- Por que não trocamos de tarefa?
- Até toparia se conhecesse algum caminhoneiro viado.
Jorge e Edileusa tinham uma relação atípica. - Tira a roupa, mulher. - Na beira de uma autoestrada, Edileusa obedeceu seu marido e ficou nua. A intenção dele não era realizar uma fantasia sexual ou mesmo uma vingança cruel. Jorge queria usar a beleza da sua mulher para ganhar dinheiro. Jorge não a prostituía, apesar de criminoso, ele não aguentaria vê-la transando com outro homem. Mesmo que de um jeito torto, ele a amava.
Edileusa tinha a beleza de uma mulher de trinta e três anos que se cuidava. Como uma modelo em uma passarela, ela desfilava pelo acostamento coberta apenas por seus pelos (que eram poucos já que se depilava). A brisa úmida era a única coisa que a incomodava. No início de sua carreira exibicionista ela se sentia envergonhada, mas tal sentimento foi superado.
Para entender o que ela faz nua na estrada há de se voltar no tempo. Jorge se tornou um caminhoneiro encostado, pois o seu veículo deu perda total em um acidente que quase o matou. Caminhões são caros e o seu não tinha seguro, logo não deu para comprar um novo. Solução: como Jorge sabia qual eram as rotas com as cargas mais valiosas, ele decidiu virar ladrão. Levando em conta que muitos caminhoneiros dirigem armados, Jorge precisou elaborar um plano para pegá-los desprevenidos. É aí que Edileusa entrava na história.
A maioria a julgavam como uma prostituta. Os que gostavam de sexo pago encostavam o caminhão e acabavam sendo assaltados e tendo sua carga e veículo apreendidos. Havia também aqueles que eram solidários e acreditavam que Edileusa precisava ser socorrida. Esses paravam achando que estavam tirando-a de uma situação de risco, sendo que na verdade eram eles que corriam perigo.
- Puta! - Gritou um dos caminhoneiros que tentou ser solidário, cujo nome era Heitor. Ele já segurava um coberto para cobrir Edileusa quando descobriu que tudo não passava de uma armadilha. Com Jorge apontando uma arma em sua cabeça, ele foi obrigado a sair do próprio caminhão.
- Mais respeito com minha esposa!
- Esposa?! Que tipo de marido obriga a mulher a se humilhar desse jeito? Menina, você é mais vítima do que eu nessa história.
- Ele não me obrigou a nada! - Ser colocada em uma ótica submissa irritou Edileusa. Ela sempre se viu como cúmplice do seu marido. Ou melhor, como sósia em um negócio.
- Então você é pior do que ele. Quando o castigo dos dois chegar, o seu será mais pesado.
Jorge puxou o braço da esposa em uma tentativa de colocá-la no caminhão roubado. Porém, Edileusa lutou para ficar, queria concluir a conversa com Heitor. - Por que eu serei mais castigada? Só por que sou mulher, machista?
- Tem coragem de me acusar de qualquer coisa depois do que fez comigo? Eu parei o caminhão porque achei que você precisava de socorro. O que você fez foi explorar minha solidariedade. Seu marido é repugnante, mas você consegue ser ainda pior.
Dinheiro fácil se torna um vício, a ideia inicial do casal era arranjar o suficiente para comprar um novo caminhão e largar o crime. Porém, quando perceberam o quanto lucravam simplesmente não conseguiram parar. Mas o lucro ilícito tinha um preço. Nada extraordinário como a fúria divina, medo que Heitor tentou incutir em Edileusa, as vezes bastava algo sutil como um peito apertado.
- Eu não sou uma puta, sou? Eu nunca transei com ninguém além de você e mais dois carinhas. Isso é como casar virgem hoje em dia. - O casal conversava enquanto Jorge dirigia o veículo roubado.
Jorge começou a rir baixinho. - Todas as putas que conheci transavam pelo menos com dez homens por noite.
- Espera aí? Quantas putas tu conheceu?
- Me referi às conversas com meus amigos. Tipo Alex, que, cê sabe, é viciado em putaria.
- Sei.
Após a entrega feita e o dinheiro encher a mão e os olhos de Jorge, o casal decidiu tirar uma folga de algumas semanas. - Já temos dinheiro suficiente para comprarmos uma casa em um lugar decente. - Disse Edileusa.
- Quem diria, um bunda suja como eu morando em um bairro nobre.
- E o custo de vida? Pra mim basta uma região melhorzinha, perto do centro.
- "Melhorzinha"? Você não consegue perder o espírito de pobre mesmo, né?
- Não é isso, é que não quero mais ter que ficar mostrando a bunda.
Jorge olhou para o rosto de sua esposa por alguns minutos e se apiedou de sua situação. Ele então ponderou um pouco em busca de uma solução para aquele problema. - Tudo bem. Só precisamos encontrar uma garota que aceite fazer o papel de isca. Vou comprar outra arma. A partir de agora você me acompanhará nas abordagens.
- E que tipo de garota toparia isso? - Ao prestar atenção na pergunta que fez, Edileusa se lembrou da conversa com Heitor e seu mal estar voltou. "E que tipo de garota toparia isso?" Suas próprias palavras ecoaram em sua mente por um bom tempo.
Na mesma noite, os dois foram até o bordel mais próximo contratar uma cúmplice. Edileusa se sentiu incomodada ao perceber que Jorge estava muito a vontade ali. Tanto que deu um tapa em seu rosto. - Que foi?!
- Vai me dizer que nunca veio aqui?!
- Não, eu juro!
Interrompendo a conversa dos dois, uma jovem que mal completara os vinte anos se pronunciou. Ela tinha tudo para ser bonita, mas o seu estilo de vida já estava cobrando o seu preço. Sua juventude definhava tanto quanto a sua saúde. Era um prostíbulo barato frequentado por muitos caminhoneiros e viajantes de estrada. - Jorginho, como vai? Quem é sua amiga? Com casal cobro extra.
Edileusa fuzilava Jorge com o olhar. Ele estava tão ciente disso que nem se virou para checar. Sendo o mais cara de pau que conseguia, Jorge emendou logo o assunto que interessava. - Na verdade queremos usar você num serviço, Maria.
- Como assim? Se tiver relação com droga eu... - Jorge começou a explicar o tipo de trabalho que queria que ela executasse. A principio ela riu achando que fosse piada, mas quando viu que falava sério se sentiu interessada. - Eu faço o papel de isca e vocês depenam o otário?
- Basicamente sim.
- Quanto eu levo nisso?
- Trinta por cento.
- Sei lá que diabos é isso! Fala que nem gente!
- Quatro mil para cada dia de trabalho, tá bom assim? Nem tente negociar, sei que você não ganha metade disso aqui por mês. E leve em conta que no trabalho que proponho você não vai precisar dar para ninguém - Maria não respondeu verbalmente, sinalizou a aceitação do acordo estendendo a mão e dando um largo sorriso forçado.
Na semana seguinte, dois caminhoneiros amigos de longa data levavam o que cogitavam ser sua última encomenda. Estavam na ativa desde 1979, ambos achavam que era tempo demais na estrada. A dupla já enfrentou todo tipo de encrenca, achavam que já viram de tudo. E, de certo modo, viram. Foram sequestrados dezenas de vezes, encararam policiais corruptos, traficantes e até trafegaram com uma carga inflamável em uma estrada em chamas. Qualquer outro caminhoneiro que passasse por uma fração de seus problemas teria morrido ou abandonado a profissão. Mas eles eram fortes e persistentes.
- Vou sentir falta dessa vida, Bino. - Disse o mais alto da dupla, Pedro, também conhecido como Pedro da Boleia. Ele tinha cabelos prateados de tão grisalhos e possuía fama de galã.
- Arre. Minha esposa vai tirar meu couro se eu não me aposentar. Ela sempre se queixou de que minha profissão era perigosa. Bom, ela tem sua razão, agora mais do que nunca. - Bino, quem dirigia no momento, era baixinho e possuía um bigode ralo. Sua cabeça sempre coberta por um boné antigo.
No meio do caminho algo inesperado. A dupla viu uma mulher nua caminhando pelo acostamento. O motorista achou se tratar de uma prostituta, sentiu pena dela, mas planejava ignorar e continuar viagem. Porém, vendo-a com outros olhares, ele notou sinais de desespero. Por causa disso começou a reduzir a velocidade do caminhão até parar. Enquanto isso, Pedro se desesperava.
- Você precisa cair nesse truque quantas vezes até aprender?! Para não, acelera! Mulher dando sopa desse jeito não pode ser coisa boa!
- Que mente suja! Você não percebe, Pedro?! Um tarado deixou a moça nua. Tenho medo até de imaginar o que fizeram com ela!
- É UMA CILADA, BINO!
O cano da arma apontada na cara de Bino fez com que dentro de seu intimo nascessem várias sensações e nenhuma delas eram boas. Medo (afinal ninguém é a prova de bala), vergonha (por não ter escutado o amigo) e raiva (ninguém gosta de perceber que se aproveitaram de sua boa fé). Enquanto Jorge ameaçava Bino, Pedro era ameaçado por Edileusa.
- Quantas vezes a gente vai ter que passar por isso? - Perguntou Pedro olhando para cima. O caminhoneiro não aguentava mais ser assaltado, sequestrado e agredido.
- Calma, só queremos o caminhão e a carga. - Disse Edileusa.
- "Só"? - Debochou Pedro, que ficou insensível à esse tipo de situação após tantos anos sendo intimo do perigo. - Vocês levariam mais o quê da gente? Nossas cuecas? Para gente ficar nu igual à essa piranha?
Maria não se importou com a ofensa dirigida à ela, mas Edileusa tomou suas dores. - Respeita a garota! - A coronhada no canto do rosto de Pedro fez com que um filete de sangue escorresse, mas ele não cedeu.
- P-u-t-a. - Soletrou Pedro com um semblante inalterado. Em resposta Edileusa mirou na sua cabeça e se preparou para atirar. Porém, a sorte extraordinária do caminhoneiro sorriu para ele mais uma vez e a mão da criminosa foi detida por seu marido.
- Está doida, mulher? - Perguntou Jorge. - A gente combinou sem mortes, lembra?
- Na verdade eu me referia à peladona, mas se a carapuça serviu... - Edileusa estava prestes a perder o controle mais uma vez. Foi a oportunidade que Bino achou para sorrateiramente pegar o seu rádio e fazer um pedido de socorro. Todos estavam tão entretidos naquela confusão que se esqueceram dele. As sirenes da polícia rodoviária não demoraram a se fazer ouvir. Os criminosos não foram detidos, conseguiram escapar se embrenhando no mato. Mas houve um saúdo positivo, ao menos Pedro e Bino conseguiram escapar ilesos de mais uma aventura.
- Pedro, quantas vezes apontaram uma arma na nossa cabeça?
- Perdi a conta depois da trigésima vez, Bino.
- Por que a gente atrai tanto problema, hem?
Pedro respirou fundo procurando uma resposta para o questionamento do seu amigo. A carreira deles foi mais movimentada do que a de qualquer outro caminhoneiro. Isso tinha o seu lado positivo, o que não faltavam à eles eram histórias para contar. No entanto, o medo constante advindo de cada viagem deixou algumas marcas. A mão de Pedro começou a tremer ao se lembrar de quantos criminosos já haviam jurado ele de morte, quantas pessoas o enganaram e das dores que sofrera.
- Pedro?
A dor no peito crescente o dominou ao ponto de que Pedro não conseguisse mais se manter em pé. Quando ele perdeu os sentidos, Bino entrou em desespero. - PEDROOOO!
Enquanto isso, em um lugar bem distante dali, Jorge pagava Maria mesmo não tendo obtido lucro na operação. Ele já planejava a próxima abordagem, para suprir a última que deu errado. Ele e sua nova parceira no crime conversavam no quarto aos risos empolgados com os carregamentos que podiam surrupiar. Já Edileusa, que se isolava em outro cômodo, sentava no chão abraçando os joelhos sentindo uma tristeza que não sabia dizer exatamente da onde vinha.
XXX
Nota do autor - infelizmente, pessoas sendo forçadas a ficarem nuas em público é comum. Assaltantes sádicos quando percebem que suas vítimas não possuem nada de valor (sejam elas homens ou mulheres) costumam deixá-las sem roupa como vingança cruel e mesquinha. Há também casos de mulheres atiradas sem roupa na rua pelos seus namorados ou, pior, deixadas nuas por um estuprador após uma violência. Já vi no jornal três casos de esposas que obrigaram a amante de seu marido a se expor. Adolescentes também podem ser cruéis. Quando estudava no ensino médio, meu professor de física me contou que no outro colégio que trabalhava um garoto foi deixado nu na rua por um grupo de meninas. Já soube também de uma menina considerada popular e invejada que foi forçada a ficar pelada por um grupo de garotas. A inspiração para essa história veio de uma conversa com um taxista. Ele me contou que parou o carro quando viu uma mulher nua andando na calçada durante a madrugada. Sua intenção era ajudá-la, mas quando fez isso dois homens saídos sabe-se lá de onde deram voz de assalto. Sinceramente, não sei como funciona a cabeça dessas mulheres que servem de isca e nem se sentem remorso, vergonha ou se são coagidas. Esse tipo de violência, creio eu, atinge mais mulheres, porém, estamos falando de pessoas e não de números. O caso do garoto despido na rua pode ser exceção, mas para ele que sofreu isso faz diferença?
