Na tarde de quinta-feira, dia primeiro de junho de 1673, Monsieur resolveu, subitamente, ir ao teatro. Estava muito agitado, sentindo que precisava urgentemente de ar fresco e, principalmente, de silêncio. Seu espírito pedia um ambiente civilizado e ordeiro. O fato é que a residência de Saint-Cloud estava movimentada demais para o seu gosto e ele estava começando a ficar tonto. Assim que chegaram de Versailles, suas duas filhas, Marie-Louise, de onze anos e a pequenina Anne-Marie, de apenas três, foram trazidas de Saint Germain-en-Laye, por determinação expressa de Madame a quem ele não ousara contrariar.
Liselotte por duas vezes havia visitado brevemente as meninas. E entre ela e Anne-Marie acontecera um caso de amor à primeira vista. Marie-Louise também gostara muito de Madame, principalmente porque sentira que era sua intenção trazê-las mais próximas do pai. Seu nascimento causara uma grande decepção a Henriette, que esperara um menino. Mas ao pai ela nunca parecera uma decepção, ele sempre a tratara bem, com carinho, ainda que não se encontrassem com a frequência desejada. Uma outra coisa pesava em favor de Marie-Louise: ela era muitíssimo parecida com Philippe, o que o deixava cheio de orgulho ao vê-la tão formosa e cheia de boas maneiras. Era a sua princesa. Um dia ela faria um grande casamento
Mas o fato é que além do Chevalier- que já era de casa, da duquesa de Cassel, do médico e seus auxiliares e das crianças, a sua cunhada, a rainha Marie-Thérèse aparecera no dia seguinte para visitar a cunhada, acompanhada da Marquesa Maintenon. De tanto ouvir Madame e o Chevalier de Lorraine reclamarem da viúva, acabara se deixando contaminar pela antipatia. Para completar Louis resolvera acompanhá-las e eles haviam se demorado por dois dias que pareceram intermináveis. Ficar em família com Marie-Thérèse e a Maintenon constituía um verdadeiro suplício. O irmão estava muito satisfeito em ver Philippe desempenhando o papel de anfitrião e pai de família. Enquanto jogavam cartas percebera aquele sorrisinho debochado que conhecia desde o berço.
Madame precisava descansar. Ele precisava descansar. Apesar do castelo ser bem grande, Philippe não estava acostumado a exigirem tanto dele. Estavam ali há menos de uma semana, mas o tumulto de Versailles os acompanhara. Para coroar a agitação, Brutus- nome pelo qual ele chamava o filhote de galgo de Liselotte e que acabara ficando oficial- ajudava a tumultuar ainda mais o ambiente.
-Esse cão é um tormento!-dizia Monsieur, revirando os olhos.
Mas ninguém lhe dava ouvidos. A esposa, as meninas e até o Chevalier de Lorraine, todos se derretiam pelo filhote. O animalzinho estava ficando cada vez mais inconveniente e, percebendo a pouca simpatia de Monsieur, tentava conquistá-lo com brincadeiras e latidos escandalosos.
-Vamos sair, antes que eu enlouqueça. Meus pobres ossos estão estalando de intranquilidade.
O Chevalier ficou surpreso. Madame estava enorme, percebera inclusive que seus pés estavam inchados. A criança faria sua entrada triunfal em breve.
-Mas vamos aonde, Mignonette?
-Ao Hôtel de Bourgogne, meu caro. Estão representando Mithridate, de Racine. A peça recebeu muitos elogios.
O Chevalier estranhou.
-Mas você nem mesmo gosta de Racine. E a sua esposa... bem, com toda a sinceridade, aquele barril vai esvaziar a qualquer momento.
Philippe fulminou-o com o olhar.
-Não seja grosseiro. Que termos são esses? Tenha mais respeito pelo estado de Madame.
-Desculpe. Mas falo pelo bem dela. E se o bebê resolver nascer enquanto estivermos fora?
-Não vamos dormir em Paris, voltaremos depois da ceia. O pequeno não vai me aprontar uma falseta dessas. -disse isso, mas sem muita certeza, pois lembrava dos chutes voluntariosos da criaturinha na barriga da mãe.
O Chevalier deu um suspiro dolorido.
-Quantos atos, Mignonette?
-Cinco.
-Misericórdia. Não sei se vou aguentar essa maçada. Cinco atos?
-Aguentará, sim. Vá logo se aprontar. Vamos chegar maravilhosos no teatro.
O Chevalier resmungou. Interiormente previa uma noite aborrecida, na qual teria que tomar cuidado para não cochilar em público. Philippe devia estar muito aflito mesmo. Tragédia de Racine, em cinco longos e tediosos atos. Uma chatice, com toda a certeza. Talvez fosse melhor jogar bilhar e rolar no tapete com o cachorro bobo.
Os dois estavam muito bonitos e elegantes. Foram aos aposentos de Madame que tomava chocolate tranquilamente com a Duquesa de Cassel. Marie-Louise estava com elas. Seu rosto se iluminou quando viu o pai tão garboso. Monsieur era seu ídolo. O pai sorriu ternamente para a garota.
-Vamos ao teatro assistir à nova peça de Racine.
Liselotte continuou tranquila. Não parecia nada aborrecida com a escapadela dos dois.
-Divirtam-se, então.
Philippe se aproximou e deu-lhe um beijo na testa.
-Voltamos quando acabar. Está tudo bem aí?-disse referido-se à barriga.
-Sim, tudo normal.
-Boa noite, senhoras.
A peça fora uma verdadeira provação, parecia interminável. Quando enfim chegaram, às três da madrugada do dia 2 de junho, Philippe logo percebeu que havia algo de anormal ocorrendo. Luzes acesas, movimento de criados. Sacudiu o Chevalier de Lorraine que cochilava. Enquanto ele tomava pé da situação, Philippe saltou da carruagem ainda em movimento. Subiu as escadas esbaforido. Temia alguma fatalidade. Nenhum dos criados lhe dizia nada. Encontrou o mordomo com uma cara sonolenta.
-O que houve?
-Está na hora de Madame, Alteza.
Philippe levou um golpe. O filho resolvera nascer de madrugada. Já era de se esperar. Antes de chegar ao quarto de Liselotte, escutou de longe a mulher gemendo de dor. O doutor e os ajudantes estavam trabalhando nela. Ficou realmente assustado. Apareceu a Duquesa de Cassel. Ela estava serena, aquilo o sossegou um pouco. O Chevalier estava na porta, mas não se animava a dar um passo, temendo o que poderia acontecer.
-A bolsa arrebentou pouco depois do senhor sair. O médico disse que já está nascendo. Mais um pouco e ...
Foi aí que Philippe ouviu um grito lancinante. Quando olhou, viu o médico tirando o bebê. A criança começou a chorar alto. Estava bem viva. Sentiu uma opressão sair de seu peito. Percebeu que o Chevalier de Lorraine batera em retirada, apavorado. O médico cumprimentou-o e ele viu o bebê.
-Parabéns, Alteza...
O rosto de Philippe se iluminou. Ouviu Liselote falar alguma coisa. Aproximou-se dela.
-O que é?
-Um menino, Madame. Tivemos um menino.
Ela deu um sorriso cansado.
O médico e a ama estavam limpando o bebê. Minutos depois, embrulhado como um pacotinho, colocaram-no nos braços da mãe. A Duquesa de Cassel estava radiante, contando a boa nova ao Chevalier.
-Ele é uma beleza, não é, Philippe?
-Sim, é.
-Já escolheu o nome?
Philippe pegou cuidadosamente o bebê. Olhou para ele e sentenciou.
-Alexandre-Louis. O que acha, Madame?
-Acho que combina com ele.
