Bastou ouvir o som oco de a porta bater em sua frente, para a dúvida voltar a povoar a mente de House. Droga, porque ele não poderia ser como os outros homens? Seria mais fácil fazer como todo mundo faz, deixar-se guiar pelas emoções, mas ele acreditava ser melhor que isso...Ele sabia que no final das contas, só o que é milimetricamente racionalizado deveria ser feito.

Hell, vai ver não era nada disto, e ele não passava de um velho infeliz, punindo-se pelos erros que um dia cometeu.

Sem conseguir conter toda a exaltação que aquela visita o havia causado, House vestiu uma jaqueta enquanto pegava as chaves da moto, e saiu pelas ruas de Princeton, cujo ar noturno ainda exalava o vômito de cerveja dos jovens infelizes. Aproximando-se da Nassau Street, onde o ar soprava limpo e aconchegante sobre as folhas caídas que cobriam mais da metade do solo, ele reduziu a velocidade para poder observar o mundo em movimento ao seu redor. Era um dia de semana qualquer, por isso, os únicos a habitar a rua eram alguns idosos - que rapidamente ele supôs estarem retornando de um clube de strip-tease -, e um casal de namorados, que trocavam carícias em meio a gargalhadas. Enquanto observava-os, ele pensava se queria realmente envelhecer pagando pelo prazer mesmo sendo incapaz de sentir algo, ou tê-la em seus braços por alguns minutos de felicidade, mesmo que isso viesse a custar muito caro futuramente.

Foi entre estes e outros pensamentos que House parou em frente à casa de sua chefa e ex-amante. Ele não sabia ao certo se aquilo era algo bom ou ruim, mas estava disposto a apostar todas as fichas em um futuro incerto ao lado daquela mulher que minutos atrás, ele havia feito chorar.

Batendo a sua bengala contra a porta, House suspirou a espera que Cuddy o viesse atender. Por mais que desejasse entrar em contato com a Rachel, ele não queria acordá-la. Não naquele momento.

Apreensivo, ele viu uma Lisa Cuddy com olhos inchados e momentaneamente atordoados surgir a sua frente. De certo ela não esperava tê-lo em sua porta tão cedo.

- Olha, você pode ser feliz com o 'torradinho', ou ser infeliz ao meu lado. – House fez uma pausa, refletindo por alguns segundos – Então seremos dois infelizes e uma monstrinha. Mas veja, você vai poder se deliciar da minha sutil beleza todos os dias, e a pirralha terá um cara que a defenda dos garotos 'melequentos', que mais cedo ou mais tarde vão tentar entrar nas calças dela... Então, se você ainda quiser ser infeliz comigo, essa é a sua grande chance, cuddle-muffins.

- Você bebeu?

- Nop! – disse House, girando os calcanhares e encaminhando-se para a moto - Avise a Rachel que amanhã virei para o jantar.

Isto não estava certo. Algo em Lisa Cuddy gritava, dizendo que a última palavra deveria ser a dela, mas... O que fazer quando a voz resolve fugir?

Tão imprevisível quanto foi à chegada de House, fora a sua saída. Fechando a porta, Lisa seguiu atônita para o conforto da sua cama. Aquilo realmente havia acontecido? Esgueirando-se pelo corredor, ela jurava ser capaz de ver os acontecimentos da noite pelos reflexos dos espelhos. Cuddy estava tão exultante que pouco se importou de fazer planos para o jantar que ele havia se convidado.

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Como era de se esperar, Lisa entrou pelas portas do PPTH com um enorme sorriso no rosto. Quem ousasse prestar um pouco mais de atenção, viria que naquela manhã, ela encontrava-se mais excepcional que de costume.

Era pouco antes do horário de almoço, quando a sua sala foi invadida por certo médico manco e a sua fiel bengala.

- Preciso que você assine estes papéis, chefa.

- Preciso que você encontre uma nova equipe, House.

- Já tenho o Chase, não preciso de mais um patinho idiota.

- House, fale com o Foreman, garanto que ele estará mais que disposto a retornar.

- Pedir ao Foreman pra retornar? Pff, ele sabe o caminho do meu escritório.

- Você vai falar com ele, e não irá fazer uma cirurgia exploratória desnecessária na paciente.

- Oh c'mon. Como se não bastasse tirar a minha concentração com a Patty e Selma tentando saltar o decote, você não quer liberar o procedimento? Assim é impossível trabalhar, Drª. – disse House com o seu típico sarcasmo.

- Consiga um bom motivo para abrir a paciente, que eu assinarei.

- Yep!Acho que você tem razão. – disse House, caminhando em direção a porta – Pode deixar que trarei o motivo junto ao atestado de óbito.

- House, se você não falar com o Foreman, falo eu.

A única resposta que Lisa Cuddy adquiriu fora o som oco da porta voltando a bater. Ela não esperava nada diferente.

Mancando pelo corredor, House seguiu para o escritório de Wilson. Tanto quanto ele estava seguro sobre a decisão de ter a Cuddy de volta, ele temia não poder oferecer tudo o que ela necessita em um homem.

Entrando, ele se moveu para o sofá e ficou brincando com a bengala, enquanto massageava a perna que insistia em doer.

Inicialmente Wilson ignorou-o, continuando a assinar alguns relatórios, até que o silêncio realmente incomodou-o.

- A perna dói?

- Yep.

- Você... Tomou algo?

- Nenhum vicodin, nenhuma morfina.

- Vamos lá, o que aconteceu? Não era pra você estar fazendo o trabalho na clínica? - indaga Wilson.

- Não estou com vontade, e tenho um paciente.

- House, será que podemos deixar de conversa fiada e ir direto ao assunto? Hoje cedo a Cuddy estava feliz, sendo que ontem ela foi conversar com você. Só posso supor que algo aconteceu.

- Eu... Convidei-me para jantar em sua casa hoje à noite. - suspira House.

- Só isso? - insiste o amigo.

- Eu gostaria de ter jogado-a contra a porta e feito certas coisas proibidas pra menores, mas não deu.

- Poupe-me dos detalhes.

- Não se preocupe Jimmy Boy, sempre haverá uma segunda chance.

- Será que esse jantar significa que há também uma segunda chance para vocês?

- Você percebeu o quanto a bunda da Cuddles cresceu nestes últimos anos? Aquilo é uma imoralidade. - disse House, tentando mudar o rumo daquela conversa.

- O-oquê? House, estou falando sério com você, esqueça a bunda da Cuddy.

- Sim Wilson, do que depender de mim há uma segunda chance. – disse House, tornando-se sombrio.

- Haver uma segunda chance não era suposto te deixar feliz?

- A felicidade me assusta.

- Deixe de ser tonto. Aproveite o momento.

- Quanto mais eu aproveitar, maior será a queda.

- Sinceramente? Vai ver você não a merece. Caso realmente a amasse, lutaria para que as coisas dêem certas, e não fugiria como um garotinho mimado.

Levantando a vista que anteriormente estava focada no carpete enquanto massageava a perna machucada, House sorriu - Garotos mimados não brincam no playground da cuddle-muffins, Jimmy Boy.

Vendo o amigo sair do seu escritório, Wilson sorriu vitorioso. Ele sabia que nada motiva mais o grande Dr. House que o desafio da dúvida alheia.

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Não tardou muito pra a Dean of Medicine receber um relatório com motivos cabíveis para o tal procedimento que House pretendia fazer. Junto ao documento, viera um anexo irreverente, ressaltando a falta de talento da chefa na cozinha, e informando-a que ele mesmo levaria o jantar.

Sorrindo, Lisa Cuddy recolheu os pertences e seguiu para casa excepcionalmente mais cedo, naquela tarde. Ainda era preciso conversar com Rachel, explicá-la tudo o que aconteceu nos últimos anos.