Capítulo 11
13 de Setembro
Isabella
- Eu realmente não entendo essa sua relutância em ir para minha casa.
Engoli em seco quando Edward colocou sua observação em voz alta. Eu sabia que o vampiro já havia percebido minha apreensão quando ele tocava no assunto. Mas eu apenas mentia para ele.
- Quero ficar apenas com você Edward, na sua casa tem muitos ouvidos poderosos.
Ele riu das minhas palavras e abriu a porta do carro para mim. Eu entrei no Volvo prateado e em menos de um segundo escutava o barulho do ronco do motor. Edward dirigia rapidamente e em silêncio pelas ruas de Forks. Estávamos indo para a escola, chovia muito e o vidro do carro estava embaçado, me impedindo de ver onde estávamos. Eu agradecia todo dia mentalmente pelas aulas terem recomeçado, tirando-me da prisão de casa.
Mas a prisão que eu mais queria fugir, eu não conseguia. Era a prisão interior. Desde o ocorrido com aquele maldito vampiro que eu preferia nem pensar no nome, meu namoro com Edward era baseado em mentiras e fantasias. Eu sempre dava desculpas para não ir à sua casa, e para minha sorte, Edward preferia assim. Evitava conversar com Alice, eu sabia que o outro vampiro estava fazendo o combinado, porque senão minha cunhada nem estaria olhando para mim.
Mas ela sempre era carinhosa comigo, nada mudara. E se dependesse de mim, nada mudaria. Nunca. Porque eu sempre evitava pensar no seu marido, e eu sabia que se esse fato se mantivesse assim, ela nunca iria ver meu futuro em relação ao vampiro.
O carro de Edward diminuía a velocidade e já parava na vaga costumeira. Eu puxei meu capuz para a cabeça e respirei fundo antes de sair para a chuva. Ele tentava me proteger das gotas grossas, mas era inútil, e para falar a verdade, eu já estava acostumada em chegar encharcada na escola.
Ao colocar o pé dentro do corredor, Alice veio saltitando para meu lado. Eu sabia a intenção da vampira no momento que seus braços gelados me apertaram em um abraço.
- Feliz aniversário!
Eu olhei para Alice e ela sorriu, fazendo uma careta e dando de ombros. Edward passou a mão nas minhas costas. Alice abriu sua bolsa e retirou dali um embrulho colorido. Eu tentei reclamar, mas a vampira fez um gesto para me calar no mesmo momento.
- Eu sei. Nada de presentes. Mas não resisti, e adivinha? Você vai amar!
Sorri para a vampira e corri meus olhos pelo corredor. Não havia quase ninguém passando, então eu aproveitei o momento para abrir o embrulho. Ela pegou o papel da minha mão, e restou apenas um tecido preto. Eu peguei o tecido macio e levantei, para descobrir que havia ganhado um vestido. Lindo. Maravilhoso.
Alice deu saltinhos de excitação quando viu o brilho nos meus olhos. O vestido era lindo, mas eu realmente não sabia onde poderia usar algo tão fino em Forks. Ela percebeu quando meu corpo murchou ao chegar àquela conclusão.
- O que foi?
Pegar Alice desprevenida era difícil, mas a vampira parecia surpresa com minha reação. Acho que ela estava pensando que eu não tinha gostado do presente. Tratei de desfazer o mal entendido.
- Alice, é lindo! Obrigada... mas... onde vou usá-lo?
Seu sorriso perfeito se alargou e eu não entendi o motivo. Ela olhou para Edward e ele agora sorria. Um sorriso cúmplice. Eu odiava quando os dois faziam isso.
- Eu já escolhi. Iremos fazer uma festa de aniversário. E não adianta reclamar. Já organizei tudo.
Antes de eu abrir a boca para reclamar, ela já havia devolvido o embrulho a Edward e saía alegre pelo corredor.
- Vejo vocês às oito!
Tranquei meu maxilar. Eu odiava festas. Principalmente se a festa fosse para mim. E eu sabia que Alice era incontrolável quando se tratava disso. O vampiro ao meu lado ria, eu olhei severamente para ele, jogando o vestido no seu rosto e andando pelo corredor. Edward me acompanhou sem dificuldade, guardando o presente no embrulho.
- Muito engraçado.
Ele continuava a sorrir, abriu a porta para mim. Todos os alunos já estavam sentados. O professor já escrevia algo no quadro e eu me sentei no lugar de sempre, seguida por Edward ao meu lado.
- Você não pode fugir de Alice, Bella.
Eu concordei com Edward, mas não olhei para o vampiro. Ele continuava a me fitar, mas eu sabia que meus pensamentos estavam seguros no momento. Pensamento melhor no assunto, minha apreensão não era a de ter uma festa só para mim e ser apenas eu o centro das atenções. Minha apreensão era de reencontrar pela primeira vez o marido de Alice, o vampiro que por dias e dias, eu evitara encontrar, e estava tendo sucesso, se não fosse pela intromissão dos dois irmãos cúmplices.
Alice me pagaria por tudo.
- Você está linda, Bells!
Charlie me elogiou ao me ver descer as escadas e eu corei. Eu realmente estava diferente, considerando que eu nunca havia usado um vestido de marca e de bom gosto igual ao que Alice me dera.
- Obrigada, pai.
Ele sorriu para mim, escutei a buzina particular do carro de Edward e Charlie revirou os olhos demonstrando falta de paciência. Ele não gostava de Edward. Não depois de ele ter sido o motivo de sua filha sumir por dias. Isso ele havia concluído. Meu plano não fora tão bom, e eu não conseguia dar desculpas boas igual Esme e Alice faziam. Parecia que mentir e convencer eram um dom que apenas vampiros possuíam.
Ele sorriu para mim logo depois e caminhou em direção a sala, ligando a TV e deitando-se no sofá. Eu sabia que esse era o modo de Charlie dizer "divirta-se". Dei de ombros e abri a porta.
Edward me esperava ao lado do carro, sorriu quando eu caminhei em direção a ele e pegou minha mão, depositando um beijo de leve. Abriu a porta do carro para mim e eu entrei. Ele entrou logo em seguida. Já havia me acostumado com sua rapidez.
- Você está linda.
Sorri para ele, corando rapidamente.
- Obrigada.
Ele não desviou os olhos dourados do meu, mas dirigia muito rápido. Senti o pequeno solavanco do carro e deduzi que já entrávamos nos arredores da casa dos Cullen. Eu torci meus dedos e minhas mãos suavam. Um leve tremor passou pelo meu corpo quando a casa branca ficou visível. Tanto trabalho jogado fora...
Eu realmente não queria entrar lá.
- Você está bem?
Não.
- Sim.
Edward saiu do carro e abriu a porta, pegando minha mão e conduzindo-me para a casa. Subi a escada e uma luz ficou mais forte. Ele abriu a porta da entrada. Quatro vampiros estavam me esperando. Carlisle com Esme, Rosalie e Alice.
Respirei fundo quando me dei conta de que o vampiro que eu não queria ver não estava presente. Agradeci mentalmente que ele tivesse senso em uma hora dessas. Carlisle caminhou na minha direção, seguido por Esme. Ambos me abraçaram e me desejaram um feliz aniversário, me entregando um pacote. Eu olhei um pouco sem graça para meus sogros, mas agradeci e comecei a abrir o pequeno presente. Era um cordão de ouro, um pingente em forma de estrela se destacava. Olhei para os dois vampiros, que agora sorriam ao ver minha surpresa.
- Carlisle, Esme... não precisava...
O sorriso de Carlisle se alargou.
- Você é como uma filha para nós, Bella.
Abaixei a cabeça, sem palavras para responder algo. Alice saltitou até mim e me entregou outro embrulho. Eu o peguei. Era leve. Curiosamente o sacudi, mas esse não produziu nenhum som. Olhei para Alice, indagando-a. Ela sorriu.
- Emmett e Jasper já estão instalando na sua picape. Voltam daqui alguns minutos.
O quê? Emmett e... Jasper estão na minha picape, que está perigosamente estacionada na minha casa, perto de Charlie? Eu realmente não acreditava nisso, meu pai poderia vê-los! Olhei para Alice, incrédula. Mas seus olhos estavam voltados para outro canto da sala, acompanhei seu olhar e vi dois vampiros entrando pela porta.
Um era gigantesco e com cabelos curtos e pretos. O outro era alto e leonino. O outro, no caso, era o vampiro que eu havia evitado por dias, o vampiro que tinha acabado com minha consciência e minha paz interior. O outro era Jasper.
Emmett correu na minha direção e me apertou em um forte abraço de urso. Minhas costelas doeram.
- Emmett... humana... respirar.
Ele me soltou e eu inspirei uma grande quantidade de ar.
- Feliz aniversário, Bella! Você vai amar o som novo que acabou de ganhar.
Fiz uma careta para Emmett, arqueando as sobrancelhas.
- Feliz aniversário, Isabella.
A voz de Jasper chegou aos meus ouvidos, sussurrada e maliciosa. A mesma voz que havia me atormentado nos meus sonhos. A mesma voz que havia me falado frases obscenas enquanto o vampiro estava dentro de mim. Eu me virei para ele e acenei com a cabeça. Jasper não estava perto, mas eu conseguia ver seu sorriso, as covinhas aparecendo. Merda, quando a festa ia acabar mesmo?
De repente Rosalie estava na minha frente, ela não me disse nada, apenas entregou o embrulho que estava em suas mãos e caminhou em direção a Emmett, ficando ao lado do companheiro. Eu sorri inutilmente para a vampira, sabendo que meu gesto não iria ser retribuído. Peguei o embrulho rosa e retangular, e comecei a abrir.
Mas ele estava muito bem embrulhado. Fiz força para rasgar o papel, mas algo fincou no meu dedo e eu senti a pele queimar. Levantei o dedo para ver o corte, quando uma fina gota de sangue saiu, caindo e manchando o tapete de cor bege da sala.
Olhei em volta de onde estava. Seis pares de olhos negros me fitavam, apenas Carlisle permanecia de olhos dourados, mas o que mais me chocou, não foi a onda repentina de sede que eu havia proporcionado à família. O que mais me chocou, foi a rapidez que Edward estava na minha frente, arqueado como um felino prestes a atacar alguém. Eu olhei mais atentamente e Jasper me fitava como se eu fosse um pedaço de... comida?
E tudo aconteceu rápido demais. O vampiro loiro avançou em velocidade de vampiro, era apenas um borrão. Senti uma mão fria e dura espalmar meu estômago e me arremessar para longe, no mesmo momento que escutava um barulho de algo quebrando. Olhei em volta novamente e Jasper estava estatelado no piano de Edward, que agora estava destroçado devido ao peso do vampiro.
Engoli em seco quando um cheiro forte e conhecido chegou ao meu nariz. O cheiro de sangue, metálico e detestável. Olhei para meu braço, alguns cacos de vidro fino estavam enterrados na minha pele, filetes de sangue saíam pelos cortes. Edward havia me jogado em cima de um aparador de vidro.
Minha visão começou a ficar embaçada e meu corpo amoleceu com o cheiro. Acalme-se, Bella, você não pode desmaiar agora. Meus olhos se abriram rapidamente quando escutei um rosnado selvagem. O dono do som gutural agora estava sendo contido por seis braços de vampiros. Emmett abraçava Jasper pela cintura e o empurrava para trás. Rosalie pegava o braço direito do vampiro enquanto Alice cuidava do esquerdo.
Jasper me olhava com olhos negros e ferozes. Parecia um leão com fome, e eu era seu pedaço de carne, seu alimento preferido. Jasper parecia... um vampiro. De verdade. Pela primeira vez eu tive medo do ser que estava à minha frente.
- Tire Jasper daqui!
A voz de Carlisle me tirou do meu estado de choque ao ver a cena. Emmett apenas empurrou o irmão para fora da casa. Carlisle voou na minha direção, correndo os olhos pelos ferimentos que agora doíam. O efeito da adrenalina já havia passado e eu já poderia pedir por analgésicos.
- Vá com Esme para onde Jasper está, Edward. Ele só vai ouvir você.
- Eu não vou sair do lado de Bella.
Os olhos de Edward estavam negros e eu sabia que meu namorado não estava respirando. Carlisle olhou severamente para o filho.
- Isso não é um pedido, Edward. Vá!
Ele quase gritou. Surpreendi-me que Carlisle pudesse ser autoritário a esse ponto. Edward fez uma careta de dor, mas antes que eu pudesse falar que tudo ficaria bem, o vampiro já havia deixado a sala com a mãe adotiva.
Suspirei fundo e senti o cheiro de sangue. Carlisle apertou meu braço, fazendo-o doer mais.
- Onde dói?
Eu apontei os lugares onde havia mais sangue, não conseguindo raciocinar direito sobre tudo o que havia acontecido, ele desapareceu por um segundo e voltou com uma maleta branca. Retirou dali uma pinça de tamanho anormal e um frasco.
Carlisle começou a tirar os cacos de vidro que haviam entrado fundo na minha pele, depositando o líquido no corte, que ardeu e doeu. A sala dos Cullen foi preenchida com meus gritos.
- Pare com isso, Edward!
O vampiro dirigia o Volvo calado, olhando para a rua sem motivo nenhum, ele não precisava olhar para onde guiava o carro para saber onde estava indo. A tensão dentro do carro era desconcertante. Meus dois braços estavam enfaixados e alguns pontos da pele ainda ardiam e pinicavam. Mas eu nunca falaria isso para ele. Edward já estava se punindo demais.
Por sorte Carlisle havia me dito que não ficaria cicatriz. Eu havia colocado o casaco jeans de Edward para Charlie não ver as faixas caso ainda estivesse acordado. Eu estava agradecendo mentalmente que não ficaria com os braços marcados quando Edward diminuiu a velocidade e eu percebi que estávamos chegando à minha casa.
Engoli em seco quando o vampiro abriu a porta do carro, esperando-me caminhar até a entrada. Ele permanecia atrás de mim, cauteloso, quieto e calado. Destranquei a porta e olhei para ele.
- Te vejo daqui a pouco?
Ele olhou para o chão, antes de tornar a olhar para mim. Os olhos passando preocupação e pesar. Os mesmos olhos que eu havia fitado depois do incidente da clareira. Eu odiava aquele olhar.
- Hoje não. Preciso resolver alguns assuntos.
Eu apenas assenti. Edward me deu um beijo rápido na testa e segundos depois, seu Volvo prata pegava a estrada à esquerda. Meus olhos se encheram de lágrimas ao perceber que eu não teria sua companhia à noite.
Abri a porta de entrada e caminhei para dentro de casa, trancando-a logo em seguida. Charlie acordou com o barulho. Ele já estava de pijamas, mas se levantou zonzo do sofá quando eu cheguei.
- Foi bom lá?
Assenti para ele e dei um sorriso forçado. Para ele foi o suficiente. Desejou-me boa noite e subiu as escadas tropeçando de sono. Minha sorte foi essa, o sono de Charlie havia me dado sossego e impedido meu pai de fazer mais perguntas. Mais dois segundos me olhando e ele perceberia que algo havia dado errado.
Subi as escadas e caminhei em direção ao meu quarto. A janela estava aberta, e eu a mantive assim, na esperança de que Edward aparecesse mais tarde e desistisse da idéia idiota de ficar chateado por algo que era natural.
Deitei-me na cama, não me preocupando em tirar as roupas. Fechei os olhos tentando dormir, mas as únicas imagens que pairavam na minha mente, eram as de um par de olhos negros famintos e selvagens me olhando. Eu já havia visto Jasper faminto, mas o motivo agora fora outro, ele desejava meu sangue, assim como qualquer ser normal da sua espécie desejava.
Estremeci e apertei meus olhos, impedindo as lágrimas de caírem, mas era inevitável. Deus, o que mais poderia acontecer comigo?
