"Então... vocês passaram?" Perguntou Kurt, sentado em uma poltrona, de frente para o sofá onde estavam o irmão e a cunhada, com sua carta aberta na mão, e vendo Rachel encarar a dela e Finn fingir interesse em seu celular.
"Eu... hum... você entrou?" Rachel devolveu a pergunta, nervosa.
"Eu acho que prefiro não ser o primeiro a falar. Que tal você, Finn?"
"E por que eu?" Finn passou, sem jeito, uma das mãos pelo cabelo, não tendo conseguido decifrar as expressões dos outros dois. Rachel tinha lágrimas nos olhos, mas isso podia significar qualquer coisa.
"Sei lá! Alguém tem que acabar com esse mistério, então por que não?" Hummel insistiu.
"Que tal se eu contasse até três e nós falássemos todos ao mesmo tempo?" Sugeriu a garota. "Assim, ninguém ficaria com vergonha de dizer, se não tiver passado e os outros sim, nem com pena, se tiver passado e alguém não tiver."
"Eu gosto da ideia." Finn concordou, aliviado.
"Bem colocado, diva." O outro rapaz também não se opôs.
"Ok." A Sra. Hudson puxou o ar pelo nariz e o soltou pela boca, como os adeptos da yoga ensinam a fazer, para relaxar. "Um... dois... três." Falou cada número devagar, sentindo a respiração descompassada, apesar do exercício.
"Sim." Foi a única palavra escutada, mas ninguém tinha ousado dizê-la muito alto, então eles se entreolharam, buscando confirmação.
"Todos nós passamos?" Finn perguntou, com cuidado, e Kurt e Rachel, a princípio, apenas balançaram a cabeça positivamente, mas, quando perceberam que não somente tinham vaga garantida na faculdade de sua escolha, como poderiam se mudar junto com os outros dois, exatamente da maneira como tinham sonhado, levantaram-se pulando e gritando.
"New York! A gente vai pra New York, Finn!" Rachel se jogou nos braços do marido, que riu e rodopiou com ela, tirando seus pés do chão.
"NYADA! Oh. Meu. Deus! Vocês tem noção de que isso é um passo enorme em direção à Broadway? Eu pre-ci-so que alguém me belisque."
"É verdade, Kurt! É verdade!" Rachel saiu dos braços de Finn para abraçar o melhor amigo e os dois secaram as lágrimas de felicidade um do outro, antes de Kurt puxar Finn pela blusa, para um abraço triplo.
"O que aconteceu? Eu tava no telefone e, de repente, escutei gritos!" Carole disse, entrando na sala, e os três riram.
"Você está olhando para três futuros atores, Carole querida." O enteado informou, fazendo uma reverência.
"Nós três passamos." Rachel explicou, sorridente.
"As cartas deles chegaram e o meu email também." Finn complementou, se aproximando da mãe.
"Meus queridos!" Disse, abraçando primeiro seu único descendente, e depois abrindo os braços para a nora e o outro garoto a quem amava como a um filho. "Eu to TÃO orgulhosa de vocês!"
"Eu não duvidei por um só momento!" Burt, que acabara de entrar na casa pela porta de serviço, veio da cozinha, de onde tinha escutado o final da conversa. "E torci muito, apesar do vazio enorme que vai ficar nessa casa." Afirmou, beijando cada um dos três na testa, mesmo tendo sido um pouco difícil fazer isso com Finn, o que levou todos às gargalhadas.
"Eu tava fazendo comida, mas acho que isso merece uma comemoração. Que tal irmos ao Breadstix?" Carole sugeriu.
"Posso chamar o Blaine? Tenho que contar a ele!" Kurt pediu, animado, e recebeu o consentimento do pai.
"Tenho que contar aos meus pais também." Comentou Rachel.
"Convida os dois. Vai ser ótimo!" Burt afirmou.
"Eu vou ligar pro Will, antes de sairmos." Finn falou, pegando o celular.
"Acho que seria mais legal contarmos pessoalmente a todos do coral." Rachel propôs e ficou decidido que eles falariam no encontro do dia seguinte.
Quando os amigos e o mentor souberam da aprovação dos três, eles foram ovacionados, gritos ecoaram pela sala do coral, os meninos brincaram de jogar Kurt para cima e abraços sem fim foram trocados. Rachel agradeceu a Tina, por ajudá-la a convencer Carmen Tibideaux a lhe dar mais uma chance, e Finn foi homenageado pelos não formandos, que cantaram In my life, dos Beatles, depois de Artie dizer algumas palavras especialmente direcionadas a ele.
"Com todas as dedicatórias sendo feitas essa semana, existe uma pessoa não poderia ser esquecida: Finn. Você agora é algo que nunca achei possível enquanto rolava por esses corredores. Você é meu amigo. Nosso amigo! Mesmo antes de o Glee ser meio legal, vocês nos defendeu. Estava no time de futebol, era um dos mais populares e tinha muito a perder, e as pessoas esquecem os sacrifícios que você fez. Queríamos agradecer-lhe."
É claro que Finn ficou surpreso! Ele nunca se dava o valor devido, por isso não poderia imaginar que seria citado como alguém digno de agradecimento, dentre todos os formandos, pelos mais novos. Porém não menos surpresa ficou Rachel, que não recebeu uma homenagem musical especial, mas teve uma das conversas mais interessantes de toda a sua vida escolar, naquela mesma tarde, dentro de um banheiro.
"Um calouro acabou de me abraçar e me disse para nunca mudar." Quinn comentou, encontrando a morena, que arrumava o cabelo, em frente a um espelho. "Coitado! É muito jovem pra perceber que mudar é bom." Sorriu. "Pense! Se não tivéssemos mudado, não seríamos amigas."
"É tão estranho ouvir você me chamar de amiga." Rachel disse, mas também sorria.
"Aqui." A loira lhe entregou algo que trouxera consigo.
"O que é isso?"
"Passes de metro de New York para New Haven. Consegui alguns e estou dando esses pra você e o Finn. Todos continuam falando em manter contato e quero ter certeza de que iremos mesmo."
"Obrigada. Isso é ótimo." Rachel falou, sincera, e as duas se abraçaram.
"Apesar de continuar não sendo a favor de casamentos na adolescência, estou finalmente feliz, de verdade, por você e pelo Finn. Eu costumava ter uma foto de vocês, na qual o seu rosto estava rabiscado, pendurada no meu armário, porque achava que Finn era a pessoa certa pra fazer de mim o que eu queria ser, e que você tinha roubado a minha única chance, ficando com ele. Mas agora eu sei que vocês foram feitos um pro outro e percebi que eu não ia ser feliz, de fato, só por fazer parte do casal mais popular da escola."
"É estranho, pois eu senti o mesmo sobre você e o Puck... em relação a essa coisa de serem feitos um pro outro." Confidenciou, enquanto guardava os tickets na bolsa.
"História antiga." Quinn fingiu não dar importância ao comentário.
"O que eu quero dizer é que, quando vocês estavam juntos, ele era melhor." Afirmou, antes de mudar de assunto, falando sobre planos para os dias seguintes, e deixando a outra bem mais pensativa do que poderia ter imaginado.
Fabray ficou tão intrigada com o comentário que pensou nele durante o resto daquela tarde, por toda a noite e madrugada adentro, e acabou tomando uma grande decisão que seu coração lhe pedia, apesar de sua cabeça julgar um tanto quanto insana. Na última manhã de aulas, ela procurou por Puck e pediu que o rapaz fosse à casa dela, para conversarem, depois de ter obtido a confirmação de que ele não passara em sua prova e pretendia ficar em Lima, até fazer o teste de novo.
"Eu vim porque fiquei curioso, mas honestamente não eu entendi, Quinn. Por que me chamou aqui?" Ele perguntou, logo depois de ser recebido e levado ao quarto dela.
"Eu soube que você não passou pra Educação Física..."
"Eu não preciso da sua piedade, ok? Todos já estão me olhando com cara de pena, desde que eu voltei da prova sem ter conseguido responder nem a metade das questões."
"Eu não te chamei aqui por pena, Puck. Eu te chamei porque eu te amo." Ele a olhou incrédulo. "Você foi meu primeiro, afinal."
"Eu meio que estraguei tudo, né?" Ele questionou, finalmente relaxando e sentando na cama.
"Sem ressentimentos." Ela ocupou o espaço ao lado dele.
"Eu sempre me senti mal por isso." Ele assegurou. "Eu fui um idiota no ensino médio!"
"Eu me importo com você, Puck. Depois que a Beth nasceu, nunca mais fomos próximos, mas, quando duas pessoas passam pelo que passamos, elas ficam ligadas pra sempre."
"E se precisar de mim, você sabe onde me encontrar." Afirmou, derrotado. "Bem aqui, em Lima, limpando piscinas e tentando passar em algum teste, ano após ano."
"Ei! Eu nunca teria perdido minha virgindade com esse cara! O Puck por quem me apaixonei tinha estilo e cofiança. Você precisa recuperar isso e, então, vai se sair bem."
"E como eu faço isso?" Indagou, descrente.
"Assim." Ela, então, se aproximou e o beijou, e os dois sentiram as borboletas no estômago que tinham ficado adormecidas pelos acontecimentos não programados da vida dos dois, como o de ter uma filha, ainda muito jovens, não se sentindo preparados para criá-la e, consequentemente, tendo que se separar de algo que era a comunhão de uma parte preciosa de cada um deles, o fruto do amor que não tinham arriscado viver senão por um breve momento.
"Não. Espera." Ele pediu, separando seus lábios dos dela. "Guarda isso prum cara de Yale, que mereça você."
"Não há ninguém que mereça mais." Retrucou. "Só precisa se lembrar do cara que era quando nos conhecemos. Era o cara que pegou o touchdown da vitória, no único jogo que o time ganhou. O cara que comeu molho de pimenta numa aposta."
"Você me achava um perdedor! Escolheu o Finn pra ser pai da Beth!" Irritou-se.
"Eu tava errada! Eu... tive medo! O Finn ficaria comigo, com certeza, porque ele era certinho, e você tinha uma garota nova na cama a cada semana!" Explicou. "Eu tava errada e você acabou acreditando em mim, de tanto eu te chamar de perdedor, mas você sempre quis coisas grandes antes de disso. Queria sair de Lima e me queria." Lembrou, rindo. "Então, você vai me deixar te beijar?"
"Seria rude recusar." Brincou também e os dois se beijaram de novo, não conseguindo ficar só nos beijos, porém, dessa vez, usando proteção.
"Vem comigo pra New Haven?" Ela convidou, deitada sobre o peito dele. "Eu vou morar num apartamento só meu e a cama já é até de casal."
Noah Puckerman não era um cara covarde, mas também não queria ir para uma cidade nova, a pretexto de sair de Ohio, e acabar vivendo às custas da a família de uma garota com quem ele tinha acabado de se reconectar. Eles sequer tinham namorado e já iriam pular para a fase de viver juntos, o que era um pouco assustador! Por outro lado, era a única maneira de, finalmente, ter uma chance real com a garota por quem era apaixonado havia anos e, quando ela falou que ele poderia trabalhar como barman ou garçom no bar onde ela seria garçonete, e fazer um curso de música, fotografia ou qualquer outra coisa que lhe interessasse, para, mais tarde, começar a faculdade, ele se viu dizendo "sim".
Naquele final de semana, pouco depois da animada cerimônia de formatura, eles contaram a novidade aos amigos, que ficaram realmente felizes por eles. Só não comemoraram mais porque as despedidas começaram no mesmo dia, com Mike deixando o grupo, uma vez que, antes de ir para a faculdade, ele e os pais passariam férias na Coréia. Tina provavelmente só o veria no recesso seguinte e precisou ser consolada por todas as meninas, e por Blaine e Kurt.
As despedidas foram muitas, daquele dia em diante, mas Rachel, Finn e Kurt não viram os amigos deixarem a cidade, pois foram os próximos a viajar. Como tinham sido os últimos a receber respostas de suas escolas, não haviam tomado nenhuma providência em relação à moradia e aos trabalhos de meio expediente, necessários a sua sobrevivência em um lugar como a Big Apple, então precisavam fazê-lo o quanto antes. Provavelmente ficariam no apartamento de um amigo de Burt, para o qual estavam indo, já que era bem localizado e grande o suficiente para os três. No entanto, se o valor do aluguel era baixo, era justamete porque seriam necessários vários reparos e os três jovens só teriam o período de férias para providenciá-los.
"É muito difícil levar tudo que eu preciso assim!" Rachel reclamou, colocando sua mala rosa com rodinhas no porta-malas do carro de Burt.
"Pois é. Nem os meus itens de nécessaire todos eu to podendo levar!" Kurt concordou.
"Nós só precisamos ver o estado do apartamento e decidir se vai ser mesmo lá nosso endereço. Em uma semana, no máximo, nossos pais vão mandar o resto das nossas coisas pra gente." Finn lembrou aos dois, ajeitando a própria bagagem no veículo.
"Eu to tão ansioso pra caminhar pela Times Square. Qual vai ser a primeira peça que vamos ver na Broadway?" Kurt ocupou o banco de trás, junto ao jovem casal Hudson, mostrando-se empolgado com a mudança.
"Nós estamos indo pra arrumar as coisas, cara. Nada de Broadway ou passeios por enquanto." Finn falou, sério.
"Por favor, amor! Não precisamos trabalhar dia e noite também, né?" Rachel literalmente fez bico , ganhando um beijo do marido, que se convenceu rapidamente.
Burt deu a partida no carro, enquanto Carole tentava chorar silenciosamente, e falhava miseravelmente, deixando escapar soluços. A viagem até a estação de trem de Lima acabou sendo feita em silêncio, a não ser pelo choro da mulher mais velha, que tinha seu ombro constantemente massageado pelo filho, em sua tentativa vã de consolá-la pela saudade antecipada. Rachel controlou o choro até encontrar Hiram e Leroy, que já estavam aos prantos antes mesmo de ver a filha aparecer na plataforma.
"Eu vou estar aqui no casamento, como seu padrinho, ainda que você tenha escrito apenas 'Querido Finn, foi ótimo te conhecer' no meu anuário e não algo como 'filho que eu nunca tive' ou 'irmão mais novo que a vida me deu', viu?" Finn brincou com Will, enquanto Rachel abraçava Emma.
"Eu vou te visitar ainda nessas férias. É só vocês resolverem esse problema do endereço." Blaine assegurou, envolvendo Kurt em seus braços e fazendo com que ele, enfim, chorasse.
"Nós nunca vamos nos esquecer de nenhum de vocês, e queremos receber a visita de todos." Rachel disse, emocionada, já sendo puxada por Finn para o trem, que sairia em alguns minutos. Todos os companheiros de coral tinham ido dizer "adeus" e os três futuros moradores de NY tinham já abraçado um a um, mas estava sendo difícil embarcar e deixar, de vez, a convivência que tinham com eles!
"Quando tivermos espaço." Acrescentou Kurt, com afetação, fazendo todos rirem e diminuindo a tensão.
Quando a locomotiva se movimentou, eles acenaram várias vezes, antes de se recostarem em suas poltronas e, então, relaxarem. Sentiam a pontada de medo que vem naturalmente com grandes mudanças, como a que estavam experimentando. Entretanto, quando Finn cantarolou uma famosa música, tornada célebre na voz de Sinatra, no ouvido de Rachel, e ela o acompanhou, fazendo com que Kurt pudesse ouvir a letra, a alegria superou qualquer receio.
A partir da manhã seguinte, eles acordariam na cidade que nunca dorme! E um dia eles seriam os reis do pedaço.
Eles começariam sendo parte daquilo tudo. E um dia eles estariam no topo da lista!
