Disclaimer: Os personagens de GW não são meus… mas… Satoshi sim… eu criei e desenvolvi este personagem, bem como a historia.

Pairing: 1x2 13x2

Agradecimentos: À Dhandara pela revisão do capítulo


Fecho meus olhos
Eu posso ouvir as rosas respirarem
Todo o amor e tristeza derretidos em meu coração
Enxugo minhas lágrimas
Limpo minha sangrenta face
Eu quero me sentir vivendo minha vida
fora de minha mente


Capítulo 12

Satoshi piscou algumas vezes; não querendo acreditar no que seus olhos estavam vendo.

- Oi de novo, Liefhebber. - com um sorriso debochado, Duo abriu passagem pelo atônito japonês e entrou no apartamento.

Satoshi piscou de novo e, caindo em si, fechou a porta com força e tratou de ir atrás do americano, que já olhava para tudo com curiosidade. O que diabos Duo estava fazendo ali? Não era ele quem estava aceitando os flertes do sociólogo no auditório?

- O que você quer, Duo? - perguntou irritado. - Você me seguiu até aqui?

Duo deu de ombros e respondeu displicente.

- É o que parece, não é mesmo? - fez questão de demonstrar que a pergunta do amigo havia sido idiota. - Só não esperava encontrar isso aqui. – completou, fazendo menção com as mãos para o apartamento em si, e uma careta de desgosto apareceu em seu rosto. - O que aconteceu? Seu pai te deserdou?

Satoshi estreitou os olhos. O simples comentário irônico de Duo foi o suficiente para deixá-lo fervilhando de raiva, ainda mais com fato de que o americano estava agindo como se estivesse em casa. Viu-o sentar-se em seu sofá e cruzar as pernas em cima da mesinha de centro.

- Como eu vivo e o meu relacionamento com meu pai, não lhe dizem respeito. - disse agressivamente. - Afinal, você não se importou durante todos esses anos com isso; porque se importaria agora?

Duo balançou a cabeça como se ponderasse e pensasse profundamente sobre o assunto.

- É mesmo… Mas eu sou curioso e queria saber o porquê dessa decadência. – implicou, adorando ver a expressão de Satoshi oscilar entre raiva e a fúria.

Satoshi estava a ponto de agarrar Duo pela camisa e jogá-lo para fora de seu apartamento, mas controlou-se. Não o agrediria, por mais que sua vontade fosse essa. O incômodo por ver em Duo apenas promiscuidade, e ter prendido aquele sentimento estranho por tê-lo visto dando confiança ao sociólogo, fazia-o querer fazer o mesmo jogo que ele. Apenas ironia.

- Pensei que você preferisse ganhar uns trocados com o palestrante a ficar perseguindo os outros. – ironizou, cruzando os braços sobre o peito.

Duo riu, divertindo-se no quão transparente Satoshi poderia ser, e que este sequer se dava conta disso. Tinha certeza que o japonês tinha tido uma pequena crise de ciúmes no auditório, só porque o sociólogo de alguma forma simpatizara com ele.

- Me diga, Sato. Você foi tolo o suficiente para alimentar aquela paixonite infantil durante esses anos todos?

Pronto. Duo estava mesmo querendo tirá-lo do sério. Paixonite infantil? Era assim que ele via os sentimentos dele? Duo zombava de uma forma tão espontânea que naquele instante poderia admitir que realmente era uma paixão infantil; que não poderia ter se afeiçoado tanto a uma pessoa como ele. Não, ele não se apaixonara por aquele ser desprezível. Ele tinha se apaixonado por uma fantasia, uma mentira. Um garoto de quinze anos que era sensível e adorável. Um menino que lhe abrandara o coração... e não aquela desculpa de ser humano, que era malicioso e libertino.

Mas ainda sim sentia e queria aquele menino de volta.

Poderia ser uma ilusão tola, mas no fundo, tinha esperanças de que o Duo que conhecera, voltasse a aparecer em algum momento. Talvez o passado guardasse a chave para isso, mas não estava disposto a procurar por respostas; pelo menos não naquele dia, não naquele momento, em que a única coisa que queria era fazer com que o americano sumisse da sua frente.

- Você acha que eu ficaria alimentando sentimentos por você por todos esses anos?- perguntou sério, mas como uma conotação de deboche.

Duo mais uma vez se pôs a pensar e respondeu:

- Se é o que você diz. - disse sem se abalar em nada com a resposta. - Mas me diga, como você veio parar justo aqui em Leiden, e ainda por cima, vivendo num buraco desses?

- Eu gostaria de saber o mesmo de você.

Duo riu mais uma vez.

- Parece que não vamos chegar a lugar algum com esse bate e rebate de perguntas e ironias. - ele constatou, comentando logo em seguida: - Eu não tenho a intenção de ficar debulhando minha vida para ninguém. É muita perda de tempo.

Satoshi mais uma vez se indignou. Como assim perda de tempo?

- Você não pensa nem por um segundo no seu irmão? - indagou descrente.

Duo estreitou os olhos e pela primeira vez, Satoshi pôde ver algo de diferente nos olhos ametistas. Ele o atingira, finalmente.

- Não, eu não penso. - disse sério, mas nenhum sinal de tristeza ou arrependimento transpareceu em sua expressão. - Passado é passado, e deve ser mantido como tal.

Satoshi queria aproveitar aquela oportunidade e tentar usar o nome de Solo para ver se conseguia aproxima-se mais do americano.

- Mas ele…

Foi cortado repentinamente.

- Passado, Sato. - Duo reafirmou levantando-se. - Perda de tempo.

- Tudo é perda de tempo pra você? – replicou, deixando a irritação dominá-lo outra vez.

Duo voltou a sorrir e aproximou-se maliciosamente do jovem oriental, que olhou-o intrigado.

- Nem tudo, Liefhebber. – disse, envolvendo o pescoço do outro com os braços. - Tem coisas que às vezes valem a pena se perder um pouco de tempo.

Satoshi foi mais uma vez envolvido por aquela aura de sedução de Duo, que se encostou em seu corpo, sua respiração quente indo de encontro ao lado de seu pescoço, ao mesmo tempo em que começava a beijar-lhe levemente o local.

Inconsciente e instintivamente levou as mãos até a cintura do americano.

- Não negue que você me deseja, Sato. - Duo sussurrou, deixando os carinhos em seu pescoço, traçando um caminho de leves beijos até seus lábios.

Satoshi beijou a boca de Duo no momento que sentiu os lábios rosados tocarem os seus. Seu instinto e o desejo que sentia pelo americano foi tomando todo o controle. Apertando a pegada em sua cintura o trouxe mais para perto, enquanto sua língua impunha-se para dentro da boca úmida, buscando avidamente pela do outro.

Era loucura. Num momento queria sacudir, matar aquele americano por tudo em que ele se transformara. Por agir de forma tão nojenta, mas no outro; quase se via totalmente a mercê de sua sedução…

Quase.

Duo estava mais uma vez sentindo aquela excitação incontrolável. Seu sexo latejava, confinado pelas peças de roupa, ao mesmo tempo em que se via moldado de forma possessiva pelo japonês, de contra seu corpo. O calor que este emitia o envolvia de uma forma estranha, somado à forma como Satoshi o estava beijando, com tamanha volúpia; fazia que apenas o desejo imperasse naquele momento.

Vagamente percebeu que se movimentavam, e em sua mente Duo sentia-se triunfante por finalmente ter conseguido fazer com que Satoshi se entregasse.

Mas de repente, o beijo foi apartado e ele foi empurrado para trás.

- Você tem razão. Tem coisas pelas quais valem a pena perder nosso tempo. - um sorriso malicioso surgiu no canto dos lábios do oriental ao finalizar: - Você não é uma delas.

O barulho da porta sendo bruscamente fechada, praticamente na sua cara, fez com que Duo caísse na realidade. Satoshi, em meio ao beijo os havia guiado de volta a porta. Ele estimulara aquele beijo apenas para jogá-lo para fora do apartamento. Sorriu ironicamente, percebendo então que conseguir alguma coisa do japonês poderia ser um desafio e tanto. Mas o filho da mãe iria pagar por excitá-lo daquela forma e depois recuar. Iria pagar, pois apesar de ter sido ele a forçar a situação, não se enganava ao afirmar que Satoshi o desejava.

Provaria quem ganharia no final.

-

Heero deixou o edifício onde passara a noite com Duo, devolvendo como lhe foi instruído, as chaves na portaria. O reencontro com o americano tomava-lhe todos os seus pensamentos, e mesmo que quisesse se concentrar em outra coisa, não conseguia. Há muito tempo atrás, chegara a imaginar como seria rever o garoto. Tê-lo perto mais uma vez. Mas nunca fora tão intenso em sua mente, quanto tinha sido na realidade. Duo não era mais um garoto. Estava mais sensual e sedutor do que jamais fora; e ainda por cima, para sua surpresa, estava trabalhando como garoto de programa.

Quem diria que as coisas mudariam tanto?

Ficara em choque quando Solo lhe revelara que Duo nunca se prostituíra antes, e que estava supostamente fingindo se vender para ele pelo simples fato de ter se apaixonado. Tinha sido avassalador ter consciência de que alguém, supostamente teria verdadeiros sentimentos por ele, e em certo ponto, isso chegou a acalentá-lo.

O que ele sentia por Duo?

Ainda não sabia explicar. Desejo acima de tudo, isso era o mais certo e consciente que sabia. Se Duo ainda guardasse os mesmo sentimentos de quando estavam juntos, no fundo não tinha certeza se conseguiria correspondê-los com a mesma intensidade.

Quando entrou no saguão do hotel, sua mente voltou a trabalhar com mais frieza, e lembrou-se do quê o dominava antes de encontrar-se com Duo. Sua ansiedade em falar com Solo. Queria saber como fora a conversa do americano com seu filho. Mas apesar disso, correu por sua cabeça o fato de antes, questionar Solo sobre o irmão mais novo. Sabia que outro mantinha uma certa cumplicidade com Satoshi, mas não tinha certeza se o americano realmente já estava sabendo que Duo estava bem, e vivo. O que mais lhe intrigava era o fato de que, caso Solo não soubesse de nada, o porquê de seu filho estar escondendo tal descoberta.

Com certeza esclareceria tudo muito em breve.

-

Solo estava em seu quarto quando escutou as batidas na porta. Tinha ido procurar Heero pela manhã, mas este não dormira no hotel. Para ele não era surpresa alguma imaginar que o japonês teria saído para mais uma noitada. No Japão, o empresário vivia trocando de companhia. Sempre enjoava fácil de suas amantes, e ali, naquele país, não seria difícil conseguir uma boa noite de sexo, sem se comprometer com ninguém.

Também não se surpreendeu ao abrir a porta e deparar-se com o oriental, que entrou sem esperar ser convidado. Aquele tipo de atitude ele aprendera a acostumar-se com o passar dos anos. Heero não esperava e não se incomodava com ninguém.

- Conseguiu conversar com Satoshi? - perguntou sem nem mesmo um bom dia.

Solo fechou a porta e preparou-se mentalmente. Heero não ficaria nada satisfeito.

- Ele percebeu que eu estava lá fazendo um favor a você. - disse lamentando. - O garoto não é bobo, Heero.

Heero não pôde esconder a frustração que foi escutar aquilo. Tinha a esperança de que a Solo, seu filho escutasse; mas se nem o homem que ele tanto respeitava, conseguira fazê-lo mudar de idéia, teria que partir para atitudes mais drásticas.

- Satoshi está metendo os pés pelas mãos em muitos sentidos, mas isso vai acabar. – falou, com a raiva transparecendo em sua voz.

Solo não entendeu bem, mas tentou apaziguar.

- Ele é novo ainda e sempre foi protegido por você. Não tem como culpar as reações dele agora. - comentou quase que numa crítica, pela forma solta com que Heero sempre deixou que as coisas corressem.

O japonês decidiu então abordar com cuidado outro assunto que o incomodava; esquecendo-se momentaneamente a briga com Satoshi.

- Solo, por acaso Satoshi tem conversado com você sobre o Duo?

O loiro franziu o cenho, estranhando aquela pergunta repentina, mas respondeu mesmo assim.

- Não. - negou e em seguida completou: - Tem um tempo que não abordamos esse assunto.

Heero assentiu com a cabeça ponderando as possibilidades. Satoshi não tinha contado nem mesmo para Solo que o irmão estava vivo. O que diabos acontecia com seu filho para guardar aquilo como segredo até mesmo da única família do garoto?

Solo, intrigado com o súbito silêncio do japonês, indagou um pouco preocupado:

- Heero, está tudo bem?

O oriental, como se tivesse saído de um transe, levantou a cabeça, encarando-o diretamente:

- Seu irmão está aqui em Leiden. - notou a cor fugir da face do americano. Seus olhos expressavam mais do que surpresa. Completou: - Satoshi sabia que ele estava aqui e omitiu esse fato até mesmo de você.

Solo esqueceu-se de respirar. Seu coração parecia ter parado, ao mesmo tempo em que batia freneticamente. Não sabia ao certo. Momentaneamente deixou até de raciocinar. Não escutara errado, disso tinha certeza. Buscou ganhar de volta o senso. Recompor seus pensamentos. Estabilizar as idéias. Heero havia dito que Duo estava em Leiden. Seu irmão estava vivo e… na Holanda?

- Duo está… Como? Onde? - aproximou-se de Heero, aflito por conseguir respostas. - É verdade isso? Ele está bem?

Heero entendia a angústia de Solo. Era uma alegria e um alívio ter a consciência de que Duo estava vivo e bem, mas não poderia abrandar o restante dos fatos para o americano a sua frente.

- É verdade, e ele está bem. - disse buscando algo no bolso do paletó e em seguida estendendo para Solo. - Este é o celular dele, mas esteja preparado. Seu irmão está longe de ser o santinho que você descrevia.

- Como assim? - perguntou ressabiado.

- Eu passei a noite com ele. - contou sem qualquer constrangimento, e ganhando um olhar ameaçador do loiro. - Não me olhe assim. Ele trabalha com isso, Solo.

- Trabalha com isso? Como assim?

Heero bufou. Será que ele não estava sendo claro?

- Duo é um acompanhante. Um garoto que faz programas com pessoas de alto nível social. - explicou mais abertamente.

Finalmente Solo entendeu o que Heero quis dizer, mas isso não diminuiu-lhe a raiva, pelo outro ter mais uma vez usado seu irmão para sexo; só que estava tão mais envolto pela descoberta; por saber que seu irmão mais novo fora encontrado e que estava bem, que de certa forma, aquele detalhe poderia ficar, momentaneamente, para ser resolvido depois.

- Como ele veio parar aqui, e porque está fazendo isso? - perguntou confuso.

- Eu não sei. - respondeu um pouco temeroso da reação de Solo, mas completou: - Não tivemos muita conversa.

Solo estreitou os olhos e praticamente fuzilou Heero com o olhar.

- Ele não é mais uma criança, Solo. - tentou se defender. - Ele cresceu, e eu o aconselho a procurá-lo pessoalmente, e tirar suas conclusões por si mesmo. Talvez não seja bem o que você gostaria de achar.

Heero caminhou para a porta, mas se deteve ao escutar a voz do americano.

- Aonde você vai?

- Resolver algumas coisas e depois vou atrás de respostas com o omisso do meu filho. – disse, girando a maçaneta da porta. - Ele tem muitas explicações para dar.

Dito isso, Heero saiu do quarto, fechando a porta e deixando Solo para trás com a nova informação e o cartão com o telefone de Duo nas mãos.

-

O celular de Duo tocava estridentemente em cima da cômoda do quarto. Treize, que se encontrava na sala escutou, assim como escutava o barulho da água do chuveiro do quarto que dividia com Duo, correndo sem pretensão de parar. Sorriu displicente e levantou-se da poltrona onde lia uma revista para atender o bendito aparelho. Quando Duo entrava para tomar banho era no mínimo meia hora debaixo d'água. Isso quando não ficava empolgado e resolvia encher a banheira. Aí o resto do mundo poderia esquecê-lo por pelo menos duas horas.

Encontrou o pequeno aparelho, e sem cerimônias atendeu-o. Duo não se incomodava que atendesse as ligações quando não estivesse por perto, mesmo porque, não tinham qualquer tipo de restrições entre eles.

- Alô.

Houve um breve silêncio na linha, mas logo uma voz incerta perguntou:

- Duo?

- Ele não pode atender agora. - disse Treize. - É para marcar algum serviço?

Mais um breve silêncio.

- É sim. – respondeu, a voz mais decidida. - Eu queria marcar um encontro com ele.

Treize buscou por um bloco de papel e uma caneta:

- Você tem um local, ou prefere encontrá-lo no apartamento dele?

- Não, eu prefiro que ele venha até mim.

- É só dizer o endereço e a hora, que ele estará aí.

Treize anotou as informações e desligou o aparelho. Deixou-o no mesmo lugar em que o encontrou e seguiu até o banheiro.

Um pouco da fumaça causada pela água quente se esvaiu pela porta que foi aberta e Treize foi presenteado pela imagem dos contornos andrógenos do jovem amante vistos através das portas fechadas do blindex.

Ficou por um momento admirando-o e tentando conter-se em não compartilhar daquele banho com ele. Logo foi trazido de seus pensamentos impuros pela voz de Duo, que percebera sua presença.

- Está gostando de ficar apenas olhando? - perguntou num tom divertido. - Pensei que tivesse um efeito maior em você.

Treize riu.

- E tem. - confirmou, ainda saindo do deslumbre. - Mas se eu não tiver autocontrole, não deixo você sair da nossa cama hoje.

- E qual o problema? - perguntou displicente, fechando o chuveiro e puxando a toalha azul.

- Você tem um cliente. - informou mais seriamente. - Acabou de telefonar para o seu celular.

Por um momento Duo refletiu, e a idéia de que poderia ser Heero, lhe veio à mente; assim como o sociólogo, a quem tinha passado o número de seu celular, mas deste último duvidava muito, ele lhe procurara como estudante, e não sabia de seu trabalho. Ainda não tinha comentado com Treize sobre ter encontrado o japonês por quem fora apaixonado. Temia aumentar a tensão em seu amante, pois já percebera que este não ficara à vontade com seu reencontro com Satoshi. Adorava Treize, mas este se preocupava demais, e por isso achou conveniente omitir aquele fato. Pelo menos por enquanto.

- T-chan, temos mesmo que começar a negociar minhas férias. - reivindicou, e ainda parcialmente molhado aproximou-se do amante. - Nosso tempo juntos está diminuído. Eu quase não o vejo mais.

Treize estreitou os olhos e alertou-o, antes que o outro se colasse nele:

- Se encostar em mim e me molhar, você vai se arrepender.

Duo parou, fazendo uma careta e um bico de descontentamento, mas atendeu à ameaça de Treize, começando a correr a toalha pelo corpo para se secar.

- Você é um estraga prazer, sabia?

- E você pensa que me engana. - replicou com humor. - Veja bem; se você está se sentindo sobrecarregado precisamos ajeitar essas suas férias prolongadas o quanto antes.

Duo sorriu e tentou aproximar-se de novo.

- Mas só vai ter graça se você estiver livre também. – disse, exibindo uma expressão travessa.

Treize estreitou os olhos e mais uma vez alertou:

- Duuuo.

Outro bico inconformado e Duo se deteve; amarrando a toalha na cintura e recostando-se na pia de mármore.

- Não tenho nem mais o direito de sentir falta do meu namorado? – indagou, como se não tivesse ninguém mais ali.

Treize deixou a expressão severa amenizasse e ponderou:

- Vamos discutir as suas… - imediatamente recebeu um olhar mortal de Duo e corrigiu-se: - Vamos discutir as nossas férias quando você voltar. Está bem assim?

O sorriso travesso voltou a emoldurar os lábios do americano, ao mesmo tempo em que não se importou em avançar contra o amante, que inutilmente tentou protestar, mas já se via com os lábios do jovem nos seus. Correspondeu ao beijo, tomando o corpo esbelto em seus braços. Não havia como resistir a Duo.

O americano insistia há algum tempo em que ambos tirassem um tempo para distanciarem-se do trabalho e ficarem mais tempo juntos, mas ele sempre adiava as coisas. Não intencionalmente, pois para ele nada seria mais prazeroso do que poder ficar com o amante, mas tinha suas responsabilidades e ter que deixar o Eclíptica nas mãos de terceiros não fazia sentir-se confortável. Mas não poderia adiar por muito mais tempo, já que as exigências de Duo tornavam-se cada vez mais constantes.

-

Satoshi tinha tirado a noite para estudar. Os livros e cadernos espalhados pela mesinha de centro na sala, enquanto ele, sentado no chão, lia e re-lia toda a matéria que seria abordada na próxima prova. Agradecia por ter muito de tudo o que estava estudando já na cabeça, pois estava sendo uma tarefa difícil se concentrar; depois do novo encontro que tivera com Duo.

Estava irado por seu melhor amigo estar se prestando a tantas coisas que não concordava, além de insistir em não lhe contar a verdade sobre o passado; mas não poderia negar que ele mexia consigo. O beijo tinha quase lhe tomado o senso por completo, e por muito pouco não conseguira colocá-lo para fora do apartamento. A verdade era que sua vontade era tê-lo levado direto para seu quarto, mas não queria que as coisas entre eles acontecessem por motivos errados, ou mesmo fúteis.

"Você foi tolo o suficiente para alimentar aquela paixonite infantil durante esses anos todos?" - lembrou das palavras do americano se referindo ao que sentia de forma debochada. Duo se aproveitava das recordações do passado, quando ele tinha praticamente se confessado a ele, e queria provavelmente brincar com isso. Estava claro que queria, mas não estava errado. Apenas pelo fato de não definir o que guardava por ele como uma "paixonite". Paixonites eram sentimentos intensos, mas que com o tempo se dissolviam. O que ele tinha pelo americano era forte, mas mesmo que quisesse, por mais raiva que sentisse por ele, não conseguia mudar ou apagar de seu coração.

Era um estúpido por não ter como evitar sentir-se daquela forma. Mesmo que aquele homem que reencontrara não fosse o menino doce e ingênuo que conhecera um dia, amava mesmo assim.

Piscou algumas vezes ao ser trazido de volta de seus pensamentos com o barulho da campainha. Olhou para o relógio de parede da cozinha e estranhou. Logo lhe veio a idéia de que poderia ser Duo querendo atormentá-lo mais uma vez, já que agora sabia onde morava. Bufou chateado e levantou-se, pronto para dizer meia dúzia de palavras nada sutis e despachá-lo; caso fosse o americano. Mas quando abriu a porta, ficou segundos estático ao se dar frente a frente com seu pai.

Heero Yui estava na porta de seu apartamento, e pelo seu semblante não parecia nada satisfeito. Lembrou-se então da visita de Solo e da tentativa de convencê-lo em largar a faculdade de Arqueologia para poder tentar algo que fosse mais compatível aos negócios do pai. Internamente riu. Seu pai não deveria estar nada satisfeito com sua negativa em assumir a empresa futuramente.

- À que devo a honra de sua vinda em meu humilde esconderijo? - indagou, abrindo caminho e fazendo menção para que o pai entrasse.

Heero entrou, não deixando de discretamente analisar tudo o que pegava seu campo de visão. Não era bem em um lugar como aquele que esperava encontrar seu filho morando. O apartamento poderia estar bem arrumado, mas era pequeno, e não condizia com a condição social de Satoshi. Viu-se perguntando mais uma vez o que estava acontecendo com o filho para estar levando a vida para extremos. Em todos os sentidos. Não lhe era novidade alguma as rebeldias do garoto, mas as coisas estavam parecendo tão fora de padrão ou controle...

Parou na sala e, sem querer se sentar, foi praticamente direto:

- Há quanto tempo você sabe do paradeiro de Duo e vem escondendo isso até mesmo do irmão dele?

A mente de Satoshi congelou por um segundo. Como seu pai ficara sabendo de Duo? Não imaginava que estivesse blefando, pois não traria um assunto tão diretamente à tona se não tivesse convicção do que lhe acusava.

- Quem te disse isso? – perguntou, recostando-se de contra o balcão que separava a cozinha da sala.

Mantendo a postura séria, Heero respondeu impassível:

- Duo.

Satoshi alarmou-se internamente, debatendo-se com a resposta de seu pai, que só podia significar que os dois haviam se reencontrado. E invés de responder à pergunta inicial, indagou o que mais temia saber.

- Vocês dormiram juntos?

Aquilo não era uma reposta, mas já confirmava a primeira pergunta que fizera ao filho.

- Então é verdade que você já o havia encontrado e manteve silêncio sobre o fato, até mesmo para o irmão dele. – disse, como se ponderasse em pensamento. - Eu até compreendo que para mim você tenha motivos em querer preservar seu amigo, mas estou intrigado com o motivo que o fez omitir o fato de Solo. Pensei que você prezasse a amizade que tinha com ele.

Satoshi não gostou da forma que seu pai questionou a amizade que tinha com Solo e imediatamente rebateu:

- É justamente por considerar Solo tanto assim que resolvi não dizer nada. Ele sofreria quando soubesse o que Duo se tornou. Que na verdade não era nada daquele irmão bonzinho que ele imaginava ter.

Heero franziu o cenho, estranhando a forma ríspida com que Satoshi falava de Duo. As coisas não estavam bem como estava imaginando. Afinal, não fora sempre o filho que protegera o americano contra tudo e todos? E por quem tinha uma amizade infinita?

- O que aconteceu entre vocês dois? - Heero não deteve a curiosidade de perguntar. - Vocês não eram melhores amigos?

Satoshi estreitou os olhos e respondeu de forma seca:

- O passado que você usou na frase foi perfeito.

- O que mudou?

- Infelizmente tenho que dar o braço a torcer quando você o chamou prostituto barato.

Heero sorriu de forma irônica, entendendo enfim o que tinha incomodado tanto o filho a ponto de fazer com que estivesse demonstrando rancor por Duo.

- Só pelo fato dele estar se prostituindo?

- Não só por isso. Nós pensávamos que estava morto e ele nos deixou todos esses anos sem uma notícia sequer; e agora que o encontro de novo, sequer explica nada. Se esquiva de qualquer pergunta sobre o passado e diz que não vai contar. Isso não é aceitável.

Heero percebeu que então não fora só com ele que Duo agira defensivamente e evitara dizer qualquer coisa.

- Eu contei a Solo sobre Duo e provavelmente ele já deve estar entrando em contato com o irmão. - revelou para logo depois censurar a atitude do filho. - Omitir um fato como este dele não foi uma atitude sábia Satoshi. Isso só o faz igualar-se a Duo.

- Não me compare a ele... - retorquiu contrariado. – Você não deveria ter falado com Solo. Saber que Duo está vivo e no que se tornou só vai fazê-lo sofrer.

Heero deu de ombros.

- Pode ser... ou quem sabe você esteja enganado. - disse como se fosse algo sem muita importância.

- Você não respondeu à minha pergunta. – insistiu, impulsionado por aquele incômodo que começava a se tornar uma constante toda vez que pensava no americano com outros. - Você dormiu com ele?

Heero levantou uma de suas sobrancelhas, intrigado com a repetição daquela pergunta, e incomodado com o porquê da importância daquilo. Não havia mentido para Solo, porque o faria para Satoshi?

- Ele foi bem pago pelo serviço dele. - disse dando de ombros.

Heero viu os olhos de Satoshi crisparem-se de raiva, e a intensidade do que via no espelho azul tão similar ao seu, fazia com que duvidasse que se tratasse de pura indignação por estar dormindo com alguém mais novo do que ele, ou porque não dizer, seu até então melhor amigo. Impróprio de sua parte era estar sentindo aquele aperto mesquinho mais uma vez em seu peito, ainda mais quando tinha encontrado Duo há tão pouco tempo. Mas ele estava lá, como há anos atrás.

- Tantos anos e você continua o mesmo. - Satoshi comentou com escárnio; na verdade controlando sabe-se lá como, a ira que sentia ao saber que o pai tinha se deitado mais uma vez com Duo.

- Acho que não cabe a você julgar isso, quando foi seu próprio amigo quem propôs o programa. - cortou o assunto, buscando pelo outro que também o trouxera ali. - Mas acho que como já está explicada essa parte, não me interessa sua opinião ou não. O que eu vim saber também é quando você vai parar com essa sua pirraça infantil e procurar centrar a sua vida no caminho certo.

Satoshi cruzou os braços por sobre o peito e riu sarcasticamente.

- Ainda tem mais essa? - indagou num tom de deboche. - Me diga o porquê minha vida não estar centrada num caminho certo?

- Olhe para o lixo de lugar em que você mora, que achará o primeiro ponto. – disse, fazendo menção com a cabeça ao apartamento a sua volta. - O dinheiro que eu te mando mensalmente não tem sido o suficiente para você se manter em melhores condições?

Satoshi sentiu seu sangue ferver.

- Essas são as condições em que eu quero viver. - tentou explicar. - Não há necessidade de extravagâncias enquanto eu não me formar e poder me estabilizar financeiramente.

Heero riu, divertindo-se com as intenções do filho.

- Estabilizar-se como arqueólogo? - perguntou irônico. - Isso nunca lhe trará estabilidade alguma.

- Isso já não é um problema seu! - grunhiu começando a perder a paciência.

Ficando totalmente sério de repente, Heero contradisse:

- É problema meu desde o momento em que sou eu quem está custeando toda a sua vida aqui. Eu já cansei dessa sua brincadeira. Concordei em te deixar estudar fora do país porque Quatre me convenceu de que era o melhor para você e sua revolta infantil por um garoto que você mal conheceu. Hoje foi provado que foi uma preocupação desperdiçada a toa, pois ele está muito bem; e sem precisar da sua ajuda. Me dá razão agora quando eu disse que ele não passava de um prostituto barato? E quando vai dar o braço a torcer de que essa loucura de arqueologia não vai te levar a canto nenhum? Quando também bater de frente com a realidade?

Satoshi abaixou os braços ficando numa posição mais rígida e decidida. Seus olhos estreitaram-se mostrando firmeza, enquanto suas mãos se fechavam em punhos do lado de seu corpo, sentido que ambas suavam frio.

- Eu não vou desistir do que estou fazendo. Pode esquecer.

Heero estreitou os olhos da mesma forma que o filho e rebateu.

- Então você pode esquecer do dinheiro que é depositado em sua conta todo mês. - Não queria ter que usar daquela chantagem, mas era sua última cartada. Sua última chance de conseguir coagir o filho a não cometer um erro.

Satoshi deu uma risada alta de puro deboche. Era só o que estava faltando. Mas tolo era seu pai que pensava que o intimidaria com aquele tipo de ameaça. Era ridículo como o conhecia tão pouco.

- Então faça bom proveito do dinheiro que vai sobrar em sua conta bancaria. Faça ainda melhor, use-o para pagar suas noites de sacanagem com Duo. Acho que vai precisar mesmo; pois é disso que ele gosta. Sexo e muito dinheiro.

- Satoshi... - Heero alertou num tom de ameaça.

- Saia daqui agora. Pelo que me consta, eu não dependo mais de você, e pra falar a verdade, você NUNCA foi um pai realmente pra mim.

- Não fale besteiras. – grunhiu indignado.

- Você quer se chamar de pai quando eu ficava largado com seus empregados vinte e quatro horas por dia?! – indagou descontrolado. – Quando eu queria atenção e você sempre estava ocupado; ou com seu trabalho ou com alguma vagabunda?! Você me deu condições financeiras, mas NUNCA agiu como meu pai. Se for colocar preto no branco, Quatre foi mais meu pai do que você. – desabafou tentando conter o mal estar que o assolava.

- Se é o que você pensa, então quem sou eu para lhe contrariar? – disse, desprovido de qualquer emoção, mesmo que no fundo estivesse magoado com as palavras do filho.

Aquela reação só irritou ainda mais Satoshi. Atingir seu pai era o mesmo que tentar atingir uma rocha. Detestava aquela situação ridícula; a forma como ele o ignorava e colocava acima de qualquer coisa as prioridades que achava certo e sequer tinha a sensibilidade de demonstrar qualquer decepção por suas palavras.

- Este é MEU apartamento e eu quero que saia AGORA! - esbravejou adiantando-se até a porta e abrindo-a como num convite.

Heero ponderou. Lá estava mais uma vez Satoshi em outro de seus ataques histéricos de rebeldia. Mas desta vez iria fazer valer sua decisão e tinha certeza de que não demoraria para o filho cair na realidade da besteira que fazia e vir lhe procurar para lhe dar razão. Ele sempre tivera dinheiro fácil na mão, a qualquer momento em que queria e não sabia nada do que era viver sem ter alguém por trás lhe dando cobertura.

Ele o procuraria mais cedo ou mais tarde. Não precisaria ficar criando mais bate-boca com o garoto, que logicamente não cairia na razão, por suas simples palavras.

Caminhou sem quebrar contato com os olhos raivosos de Satoshi e antes de sair apenas deixou seu aviso.

- Quando cansar de brincar, é só me procurar.

Dito isso, foi só colocar o pé para fora, para a porta ser batida num forte estrondo atrás de si. Mas isso só fez com que balançasse a cabeça de forma displicente e sorrisse ironicamente, com um fundo de tristeza.

Satoshi voltou até a sala tentando acalmar a respiração, ao mesmo tempo em que sentia o corpo extremamente exaurido. Mas no fundo estava mais aliviado.Tinha dito tudo o que queria, apesar de ter falhado com Quatre, que lhe pedira para ser mais compreensivo e maleável com o pai. Infelizmente constatara que aquilo era impossível. Ele e o pai definitivamente jamais se dariam bem.

Sentindo um torpor tomar conta de seu corpo, desistiu de estudar.

-

Duo deixou seu carro nas mãos do manobrista, enquanto entrava no hotel onde lhe fora pedido para atender a um cliente. Na recepção, pediu para que fosse anunciada sua chegada pelo telefone.

Por um instante Duo ficou admirando a beleza da recepção do hotel luxuoso e pensou que tipo de cliente poderia tê-lo solicitado para um trabalho ali. Aquele era um hotel onde se hospedava gente de muito dinheiro. Não que não estivesse acostumado a isso, mas lhe vinha à cabeça justamente se não teria sido mesmo Heero quem teria lhe requisitado, pois não se lembrava de nenhum cliente que conhecesse que estivesse na cidade e tivesse condições de estar hospedado num hotel como aquele.

Sua atenção foi chamada mais uma vez para o balcão onde a bela mulher lhe deu autorização para subir.

Tranqüilamente, pegou o elevador e subiu até o décimo primeiro andar. Saiu no corredor de carpete vermelho e seguiu a direção da numeração das portas. Ao chegar ao quarto certo, bateu na porta, esperando que esta se abrisse; mas uma voz masculina soou grave e pediu que entrasse.

Estranhou, mas mesmo assim levou a mão à maçaneta e girou-a, abrindo a porta lentamente.


Sinto terminar o capítulo aqui, mas prometo não demorar muito para postar o próximo...

See Ya!