Capítulo X
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— Gina? — vovó Weasley chamou-a.
A ruiva parou de mexer o molho da massa que estava preparando para a Festa de São José e apressou-se em seguir em direção à sala. Porém, aos sete meses e meio de gestação, não conseguia andar tão rápida como antes. Estava bem mais pesada do que o habitual e seus pés tinham começado a inchar. Aliás, seu corpo estava tão pesado quanto sua consciência, pois ainda não tivera coragem de contar a sua família a verdade sobre seu relacionamento com Harry, por isso, todos ainda acreditavam que eles iriam se casar logo depois que o bebê nascesse.
— Sim, vovó — falou, suspirando. Estava cansada, pois preparara muita comida para servir na festa que a comunidade dava todos os anos no dia de São José.
— Ah, querida, você parece exausta. Acho melhor subir e deitar-se um pouco. Deixe que cuido de tudo por aqui.
— Não posso fazer isso, sou a responsável pelos molhos das massas e pelos pães, vovó.
— Bah, os pães estão prontos e do molho eu posso dar conta. Afinal, tenho oitenta e seis anos, mas não sou inválida. Suba um pouco e deite-se. Ouça o que sua velha nonnaestá dizendo. Gravidez não é doença, mas seu corpo está sobre carregado com o bebê.
Gina ainda pensou em protestar, mas não estava se sentindo muito bem. Na verdade, nos últimos dias tivera um pouco de tontura e suas vistas ficavam escuras de uma hora para outra. Talvez vovó estivesse certa e precisasse mesmo descansar.
— Está bem, vou deitar um pouco, mas logo descerei para levarmos tudo para a igreja, certo?
Vovó Weasley assentiu e Gina subiu para o quarto, colocando as mãos sob a barriga para protegê-la à medida que galgava os degraus da escadaria. Se Harry visse tudo o que preparara para a festa ficaria furioso. Com o passar do tempo, ele tornara-se mais e mais protetor em relação a ela e ao bebê e fazia questão de participar de tudo. Tinham feito o ultrassom dos sete meses e estava tudo bem com a criança, mas não tinham conseguido saber o sexo ainda. A ruiva, porém, apostava que seria um menino, ao passo que Harry sonhava com uma linda garotinha de olhos castanhos como os dela.
Ao imaginar Harry carregando uma garotinha num cobertor cor-de-rosa Gina riu. E ainda estava rindo quando deitou-se na cama, tentando relaxar um pouco.
Algum tempo depois, acordou sentindo fortes dores no baixo-ventre. Assustada, olhou em torno de si e notou que a colcha branca estava coberta de... Sangue!
Tomada pelo mais completo desespero, tentou levantar-se, mas tudo ficou escuro de repente e só teve tempo de dar um grito, antes de cair sem sentidos no chão.
Ela não viu Harry e seu pai entrarem correndo no quarto, muito menos a expressão agoniada que se estampou no rosto anguloso quando o moreno a encontrou desfalecida em meio a uma poça de sangue...
Alguém estava cantando.
Não, alguém estava cantarolando baixinho uma melodia conhecida. Seria Freebird?
Gina abriu os olhos. Ou, pelo menos, imaginou que o tivesse feito. É, deveria ter imaginado, porque tudo estava tão escuro! Tentou novamente... Céus, como as suas pálpebras poderiam parecer tão pesadas?
Por fim, após um esforço gigantesco, conseguiu vislumbrar a silhueta de uma pessoa a seu lado, antes de seus olhos pesados fecharem-se novamente, levando-a a mergulhar naquele enorme túnel onde estivera nas últimas semanas.
— Gina!
Era a voz de Harry.
A ruiva esforçou-se para abrir os olhos mais uma vez. Sim, era Harry quem estava ali, mas, por alguma estranha razão, ele parecia diferente, os olhos fundos e escuros, uma expressão cansada no rosto anguloso, barba de vários dias por fazer, e os cabelos levemente desalinhados.
Ela moveu os lábios, preparando-se para dizer algo, mas não conseguiu pronunciar uma só palavra.
— Não tente falar, Gi — Harry sussurrou, tocando-a levemente na testa. — Poupe-se um pouco até recuperar suas forças.
Recuperar as minhas forças? Como? Por quê?,perguntou-se, aturdida. Então, de súbito, lembrou-se dos últimos acontecimentos. Sangue. A sala de emergência do hospital. O nascimento do bebê. O bebê?!,teve ganas de gritar, não conseguiu.
— Harry... o... be... — sussurrou, num tom baixo e rouco.
— Shhhh. Está tudo bem. Você está no hospital há algumas semanas, mas agora tudo está bem. Não se preocupe.
Semanas? Como semanas? Tinha acabado de passar mal e não podia fazer mais do que algumas horas que se lembrava de ter sido levada para a sala de emergência. Com um esforço monumental, tentou erguer a mão para tocar seu abdômen. O pânico a dominou quando percebeu que a barriga redonda e firme tinha desaparecido por completo. Onde estava o bebê?
— Harry e o bebê? — pediu, lançando um olhar suplicante para o rosto anguloso.
— É uma menininha, Gina. Ela está bem.
Uma menininha? Já tivera o bebê? Como não se lembrava? O medo e a confusão mental a deixaram mais atordoada.
— Ela é uma lutadora, Gi. Nasceu prematura e agora está na UTI, pois precisa de alguns cuidados — explicou ele. — E uma lutadora a nossa pequena. Lutadora como a ma... Como você. Sabe que teve pré-eclampsia e que quase morreu, não?
Sim, ela quase morrera. Agora tudo começava a clarear aos poucos. As lembranças estavam voltando, como pequenos fragmentos, peças de um grande quebra-cabeça que Gina tentava desesperadamente encaixar para ver o quadro todo. Ainda assim, tinha a impressão de que algo não estava certo ali. Talvez fosse o fato de ter tido uma filha. Sempre achara que seria um menino!
Não, não era bem isso. Quando estava inconsciente, tinha sonhado com sua mãe e Molly em seu sonho lhe dera a entender que ela tinha um filho, falara claramente que o bebê precisava dela, não? Ah, será que sua mãe estivera lá mesmo ou fora apenas um devaneio de quem está à beira da morte? Como saber o que era certo ou errado naquelas circunstâncias?
— E Gi, espero que não se incomode, mas já dei um nome a ela.
Gina o encarou, esforçando-se para manter os olhos abertos. Harry tinha dado um nome à filha. Qual seria?
— Molly, em homenagem a sua mãe. Mas todos a chamamos de Ly, o nosso botãozinho de rosa.
Um leve sorriso insinuou-se nos lábios outrora rosados, mas hoje pálidos. Então, antes que pudesse dizer alguma coisa, seus olhos se fecharam novamente e Gina voltou a adormecer. Ainda estava sob o efeito dos medicamentos, mas desta vez, ao dormir, fê-lo tranquilamente, pois sabia que sua pequena flor, sua Molly, estava bem.
A UTI neonatal estava quase deserta naquelas primeiras horas da manhã. Apenas algumas enfermeiras eficientes circulavam para cuidar dos pequeninos ocupantes daqueles leitos, ou para atender algum pai ansioso em vigília, como Harry vinha fazendo havia semanas, uma vez que, quando não estava ao lado da cama de Gina, estava cuidando de sua Molly, seu botãozinho de rosa, como a chamara desde a primeira vez que a vira.
Naquele momento, tudo estava calmo e tranquilo, especialmente próximo à janela envidraçada, onde os primeiros raios vermelho-dourados da aurora surgiam no céu de Nova York. Inclinando-se em direção ao bercinho aquecido de onde a enfermeira tirava sua filhinha pela primeira vez, Harry murmurou:
— Ei, meu botãozinho de rosa. Sou eu, o seu papai.
Uma espécie de nó se formou na garganta dele, quando encarou o rostinho avermelhado e ainda enrugado de Molly. Mas Harry sabia que precisava conter as emoções. Não podia chorar. Não agora, não quando estava prestes a vivenciar o momento pelo qual tanto ansiara durante os últimos meses. E não ali, em um ambiente totalmente estéril, tendo suas roupas e sapatos protegidos por aventais e capas especiais. Ah, não era para ser assim. Jamais imaginara que a primeira vez que tomaria sua filha nos braços seria tão atípica. Sempre imaginara que isso aconteceria na sala de parto, onde seguraria a mão da ruiva e lhe daria forças para expulsar o bebê, que nasceria lindo, forte, um típico bebê de anúncio de fraldas descartáveis. No entanto, a vida não é como nos sonhos, e, às vezes, prega peças em todos nós. Por sorte, tudo está bem quando acaba bem, e independentemente do que acontecera, Gina sobrevivera e lhe dera a filha mais linda do mundo no que lhe dizia respeito.
— Apenas tenha cuidado para apoiar bem a cabecinha dela, papai — aconselhou a enfermeira, trazendo-o de volta à realidade.
— Pode deixar — prometeu ele à enfermeira Taneesha, que tinha sido muito gentil e prestativa durante as últimas semanas.
Então, o momento mais esperado da vida de Harry Potter aconteceu ali. Pela primeira vez, sua pequena Molly foi colocada em seus braços e embora fosse inexperiente, ele tinha um jeito todo especial para fazer isso. Não era exatamente como imaginava, mas também era bom, muito bom. Aliás, melhor do que bom. Era um milagre.
Sua filhinha, de pouco mais de uma semana de vida, estava enrolada num lindo cobertor cor-de-rosa, confortavelmente aninhada nos braços do pai.
Harry fitou-a embevecido. Aquele pedacinho de gente era parte dele. Quer dizer, parte dele e de Gina. Como os dois juntos tinham sido capazes de criar um ser tão perfeito?
— E, então, papai? O que acha? — indagou a enfermeira, colocando-se ao lado dele.
Ora, por que Taneesha estava tão perto? Será que tinha medo de que ele pudesse derrubar o bebê?
— Acho que é maravilhosa. Será que posso ficar um instante sozinho com minha filha? — pediu, gentilmente.
A enfermeira olhou em torno de si, então concordou.
— Está bem. Checarei os outros bebês enquanto isso. Se precisar de mim é só chamar — falou, antes de afastar-se.
Uma vez sozinho com Molly, Harry engoliu em seco, tentado eliminar o nó que sentia na garganta.
— Ei, meu botãozinho de rosa — sussurrou, beijando suavemente o tufo de cabelos ruivo que cobria a cabeça pequenina. — Tenho tanto para te dizer que nem sei por onde começar.
Os olhos verdes de Molly estavam fechados e ela respirava arfante, como todo bebê recém-nascido fazia, segundo os médicos haviam garantido a Harry.
— Bem, acho que primeiro é bom te dizer que é muito bem-vinda a este mundo. Você é a filha que sempre sonhei ter. Como já deve ter percebido, sou seu pai e prometo que seremos muito felizes juntos.
Ele fez uma pausa e respirou fundo. Droga, tudo parecia perfeito, exceto... Exceto pelo fato de Gina não estar ali.
Mas desde o começo você sabia que ela não estaria aqui, seu tolo, Foi isso o que combinaram, não?ralhou consigo mesmo. Gina só o estava te ajudando a ter o bebê que você tanto desejava. O lado bom disso é que mesmo depois que ela partir, deixará um pedaço dela com você. Algo que fizeram juntos e que ninguém mais no mundo terá: Molly.
— Acho que daqui por diante seremos apenas nós dois, florzinha do papai, mas ficaremos bem. Eu prometo.
Cinco dias depois Gina estava sentada na cama do hospital comendo a gelatina que viera como sobremesa, enquanto assistia ao noticiário da TV. No fundo de sua mente, perguntava-se o que aconteceria quando saísse dali. Como seria sua vida agora que tinha uma filha? Céus, uma filha!
Tinha tanto medo do que poderia sentir ao ver o bebê pela primeira vez, que estava adiando ao máximo aquele momento. Claro que os médicos ainda haviam insistido para que não saísse da cama, mas temia ver a pequena Molly e apaixonar-se tão perdidamente por ela que não teria condições de partir em sua tão esperada viagem de busca pela independência e felicidade.
Um suspiro escapou dos lábios que estavam começando a ficar corados novamente. Bem, vovó Weasley tinha se comprometido a ficar em Nova York e a cuidar de tudo até que Gina se recuperasse. E isso deveria demorar um certo tempo ainda, considerando-se que a incisão da cesárea doía muito e a fazia ver estrelas todas as vezes que ia ao banheiro ou tentava caminhar. Claro que a dra. Sanjina havia lhe garantido que suas condições físicas melhorariam consideravelmente ao longo da próxima semana, mas isso não era suficiente para consolá-la, pois a dor física era insignificante comparada à dor espiritual que sentia.
A ruiva virou-se em direção à janela. A pequena mesinha-de-cabeceira estava repleta de flores e cartões enviados por parentes e amigos. O maior de todos era um enorme vaso enfeitado com três dúzias de rosas vermelhas que Harry lhe enviara.
Aliás, Harry a visitava todos os dias, alternando seu precioso tempo entre o quarto de Gina e o berçário, para onde Molly fora encaminhada após os primeiros dias. A cada dia que passava, a pequenina Molly Weasley Potter ficava mais forte e os médicos acreditavam que ela poderia ir para casa junto com a mãe, na próxima semana. Assim, os pais de Harry tinham vindo da Flórida para ajudá-lo a cuidar da neta enquanto o filho cumpriria duas semanas de aviso prévio, antes de se desligar da corretora de valores em que trabalhava.
Os Potter também tinham visitado Gina e repetido inúmeras vezes como era linda a netinha que ela lhes dera. Eles ainda acreditavam que ela e o moreno iriam se casar. Aliás, todos pensavam assim. Era unanimidade entre familiares e amigos que tão logo Gina se recuperasse ela se mudaria para a casa de Harry e os dois viveriam felizes para sempre com sua bela filhinha nos braços.
— Encomenda especial para a Sra. Gina Weasley — soou a voz de barítono de Harry, trazendo-a de volta de seus devaneios.
Gina virou-se para a porta a tempo de vê-lo entrar carregando a pasta de trabalho em uma das mãos e um conhecido embrulho marrom na outra.
— Oi, Harry. Que bom vê-lo.
— Você parece bem hoje.
— Agora estou. Fico feliz que tenha vindo, não gosto de ficar muito sozinha aqui. As horas não passam. — Claro que sabia que ele tinha voltado a trabalhar para cumprir o aviso prévio, pois quando Luna a visitara no início da tarde, contara-lhe que o vira no metrô.
— Como está se sentindo? — Ele indagou, depositando-lhe um beijo no alto da cabeça.
— Melhor a cada instante.
— Tem dormido bem?
— Como poderia se as enfermeiras entram aqui a todo minuto para checar como estou? — reclamou, sentindo-se uma pouco ranzinza depois de tanto tempo presa a um leito. — Não pode dizer a elas que estou bem e que precisam me deixar em paz?
— Ah, com certeza está bem, mesmo. Já vejo um pouco da velha Gina de sempre. Senti falta de suas reclamações, minha cara.
— Sério, Harry. Vou perder a cabeça se tiver de aguentar mais um dia comendo esta comida horrível e sem poder dormir direito.
— Ei, não precisará comer esta sopa branca do hospital. Harry está aqui, meu bem — fez graça. — Trouxe uma encomenda especial para você.
Gina pegou o enorme saco pardo que ele lhe estendia e espiou em seu interior.
— Comida chinesa? Você me trouxe comida chinesa no hospital?
Harry deu de ombros.
— Bem, perguntei a seu médico e ele disse que só não poderíamos exagerar nos molhos. Além do quê, costumo cumprir o prometido. — Ele pegou a gelatina verde que Gina ainda segurava. — Se importa se eu jogá-la no lixo?
— Ah, por favor, faça isso agora! — exclamou, rindo. — Harry Potter, você é meu herói. — Com movimentos ágeis, começou a tirar as caixinhas de comida chinesa do pacote. — Você trouxe comida para um batalhão. Não conseguirei comer tudo isso.
— Não terá de comer tudo sozinha, serei bonzinho e comerei com você. — Ele sentou-se ao lado dela na cama, tirando um par de palitos de madeira do saco plástico e começando a se servir, enquanto Gina fazia o mesmo. — Bem, temos o arroz primavera que você tanto gosta, o frango com legumes e até os biscoitinhos da sorte. Esses você não precisará partilhar comigo.
— Quanta generosidade. Estou quase me arrependendo de tê-lo chamado de meu herói.
— Pois saiba que este seu herói não teve tempo nem de almoçar hoje e está faminto, portanto, é melhor comer ou pode ser que eu mude de ideia quanto aos biscoitinhos também.
Rindo, eles se concentraram na comida colorida. No entanto, ela parou muito antes do que de costume.
— O que há de errado, Gina? Normalmente, você come muito mais do que isso.
— Desculpe, está tudo ótimo, mas é que meu apetite não... não tem ajudado.
Harry sorriu.
— Acho que isso é normal, considerando-se tudo o que passou. Mas, por falar em apetite, Molly puxou a você. Precisa ver como ela suga a mamadeira com voracidade. Parece uma profissional tarimbada.
— Mesmo? Que ótimo — Gina murmurou, sentindo o coração ficar ainda mais apertado.
Seus seios não latejavam mais como acontecera nos primeiros dias, mas a simples menção à mamadeira a fez experimentar uma terrível sensação de perda. Não poderia amamentar Molly, uma vez que os medicamentos que estava tomando eram muito fortes. É para o bem dela, repetiu para si mesma. Afinal, isso também facilitaria para Harry alimentá-la quando não estivesse por perto. Contendo um suspiro, tentou mudar o rumo de seus pensamentos, perguntando:
— Então, como foi voltar ao trabalho depois de todos estes dias que passou longe?
— Uma tortura. Não conseguia me concentrar. Por sorte, faltam mais duas semanas apenas. Depois poderei me dedicar exclusivamente a Molly.
— Tem certeza de que isso não complicará suas finanças? Quero dizer, pode mesmo se dar ao luxo de parar de trabalhar durante alguns anos?
— Sim, tenho boas reservas, Gina. E se no final descobrir que precisarei voltar à ativa... Bem, tudo se ajeitará com o tempo e, até lá já terei encontrado alguém para...
— Para ser a mãe de Molly? — ela perguntou, sentindo o coração comprimir-se dentro do peito.
Céus, como não pensara que se sentiria assim quando concordara em ter um filho de seu melhor amigo?
Harry a fitou por um longo momento, antes de responder.
— O futuro a Deus pertence, Gina. Quero viver um dia de cada vez. Levarei Molly para casa comigo e desejo que você saia daqui muito bem. Só assim poderemos voltar ao normal e viver nossas vidas.
Voltar ao normal? Aquilo jamais aconteceria. Tudo tinha mudado tão depressa que não sabia o que fazer ou dizer. Não estava preparada para abrir mão de Molly, mas também não estava preparada para admitir o amor que sentia pela filha, mesmo antes de tê-la visto. Gina ainda tentou consolar-se, dizendo a si mesma que, pelo menos, teria um pouco de tempo antes de partir definitivamente. Mas aquilo não ajudava nem um pouco.
— Quer vê-la, agora, Gi? — Ele perguntou, como se tivesse o dom de ler os pensamentos dela.
Um tremor a percorreu de alto a baixo.
— Como poderia? Ela já pode sair do berçário?
— Não, mas você pode ir até lá. Perguntei às enfermeiras e elas disseram que eu poderia levá-la em uma cadeira de rodas.
— Ah...
— Assim, tão logo eu termine de comer a levarei para conhecer Molly.
Oh, céus! Será que estava preparada para aquilo?
Bem, por certo não estava preparada para dar à luz, e o parto acontecera mesmo assim. Agora Molly estava ali, e Gina não podia evitar ver a filha, por mais que temesse a sua própria reação quando a tivesse nos braços. Mas do que tinha medo exatamente? Questionou-se. Buscando forças dentro de si para enfrentar o inevitável.
— Está bem, Harry. Quero muito vê-la. Afinal, mal me recordo do que aconteceu no dia do parto.
— Certo. Vamos agora — ele falou, deixando os palitos de madeira de lado.
— Mas pensei que quisesse terminar de comer primeiro.
— Não. Faço isso depois.
Alarmada, Gina tentou protestar. Precisava de mais alguns minutos para se recompor.
No entanto, antes que pudesse fazer isso Harry já a estava empurrando em uma cadeira de rodas, por todos os corredores do hospital, até o berçário que ficava no andar inferior.
— Ah, então esta é a mãe de sua florzinha? — indagou uma das enfermeiras ao vê-lo passar com Gina diante do balcão.
Harry hesitou por um instante, antes de responder;
— Sim, esta é Gina. Ela veio visitar Molly.
— Parabéns, Gina. Você tem uma filhinha linda — cumprimentou-a a enfermeira. — E seu marido é um pai exemplar. Ele tem muito jeito com Molly e faz tudo naturalmente.
Gina não conseguiu esboçar outra reação, além de menear a cabeça levemente, no que era a simulação de um misto de concordância e agradecimento. Estava envolta em um turbilhão tão grande de emoções que mal conseguia respirar. Desejava muito poder dizer à moça que ela entendera tudo errado. Que Harry não era seu marido e nunca seria, mas não conseguiu e, antes que se desse conta do que estava acontecendo, foi empurrada em direção a outro par de portas.
A medida que passavam por várias pessoas, todos os cumprimentavam, alguns chamavam Harry pelo nome, outros simplesmente referiam-se a ele como "papai". No entanto, todos referiam-se a ela como "mamãe". Céus, como poderia ser a mãe de Molly se iria deixá-la com o pai em poucos meses, sem data certa para voltar para casa?
— Veja, aqui está nossa florzinha — Harry falou, parando a cadeira de rodas junto a um dos berços aquecidos mais próximos à janela do berçário.
Gina respirou fundo, enchendo-se de coragem. Precisava controlar suas emoções. Tinha um trato com o moreno, não poderia quebrá-lo. Ele era seu melhor amigo, uma das pessoas mais importantes de sua vida e dera a sua palavra de que a criança seria dele, apenas dele.
— Alguns dias atrás, tinha de usar luvas e aventais esterilizados para poder pegá-la, Gina. Mas agora ela já está muito mais forte. Podemos segurá-la normalmente.
Ela o viu curvar-se sobre o berço.
— Oi, meu botãozinho de rosa — Harry murmurou suave mente, para o pacotinho embrulhado em uma manta branca feita por vovó Weasley. — Tem alguém aqui que gostaria que você conhecesse. — Com muita delicadeza, ergueu Molly do berço e aninhou-a contra o peito, virando-a em direção à cadeira de rodas. — Molly, esta é Gina.
Gina, não mamãe.Claro que Harry não se referiria a ela como "mamãe", afinal, isso iria contra o que haviam combinado. Uma dor imensa inundou-lhe o peito, mas esforçou-se para não chorar. Em vez disso, disse:
— Oh, Harry, ela é igualzinha a você, tirando os cabelos...
— Pois eu acho que se parece com você. Os olhos dela são verdes, mas é o seu jeito de olhar, Gi. Sua família inteira pensa assim, e meus pais também.
Sim, todos haviam dito a mesma coisa quando a visitaram. Afinal, cada visitante que recebia falava incansavelmente de como sua filha era linda, da sorte que ela tivera e tudo o mais.
— Olá, Molly — sussurrou, emocionada, esticando o braço para acariciar os cabelos ruivos como os seus próprios. — Não sabe como fico feliz por você estar bem e logo poder ir para a casa com o papai.
— E devemos tudo isso a você, Gi — Harry falou. — Se não fosse por sua generosidade, eu jamais poderia experimentar esta sensação maravilhosa que estou vivendo agora, com minha filha nos braços.
— Não posso acreditar... — Ela meneou a cabeça, incrédula.
— O quê? — Harry espantou-se.
— Bem, tinha tanta certeza de que o bebê era menino que agora tenho vontade de rir. Mesmo depois do parto eu ainda achava que era um garotinho porque... Bem, sempre achei que seria menino. — Melhor não dizer ao moreno que sonhara com sua mãe enquanto estivera entre a vida e a morte.
Harry riu.
— Ah, definitivamente Molly é uma menina, já troquei a fralda dela muitas vezes. Vamos, pegue-a... — Ele afastou o bebê do peito e estendeu-o em sua direção.
Não, não, não podia pegá-la. Ainda não estava preparada para fazê-lo.
Mas Harry parecia não saber disso, pois simplesmente colocou Molly nos braços da mãe e afastou-se um pouco para observar as duas.
A ruiva sentiu o calor do corpo minúsculo junto ao seu. Então, tudo o que mais temia aconteceu.
Foi exatamente o que sentiu quando lhe entregaram Carlinhos ainda bebê. Amor à primeira vista. Por isso queria tanto evitar ver Molly, pois sabia que não resistiria. Com os olhos marejados, fitou o rostinho de sua filha e foi acometida por um forte arroubo maternal e um imenso desejo de amá-la e protegê-la de tudo e de todos.
Lembre-se de que ela não é sua, não pode querer criá-la. Prometeu a Harry que a entregaria a ele e uma mãe não é parte do pacote que o morenor deseja,ralhou consigo mesma.
— Então, o que acha, Gina? — Harry quis saber, aproximando-se e inclinando-se sobre seu ombro, de maneira a ver o rostinho delicado de Molly.
Gina engoliu suas emoções, sua dor, seu arrependimento.
— Acho que você tem uma linda garotinha, Harry Potter.
— E tudo porque pude contar com a sua ajuda.
]Sim, havia transformado o sonho de Harry em realidade.
Agora, era livre para partir e buscar a sua própria felicidade, exatamente como sempre desejara. Com o detalhe de que agora a liberdade era a última coisa que queria. Na verdade, seu sonho era apenas ser feliz. Então, por que não estava? Sua missão fora cumprida. Harry era pai e ela era livre, como sonhara.
Mas será que liberdade era mesmo ter a oportunidade de partir para longe e poder viver o desconhecido?
Gina começava a achar que não. Sentia uma vontade imensa de chorar diante da simples ideia de que poderia abandonar aquele bebê que ressonava em seus braços. Sem dúvida, tudo aquilo deveria ser uma reação provocada por seus hormônios. Sempre ouvira dizer que as mulheres ficavam muito emotivas e sentimentais durante a gestão e mesmo após o parto. Então, por que lutar contra aquela onda de amor maternal que lhe inundava o peito?
Ela sorriu entre lágrimas e admirou a filha recém-nascida. Molly moveu-se e ergueu as mãozinhas por um momento, como se desejasse agarrar-se a algo que não podia alcançar. Ela está tentando agarrar-se a mim. Sabe que sou sua mãe e pressente que posso partir em breve,Gina pensou, segurando-a ainda mais apertado. Naquele instante, tomou uma decisão muito importante, pelo menos enquanto estivesse ali, perto de sua pequena Molly, seria a mãe que sua filha merecia.
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N/A: Eu sei, sou traidora do sangue e etc... Afinal prometi que postaria na quinta-feira e não o fiz.
O que posso dizer é que tive razões para não fazê-lo, a principal: falta de tempo!
Espero que gostem desse capítulo, e lembrem-se: o próximo é o último.
Próximo capítulo: Terça-feira.
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RESPOSTA AOS COMENTÁRIOS:
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Edwiges Potter: Que bom que gostou do capítulo anterior, ele realmente foi cheio de momentos fofos.
Em compensação esse foi um pouco melancólico, aguardo para saber o que acha que irá acontecer no próximo (e último) capítulo!
Obrigado pelo comentário.
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Andrea87: Pena que não teremos mais grandes cenas com a família Weasley reunida, eu também adorei a cena em que eles descobriram que a pequena Molly viria ao mundo.
Esses dois são muito cabeça dura, esta tão na cara que se amam, mas Gina fica agora se remoendo por achar que o moreno não a quer ... tesc, tesc... O que será preciso acontecer para ela perceber que o pacote completo é o que ele mais quer.
Tenho planos para novas adaptações, mas estou com o tempo realmente corrido pq algumas pessoas estão de férias no meu serviço, daí estou sobrecarregada. Mas logo mais terão novas coisas para leem.
Sobre a ajuda para futuras fic/adaptação, pode contar comigo, agora que vc já me achou no facebook fica ainda mais fácil. =D
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Bia Siqueira: Gina realmente foi uma grávida muito bonita, fiquei com um enorme pena dela não poder se recordar (lógico, ela estava inconsciente) do nascimento de Molly.
Será que ocorrerá um casamento nessa adaptação? Acho difícil com esses dois teimosos que tem sérias dificuldades em expressar seus sentimentos. Pelas barbas de Merlin, todos já perceberam que foram feitos um para o outro, menos eles! ¬¬'
Harry cometeu um leve deslize de sair com a Susannah duas vezes, mas creio que isso é o de menos, o problema deles não é nem uma terceira pessoa e sim eles mesmo começarem a praticar a arte de dizer o que sentem. Porém, devo lembrar que Susannah pode voltar a aparecer no próximo capítulo, ela tem um filho e pode dar algumas dicas ao moreno se a ruiva permanecer com esses planos furado e esses pensamentos sem qualquer fundamento. (sei que essa parte você não irá querer me dar ouvidos de novo). rsrsrs
Lilá é uma vaca que não merece consideração, mas Gina sempre saberá lidar com ela, portanto, não esquente com ela.
Os Weasley sabem abusar mesmo da ruiva, mas a vida dela tomou um rumo que esta forçando eles aprenderem a se tornar mais independentes dela... Quer dizer, acho eu! ^^
Obrigado pelo comentário.
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Joana Patricia: Olá, notei sua ausência, mas como vivo dizendo para as leitoras: O importante é que sempre voltam e fazem comentários incríveis! =D
Gina esta com um grande dilema, afinal ela viveu tantos anos planejando essa sonhada liberdade que o parâmetro de felicidade dela é esse, porém, podemos perceber nesse capítulo que os planos dela já estão sendo colocados em duvida. Então o grande "X" da questão será, ambos irão aprender a se comunicar melhor?
Aguardo para saber o que achou desse capítulo. Obrigado pelo comentário.
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Gigi W B Potter: Que bom que aproveitou a viagem, e melhor ainda saber que ela lhe inspirou para novos trabalhos. =D
A história apenas uma noite literalmente no período da gravidez foi colocada de lado e os dois aproveitaram imensamente cada minuto, tanto que ao que parece esqueceram de se comunicar da forma adequada... Pelo amor de Merlin, que história foi aquele de : "Molly, essa é a Gina!" ?!
MORENO, pls, o correto seria: Essa é sua MÃE, e por sinal, a mulher da minha vida! ... tesc, tesc...
Obrigado pelo comentário.
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YukiYuri: Gina é realmente ótima em negar os seus sentimentos, e o moreno colabora com ela aceitando algumas loucuras dela, seria tão fácil se ele a mostrasse de jeito o quanto errada ela esta em agir dessa forma.
Não tem o pq se desculpar, agradeço imensamente por sempre passar por aqui.
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Gemeas Potter: Os dois se amam demais, mas são tão teimosos e tem cada ideia as vezes que só Merlin sabe de onde eles tiraram esses absurdos.
O moreno realmente esta se mostrando um excelente pai, esta quase sendo reconhecido como Harry Pai Potter. (péssima piada ¬¬')
Obrigado pelo comentário.
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Isinha Weasley Potter: Olá, quanto tempo! =D
Fico contente que enfim tenha conseguido acompanhar a fic, infelizmente só tem mais um capítulo, mas é muito bom saber que esta gostando da adaptação.
Harry agora tem tudo para conseguir fazê-la mudar de ideia, principalmente pq a ruiva não esta tão firme em manter seus planos. Porém, esse moreno esta com uma ideia ridícula de respeitar os planos da ruiva... Pera aí, não é assim, tem que fazê-la entender que ela TEM QUE FICAR! ¬¬'
Obrigado pelo comentário.
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