Capítulo XI – A Chave

- A cama é um pouco dura, mas aguenta-se. Depois de usares o lavatório podes deitar a água suja pela janela e voltar a encher a vasilha no tanque adjunto à cozinha. E o baú ao fundo da cama é para arrumares as tuas roupas. Ah, pois, só tens as que trazes vestidas...

Com um torcer de nariz, a rapariga morena que lhe mostrara os seus "aposentos" saiu do compartimento. Era óbvio que, como a maioria do clã, incluindo Lord Potter, não estava de acordo com a decisão de Artarte. Mas a deusa viera dar as suas ordens em "pessoa". Quem a poderia contradizer? Eram ordens precisas e claras. Elas, as prisioneiras, seriam tratadas com a dignidade e respeito com que se tratava as mulheres do clã da Escarpa.

Por outro lado, pensou Lílian deviam estar contentes... É da maneira que sabem que os seus maridos não irão enfiar-se na cama com nenhuma de nós.

- Isso é uma outra maneira de ver as coisas, milady – respondeu a voz de Moony atrás de si. – Aqui as mulheres não têm grandes problemas com as infidelidades dos maridos. Aceitam isso como natural.

- Mas não é! – exclamou Lily, consternada. Solteiros era uma coisa... mas duas pessoas que jurassem amar-se e respeitar-se sob o símbolo da Deusa deviam manter-se fiéis um ao outro! – Isso é contra... Lê a mente? – interrompeu-se, dando-se subitamente conta de que não pronunciara os seus pensamentos em voz alta. Os olhos estreitaram-se-lhe. Gostava de Moony, já se apercebera disso, mas se ele se atrevesse a ler-lhe a mente...

- Não me leve a mal! – apressou-se a responder Remus. – Não é propositadamente, de facto a culpa até foi sua.

- Minha?

- Sim, claro. O meu nascimento não foi normal, Lady Red, e um dos dons, ou fardos, que carrego é o de ouvir os pensamentos de outrem quando os mesmos são por demais fortes ou de grande importância.

- Então a culpa é minha por ter pensamentos fortes, Sir Moony?

- Assim é, milady.

- Isso é um absurdo!

Remus encolheu os ombros.

- Não vale a pena tentar convence-la se não está disposta a isso. E não vim cá para discutir consigo. Sir Prongs deseja saber se está confortável.

- Porque não vem ele mesmo ver? – Quase de seguida arrependeu-se do que dissera. Onde estava com a cabeça para convidar Prongs a entrar nos seus aposentos? Iria pensar que ela era uma... uma... Mas o que interessava o que ele ia pensar? Ele ia entrar ali, naquele que, já se resignara, iria ser o mais próximo de lar que teria! Ela e Pulga! E agora, num momento de irreflexão, convidara aquele homem desprezível...

Tão desprezível que se arriscou à fúria do pai para que tu e as outras tivessem condições razoáveis de vida? Que é sempre tão paciente e caridoso para Pulga e que nunca, em toda a viagem, te forçou a nada que não querias apesar das inúmeras oportunidades?

Isso... Isso eram apenas ardis manhosos para a distrair das suas verdadeiras intenções! Ele era o chefe do inimigo! O destruidor e o saqueador! Queimara a sua casa e destruíra o seu clã!

Foi assim que teve de ser, não havia outra maneira. Porquê sempre os mesmos argumentos quando já sabes que isso estavam para além do controlo dele? Ele pode ter destruído a tua casa... Mas tu ainda não encontraste o teu lar.

Qual a diferença? Casa, lar... era tudo o mesmo. Tudo perdido...

Tem toda a diferença. Pensávamos que já tinhas passado essa fase, Lílian Esmeralda de Fogo, e que já percebias um pouco mais... Demoraste a chegar aqui, não queiras retroceder. Não chores pelo passado quando tens tanto para o presente e ainda mais para o futuro. Não te percas em ódios mesquinhos quando tens ainda de dar atenção àquele que é o teu verdadeiro inimigo... Aquele que vos quer mal e que não desistirá até vós ambos o destruam... Perdoa James pelo que ele te fez e ao teu clã, pois precisaras dele e dos seus. Não nos desiludas nem à nossa Senhora, Lílian...

- Afinal não era um diálogo comigo mesma... – murmurou Lílian, olhando em volta como se esperasse encontrar um Lobo Sagrado ali, dentro do quarto. Nunca lhe passou pela cabeça que eles pudessem comunicar à distância... mas, afinal, eram os Mensageiros da Deusa, deviam poder fazer muitas coisas que não passassem sequer pela cabeça dos comuns mortais como ela... Deu-se igualmente conta de que Moony já havia abandonado o quarto. Naturalmente, fizera-o enquanto ela divagava naquelas estranhas conversas com os Lobos Sagrados

O que deve ter pensado de mim, ali parada de olhar no vazio logo após ter feito aquele convite indecoroso?, pensou divertida. Estranho como o seu estado de humor se alterava tão rapidamente nos últimos dias... Um ligeiro tossicar chamou-lhe novamente a atenção para o que a rodeava. Sir Prongs encontrava-se à entrada dos aposentos, não entrando até que ela lhe desse autorização, como convinha a qualquer mulher respeitosa.

Mas ele poderia ter entendido as minhas palavras como um convite e ninguém o culparia por isso... nem mesmo os Deuses, já que Jogos de Palavras é o que eles mais gostam de fazer.

- Vim verificar se se encontra satisfeita e confortável, milady – declarou o moreno dando uma olhada ao quarto. – Talvez seja um pouco pequeno para si e o seu protegido...

- Está óptimo – apressou-se a interromper Lily. – É muito maior do que aquele compartimento no barco. Isso diverte-o, Sir Prongs?

- Se tivesse aceitado o meu convite, Lady Red – respondeu James ainda com um sorriso travesso – teria viajado no meu compartimento... num compartimento mais espaçoso, portanto.

- E, muito provavelmente, teria chegado aqui viola... – interrompeu-se ao relembrar os conselhos dos Lobos Sagrados. Este homem não lhe queria mal e ela sabia-o. Se ele tivesse querido violá-la já o teria feito muito antes de terem chegado ao barco. Mas... o seu espírito entrava novamente em conflito. Por um lado, as palavras dos Lobos Sagrados ainda lhe ecoavam na cabeça ao mesmo tempo que as provas dadas do bom coração de Prongs durante a viagem lhe saltavam à mente, por outro, também as imagens na aldeia destruída lhe enchiam o espírito... E como podia ela saber que o diálogo que tivera com os Lobos não fora pura imaginação sua? Afinal, ela não os avistara nem dentro do quarto nem perto da janela...

- A minha presença aqui já não mais justificada, minha senhora, embora eu adorasse poder ficar mais uns segundos que fossem na sua silenciosa companhia. – A voz de Prongs soava compreensível, mas distante. – Deixo-lhe isto como prova das minhas boas intenções. Vê aquela porta na parede esquerda? Dá para o meu quarto, não sei quem foi o tentador que teve a ideia de a instalar no quarto adjunto ao meu, mas ficará com a chave, senhora, para a fechar quando lhe aprouver e assim ter a certeza da sua intimidade e da do seu protegido.

- Agradeço-lhe, Sir James – respondeu Lily por mera cortesia, absorta ainda na sua luta interior. Retomou novamente o mundo real ao ver James tornar-se rígido. Só então se apercebeu do que ele lhe dissera, da chave que lhe estendia e da resposta que ela dera.

- Oh! – murmurou, olhando-o nos olhos. Como nunca reparara que os olhos castanhos dele possuíam aqueles salpicos verdes lindos? – Os Lobos Sagrados... Disseram-mo... Ainda há pouco. Acredite-me. Não foi por mal! E não usarei o seu nome verdadeiro contra si, Sir Prongs, juro-o!

- Não jure, senhora, pois teria de jurar o mesmo. Acredito em si. Tome – acrescentou, pousando-lhe a pequenina chave na palma da mão e fechando-lha em redor do objecto. – Não a perca, Lílian.


N/A: Demorou mas se serve de consolo, era para demorar mais, eu é fiquei tão contente com as reviews que me mandaram que fiz um esforço para escrever o capítulo todo hoje (não pude antes... tive testes até na ultima semana de aulas, isto é um ABUSO!)

JhU Radcliffe: Oie! Acho que já aqui esta a resposta a tua pergunta, ne? Fico contente que tenhas gostado, também sou filiada em mitologia, ah, deuses, deuses... Artarte... essa ai é ardilosa mesmo, uma safada! É preciso ter cuidado com ela. Bjs;P

Iliana: Aki está ele, Iliana, espero que tenha ficado ao teu gosto (e ao gosto dos outros que tmabém estão a ler mas não deixam review). Minha parte favorita é o dialogo da Lily com os Lobos... eu adoro esses lobinhos

Vulpes: e o raposinho também, né mesmo? Poucas são as que não me adoram...

Elyon: Ué, quem te deu autorização para entrar aqui? Cai fora! E sim, as mulheres adoram-te... pendurada ao seu pescoço como uma pela inanimada!

Vulpes: PenduradO. E não era esse sentido que eu...

Elyon: RUA! Bem, bjs para todos e não se esqueças de deixar review, façam-me o tão precioso donativo...

Vulpes: Cartas dos meus fãs também são bem vindas! Mas cuidado, que a caixa do correio é tamanho médio e não queremos rebentar com ela, né? Bem, então...

Elyon: Pronto, cortei-lhe o som. Bjs;P