O primeiro golpe errou, não havia imaginado que seu meio-irmão fosse tão rápido, talvez por influência do próprio demônio que o possuía naquele momento. "Droga!" Ou talvez fosse a preocupação com o que quer que estivesse acontecendo dentro daquele cômodo no segundo andar da casa. "Setsuna..." A presença de Naraku se fazia cada vez mais forte, crescente. "Maldito!" Desviou de um golpe do lobo.
– O que foi, cachorrão? Perdeu o interesse? Ou será que percebeu que não pode ganhar essa? – Desdenhou o lobo.
– Cale a boca, seu lobo fedorento! Isso é assunto de família! – Esbravejou o hanyou.
– Faça como quiser, cara de cachorro... – Fez um ar esnobe e cruzou os braços.
"Eles continuam tendo a mesma rivalidade natural de antes." Estreitou os olhos enquanto analisava os dois a sua frente. "Talvez..." Foi quando Sesshoumaru, para a surpresa dos dois seres possuídos, fincou a lâmina de sua espada no solo.
– O que foi, maninho? Já vai desistir?
– Na verdade, prefiro um corpo a corpo. Esta espada é inútil de qualquer forma. – Percebeu que o hanyou se aproximava satisfeito. – Mas o lobo seria um adversário muito mais interessante do que você.
– Como é que é? – Perguntou o hanyou frustrado. – Ora, seu... – Ergueu o punho cerrado em tom de ameaça, mas voltou sua atenção para o lobo ao ouvir sua risada irônica com ares de satisfeito. – Do que você está rindo, seu lobo fedorento! – Esbravejou.
– Ah, cala essa boca, seu cachorrinho de meia tigela! Enfia o seu rabinho entre as pernas e aprenda como se luta de verdade! – E com o jeito arrogante de ser, o lobo deu as costas para o hanyou e preparou-se para enfrentar Sesshoumaru.
– Não dê as costas para mim! – Olhou raivosamente para o meio-irmão. – Por que prefere lutar com esse lobo maldito?
– Porque, assim como eu, ele é um youkai de sangue puro. Lutar com ele certamente será muito mais nobre do que com um hanyou imundo. – Pôde perceber a ira acender-se nos olhos do hanyou. "Era como eu já imaginava..."
– Sai para lá, cara de cachorro... Olhe e aprenda como se faz! – Bradou o lobo já esboçando um ataque ao outro youkai, mas interrompeu-se quando o hanyou se interpôs entre ambos. – Saia da minha frente... – Murmurou por entre os dentes trincados.
– E o que você vai fazer, heim? Eu posso ganhar de você a qualquer hora, em qualquer lugar!
E enquanto os dois possuídos discutiam, Sesshoumaru observou atentamente a Tenseiga. Um facho de luar deslizou pela lâmina, de cima para baixo, como se a mesma falasse com ele. "É agora." E como uma brisa, ele retirou a espada do solo e acertou seu meio-irmão nas costas. Um clarão se fez e afastou os dois youkais do hanyou, em direções opostas. Puderam vê-lo tombar ao solo e de sua boca vazar uma gosma escura, que aos poucos renascia. O estranho é que para Sesshoumaru deveria ser possível enxergar a alma daquela criatura, mas ele não a via. A disforme criatura parecia olhar dentro dos olhos dele, até que, em um relance, moveu-se rapidamente como névoa pelo ar e adentrou a janela do quarto onde ele sentia a presença do ser que ele mais desprezava. Voltou seu olhar para o hanyou inconsciente e pôde ver sua alma pura e liberta. "Você estava certa, Setsuna. Agora só falta o lobo."
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Um facho de luz; uma explosão. As luzes da casa piscaram algumas vezes antes de se apagarem por completo. Centenas de fagulhas espalharam-se pelo corredor, impulsionando a colegial para trás, contra a parede. Ela mal podia enxergar, tamanha era a pressão e luminosidade. Levou alguns segundos para acostumar-se e retornar até a porta do quarto, porém não antes de pegar outra flecha. Caminhava com dificuldade, como se algo não quisesse que ela chegasse até lá. "Eu não vou desistir! Setsuna precisa de ajuda!"
A porta havia sido destruída pela flecha purificadora que ela lançara, porém só uma pequena parte da energia maligna ali depositada havia se dissipado. O portal, o interior do quarto, tudo estava impregnado pelo mal, manifestando-se na forma de uma luz violeta que vazava do interior do cômodo para a escuridão do corredor onde ela estava. "Que força demoníaca... Jamais imaginei que Naraku fosse assim tão forte..." Aproximou-se com cautela e examinou o interior com o olhar. Logo ficou horrorizada e estarrecida diante daquela cena. A energia parecia haver desintegrado tudo o mais dentro do quarto a não ser pelo corpo de um menino que jazia no chão, bem no meio dele, dentro de uma poça de sangue. Além das feridas das flechadas que recebera, durante aquela fatídica batalha que tivera contra seu próprio clã de exterminadores, também havia um enorme buraco no abdômen. Os olhos sem vida do menino pareciam observa-la, em um tamanho estado de morbidez, que a fez estremecer e quase ir ao chão.
– Kohaku... – Disse ela, quase como um sussurro e com os olhos úmidos.
Ela cambaleou uns dois passos na direção dele até se dar conta do que havia de errado. "O fragmento da Jóia que ele carregava não está no corpo dele... E Setsuna... Onde está?" Ela olhou ao redor, porém nada mais parecia existir ali, a não ser aquela estranha força demoníaca. Voltou seu olhar novamente para o corpo do menino e foi quando percebeu que, vez por outra, algo gotejava sobre ele. Boquiaberta, ergueu lentamente a cabeça para deparar-se com o sorriso insano do próprio demônio, Naraku. Lá estava ele, como que sentado no teto do cômodo, em sua forma humana, coberto apenas por sangue. Todo ele. Porém, uma parte de seu corpo, o braço direito, não parecia humano. Parecia mais com um emaranhado de tentáculos espinhosos que saíam dele. E, naquele corpo, ela podia sentir a presença de três fragmentos da Jóia de Quatro Almas. "Três fragmentos? Mas como? Só havia um com Kohaku, a não ser aqueles cinco que estavam lá..." Ela interrompeu seus pensamentos ao perceber que no final daqueles tentáculos, também presa ao teto, estava Setsuna, semi-inconsciente. Os tentáculos a mantinham presa pelos pulsos, tornozelos, ventre e pescoço. Do corpo dela também gotejava sangue por onde os espinhos dos tentáculos a haviam ferido, porém apenas para ser absorvido por eles. Era como se Naraku bebesse do próprio sangue dela através de seus tentáculos.
– Seu monstro maldito... – Começou a colegial rancorosamente, apontando a flecha para ele. – Solte-a!
– Sacerdotisa... Que bom que veio assistir ao espetáculo... – Ele deu uma risada cínica e despreocupada, parecia não estar ligando para o objeto nas mãos dela. Desceu do teto, mantendo o corpo de Kohaku entre ambos e Setsuna pregada na parede ao lado dele por seus tentáculos. – Por acaso você sabe o que poderia acontecer a ela se disparar essa flecha? Se lembra do que aconteceu com a porta? – Finalizou com um sorriso vencedor na face.
– A por... – Foi então que ela se deu conta. A flecha purificadora havia desintegrado a porta do quarto. Se o mesmo acontecesse com Setsuna, a espada Tenseiga seria inútil. Ela soltou a arma e levou uma das mãos a boca. "Oh, meu Deus, o que eu faço!"
– Boa menina... Agora se comporte e aguarde a sua vez. Setsuna descobriu o meu segredinho, só que eu não imaginava que aquela espada fosse capaz de acabar com a minha criação. Mas pelo menos irá me trazer os fragmentos que estão com eles. O hanyou lá em baixo já está salvo de Hakaidoku, mas não poderá ser salvo de mim!
"Salvo de Hakaidoku?" Uma combinação de alívio e confusão a invadiu. "Inu-Yasha está salvo! Mas, então, os dois outros fragmentos que estão com Naraku agora são os que estavam com ele... Se continuar assim, ele também irá conseguir os fragmentos de Kouga. Mas o que vai acontecer então?"
– O que você quer, Naraku?
– O que todo mundo quer... Poder!
– Sempre pensei que o seu objetivo fosse a Kikyou...
– E era. Ela tinha mais poder do que eu podia imaginar. Tanto poder dentro de um corpo tão bonito...
– Isso! Você se importava com ela! A amava! Será que ainda se lembra de como era esse sentimento?
– Sua humana estúpida... Amor? Eu nunca amei a Kikyou! O que eu sentia por ela era desejo. Queria possuí-la, só para mim. O poder dentro dela só para mim! – Desviou o olhar para Setsuna. – Assim como desejo esta outra em meu poder... – Enquanto ele prosseguia com seu discurso, seus tentáculos cada vez mais se aprofundavam na pele dela, o que a fazia agonizar. – Tanto poder... Sesshoumaru jamais soube como aproveitar tamanho poder. – Havia um misto de êxtase e ressentimento em sua voz.
– Então, para você, amor e poder significam a mesma coisa... Se matá-la estará cometendo o mesmo erro de tantos anos atrás. Não terá nem um, nem o outro!
– Matá-la? – Perguntou ele calma e friamente. – Quem lhe disse que pretendo matá-la? Olhe mais de perto, sacerdotisa.
A atitude dele a deixou confusa. "Qual o propósito disso então?" Ela aproximou-se um pouco de Setsuna e pôde enfim perceber o que ele estava fazendo. As pontas dos tentáculos e dos espinhos neles estavam começando a se mesclar com a pele da agonizante ruiva. "Ele está tentando absorvê-la, assim como fez com tantos outros youkais!" Escutou incrédula o desfecho do discurso insano dele.
– Ela estará para sempre viva, unida ao meu corpo, alimentando-me com o seu poder! – Riu, vitoriosamente.
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Percebeu o olhar desconfiado do lobo, que tratou de fazer uma reverência para Sesshoumaru.
– Parabéns, cachorrão... Mas se você pensa que eu vou cair na mesma armadilha que aquele seu irmão idiota, está muito enganado!
– Você já caiu, lobo. E é por isso que Inu-Yasha está caído. – O relance de um sorriso cínico mostrou-se em seu rosto.
– Ora, seu maldito!
Sesshoumaru pôde perceber a hesitação do lobo. Ali, de punho cerrado, tão próximo de atacar, mas ao mesmo tempo tão longe. A vontade dele de partir para a briga era notória, mas a espada em suas mãos o mantinha afastado, circundando-o apenas. Hakaidoku sabia que seria expulso daquele corpo caso a espada o atingisse. Os dois ficaram se analisando, até o lobo perder a paciência e resolver atacar de uma vez. Os fragmentos que estavam com ele lhe davam maior agilidade e força, então, certamente, levaria alguma vantagem. Mas essa vantagem servia apenas para desviar dos golpes da Tenseiga. Em um desses ataques, Sesshoumaru avançou contra ele, porém ele desviou em um salto e desapareceu no ar. "Onde será que aquele lobo se escondeu?" De súbito sentiu a energia maligna aumentar no quarto. "Aquela garota não vai conseguir lutar contra aquilo... Setsuna..." Podia quase que sentir o sofrimento dela. Mas um barulho de folhagem atrás de si colocou sua atenção de volta na luta. Ele virou-se e o lobo, que segurava um galho nas mãos, golpeou-lhe o pulso, fazendo-o largar a espada. Antes que o lobo chegasse mais perto para contaminá-lo, Sesshoumaru resolveu recuar um pouco.
– Preocupado com a sua mulher, cachorrão?
– Você devia se preocupar com a sua retaguarda!
O lobo riu.
– Eu não vou cair nesse tru... – Suas palavras foram interrompidas pelo golpe que recebera na cabeça, por trás. Ao olhar na direção do golpe, viu Inu-Yasha segurando a Tessaiga dentro da bainha, que usara para acerta-lo. – Seu cara de cachorro maldito! – Avançou contra o hanyou.
Enquanto desviava dos ataques do lobo, Inu-Yasha deu um olhar confiante e discreto para o meio-irmão. Aproveitando a distração, Sesshoumaru rolou de lado até alcançar a Tenseiga. Foi quando Inu-Yasha atracou-se com o lobo e cravou suas garras nele, em uma espécie de abraço sangrento.
– Sesshoumaru! Agora!
Rapidamente o youkai moveu-se e acertou o lobo por trás. Inu-Yasha tratou de separar-se dele ao notar a gosma escura vazar pela boca. Para ter certeza de que o irmão não havia sido infectado novamente, Sesshoumaru também o acertou com a espada. E, enquanto os dois mantinham uma distância segura do lobo, este cuspia a criatura que o dominava. Da mesma forma que antes, Sesshoumaru não podia enxergar sua alma. Foi quando se deu conta. "A alma daquele maldito está lá naquele quarto!" E como acontecera com a criatura que possuíra Inu-Yasha, esta também tomou o mesmo destino. Sesshoumaru analisou o corpo do lobo empunhando sua espada, também estava limpo. Então pôde voltar toda sua atenção para a janela do quarto, agora sufocado com toda aquela energia. "Naraku..."
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Uma névoa escura adentrou a janela, assustando Kagome. Ela deu um passo trás, enquanto Naraku era envolvido por aquela névoa, como que em uma espécie de redemoinho. Ela também pôde ver que mais três fragmentos se uniram aos três que ele já possuía. "Kouga..." Pensou ela.
– Finalmente posso ter a Jóia de Quatro Almas completa agora.
– Mas você não tem todos os... – Ela calou-se, pois se lembrou de que estava com os demais fragmentos e, pelo o que já havia notado, a soma dos fragmentos de ambos completaria a Jóia.
– Kagome... Não te preocupes comigo... Ahhh... – A tensão dos tentáculos ao redor do pescoço de Setsuna foi aumentando, quase ao ponto de sufocá-la.
– Cale a boca, sua maldita! Você me pertence...
– Naraku... Jamais... Jamais pertencerei a ti... Prefiro a morte!
– Setsuna...
Os olhos da colegial encheram-se de lágrimas ao pensar no inevitável. "Sesshoumaru, me perdoe." Pegou seu arco e flecha, deixando-os em riste, apontando diretamente para o peito do demônio diante dela.
– Vai correr esse risco, sacerdotisa? – Perguntou ele sorrindo, ainda incrédulo das intenções dela.
– Não ouviu o que ela disse? – Notou o sorriso na face dele se desfazer ao notar que ela já concentrava energia pura na ponta da flecha..
– Ora, sua... – Sentiu algo atingi-lo pelas costas. – Argh! – Girou um pouco a cabeça para trás, apenas para constatar que Sesshoumaru o havia golpeado, atravessando-lhe o peito com o próprio braço. Ele havia entrado tão sorrateiramente pela janela, que não fora notado até atingir seu alvo. – Você...
– O que foi, Naraku? – Começou ele, altivo. – Onde está aquele seu sorriso cínico agora? Eu estou apenas lhe devolvendo o gesto, de quando lutamos naquele seu castelo fétido... – Olhou para o braço do monstro que prendia Setsuna e o estraçalhou, libertando-a. Depois olhou Kagome nos olhos. – Cuide dela para mim.
Ela só teve tempo de afirmar incredulamente com a cabeça antes que ele sumisse pela janela afora arrastando consigo o monstro Naraku, de forma tão rápida de como quando entrara. "Será que Inu-Yasha está bem?" Um aperto lhe tomou o coração até ouvir os gemidos da jovem ruiva.
– Setsuna! – Ela foi até a amiga e ajudou-a a remover os restos dos tentáculos, utilizando-se da ponta de sua flecha.
– Kagome, deves ir agora...
– Fique clama, Setsuna. Você ainda está muito fraca.
– Eu sei, aquele maldito esteve sugando meu sangue como um vampiro. Mas vejas bem, nenhum daqueles três lá embaixo será capaz de destruir Naraku. Ele é um monstro sobre-humano, separou a alma do próprio corpo para que pudesse sobreviver ao embuste que lhe fizemos em seu próprio castelo. Ele é quase imortal...
– Então, se ele é imortal, como poderemos...?
– Escutai-me, sacerdotisa. Eu disse que ele é quase imortal. Só tu podes derrotá-lo.
"Eu?" Só então se deu conta de que havia sido chamada pela amiga da mesma forma que Naraku a chamava. "Sacerdotisa?"
– Você só pode estar delirando, Setsuna. Se alguém aqui pode derrotá-lo, esse alguém é você. Você é muito mais forte do que eu e..
– É, realmente sou, mas de que me adianta tanto poder se não tenho como atingir o ponto fraco dele. Mas tu podes. Podes porque és a reencarnação de uma grande sacerdotisa, dentro de ti carregas o poder dela.
– Eu não sou a Kikyou... – Respondeu ela, cabisbaixa.
– Não, não és, mas ela é parte de ti. Do teu passado, do teu presente e do teu futuro. E se ainda quiseres ter um futuro ao lado de quem amas, deves ir agora.
– Mas eu não sei como...
– Mas saberás, ela será teu guia. Agora deixa-me e sela o destino daquele maldito!
– Sim! – Levantou-se e antes de sair do quarto deu uma última olhada na amiga e no corpo do menino. "Aquele Naraku..."
Retirou-se do cômodo e correu até a escada, aonde parou. Olhou atentamente para o arco em sua mão direita e cerrou os olhos um instante. "O ponto fraco dele.. Qual será?" Ela sentiu-se subitamente invadida por uma presença benigna, capaz de afastar a malévola energia que ainda circulava por ali. Uma enorme sensação de paz a invadiu. "Kikyou..."
"Estou aqui contigo, Kagome... Até o fim..."
A jovem respirou profundamente e abriu os olhos, voltando-os para a direção de seu quarto. "O ponto fraco de Naraku..." Sorriu para si mesma.
