado com o anúncio, gastando um minuto inteiro encarando a face abatida dela. Ele retorceu um dos lados da boca, sacudindo seu bigode:

_Este não é o momento. –e constatou enfim, monótono.

_Eu entendo, senhor. –ela tinha ensaiado uma atitude composta para oferecer a ele, escolhendo não usar nenhuma reação explosiva. Entretanto, a maneira gélida com que ele falou tornou difícil ela se controlar. Ela quase bufou de exaspero.

_Quem é o pai? –ele prosseguiu o assunto fazendo uma pergunta que, apesar de natural, foi pronunciada em uma entonação inconveniente mais insuportável que a tontura que a assaltava ali.

_O tenente Zechs Merquise, líder do EOD, senhor. –a resposta dela soou calma e cheia de dignidade, mas era a primeira vez que ela falava sobre sua conexão com Zechs para um estranho. Partiu um pouco o coração pensar que o relacionamento deles estava longe de ser algo convencional. Também, a Marinha era tamanha prioridade na vida dela que ela ainda não tinha nem contado a seus pais sobre o bebê. Seu superior soube primeiro.

_Deus, por que justo ele? –o imediato implicou. A fama de playboy de Zechs tinha chegado a ele também. –Eu vou te mandar para a clínica. Por ora, pode continuar com suas atividades. Irei me reunir com os superiores e decidir o que podemos oferecer a você.

Por mais rápida que fora reunião, esta drenou todas as energias dela. A tensão e a crueza nas palavras do imediato ameaçavam acabar com o seu dia.

_Achei uma pessoa que pode nos dar informações sobre o Zechs, quem sabe até contatá-lo… –Une encontrou-a no corredor para os vestiários. –A propósito, como foi a reunião?

_O imediato não gostou nada, especialmente da parte do Zechs ser o pai. –Noin foi afrouxando o lenço no pescoço enquanto caminhavam.

_Ele nunca gosta de nada.

_Ele me deu esse encaminhamento para o obstetra e no almoço eu marco a consulta.

_Ele deve estar aborrecido em perder você. Você é uma cadete brilhante, sabia disso?

_Obrigada, Une. –foi sincera.

_O cara sobre quem estava falando é o comandante Khushrenada. Ele é o melhor amigo de Zechs, trabalhavam no mesmo escritório, com certeza sabe de algo.

_Ok, vamos falar com ele depois da aula.

_Noin, você está se sentindo bem? Está ficando verde outra vez…

_Estou bem. –ela engoliu.

_Você aguenta até chegarmos no vestiário?

Ela simplesmente assentiu com a cabeça. Seus sentimentos estavam mais conflitantes que seu estômago, e ela se perguntava se por acaso sua tontura não seria de nervoso.

A conversa com o imediato a colocou em uma posição tão desconfortável que agora ela estava questionando tudo, mas especialmente seu envolvimento com o tenente.

Une estava certa, como ela pôde ser tão inconsequente? Como foi que se deixou levar por aqueles olhos, aquele sorriso, aquele toque? Mas, por outro lado, como ela não se deixaria?

Se ela acreditasse em destino, esse seria o momento adequado para responsabilizá-lo por sua atração por Zechs. Porque este seria a única explicação plausível para sua rendição fácil, para sua decisão simplista de que o futuro não era tão importante quanto viver o momento. Toda aquela atitude epicurista de repente lhe parecia péssima, fazendo com que o arrependimento a incomodasse feito sapatos que não vestiam bem e pegavam nos calcanhares.

_Quem está procurando pelo comandante? –um sargento apareceu, as sobrancelhas erguidas em altivo desdém.

_Nós estamos. –mas a postura de Une se equiparou a dele, sem superá-la apenas por respeito à hierarquia. –Tenentes Junior Grade Cordelia Une e Lucrezia Noin.

_Clark, eu cuido disso. –Treize surgiu atraído pela voz imperiosa e a menção do nome da garota de Zechs. –Queiram me seguir, soldados. –ele as conduziu com um gesto educado para o escritório vazio. Como seu superior estava almoçando, ele não se importaria que usassem sua sala por alguns instantes.

_Ah, novas protegidas? –o sargento não conseguiu se segurar e provocou.

Treize não aprovava aquela mentalidade vulgar que Clark normalmente demonstrava. Ele respirou fundo, conjurando alguma tolerância para com o homem, e replicou:

_Clark, esses não são modos de se dirigir às senhoritas. Lembre-se de que elas são o futuro de nossa organização. –ao comandante nunca faltava compostura e era justamente isso que fazia com que suas censuras soassem ainda mais humilhantes. –Agora, se nos der licença. –Treize fechou a porta da sala.

As mulheres não se sentaram nem se fizeram confortáveis e, assim que conseguiram a atenção de Treize, Une explicou:

_Nós não temos muito tempo e tampouco teríamos vindo aqui se não fosse importante, senhor.

_Estou ciente disso. Como posso ajudá-las, minhas senhoras?

_Eu gostaria de contatar o tenente Merquise, se possível. –Noin informou.

_Ele não entrou em contato conosco aqui desde sua partida. Mas eu o encorajei a ligar para você, senhorita Noin. Você está me dizendo que ele não fez isso…?

_Não, ele não ligou. –Une cuspiu, cruzando os braços.

_Filho da puta. –murmurou Noin, um pouco instabilizada pelo desespero.

_De fato.

Une tentou não se mostrar diversão quando ouviu o comandante concordar com Noin, mas acabou sorrindo um pouco. Havia algo muito interessante sobre aquele comandante – talvez fosse a pitada de extravagância que sua voz e seu olhar espargiam.

Noin não estava prestando atenção, pensando em todos os piores cenários.

_Une, vamos embora. Desculpe por incomodá-lo, senhor.

_Qual o problema com você? Você pode nunca mais vê-lo, Noin…você tem que entrar em contato com ele.

_Zechs está incomunicável. Ou talvez não queira ser perturbado. Obrigada pelo seu tempo, senhor.

_Mas Senhorita Noin… você não precisa falar com Zechs?

_Isso… não importa mais.

_Claro que importa… Veja bem, senhor, Noin está…

_Não, Une, você não entende? Acabou. Já faz 2 meses… ele deve estar ocupado demais para se lembrar da sua antiga vida na base.

Noin estava cedendo ao medo, mas precisava proteger seu coração ou o que restava dele, porque agora não era apenas de si que teria de cuidar.

Treize assistia, a troca entre as duas diante de si, intrigado e paciente, sem pensar em interromper, derivando suas ágeis e sábias conclusões.

_Você tem que ter alguma esperança, Noin. Não o julgue assim tão rápido. Ele pode estar com medo de falar com você e ser rejeitado novamente. –Une tocou o braço de Noin em uma última tentativa de convencê-la a agir sensatamente.

_Peço licença, senhorita Noin, para me intrometer, porque sinto que posso ser de ajuda nesse dilema… como amigo de Zechs, eu posso te assegurar que a senhorita é muito importante para ele. Então, por favor, me conte o que está acontecendo.

Esta seria a segunda vez que ela teria de fazer aquela revelação para alguém estranho, para alguém que aparentemente não merecia aquela informação. Respirou fundo e, sob a vigília confortante de Une, ela informou:

_Eu estou esperando um filho do Zechs.

Treize teve quase a mesma reação que seu comandante. Ele franziu o rosto em silêncio por um instante, processando a informação com cuidado dedicado.

_Meus parabéns. –e depois abriu um sorriso aprazido, fazendo uma pequena mesura com a cabeça. –Senhorita Noin, conte comigo para colocar vocês dois em contato o mais rápido possível.

_Obrigada. –e foi Une quem respondeu, porque a única coisa que Noin conseguiu fazer foi assentir.

Por que tudo tinha que ser tão difícil de levar? Os hormônios, como Une tinha dito, estavam implacáveis. Os hormônios eram o bode expiatório perfeito para toda a confusão que Noin estava atravessando.

Conseguira um encaixe com o obstetra para a manhã seguinte. Une estava chateada por não poder acompanhá-la na consulta.

_Me conte tudo depois, ok? Você está na oitava semana, então a imagem vai estar bem nítida… talvez você até consiga ver quem o bebê puxou… –Une tinha pesquisado tudo no Google na tentativa de animar Noin um pouco por criar expectativas positivas.

Noin riu da piada sem sentido, forçada a admitir que a empolgação de Une era bastante contagiosa. Mas ela ainda se descreveria como indecisa sobre o que sentir. Esperava que o ultrassom a ajudasse a resolver isso como o termômetro final.

Não foi preciso esperar mais que uns vinte minutos para que fosse chamada.

_Eu sou a doutora Sally Po. Como já tenho aqui seu questionário, vamos direto para o exame, está bem? –a mulher loira tinha uma expressão brilhante e terna nos olhos sorridentes que recepcionaram Noin em seu consultório.

Obedecendo silenciosamente, Noin deitou-se e abriu o avental que vestira.

_Como você está se sentindo, mãe? Muito enjoo matinal?

_Muito é eufemismo…

A doutora riu um pouco, assentindo com a cabeça:

_Depois cuidaremos disso. Temos bastante sobre o que conversar… dieta, vitaminas… Pela data de concepção marcada aqui, posso dizer que você está entrando em sua nona semana. Por que demorou tanto para vir me ver?

_Eu esperei o máximo possível, até que a situação ficasse inegável.

_Você não quer o bebê…?

_Eu não queria… acreditar. Eu sei que esta não é a coisa mais responsável para se dizer. Mas não tenho problema nenhum em ter essa criança.

_Só que não é bem o momento certo para isso…? –Sally parou o procedimento para investigar. Pelo que lhe parecia, ela tinha uma situação complicada em mãos.

A barriga de Noin estava gelada do gel, mas a voz da médica soava tão encorajadora que ela não se importou em bater papo.

_Foi exatamente isso que o imediato me disse, lá na Academia.

_A formatura é em dois meses, certo? Não se preocupe, sua gravidez não vai se tornar um obstáculo para você, eu te garanto. Nem vai precisar comprar um uniforme de gala novo… –Sally esperava que suas piadas triviais mantivessem a leveza da atmosfera. –Mas são as coisas depois da formatura que te preocupam, certo?

_Estou tentando não pensar muito sobre o futuro mais. Eu vou decidindo pelo caminho e ver o que acontece.

_Parece justo. E o pai? Ele também é um soldado?

_Sim, um tenente.

_E como ele se sente sobre essa nova patente que acabou de ganhar?

De repente, Noin nem sentia mais sua apreensão, rindo dos gracejos da doutora e recostando-se no travesseiro:

_Ele não sabe ainda. –a informação escapou com facilidade.

_Ah, ele saiu em alguma missão? –Sally começou a capturar as imagens para o exame.

_Sim. –mas dessa vez Noin soou mais pensativa. Zechs havia partido de uma forma bastante abrupta e ela fez a si mesma o favor de fechar o canal de comunicação entre eles. Ela odiava como às vezes seu temperamento ruim funcionava contra ela. A despreocupação inocente, distraída, de Zechs, sua falta de prática, a tinha magoado, mas era a ausência dele que lhe trazia a verdadeira dor. Ela precisava dele, mais do que nunca.

_Entendo. –a resposta contida de Sally não pareceu deslocada. Não havia motivos para mencionar quão estressante era ter um ente querido longe, atuando em uma missão. Não existia isso de missões seguras. Agora, adicione a isso o conceito de uma gravidez que provavelmente resultara de um encontro casual e você tem uma combinação bastante explosiva.

Um breve momento de silêncio transcorreu entre elas.

_Agora, eu tenho algo aqui que você definitivamente precisa ver, mãe. –o anúncio de Sally cortou o ar, sua voz macia e admirada.

Erguendo-se um pouco do travesseiro, Noin se concentrou no monitor que Sally lhe indicou. Ela não tinha a habilidade de interpretar as sombras e manchas na imagem, mas também não precisava ser nenhuma perita para saber que ela estava vendo seu filho pela primeira vez. E era uma sensação incrível.

_Você está esperando gêmeos.


Bom-dia! Aqui é a autora!

Como precisei de mais capítulos pra desenvolver, as cores verdes e turquesa (a próxima) serão divididas em duas partes.

Esta história é muito agitada, e eu gosto muito disso nela. Como tudo muda e acontece rápido, como acontecem tantas coisas inesperadas... Espero que estejam gostando!

Quero agradecer de coração a todos que leem e acompanham! Deixem seus reviews e comentários que me animam muito!

A tradução está completa, então logo descobrirão o final!

Beijos e abraços!

02.08.2018