Capítulo 11:
Imprevisível
Horas antes, La Push
- Merda! Merda, merda, merda!
Faith andava de um lado para o outro sobre as areias claras da praia de La Push. Passava as mãos pelos cabelos, num acto de irritação e nervosismo. O que tinha ela feito? Parou, a noite ainda estava alta e o sol demoraria a despertar no horizonte. Ainda tinha tempo para pensar, descobrir o que fazer. Olhou para Jacob, profundamente adormecido encostado a uma rocha, e mordeu o lábio inferior. Aquilo não estava, definitivamente, planeado.
- O que é que eu faço? - questionou-se, dando um chute numa pedra que voou, disparada a uma alta velocidade, em direcção ao oceano.
Enyo sabia que tinha feito asneira. Nunca deveria ter mostrado a sua sombra a Jacob e, muito menos deixá-lo... fora um erro! Um grande erro! E era um erro que ela não podia reparar apagando memórias. O seu poder poderia fazer Romeo esquecer-se da existência de Juliett, mas nunca conseguiria que deixasse de a amar. Ela podia, simplesmente, fazer Jake esquecer-se de tudo o que acontecera naquele penhasco, no início da noite, mas nunca conseguiria apagar os sentimentos que viu nele.
- Isto é irreal! - protestou para a noite. - Isto é absurdamente irreal!
Bufou, furiosa, controlando-se para não deixar o veneno que lhe corria nas veias tomasse posse dos seus olhos. Respirou fundo, como por hábito, tentando acalmar-se. Olhou em volta, precisava de deixar uma mensagem a Jake para quando ele acordasse. Não seria nada bom que o rapaz pensasse que ela havia fugido por culpa dele ou que se arrependera de o ter beijado.
Revirou os olhos e desapareceu pelas areias da praia. Precisava de ir à casa mais perto que encontrasse, retirar um pedaço de papel de qualquer sítio, escrever um bilhete a Jake e deixá-lo na mão do rapaz. Não demorou a encontrar a uma casa de onde retirou uma folha de papel e uma caneta. Voltou para perto do Black com o recado já escrito, colocou-o na mão dele, fechando-a em seguida, e voltou a desaparecer, em direcção ao seu Volkswagen New Beetle.
A noite começava a ceder passagem ao dia e, mesmo estando levemente alterada, Faith era demasiado experiente para que deixasse que alguém a notasse. Entrou no carro e depressa se fez à estrada, regressando o mais rapidamente possível para Forks. Estacionou em frente à sua casa, batendo com a porta do carro e entrando para o alpendre em seguida. Rodou a chave e abriu a porta, sendo de imediato recebida pela sua raposa.
- O que fizeste desta vez, Enyo? - indagou Eddie, revirando os olhos e saltitando atrás da sua dona enquanto ela subia as escadas a correr. - Quem é que mataste? Diz-me que foi o pulguento do amigo do cão!
- Eu não matei ninguém, mas juro que te mato se não te calas! - rosnou ela, abrindo o armário e tirando de lá algumas roupas. - Eu vou viajar!
- Opa, e para onde vamos? - perguntou o animal, sentando-se sobre a cama onde Enyo arrumava a mala de viagem.
- Eu vou viajar, Edward! Não tu! - afirmou Valdis. - Volto no domingo, preciso ficar uns dias longe de Forks!
- O que fizeste ao cão, Enyo Valdis? - interrogou a raposa. - Para queres afastar-te dessa maneira, deve ter sido muito grave!
- Desta vez, eu não fiz nada! - exclamou a mulher, fechando a mala e saindo do quarto. - Vou desligar o cell-phone porque devo viajar de avião. Liga ao Carlisle e diz-lhe que tive de ir fazer algo importante e que só regresso no domingo. Se alguém humano ligar, não atendes! Se alguém vampiro ligar, não sabes de mim!
- Mesmo que seja o teu Cullen?
- Sim, especialmente se for o Edward! - declarou, abrindo a porta da rua. - Tens comida em casa e algumas notas na segunda gaveta do armário, caso queiras encomendar Pizza. Mas certifica-te de que ninguém percebe que estão a entregar comida numa casa supostamente vazia.
- Sim, meu General! - guinchou a raposa, brincando com a situação e fazendo a vampira fuzilá-lo com o olhar.
- Se o Jake aparecer por aqui, não te atrevas a fazer barulho - ameaçou. - E se a Bella tentar falar com o Jake sobre mim, sê útil uma vez na vida e impede-a!
Faith não deixou que Eddie respondesse e fechou a porta de imediato. Caminhou até ao carro, atirou a mala para o banco ao lado do condutor, sentou-se, fechou a porta e inclinou a cabeça para trás. Ela precisava desesperadamente de passar um fim-de-semana em casa, na sua verdadeira casa, e pôr algumas ideias em dia.
"Jake,
Houve complicações com os meus pais e eu precisei viajar de imediato para a Europa. Desculpa não te dizer nada pessoalmente, mas eu estava realmente com muita pressa. Regresso no domingo e espero poder ver-te quando chegar. Precisamos de conversar.
Beijos,
Faith"
Leu e voltou a ler aquele bilhete, sem conseguir desviar os olhos da letra fina e inclinada de Valdis e desejando conseguir compreender o que ela queria dizer nas entrelinhas. Complicações com os pais, viagem para a Europa... Por que é que aquilo lhe soava a uma mentira? Por que não conseguia acreditar nas linhas de Faith como acreditaria nela se aquelas palavras lhe fossem ditas frente a frente? Por que tinha a sensação que aquela viagem era uma fuga infantil para o que tinha acontecido entre eles na noite anterior?
Levou as mãos ao rosto e inclinou a cabeça para trás, de modo a permitir os tímidos raios de sol banharem-lhe o corpo. Ainda não tinha saído da praia e não se levantara da areia clara onde passara a noite. As memórias dos momentos com Faith eram mais vividas que quaisquer outras que ele alguma vez tivesse tido. Mas havia uma tímida voz na sua mente que lhe dizia que algo estava, efectivamente, errado.
Passou os dedos pelos lábios e quase que conseguia sentir o frio dos lábios de Valdis contra os seus. Saudiu a cabeça. Aquela manhã deveria ser perfeita e, afinal, estava uma verdadeira ruína. Faith era complicada, Faith era diferente, Faith era única e, estranhamente, Jake começava a duvidar se isso era algo bom.
Levantou-se, devagar, sem pressas, sentido a cabeça pesada de tantas dúvidas e sentimentos. Sacudiu as areias das calças e passou as mãos pelos cabelos, despenteando-os. Caminhou pela praia, dirigindo-se a casa, sempre com o bilhete de Valdis preso na sua mão. Precisava de falar com ela, vê-la ou, pelo menos, ouvir a sua voz. Mas se ela estava na Europa e com o cell-phone desligado, ser-lhe-ia impossível conseguir contactá-la. Apenas lhe restava esperar.
Chegou a casa, sem dizer uma única palavra, entrou no quarto, deixou o bilhete em cima da cama e foi tomar um banho. Deixou-se ficar debaixo da água gelada por longos minutos, tentando esvaziar o cérebro e não pensar em nada. Mas era-lhe impossível, Faith estava impregnada nos seus pensamentos e Jacob não a conseguia tirar de lá.
Saiu do banho apenas com uma toalha envolta na cintura, caminhou até ao telefone e hesitou em pegar-lhe. Saberia que ela não atenderia, pois não estava em casa, e que não havia maneira de conseguir falar com ela. Contudo, precisava ouvir a sua voz, simplesmente precisava. Marcou o número de casa da médica e a chamada rapidamente foi parar ao voice-mail.
Ouvir a voz dela, a suavidade com que falava, a delicadeza das suas palavras fora minimamente reconfortante para Jacob. Respirou fundo assim que ouviu o sinal e deixou mensagem.
- Vi o teu bilhete - fez uma pausa. - Espero que esteja tudo bem contigo e com os teus pais. Ficarei à espera que regresses para falarmos - pausa novamente. - Até domingo.
Desligou e regressou ao quarto, atirando-se para cima da cama e deixando-se ali ficar, perdido em pensamentos e rendendo-se a um sono sem sonhos.
Abriu a porta e atirou as chaves para cima de uma pequena mesa que se encontrava encostada à parede. Tirou os óculos de sol da cabeça e atirou-os para dentro da bolsa. Estava irritada, demasiado irritada para o bem de qualquer mísero humano que se aproximasse dela. Abriu bruscamente a camisa que usava, rebentando os botões sem se importar e atirando-a para cima da enorme cama de casal, sem qualquer cortesia. Deixou a bolsa cair em cima de uma cadeira que tinha no quarto, sacudiu os enormes cabelos acobreados, deixando-os cair pelas costas semi-desnudas e sentou-se na borda da cama, tapado a cara com as mãos.
Fora um erro ir para Forks, um grande erro. Mas o seu pior erro tinha sido aproximar-se de Jacob e da matilha de lobos. Sentia-se irritada e furiosa. Por que tinha de deixar o seu lado emotivo intervir em assuntos que não devia? Era como se fosse novamente uma recém nascida no mundo vampírico, deixar que coisas sem importância interferissem no decorrer de uma missão. Um erro que Enyo tinha jurado não voltar a cometer!
Subitamente, o seu cell-phone começou a tocar. Fechou os olhos com força e respirou fundo. Não gostava nada quando era aquele toque específico em vez do seu toque pré-definido, normalmente significava confusão. Levou a mão ao bolso de trás dos jeans e retirou o aparelho de lá, abriu-o e encostou-o ao ouvido.
- Valdis - disse com a voz pesada.
- Enyo! - a voz do outro lado era grave, arrastada e aparentava raramente ser usada. A jovem médica arregalou os olhos, segurando o cell-phone com mais força.
- Marcus - sussurrou, deixando de respirar. - Eu...
- O que andas a fazer, Enyo? - perguntou o homem. - Por que não estás a cumprir o teu dever?
- Eu peço desculpa, mas as coisas não têm corrido exactamente como previsto - confessou Enyo, baixando a cabeça. - Contudo, nada impedirá o sucesso da missão, Marcus.
- Eu confio em ti, Enyo, e espero que estejas certa. - afirmou ele, sempre com o mesmo tom de voz. - Aro ficará furioso se a missão não for bem sucedida e tu sabes que Caius está apenas à espera que falhes para-
- Eu sei! - declarou ela, cerrando o punho livre com força, esboçando um sorriso perverso em seguida. - Mas eles verão que será impossível passarem-me por cima!
- Tem cuidado! - ordenou. - É tudo o que te digo.
- Marcus - chamou Valdis quando o homem se preparava para desligar a chamada.
- Sim?
- Lei número 426, artigo 2 do decreto C - murmurou ela. - Qual a pena contra isso?
- Enyo! - exclamou, alarmado.
- Apenas responde-me, por favor - pediu ela.
- Extremínio - disse, simplesmente.
- Obrigada, Marcus - agradeceu antes de desligar o telefonema.
Deixou o cell-phone cair em cima da cama e deitou-se para trás, encarando o tecto branco. Definitivamente, Forks tinha sido um erro, um grande erro, e agora, já nada do que pudesse fazer iria reverter a situação.
Ficara todo o dia trancado no quarto do hotel onde estava hospedado em Paris. Não sabia porque não saíra, o dia tinha estado nublado e teria sido o ideal para um passeio pela cidade ou, pelo menos, para tentar recordar-se de algo importante do seu passado. Mas não, ficara todo o dia no quarto, a ganhar coragem para, naquela noite, ir até ao seu apartamento e enfrentar os medos do doloroso passado.
E ali estava ele, debaixo da enorme Torre Eiffel, de frente para os prédios onde vivera por longos e maravilhosos anos. As janelas continuavam fechadas, tal como estavam no dia anterior e a sua dúvida sobre se alguém viveria lá mantinha-se. Respirou fundo, sacudindo os cabelos em seguida e começou a dirigir-se ao prédio. O vento acariciava-lhe a face como que a incentivá-lo a continuar. Parou em frente à porta de entrada do prédio e olhou para cima. Sentia saudades daquele lugar.
Entrou no prédio sem dificuldade e subiu pelas escadas até ao segundo andar. Apoiou a mão na porta do apartamento e fechou os olhos. Teria mesmo de ali entrar. Olhou em volta e, no segundo seguinte, já se encontrava na sala de estar, afinal, abrir portas era tarefa fácil. Olhou em volta e sentiu-se estranhamente confortável ali. Sabia que nenhum dos móveis ou que a decoração era a mesma, mas estava tudo no sítio exacto de antes. A mesa - outrora de maderia, agora de vidro - estava no centro da sala, perto das enormes janelas, as cadeiras tinham a mesma disposição, os quadros nos mesmos locais, tudo estava no sítio certo.
E o aroma de Enyo continuava presente. Inundava todo o apartamento, como se ela tivesse deixado lá as suas roupas durante aqueles oitenta anos. Edward fechou os olhos, caminhando em silêncio na direcção do iseu/i quarto. Contudo, o som da água de um chuveiro a cair fê-lo parar em pleno corredor. Olhou para o lado, na direcção do quarto de banho e apurou os sentidos. Como não ouvira pensamento nenhum enquanto se aproximava?
Afinal, sempre havia alguém a viver naquele apartamento. Deu dois passos em direcção ao quarto de banho, conseguindo ouvir palavras soltas dos pensamentos de quem quer que fosse que ali se encontrava. Porém, eram várias vozes ao mesmo tempo, como se se tratasse de um 'zapping' pelos canais de televisão e não pela mente de uma pessoa.
Até que, subitamente, ele ouviu os seus próprios pensamentos na mente da outra pessoa.
"Edward!"
Sentiu uma mão molhada e segurar-lhe no ombro e estremeceu, virando-se de imediato e vendo quem ele menos esperava à sua frente. Os olhos brilhantes fixos nos dele, o corpo molhado iluminado pelo luar que entrava por uma janela, os cabelos compridos - agora negros - caíam pelo peito desnudo, a pele pálida e perfeita, reluzindo devido às gotas de água espalhadas pelo corpo.
- Enyo - murmurou ele, sem reacção.
- O que estás a fazer no meu apartamento? - perguntou ela, a voz baixa e segura. - O que pensas que estás a fazer aqui, Edward?
N.A.: Eu sei, eu sei, demorei demais para postar este capítulo. I'm soooo sorry!! A Faculdade está a comer o meu tempo... Mas eu vou entrar de férias dia 23 e prometo que não demoro tanto '
Obrigada a todos os que comentáram
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Just
