– Vêm cá, vêm... – puxou-o para si com a voz pastosa, quase derrubando-o sobre si.

– Hey,hey,hey... Calma lá gatinho... Não íamos embora agora? – perguntou divertido, ajudando o parceiro a levantar do pufe, amparando-o pela cintura ligeiramente afilada. Não tinha bebido mais que dois copos de batida, mas em compensação Milo havia ido à forra. Não imaginou que, ao dizer para ficarem mais um pouco, seria assim que ele passaria o tempo.

Sentiu receio de ter de socorrê-lo em uma PT e entregá-lo nas mãos da velha num estado menos que sóbrio, pois aí sim seria o decreto final de que ele não prestava e arrastava seu pobre neto para a boêmia e blábláblá...

Mas tinha que admitir que, bêbado como estava, Milo parecia muito mais leve e carinhoso e aquela versão dele até que lhe agradara.

– Tem que ser agora...? Tava ficando divertido ficar aqui... – o rapaz respondeu num sorrisinho mole, tentando se mover ao ritmo da musica e até se saindo bem, mas nem por isso o mais velho deixou de ampará-lo.

– Você que pediu para irmos. – estranhou a expressão surpresa do rapaz ao encará-lo, mas riu da cara meiga que ele fez.

– Verdade, né? Vamos logo então... – desvencilhou-se do outro em meio a uma risada e caminhou rumo à porta, parando ao ver que não era seguido. – Que que tá esperando hein? Vamos logo!...

– Não vamos sem o casal 20, certo? – inquiriu em meio a um sorrisinho. Milo não estava bêbado, estava trêbado! Com o bebe-bebe do rapaz até mesmo havia se esquecido de ficar efetivamente de olho no irmão para ter certeza de que estava bem...

Viu ele no karaokê, depois na pista de dança com Camus - o que estranhou sinceramente uma vez que o cunhado não era fã de musica eletrônica -, e depois os perdeu de vista, ficando na esperança de que estivessem se comendo em algum canto. Claro, não queria ter que achá-los numa situação dessas, mas que faria bem para o outro e o faria esquecer, com certeza faria.

Tinha uma boa idéia, pelas descrições detalhadas do irmão, de como Camus conseguia ser persuasivo nesses casos. Controlou a vontade de rir e foi até sua deliciosa dor-de-cabeça loira, abraçando-o pela cintura novamente e levando-o até os sofás outra vez. – Vamos lá gatinho... Você fica quietinho aí que eu vou procurá-los para podermos ir, pode ser?

–U-hum... – concordou obedientemente, despertando um arquear de sobrancelhas e uma vontade no outro de agarrá-lo.

– Aiaiaiai... quem dera fosse comportadinho assim sóbrio também... – murmurou para si em ar divertido, lançando um ultimo olhar no monumento sentado de forma desalinhada antes de se afastar um tanto a contra-gosto para procurar os outros dois "foragidos".

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Puxou-o um pouco mais contra si antes de afastá-lo enquanto tentava recuperar o fôlego. Podia sentir o desejo do outro contra sua perna como bem sabia que ele podia sentir o seu, mas ainda estavam num local publico e não seria agora que se daria ao direito de se expor de tal forma. – Petit...

–... Queria te agarrar desde que te vi entrando no carro... – comentou em meio a um sorrisinho, como que se desculpando pela empolgação e falta de discrição. Sabia bem que com seu ruivo não tinha essas de amassos em locais públicos e que aquela era uma deliciosa exceção, talvez empreendida pelos belos três drinques de frutas que o francês tomara como se fosse suco.

Afundou o rosto na curva do pescoço pálido e tragou o cheiro do perfume deste. Nunca poderia falar para ele, mas gostava muito daquele cheiro. Trazia-lhe uma sensação de segurança ou qualquer coisa assim, diferente do que sentia no seu próprio perfume. Afinal aquele era o mesmo perfume que Aiolos costumava usar.

Poderia agradecer ao seu irmão por nunca ter contado isso para ninguém, pois dificilmente entenderiam que aquele cheiro já fazia parte dele e que eliminá-lo seria o mesmo que lhe arrancar uma parte. Era como o ar, aquele cheiro. Não percebia mais o aroma realmente, mas sentia quando ele estava ali. Contraiu o rosto e tragou o perfume de seu namorado novamente. Céus, não iria chorar ali. Camus não merecia isso. Não merecia ter sido largado naquela manhã da forma infeliz que foi e não merecia aquela sombra sempre o seguindo.

Encostou a testa ao ombro direito do outro e olhou para baixo. Deus... Conseguira até broxar com aqueles pensamentos!

– Do que está rindo Saga? – inquiriu um tanto surpreso. Sim, surpreso, pois primeiro ele o obrigou a dançar aquela musica repetitiva e estressante, depois o arrastara para aquele canto inóspito para agarrá-lo e ainda depois se afundou em seu pescoço e permaneceu petrificado, como se tivesse dormido, e por ultimo começa a rir?

– Não é nada Cam... Só pensei... em como meu irmão é idiota...

– E isso ainda o faz rir? Pensei que já houvesse se tornado uma constatação habitual... – comentou em tom zombeteiro, fazendo o outro rir um pouco mais antes de se recompor e voltar a encará-lo.

– Pensei em como ele pode ser tão inconsistente em relação ao Milo. – respondeu a primeira coisa que pensou e por sorte era algo que realmente pensava. – Sabe, o garoto é demais. E ele não percebeu ainda o que tem em mãos... Não acha?

Sim, porque ele viu muito bem que depois da musica seu irmão ficou por perto, mas prestava muito mais atenção em si do que no próprio acompanhante, que tudo o que fez foi beber, dançar e conversar com pessoas desconhecidas, até que ele, Saga, percebesse um cara dando em cima do rapaz, já bêbado, e alertasse seu irmão antes de fugir com Camus para algum lugar mais reservado onde pudesse curtir um pouquinho os direitos que a aliança de prata lhe dava sobre aquele vampiro sexy.

E tinha certeza de que aquela musica significava algo.

O rapaz cantara de um jeito tão profundo que podia jurar que aquilo foi uma declaração. E Kanon...? Nada.

– Não deveríamos nos meter na vida pessoal deles... – respondeu automaticamente. E agora era sua vez de perder todo o clima de romance inconseqüente, para sentir em seu lugar um iceberg descendo até seu estômago. Pensou na briga daqueles dois no carro, na cena com Afrodite e na própria depois. Pensou na musica, na entrega, na voz melodiosa e em como o outro bebera depois de tudo aquilo, tudo simultaneamente. E aquilo fez sua cabeça doer miseravelmente. Quase traíra a confiança de seu namorado por um desejo súbito, exatamente pelo alvo da preocupação e dos elogios de seu namorado. Era perceptível como Saga prezava o escorpiano e aquilo lhe doeu de um jeito que só a culpa poderia doer. –... Sinceramente, eu gostaria muito de ir para casa, mon ange. Com você.

Sentiu um alivio enorme ao ver o outro sorrir maliciosamente e erguer as sobrancelhas daquela forma charmosa que lhe era tão comum. – Adorei a idéia, sabia? Será que Kanon nos daria uma carona até o nosso ninho...?

–... Bom, não tenho problemas com isso desde que usem camisinha como Deus manda... Na verdade, era exatamente para isso que vim atrás de vocês. Vamos ralar peito então galerinha do mal? O Mi tá afim de ir também. – respondeu o próprio, que havia se aproximado pela lateral do casal com os passos leves que só ele possuía. Riu com gosto após pronunciar-se, ao perceber que seu cunhado, que estava ligeiramente alto, corou ao ouvi-lo e soltou um muxoxo em francês.

– Como ele está, K? – o irmão logo o abordou, obviamente interessado no bem-estar do quase-cunhado e lançou um olhar quase censurador ao irmão ao perceber que o rapaz não estava nem sequer por perto. – Não me diga que o largou sozinho, pelo amor de Deus!

– Ele é maior de idade e vacinado, até onde sei. – retrucou prontamente o irmão, comprimindo os lábios impacientemente ao ouvir aquilo, mesmo que tivesse percebido como era arriscado largar uma pessoa incapacitada sozinha. Estalou os lábios num 'tsc' baixo e virou o rosto.

– Mas está bêbado. – o mais velho tornou de forma óbvia, curando os braços e erguendo as sobrancelhas daquela forma quase superior que usava para corrigir o irmão. E que tanto irritava Kanon, que até mesmo chegou a abrir a boca para retrucar algo, mas que reconsiderou, devido ao estado de espírito instável do seu 'adorado irmão irritante'.

Passou as mãos pelo rosto e suspirou ansiosamente, batendo-as nos quadris enquanto assentia. – Ok, ok... Descuido meu. Você está certo S. Como sempre. Agora vamos logo?

E dito isso tomou a frente do trio, se afastando enquanto procurava o escorpiano com o olhar, vendo-o sentado exatamente onde deixara, indo até ele então e o escoltando para fora do salão a fim de finalmente poderem ir embora daquela festa.

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–... Por favor pára o carro. – pediu em meio a uma careta, afundando a cabeça no banco do passageiro. – Tô enjoado.

– Estamos quase chegando na casa do Camus, gatinho... Agüenta só mais uns dois minutos... – pediu compenetrado no transito - já consideravelmente menor devido ao horário. –Você agüenta? Respira um pouco de ar pela janela pra ver se ajuda.

Respirou fundo e mordeu a própria língua, tentando se impedir de enjoar ainda mais e fechou os olhos com força, mas ainda assim ouviu a voz firme e discreta do aquariano, vinda do banco de trás.

– Tenho pastinha de menta, caso possa ajudar.

– Por favor... – pediu com a voz um tanto embolada por ainda estar mordendo a língua e sentiu o homem tocar seu ombro com o pacotinho já no fim, dando-lhe as quatro ultimas. Colocou uma na boca imediatamente e se recostou novamente no banco, sentindo o enjôo melhorar ligeiramente e suspirou. – Obrigado.

– Disponha. – respondeu automaticamente, recebendo um sorrisinho do namorado que o olhou daquela forma conhecida. Toda vez que falava qualquer frase bem educada por falar ele o olhava daquele jeito divertido. Claro, se sentiu incomodado com isso, como sempre, mas estava grato por ele ainda não ter deprimido completamente, mesmo que pudesse notar certa afetação no bom humor ameno que ele ostentava.

Coçou a própria nuca com a ponta dos dedos a esse pensamento e tornou a se sentir mal por não conseguir lhe dispensar toda a atenção da qual necessitava. Não que não fosse disperso num geral mesmo, mas normalmente se focava razoavelmente bem quando o assunto lhe exigia isso. Certo, tinha bebido também... Talvez isso estivesse lhe afetando... Mas de qualquer forma não bebera nem um terço do que o escorpiano bebera, sabia bem. Aliás... o enjôo melhorara? Lançou um olhar preocupado para o banco à frente do seu e suspirou, refreando-se antes que ousasse perguntar isso.

Abraçou-se a Saga então, fingindo ser um companheiro melhor do que se sentia naquele momento e recebeu um suspiro suave em resposta, acompanhados dos braços fortes a lhe rodearem os ombros.

Aquela festa não poderia ter sido pior idéia.

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