Adaptação da obra literária "Se nada der certo até os 30, casa comigo?", de Karina Halle.
CAPÍTULO DEZ
Isabella
– UM TOSTÃO PELOS SEUS PENSAMENTOS – Mike diz antes de dar uma gargalhada. Olha para Leah quase caindo em cima da mesa de piquenique, e diz: – Me desculpe, Leah, você deve ouvir isso o tempo todo e achar que as pessoas estão falando com você.
– Nem tanto quanto você pensa – ela diz com ironia, e pela expressão do seu rosto sei que acha Mike um completo imbecil.
Gostaria de não concordar com isso a metade do tempo.
Estamos sentados à mesa do piquenique, junto ao chalé, em frente a um buraco de fogo que está ardendo. Está escuro aqui fora, as cervejas e os vinhos estão espalhados, bem como a mistura de ingredientes para nossas pouco entusiasmadas tentativas de fazer S'mores, as típicas guloseimas de acampamento. O vento fustiga só de vez em quando, e, embora esteja gostoso em frente ao fogo, assim que você se afasta dá para sentir aquela friagem de final de outono, vinda do Pacífico.
Eu deveria estar totalmente relaxada e no meu elemento. Adoro estar perto do mar. Adoro as qualidades calmantes e regeneradoras das ondas, a maneira como elas parecem limpar você cada vez que se quebram. Adoro o vento no cabelo, o ar fresco nos pulmões, e aquela sensação feliz de liberdade, quase surreal, que se tem quando se está ao ar livre, contemplando o céu escuro, cheio de estrelas.
Contudo, não estou nem um pouco relaxada. Pensei que neste fim de semana eu passaria o tempo todo distraída com o trabalho, com a culpa de ter fechado hoje e do dinheiro que perdi. Mas isso nem entrou na minha cabeça por mais de um segundo. Bom, pouco mais de um segundo. A verdade é que minha cabeça está toda tomada por Edward. Literalmente invadida por cada olhada, cada toque e cada palavra que ele me dirigiu. Este é o motivo de por que eu nunca diria a Mike em que estou pensando, fosse por um tostão de cobre ou por um maço de mil notas de dólares. É errado e ruim, mas não posso fazer nada.
Não consigo mais entender meu melhor amigo. Às vezes, quando ele me olha, juro que algo nele mudou. Os olhares são mais intensos, seus olhos parecem derretidos e intensos. Sexuais. E gosto disso. Amo isso. Quero isso. Quero que haja essa mudança, que isso seja algo porque então, talvez, talvez eu aja de acordo. Eu aceitaria o risco de torná-lo mais do que um amigo.
Mas aí é que está o problema. Como é que você garante que alguém sente a mesma coisa por você sem dizer a ela como você se sente? Não estamos no ensino fundamental. Não posso pedir que Jacob tente descobrir. Antes de mais nada, às vezes tenho a sensação de que Jake esteja um pouco desconfiado do meu relacionamento com Edward, e sei que não tem como ele aceitar isso. Só que, se eu contasse a Edward como me sinto e ele não sentisse a mesma coisa, isso acabaria com a nossa amizade. Acabaria com tudo o que temos entre nós, sem falar nos relacionamentos em que estamos.
No fim das contas, não tenho muita certeza de que algum dia possa fazer algo a respeito. Só estou vendo coisas que quero ver e vivendo no mundo da fantasia. A realidade é bem diferente. Minha realidade é o meigo, mas estúpido, Mike, com sua pele de bebê, luzes de morrer e um eterno comportamento de verão. A realidade de Edward é Tanya... E não posso, de fato, mencionar nenhum adjetivo positivo em relação a ela.
Agora, porém, me pergunto se Edward vai ficar com ela, caso aconteça de ele estar infeliz. Sob certos aspectos, nem consigo acreditar que ele tenha admitido isso para mim. Costumávamos conversar sobre nossas vidas amorosas, mas tudo isso mudou no último ano. Agora, é como se fosse um assunto proibido, o que só serviu para aumentar a distância entre nós.
Não que eu queira ouvir sobre ele e Tanya, em especial se estiverem felizes. E não quero mesmo ouvir sobre a vida sexual dos dois. Edward era conhecido por ser extremamente disponível a esse respeito, e hoje de manhã pude ouvir algum tipo de atividade sexual ocorrendo no quarto deles, culminando com gemidos de Edward, som que me deixou tão excitada que tive que correr pro banheiro e me masturbar antes que ensopasse minha calcinha.
Entretanto, ainda que eu não queira ouvir sobre o relacionamento deles, quero saber que ele está feliz. Que está bem. Quero me sentir íntima dele de novo. E acho que quero saber se toda aquela história de pacto foi uma coisa que algum dia ele levou a sério. Fico me perguntando se ainda vale caso fiquemos solteiros agora, aos 30 anos. Se eu terminar com Mike e ele terminar com Tanya – tudo no decorrer normal dos acontecimentos –, isso significaria que o pacto ainda seria cumprido? Ele ainda pensaria a sério em se casar comigo? Eu poderia pensar a sério em me casar com ele?
Poderíamos, pelo menos, trepar feito loucos até decidirmos o que fazer? Porque esse, esse parece o melhor pacto de todos.
– Acorda, Isabella. – Jacob acena a mão na frente do meu rosto.
Está sentado à minha frente, com Leah de um lado e Edward do outro. Mike está ao meu lado, e Tanya ao lado dele e em frente a Edward. O canto em que estão na mesa parece um pouco tenso, mas estou percebendo que o relacionamento deles é assim. No entanto, tenho evitado cruzar olhares com Edward. Desde que fomos para Gualala, Tanya tem nos vigiado como um falcão. Fico surpresa de ela não ter nos espionado enquanto estávamos na praia.
– Desculpe – digo, limpando a garganta. – Estava um pouco distraída.
– Pensando no trabalho? – ele pergunta, com uma compreensiva inclinação de cabeça.
– É – respondo. Também não gosto de mentir para Jacob, mas assim é mais fácil.
Leah debruça-se sobre a mesa e diz:
– Vamos jogar o Jogo da Verdade. Você topa?
Levanto a testa e dou um gole na minha cerveja amarga.
– Olhe, sei que eu disse que a idade não é nada além de um número, mas...
– Ah, vai ser divertido – ela diz.
Tudo parece divertido para Leah. Dos três casais à mesa, espero (e aposto) que ela e Jake irão longe. O casamento deles seria mesmo de arrasar. Dou de ombros:
– Tudo bem. Só espero que a gente tenha cerveja suficiente para enterrar toda a vergonha que virá depois.
Edward dá um tapinha no engradado que está no chão, ao lado da mesa.
– Não se preocupe com isso.
Nossos olhares se cruzam por um segundo, e depressa desvio os olhos. É mais desconfortável fazer isso do que contemplar seu rosto preocupado no escuro, o maxilar masculino iluminado pelas chamas.
O jogo, como suponho que aconteça em todos os jogos da verdade, começa bem inocente. Quando escolhemos "desafio", cacarejamos como galinhas (eu), viramos uma garrafa inteira de cerveja (Leah) ou mostramos a bunda para todos (Jacob). Quando escolhemos a verdade, contamos um ao outro que fomos pegos roubando em loja no décimo ano (eu), fingimos orgasmos quando estávamos chapados demais pra gozar (Mike, o que, de fato, não me surpreende) e corneamos durante a faculdade (Tanya).
Depois, vem uma rodada bêbada.
– Mike – Jacob pergunta –, se você tivesse que transar com qualquer uma das meninas que estão aqui, tirando a sua namorada, quem escolheria?
Meus olhos se arregalam. Estou curiosa pelo que ele vai dizer, mas mesmo assim é um tanto invasivo. Mike ri, porém, e aperta minha coxa para me tranquilizar antes de responder:
– Esta é uma escolha difícil, cara. Sua namorada é um tesão. De verdade. – Leah enrubesce constrangida ao ouvir isso. Não acho que alguma vez eu a tenha visto parecer constrangida. – Mas a Tanya tem um estilo incrível.
O quê? Ei, dá um tempo. Desde quando se vestir como uma patricinha mimada tem a ver com estilo? Eu tenho uma maldita loja de roupas descoladas!
– Além disso, acho que essa pentelha é meio gostosa – acrescenta.
Agora Tanya, que estava parecendo muito superior com o comentário sobre estilo, olha fixo para ele:
– Não sou uma pentelha. Só sei o que quero.
– Claro – diz Mike –, mas você bem que poderia ser um pouco mais simpática em relação a isso.
Observo a reação de Edward, não consigo evitar. Está literalmente sorrindo. Não, está rindo. Por uma vez, Mike é perfeito.
– Isso não responde a minha pergunta – diz Jacob.
– Não posso só dizer que transaria com as duas, de preferência ao mesmo tempo?
Jake revira os olhos:
– Você ficou em cima do muro.
– Tudo bem, minha vez – diz Tanya depressa, ainda que não seja a vez dela. – Tenho um desafio pra você, Mike. Quero que beije Leah. Beijo de língua.
– Uau! – Jacob diz, fuzilando-a com os olhos. – Isto é forçar um pouco, não acha? E não é assim que o jogo funciona.
– Tem medo de que ela goste? – ela retruca com arrogância.
– Eu topo – Leah diz, cutucando Jake do lado. – Ei, cresça. É só um beijo.
– O nível de maturidade desta mesa me deixa perplexo – Edward comenta.
Agora, todos me encaram, acho que esperam que eu proteste ou pelo menos diga que é esquisito e inaceitável. O fato é que, quando imagino Mike beijando Leah ou transando com ela e com Tanya, como ele mencionou antes, não sinto nem mesmo uma pontada de desconforto. Nem ciúmes, nem nada.
– Por que vocês todos estão olhando pra mim? Não ligo – comento. Não é a melhor demonstração do meu amor por ele, mas que seja. – Beije logo. Ele é bom nisso. – Acrescento essa última parte para Leah e pisco para ela, sobretudo para irritar Jake.
Leah começa a se debruçar sobre a mesa em direção a Mike, mas Tanya dá um gritinho:
– Não, faça direito! Vocês têm que ficar de pé.
Tanto Leah quanto Mike suspiram, exasperados pelo fato de que têm que se mover. Eles se encontram na ponta da mesa, bem ao meu lado, então estou na fila do gargarejo. Mike agarra-a pela cintura, Leah agarra-o pelo rosto. Os dois dão risinhos nervosos, olhando tímidos para nós, antes do beijo. Ele começa lento e desajeitado, fica um pouco mais intenso quando dá para perceber que suas línguas estão entrando em ação, e termina num tom doce.
– Nada mal – Leah diz, limpando a boca com o dorso da mão. – Firme, mas tenro.
– Então, beijar Mike é como beijar um filé de carne?
Mike levanta os polegares para Jacob:
– Muito simpática a sua senhora.
– Senhora? – Leah repete. – Ah, cara.
Eles voltam a se sentar e o jogo prossegue. Jake não parece mais incomodado com o que houve, e, para ser honesta, continuei sem sentir nada enquanto assistia àquilo. Foi meio esquisito, como se eu estivesse observando uma espécie de experimento sem conseguir os resultados pretendidos. Será que eu queria que ele gostasse daquilo, que quisesse beijar Leah? Queria aquilo como uma desculpa para romper, para dizer que não fomos feitos um para o outro?
Acho que por causa do exagero do último desafio, por um tempo as coisas voltaram para a confissão da verdade. Estamos todos evitando riscos, agora, fazendo perguntas fáceis, aquelas que você não liga de responder com sinceridade desde que esteja entre amigos.
Então, chega a vez de Leah. Ela bate as mãos animada e se remexe em seu lugar.
– Ah, isto vai ser bom. – Ao dizer isso olha para mim. Posso ver o reflexo do fogo em suas lentes. – Quero que você, Bella – aponta para mim – beije Edward. – Seu dedo muda para ele.
Estou chocada demais para falar, mas Tanya não.
– Ele não vai beijar ela! – exclama com repulsa.
– Ei! – Não posso deixar de protestar, cansada da maneira como ela vem se referindo a mim.
– Mais uma vez – Jacob diz, de saco cheio –, não é assim que se joga este jogo.
Leah bate na mesa com as mãos e se debruça para poder olhar Tanya nos olhos, de forma ameaçadora, fazendo a loira se encolher um pouco.
– Por que ela não pode beijar Edward? Você me fez beijar Mike, o namorado dela. Acho que agora ela deveria beijar o seu namorado.
Sei o que Leah está fazendo: ela quer igualar as coisas e ao mesmo tempo, acho, irritar Tanya. Eu poderia beijá-la por isso, mas também meio que a odeio por me fazer beijar Edward. Porque, quero dizer... não posso fazer isso. Não posso nem pensar nisso.
De repente, sinto baterem no meu ombro. É Edward. Ele se levantou e está parado atrás de mim, me esperando.
– Espere aí – digo, e olho para Mike, porque no mínimo ele vai protestar tanto quanto Tanya.
Mas Mike está me olhando, na verdade sorrindo com aquele maldito sorriso pateta, e acenando com a cabeça como se esta fosse a ideia mais incrível no mundo.
– Vá em frente – diz e me cutuca com o braço.
Puta que pariu, obrigada, penso comigo mesma, e me levanto devagar, procurando o tempo todo não olhar para Edward. Também não posso olhar para Tanya, porque ela está com os braços cruzados à frente do peito, e estou paranoica que ela possa pegar a garrafa de cerveja vazia ao seu lado e atirar em mim. Sei que, se ela fizesse isso, Leah me protegeria em um segundo, mas ainda assim... Poderia quebrar meu nariz, e meu nariz é bonitinho.
Edward agarra minha mão, literalmente a agarra, como se isso fosse uma coisa que fazemos, agarrar mãos, e me puxa para ele.
– Vamos lá – diz para mim com aquele sorriso satisfeito que é sua marca registrada. – Não sou tão horroroso, sou?
Não, penso, enquanto olho para seu rosto e sinto o calor da sua mão transferir-se para a minha, aquecendo todo o meu braço, depois meu peito, e meu corpo. Não, você não é nada horroroso. Esse é o problema.
Leah começa a bater palmas com excitação.
– Ora, ora, vamos logo com isto.
Não consigo nem olhar para ela; meus olhos estão presos nos de Edward. Ele me fita com tal sinceridade que é difícil acreditar em qual seja a verdade. Este é um desafio e somos só amigos. Não fazemos isto, não importa quantas vezes sonhei, pensei e me masturbei por isto, não fazemos isto.
Mas as mãos dele sobem para o meu rosto, segurando minhas faces, e suas palmas são tão grandes e quentes que sinto meus nervos faiscarem, e se crisparem, e iluminarem todo o meu corpo. Segura-me ali da maneira mais terna e desarmada, como se tivesse o dever de me proteger, de cuidar de mim. Seus olhos, porém... Seus olhos estão qualquer coisa menos ternos. Estão escuros e ansiosos, até mesmo preocupados, talvez pensando que isto é errado e não devíamos estar fazendo isto.
Ou talvez estejam preocupados que descobriremos que devíamos.
E sob toda essa preocupação há desejo, lascívia e um milhão de outras sensações fervilhantes, por que ansiei, de que precisei, que quis. Especulo se ele pode ver o medo nos meus olhos, se pode ver a verdade. Ele está se aproximando mais, os olhos desviando-se dos meus e descendo até a minha boca, para onde seus lábios se dirigem.
Não sei o que fazer com as mãos. Não sei o que fazer. Então, fico ali parada, fecho os olhos, e espero até sentir os lábios de Edward nos meus. Eles me pressionam por inteiro. São macios, muito macios, como uma almofada em que eu estivesse me afundando, como se não tivessem fim. Os lábios de Edward imploram, imploram definitivamente por mais, mais beijos, mais dele. E então sua boca se abre e o estou beijando de volta, beijando seu gosto, que é muito mais do que apenas cerveja. É aromático, selvagem como seu cheiro, e é viciante e inebriante.
Nossas bocas se encaixam com perfeição, nossos lábios se procuram no mesmo ritmo, uma carícia macia, úmida, sensual de pele contra pele. Faz com que eu queira mais. Muito mais.
Agora sei o que fazer com as mãos, ou talvez minhas mãos saibam o que fazer com Edward. Acho que sempre souberam. Estou indo para sua cintura, para as laterais de sua jaqueta de couro, aquela mesma que comprei para ele no seu aniversário. Sei que isso não deveria fazer parte do beijo, mas não consigo evitar. Quero que fique mais perto de mim, quero mais dele.
Recebo mais. Sua língua entra na minha boca, deslizando lenta ao longo da minha, e então nossas bocas estão mais abertas, nossos lábios mais firmes, nosso beijo mais voraz, mais molhado, mais enérgico. Quero continuar beijando-o, sentindo-o, sentindo isto que agita minhas entranhas, que faz com que minhas coxas se pressionem uma contra a outra, com que eu queira morder seu lábio inferior, puxar seu cabelo, sentir seu corpo firme e rígido sob meus dedos.
O beijo é de tirar o fôlego e faz com que eu queira tudo o que não posso ter.
Não posso ter você, penso por um instante, tentando me trazer de volta para a realidade, para o presente, para o que somos de verdade um para o outro. Isto é só um desafio.
E então sou empurrada para trás, com força, por mãos pequenas contra o meu peito. Separo-me de Edward e perco o fôlego quase desabando na grama.
– Tire a merda das suas mãos dele! – Tanya grita para mim.
Por um momento fico furiosa que ela esteja em cima do meu rosto, depois fico horrorizada com o que ela deve ter visto. Como é que qualquer parte disso poderia ser aceitável?
Leah consegue fazê-la se sentar, e vem até mim dizendo a Tanya:
– Ei, segura a onda, foi só um desafio.
Olho para Mike. Ele já não está sorrindo. Está com o cenho franzido, talvez confuso, mas também não parece bravo.
Jacob, contudo, parece bravo. E Edward está olhando para mim com tanta tristeza que não sei o que fazer. Sinto-me como se tivesse estragado alguma coisa, acho que me deixei levar além da conta.
– Com licença. – Solto-me das mãos de Leah e sigo de volta para a casa.
Não posso ficar lá fora com essas pessoas. Todas elas me viram beijar Edward, todas me viram gostar demais disso. Espero poder explicar a situação, dizendo que estava pra lá de bêbada e que era tudo diversão e brincadeira, ou apenas rir e dizer que Edward beija bem demais, que não consegui me controlar, ou que, ei, é divertido deixar seu namorado com ciúmes, e então piscar para Mike.
Mas preciso me recompor antes de vir com uma dessas. Preciso acalmar minha respiração, limpar minha cabeça e enterrar esse beijo no passado, onde é o seu lugar.
Foi apenas a porra de um desafio. Não significou nada.
Para mim significou tudo.
Entro na casa e encho um copo de água. Tomo dois deles e então sinto como se fosse vomitar. Ouço a porta da frente se abrir e fechar e fico paralisada. Só volto a respirar quando Leah entra na cozinha.
– Você está bem? – ela pergunta, suas sobrancelhas finas expressando preocupação.
O que posso responder?
– Ela te machucou? – ela acrescenta.
– Ah – exclamo, olhando para o lugar no meu peito onde Tanya havia me empurrado. – Não, não, estou bem.
– Cara, eu quase dei na cara dela – Leah diz, encostando-se no balcão e me avaliando. – Tem certeza de que está bem? Você parece abalada.
Engulo com dificuldade. Toda aquela água não serviu pra nada. Ainda me sinto seca, apavorada e enjoada.
– Me pegou de surpresa, só isso – digo-lhe. – Não pensei que ela fosse ficar tão irritada. – Observo Leah com atenção.
Ela dá de ombros.
– Ela não gosta de você. Foi meio por isso que eu quis que vocês se beijassem. A culpa foi minha. Além disso, achei que seria divertido ver dois amigos que nunca transaram um com o outro partirem pro ataque. Tem certeza de que você nunca dormiu com o Edward?
Sacudo a cabeça com violência:
– Nunca.
– Bom, é uma pena. Aquele foi um beijo e tanto.
– É mesmo?
– É. Juro que a certa altura até o Jacob ficou com ciúmes. Foi incrível. Mas também foi um desafio, ou seja, a Tanya me fez beijar Mike, foi uma questão de justiça. Com ela é só da boca pra fora...
Ela enfia a mão no sutiã e tira dali um batom vermelho, que passa nos lábios antes de me oferecer. Recuso gentilmente.
– Acho que vou dar uma volta – digo-lhe.
– Tudo bem – ela fala, desconfiada. – Mas não vá muito longe. E não nos ignore por tempo demais. Todos aqui somos seus amigos. Tanya, não. Ela não conta, então ignore-a como o restante de nós vamos fazer.
Concordo com a cabeça e saio. O vento voltou, por isso puxo o zíper da minha jaqueta até o pescoço. Não planejo de jeito nenhum ir longe, na verdade, vou só até o Suburban e me recosto nele do outro lado, de modo a ficar protegida do vento. À distância, posso ouvir o crepitar das chamas e a risada de Mike. Isso deveria me fazer sentir menos só, mas não faz.
Que merda aconteceu por lá? Aquele beijo realmente existiu ou estava todo na minha cabeça? É evidente que Leah viu alguma coisa entre Edward e mim, assim como Tanya, mas quanto disso foi porque eu estava me deixando levar? O quanto daquele beijo era minha vontade, meu desejo, coisa minha? E que raios Edward vai pensar de mim agora?
Fecho os olhos e encosto a cabeça contra a porta do lado do passageiro. Só quero ir para casa. Quero entrar no carro, voltar para São Francisco, ir para a minha loja e continuar com a minha vidinha. Trabalho duro e não tenho tempo para nada, mas é seguro. Mike é seguro. Tudo é muito seguro.
Aqui, neste penhasco, nesta costa, perto de Edward, sinto-me o oposto de segura.
Ouço o esmagar de cascalho do outro lado do carro e, pelas passadas, sei que é Edward antes de vê-lo.
– Ei...
Ele dá a volta por trás do carro. Fica ali parado, o vento remexendo seu cabelo, iluminado de leve pelas luzes da frente do chalé.
Tento falar, mas não consigo. Cruzo os braços mais junto ao peito e olho para as minhas botas. São bonitas, chegaram à loja na semana passada. Salto médio, sola de borracha resistente, corpo em couro de cobra preto. Estas botas são seguras e reais, e as conheço bem.
Não conheço este homem que me encara. E que agora anda em minha direção.
– Isabella – ele diz, e neste momento seu sotaque é tão forte, denso e grave que não tenho alternativa a não ser olhar para ele. – Precisamos conversar sobre isto.
Respiro fundo e tento deixar a coisa menos tensa:
– A namorada é sua, Edward, não minha.
Ele me fita por um segundo, e seu rosto relaxa.
– É. Sinto muito quanto àquilo. Ela te machucou?
Dou uma olhada para ele:
– Tem dó, não sou feita de vidro.
No entanto, por que parece que estou tão próxima de me estilhaçar?
– Eu sei – ele diz. – Ela surtou, mas isso não era desculpa pra encostar em você.
Suspiro e desvio o olhar, sem saber se quero conversar sobre o assunto. Quero fingir que nada disso aconteceu, porém não garanto que consiga. Não tenho certeza de que algum dia possa estar perto de Edward de novo como amiga, agora que sei como é estar com ele de outra maneira.
– Tudo bem – digo baixinho. – Acho que me deixei levar um pouco. – Essa parte foi difícil de admitir. – Eu estava bêbada – acrescento. – Me desculpe se pareci um pouco, hã... fora de mim.
– Aquela não era você? – ele pergunta, dando mais um passo em minha direção.
As pontas dos seus sapatos quase encontram as dos meus, e mal sobra espaço entre nós. Mantenho o queixo baixo, meu foco no chão. Não posso olhar para ele agora, não tão perto, não quando estar tão perto dele é evocar as lembranças de momentos atrás. Meus lábios estão pinicando e quero tocá-los para fazer parar.
– Parecia você, Baby Blue – ele diz. – E foi bom.
Minha respiração cessa, meu coração começa a bater com mais força e mais devagar. Ele procura minha mão e deixo que a pegue, porque estou fraca e não tenho força de vontade. Não com ele. Nenhuma.
– Não sei o que foi aquilo – sussurro. – Era só um desafio.
Ele aperta minha mão com força e começa a entrelaçar os dedos nos meus. Agora estou olhando para nossas mãos entrelaçadas, a mão grande dele sobre a minha pequena, e fico atônita com o quanto isto parece natural, o quanto parece fácil. Nasci para segurar a mão deste homem. Nasci para beijá-lo.
– Olhe pra mim – ele pede.
Não olho. Ele me toca com sua outra mão, seus dedos pousam sob o meu queixo. Levanta-o até que sou forçada a olhar nos seus olhos, estes olhos verdes escuros, passionais. Meus joelhos parecem feitos de gelatina, e só consigo escutar as batidas do meu coração.
– Aquilo foi mais do que apenas um desafio – ele murmura. Sua voz está tão rouca e baixa que não consigo evitar os arrepios na minha espinha nem o fogo entre as pernas. – Aquilo foi real. Foi alguma coisa. Diga-me que você sentiu alguma coisa, que sentiu o que eu senti.
– O que você sentiu? – sussurro.
Ele corre um polegar pelos meus lábios:
– Senti você. Aquele você que eu sempre quis.
Ai, Deus. O que ele está dizendo? Está olhando para mim com muita avidez, e anseio tanto por esse olhar, esse desejo, que outro beijo torna-se inevitável. Se ele não fizer isso, eu farei.
No fundo, acima do crepitar das chamas, ainda posso ouvir as vozes dos nossos amigos. Ainda posso ouvir a risada de Mike. Ele pode não ser o cara para mim, mas é um homem gentil e bom. Não poderia traí-lo. Não poderia fazer isso com ele, não quando já fizeram antes comigo.
– Não tem problema você me desejar, sabe? – Edward diz com cuidado.
Meu estômago estremece. Consigo sacudir a cabeça, e agora seus dedos estão passando por trás dela, correndo até minha nuca, e outro arrepio desce pelas minhas costas.
– Desde quando não tem problema desejar o melhor amigo? – pergunto baixinho, quase me sufocando com as palavras. Porque é isto que ele é, é isto que sempre foi.
Ele sorri com delicadeza, os olhos enrugados nos cantos:
– Não é esta a melhor pessoa para se desejar? A pessoa que te conhece por dentro e por fora. A pessoa que te viu no seu pior e no seu melhor e que mesmo assim quer estar com você. A pessoa que acredita em você e te protege, haja o que houver. – Então, seu sorriso se desmancha, sua testa franze. – Você sempre foi mais do que uma amiga pra mim, Bella. Sempre. Você não tem ideia de como tenho me sentido, como ainda me sinto em relação a você.
Pisco, tentando absorver o que ele está dizendo. Como é que eu sempre fui mais do que uma amiga para ele? Como é que isso foi possível todo este tempo?
– Você não tem ideia do quanto eu te quero. – Ele dá mais um passo em minha direção, e agora estou encostada no carro, e seu corpo rígido e forte está contra o meu. – Está sentindo isso? – Com a voz rouca, pressiona contra mim, impedindo minha respiração. – Fico duro assim por você. O tempo todo.
Ele está duro como aço, sua grande ereção afunda na minha coxa; não consigo nem mesmo engolir, pensar, agir. Sou só este invólucro macio com um coração pulsante e hormônios chamejantes, e não acho que jamais tenha desejado que um homem me pegasse e me fodesse loucamente, me penetrasse, me fizesse dele e só dele, tanto quanto quero agora.
Fecho os olhos enquanto seus lábios vão até meu pescoço, e ele me beija ali, suave e doce, úmido e quente.
Quero mais.
Não posso ter mais.
– Não posso fazer isto – consigo dizer, e minhas palavras desaparecem na noite.
Em parte, espero que Edward não as ouça, que continue a me beijar e a pressionar seu pau contra mim. Quero que suas mãos, seus dedos longos e fortes, desapareçam dentro do meu jeans, na minha calcinha, para que descubram o quanto estou molhada, porque sei que estou ensopada para ele. Quero sua língua na minha boca, nos meus seios, que meu jeans seja rasgado, e quero envolvê-lo com as pernas, enquanto ele me fode contra o carro.
Seria tão fácil. Seria tão absurdamente bom.
Mas ele ouve minhas palavras.
E para.
Recua um passo. Seu coração também está disparado, sua pulsação está visível no pescoço e sua respiração, superficial e irregular.
– Você não pode fazer isto? – ele pergunta. – Ou não vai?
Molho os lábios, e o sangue vai voltando para as minhas pernas. Sinto-me um pouco mais forte.
– Ambos. Mike. Não posso fazer isto com ele. Não é justo.
– Então, termine com ele.
– Você ainda está com Tanya – lembro-lhe.
– Eu faço o mesmo. Olhe, Bella, se você sentiu alguma coisa por mim, por menor que seja, até a mínima contração entre as pernas, sabe que não poderia ficar com ele. Sabe que está acabado.
Levo um instante para livrar minha mente da maneira suja com que ele disse "contração". Ele tem razão. Eu não deveria estar com Mike se sinto isto em relação a Edward. Talvez nunca devesse ter estado com ele, para começo de conversa. Mas achei que isso fazia parte da vida. Se você não pode estar com quem ama, ame aquele com quem está. Não é isso que se diz? Não é isso que significa amadurecer, perceber que todos nós temos que às vezes nos acomodar, que nem sempre dá para ter o que se quer? Merda, por que tudo tem que parecer uma música da década de 1970?
– Isabella! – ouço Leah gritar meu nome.
Olho para Edward. Sinto como se tivesse voltado à realidade de um tranco.
– Cadê a Tanya? – pergunto, subitamente preocupada que ela vá surgir na esquina e me estrangular com seu rabo de cavalo.
– Foi pra cama cedo – ele explica, indicando o chalé com os olhos.
O cascalho ressoa, e em segundos surge Leah, contornando o capô do carro.
– Ah – ela diz, surpresa, olhando de um para o outro, com um adequado alçar de sobrancelha. – Estou interrompendo alguma coisa?
Sacudo a cabeça e passo depressa por Edward em direção a ela.
– Não, só estávamos conversando sobre como beijo mal.
Ela sorri com ironia.
– Hã, hã. Bom, vou dormir. Só queria saber se você estava bem. – Ela olha para Edward por cima do meu ombro: – Suponho que você cuidou bem dela.
– Fiz o meu melhor – é a observação inconsistente de Edward.
Não me volto para olhá-lo. Não posso. Digo a Leah que estou cansada e bêbada demais, e também vou me deitar. Jacob e Mike ainda estão lá fora, bebendo, quando me enrolo no sofá-cama e puxo os cobertores sobre mim. Ouço Leah aprontar-se para dormir, depois ouço Edward entrar. Sei que é ele, posso sentir sua presença. Sempre.
Ele para na sala de visitas, apenas a alguns metros do sofá, e tento respirar da maneira mais profunda e regular possível para que pense que estou dormindo. Não quero que ele diga ou faça nada. Só quero que vá embora.
Por fim, ele vai. Ouço a porta do seu quarto se fechar.
Ainda assim não consigo dormir. Nem mesmo quando Jacob vai para a cama e Mike entra debaixo das cobertas comigo.
Ainda não consigo dormir.
Só consigo sentir o corpo de Edward contra o meu, lábios nos lábios, e me pergunto o que acontecerá a seguir.
Agora, amiguinhas, é ladeira abaixo hahahaha
