Capítulo 12
Ao sair para andar pelas ruas frias de Londres, seu desejo foi sumir. Desaparecer. Não estava dormindo bem, muitíssimo preocupado com os olhares de Syaoran e de Sakura. Matt sempre soubera que Sakura jamais o amara, porém sempre tivera aquela íntima e pequena esperança de que as coisas mudassem. Mas ao observar como ela e o detetive chinês sorriam um para o outro, ou como se olhavam, sentia-se um intruso. Tinha inveja, ciúmes, raiva.
Como era tolo! Será que nunca iria aprender que não valia a pena sofrer por quem não merecia?
Às vezes, é melhor ser feliz na mentira do que infeliz na verdade. Só agora, aquelas palavras faziam jus ao real sentido.
Observou as ruas cobertas de neve, e uma frase que seu pai lhe contara, há muitos anos, veio a sua mente. "O amor é um sentimento tolo, meu filho. Quando se apaixonar, lembre-se de minhas palavras: Cada coração é um pequeno fosso. Os apaixonados tendem a cair. E os que não amam tendem a jamais subir".
É, sabia que as palavras dele expressavam muito bem o que sentia naquele exato momento. Mas já devia ter se conformado que seu amor não era correspondido. Ficava na ilusão que algo fosse mudar tal sina, mas a tolice o cegava. Estava na hora de abrir os olhos e encarar a realidade como ela é. Sakura jamais o amaria.
Talvez, devesse partir do Candy Pleasures. Para se afastar dela. Podia ser chamado de covarde, mas fora corajoso o suficiente para lutar por Sakura durante muito tempo.
Mais tempo que seu coração podia suportar.
Virou em uma avenida bastante movimentada, estranhando que as pessoas saíssem nesse frio. Porém, ao abaixar seus olhos para o chão, algo lhe chamou a atenção.
Encolhido no chão, um corpo envolto por uma manta marrom, tremia compulsivamente. Aproximou-se e com cuidado, analisou mais meticulosamente o que se encontrava a sua frente.
"Você está bem?", perguntou com a voz gentil e cautelosa. Se sua preocupação era grande, sua precaução era ainda maior. Poderia ser um ladrão ou algo do gênero.
Viu um cacho castanho tombar da inútil proteção, enquanto o corpo se inclinava para frente, como se quisesse se esquivar de seu olhar. Depois, um suspiro foi dito e ouviu muito fracamente.
"Você... quer o mesmo que ele?".
Sem entender nada, ele ajoelhou-se em frente do que acreditava ser uma garota, pelo timbre da voz, e afirmou com doçura. "Eu não irei te machucar. Prometo".
"Hum...", ele ouviu uma risada doce e derrotada. "Ele disse a mesma coisa... e olha como eu estou...".
Irritado com aquele jogo de esconde-esconde, ele retirou o manto do corpo e seus olhos congelaram diante da garota que se encontrava a sua frente. A pele branca como a neve em que se encontravam ressaltava os belos olhos castanhos claros, que chegavam a ser mel. Os cachos, embora embaraçados, tinham uma cor única, que beirava entre loiro e ruivo suave. Lábios cheios, bochechas pálidas e o nariz repleto de delicadas sardas. Perfeita, em sua opinião. Sentiu a boca secar e por alguns minutos, permitiu-se fitar tal expressão amedrontada, tragado pela pureza daquela menina. Nenhuma mulher conseguira lhe prender a atenção por mais de alguns segundos, além de Sakura. Viu na bochecha esquerda um hematoma roxo, que não estragava sua beleza, apenas lhe realçava a fragilidade.
"Como é seu nome?".
"Por que quer saber?", a desconfiança era palpável naquelas belas íris. Deu um sorriso maroto, na intenção de aliviar o clima.
"Porque me deu vontade. Mas não precisa responder. Talvez não tenha nome".
Ela comprimiu os lábios, para depois responder. "Lógico que eu tenho nome... Mas... pode me chamar só de Nina".
Nina. Perdeu-se na doçura daquele pequeno apelido. Já era o suficiente. Tirou seu casaco do próprio corpo e pôs sobre os ombros pequenos dela, a ajudando a levantar.
"Nina, nesse frio você irá congelar! Venha comigo".
"Escute...", uma lágrima triste rolou pelo rosto de boneca. "Eu não tenho mais motivos para viver... Não preciso da sua ajuda".
"Pois eu acho que precisa", ele tocou o rosto de leve.
Um arrepio cruzou seus dedos, enquanto as bochechas dela enrubesciam consideravelmente. Afastou a mão, mas não o olhar, que ficou a fitar a face tão doce. Tinha que levá-la ao bordel. As garotas saberiam cuidar dela. E Sakura não lhe negaria o teto. Pelo menos até alguém ir a sua procura.
"Venha comigo", convidou-a mais uma vez.
"Não".
"As garotas do bordel podem te ajudar e...".
"Bordel?", a face novamente ruborizou, depois dela o interromper. "Não me diga que quer que eu seja uma... uma...".
Ele sorriu. "Não, não quero que se torne uma prostituta... Parece-me tão nova".
"Tenho 15 anos", ela ergueu o queixo delicado com orgulho.
"Hum, e tal número a torna uma mulher? Francamente, ainda nem saiu das fraldas... Teu pai deve estar preo...", viu que ela empalideceu ainda mais com a menção da palavra pai. Entendeu de pronto. "Você fugiu de casa".
"S-sim...".
"Por que você fugiu?".
Lágrimas fortes vieram aos olhos tão cristalinos. "Eu não quero... me lembrar disso....".
Logo, soluços repletos de medo tomaram o corpo delicado. Matt ficou sem reação. Que tipo de pai seria aquele que fazia uma jovem tão doce chorar daquele jeito? Fez a única coisa que passou na sua cabeça. A enlaçou com seus braços e deixou que ela desabafasse em seu peito. As pessoas que passavam estranhavam tal comportamento, mas ele sinceramente não se importou. Aquela inocência com que ela se entregava estava tocando o seu coração de maneira incrível. Mesmo que quisesse, não conseguiria se afastar envolto pelo encanto do cheiro de rosas que ela tinha. Acariciou os cabelos com seus dedos hábeis e inclinou a cabeça para dizer em seu ouvido.
"Pode confiar em mim", ela ergueu a cabeça, roçando de leve sua bochecha contra a dele e finalmente o encarando, sem notar como o gesto anterior o afetara.
"Não entendo porque me ajuda".
"Não precisa entender. Eu também não o faço. Só que a vendo assim, seria impossível abandoná-la", sorriu novamente, tentando ignorar a sensação daquele rosto próximo ao seu. "Eu me chamo Matt".
"Matt", ela deu seu primeiro sorriso genuíno. "Um dia, eu retribuirei toda a sua ajuda".
Afastou-se um pouco, enlaçando seus ombros e começando a caminhar com ela pelas ruas, em direção ao Candy Pleasures. Mas não antes de dizer, divertido. "Sorria para mim, novamente. Essa é a maior recompensa para mim".
Riu alegremente ao ver ela corar e aos poucos, abrir um sorriso também.
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Nina já ouvira falar do Candy Pleasures. Não era exatamente o assunto que a alto-sociedade debatia em festas, mas ela já ouvira sua mãe disser que o homem que entrava naquele bordel tornava-se em viciado no carinho daquelas mulheres. Ainda a ouvira dizer que as cortesãs de lá tinham a beleza mais tentadora, pois haviam sido moldadas pelo demônio. Nunca dera atenção a tais assuntos. Jamais pensaria que um dia colocaria os pés naquele 'antro de perdição', como sua mãe, Dorrie, costumava chamar.
Mas agora que estava na frente do local e que sabia que lá seria o único refúgio, não via nada de escandaloso no prédio. Era até de uma fachada simples. Apenas os letreiros vermelhos eram chamativos.
Olhou para o lado e não pôde evitar de sorrir para Matt, o belo jovem. Seu salvador. Riu de seus pensamentos infantis. Ele lhe parecia uma boa pessoa. Nenhuma das pedestres que havia passado na rua até então havia lhe oferecido nem sequer um pedaço de pão. E estava faminta.
"Não se preocupe, Nina", ele disse, tranqüilo. "Todos lá dentro são ótimas pessoas... Agora, preciso que me diga algo".
Ela assentiu.
"Quem são seus pais?".
Matt já devia ter notado, por suas roupas e pelas jóias delicadas que ela pertencia a uma família abastada. Inspirou fundo.
"Meu pai é Lorde Vicent Yates".
Percebeu que ele arregalava os olhos. Seu pai era conhecido por todos da sociedade londrina como o melhor criador de cavalo de todos os tempos. Sua fazenda, em York, era a mais bem conceituada e seus garanhões árabes já haviam ganho inúmeros prêmios. A fachada de bom cavalheiro sempre enganara há todos muito bem. Mas não Nina. Só ela e a mãe sabiam o verdadeiro monstro que Vicent realmente era.
"Ele, por algum acaso, já apareceu aí no bordel?".
Envergonhado, Matt concordou com um movimento da cabeça. Nina riu.
"Já era de se esperar", curiosa, perguntou. "E você, Matt? O que faz?".
"Eu sou pianista".
"Pianista...", repetiu. Tinha verdadeira adoração por pianos e por música em geral.
"É... e já trabalho aí faz um bom tempo".
Nina denotou uma ponta de tristeza na voz dele e na maneira como ele encarava o prédio a sua frente. Talvez ele não gostasse daquele lugar. E tinha toda razão. Matt não tinha cara de quem trabalhava num bordel.
"Vamos entrar?", ele a convidou, adquirindo novamente a expressão tranqüila.
O seguiu, sentindo-se um pouco excluída. Era um mundo novo, como ela sempre quis desvendar, mas que não lhe parecia nada excitante. Estava aterrorizada com o que pudesse vir a conhecer. Mesmo assim, quando a porta do bordel se abriu e uma luz vermelha cruzou seus olhos, ela soube que não havia mais volta.
Arregalou os olhos naquela profusão de cores. A cor rosa estava em toda a parte. O cheiro de conhaque, perfume barato e bebidas impregnavam o ar. A maioria das pessoas ignorou a entrada deles no local, mas algumas prostitutas, vestidas com roupas pequenas e indecentes aproximaram-se, curiosa.
"Quem é essa, Matt?".
"Mais uma prostituta?".
Iria responder, mas o pianista sorriu para elas e perguntou. "Onde está Sakura?".
"Ah...", uma suspirou, parecendo frustrada. "No quarto, com a filha e com o chinês. Os três não se desgrudam mais".
Nina viu Matt ficar novamente triste. E revirando ainda mais sua memória, também já ouvira falar de Sakura. Era filha de Kelly, considerada por todos os homens a mulher mais bonita de Londres, mas que viera a falecer. Deveria ser uma belíssima jovem. Analisou o que a prostituta havia falado e encarou o rapaz ao seu lado. "Matt... ela tem uma filha?".
"Tem sim", ele parecia-lhe muito distante e pensativo.
"Mas... uma prostituta... uma filha... como pode ser isso...?".
"Bem", Matt finalmente pareceu voltar a realidade. "É uma longa história".
E que ele não parecia disposto a contar. Não podia culpá-lo. Ela mesma não queria falar nada sobre ela. Já dissera o suficiente. Se conseguisse um lugar para se esconder, tudo estaria bem. Mesmo que fosse um bordel.
Subiu as escadas um pouco atrás dele, sempre segurando fortemente sua mão. Ele lhe dava uma grande segurança. Sabia que se ficasse perto dele, nada lhe aconteceria.
Chegaram a um grande corredor, repleto de mulheres e homens se tocando intimamente. Alguns tinham as mãos nos seios delas, outros nas coxas. Os beijos eram escandalosos para uma garota proibida até de receber um beijo na mão. Engoliu um seco, assustada e fitou Matt. Ele voltou-se e sorriu. "Não sei a que tipo de vida está acostumada, Nina. Mas aqui é sempre assim".
"Eu... eu não sabia que era tão horrível".
"Tende a ser pior dentro dos quartos", ela deu um gemido aflito e ele afirmou, calmo. "Mas nada irá acontecer com você. Não será sujeita a isso".
Confiava plenamente nele, por isso, respirou fundo e ignorou as outras cenas que viu. Caminharam até o fim do corredor, parando diante de uma grande porta. Ela pode sentir que ele apertava sua mão com mais força.
"Esse é o quarto de Sakura".
"Eu já ouvi muitas coisas sobre essa mulher".
"Não acredite em tudo o que ouve".
"Não... não acredito".
Ouvira quando era pequena belas histórias. Histórias em que famílias eram unidas e felizes. E nenhuma dela mostrara-se verdadeira. Provara isso nos anos de terror. Ainda podia escutar os gritos... As vozes e o choro.
"Onde ela está, Dorrie?!".
A mulher, pequena e delicada, estremeceu diante do grito, mas continuou firme diante da porta do quarto da filha. "Não pode fazer isso, Vicent".
"Quem é você para me dizer o que posso ou não fazer?!", ele avançou um passo, com a mão erguida. "Aquela maldita menina tem que aprender o seu lugar! E ela vai se casar com o homem que eu escolhi para ela!".
"Você escolheu para ela um monstro!", Dorrie estava cansada de lutar contra ele todos os dias, tentando proteger a pequena Anina de toda a violência do pai.
"Lucius Daventry é o único adequado para ela!".
"Ou é adequado para você?!".
Nina, encolhida num canto de seu quarto, ouviu um grito e o som de tapa forte. Logo, vieram os gemidos e os soluços, junto a outros sons gurutais... Ele havia violentado sua mãe novamente. Tampou os ouvidos e sentiu as próprias lágrimas descerem com força pelo rosto. Era uma covarde. Tinha que lutar pela mãe, mas ao invés disse, escondia-se.
Logo, a casa mergulhou no silêncio.
Ouviu a voz do seu pai, em seguida. "Eu vou sair, mulher. Quando eu voltar, espero encontrar a menina pronta para casar-se".
Assim que escutou o som de uma porta se fechando, Nina arrastou-se pelo quarto e abriu a porta com cuidado, a visão embaça pelo choro.
"Mamãe?".
"N-Nina...".
Olhou para uma pequena poltrona. Sua mãe estava deitada, com o vestido aberto, expondo a nudez parcial. Havia manchas de sangue por todo o corpo jovem. E as lágrimas dela eram de desespero e de uma quase loucura. Correu até o quarto, pegou uma manta e apressou-se até Dorrie.
"Mamãe... tenho que chamar um médico!".
"Não... eu estou bem".
Nina sentiu-se perdida. Os criados apenas observavam. Estava tão sozinha. E não sabia como cuidar de sua mãe. A cobriu com a manta e apertou sua mão. "Eu... eu não sei o que fazer".
"Fuja".
"Fugir?", ela arregalou os olhos.
"Sim, meu amor", Dorrie ergueu a mão e acariciou seu rosto. "Eu não tenho mais forças para lutar contra Vicent. E não quero que passe sua vida inteira vivenciado minhas derrotas... é tudo tão vergonhoso".
"Você é uma mulher muito forte, mamãe".
"Eu tento assim parecer. Mas não posso fingir para sempre. Tem momentos em que queremos desistir. E é isso que estou fazendo".
"Mas...".
Dorrie gemeu levemente e olhou bem no fundo dos olhos. "Escute-me bem, Nina. Corra. Vá para onde quiser. Mas nunca mais apareça aqui, está bem? Viva sua vida com pessoas que te mereçam...", uma lágrima deslizou pelo rosto triste. "E me perdoe por não lutar mais por nós".
Sua mãe, sua linda e belíssima mãe desmaiou. Respirou fundo e fitou aquele rosto tão sereno, antes de dizer. "Eu vou fugir".
Não sabia nem se sua mãe estava. Morria de saudades, mas se voltasse, estaria sentenciada a uma vida miserável, muito mais miserável do que de todas essas prostitutas a sua volta.
Matt finalmente abriu a porta. Entraram no cômodo, chamando a atenção do homem e da mulher que se encontravam perto de um pequeno berço.
Então essa era Sakura. Sentiu-se feia e simples na presente tão forte daquela mulher tão bonita. Jamais vira olhos tão verdes e cabelos tão ruivos. Mesmo parecendo surpresa, ela tinha uma compleição terna. Nem parecia uma cortesã. O homem também era muito bonito, com olhos dourados penetrantes. Abaixou a cabeça diante do olhar de ambos, esperando que Matt dissesse algo. Mas foi Sakura quem se pronunciou.
"Quem é essa, Matt?".
Ele tomou-a pela mão e a guiou até mais perto. "Essa é Nina, Sakura. Eu a encontrei na rua e a trouxe para cá".
"Eu espero que não esteja pensando em fazer dela uma prostituta, pianista", o outro homem afirmou e a olhou, simpático. "Ela deve ter 15 anos".
Matt o encarou com profundo ódio e raiva, o que não escapou aos olhos de Nina. Ignorando isso, olhou para a cortesã. "Eu... eu não queria tornar-me prostituta, srta. Sakura. Eu queria apenas um lugar para ficar".
"Você não tem casa, querida?".
Ia responder, quando seus olhos voltaram-se para o pequeno embrulho nos braços de Sakura. Encantou-se ao ver o bebê sorridente e corado. Sempre quisera ter um irmão a quem pudesse cuidar e amar, mas como Dorrie tinha a saúde fraca, não podia ter mais filhos. Isso a fez lembrar de uma doce canção que ela cantava quando era pequena.
It's a damp cold night
Trying to figure out this life
Won't you take me by the hand
take me somewhere new
I don't know who you are
But I... I'm with you
I'm with you
O sorriso do bebê se alargou ainda mais, fazendo com que Nina ficasse contente. Foi só então que notou os olhares dos três dirigido para ela.
"Nina... Você tem uma voz linda", Matt parecia mais do que encantado. Sakura também concordou.
"Maravilhosa. Parece com a voz de um anjo", ela a olhou por alguns segundos e depois disse, carinhosa. "Afirmou que não quer se prostituir, não é? Pois bem. Você poderia cantar".
"Cantar?".
"Sim. Você e Matt certamente fariam um belo par", ela sorriu para o pianista e Nina viu como ele ficava ruborizado.
Entendeu de pronto. Matt era apaixonado por Sakura. Deveria ter percebido isso pelo brilho nos olhos dele. Uma pontada de decepção acertou seu coração. Não entendeu o porquê. Olhou para a cortesã e assentiu levemente. Poderia ter um lugar para viver e faria o que mais gostava no mundo: Cantar.
""timo, então!", a ruiva entregou a criança para o homem de olhos dourados e aproximou-se. Estendeu-lhe a mão. "Bem-vinda ao Candy Pleasures, minha querida. Sinta-se em casa", apontou para o homem ao lado. "Esse é Syaoran Li".
"Muito prazer, Nina", ele sorriu enquanto brincava com a criança.
"Matt, ela pode dividir o quarto com você?".
"Lógico que sim", o pianista segurou sua mão. "Vamos que eu vou te mostrar o meu... quero dizer, o nosso quarto".
E enquanto caminhava com ele, Nina pôde, pela primeira vez em dias, respirar aliviada.
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"Deus! Cada coisa que esse pianista me arranja!", Sakura largou-se na poltrona e suspirou.
"Foi um gesto muito bonito".
Syaoran notou seu olhar confuso. "Quero dizer, pela menina. Deixar ela ficar, mesmo não sabendo nada dela".
"Ela me pareceu muito desamparada. Eu não podia deixar ela ficar sozinha, certo?".
"Certo. Mas acredito que o mais me surpreendeu foi que não a quis como prostituta. Nina é uma garota linda e serviria perfeitamente para o trabalho".
Sakura ergueu-se e tomou a filha dos braços dele. "Eu sei. Mas você mesmo a ouviu. Ela não queria isso. Não posso obrigá-la", colocou Amy no berço. "E além do que, Matt afeiçoou-se a ela".
"Ah, isso eu duvido", ele afirmou, com a expressão divertida.
"Por quê?".
"Ele ama você, Sakura. Sabe disso".
"É... eu não queria que ele sofresse de maneira alguma, mas... eu não posso amá-lo".
Syaoran perguntou-se, enquanto a olhava, qual era o caminho para entrar no coração daquela fascinante mulher. Sentia inveja de Tristan. Afinal, ele fora o único a conseguir realizar a proeza. Sorriu levemente.
Aproximou-se e abraçou-a por trás, encostando o queixo na suave curva do pescoço e aspirando-lhe o perfume. Notou que ela ficara levemente surpresa.
"Eu não devia, sabe?".
"Não devia o quê?", ela perguntou.
"Gostar tanto de você".
"Entendo o que sente".
Virou-a para si, observando-lhe o rosto perfeito. Acariciou a face com as costas da mão. "E o que vai fazer então?".
"Esperar".
"Esperar?".
"Sim", ela sorriu. "Esperar que você me beije".
Sorriu, antes de beijá-la.
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Matt foi levando Nina até o seu quarto, com o coração pressionado pela eminente dor. Por que se torturava daquela maneira? Por que não aceitava de uma vez por todas que Sakura estava completamente apaixonado por Syaoran? Respirou fundo e fechou os olhos, tentando não pensar se eles estavam se beijando, ou se olhando amorosamente.
Se não houvesse encontrado aquela garota, poderia ir embora. Mas agora que tinha colocado ela ali, não poderia abandoná-la de maneira alguma. Apertou a mão dela com a mais força.
"Você está bem, Matt?".
"Estou".
Olhou para ela e notou que sua resposta não a convencia. Desceu até o último andar e chegou até o seu minúsculo quarto.
Nina entrou depois dele e o encarou, preocupada. "É tão pequenino, Matt. Tem certeza que eu posso ficar aqui?".
"Pode sim", ele sorriu. "Eu durmo no chão".
"De maneira alguma", ela balançou a cabeça, fazendo com que seus cachos voassem de um lado para o outro. "Isso eu não posso permitir".
"Sugeri então que ocupemos a mesma cama?".
Quisera apenas aliviar o clima, mas ao perceber o que falara, uma imagem atrevida passou-lhe a mente: Nina dentro dos seus braços, deitada com a cabeça sobre seu peito e o sorriso doce dirigido somente a ele. Seu sangue ferveu mais rápido e quando ele a olhou, notou que ela estava corada. Talvez estivesse pensando o mesmo que ele.
Os olhos castanhos encontraram os seus, brilhantes. Ela deu um lindo sorriso e disse, com a voz mais gentil do mundo. "Obrigada por tudo".
"Não... não precisa agradecer, Nina".
Ela bocejou e o pianista soltou-lhe a mão. "Pode ir dormir, se quiser".
Nina assentiu devagar e deitou-se sobre a pequena cama. Depois de alguns segundos, ela dormia profundamente.
Matt ajoelhou-se em frente a ela, esquecendo-se um pouco da mágoa que antes sentia. Não tinha a menor idéia do estranho sentimento que martelava seu peito. Só sabia que era forte. Sua mão calejada acariciou a bochecha salpicada de sardas. Um sorriso foi abrindo-se em sua face. Aquela garota estava mudando a sua vida. E fizera isso em apenas um dia.
Continua...
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Olá, Minna-san!
Agradeço pela paciência e perdão pela demora.
Quero dedicar esse cap. a minha maninha Nina, que é uma pessoa maravilhosa e que me atura a muito tempo. Muito obrigada por tudo!
E também quero agradecer a minha mommy Merry, por revisar e por ser essa pessoa tão boa que é...
Não vou responder os review hoje, mas prometo fazer depois!
Kisu!
