-:- CAPÍTULO 12 – Águas a Perder de Vista -:-
O Japão é um país insular da Ásia Oriental, composto por milhares de ilhas, sendo as quatros maiores Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku, representando quase a totalidade do território nacional. A ilha de Hokkaido forma a cabeça de um suposto dragão mimetizado pelo mapa do país, ou ainda, um dragãozinho levantando voo. À norte de Hokkaido, a uns 20 quilômetros da praia, havia outra ilha, uma ilha que nunca constou nos mapas. Nessa ilha – cuja área de quase 3.900 quilômetros quadrados, com seus cerca de 70 quilômetros de diâmetro – havia uma coroa montanhosa recoberta por campos limpos de uns 5 quilômetros de extensão e, cercado por essa coroa, se encontrava o lúgubre bosque de O-Ren. Dentro dessa história, nesse instante estava a ocorrer algo decisivo. À esquerda do caule do gigantesco salgueiro mágico, embrenhado entre os galhos, estava Naraku, envolto em sua barreira e com a Joia de Quatro Almas à frente de seu peito; cinco metros abaixo do araneídeo e uns sete à sua frente, estava Kikyou, furiosa, segurando o arco de Kagome, acabara de atirar a flecha; a colegial estava à sua esquerda, ajoelhada; à direita da sacerdotisa, Kirara, Miroku, Sango e Kouga; no alto de uma árvore em frente à gruta, Byakuya sobre seu tsuru; à sua direita, pousado sobre outra árvore, Sesshoumaru; InuYasha havia acabado de chegar, escondido atrás de outra árvore, a menos de um metro do chão, sobre o cavalinho de Shippou e com o youkai raposa em seu ombro direito, ele não conseguia compreender o que estava acontecendo. No exato instante em que Kikyou atirara a flecha, a cena pareceu quase paralisada, a seta pareceu ir lentamente em direção ao peito do araneídeo, entretanto, logo mostrou-se em sua velocidade real. Naraku fechou seus olhos, percebia o brilho puro da flecha por detrás das pálpebras cerradas chegar cada vez mais perto de si, "Adeus, Kikyou, minha amada", havia sido seu último pensamento; suou frio, deu um último suspiro e, no limiar de ela transcender seu campo energético, um clarão o fez quebrar a concentração e atentar-se.
– O-Ren! – exclamou ele, ao ver a bruxa ser atingida em cheio pela seta, logo abaixo do busto.
A mulher havia se atirando em sua frente, deixando seu elmo ser lançado para alto pelo impacto e caindo no chão. Em seguida, colocou-se sentada, deixando as pernas de lado, e apoiando as mãos no chão à sua frente, enquanto a sacerdotisa já pegara outra flecha e apontara para Naraku, resmungando:
– Sua imbecil! O que pensa que está fazendo?!
Todos ficaram incrédulos, por que ela havia feito aquilo? O araneídeo, que estava com boca e olhos bem abertos, não sabia o que pensar. O ilusionista, que antes estava sob suprema tensão, riu-se animadíssimo:
– Há, há! Mais que filho da puta! Eu não acredito! No último instante... Mais que filho da puta! Há, há, há!
Sesshoumaru olhou para ele com jeito de aborrecido, fazendo-o ficar quieto. O-Ren estava gravemente ferida, largas fendas se formaram por seu corpo, irradiando-se do ponto onde a flecha a atingira, como se ela fosse feita de algo quebrável; uma das fendas cortou-lhe o lado direito do rosto, em sentido longitudinal, fazendo o olho da feiticeira estilhaçar-se, como se de vidro, e passar para o dourado. Após resfolegar um pouco, ela finalmente se pronunciou:
– Há, há...! Naraku... Podes parar com esse teatro pífio. Eu já descobri teus planos!
Todos ficaram confusos. O araneídeo tencionou-se. A sacerdotisa cobrou explicações da bruxa:
– O que está dizendo?!
– Menina, tudo aquilo era mentira.
– Eu sei!
– Não, era mentira o que ele disse agora. Não foi encenação nenhuma, ele ama-te mesmo e esse blábláblá paulificante... Cof, cof, cof! – interrompeu-se, tentando prosseguir com dificuldade: – Isso tudo o que ele falou agora foi com o intuito de obrigá-la a acertar a Joia. Assim sendo, a Joia seria destruída, bem como ele próprio, e tua vida então não mais poderia ser ameaçada por mim.
Todos se espantaram mais uma vez, mas Kikyou resistiu:
– Ora, que absurdo...
– Menina! – vociferou a bruxa. – Olha para a tua Joia! Deslumbra como ela cintila puramente!
Kikyou então finalmente atentou-se para a pérola, bem como todos os outros, incluindo Naraku: resplandecia com força em um lilás puríssimo. Aquilo era a prova das intenções do meio-youkai aranha. O que havia acontecido era que, ao mudar suas intenções para salvar sua amada, Naraku dera forças à luz. O lado maligno da pérola enfraquecera e, com isso, o brilho implantado por Kikyou na Joia – que não havia se esvaído – a dominou, a faísca que aniquilou a escuridão graças à mudança de atitude do araneídeo.
– Minha nossa, como tu és arisca! – resmungou a bruxa para a sacerdotisa. – Mesmo depois dessa prova irrefutável da lealdade do amor de Naraku por tua triste pessoa, ainda estás apontando essa flecha maldita para ele... Abaixe-a! – ordenou, fazendo a moça recuar e, de certa forma, envergonhar-se. – Hugh! Eu não aguento mais... – balbuciou O-Ren, tremelicando. – Hei, meio-youkai – chamou-o, a fitá-lo –, tu passaste esses dez meses buscando avidamente uma maneira de destruir-me, não é? Pois bem, este é o meu ponto fraco, energia espiritual!
A bruxa relutou um pouco antes de a flecha rasgar-lhe a vida de vez e dirigiu-se a Naraku e a sacerdotisa novamente:
– Sabe, Kikyou, tu tens um homem e tanto aos teus pés. Embora ele esteja bem distante de alguém benevolente, a devoção que tem por ti é digna de admiração... Veneração!... Há, há!... Mas é uma pena que não saibas perceber isso, tu tens tudo o que eu sempre desejei... Tu tens tudo o que aquela ordinária teve. E tu, Naraku, espero que fiques bem. Ainda irás sofrer muito!
Ela então emitiu um grito bem alto, quase ensurdecedor, e caiu no chão. Nisto, a alma da bruxa começou a sair de seu corpo em uma velocidade assombrosa. Feixes e mais feixes se juntando no alto; do salgueiro também saíam feixes, alguns uniam-se à alma da bruxa, enquanto outros iam em direção aos céus. Ao fim, formou-se no espaço a árvore, três vezes maior do que a física. O-Ren então disse sua última frase, em um tom retumbante:
– Naraku! Antes de ir, lhe darei um presente. Faças bom proveito enquanto viver, mas saibas que sempre será oscilante e tentará abandoná-lo quando oportuno. Não deixe-o fugir!
A bruxa então fez com que todas as almas que estavam contidas no corpo do meio-youkai o abandonassem. A barreira do araneídeo se desfez e ele caiu, segurando a Joia em sua mão direita. Nisso, um ramo da alma da bruxa se desprendeu e caiu sobre ele, como uma pena, adentrando-lhe corpo. Feito isso, a feiticeira youkai emitiu fortes risadas enquanto sua alma ia desaparecendo. Ao fim, foi a vez de Daisuke desaparecer: o youkai flautista surgiu da caverna, voando de um lado para o outro e ganindo desesperadamente, eis que então, extremamente veloz, ele chocou-se contra a árvore, bem no caule. O youkai quebrou, seus pedaços escorreram pela convexidade da gruta, parecia feito de barro e revestido em madeira. Todos ficaram ainda mais assombrados; Naraku levantou seus olhos.
– Ei, olhem! – atentou o monge. Ele havia reparado no corpo da feiticeira que permanecia ali, com a flecha incrustada, no entanto agora a mulher estava com os cabelos bem negros e a pele bem pálida; seus olhos estavam selados. Miroku a pegou nos braços e disse: – Não sinto nenhuma energia youkai emanar dela. Será que era apenas uma humana possuída?
– Isso não faz sentido, Miroku – objetou a exterminadora. – Se o corpo verdadeiro da bruxa era a árvore, então porque sua alma foi embora ao Kikyou atingir essa mulher?
– Eu não sei, mas... – Ele e a exterminadora olharam para a planta, estava intocada.
Sesshoumaru sentiu sua Tenseiga pulsar, pulou para perto do corpo da bruxa, a olhou bem, a percebeu bem, e declarou:
– Essa mulher é uma humana, e está morta. Você quer que eu a use, Tenseiga? Mas como? Eu não vejo os Emissários do Outro Mundo nela.
De repente, uma alma desenhou-se à frente do peito da mulher, e saiu; seu corpo começou a desaparecer, tornou-se fumaça, sobrando os ossos e as vestes. A alma "fujona" foi voando para perto de Naraku, circundou-o, enquanto ele se erguia, depois foi até a flauta de Daisuke, que estava atirada no chão, a alguns metros do meio-youkai aranha, e a circundou. A espada de Sesshoumaru voltou a pulsar; o youkai branco andou até a flauta, não entendeu muito bem os objetivos de sua arma, mas cortou o instrumento com ela. Com isso, saiu outra alma de dentro da flauta, bem grande, umas dez vezes maior do que a outra. As duas almas começaram a "brincar" alegremente, voltaram para Naraku, o circundaram mais um pouco e depois foram embora, evanescendo. Enquanto isso, todos se encontravam atônitos, quem pôde vira as almas; mas o que estava acontecendo? Até o youkai branco ficara intrigado, a Tenseiga o havia pedido que se aproximasse da jovem caída e depois cortasse a flauta de Daisuke, permitindo que a alma que ali estava enclausurada se libertasse. A quem haviam pertencido as almas? Em seguida, um evento ainda mais brutal os aprisionaria a atenção: uma brisa estranha começou a passar pelo local, anunciando algo; depois, a árvore começou a pulsar fortemente, uma, duas, três vezes; seus ramos começaram a passar do intenso verde-esmeralda para um castanho fúnebre, começaram a apodrecer, bem como seu caule, seus galhos foram arriando-se, a fazer os longuíssimos ramos pendentes enrolarem-se sobre o chão; estalos intensos de madeira em declínio se espalharam pelo local, a deixar todos em alerta. A árvore então começou a defletir para frente, todos saíram às pressas, principalmente Byakuya, ao perceber o caule do gigantesco vegetal quase em sua cabeça; InuYasha se escondeu mais, ao perceber que Kouga, Sesshoumaru e Kikyou vinham em sua direção. A árvore foi caindo, caindo, foi despedaçando várias outras que estavam em seu caminho, suas raízes saíram bastante do chão, mas sem revelarem suas pontas; o topo da gruta ruiu. Naraku não havia saído do lugar, onde se encontrava não seria atingido; sua boca estava cerrada, os olhos arregalados, as mãos fortemente pressionadas e a mente instável, ele tentava formular um pensamento enquanto ouvia o estrondo da queda daquele gigante. Então, o colossal salgueiro, de 300 metros de altura, 300 metros de diâmetro de copa e cerca de 12 metros de diâmetro de caule, terminou de vir abaixo, levantando bastante poeira. As densas e sombrias nuvens do céu sobre a ilha começaram a dissipar-se, revelando o céu verdadeiro, limpo, quase sem estrelas. Não demorou muito e algo mais aterrorizaria a todos: o chão começou a mover-se e prover ruídos feito as batidas de um dantesco coração, começou a tremer, como em um violento terremoto, eles tentavam segurar-se; canhões de água salgada começaram a explodir por todos os cantos, feito gêiseres, a superfície da ilha começou a rachar, com água do mar se interpondo entre elas; Sango, Miroku e Kagome montaram em Kirara, Sesshoumaru voou para longe, Byakuya voou para longe, Kouga saltou para longe, Naraku armou-se em uma barreira e voou para longe, InuYasha se escorou em Kirara, que também voou para longe, tentando camuflar-se. No entanto, havia alguém que ainda estava ali e não tinha como sair.
Kikyou!, desesperou-se InuYasha.
Kikyou...!, desesperou-se Naraku.
Enquanto isso, mais gêiseres estouravam e os cacos da ilha começavam a afundar. Kouga então saltou para buscar a sacerdotisa, que montou nas costas do youkai lobo; no exato instante em que saíram, outro canhão d'água explodiu. Kouga ainda voltou e pisou num dos pedaços a pique para ganhar impulso.
– Shippou! – gritou.
O pequeno atirou para ele um cavalinho de brinquedo, o lobo pousou seu pé direito na cabeça do bichinho e o esquerdo em seu lombo, flutuando junto com os outros, a cerca de cem metros da superfície da ilha. InuYasha estava escondido à direita de Kirara e o lobo, a sacerdotisa e Sesshoumaru entre o grupo do canídeo e Naraku e seu servo. Todos olhavam para baixo, os pedaços da ilha estavam apontando para eles feito lanças, estremeciam, sendo cada vez mais sugados para o fundo do mar. Eles então saíram, se dirigindo à praia; Naraku permaneceu ali, havia ficado extremamente abalado com o que acontecera, nunca imaginou em sua vida inteira que um dia alguém morreria por ele – mesmo sabendo que não fora exatamente por ele –, Mas por que, afinal?, indagava-se, ficou mais instigado do que nunca em descobrir a história daquela mulher, ou seria daquela árvore? O araneídeo continuou ali até ver o último item ser engolido pelo no mar, um galho do salgueiro. Ele então deu as costas e se encaminhou para a praia.
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Enquanto isso, no litoral, estavam todos reunidos, meio em roda, aguardando a chegada do meio-youkai aranha. Teria ele resposta para aquilo? E qual era sua explicação para a tentativa de salvar Kikyou? Qual era o seu plano, quando veria InuYasha e descobriria que algo estava errado? Eis que o araneídeo finalmente chegou, ficando de costas para o mar, a uns três metros do quebrar das ondas; à sua esquerda, a uns cinco metros, seu servo; em frente ao araneídeo, a uns oito metros, Sesshoumaru; à direita do youkai branco, a uns dois metros, Kouga e Kikyou; à direita de Naraku, também a uns cinco metros, o grupo de InuYasha, o humano escondia-se atrás de Miroku; no centro de todos, uma fogueirinha azul-esverdeada, feita por Shippou, para que pelo menos enxergassem melhor os rostos uns dos outros. O araneídeo pôs-se a reparar em InuYasha, achou sua postura muito estranha, logo ele que sempre ficava à frente de todos com sua voz estridente a buzinar insultos nos ouvidos do vilão, agora estava parecendo querer que ninguém o visse. O araneídeo também não sentia sua presença, era como se não estivesse ali. Por enquanto, decidiu esquecer-se dele e finalmente se pronunciou:
– Bem... Definitivamente por isso eu não esperava – balbuciou, ainda bem abalado.
– Naraku... O que está acontecendo?... – insistiu a sacerdotisa, trêmula.
O meio-youkai aranha então encarou a todos: Kikyou, Miroku, Sango, Kagome, Kouga, Sesshoumaru e a silhueta rubra de InuYasha por detrás do monge. Naraku começou a se explicar, ainda abatido, porém com a voz firme, altiva, e até um pouco frio:
– Humpf! Aqui estão todos vocês. Como seria do outro modo. – Pausou. – A Joia de Quatro Almas... – Recomeçou, erguendo a mão que a segurava na altura do peito. – Supostamente deveria ter queimado junto com o cadáver de Kikyou e ter sido apagada deste mundo. No entanto, ela usou os sentimentos duradouros de Kikyou por InuYasha e seu corpo reencarnando para retornar. E continuou a trazer desastres após ser estilhaçada, antes de ter suas partes unidas, transcendendo o próprio tempo ¹ . Assim sendo, a Joia jamais seria destruída, afinal ela funciona como uma maldição e sempre voltaria quando oportuno, assim eu pensava. Portanto, há 50 anos, a Joia não foi destruída como achavam. A sacerdotisa que a protegia – nesse instante, ele olhou para Kikyou, seco – cometeu um grave erro ao queimá-la consigo: ela não fez o desejo correto sobre a Joia.
– Desejo correto? – indagou o monge.
– Depois de me encontrar com a Kikyou, na noite em que disse para ela que nunca quis destruí-la, que... – Hesitou. – Que a amava... – murmurou, baixando os olhos. – Enfim, logo depois, eu entrei em uma espécie de conflito existencial, meus sentimentos, meus pensamentos, se confundiam e se chocavam, eu me senti perdido, confuso. Eis que, no meio desse turbilhão, recebi uma resposta: a Joia poderia sim ser destruída, uma vez que alguém fizesse o "desejo correto" sobre ela. Mais! Que quem seria capaz de fazê-lo era a Kagome.
Todos então voltaram os olhos para a garota.
– Kagome – chamou-a a exterminadora –, que história é essa...?!
– É verdade! – disse a colegial. – Meu avô já me falou sobre isso ² , se alguém fizesse o desejo correto sobre a Joia, ela finalmente seria destruída! Mas, quanto a eu fazer isso...
– Sim, menina! – confirmou Naraku – Foi o que Midoriko me disse.
– Midoriko?! – protestou Miroku. – Mas como?!
– Eu também não sei direito como essa garota pode descobrir a resposta, mas Midoriko me disse que a Kagome saberia fazer o tal pedido correto. Mas por quê?! – questionou. – Será por causa de sua benignidade? Kagome, um coração que quando caminha pelo lamaçal do ódio não se deixa infectar por ele. Diferente de outras pessoas... – Tornou a olhar Kikyou, que se retraiu. – Como você pode ser assim tão pura? – questionou outra vez, olhando para a colegial.
– E-Eu não sei do que está falando, eu... – Ela pôs-se a pensar, não fora a primeira vez que disseram algo do tipo para ela, seria mesmo assim tão pura?
– Isso não importa, foi o que Midoriko conseguiu me dizer, que você seria capaz de destruir a Joia fazendo o tal pedido. Só não sei exatamente como, em qual circunstância... Dessa forma, farei como em meus planos originais. – Todos ficaram ainda mais confusos. O que poderia ser? – Uma série de eventos em cadeia aconteceria após Kikyou perfurar a mim e a Joia com a flecha. Com a intervenção de O-Ren, as coisas mudam um pouco, mas vamos lá! Kagome – chamou-a –, eu preciso que você atire na Joia.
– Espere, espere, Naraku! – protestou novamente o monge. – Antes disso precisamos de explicações! O que vai acontecer? Qual é o seu plano?
– Monge, não atrapalhe! – rebateu ríspido. – Eu não posso revelar-lhes, pois isso pode fazer com que vocês não reajam da forma que reagiriam sem saberem.
– Mas nós não podemos nos atirar nos seus planos de olhos vendados, precisamos saber o que...
– Monge! Eu já disse. Além do mais, de um jeito ou de outro, o que está para acontecer seria de tal modo. Eu preciso que a Kagome acerte a Joia!
– Mas – intrometeu-se a exterminadora –, antes quem atirou a flecha foi a Kikyou, por que agora você está dizendo para a Kagome fazer isso?
– Kagome, Kikyou, tanto faz quem irá atirar essa merda de flecha, pode ser até o Miroku caso saiba, o importante é que alguém atire uma flecha espiritual e perfure a Joia!
– Naraku – chamou-o Byakuya, aproximando-se –, eu preciso falar com você.
– Agora não, Byakuya.
– Mas é urgente!
– Quieto! Kagome, vamos, atire! Lembra-se o que eu lhe disse no dia em que a sequestrei?
A jovem então recordou-se das palavras do vilão:
"Escute menina, você é a única que pode pará-la! Mas lembre-se, deverá deixar de ser tão atrapalhada e se conectar com seu verdadeiro poder! A Kikyou não pode fazer mais nada, ela não mais está habilitada, quando pode, ela errou. Você é a única que pode pará-la, não hesite ao fazer e muito cuidado com suas ações. O destino de todo o mundo está em suas trêmulas mãos. Não se esqueça disto! Não é só a Kikyou, seus queridos também irão sucumbir se você falhar, se eu falhar! Precisão, mulher, precisão! (...)"
– Kagome – continuou ele. – Você está carregando o peso da dor de milhares de pessoas em seus pequenos ombros. Você precisa seguir em frente para salvar a todos, para se salvar! Não recue. Você é a nossa esperança de futuro.
– Kagome! – exclamou Miroku.
– Kagome...! – exclamou Sango.
Pensando no que o vilão lhe dissera, em sua mudança repentina para salvar Kikyou e em tudo o que ele passou para tanto, a colegial resolveu fazer uma objeção sobre a relação do araneídeo com a pérola ³ :
– Naraku, você... Antes de sua redenção, o que você realmente esteve tentando fazer?
– O quê? – incomodou-se o araneídeo, elevando as sobrancelhas.
– Você sempre fez a mesma coisa quando estava lutando contra nós. Você separou o InuYasha e a Kikyou... Forçou os irmãos, Sango e Kohaku, a lutarem um contra o outro... E sempre usou nossos sentimentos contra nós mesmos. Antes, você sempre desdenhava dos nossos laços de amizade e amor enquanto tentava nos dividir. E por quê? Era aquilo que você queria?
– Por que está me perguntando isso agora? – indagou tenso.
– Você não poderia ter feito aquelas coisas sem conhecer o coração de uma pessoa! E conhecer desde sempre, não de um instante para o outro. Você entende a dor da perda porque você sempre soube o quão importante esses laços são! Você não simplesmente caiu em si e se deu conta de que amava a Kikyou. A verdade é que você sempre quis isso e sabia muito bem! – Naraku arregalou os olhos. – A verdade é que a Joia de Quatro Almas nunca concedeu seu real desejo!
– Escute, não é tempo para isso! – rebateu, claramente aturdido. O que Kagome lhe dissera, ele, de certa forma, já estava cansado de saber. No entanto, ter seus sentimentos mais íntimos expostos daquela maneira, sentimentos que ele ainda se esforçava para assumir totalmente para si mesmo, serem lançados em sua cara sem o menor pudor, Mas que garota insolente!, pensou, ah, aquilo o deixara desarvorado. Tentou rapidamente se recompor e voltar a tomar as rédeas da situação: – E você disse muito bem, antes, eu lutava contra vocês; antes, vocês queriam me destruir e eu a vocês. Mas agora, temos que nos unir para derrotarmos o verdadeiro culpado por toda essa tragédia, temos que lutar lado a lado para destruir essa Joia e livrarmos a nós e todo o mundo de sua maldição! Vamos, Kagome, atire!
Apesar dos riscos, da incerteza, a jovem foi até Kikyou e pegou seu arco de volta, pegou a cesta de flechas, a colocando a tiracolo, pegou uma das flechas. Caminhou para frente, ficando a cerca de três metros de Naraku, que esticou o braço direito para o mesmo lado, espalmou bem a mão, pondo a pérola em evidência, e emitiu um olhar firme para a garota, que estava nervosíssima. Os amigos da jovem ficaram em pânico, Sesshoumaru franziu o cenho, o que aconteceria quando a flecha de Kagome perfurasse a Joia? Byakuya estava cutucando seu mestre, tentando fazê-lo dar-lhe atenção, mas ele empurrava-lhe o peito. O ilusionista então perdeu a paciência com o descaso do araneídeo, agarrou-o pelo braço e berrou em sua face, quase assustando-o:
– Naraku!
O meio-youkai aranha finalmente atentou para seu servo, que apontou o dedo para InuYasha, que, displicentemente, havia saído detrás de Miroku e dado alguns passos para frente. Naraku foi levando os seus olhos para o local indicado pelo ilusionista, assim como os outros. Quando o araneídeo viu o humano, espantou-se:
O quê...?! Mas o que é isso?!
Os amigos do canídeo se apavoraram, Sesshoumaru e Kouga pasmaram-se, enquanto InuYasha esboçava uma expressão apreensiva, mas também de enfrentamento, parecia pronto para ser visto naquela forma por seus três grandes inimigos. Entretanto, a última pessoa que olhou, esta sim, teve a mais suprema surpresa: Kikyou. Ela nunca o havia visto como um humano. Apesar de ela saber, InuYasha nunca havia se revelado para a sacerdotisa. O coração da jovem disparou, seus olhos se arregalaram e quase desprenderam lágrimas; seu queixo descarrilou. InuYasha, naquele instante, era um humano. Conforme ela tão fervorosamente desejara há 50 anos. Não resistiu e berrou:
– InuYasha!
Pasma. Boquiaberta. Deslumbrada. InuYasha não lhe era indiferente, fitava a moça de um jeito avassalador. Se encontrarem daquele jeito, seus corpos deram alguns passos à frente, a sacerdotisa chegou a pôr-se próxima à fogueira; suas mentes estavam fora de combate. Ah, aquelas trocas de olhares, aquelas reações, deixaram Kagome desolada. A colegial quase lamuriou ao perceber suas expectativas com o canídeo serem obliteradas naquele instante; e Naraku, ódio. Ódio, ódio, ódio. Seus olhos denotavam uma fúria dragontina, sua boca quase espumava, ele apertou a Joia com força em sua mão, cujas veias explodiam, e que tremia em ira; a pérola começou a escurecer outra vez, depois de todo o esforço que Naraku tivera para salvar Kikyou, ter aquilo como recompensa fora o estopim para o seu ciúme, a cabeça do araneídeo explodia em pensamentos imundos, feito um bueiro entupido. Ódio. O humano InuYasha então deu-se conta de que o outro poderia estar a um passo de fazer algo brutal, tentou apaziguar:
– Naraku! – chamou-lhe a atenção, firme.
O araneídeo surpreendeu-se, não achou que o outro teria coragem de se dirigir a ele. Seus dentes estavam tão agressivamente cerrados que não conseguiu mover a mandíbula para responder algo. O humano continuou:
– Que história é essa de você precisar da Kagome? Você não me disse nada sobre isso.
...
...
...
Quebrar de ondas, brisa e crepitar de chamas. Eram os únicos ruídos audíveis. InuYasha moveu os olhos de um lado para o outro, checando as faces que fitavam-no: uma sacerdotisa abobada, uma colegial triste e assustada, um monge, uma exterminadora, uma gata gigante e uma criança raposa preocupadíssimos, um homem-aranha louco para avançar em seu pescoço, um homem-lobo confuso e um parente com rosto frígido, mas olhar distorcido. Respirou fundo e cobrou mais uma vez de seu maior inimigo:
– Naraku.
Ele finalmente disse algo, baixo, balbuciando:
– O... M-Meidou... Meidou Zangetsuha...
– O quê? – indagou.
– Byakuya! – bradou por seu servo, enlouquecido, estilhaçando de vez a quietude na praia.
O ilusionista pôs-se à frente de seu mestre, que logo o repreenderia, e pela primeira vez, extremamente fulo da vida, cuspindo fogo; mas sussurrou, em estado de cólera, para ninguém mais ouvi-lo:
– Mas que merda é essa, seu imbecil?! – Seu rosto parecia intacto, falava abrindo a boca o mínimo possível, mas suas mãos se pressionavam fortemente, as veias de seu pescoço estavam ultra exaltadas e seus olhos pareciam inflamados.
– Naraku, e-eu tentei avisá-lo... – gaguejou.
– Seu estúpido! Imbecil, imbecil! Será que você... Será que você tem alguma ideia... Do que teria acontecido... Se ela tivesse me acertado com aquela flecha?!
– E-E-Eu sei, mas...
– Nãão! – Fez uma ligeira pausa e continuou, vociferando aos sussurros: – Não! Você não tem! A única coisa que você tem nessa sua cabeça é um monte de esterco, seu lacaio ignorante! Seu miserável, seu estúpido, imbecil, inútil...!
– N-Naraku...! – apavorou-se, pela primeira vez, o ilusionista sentiu-se realmente humilhado por seu mestre.
– Eu não acredito, eu não acredito...! Todo o meu empenho por um triz não foi para lama! Não, mas você não tem culpa, o estúpido mesmo deve é ser eu, afinal, como pude confiar uma tarefa tão complicada a alguém tão incapaz! – ironizou. – Escute aqui – nesse instante, o araneídeo segurou agressivamente seu servo pela nuca e quase lhes colou os narizes –, a vontade que eu tenho é de arrancar o seu coração, engoli-lo e digeri-lo enquanto ainda pulsa, e ver você, você, seu verme relaxado e lazarento, morrendo... Aos poucos!
– N... N...
O araneídeo então largou-o e deu-lhe as costas, tentando se acalmar. Enquanto isso, o ilusionista estava, indescritível. Seus olhos, brincalhões, estavam baixos e imbuídos num misto de vergonha e raiva, os lábios rubros brutalmente cerrados, o pescoço duro e a testa franzida, chegava a suar frio. Percebendo o quanto havia se excedido e o fato de o ilusionista poder "aprontar" em nome de vingança, o meio-youkai aranha tentou abrandar:
– Ei... – falou terno, voltando-se para ele novamente. – Ei, olhe para mim – pediu, segurando o rosto do jovem e não o deixando desviar o olhar. – Eu... Perdoe-me...! – pediu, aparentemente sincero. – Perdoe-me! – Encostou-lhes as testas. – Você sabe, você sabe o quanto estou à flor da pele! E o quanto é especialmente difícil para mim esta condição. O que lhe disse foi apenas uma tentativa inconsciente de me aliviar um pouco. Deu errado, por aquilo nenhum de nós poderia esperar, imagine, o InuYasha humano logo hoje! – riu-se, afastado o rosto. – Mas nós somos espertos. E acharemos uma solução. Afinal, está tudo bem, certo? – indagou, sem obter resposta. – Certo? – insistiu firme, balançando-lhe a cabeça.
O ilusionista então assentiu, com dificuldade. Naraku suspirou fundo e começou a dar-lhe novas instruções. Enquanto isso, os outros, naquele mesmo estado de tensão dantesca, Kikyou já havia "despertado", percebera o quanto a aura pura da Joia havia sido afetada devido a reação que teve ao olhar o InuYasha humano, provocando assim a ira do meio-youkai aranha; Kagome estava embaralhada, os olhares daqueles dois um para o outro e a tal "esperança de futuro"; Sesshoumaru estava pensando em ir brigar com seu irmão, mas sabia que aquele, definitivamente, não era o momento; Kouga também queria se embolar com o humano, "Que estranho que você está, cara de cachorro!", chegou a provocá-lo. Sango, Miroku e Shippou não sabiam o que fazer, apenas ficavam cochichando milhares de possibilidades aterradoras.
Eis que então, finalmente Naraku pronunciou-se e, sem mais rodeios, dirigiu-se ao humano com solidez:
– InuYasha! Você está desprovido de suas "super orelhas", mas escutou muito bem o que eu disse sobre a menina Kagome, certo? – indagou, fingindo que tudo estava na mais absoluta normalidade.
– Sim – confirmou.
– Então, é isso! Preciso que a Kagome atire na Joia, mas antes... Antes preciso que você abra o seu Meidou Zangetsuha.
– O quê?! – espantou-se. – Por quê?
– Não faça perguntas, InuYasha, eu já disse. Abra o Meidou.
– Eu não vou abrir coisa alguma sem saber o que irá acontecer! – replicou, avançando alguns passos na direção do outro, tencionando-o. – Além do mais, todos sabem que não posso manejar a Tetsusaiga nesta forma – conclui.
– Certo, mas eu também sou um meio-youkai, basta que...
– Há! Eu nunca permitiria que você chegasse perto da Tetsusaiga, mas nem nas piores circunstâncias!
– Então, permita-me que chegue perto de você.
– O quê?!...
– InuYasha, eu posso elevar a sua energia demoníaca. Através de mim, você pode voltar a ser meio-youkai, mesmo nesta terrível ocasião. Apenas tem que permitir que eu o execute – concluiu, fletindo uma sobrancelha.
– Em outras palavras – intrometeu-se o monge –, confiar em você?
– Ora, eu já dei mais do que provas de minhas intenções. E agora estou aqui, implorando humildemente pela cooperação de vocês. Por favor, não me obriguem a agir de forma incorreta.
– Escute aqui – rebateu o humano –, nós não podemos fazer nada sem saber o que irá acontecer. Mas você sabe! Diga que nós pensaremos se é algo plausível.
– InuYasha! – vociferou o araneídeo. – Por favor, não me atormente! Eu já disse que o único jeito de destruir a Joia e salvar o nosso futuro é através do meu plano, assim como já disse que se eu contar-lhes algo, estaremos correndo ainda mais riscos.
– Que riscos são esses?! – insistiu o humano. – Vamos, vamos, diga logo!
– Não...! Não posso dizer – insistiu o araneídeo, entre os dentes.
Tensão, tensão e tensão. InuYasha olhou para Kagome, olhou para Kikyou; olhou para Kagome, olhou para Naraku. Kikyou olhou para InuYasha, olhou para Naraku; olhou para InuYasha, olhou para Kagome. Naraku olhou para InuYasha, olhou para Kikyou; olhou para InuYasha, olhou para Kagome, olhou para InuYasha. Miroku, Sango e Shippou olharam para InuYasha, olharam para Naraku; olharam para InuYasha, olharam para Kagome, se olharam. Sesshoumaru e Kouga olharam para Naraku, olharam para InuYasha; olharam para Naraku. E Byakuya? "Onde está o Byakuya?". Byakuya havia saído à francesa – simplesmente desaparecera, algo singelo para um demônio das ilusões. Percebendo que não haveria acordo e que a retaliação do araneídeo seria uma dramática e dispensável situação, o humano InuYasha tomou uma decisão: puxou sua espada da bainha e a direcionou a ele, mantendo o braço abaixado.
– Gente – intrometeu-se Miroku, outra vez –, ainda falta tempo para amanhecer, enquanto isso, por que não voltamos para...
– Não! – retrucou o meio-youkai aranha, feroz. – Não posso esperar mais um instante! – conclui, observando o quanto o esplendor negro tentava dominá-lo.
Aquilo estava extremamente perigoso, a Joia quase infectada parecia ter posse sobre o araneídeo, ela parecia bloquear sua capacidade de reação e, no intuito de se proteger, poderia tentar manipulá-lo. Naraku sabia que, caso os níveis de seus ressentimentos continuassem a se majorar daquela forma, a Joia poderia tentar obrigá-lo a seguir "outra rota". Ele então foi se dirigindo para InuYasha, lentamente, seus olhos dilatavam e comprimiam, seu coração estava disparado, seus dentes super cerrados e suas sobrancelhas exaltadas; o humano parecia lhe retribuir. Os outros, desesperados; Sesshoumaru apreensivo.
Ao chegar bem perto, Naraku passou a pérola para sua mão esquerda e com a direita afastou, suavemente, a manga do quimono do jovem e segurou-lhe o pulso, tenuemente, encaminhando-se para trás dele; colou seu peito nas costas do outro, apoiou seu nariz no ombro do rapaz, percebendo o cheiro de humano que ele exalava. InuYasha entrou em pânico, sua respiração ficou ofegante, sabia que, se o araneídeo quisesse matá-lo, não teria a menor chance de se defender. E era bem isso que o vilão desejava, porém não o realizaria; porém não poderia deixar escapar aquela portentosa oportunidade de aterrorizá-lo. Aproximou a boca da orelha humana de InuYasha e começou a ameaçá-lo, com a voz baixa, rouca, mansa, e aterradora:
– Seu maldito...! Sabia que, caso eu julgasse pertinente, o esmagaria feito um verme...?!
InuYasha nada dissera, apenas tentava captar a face do outro por sua visão periférica, espiando-o pelo canto dos olhos. Naraku passou sua mão esquerda, fechada, segurando a Joia, para frente e a apoiou sobre o estômago do outro, espremeu-lhe o pulso fazendo a mão do jovem começar a fragilizar, a espada queria escoar por ela.
– Eu poderia destruí-lo neste exato instante, transbordá-lo em miasma, você nem sentiria de tão rápido, não! Eu gostaria de enterrá-lo vivo, queria saber que estava agonizando dentro de uma tumba, mas eu queria ver, presenciar cada estágio de sua expiação. Ah, como eu queria matá-lo...!
E a Joia escurecia mais, sua cor: roxa, encaminhando-se para a negridão absoluta. InuYasha continuou quieto, "Faça isso e ganhará o ódio de Kikyou para sempre!", pensou em rebater, mas nada disse. Não sabia se o que mais o incomodava era sua vulnerabilidade ou os sussurros medonhos de Naraku em seu ouvido. Eis que um chamado despertou a atenção do araneídeo:
– Naraku! – exclamou a sacerdotisa, austera.
Sempre querendo proteger o seu amado, não é?, irritou-se mais.
No entanto, a bela fez um movimento com os olhos que o surpreendeu: o atentou para Kagome, que estava com uma flecha apontada para ele e com uma expressão bem hostil. E não era só ela, olhou para trás, Miroku lhe apontava pergaminhos, Sango estava com seu Osso Voador empunhado, Kirara em posição de ataque e Shippou com um monte de brinquedos nas mãos. Estaria Kikyou querendo protegê-lo? Ou estava fingindo protegê-lo para acastelar InuYasha? Ou pretendia tutorar ambos? O araneídeo então parou de ameaçar o humano, cessou o excesso de força no pulso do jovem e começou a elevar sua energia youkai: uma luz roxa o adornou, seus cabelos começaram a se projetar para o alto e suas roupas sacudiam, como em um vento canalizado. Sob os olhos atentos de todos, os cabelos de InuYasha ascenderam e começaram a clarear, sua energia demoníaca despertara. Enquanto isso, Kikyou ficava alucinada em seus pensamentos:
Que coisa, num instante atrás as intenções do Naraku em me proteger elevaram a Joia ao mais perfeito brilho e, agora, ela está enegrecida outra vez. Como seu coração é instável! Num instante, a devoção mais excelsa, no outro, o ódio mais hediondo. Em todos nós, sejamos humanos ou youkais, os sentimentos são oscilantes, mas no seu caso é assombrosa essa mudança de estágio. Enquanto isso, sua mente parece nunca se perder. Como pode um homem possuidor de uma mente tão fria ter um coração tão transtornado e tão necessitado de amar? Um homem que tem uma geleira na cabeça e um vulcão no peito... E o calor derrete o gelo, e o gelo derretido se converte em água, que arrefece o calor; mas o contato da lava ardente com a água enregelada pode provocar violentas explosões, e essas explosões liberam cinzas, cinzas negras que mancham o branco da neve. "O que é puro se torna sujo, o sujo se purifica; O que é bom se torna mau, e o mau se transforma em bom ¹¹ ". Naraku, você é um mistério para mim. Num instante me mata, no outro me ama, no outro deseja meu mal novamente enquanto se exaure para me proteger. Naraku, a contradição encarnada. Eu tenho a impressão... Que você me instiga!
E a energia youkai ia elevando-se cada vez mais, InuYasha já havia voltado a ser meio-youkai, no entanto, aquela egrégora demoníaca, incrementada com a Joia em corrupção o embevecera, juntamente com o araneídeo. Ele e InuYasha trocavam energia e, ligados, ambos começaram a avançar a fronteira que os separa de serem youkais completos: os dentes do canídeo ficaram mais graúdos, um raio verde se desenhou sobre a maçã de cada lado do rosto; os cabelos de Naraku começaram a empalidecer, sua pele começou a tomar tom de madeira e sobre suas maçãs, uma marca vermelha se desenhou ¹² . A energia youkai no ambiente estava demasiada, isso sem falar no brilho negro da pérola, todos ficaram ainda mais em alerta, estariam eles se fundindo? Isso seria arrasador, só houve um jeito de romper aquilo: Kagome começou a bradar por InuYasha, provocando interferência. Mas Naraku não cedia. Kikyou então começou a bradar por seu nome. Ela está chamando por mim!, animou-se, detendo de vez o excesso de energia e clareando um pouco a pérola.
Finalmente alinhados, o canídeo então ergueu sua espada, o araneídeo moveu a cabeça discretamente para seu servo, que estava a cerca de trinta metros sobre si; ninguém mais o percebeu. O canídeo suspirou fundo e mandou:
– Meidou Zangetsuha!
Abriu-se então um imenso orbe negro. Todos olharam atentos esperando algo acontecer. Nada, a ação mesmo ocorria no lado oposto do Meidou: Byakuya desapareceu no céu, reapareceu ali e puxou a espada em suas costas, ela não possuía lâmina. Ele então colou a base da espada no Meidou e, ao retirar, surgiu uma lâmina negra nos moldes da técnica, ele havia roubado uma porção de sua energia demoníaca ¹³ . O ilusionista então obscureceu-se outra vez, enquanto o círculo negro desaparecia. Naraku então soltou o pulso de InuYasha, imediatamente ele caiu devido a retirada brusca da potência demoníaca. Kagome, Sango, Miroku, Shippou e Kirara correram para ajudá-lo.
– Naraku! – chamou-lhe, agora novamente humano. – E então? – cobrou-lhe enquanto erguia-se. – Você disse que eu deveria liberar o Meidou, mas não aconteceu nada.
– Eu não disse que aconteceria algo – retrucou ríspido. – Não agora.
Ele então caminhou até cerca de cinco metros para frente, virou-se e outra vez esticou o braço, agora o esquerdo, para o mesmo lado, espalmou bem a mão, pondo a Joia em destaque e lançando um olhar sedutor para a colegial.
– O que irá acontecer?! – insistiu o monge.
– Ora, vamos lá, agora já é tarde demais para se arrependerem – mentiu, no intuito de não deixá-los vacilar.
Naraku continuou olhando para Kagome, feito um réptil no limiar do bote, ela estava extremamente receosa, bem como seus amigos, ela deu um passo à frente e InuYasha a segurou pelo braço, "Kagome...!", chamou, ela apenas sorriu sutilmente e assentiu com a cabeça, decidida. Deu uns bons passos para frente, pondo-se no mesmo eixo da Joia, a cerca de três metros desta, posicionou a flecha no arco e forjou uma expressão de confiança enquanto alinhava a postura. Afinal, o que aconteceria quando a flecha de Kagome perfurasse a pérola?
Ela então disparou, estranhamente a flecha pareceu ir em câmera lenta no princípio, e, em sequência, uma série de acontecimentos milimetricamente exatos: Kagome atirou a flecha, que perfurou em cheio a Joia e, vindo do nada, Byakuya empunhou sua espada e cortou as costas da garota, que caiu de joelhos no chão. No que talhou a colegial, o ilusionista girou no ar e pousou ao lado de seu mestre.
– Seu maldito! – berrou Kouga. – O que foi que você fez?!
Naraku nem lhe deu atenção, observava a Joia flutuar no ar, atravessada pela flecha, desprendendo descargas elétricas, enquanto os amigos de Kagome, que aparentemente estava intacta, tentavam entender o que havia acontecido. Naraku então envolveu a Joia em uma barreira de cerca de um metro de diâmetro e moveu os olhos para seu servo, que fez seu olho direito sair do rosto e também entrar na barreira. E todos olhavam atônitos. Eis que o araneídeo agarrou seu servo pelas costas e prolongou dois dedos de sua mão direita como tentáculos, os enfiando na cavidade ocular do outro. Naraku então fechou os olhos e fez sua barreira ser impulsionada com extrema velocidade, a Joia perfurada saiu feito um raio da praia. O meio-youkai aranha tentava acelerar ainda mais, chegando a começar a afundar no chão com seu servo, enquanto uma luz roxa adornava seu corpo e um canhão de vento elevava-lhes os cabelos e as vestes. Mais rápido, mais rápido!, resmungava o araneídeo para si, a Joia estava viajando a cerca de 300 quilômetros por hora, e ia aumentando. Temendo uma queda brusca de energia em função do esforço excessivo, o meio-youkai aranha decidiu não acelerar mais. E lá ia a Joia, rasgando o manto azul profundo e assinalando um rasto lilás na abóbada celeste. O olho direito de Byakuya servia ao araneídeo como guia, enquanto este estava ligado ao ilusionista inserindo os tentáculos em sua cavidade ocular. É óbvio que o youkai nunca gostava disso nem um pouco. E lá continuava seu mestre, posicionado atrás de si, a mão esquerda segurava-lhe a mandíbula com força e a direita os ligando. Fora, aquela energia toda e a bizarra ventania.
Enquanto isso, todos olhavam alarmados, como sempre, o que Naraku pretendia? Para onde estava enviando a Joia? E eles esperaram. Esperaram, esperaram, passou-se cerca de meia hora, uma hora, eles chamavam pelo araneídeo, que nada respondia. Para ficar mais confortável e protegido, ele ergueu uma barreira entorno de si e de seu servo, que ficaram flutuando lá. Naraku agora estava com o corpo meio encolhido e sua mão esquerda estava fechada com força sobre o abdômen do ilusionista. E o tempo passava, e aparentemente nada acontecia. E enquanto o meio-youkai aranha estava naquela inércia, Sesshoumaru não parava de espreitar InuYasha, que estava posicionado perpendicularmente ao quebrar das ondas. Kouga também o espreitava, porém bem menos hostil. Kagome estava à direita de InuYasha, Miroku à esquerda, Sango à frente e atrás do humano, quilômetros de areia; InuYasha parecia estar sendo escoltado, como se aquilo adiantasse algo caso Sesshoumaru resolvesse quebrar a trégua. Kikyou estava sentada na areia, ainda próxima a fogueira, suas pernas estavam flexionadas e voltadas para sua esquerda e as mãos pousadas sobre o colo; volta e meia ela olhava para o céu; e depois olhava para Naraku, e depois para InuYasha, que olhava para ela e Kagome entristecia, e ele se retratava, felizmente Naraku não podia perceber aquilo. Kouga estava próximo a Kikyou, à sua direita, do outro lado da fogueira, de pé, com as pernas bem separadas, olhar arredio e os braços cruzados. E não tirava os olhos de InuYasha. Sesshoumaru parecia uma estátua, não saíra do lugar nem se pronunciara desde quando chegou. E não tirava os olhos de seu "adorado" meio-irmão.
E o tempo continuou passando, duas horas, três. Eis que finalmente a antemanhã os agraciou, as sombras da noite foram empalidecendo e abrindo caminho para a estrela magna. Mais um pouco, mais um pouco, e finalmente a manhã resplandeceu. O homem cachorro iniciou sua transmutação: seus cabelos perderam a negridão; seus olhos ônix negros se converteram em pepitas de ouro; suas garras expandiram, seus caninos expandiram e suas orelhas canídeas desabrocharam. Ah, finalmente um alívio para seus amigos. Kikyou esboçou um semblante de decepção, como quem desperta de um sonho bom. O meio-youkai aranha continuava lá, ligado a seu servo e impulsionando a Joia, ele já estava extremamente exaurido, suava, tremelicava, mas continuava sem vacilar. E Byakuya não aguentava mais, no entanto, não podia reclamar. Lá para o início da manhã, no vilarejo de Kaede, a anciã caminhava nas proximidades do poço Come-Ossos. Eis que uma presença conhecida chamou-lhe a atenção: ela viu a Joia de Quatro Almas, adornada por uma barreira, perfurada por uma flecha e com um youkai olho a guiando, agora já estava meio devagar. A pérola então posicionou-se sobre o poço.
– Finalmente! – exclamou Naraku, desarmando sua barreira e largando seu servo.
Do outro lado, a barreira entorno da Joia também fora desfeita e o olho de Byakuya saiu de perto. A pérola então desapareceu. Na praia, InuYasha e seus amigos mantinham suas posições anteriores, mas desta vez espalhados, meio em roda. No que Naraku disse "finalmente", eles se alertaram, Kikyou se ergueu e Kouga e Sesshoumaru também se alarmaram. Eis que então, vush! Um imenso orbe negro abriu-se atrás de Kagome.
– Meidou?! – berrou o cão.
A garota então começou a ser puxada para dentro da esfera, InuYasha tentava desesperadamente alcançá-la. Naraku então saltou até lá, agarrou a jovem pela cintura e os fez adentrar de vez, enquanto o Meidou desaparecia e o canídeo ficava à deriva.
– Kagomeeeeeeeee! – bradou, enquanto o terror alastrava-se por sua mente.
-:- CONTINUA...
¹/¹² "InuYasha Kanketsu-Hen", episódio 24: O desejo incerto de Naraku.
² "InuYasha Kanketsu-Hen", episódio 03: Meidou Zangetsuha.
³ Adaptado de: Kagome e Naraku, no episódio 24 de "InuYasha Kanketsu-Hen": O desejo incerto de Naraku.
¹¹ "InuYasha", poema/canção comumente reproduzida na fase do Monte Hakurei, 4ª temporada, episódios 102 (Yourouzoku atacado por um bourei / Os Youkais Lobos são atacados por um zumbi) ao 124 (Adeus, Kikyou, minha amada / Adeus, minha querida Kikyou).
¹³ "InuYasha Kanketsu-Hen", episódio 23: Naraku: a armadilha da luz.
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NOTA: Pessoal, fiz alterações nas fanfics. Na parte II, umas sutilezas, o erro que eu havia cometido e lá no início, antes de eles começarem a "ação"; estava estranho e fora de contexto; apesar de já ter postado a fanfic há tempos, resolvi modificá-la. Na parte III, no capítulo 4, também no início, sobre a transferência de almas, e no capítulo 11, no diálogo entre Naraku e O-Ren sobre a concretização disto. Fiz isso após ter revisto o episódio 165, "A maior pista para derrotar Naraku". Nele, Miroku explica que as almas são compostas por duas partes: Kon, que é a alma propriamente dita, e Haku, a força que capacita os corpos a se moverem. Nesse sentido, ficou errada a maneira como eu escrevi na fanfic; então, mais um erro, concertado.
Primeiro atraso por pura negligência, os demais por motivo de força maior; acostumem-se, isso será mais do que corriqueiro daqui para frente, mas prometo tentar não deixá-los esperando por dois meses inteiros. Outra coisa, alguém sabe se depois da fase do Monte Hakurei o Naraku ainda possui a marca da aranha? Previsão da próxima postagem, ano que vem, dia 06 de janeiro. Até lá!
