OS MAROTOS
Capítulo XII
Aviso: Esta história é baseada em personagens e situações criadas por JK Rowling. Os direitos autorais pertencem a editoras como Bloomsbury Books, Scholastic Books e Raincoast Books, e Warner Bros., Inc. Não há intenção nenhuma de arrecadar dinheiro com essa prática ou violar leis. O principal objetivo deste fic é somente a divulgação de idéias e liberdade de imaginação. Respeito e admiro totalmente as obras de JK Rowling, não pretendendo de forma alguma roubar ou marginalizar seus personagens.
Sumário: O retorno ao passado dos "Marotos" e aos sentimentos confusos daqueles dias.
A adolescência é mesmo uma coisa XD
Casais: Remus Lupin/ Sirius Black; James Potter/Sirius Black; Remus Lupin/ James Potter; Remus Lupin/ Snape
Categoria: Angst/Romance/Slash
Notas:Por favor, não encarem esta história com uma visão ofensiva ou julguem seu conteúdo apenas erótico. Há aqui a presença de sentimentos e emoções que obviamente não cabem num cenário pornô, onde a única preocupação é a prática desenfreada de sexo. Se por um acaso você é menor de idade ou possui algum trauma ou preconceito contra homossexualismo (relacionamento entre homens) não a leia. Não há necessidade de entupirem minha caixa de e- mail com comentários baixos sobre yaoi ou críticas ofensivas. Somos adultos e vivemos num país livre, por isso, vamos nos comportar e nos respeitar.
Notas2:
Bem, acho que dessa vez eu devo a todos vocês um pedido de desculpas mais profundo, visto que eu demorei muito para atualizar o capítulo XII.
Realmente, mil desculpas. Sei que todos vcs não têm nada a ver com os problemas e preocupações das pessoas por detrás dos fanfics que lêem, mas se servir de algo, digo que esses últimos meses da minha vida foram terríveis. Negros.
Não conseguia escrever e ficava muito mal. Não queria continuar o fanfic de alguma forma medíocre.
Felizmente, eu já superei as coisas que vinham me angustiando e aqui estou eu de volta. Brilliant Geen is back:D
E dessa vez, nada de sumiços repentinos. Promessa. :
Nesse meio tempo, tenho recebido alguns e-mails interessantes dos leitores. Algumas pessoas suspeitavam que eu havia morrido (bate na madeira três vezes). Como podem ver, apesar de tudo, não estou morta. Outras pessoas me chamaram de biscate (no sentido mais brando da palavra pior) por não atualizar mais os capítulos de "Os Marotos". Bom, prefiro não comentar isso.
Outras pessoas me escreveram pedindo que eu matasse o James como se o Lorde das Trevas já não tivesse feito isso. XD
Bom, infelizmente, eu não vou arrancar o James da minha história porque o final já está bem estruturado. Sei que a maioria das pessoas que acompanham a fic são fãs de Sirius x Remus. Mas, não pensem que estou separando esse casal por incluir o Potter na história. Bom seria se a primeira pessoa que namorássemos ou batêssemos o olho fosse logo o amor de nossa vida. Bom e sem graça, de certo modo.
Mas, eu também prometo não cometer nenhuma atrocidade contra o relacionamento de Sirius x Remus e como podem perceber, a Lílian já está começando a aparecer mais. :DDDD
Esse capítulo é um pouco melancólico, mas veremos como as coisas ficarão nos próximos.
Próximo capítulo, não percam a festa de aniversário de Remus onde todos vcs estão convidados. Uma festa comemorativa também por esta fic ter superado minhas expectativas e ter adquirido já mais de 100 reviews. Brilliant Green está muito emocionada. Nos meses em que tive maus momentos, o incentivo de todos vcs me fez sentir sempre um pouquinho melhor. Muito obrigada a todas vocês.
Nada poderia me deixar mais feliz do que a postagem deste capítulo para todos vcs. Talvez, a massagem de um garoto ou garota bonitos para colocar minha coluna no lugar (depois de ficar a madrugada toda digitando) entre outras coisas também viesse a calhar. XDDDDD
Bem, whatever... :P
Recadinhos:
Vanessa
Minha querida irmã que sempre acredita em tudo que faço. Te amo e ponto final.
Soulless
Agradeço por todo seu apoio e por sua amizade tão incrível. Te adoro e ponto final!
Saudades suas. :/
Kirina Li.
Valeu pelo esporro. Não, é sério! Ele me ajudou bastante a voltar para o teclado. :DDD
Bem, sobre isso já conversei com vc por e-mail. u,u
Por que vc odeia o James::
Bem, Kirina, acho que agora o Sirius está começando a perceber melhor as coisas que sente. Acho que uma parte dele já admitiu o que sente pelo lobinho dele.
Eu sei que vcs estão muito todos doidos por uma floresta proibida segunda parte. Mas, não se desesperem porque talvez algo parecido não esteja tão longe do próximo Capítulo. OO
Neste capítulo, haverá uma briga bastante essencial para a claridade dos sentimentos de Sirius por Remus. E no próximo...
Bom, aí é segredo. u.u
Mystic
Obrigada por seu apoio. Muito obrigada. Fico feliz por já ter uma fã. Aliás, fico radiante.
Eu fiquei bastante surpresa quando vc disse isso :
"Quando leio suas histórias, parece que você escreve para os cinco sentidos...eu consigo visualizá-los, sentir seu cheiro, seu gosto, sua pele...é uma coisa tão extraordinária que eu sinto um arrepio só de pensar..."
Eu fiquei surpresa porque transmitir uma sensação quase física através de algo abstrato, foi sempre um dos objetivos meus na hora de escrever. E quando vc disse que se sentia assim, fiquei satisfeita porque é um excelente sinal. Significa que estou chegando perto.
Agradeço muito pelo seu apoio, menina.
Ameria A. Black
Vc me colocou no seu top 10!!!??
Que honra. Eu te adicionei no meu MSN, mas tenho entrado muito pouco. Agora que estou benzona, pretendo entrar mais vezes.
Não se encabule de dar sugestões. Opiniões são sempre bem-vindas...
Prometo tentar dar uma caprichada nas próximas cenas lemon, viu? .
Paula Lírio
Agradeço imensamente por suas visitas no meu blog.
Quando é que tudo vai explodir? Mais cedo do que vc imagina. :DDDD
Kazahaya
Por que vc odeia o James? ;;
Camillie
Por que vc odeia o James? ;;
Sim, há um amor meio que indefinido entre os três. Sirius, Remus e James se amam. Acho que o perfil de James não é muito de alguém ciumento, mas isso é inevitável de sentir-se às vezes.
Acho que Potter e Black acostumaram-se a ter Lupin como algo muito seu.
Haruechan
Reverência para vc, garota. Fiquei lisonjeada com todas as suas palavras.
Amei o modo como vc sentiu a história que estou contando para todos vcs. Palavras como as suas não se esquecem. Palavras como as suas fazem alguém em um estado brutal de depressão levantar-se da cama e sentar diante de um computador. Palavras como as suas ajudam na melhora de pessoas que sonham em um dia escrever livros. Palavras suas contribuíram bastante para a minha melhora e se tornam verdadeiros patronos em momentos negros. Tornam-se também motivo de orgulho em momentos felizes como agora.
Yumi
Um abraço bem apertado para vc.
Muito obrigada, girl :)
E seus pedidos serão atendidos. Acho que muitos já perceberam que tudo caminha para algo como vc propôs. Será legal os três juntos, né?
Prometo solenemente fazer nada de bom. XDDDDDD
Lia
Vc sempre me emociona com suas reviews, sabia Lia?
Emocionam-me muito. Obrigada por suas palavras de incentivo e carinho. Obrigada por mesmo sem saber o que houve exatamente, respeitar meu distanciamento das fics e tentar compreendê-lo.
Bem, acho que fico por aqui. Aqueles que tiverem dúvidas ou quiserem me perguntar algo, escrevam nas reviews suas dúvidas que eu respondo. Ou então, mandem e-mails. :D
A opinião de vcs é fundamental e eu adoraria me corresponder com todos vcs.
Mil beijos e carinho
Brilliant Green . v
The Cure - Boys don't cry
(The Cure - Boys Don't Cry)
I would say I'm sorry if I thought that it would change your mind
But I know that this time I've said too much been too unkind
I try to laugh about it cover it all up with lies
I try to laugh about it hiding the tears in my eyes
'Cause boys don't cry
Boys don't cry
I would break down at your feet and beg forgiveness plead with you
But I know that it's too late and now there's nothing I can do
I try to laugh about it cover it all up with lies
I try to laugh about it hiding the tears in my eyes
'Cause boys don't cry
Boys don't cry
I would tell you that I loved you if I thought that you would stay
But I know that it's no use that you've already gone away
Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted
I thought that you needed me more
Now I would do most anything to get you back by my side
But I just keep on laughing hiding the tears in my eyes
'Cause boys don't cry
Boys don't cry
Boys don't cry
Conviver com a família Lupin dentro daquele lar gerava por vezes em Sirius uma falsa realidade. Era demasiadamente fácil inserir-se naquele grupo de poucas pessoas. Amarrá-los aos calcanhares e carregar consigo a hospitalidade de criaturas amáveis. De gestos suaves. De sorrisos duradouros. De dias imóveis.
Era comum, os três amigos sentarem-se na varanda daquela casa em dias muito quentes e conversarem sob a banalidade das horas. Sentirem pouco a pouco, os insetos da estação picarem-lhes as peles azedas. Percorrerem suas costas. Fugirem rumo ao calor de lampiões acesos para depois, novamente retornarem, famintos.
Sirius acostumou-se facilmente a mover-se por aquela casa. Havia elementos ali indispensáveis. Pontos de referência que o guiavam por uma lembrança que ultrapassaria o verão. Deparava-se com o sentimento de ternura a todo o momento que cruzava o corredor e encontrava retratos de Remus em idades passadas, fixados em paredes.
Era possível delimitar o período entre caos e inocência. Conferir o tom rosado e afável de criança em algumas fotografias e em outras, a palidez sobrenatural e olhar melancólico no caminho para outra época.
No cair da noite, quando pequenos vaga-lumes subiam através da cerca dos jardins e a noite descia gradualmente em tons contrastantes e etéreos, Sirius via o amigo encontrar a mãe na cozinha para ajudá-la a preparar o jantar. Então, chegava até si um cheiro de ensopado e sopa. Ou de vegetais cozidos em caldeirões de alumínio. De todas as coisas que aquelas duas pessoas podiam fazer juntas.
O cheiro de comida, ao fim do crepúsculo, trazia para Sirius a mágoa derradeira. A mágoa por seus pais. O ódio por estes terem negado-lhe aquelas sensações, aquelas texturas, aquelas cores.
Era neste momento que o garoto de cabelos compridos tornava-se incessantemente efusivo. Procurava a companhia de James. A companhia de Remus. Falava de coisas sempre com um tom irônico. Ria das próprias palavras ou das palavras de outros. Ria até que dobrasse-se sobre os joelhos. Até que o estômago causasse-lhe uma dor insuportável. Ria como louco mesmo ainda quando perdia o fôlego. Ou então, quando seus olhos enchiam-se de lágrimas. De rios irresolúveis. Rios causados por erros drásticos que muitos em sua vida viriam a cometer. Repentinos. Irrupções imperdoáveis. Rupturas permanentes. Absolutamente, brutais.
A estação colérica amenizara-se. O perigo não encontrava-se mais suspenso ao revérbero. Porém, as fagulhas da batalha que Sirius travara com seus pais perpetuariam-se por inúmeros verões. Por tempos indefiníveis.
Demorou alguns dias até que os Black resolvessem finalmente enviar as bagagens do filho. Foi inesperado o momento em que o elfo doméstico Kreacher apareceu durante certa manhã, arrastando com mau-humor o malão através das escadas do jardim e com olhar incriminador, empurrando-no em direção ao garoto de cabelos compridos.
Quanto a dinheiro, nem um nuque havia sido enviado a Sirius. O garoto de cabelos negros assentiu com azedume que já esperava por isso. No entanto, preocupou-lhe profundamente o fato de estar hospedado na casa dos Lupin, sem ajudá-los nas despesas que causava. Sabia bem que aquelas adoráveis pessoas atravessavam problemas financeiros sobre os quais nunca comentavam. Foi contra os protestos dos pais de Remus que Sirius tomou uma atitude. Comunicou a James sua decisão. Este, não apenas o apoiou como também segui-no em seu intuito.
Black e Potter dispuseram-se a ajudar Remus, trabalhando na loja de doces da mãe do amigo como forma de pagamento pela estadia durante as férias. De maneira que, pela manhã, os três amigos encaminhavam-se para o Beco Diagonal e permaneciam lá até depois da hora do almoço, vendendo balas ou calculando o dinheiro arrecadado com feijãozinhos de todos os sabores.
O trabalho ocupava a mente do garoto de cabelos compridos. Vetava algumas vezes, pensamentos barulhentos como varejeiras que viriam atormentá-lo de forma incômoda.
Uma outra mágoa que Sirius possuía não obedecia a horário.
Na primeira vez que o garoto de cabelos compridos viu Carlson beijando Remus, não acreditou que aquilo pudesse ser feito. Não obteve sucesso em conciliar a infâmia daquele gesto. Do modo como alguém poderia vir a tomar aquele rosto entre as mãos e beijar do mesmo modo que já havia feito. Conferir os olhos de Remus fechando-se com força, mergulhados em um devaneio.
Aquele monitor aparecia na hora em que quisesse. Para os donos daquela casa, era mais um convidado que merecia ser cuidado e mimado. Porém, para Sirius e James que tomavam conhecimento de tudo que ali se passava, sabiam que ele era um estranho. Um rapaz de gestos suaves e pele muito branca. Aquele que aproximava-se e servia-se da criança única daquele casal. Daqueles olhos, daquele rosto, daqueles lábios...
Permaneciam os quatro garotos no quarto de Remus. O lampião tremeluzia uma luz azulada. O odor de incenso exalava um perfume doce através das ondas de calor extenuante. Era raro Sirius ou James se ausentarem nos momentos em que o amigo permanecia com Carlson. Ambos sentavam-se próximos ao parapeito da janela com olhares desafiantes. Olhavam diretamente para o corvinense. Em silêncio, ameaçavam-no a prosseguir sobre Remus. A beijá-lo. A tocá-lo. Estavam lá para ironizar suas carícias.
Por vezes, Carlson aceitava o desafio. Beijava Remus. Porém, era repelido pelo garoto pouco à vontade diante dos amigos. E isso o martirizava. Deixava-no possesso. Louco. Aquilo deveria ser proposital. Não poderia ser de outra maneira. Dizia isso a Remus quando arrastava-no daquele quarto e levava-no para qualquer outro lugar. Porém, Remus nada dizia. Não redargüia. Apenas, limitava-se a ir mais a casa de Carlson do que o contrário.
Não sentia-se bem também, o garoto de cabelos castanhos, em travar algum contato íntimo com Michael diante daqueles dois.
Contato...A intimidade do contato de James e Sirius ainda era intensa. Remus via-na. Via quando despertava durante a madrugada, o amigo de cabelos compridos cruzar o quarto e deitar-se ao lado de Potter. Simplesmente pelo hábito. Pelo hábito de ter aquele corpo pequeno e mirrado junto ao seu. Por dormir com os braços entrelaçados por aquela cintura breve.
Da mesma forma, Remus sabia que quando seus pais estavam ausentes, os dois trancavam a porta do quarto de hóspedes nunca usado. Trancavam o ferrolho e demoravam-se horas lá dentro. Esqueciam-se da chegada ou partida de Carlson. Deixavam de martirizá-lo ou provocá-lo com seus joguinhos silenciosos.
Na primeira vez que isso aconteceu, o garoto de cabelos castanhos procurou não pensar no assunto. Procurou fingir que pouco percebera ou sentira. Porém, nas vezes seguintes foi inevitável recordar com algum rancor da tarde nublada em que Sirius admitira sua virgindade nos jardins de Hogwarts.
Aquele tempo deveria ter se perdido. Remus sabia. Sabia que ambos não trancariam-se para beijarem-se. Aquilo faziam desavergonhadamente. Deliberadamente.
Fora com James que Sirius descobrira o prazer? O prazer que procurava incessantemente a todo o momento em que ninguém estivesse presente para interrompê-lo
Por vezes, durante alguns minutos Remus mirava Carlson com pensamentos evasivos. Deveria fazer o mesmo. Não importava se seus amigos estivessem dormindo com garotinhas estúpidas ou um com o outro. Deveria esquecê-los. Deveria convencer-se da inutilidade daquilo tudo. Em seguida, seu lado desafiador acalmava-se. Não faria aquilo. Era necessário um impulso. Um impulso maior do que aquele que tomou Carlson e o fez certa vez descer as mãos pelos seus quadris. O impulso que fez Remus retribuir aquele ato.
Remus também trancava-se em seu quarto quando sentia a necessidade de fazê-lo. Proibia a entrada de todos. Fechava-se em seu mundo de amor insensato. De perdas inconsoláveis. Escrevia pequenos textos em pergaminhos que viria a esconder em gavetas. Nunca deixava ninguém ler o que escrevia. Esta era uma regra imposta por si mesmo. Agiria sempre daquele mesmo modo.
Remus nunca pode crer que escrevesse de verdade. Nunca pode acreditar que aquelas formas borradas concretizassem o que sentia aos desatinos. A escrita não era desprezível. Porém, insuficiente. Tímida. Hesitante. Quase um sussurro.
Nada e nem ninguém viria a escutar suas palavras. Elas nasciam mortas. Eram decapitadas antes de serem lidas. Breves vidas cujo sangue coagulara em um curso atemporal.
Remus também nunca ousava falar a ninguém do seu ciúme, de sua inveja, de sua dor ou de seu amor... Simplesmente, tentava limitar estes a forma de palavras nas quais não acreditava. Tentava abortar suas emoções com doses infinitas de realismo vertiginoso.
Mutilava-se em seu quarto entre seus anseios.
Nunca obtivera algum sucesso. Não era possível cessar o caos.
(CUT)
"Meu pai precisa viajar para as Filipinas. Devido o Congresso de Bruxos na Ásia, o banco local está pedindo a ajuda da tesouraria britânica. Gringotes está enviando seus melhores funcionários para acompanhar as negociações. Talvez, mamãe vá com ele. Mas, vocês dois não precisam se preocupar. Podem continuar aqui em casa, sem se incomodarem com isso..." comentou Remus durante o café da manhã com Sirius e James.
"Não vamos incomodá-lo, Remus?" perguntou Sirius.
"Não. Pelo contrário. É chato ficar sozinho sempre. É desagradável meus pais não poderem passar meu aniversário comigo, mas eu compreendo. Eles também não estão muito contentes..."
"Bem vindo aos quinze, Remus, o que vai querer de presente?" murmurou James em uma tentativa de afastar a melancolia do amigo.
"Nada..."
"Não acredito que não queira nada. Eu já comprei o seu presente e não vou ficar com ele, caso não o queira..."
"Se você já comprou um presente, por que pergunta o que quero, James?"
"Porque talvez você queira algo mais. Comemoramos em Hogwarts, o aniversário de Sirius, Peter e meu... Então, o que acha de comemorarmos o seu com uma festa também...?"
Remus sorriu com incredulidade.
"Onde, James...?".
"Sua casa é bonita, Remus. Podemos convidar nossos colegas para uma festa aqui..." redargüiu Sirius animando-se com a idéia.
"Estão loucos? Esta é a casa de meus pais. Eles gostam de visitas, mas acho que não gostariam de uma festa aqui...Além disso, minha casa não é tão ostensiva para preparar-se uma celebração."
"Acho que seu pais viajarão mais tranqüilos se souberem que você vai se divertir, mesmo na ausência deles. Além disso, não será nada muito grandioso. Chamaremos apenas umas dez pessoas... Podemos distribuir os convites se você não tiver paciência para isso. Eu posso falar com seus pais se você quiser... Prometemos não desarrumar a sua casa, Remus.. E não se preocupe, sua casa também não é tão pequena. É perfeita."
Remus bebeu o resto de leite em sua xícara.
"Esta casa pertenceu aos meus avós. Antes de minha família cair em falência, tínhamos muitas propriedades. Agora, isto é tudo o que nos resta. Mas, deixemos isso de lado. Vamos nos atrasar para abrir a loja. Está bem. Talvez, um pouco de animação seja do que estamos precisando. A idéia não é má. Eu falarei com meus pais. Não prometo conseguir, mas vou tentar. Podem chamar as pessoas, se quiserem. Eu vou pedir para o Michael chamar Lílian e Julian. Estou sentindo falta delas."
Um discreto aturdimento atravessou o rosto de James ao ouvir um dos nomes ditos por Remus. Ninguém o notou.
"Está falando de Evans e Parker do nosso ano?" comentou Sirius"Não sabia que você estava ficando amigo delas, Remus..."
"Elas são amigas de Michael. Conheci as duas melhor depois de começar a sair com ele. Elas são legais. Acho que vocês gostariam delas também... É curioso porque antes de conversar com elas, tinha a falsa impressão de que elas eram do tipo de garotas certinhas. Mas, não são... "
"O que você quer dizer, Remus...?"
"Vocês conhecerão elas melhor. Agora, vamos porque estamos muito atrasados. Vou precisar ficar durante o horário do almoço hoje porque a mamãe vai ao Ministério da Magia oficializar os documentos da viagem. Eu queria tanto poder conhecer também as Filipinas..."
Os três amigos trabalharam durante a manhã como o habitual. Sirius e James vez ou outra, quando possível, falavam sobre supostas pessoas que deveriam estar presentes na casa de Remus durante a celebração. Pessoas até mesmo das quais Remus nunca ouvira falar.
No horário do almoço, James e Sirius saíram para comer e Remus permaneceu recostado ao balcão, aproveitando o pouco fluxo de pessoas para fazer os deveres de Aritmancia pendentes das férias. Tivera que interromper seus estudos duas vezes para atender a uma bruxa que comprara caramelos explosivos para o filho e a um bruxo de cabelo grisalho que levara uma caixa inteira de feijãozinhos de todos os sabores. Ao término de sua tarefa, uma terceira pessoa entrou na loja. Um garoto muito pálido, de cabelos negros escorridos e corpo franzino.
Por um momento, quando Remus ergueu seus olhos, o garoto deteve-se na porta parecendo não conter-se em uma surpresa absoluta. Após um sorriso nervoso, ele aproximou-se.
O garoto de cabelos castanhos sorriu para o rosto conhecido que lhe retribuía ao gesto de maneira receosa.
"Severus Snape, como vai...?"
"Olá, Remus Lupin... Eu... Eu não sabia que trabalhava...aqui..."
"Esta loja é da minha mãe. Durante o verão, eu venho ajudá-la. Está procurando algo em especial...?"
Severus procurou encontrar palavras. Procurou tentar recordar-se do que veio procurar naquela loja.
"Caramelos de três cores e... chocolates da Noruega..." murmurou timidamente o garoto com olhar nervoso.
Remus levantou-se do banco onde estava e cruzou uma trilha até o meio da loja, recolhendo os doces que Severus pedira.
"Aqui estão. Mais alguma coisa...?"
"Não..."
"São vinte e cinco nuques."
Remus esperou o garoto procurar o dinheiro em sua carteira enquanto empurrava seu livro para o lado, afim de embrulhar os doces sobre o balcão. Os olhos de Severus detiveram-se no livro do garoto de cabelos castanhos.
"Você está em minha turma de Aritmancia também... Você gosta dessa...matéria?"
Remus deu de ombros.
"É legal..."
Severus baixou os olhos diante de Remus.
"Os professores sempre dizem que você é um excelente aluno. O professor Flitwick ficou bastante impressionado quando você no exame final conjurou feitiços em chinês e lituânico...Aqueles feitiços não estão na grade de ensino de Hogwarts..."
"Eu utilizei dicionários, Severus. Além do mais, os feitiços são descritos em inúmeros livros da biblioteca, apesar de não serem ensinados em Hogwarts..."
"Você é brilhante, Remus..."
Os olhos de Snape muito fixos em Remus pareciam ver através de sua palidez e alma. O garoto de cabelos castanhos enrubesceu suavemente.
"Está enganado, Severus..."
"Não, não estou. Você é a melhor pessoa daquela escola..."
Remus sorriu constrangido.
"Se Michael ouvir você falando desse modo, ficará com ciúmes..."
Um desconcerto discreto assumiu o rosto do sonserino. Seus lábios crisparam-se brevemente.
"Então, é verdade o que os outros alunos estão comentando... Você e aquele monitor da Corvinal estão saindo juntos..."
"Não sabia que as pessoas estão comentando... Mas, sim... é verdade. Michael e eu estamos juntos há algum tempo..."
A idéia de pessoas fofocando pelos corredores de Hogwarts sua vida particular causou uma momentânea apreensão em Lupin. No entanto, estranhamente, revelara a veracidade de seu relacionamento com Carlson para Severus sem qualquer vergonha. De alguma forma, o sonserino destacava-se do grupo de pessoas que cercava-lhe na Escola. Era comum poucos pensarem em Snape como membro de algo.
Um bruxo com duas crianças entrou na loja e Remus deteve-se um instante, atendendo ao senhor até que ele saísse. Severus aguardou, recostado ao balcão.
"Bem, Severus, e quanto a você? Está se divertido com as férias?" perguntou o garoto de cabelos castanhos voltando-se para dar-lhe atenção novamente.
"São a mesma coisa de sempre. Tenho estudado bastante em casa..."
Remus olhou através de Snape. Sentiu intimamente a fibra de melancolia implícita naquelas palavras. Reconhecia a melancolia como uma extravagância em um mosaico cinzento. Nunca seria possível esta passar despercebida aos seus olhos.
"Bem, não sei se isso vai te interessar, mas..." começou hesitante, Remus"Mas, meus amigos estão preparando uma festa de aniversário para mim. Nada grandioso. Talvez, se você não tiver nada para fazer, possa aparecer..."
Os olhos de Severus moveram-se com nervosismo em uma peregrinação através daquela figura diante de si. Então, novamente sentiu em torrentes de angústia silenciosa e atordoante, o inconfundível e cru sentimento de amor. Não dessa vez, o amor que homens adultos e muito racionais sentem, mas sim o afeto abrupto e debilitante da pouca idade. De jovenzinhos que com clareza compreendiam sua importância. Sua impetuosidade. Seu império.
Em um silêncio compartilhado, os dois garotos miraram-se. E viram-se. Não como colegas, amigos ou amantes. Mas, como pessoas. Pessoas que estavam tão dolorosamente solitárias.
Severus aprendera cedo a lidar com a rispidez metálica da rejeição. Aonde quer que fosse, sentia que não encontrava-se em um lugar seguro. Sentia seus pés caminhando por terrenos não confiáveis que tendiam a afundar a qualquer momento na inexatidão de seus passos. Remus, por sua vez, aprendera a conviver com amigos adoráveis ao seu redor. Pais. Um namorado que dedicava-lhe uma importância maior que a vida. Contudo, inconfundivelmente apresentava fixo em suas retinas a memória da solidão. Da sensação de sentir-se só ainda que de fato, não estivesse. Tratava-se de uma solidão interior. Como se em partes de si, nunca a luz do sol tivesse lhe tocado.
Eram símiles e completamente diferentes.
Remus desfez-se de seus pensamentos devido ao peso do silêncio.
"Você quer, Severus... ? Pode comemorar conosco o meu aniversário...?"
Os olhos de Snape assumiram uma palidez fria.
"Acho que... seus amigos não vão me querer por lá... Quero dizer, Potter e Black..."
A compreensão da imagem de James e Sirius aprontando com Snape na frente de todos durante a festa não foi algo difícil do cérebro de Remus visualizar. Um certo temor transpassou seu rosto. Não podia responsabilizar pelas atitudes incoerentes dos dois amigos.
Severus captou seu pensamento e finalizou sua decisão.
"Não posso ir, Remus...Desculpe-me, mas... se você não se importar, talvez possa vir até minha casa... para eu entregá-lo seu presente de aniversário..."
Um ar de surpresa atravessou a expressão de Remus.
"Não, por favor... Não o convidei para que comprasse-me presentes ou nada parecido... Eu só queria que..."
"Não precisa se explicar, Remus. Sei que não faria algo assim. Por favor, aceite meu presente. E minha cortesia. Você poderia vir a minha casa qualquer dia desses?"
Remus sorriu por detrás de sua ternura cabisbaixa.
"Eu adoraria... É muito gentil de sua parte"
Severus forçou-se a sorrir.
"Os alunos da Grifinória sempre acusam os sonserinos de serem grosseiros... Bem, Lupin, acho que é melhor eu ir agora. Eu cuidarei de enviá-lo uma coruja avisando quando poderá me visitar. Espero que sua festa seja agradável. E... gostaria de dizê-lo também que essas lentes de contato caem-lhe muito bem. "
Remus mirou Severus com curiosidade.
"Como sabe sobre utensílios trouxas...?"
"Eu cursei 'Estudo dos Trouxas' no ano passado. O professor nos explicou sobre várias coisas do mundo trouxa..."
O garoto de cabelos castanhos sorriu com incredulidade.
"Muitos poucos alunos cursam essa matéria... Meus avós são trouxas, você sabia...? "
Severus sorriu e balançou a cabeça com concordância antes de abandonar a loja. Enquanto cruzava a esquina, o sonserino admitiu para si mesmo que Remus não deveria fazer idéia de seus sentimentos. De nada sabia.
Sua inocência era sincera. Sua pergunta se conhecia coisas do mundo trouxa transmitia pouca sabedoria.
Ah, Remus! Se ele ao menos soubesse. Como reagiria se descobrisse que o garoto de cabelos muito lisos e corpo magricelo ingressara no estudo de trouxas unicamente para tornar-se bom o suficiente para ele. Para melhor compreender uma parte do mundo que o cercava e poder enxergar-lhe melhor. Sabia da parte de sua família não bruxa e somente por pertencer a Remus, dedicava-lhe respeito.
O pai de Severus também possuía sangue trouxa. Entretanto, sobre o mundo daqueles que não possuíam magia, muito pouco o garoto magricela sabia.
Durante incontáveis noites, era aquele rosto muito pálido que cruzava a linha de veneração dos devaneios de Severus. Este mirava o teto de seu quarto, tomado por uma obsessão pouco comum a sua pessoa. Aquela pele alva, aqueles fios castanhos caindo por aquele rosto instruído eram dignos de uma adulação maior que a própria vida.
Era possível observar em Remus por trás de seus gestos afáveis e voz suave, um império pouco explorado. Uma força abominável. Um poder pouco calculável ou medível. Sob a fragilidade e vulnerabilidade de seu corpo, era fácil sentir o tremeluzir de uma magnitude que atravessava seus olhos e brotava em seu âmago.
"Eu amo você, Remus..." murmurou Severus enquanto cruzava uma ruela com algumas lojas.
Isso nunca lhe fora segredo. Nunca negara a verdade para si mesmo. Porém, poupava outros de ouvirem-na. Há alguns anos, ocultava isso da publicidade inconveniente da escória de alunos de Hogwarts.
Vivia um amor insuficiente e capenga. Um amor de apenas uma só parte. Era doloroso admitir, mas atravessar com fúria uma verdade gerava um sentimento de altivez. Quase de mártir.
Observava à distância a pessoa que amava. Venerava-lhe em segredo e dizia palavras pertencentes a ele para os ventos distantes.
Carícias eram outro assunto delicado.
Era pouco delicado seu imenso ódio ao imaginar aquele infeliz corvinense tocando Remus. Contudo, eram delicados os toques que Snape se proporcionava na solidão de seu quarto e de sua vida, ao trazer em suas lembranças a imagem do garoto de cabelos castanhos.
Severus sabia que isso não era uma plenitude. Apenas uma fagulha infeliz daquilo que não poderia tocar.
Conhecia-se como conhece-se um caminho percorrido várias vezes seguidas. Até quando suportaria essa distância doentia? Poderia carregar tanto tempo seus sentimentos inestimáveis dentro de caixas de veias e sangue?
Sabia em seu íntimo que à medida que o tempo avançasse, não conseguiria suportar mais aquele amor adolescente que transformava-se em algo demasiadamente adulto.
Amores adultos necessitavam de toques, carícias, afetos. Não era uma paixão de celibato que desenvolvia-se como um germe na escuridão de um só coração e mente.
Seu sentimento começava a criar uma profunda rebeldia contra a distância. Contra o silêncio. Imaginava-se com fúria procurando o corpo de Remus, aqueles olhos tímidos erguidos apenas para si, sua voz agradável incitando-lhe para que avançasse. Esse era seu desejo.
Severus deparou-se diante da porta de sua casa e ao atravessar a sala, não cumprimentou sua mãe que ali estava costurando. Ao subir para seu quarto, com o canto dos olhos mirou sua realidade. A mulher que ultimamente não falava, o pai ausente e o lar com o qual pouco se identificava em um tom amarelo nauseante.
Entrando em seu quarto, de modo mecânico, Severus fez o que estava acostumado a fazer inúmeras vezes. Abrindo seu armário, retirou de uma caixa, um cachecol vermelho desbotado com as barras de lã desfiadas. Sem, mesuras, aspirou o perfume doce que o tecido guardava e estava desvanecendo-se pelo tempo.
Furtara aquilo de Remus quando ele o esquecera em uma livraria de Hogsmeade. Lembrava-se que naquela manhã, em especial, Remus brilhava como uma incessante luz. Era a gota de sangue na palidez monótona e maçante da manhã. Lembrava-se do desejo que sentira de lhe dizer que o achava bonito. Que o notava há mais de dois anos e que o dedicava um amor de extremos.
Gostaria que o perfume de Remus penetrasse todas as fissuras daquela casa. De sua alma.
Severus admitia com uma debilitação triste que sua vida massacrara-se muito cedo. Uma figura melancólica costurava algo no andar de baixo, apática para tudo que lhe rodeava, deprimida, lamentando a ausência de um marido que apresentara-se em sua vida como uma pedra amarrada em seu pescoço. Sem perceber, ele continuava a puxando para o fundo de mares turbulentos, repletos de samambaias liguentas e enguias gordas.
Ocasionalmente, o garoto de cabelos muito lisos perguntava-se quanto tempo demoraria para ela afundar totalmente. Seria ele o próximo a ter também pesadas pedras amarradas em seu corpo? Havia outra forma de abraçar a insanidade que não fosse a espera silenciosa que as guerras injetam? Se existiam, quais eram...? Nada deveria ser pior do que esperar.
Severus enrolou o cachecol ao redor de seu pescoço e percorreu seu quarto até a outra extremidade. Do interior de uma gaveta, tirou um pequeno punhal do tamanho de sua mão e deitou-se na cama mirando o teto.
Não devia preocupar-se com aquele monitor corvinense. Ele não era o problema. Era fácil perceber poucas mudanças em Remus após o início do namoro com Carlson. O amor muda as pessoas. Lupin era o mesmo.
Seu principal problema estava tão próximo do garoto de cabelos castanhos quanto seu próprio sangue.
Black e Potter! Estes roubavam-lhe a paz. Estes inspiravam-lhe perigo.
Remus era cego para ambos. Amava-nos verdadeiramente. As centelhas desse amor afetavam Severus que sentia-nas à distância. E ao pensar nisso, o sentimento de paixão que preenchia seu âmago atravessava rapidamente o caminho do ódio.
Doía como o fogo ver Remus olhar para as pessoas que mais odiava com o mesmo olhar que desejava para si. Poderia enlouquecer a qualquer momento.
Poderia a qualquer momento atravessar a carne de Sirius e James da mesma forma que no momento atravessava a sua. O frio metálico procurando faminto o calor de sangue e a ruptura de artérias. A aniquilação de seus inimigos...
Um breve gemido atravessou os lábios de Snape quando deparou-se com seu próprio sangue gotejando em suas vestes.
Às vezes, gostava de brincar daquela maneira. Gostava de cortar-se de maneira insana.
Não lembrava-se ao certo quando adquirira esse hábito. Talvez no primeiro ano de Hogwarts.
Longe o suficiente das vistas dos professores, os garotos da sonserina costumavam jogar um jogo quando entediavam-se com as aulas de Feitiços ou com as brincadeiras de varinhas.
Em banheiros desertos ou corredores vazios, apostavam quem seria capaz de cortar-se bem fundo e sangrar maior tempo sem reclamar ou desmaiar. Apenas naquela brincadeira, aceitaram a participação do "estranho" Snape que nunca perdeu nenhuma disputa a apenas dessa vitória podia gabar-se.
Agüentava serenamente sob os olhares de outros alunos, ver seu sangue correr em um fluxo contínuo e intenso após um longo período. Permanecia em tal estado, muitas vezes, mesmo quando os outros alunos admitiam suas derrotas e davam-lhe as costas, voltando para os "Feitiços" e diversões com as varinhas.
A verdade é que... após algum tempo, pouco importava-lhe se era o vencedor ou não. Pouco importava-lhe a disputa.
Um dia feriria Black e Potter. Um dia os amaldiçoaria com uma dor infinita.
Severus levantou a manga de suas vestes e por um momento, sentiu vontade de escrever daquela maneira dramática todas as coisas que queria dizer a Remus e nunca pode.
"Todas as coisas que deixei de dizer a você... Remus..."
Severus não escreveu tudo que ansiava. Como sempre, as palavras confundiram-se em seu íntimo. Esmoreceram-se em seus desejos e amor louco. Pouco a pouco, a consciência retornou possessiva a sua mente.
Contudo, não privou-se de dizer aquilo que mais pesava-lhe. Que mais exasperava-lhe. Tudo que o obcecava. Com mão firme, marcou o seu braço.
' Remus Lupin. Meu Amor.'
Sua outra mão largou o punhal e se uma outra cor tingisse o cachecol do garoto de cabelos castanhos, manchas de sangue poderiam ser vistas no tecido grosseiro.
Severus sentiu seu coração doer por um breve momento e ansiou como nunca a presença de Lupin. Imaginou-lhe como imaginava-lhe várias vezes. Sem receios ou culpa, procurou abrir sua calça e tocou-se, chamando pelo nome daquele que inspirava-lhe loucura.
Queria que Remus atravessasse a porta e curvasse-se sobre si. Desejaria pedir-lhe que despisse-se diante de seus olhos e deitasse-se ao seu lado. Gostaria que Remus o tocasse daquela maneira, sem demonstrar o asco que vários outros demonstrariam.
Remus beberia seu sangue vermelho. Seu sangue branco. E leria em voz alta as palavras marcadas em seu braço.
Faria um sacrifício também. Escolheria fazê-lo por sua espontânea vontade. Tomaria o punhal em suas mãos e romperia suas veias. Escreveria:
'Severus Snape. Meu único Amor...'
O garoto magricela e de cabelos negros tentaria impedi-lo de machucar-se. Não gostaria que sofresse. Não podia vê-lo sentir dor.
Mas, Remus pouco importaria-se. Olharia-no com o olhar superior que sua doçura ocultava. Enrolaria-se em seu cachecol e beijaria-lhe abraçado pela mesma loucura. Ambos perderiam a consciência, juntos. Adoeceriam para sempre mergulhados naquele pacto insano e eterno.
Severus mirou maravilhado o sangue escorrer de seu pulso. Era por Remus que sangrava. Sangrava por dentro.
Nunca imaginara que de seu coração pudesse ser arrancada uma ternura tão profunda. Era o amante emparedado, sufocado. Desesperado. A ferida era apenas a conseqüência daquilo que há muito aceitara para si. A prova de seu sentimento intrépido. De sua adulação sem mesura. Da extravagância de sua paixão e de sua dor. Mas, isso era apenas porque sentia tudo sozinho.
Seu amor era aleijado. Faltava-lhe uma parte. A parte necessária para dividir o seu fardo.
(CUT)
Os três amigos dormiram até mais tarde naquele sábado. Acordaram no horário do almoço. Precisavam atravessar a madrugada, sem que o sono alcançasse seus olhos e corpos.
O aniversário de Remus havia sido, de fato, na sexta. Porém, as comemorações festivas seriam dadas naquele sábado.
O garoto de cabelos castanhos ganhara presentes de seus familiares e dois melhores amigos. Durante todo o dia, prepararam a casa para a suposta festa de Remus que estaria marcada às nove. Por fim, os seus pais haviam dado-lhe permissão para celebrar seu aniversário, sem grande discussões ou traumas. Apenas, advertiram-no para que evitassem grandes estripulias.
Remus sentiu em seu íntimo que certamente, seus pais referiam-se aos seus amigos e não a si mesmo, visto que estes reconheciam com freqüência e confiança em sua inabalável responsabilidade.
Sirius dissera há apenas algumas horas os nomes das pessoas que convidara para ir até a casa do amigo. De fato, todos os amigos mais próximos, colegas e conhecidos encontravam-se na lista, assim como nomes que Remus nunca ouvira falar.
O garoto de cabelos comprido e seu comparsa de cabelos rebeldes desviaram o assunto, dizendo que muitas vezes, a animação podia ser encontrada nos números. Além disso, muitas pessoas deveriam não comparecer.
Durante o início da noite, os três amigos começaram a arrumar-se. Remus foi o último a descer. Não estava com um estilo muito diferente do seu habitual, mas trajava roupas novas que sua mãe comprara-lhe para ocasiões importantes.
Remus julgou captar um olhar meio atordoante de Sirius e James em sua direção enquanto encaminhava-se para atender a porta onde ressoara a campainha.
Sirius lutou para evitar olhar seu amigo de cabelos castanhos. Evitou olhar para seu corpo, sem consegui-lo. Não julgava respeitoso mirá-lo com vulgaridade.
Remus estava extremamente atraente. Longe das roupas desbotadas e discretas, sua beleza fluía em uma densidade sensível. Havia reentrâncias secretas no garoto de cabelos castanhos. Era comum, ele surpreender. Ser envolvente, sem saber o que fazia. Criar códigos indecifráveis ao redor de sua ternura. Agora, tinha dois pares de olhos fixos em si.
James não temia ser indiscreto. Olhava Remus fixamente, em silêncio. A obstinação de seus olhos parecia ser temível em conhecimentos ambíguos e ao mesmo tempo, tão óbvios.
O garoto de cabelos castanhos abriu a porta da sala e deparou-se com um par de olhos azuis porcelana. Um cabelo que caía impecável por cílios estáticos. A pele um pouco febril pelo tom quente da estação.
Carlson cumprimentou Remus e curvou-se para dar-lhe um beijo no rosto. Seu sorriso desvaneceu-se, sem descrição, quando deparou-se com Black e Potter lançando-lhe um meio sorriso sarcástico.
Sirius não respondeu ao cumprimento quase inaudível do corvinense e permaneceu no mesmo lugar onde se encontrava. Seus olhos cinzentos pareciam atravessar as duas pessoas diante de si em um estudo silencioso e concentrado. Ocasionalmente, atingia estágios de pura análise naquela estranha relação mascarada de profundidade. Nas abstrações que conseguia captar entre Remus e Michael podia constatar com clareza que:
a)Faltava em ambos qualquer sinal de cumplicidade necessária em um relacionamento.
b)Faltava a ambos até mesmo uma profundidade na amizade que deveriam travar. Faltava-lhes correspondência nos gestos. Era de fato aquilo uma aproximação forçada. Carlson e Lupin. Pessoas extremamente racionais. Racionais que adoravam mascarar os fatos ou se enganarem.
c)Faltava-lhes sensualidade. Quem achavam que eram? Os reis da libertinagem? Os príncipes do desejo? Não passavam de pirralhos que não sabiam onde enfiar as mãos. Pareciam ambos ridículos quanto se beijavam. Como se estivessem tentado ser exatamente o que não eram. Patéticos! Carlson e Lupin juntos não sabiam o que era sensualidade. Ele e Potter, sim, entendiam dessas coisas. Não se busca a libido em relacionamentos capengas e estranhos. Simplesmente, você a tem ou morre sem nunca conhecê-la.
d)Realmente, Carlson não era bonito. James estava certo. Sua cabeça era de gnomo.
e)Remus se contentara com o primeiro que lhe dera uma flor. Que idiota!
f)Carlson e Lupin nunca seriam felizes juntos.
g)Carslon gostava de Remus mais do que o contrário... Até quando?
h)Odiava Remus quando enchia a boca para dizer que o corvinense era seu namorado. Se aquele monitorzinho era seu amante, o que era então, James para si? James com quem nutria uma amizade intocável. Inalterável. James com quem compartilhava profundos pensamentos. James que possuía um "eu" maior do que si mesmo e sempre sabia o que fazer e como fazer. Se "namorado" era o termo que referenciam-se ao relacionamento do seu amigo com aquele infeliz, deveriam no dicionário dos bruxos, escrever um novo termo unicamente para ele e Potter. Como deveria chamar James a partir de hoje? Sangue, irmão...?
i)Remus forçava-se a ser feliz nos braços de alguém que lhe era um estranho. Perdera sua sanidade definitivamente.
j)Remus mentira debilmente no dormitório em Hogwarts quando afirmara que amava Carlson. Isso era uma certeza! A quem amava, então...?
Sirius trabalhava aqueles "Dez Mandamentos" com seu lado mais sarcástico. Mais letal. Uma discreta herança genética dos indóceis Blacks. Dos frios familiares.
James mantinha seus olhos fixos no corvinense que colocava o braço ao redor dos ombros de Remus.
"Nossa, eu não queria ser o primeiro a chegar... Espero que os outros convidados não demorem muito. Você gostou, Remus, do presente que te enviei ontem?"
O garoto de cabelos castanhos assentiu com delicadeza. Sua atenção foi distraída por um olhar de cumplicidade maligna entre seus dois amigos. Sua alegria esmoreceu-se languidamente. Como poeira pairando no ar.
Remus captava gestos mudos. Sorrisos furtivos pelas costas de Carlson.
Aquela estava longe de ser a primeira vez que Potter e Black debochavam do corvinense. No entanto, naquele momento Remus sentiu uma raiva desconfiada. Desconfiada por captar por uma ilógica de irmãos muito próximos, mães e filhos ou amantes recém amados, os pensamentos pesados de Sirius. Não era a primeira vez que pensamentos de Black ou Potter alcançavam-lhe. Pensamentos pesados como chumbo. Duros. Agressivos.
O garoto de cabelos castanhos sentiu uma repentina ternura por Carlson. O monitor de gestos reticentes. De voz adorável. Na porta da enfermaria implorando-lhe correspondência. Amando-no em dias coléricos e anêmicos. De costas para seus inimigos. Sofrendo a agressão das pontas de lanças de sarcasmo doentio em suas costas. Os mais fortes. Os intocáveis. Sirius e James golpeavam-no pelas costas, sem algum resquício de piedade santa.
Foi com voz ainda suave que Remus pediu que Carlson subisse e o esperasse lá em cima. Seguiu-no com olhos sorridentes até que a porta de seu quarto fechasse-se.
De pé. Diante de seus dois amigos. Daqueles que amava. Olhos doloridos...
"Por que vocês não gostam do Michael?" perguntou Remus com naturalidade fingida.
"Por que está nos perguntando isso, Remus?" perguntou James com voz impassível.
"Porque vi você e Sirius trocando olhares pelas costas de Michael. Venho assistindo seus sorrisos debochados e ironias há um bom tempo. Não acham que já é o suficiente...?"
Um silêncio agressivo instalou-se no ambiente. Todas as coisas silenciaram-se. O momento cessou. As cortinas, a brisa que atravessava as janelas, os pensamentos inertes como cadáveres.
Sirius aproximou-se de Remus com olhos íngremes.
"Sabe, Remus... De todos nós, eu sempre fui o pior. James, o melhor. E você... o mais sonso..."
O garoto de cabelos castanhos recolheu-se dentro de si como se houvesse tocado em uma superfície demasiadamente quente. Ou fria...
"Odeio tudo que você esconde. Odeio todas as coisas suas que são camufladas. Odeio suas mentiras bem contadas, mas falhas. Acha que somos cruéis, James e eu por maltratarmos Carlson? Acha que somos infelizes por nutrirmos atitudes e pensamentos sinceros? Tenho pena de você, Remus! Quem é o monstro aqui? Nós ou você por estar enganando aquele garoto? Por fingir que o corresponde. Por alimentá-lo com ilusões que você vai destruir em meses? Será que você o ama de verdade? Tenho observado de perto e longe esse 'louco amor'. Esse fingimento absurdo..."
Remus afastou-se de Sirius trêmulo por dentro. Por fora, exibia sua calma invejável.
"Por que não se mete com a sua vida, Black? Por que quer tomar conta de minha vida e me critica? Eu nunca vou ser bom o suficiente para você e James, não é mesmo? Sempre vai ressaltar minhas falhas e erros com um prazer mórbido. Nem meu relacionamento. Nem meu namorado. Nem eu... Nada dessas coisas são suficientes para você. Você sempre olha tudo de cima com sua arrogância e ego. Eu nunca vou ser bom para você. Esteja eu triste ou feliz, sempre haverá algo de errado em mim. Você sempre tentará me corrigir..."
James notou com apreensão que Remus tinha olhos vermelhos de morte. Sirius não deteve-se. Seu lado mais cruel atiçou-se como fogo.
"Não tenho problemas com você. Mas, perdoe-me se acho que o garoto com quem você se esfrega é uma grande porcaria. Suba! Vá lá! Ele deve estar te esperando! É só para isso que você deve servir para alguém a quem está visível que não ama. Aposto que as mentiras entre vocês dois devam entreter muito a ambos. Suba! Ele deve estar doido por isso..."
Remus perdeu a sua calma. O tremor que encontrava-se em sua alma transbordou para a superfície de seu ser. Não houve lágrimas. Machucado e ofendido como nunca antes, Remus deu as costas para Sirius e com passos rápidos subiu os degraus da escada até seu quarto. Um som surdo de madeira batendo foi audível quando, com violência, ele fechou a porta.
E naquele momento, apenas por minutos, Sirius e Remus se odiaram. Odiaram com o ódio forte existente só entre mães, filhos, pais, irmãos. Amantes.
Odiaram-se com o calor púrpuro da calamidade e dor. Após, a dor voltariam a sentir o amor e a tristeza predominante.
James mirou Sirius com olhos incrédulos antes que levasse as mãos à cabeça, consciente, das coisas cruéis que haviam sido ditas e demorariam um século para serem varridas.
Com dedos hesitantes, James tocou os cabelos de Sirius.
"O que você fez, Sirius?"
Um câncer silencioso e insistente penetrou o coração do garoto de cabelos compridos. Estava tudo errado. Mais tarde, sabia que desejaria abraçar Remus e desmentir-lhe todas aquelas agressões. De dizer que o considerava como um tesouro valioso. Que nunca o julgara menor do que era.
Porém, a inteligência aguda de ambos revelaria que muitas verdades são germinadas em momentos de pura raiva. Nenhuma sinceridade é tão sincera como aquela que brota em um solo seco de discórdia, assim como um cacto em meio ao deserto.
Em seu quarto, o garoto de cabelos castanhos soluçava nos braços de um preocupado Michael Carlson. Seu coração era a morte insaciável e brutal. Vital e podre.
O amor, algo que corroia-lhe. A praga daquela amizade que pecara contra a reserva.
Em um futuro, quando Remus pisasse pela última vez em Hogwarts e sentisse aquela atmosfera suave e eterna o engolir, compreenderia que vivera uma época de limites pouco respeitados. De desmedidas. De excessos. E de confusões de sentimentos.
Uma época em que familiares se odiavam como algozes. Ou amavam-se como loucos. Amigos adoravam-se como irmãos. E amariam-se como amantes. Amantes divorciados unicamente pelo tempo e pela infâmia dos destinos.
Porém, com um orgulho meticuloso, Sirius, James e Remus ririam do tempo ou da rispidez da vida. Ririam por estes terem atrasado-se. Atrasado-se para roubar-lhes aquilo que era adorável e infinito.
Antes que as declinações de miséria e caos apoderassem-se de suas vidas, aqueles três jovens já teriam vivido por inúmeras reencarnações. Já haviam amado mais do que um corpo sangüíneo e ósseo permitia. Já haviam sido felizes em uma plenitude incompreensível. Não lamentariam o que a vida viria a levar-lhes porque humildemente admitiriam que já haviam vivido mais do que qualquer outra pessoa.
E mesmo daqueles momentos brutais, carregariam uma sensação de algo soberbo. A sensação de egos extremamente fortes se digladiando em nome de um Amor incestuoso. Vivendo batalhas e tréguas que muitos em uma vida longa não encontrariam.
Em um futuro, quando adultos e enfrentando suas misérias, aqueles três jovens de Hogwarts admitiriam que suas relações não haviam sido perfeitas por caminharem entre o incomparável e o caos. Mas que viveria através do tempo sem nunca extingüir-se.
Então, Sirius, Remus e James ririam um sorriso que poucos reconheceriam e admitiriam que foram insuperáveis. Que aquela remota cena na casa de Remus havia sido apenas um desdobramento do imenso Amor quer sentiam. Uma batalha insensata e ainda assim, doce. Repleta de sentimentos indefiníveis e febris. Que aquele talvez tenha sido o início para algo maior. Ou então, apenas o meio de algo que acontecia há milênios em suas naturezas.
E era nessas horas que a abstração daquela ternura tornava-se quase palpável...
