N.A. - Vocês vão notar que o começo do capítulo é bem parecido com o final do anterior. Proposital, eu só quis mostrar o lado da Kagome nessa cena especifica. Uma parte dos dialogos são os mesmos, mas o ponto de vista é da Kagome.
Perdão pela demora, mas o capítulo finalmente está pronto e postado. Espero sinceramente que vocês gostem!
Como sempre, perdoem qualquer erro escabroso que tenha passado pela minha revisão a jato. Consertarei mais tarde quando tiver mais tempo.
Until Death
Capítulo 11
All the while you were in front of me I never realized
I just can't believe I didn't see it in your eyes
I didn't see it, I can't believe it
Oh but I feel it
You Sang To Me - Marc Anthony
Kagome estava na cozinha, ajudando Sangô a preparar o jantar, desde que Miroku chegara. Podia ouvir a voz dos dois conversando no exterior da casa, mas não compreender o que falavam. Sangô a mantivera afastada da janela, pedindo que fizesse coisas para mantê-la sob vigilância. Kagome sabia que ela só estava tentando distraí-la para que não prestasse atenção no que os dois rapazes falavam.
- Kagome, você pode—
- Como pode ser diferente? Eu não posso proteger vocês. – A voz de InuYasha soou mais alto, interrompendo o que quer que Sangô pensasse em falar. – Kikyou não conseguiu proteger nem a si mesma.
Kagome lançou um olhar curioso para a outra garota quando ela lhe disse para ficar ali e deixou a cozinha quase correndo. Pensou em segui-la, mas desistiu, pensando que talvez fosse melhor obedecer o que lhe fora pedido, aproximou-se da janela, observando as duas figuras no pátio da casa, podia reconhecer InuYasha apesar da distancia e pouca luz. Ele parecia nervoso e frustrado, e ela não conseguia fazer com os trechos de conversa fizessem sentido.
A voz de InuYasha soou novamente, e ela se viu caminhando para fora da cozinha e pela sala até a porta da saída. Não percebeu o olhar reprovador de Sangô em sua direção no mesmo momento que Miroku respondeu:
- InuYasha... Suponha que eu aceitasse... Que conseguisse convencer Sangô a deixá-lo para trás... Você sinceramente acredita que ela aceitaria partir sem saber o que aconteceu com sua família?
- Eles estão mortos!
Kagome sufocou um gemido angustiado ao ouvir aquilo. Sem que tivesse noção de como, suas mãos cobriram seus lábios com força, sufocando as palavras que gostaria de dizer, mas as lágrimas deixaram seus olhos, deixando uma trilha úmida por suas bochechas.
- Você não sabe disso! Eu não sei disso e passei os últimos dias conversando com todas as pessoas que conheço. Você não pode afirmar isso, não tem o direito de tirar a esperança dela.
- Esperança, Miroku, é para os tolos. Quando vai aprender isso?
Kagome balançou a cabeça, tentando colocar alguma ordem em seus pensamentos. As lágrimas continuavam a cair, ignorando seus esforços para que parassem. Sentiu a mão de Sangô apertar seu ombro.
- Vamos entrar. – A voz de Sangô soou baixa perto de seu ouvido, em uma tentativa de não deixar que os outros dois percebessem sua presença.
Kagome concordou com um aceno, mas não fez qualquer movimento. Uma parte de si queria sair correndo dali, afastar-se dos dois rapazes e fingir que não escutara nada. Ela não queria acreditar na possibilidade de que sua família estivesse morta. 'Minha culpa.' Pensou, baixando a cabeça e apertando com mais força as mãos contra os lábios, abafando os sons dos soluços que ameaçavam denunciar sua presença.
- O que nos resta além disso? – Miroku perguntou.
- Acho que você está certo. - InuYasha riu, dando-se por vencido. – Mas se quer minha opinião, vocês não deveriam depositar sua esperança, se isso é tudo que lhes resta, em um hanyou cego.
- InuYasha!
Kagome ouviu a voz de Sangô, alta demais, mas não foi por essa razão que sentiu seu corpo se mover, livrou-se do toque de Sangô e aproximou-se do hanyou sem hesitar. InuYasha não parecia assustado com a presença da outra garota, provavelmente as ouvira desde o momento que pisaram na varanda.
- Não deveria ficar ouvindo escondida se não quer... – InuYasha parou de falar quando ela tocou seu rosto.
Lágrimas deixavam seus olhos com mais abundancia agora que ela não mais tentava contê-las. Kagome piscou, tentando se livrar da umidade que nublava sua visão. Lembrou-se das cicatrizes que vira no dia que entrara no quarto dele, pequenas marcas que cobriam a pele pálida perto dos olhos dourados.
- Sua visão... – A voz de Kagome soou fraca, e ela teve que fazer uma pausa para conseguir continuar enquanto seus dedos traçavam as marcas no rosto dele. – Esse foi o preço que pagou por tentar proteger alguém?
Ela o viu fechar os olhos, parecendo lutar consigo mesmo. Podia sentir sua dor e frustração de maneira quase insuportável, ameaçando sufocá-la pela intensidade ao se misturar com sua própria dor. Deslizou os dedos o mais delicadamente que conseguiu, enquanto tentava manter-se em pé sem buscar o apoio do corpo dele.
- Não, - Ele segurou sua mão e afastou-a de seu rosto com uma delicadeza que a surpreendeu. - esse foi o preço que paguei por falhar.
Kagome fechou os olhos quando ele soltou sua mão, tentando continuar em pé. Sentiu suas pernas amolecerem e caiu de joelhos, sem forças. Sentiu sua cabeça rodar enquanto imagens desconexas apareciam a sua frente.
A imagem de uma mulher de meia idade apareceu à sua frente. Longos cabelos escuros e feições que lembravam as suas no rosto delicado que demonstrava cansaço. Ela parecia frágil, quase como se pudesse simplesmente parar de existir se alguém assim o desejasse.
- Kikyou?
A mulher se virou na direção da voz, e Kagome viu InuYasha se aproximar dela. Parecia igual ao que se lembrava de ver, exceto pela franja mais curta e a pele livre de cicatrizes.
- Só mais um pouco, InuYasha.
Kagome sentiu sua garganta fechar, quase impedindo-a de respirar por um segundo. Piscou, tentando se concentrar em respirar.
- Você sabe que não foi isso o que combinamos. – InuYasha ralhou, sem deixar de sorrir. – Está esfriando, vamos entrar.
Kagome piscou, erguendo a cabeça para observar o casal. Percebeu o carinho nos movimentos de InuYasha quando ele arrumou o xale sobre os ombros de Kikyou.
- Apenas mais alguns minutos, InuYasha. – A mulher protestou. – Não farão diferença.
- Você deveria descansar ou não vai servir para nada amanhã.
Kagome deu um passo na direção dos dois, atraída pelo que podia ver nos olhos dourados. Tão diferentes do que vira a poucos minutos atrás. Tão cheios de vida, felicidade e esperança.
- Não fará diferença. – Kikyou insistiu.
- Você que sabe, - InuYasha deu de ombros. - se desmaiar de exaustão vou aproveitar e tirá-la da cidade.
- Você não pode fazer isso! – Kikyou se virou para abraçá-lo. – Fez uma promessa.
Kagome sentiu todo o ar deixar seus pulmões pela segunda vez naqueles poucos minutos. Ele não tinha lhe dito algo parecido? Que a ajudaria porque tinham feito uma promessa? 'Até a morte.'
- Eu sei, mas—
- Nada de 'mas', InuYasha, você fez uma promessa. – Kikyou insistiu naquela voz doce e forte que Kagome suspeitava que InuYasha nunca conseguiria resistir. – É a última vez.
- Se algo der errado, Kikyou...
- Nada vai dar errado. – Kikyou sorriu. – É a ultima vez, InuYasha, e essa é a minha promessa para você.
Cobriu o rosto com as mãos, lutando para respirar enquanto a cena se desfazia a sua frente. Podia ouvir a voz de Sangô chamando seu nome, e mãos fortes que a chacoalhavam quase gentilmente que só podiam pertencer a Miroku.
- Pare de chorar. - A voz de InuYasha a despertou, fazendo-a perceber seu engano. – Respire.
Kagome baixou as mãos com dificuldade, piscando para conseguir se livrar das lágrimas. Esfregou os olhos com dificuldade uma vez que InuYasha a segurar seus braços, parecendo preocupado que ela caísse se a soltasse. Baseando-se na fraqueza que sentia, ele talvez estivesse certo.
- Estou... Bem. – Falou com dificuldade, tentando acalmá-lo. – Eu...
- Não preciso de explicação. – Ele a cortou. – Apenas respire.
A garota concordou com um aceno, percebendo quase que instantaneamente como aquilo era inútil já que ele não podia ver. Mais lágrimas acompanharam tal pensamento, e ela afundou o rosto no peito dele, abraçando-o com força.
- Eu vi—
- Eu sei o que você viu. – InuYasha a interrompeu novamente.
- Como? – Conseguiu perguntar, a voz abafada uma vez que ainda não conseguira se afastar do hanyou.
- Apenas sei. – Ele a tomou nos braços, levantando-se. Ao que parecia, desistira de esperar que ela se acalmasse a ponto de conseguir andar sozinha. – Vá na frente, Sangô.
- InuYasha, eu posso—
- Saia da minha frente, Miroku. – InuYasha falou entre-dentes, sendo obedecido. Respirou fundo, abraçando a garota com mais força contra seu peito e seguiu o som dos passos de Sangô para casa.
Kagome fechou os olhos, deitando a cabeça no peito do hanyou. Talvez devesse ter medo que ele a derrubasse ou acabasse caindo pelo caminho. A lógica lhe dizia que não era uma boa idéia deixar que um hanyou cego a levasse no colo. Entreabriu os olhos e sorriu para a escuridão. Ou talvez essa fosse a maneira mais segura, ele devia estar muito mais acostumado com a escuridão do que ela.
No momento que entraram na sala iluminada, Kagome fechou os olhos, sentindo o movimento suave dos passos de InuYasha acalmá-la.
- Ela sabia, InuYasha.
Kagome sentiu o corpo dele retesar com suas palavras, sentindo-se muito cansada para tentar consertar o que dissera.
- O quê?
- Kikyou sabia que ia morrer. – Sua voz soou mole e baixa, e ela não conseguiu mais manter os olhos abertos. – Ela só não se importava, desde que você sobrevivesse.
oOoOoOoOoOo
InuYasha rosnou ao ouvir os passos dentro do quarto, ajeitou-se no lugar em que se encontrava e falou entre dentes, sem se dar ao trabalho de abrir os olhos.
- Pela última vez, Sangô... – Sua mão apertou o punho da espada quase inconscientemente enquanto tentava manter a voz baixa para não acordar a garota adormecida na cama – Eu não preciso conversar com ninguém.
- Podia pelo menos ir comigo até a cozinha e comer algo. – Sangô respondeu, sem demonstrar surpresa por ele ter notado sua presença quando não dera mais que dois passos dentro do quarto.
- E suportar você tentando arrancar algo de mim novamente? – InuYasha suspirou. – Não, obrigado.
- Pretende jejuar até que ela acorde?
- Não, só até que você desista de tentar puxar conversa.
- Eu só quero saber—
- Vai continuar querendo. – Ele colocou a espada no chão a seu lado. – Apenas me deixe em paz.
InuYasha esperou em silencio que a garota continuasse falando, mas depois de algum tempo Sangô apenas deu meia volta e ele pode ouvir seus passos se afastando no corredor. Baixou a cabeça, esfregando os olhos. O que havia de errado com ele? Depois de tanto tempo já devia ter aprendido a ignorar aquela incomoda sensação sempre que ouvia o nome de Kikyou, ou qualquer pedaço de informação novo sobre o que tinha acontecido.
Virou a cabeça na direção da cama, desejando mais do que nunca poder ver a garota ali deitada. Tinha se acostumado com o pequeno detalhe incomodo de não poder mais enxergar, dizendo a si mesmo que era um pequeno castigo por não ter conseguido proteger Kikyou. Por ter sobrevivido quando ela não conseguira. A sensação de culpa que sentia seria muito pior se tivesse saído completamente ileso.
'Kikyou sabia que ia morrer. Ela apenas não se importava, desde que você sobrevivesse.'
As palavras de Kagome se repetiam em seus ouvidos, e uma parte dele dizia que isso deveria lhe trazer algum conforto, mas não era o que acontecia. Só fazia a sensação de culpa aumentar a cada vez mais. No fundo ele sempre soubera que Kikyou se sacrificaria por todos, ela nunca seria totalmente sua. Sempre existia aquela necessidade de proteger alguém, sem se preocupar com que lhe acontecia. Ele a vira definhar por anos, desde que escapara de Naraku, enquanto continuava usando seus poderes para tentar impedir que outra jovem garota tivesse o mesmo destino que ela. Que fosse obrigada a carregar a culpa por destruir tantas vidas.
Era a forma de Kikyou se redimir, até mesmo com ele.
- InuYasha? – A voz de Miroku o irritou.
- Eu já falei que não quero comer nada. – O hanyou respondeu mal humorado. – Por que é tão difícil de entender?
- Eu só trouxe seu prato. – Miroku falou, aproximando-se e deixando o prato ao lado do hanyou. – Vou manter Sangô longe de você até amanhã.
InuYasha ficou em silencio, enquanto Miroku levantava e começava a se afastar. Suspirou, desistindo de se manter calado:
- Miroku?
- Sim?
- Não vai perguntar nada? Apenas manter Sangô longe?
- Estranho, não é? – Miroku sorriu. – Vamos dizer que penso da seguinte forma: Se falar conosco fosse ajudar você de alguma forma, você já teria falado.
- Obrigado... Acho.
- Boa noite, InuYasha.
- Boa noite. – Ele murmurou, esperando o outro rapaz deixar o quarto antes de pegar o prato a seu lado e começar a comer.
Miroku tinha razão, conversar não seria o suficiente para fazê-lo se sentir melhor. Ao menos não com nenhum dos dois. Sangô não conseguiria entender se ele lhe dissesse o que Kagome havia lhe dito enquanto entravam na casa, provavelmente nem mesmo acreditaria que Kikyou soubesse que morreria naquele dia e tentara apenas protegê-lo.
InuYasha tocou o próprio rosto, sentindo as cicatrizes que cobriam sua pele. Ele mesmo encontrava dificuldade em acreditar que aquilo fora proposital, sempre imaginara, assim como Sangô, que Kikyou estava apenas fraca demais e cometera um erro ao feri-lo. Kikyou sempre soubera que ele se sentiria culpado se não conseguisse protegê-la, sabia como era importante para ele, mais do que todas aquelas pessoas que ele aceitava ajudar apenas porque sabia que isso faria sua própria culpa diminuir. Ela sabia que ele carregaria o mesmo peso se ela morresse e ele sobrevivesse sem nenhum ferimento.
Balançou a cabeça, afastando tais pensamentos. Não. Ninguém poderia ajudá-lo ou entendê-lo quando ele mesmo não conseguia fazer com que suas lembranças e mais aquela pequena informação fizessem sentido juntos.
Ele precisava de Kagome. Precisava que ela lhe contasse mais coisas, que ela conseguisse lhe explicar como aquilo era possível. Ele precisava que ela o ajudasse a entender. Ironicamente, ele sabia quase com total certeza que quando a garota acordasse não se lembraria de nada. Sempre fora assim com Kikyou, os pequenos fragmentos de informação que ela obtinha daquela forma desapareciam assim que ela adormecia.
Baixou o prato até o chão e passou as mãos pelos cabelos, frustrado demais consigo mesmo. Por sua falta de capacidade de entender todos os acontecimentos. Por deixar que outra pessoa fosse necessária novamente em sua vida.
- InuYasha?
O hanyou levantou a cabeça, virando-se na direção da cama ao reconhecer a voz de Kagome. Por alguns segundos pensou que ela finalmente tivesse acordado. Ficou de joelhos ao se aproximar da cama, e só então percebeu, a respiração agitada da garota enquanto ela se debatia na cama. Pela segunda vez naquela noite, xingou a cegueira que o impedia de perceber algo tão simples mais rápido.
Ignorando a parte de si que lhe dizia que ela podia feri-lo novamente, ele sentou na cama, segurando os braços delicados e chamando seu nome.
oOoOoOoOoOo
Kagome reconheceu o templo quase que instantaneamente. Levou mais tempo que o normal para perceber que estava sonhando novamente, provavelmente porque aquele pesadelo não mais a assombrara desde aquela noite que contara sobre ele para InuYasha.
Pela primeira vez se encontrava sozinha e tudo a sua volta estava como se lembrava. Inteiro, o jardim que sua mãe tanto gostava bem cuidado e perfeito. Chegou a ouvir o riso do irmão soando no interior da casa e isso a acalmou enquanto aproximava-se da janela e espiava seu interior.
Sentiu parte do peso em seu peito diminuir e pela primeira vez em muito tempo ela conseguiu respirar normalmente. Encostou a mão no vidro, sorrindo ao reconhecer o avô sentado em sua poltrona preferida cochilando, parecendo ignorar o som do riso de Souta e a voz da filha.
Kagome sorriu, sua família estava bem. Segura.
A sensação de paz e segurança a envolveu, e ela relaxou, ainda observando o interior da casa, sem coragem para entrar e se juntar a eles. Tinha medo que sua presença fosse o suficiente para estragar a perfeição do quadro a sua frente. Sentiu a brisa suave acariciar seu rosto, movendo algumas mechas de seu cabelo e simplesmente permaneceu ali, observando-os em silencio, com a certeza de que eles estavam muito melhor sem ela.
- O que está disposta a fazer para que isso seja real, Kagome?
A garota virou-se na direção da voz quando a perfeição do quadro a sua frente desaparecia. Ela se encolheu ao reconhecer a figura de Naraku, esperando que o cenário a sua volta se transformasse nas ruínas conhecidas do seu costumeiro pesadelo.
- Não é real. – Kagome disse para si mesma.
- Talvez não ainda, mas você está disposta a arriscar? - Naraku sorriu, dando um passo em sua direção. – Estou disposto a deixá-los em paz se você voltar.
Kagome fechou os olhos quando sentiu a mão dele tocar seu rosto. A brisa suave de poucos minutos atrás rapidamente adquirindo força. Sentiu suas roupas colarem em seu corpo e pequenos grãos de areia arranharem sua pele.
- Não é real. – Ela repetiu, afastando-se do toque indesejado. – Você não é real.
- Tem certeza?
Kagome abriu os olhos e o cenário a sua volta havia mudado como ela esperava que acontecesse, mas ao invés de se encontrar no templo destruído, ela se viu na frente da casa que dividia com InuYasha e os outros desde que fugira de Naraku. Sua respiração falhou ao perceber as paredes chamuscadas e a porta da frente caída dentro da casa.
- Não! – A garota gritou, entrando na casa, encontrando os móveis revirados. Seu coração acelerou quando ela reconheceu duas pessoas caídas no chão, os olhos abertos sem vida. – Sangô... – Ela fechou os olhos, tentando barrar a imagem da outra garota. – Não é real. – Repetiu novamente, mas não conseguiu convencer a si mesma dessa vez quando sua própria voz soou sem força.
- Qual deles você quer salvar, Kagome?
Ela ignorou a voz de Naraku ou sua proximidade indesejada. Não tentou se livrar de seu toque dessa vez quando ele a abraçou, forçando a virar-se na direção da entrada.
- Abra os olhos.
Kagome balançou a cabeça, tentando se livrar da mão dele apertando seu pescoço, forçando-a a encarar o exterior da casa. Conseguiu manter os olhos fechados e ignorar a ordem de Naraku até ouvir o som de espadas e a voz de InuYasha. Naquelas ultimas semanas se acostumara com aquele som todas as tardes quando ele treinava com Miroku no jardim.
- InuYasha?
Sabendo que era um erro ela abriu os olhos, ainda sentindo Naraku segurando-a, impedindo-a de correr para o hanyou que lutava no jardim. Sentiu sua garganta se fechar quando o viu ser ferido. Tentou gritar, mas percebeu que sua voz desaparecera, ouviu o riso de Naraku as suas costas enquanto ele a mantinha presa. Como sempre forçando-a a observar as pessoas morrendo por sua culpa, incapaz de fazer qualquer coisa para salvá-las.
- Não... – Sua voz soou fraca e angustiada, seu peito apertando a cada golpe que atingia o hanyou.
- Ainda acha que não é real? – Naraku a empurrou para fora, e ela conseguiu reconhecer a pessoa que lutava com InuYasha.
- Não pode ser. – Ela murmurou, observando a camiseta do hanyou cortada em vários pontos, o sangue escorrendo por seus braços enquanto ele continuava lutando com o outro homem. – Deixe ele em paz! – Kagome gritou quando outro golpe acertou o hanyou, provocando mais um corte em seu peito. – Deixe ele paz! – Ela repetiu mais alto dessa vez, lutando com todas as forças para se libertar dos braços de Naraku. - InuYasha!
Kagome sorriu quando conseguiu finalmente se soltar e correu na direção do hanyou que ouvindo sua voz, virara-se na direção de sua voz. Foi quando ela percebeu seu erro, aproveitando-se da distração que ela proporcionara, Naraku acertou InuYasha.
- Não! – Kagome caiu no chão de joelhos quando viu a espada trespassar o corpo do hanyou. – Não. Não. Não. – Ela repetiu, arrastando-se até ele, sem forças para levantar, viu-o cair a sua frente, sangue deixando seus lábios, quando Naraku puxou a espada de para fora de seu corpo, fazendo com que mais sangue deixasse o ferimento. – InuYasha... – Kagome chamou, parando a seu lado. – Não morra. – Implorou, tocando o rosto do hanyou delicadamente. – InuYasha?
Fechou os olhos, inclinando-se sobre o corpo dele quando as lágrimas a impediram de enxergar. Sentiu quando ele parou de respirar e o apertou com força, contra si.
- Não é real. Não é real. – Murmurou para si mesma novamente. – Não pode ser...
Naraku ajoelhou-se a sua frente, e forçou-a a levantar a cabeça e fitá-lo. Sorriu daquele jeito detestável e vitorioso.
- Sua família. Seus amigos. Ele. – Naraku apontou InuYasha. – A morte deles será sua culpa.
- Não!
oOoOoOoOoOo
Kagome acordou assustada, sem conseguir respirar, as lágrimas ainda deixando sua visão turva. Piscou, sentindo o aperto em seus ombros e por um momento lutou para se livrar delas e conseguir se mover.
- Acorde, Kagome.
A voz de InuYasha soou em seus ouvidos e ela conseguiu respirar. Ainda sem conseguir falar ela apenas o abraçou com força, enterrando o rosto em seu peito. Surpresa quando o hanyou retribuiu o abraço.
- Está tudo bem, foi só um sonho.
- InuYasha... – A voz dela soou abafada enquanto ela continuou a abraçá-lo. – Você está vivo...
- Sim... – Ele respondeu lentamente, ainda a abraçando. – Está tudo bem. Você está segura.
- Não, não está. – Kagome soluçou, sem conseguir controlar as lágrimas. – Ninguém está seguro... Nem mesmo aqui.
