11 – A junção dos três pontos
Ao colocar os pés em Hogwarts, Regulus percebeu que a sua vida começava a caminhar para a direção certa. Sorriu ao avistar o castelo porque se sentiu em casa. Não, era mais do que isso. Sentiu-se no Paraíso, porque sabia que ali o seu amor e de Sirius poderia ser concebido. Regulus estava extasiado, feliz como nunca antes. E para que a sua sorte fosse completa, ainda conseguiu as notas necessárias para cursar as disciplinas que desejava.
Regulus passara o primeiro dia de aula eufórico. À noite, entretanto, ao sentar-se frente à lareira desativada, tornou-se meditativo. Pensou em tudo o que lhe causava aquela felicidade tão rara e temeu. Quanto tempo aquilo duraria? Seria ingênuo pensar em eternidade, mas Regulus se sentia incomodado com a possibilidade de ter aquela alegria roubada bruscamente, sem que ele pudesse se preparar para tal. Não, deveria vivê-la enquanto pudesse, visto que o futuro é incerto. Mas não podia deixar de temer...
— Regulus, tudo bem?
— Tudo bem, e você? Como foram as férias? Quase não nos falamos hoje.
— O mesmo de sempre. Eu percebi que você estava feliz hoje, mas agora já me parece o Regulus de antes.
— Não sei, Severus, às vezes penso que o maior erro da Providência foi dotar o homem de memória.
— Como assim?
— É simples. Se não tivéssemos memória, viveríamos apenas o momento e não nos lembraríamos de nada depois. O que dói quando se está triste, Severus, não é o choque do momento em que a tristeza começa, mas como ela prossegue.
— Mas se não tivéssemos memória, também não nos lembraríamos do que é bom. E não seríamos felizes.
— Sim, seríamos! Seríamos felizes pontualmente, naquele exato momento. O que estraga tudo é a memória. Porque quando adquirimos a tristeza, deixamos escapar um bocado de coisas de que só depois vamos nos lembrar. E ela aumenta. Ao contrário, se estamos felizes, somos absurdamente felizes no momento, mas o mesmo bocado de coisas nos faz duvidar da sorte.
— É, parece fazer algum sentido...
— Não sei, estou variando. E Lily?
— Nem olhou pra minha cara.
— Você tentou falar com ela?
— Estou desencorajado.
— E vai criar coragem quando? Quando ela estiver com o quadrúpede do Potter?
— Um pouco antes, espero. Mas e você? Quer me falar sobre essa confusão interna?
— Nada. Amanhã eu já estarei perfeito.
— Bom, se você mudar de ideia, eu estarei no dormitório.
— Não, espera. Eu não sei, eu sinto que vou sufocar...
— É algo que há anos você vem querendo me contar, não?
— Talvez, mas... Eu não sei, é complicado, é difícil de entender.
— Cara, sou seu amigo há anos.
— É sobre Sirius.
— Sim.
— É sobre o que... Sobre o que eu sinto por ele.
— Não precisa terminar, está te fazendo mal. Acho que eu entendi.
— Não, eu quero. Eu pude conviver com isso até ser correspondido.
— E isso quer dizer que...
— Que estamos juntos, ou quase isso.
— Vocês estão felizes?
— Bom, eu estou. Creio que ele também esteja.
— Então não há nada de errado, Regulus. Os sentimentos foram criados antes das convenções, das diferenças sexuais e dos graus de parentesco. Eles são anteriores a tudo isso, portanto, superiores.
— Eu também tenho pensado assim, mas, sabe, tenho medo que Sirius mude de ideia.
— Estamos todos sujeitos à vontade do destino. É melhor você viver o presente. Quero te ver amanhã do jeito que te vi hoje mais cedo.
O conselho de Severus foi minuciosamente acatado. Pela manhã, Regulus já era o mesmo do dia anterior, o mesmo das últimas férias de verão. Sirius, é claro, notara, mas não podia sentir o mesmo. O seu coração ainda estava muito preso.
Se por um lado Regulus estava exultante, por outro se sentia infeliz. Remus lhe parecia cada vez mais apegado, enquanto ele, Regulus, sabia que não tinha mais nenhum motivo para se vingar, então por que continuava a se encontrar com o rapaz? Era simples: Não podia resistir a ele. Quase um mês após o início das aulas, Regulus esteve certo de que acabaria logo com aquela ameaça ao seu relacionamento com Sirius, que já não era tão forte. Todavia, na noite em que marcaram de conversar no banheiro dos monitores, Remus pressentiu a decisão de Regulus e lhe ofereceu o corpo, que o outro não pode recusar.
Remus também sofria. Sabia ter se apaixonado por Regulus de forma misteriosa, visto que sua existência já o havia desagradado um dia, quando julgava amar Sirius e ter o irmão dele como empecilho. Porém, as coisas tomaram outro rumo, e Regulus decididamente assumira o lugar do irmão. O amor de Sirius lhe trazia segurança e conforto, o de Regulus — se é que podia chamar amor — era a incerteza, o medo, a excitação. Mas tudo se lhe mostrava confuso, porque também se comovia com o sofrimento claro de Sirius. Uma noite, em especial, ao voltar para o dormitório, surpreendeu-o triste, beirando às lágrimas. Quis não estar sozinho com Sirius naquele momento, porque simplesmente não sabia o que dizer, de modo que o cumprimentou e, calado, pôs-se a despir o uniforme. Percebeu os olhos desesperados de Sirius sobre o seu corpo, e um prazer mórbido o fez demorar na abertura da camisa. O que lhe acontecia, por Deus? Por que sentia pulsar a intimidade, se deveria desejar apenas Regulus, que fora a sua escolha? Tentou começar qualquer conversa, enquanto se lembrava de tirar o sapato.
— Você está cursando as disciplinas necessárias para ser auror? — indagou, sem erguer os olhos.
— Estou. Você está?
— Sim. Foi uma boa eliminar História da Magia.
— Não acredito que alguém curse essa disciplina por vontade própria.
— Nem eu — colocou os sapatos de lado e terminou de despir a camisa, sentindo-se envergonhado.
— Remus, o que aconteceu conosco?
— Como?
— Eu sei que nos dávamos bem. Você parecia gostar de mim.
— Não é que eu tenha...
— Eu não consigo fingir que está tudo bem. Eu não posso sem você, eu nunca me senti tão fraco.
Remus ia responder quaisquer palavras ainda não articuladas, mas elas morreram antes de ganhar o exterior, e ele não pode se mover ao perceber que Sirius deixava a própria cama para acercar-se da sua, e que a distância entre eles diminuía sensivelmente. E não pode negar os lábios aos de Sirius, que os procuravam febrilmente. Não, ainda não estava totalmente curado daquilo que há não muito tempo sentira como tudo o que havia de mais forte. Ainda o excitava o toque leve dos dedos de Sirius, frios sobre a pele quente do seu abdome. Seu coração ainda protestava, batendo descompassado diante do beijo e da visão próxima do rosto do rapaz. Tão parecido com o do irmão, mas não idêntico. Os olhos de Sirius eram doces, apaixonados, enquanto os de Regulus eram maliciosos.
— Eu não posso me esquivar de você, Sirius — confessou — existe algo tão forte...
— Eu sei que existe, meu amor. De outra forma, eu não estaria tão entregue, tão suscetível. Céus, Remus! Como pudemos nos afastar?
— Eu não sei, mas fique perto. Apenas fique perto de mim agora.
Remus notou, com certa curiosidade, que o corpo despido de Sirius possuía qualquer coisa de sagrado. Era como a escultura alva de um anjo talhado em mármore. E o de Regulus, no entanto, embora absolutamente semelhante, lembrava a voluptuosidade de um demônio. Era como se asas negras lhe irrompessem das costas quando Regulus se curvava sobre ele, e então os olhos de Remus ficavam turvos e ele era entorpecido. Lembrou-se disso no momento em que o corpo de Sirius acomodou-se gentilmente ao seu. Tinha uma temperatura agradável e um perfume leve. Sua voz era melodiosa como um acalanto. Sentiu-se também entorpecido, mas era agradável, como um sono natural e recompensador. Praticamente não percebeu quando as últimas peças de roupa lhe abandonaram, e se deixou levar. Não havia porque temer ou rejeitar o contato, a junção de ambos pela primeira vez.
Sirius se sentia novamente inteiro, como se nunca tivesse sido quebrado. Abraçava-se a Remus, que se abandonara ao sono, mas tinha os dedos da mão esquerda firmemente enlaçados aos da mão direita de Sirius. Como amava aquele rosto sereno! Sentia-se indigno, sujo por frequentemente se deitar com o próprio irmão. Lembrou-se que ao fim de cada relação sexual com Regulus, ele se perguntava onde havia perdido a sua alma. Dessa vez, teve certeza de tê-la encontrado nas mãos de Remus, a quem sempre amara. Não queria dormir, não podia deixar passar, inconsciente, aquele momento raro. Mas foi vencido por um cansaço agradável e dormiu em paz, como há muito não conseguia.
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Outubro se aproximava, e com ele o frio. Já não era tão constante a presença de alunos nos jardins ao término das aulas, mas Regulus, todos os dias, esperava pelo irmão naquelas ruínas que lhes pertenciam.
— Você demorou — Regulus disse quase irritado, consultando o relógio de pulso.
— Precisei decidir com James alguns pontos do trabalho de Defesa.
— Você não vai me dar um beijo?
— É claro.
Mas tal carinho condizia à sensação térmica daquele fim de tarde. O relacionamento conturbado parecia seguir as estações do ano, e esfriar conforme chegava o outono.
— Você está estranho — Regulus desabafou — o que foi que eu fiz?
— Nada. Eu não estou estranho.
— Você nunca mais disse nada sobre a nossa casa.
— Céus, Regulus, ainda temos quase dois anos pra isso!
— Também não precisa ficar nervoso.
— Desculpa.
— Vou pensar — abraçou Sirius e tomou a sua mão, levando-a até sua própria masculinidade — depende de você.
Sirius não respondeu, e o tocou mecanicamente, indiferente aos seus gemidos, querendo que Regulus não demorasse a se satisfazer. Sentiu na mão a ignomínia do sêmen que continha o mesmo código genético que havia em seu próprio corpo, e virou o rosto enojado, não do irmão, mas de si mesmo. Isso passou despercebido a Regulus, que tentou tocá-lo da mesma forma.
— Tudo bem, Sirius? — indagou, ao ver que ele se afastara abruptamente.
— Não sei, Regulus, acho que estou com febre.
— Então vamos entrar no castelo, você precisa da Ala Hospitalar.
— Não, aquela mulher é louca. Vai me reter a noite inteira, quiçá até o dia inteiro de amanhã, que é sábado.
— Tudo bem, então. Mas pelo menos fique no dormitório. Eu faço o sacrifício de pedir ao Potter que leve alguma coisa pra você comer.
— Obrigado, irmão.
Sirius o abraçou e se sentiu um monstro. O amor de Regulus era sincero, afinal, por mais conturbado que parecesse. Ah, como desejava que nunca houvessem quebrado aquela relação sagrada que possuíam quando crianças, o puro amor fraternal! Mas, não, nunca voltaria a ter o seu irmãozinho. Ou teria em Regulus um amante, ou um inimigo. E parte daquela culpa era sua.
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Durante meses aquela situação se manteve inalterada. Regulus e Sirius secretamente unidos, Remus secretamente dividido entre ambos. Um triângulo cujos pontos nunca se encontravam. Nunca, até aquela noite...
Maio chegava ao fim e com ele o torneio anual de quadribol. Sirius vinha animado nos últimos dias, com a aproximação do jogo final, Grifinória versus Sonserina. A rivalidade era o ponto mais alto daquela disputa, e nas arquibancadas os torcedores de ambos os lados ansiavam por ver a luta dos gêmeos Black em campo. Regulus geralmente era leve e bem humorado durante os jogos, mas nesse estava altamente competitivo. Gritara duas vezes com Sirius, e tentara derrubá-lo da vassoura outras três. Parecia hipnotizado pelo jogo, como se não desejasse outra coisa no mundo. Tudo porque flagrara Sirius com Remus no dia anterior, mas nada dissera nem se deixara perceber. Então o maldito enganava aos dois! E Sirius, quanta traição! Odiava-o naquele momento, e tentava colocar a partida de quadribol como motivo.
Por fim, a Sonserina saiu vitoriosa, e Regulus foi arrastado pelos colegas até o salão comunal, onde comemorariam até altas horas. Percebeu a raiva no olhar de Sirius, não pelo jogo, mas pela rivalidade idiota entre eles que Regulus fizera questão de despertar.
Passava das três da manhã quando Regulus deixou o salão comunal, visto que não aguentasse mais beber e ouvir gritos. Refugiou-se no banheiro dos monitores, onde poderia descansar e tomar um banho reconfortante. Porém, estava ébrio demais para se lembrar de fechar a porta, e apenas percebeu que tinha companhia quando ouviu o seu nome em uma voz que muito conhecia.
— Regulus, você está bem? Não, você está bêbado!
— Eu só preciso de um banho — afirmou, distinguindo a figura desfocada de Remus.
— Vocês também contrabandeiam bebidas, então? Quem é o ilícito do grupo?
— Sei lá. Só sei que havia muito hidromel e muito Whisky de Fogo. E você? Não está bebendo para esquecer a derrota?
— Eu não ligo pro quadribol, mas Sirius ficou bem chateado.
A menção do nome de Sirius fez com que Regulus recobrasse toda a sua mágoa. Poderia, naquele momento, afogar Remus na banheira ou simplesmente lhe atingir com a maldição da morte, mas não o fez, e novamente depôs todas as suas armas aos pés do inimigo, quando ele o estreitou em um abraço apertado e começou a arrancar as suas roupas. Odiava, oh como odiava Remus e a sua língua ágil, a boca doce. O corpo esguio e desejoso. Novamente não se refreou, e quando deu por si, o uniforme de quadribol estava atirado a um canto, junto às roupas de Remus, e as vestes íntimas era o único empecilho, que logo seria desfeito. Antes, porém, a porta do banheiro se abriu uma terceira vez. Com a cabeça girando e a visão turva, Regulus reconheceu, com horror, o irmão no seu uniforme vermelho-dourado. O rosto de Sirius estava esquálido de ódio, e ele apertava fortemente a garrafa de hidromel em sua mão, a ponto de parti-la em vários pedaços desiguais.
— Ora, vejam! — exclamou com a voz tão embargada quanto a de Regulus — Meus dois amantes se encontraram, enfim. Quer ironia do destino!
— Sirius — Regulus balbuciou, sem ânimo para prosseguir.
— Não, que belo quadro! — prosseguiu o outro — Que belo quadro de traição! Onde está o seu amor agora, Regulus? Onde está o seu maldito amor?
Remus começava a compreender e se afastava, horrorizado, sem conseguir proferir a menor das palavras.
— O que é isso, Remus, aonde você vai? Não, me diga, meu caro: Regulus é melhor do que eu, não é? Não, isso eu tenho certeza, até porque ele nunca me decepcionou. Hein, Regulus, que papel você assume quando está com o Remus? O mesmo que quando está comigo? Ah, não, você gostaria de ser homem uma vez na vida. Ou não?
Alcoolizado, cego de ódio, Regulus avançou para o irmão e lhe arrancou a garrafa, quebrando-a no chão ruidosamente. O cheiro doce do hidromel tomou conta do ambiente, e Sirius segurou firmemente os pulsos do irmão, que tentava agredi-lo.
— Nunca pensei que você pudesse levantar as mãos para mim — sussurrou, beijando gentilmente os lábios do irmão, que não se esquivou.
— Vocês são irmãos! — Remus exclamou, trêmulo, tentando alcançar as próprias roupas.
— Ah, não, Remus — Sirius disse, fazendo uso de uma gargalhada amarga que tentava esconder a vontade de gritar e chorar — você é um desses falsos moralistas? Oh, ele nunca desconfiou, Regulus! Como é ingênuo! Não, deixe essas roupas aí, Remus, quero ver o que há de tão especial em vocês dois.
— O que? — Regulus se afastou, defendendo-se daquele que lhe parecia completamente desconhecido.
— Você me ouviu bem. Vamos, continuem o que vocês estavam fazendo, continuem como se eu não estivesse aqui.
— Sirius, não seja louco.
Mas ele sacou a varinha e apontou para Regulus, vacilante.
— Eu não tenho mais nada a perder, irmão. Nem mesmo tenho medo de Azkaban. Vamos, continuem. Viu, Remus? Se não quiser ver o seu namoradinho morto, eu sugiro que continuem.
— Isso é uma loucura — ele murmurou, enquanto se acercava de Regulus, que o rejeitava totalmente.
— Oh, sim, é. E o que é sensato nesse mundo, meu amor? Vamos, eu quero vê-los.
Ameaçado pela varinha, Regulus recebeu em seus braços o inimigo. O medo, porém, se desfez em prazer, quando ao tocar Remus, sabia ter em si os olhos de Sirius. Era a vingança finalmente sendo executada, mas o seu gosto era amargo. E o beijo durou o tempo de um sonho conturbado; Quando finalmente se livrou do inimigo, Regulus notou que o irmão estava já muito próximo, igualmente seminu. Sem dizer palavra, tomou-o nos braços por breve momento, imitando o gesto, em seguida, com Remus.
— Ah, meu amor, até onde nos perdemos?
Remus sentiu-se obrigado a apoiar as mãos na pedra fria da parede. Teve medo, mas não ânimo para se esquivar. Aquele realmente não era o Sirius que ele conhecia tão bem. Tratava-o brutalmente, com o intento de causar dor.
— Vamos, Regulus — balbuciou — quero que você sinta o gosto de Remus.
Primeiro ele quis recusar, mas o quadro lhe era favorável. Remus chorava e tremia, porque sentia dor no corpo e na alma. Ah, como se sentiria humilhado se, além disso, sentisse prazer! E Sirius, ele assistiria a tudo, e, então, o seu coração nobre seria despedaçado.
— Está bem — concordou, ajoelhando-se frente ao inimigo.
