Capítulo 11 – A Fênix Renasce das Cinzas Parte II
Ou
O Mais Leal dos Filhos
"A vida é feita de sobreviventes, se você conseguir atravessar suas mais difíceis batalhas e ainda assim reconhecer as pequenas boas coisas da vida você é um sobrevivente" – by 1 Lily Evans
3000, Algum Lugar do Mundo.
Ele correu como se sua vida dependesse disso e a verdade era que dependia. Estava há aproximadamente uma semana com os centauros e finalmente dissera – sem intenção – algo que ofendera terrivelmente ao líder deles. E apesar de compreensivos com o seu objetivo – entender e aprender com a religião e costumes deles – os centauros não perdoavam ofensas.
E ele aparentemente ofendera terrivelmente Molik ao dizer que tivera um cavalo com cascos tão bem cuidados quanto os dele.
Já fazia dez anos que estava longe de sua casa, seus irmãos e sua 'mãe'. Ele sonhava toda noite com o acampamento, os treinos diários, as batalhas travadas e os duelos que os filhos da Fênix faziam às vezes por pura diversão.
Mas não voltaria, não enquanto sua missão não estivesse completa: ele teria de aguentar trinta anos entre todos os tipos de raças. Centauros, fadas, inccubus, succubus – seu próximo destino, na verdade – e até mesmo, se conseguisse encontrar, as Bloowari e humanos.
Ofegou enquanto entrava em uma das florestas da região. Sabia, pelas histórias contadas em volta das fogueiras, que os jovens centauros passavam semanas naquela floresta meditando, combatendo e aprendendo sobre sua cultura. A ele, como um bruxo filho de Kahlan, fora permitida a entrada no acampamento deles desde que passasse pelo mesmo treinamento dos jovens centauros.
Quando conseguira achar a saída da floresta durante seu treinamento trouxeram coroas de louros e colocaram sobre sua cabeça e o declararam: 'Filho de Íxion ¹'. Ao lhes perguntar quem era Íxion os centauros responderam contando a história do pai dos centauros.
Depois disso conheceu mais do povo e da cultura centauriana. Conheceu os 'filhos de Quíron' que nada mais eram que centauros muito instruídos nas mais diversas artes. Alguns declamavam poesias que traziam lágrimas aos olhos de quem os ouvia, outros eram versados na arte da adivinhação e da astronomia e havia também os instrutores de guerra mais hábeis com quem ele teve o prazer de treinar.
Depois de um ano e meio de todos os tipos de treinamento, o líder dos centauros quis conhecer o estranho filho de Íxion que permanecia com seu povo. Na época ele ainda estava aprendendo a etiqueta dos centauros e isso o levara para onde estava agora: uma completa enrascada!
Mas ele era Alastor, o melhor dos guerreiros da Fênix mesmo antes de ter o treinamento dos filhos de Quíron, – e cinquenta centauros furiosos não poderiam ser um problema assim tão grande.
Ao menos era isso que ele esperava.
3913, Ilha Bloowari, 1 Semana Antes do Renascimento de Kahlan.
Um grito alto cortou o silêncio da noite acordando as Bloowari depois de um longo e exaustivo dia de treino. Madelayne ouviu o grito de seu quarto e levantou-se sobressaltada. Colocando um roupão verde oliva sobre a camisola longa que usava, encontrou as irmãs no corredor e as três princesas desceram as escadas correndo.
Alice já as esperava lá e fazendo uma reverência respeitosa para elas disse falando em seu comum tom sério e musical.
- Andrômeda está dando à luz.
Madelayne assentiu também séria e então olhando para Lily falou com uma voz suave e levemente reverencial.
- Traga Emmeline.
Lily saiu rapidamente para as áreas mais escondidas e menos utilizadas do castelo onde vivia com as irmãs e algumas outras Bloowari. Emmeline residia nos templos sagrados onde meditava e tinha suas visões do futuro. Fora Emmeline quem previra durante anos quando seria a morte de Kahlan e o que aconteceria durante as buscas pela Fênix. Porém depois da morte de Aurora, a Profetisa Bloowari se fechara tão dentro de si mesma que não mais tinha visões – ou pelo menos não as contava – e era raro vê-la fora dos templos sagrados.
Madelayne correu junto de Alice e Marlene para a cabana onde Andrômeda dava à luz. A vampira gritava de dor e apertava as mãos das parteiras até fazê-las sangrar. Os dentes incisivos apareciam e o suor escorria pelo rosto dela.
A líder das Bloowari tomou o lugar da vampira que mantinha as pernas de Andrômeda levantadas e observou ansiosa pela criança que logo seria sua.
- AAAAAAAAAAH! – Gritava Andrômeda erguendo o tronco como se isso pudesse aliviar sua dor. As vampiras tinham dificuldade em mantê-la parada e a vampira que tentava fazer Andrômeda dar à luz dizia para a morena empurrar e pressionava a barriga dela tentando fazer a criança nascer mais rapidamente.
Madelayne tinha seus lábios franzidos de preocupação conforme o tempo passava e nada da criança nascer. Andrômeda estava cada vez mais cansada e sua voz estava começando a ficar rouca pelos gritos. Lágrimas caiam do rosto da vampira enquanto ela empurrava tentando expulsar o bebê de seu corpo.
Quando Emmeline entrou, vestindo trajes brancos e puros, tudo pareceu se aquietar por vários segundos, e o silencio de repente era opressor. Os olhos castanho-esverdeados dela observaram com calma e quietude o ambiente.
Lentamente ela se aproximou de Andrômeda e colocou ambas as mãos sobre a cabeça da vampira, seus olhos se fecharam enquanto a Profetisa chamava a visão para descobrir o futuro de Andrômeda e da criança que ainda estava ligada ao corpo da vampira.
Com um suspiro longo a Emmeline abriu seus olhos e tomou o lugar da parteira se ajoelhando entre as pernas abertas de Andrômeda. Colocando com dificuldade uma das mãos sobre o ventre inchado da outra morena, Emmeline ordenou sua voz tilintando e parecendo cantar enquanto acalmava e aterrorizava as vampiras ali:
- Nasça, herdeiro das vampiras.
Andrômeda então gritou. Gritou alto, se contorcendo de dor e seus olhos reviraram enquanto seu corpo tremia. Madelayne olhou questionadora para Emmeline que simplesmente disse olhando ainda para a área onde o bebê sairia.
- Não deixem que ela se mova se querem a criança viva.
Madelayne então segurou Andrômeda pelos ombros não deixando a vampira fazer nenhum movimento. A morena gritava e tentava se debater enquanto Emmeline simplesmente esperava causando angustia e tensão entre todas as vampiras. A líder das Bloowari tinha suas duvidas e olhava para a companheira vampira com preocupação, mas simplesmente mantinha-se em silencio confiando em Emmeline.
- AHHHHHHHHHHHHH! – Andrômeda gritou novamente, um grito atormentado e cheio de dor.
Emmeline se levantou e empurrou com força a barriga de Andrômeda ajudando-a a dar assim à luz o bebê. Isso simplesmente fez a vampira gritar mais e os olhos de Emmeline se reviraram antes que ela os pudesse fechar e começar a falar com uma voz que não era a dela.
- O herdeiro das Bloowari come sua portadora traidora de dentro para fora assim evitando a desgraça e dor e a morte que ela traria para sua verdadeira mãe. O sangue pelo sangue é o que ele traz, a morte em seu nascimento carregará e o orgulho será seu nome do meio.
Madelayne olhou chocada para Andrômeda e perguntou afrontada:
- Você iria nos trair?
- Você será exatamente como Aurora no futuro! – Andrômeda ofegou enquanto falava as palavras com ódio. – Uma tirana maligna! Eu não queria esse futuro para nós de novo, alguém tinha que se livrar de você...
Os olhos verdes da líder das Bloowari pareciam cheios de ódio e ela disse friamente, a voz sibilando e amaldiçoando Andrômeda:
- Reze para morrer, Andrômeda, pois se isso não acontecer eu terei prazer em matá-la com minhas próprias mãos.
Emmeline ignorava tudo a sua volta enquanto terminava o transe em que se envolvera. Quando voltou a si, correu novamente para entre as pernas de Andrômeda com um esforço renovado para fazer a criança nascer.
Lily e Marlene estavam paradas em um canto mais afastado da cabana observando as reações das mulheres de lá, a expressão de ambas as irmãs se fechou ao perceberem no rosto de algumas que elas concordavam com as palavras de Andrômeda.
Segundos depois um choro alto e indignado rompeu a tensão. Emmeline cortou o cordão umbilical dele, o segurou com reverência e disse alto, a voz cantando de orgulho e esperança:
- Aqui está o herdeiro das Bloowari. O estimado filho de nossa líder. – Olhando para Madelayne a vampira fez uma leve curvatura enquanto segurava a criança e falou com um pequeno sorriso no belo rosto. – É um lindo menino Madelayne.
Os olhos de Madelayne brilharam com lágrimas contidas e ela se afastou de Andrômeda caminhando até Emmeline e observando o garotinho robusto todo sujo de sangue da placenta da mãe.
A líder das Bloowari observava seu filho com um absoluto e imediato amor e adoração. Os cabelos completamente negros dele encantavam a vampira e quando ele agarrou seu dedo e abriu lentamente os olhos uma única e solitária lágrima escorreu dos olhos de Madelayne enquanto o amor percorria seu corpo. Ela sabia, instintivamente, que nunca amaria uma criança como aquela que tinha em seus braços, que nunca amaria ninguém daquela maneira louca e instintiva.
- O nome dele será Mordred.
Lily e Marlene sorriram para o novo sobrinho e Emmeline ficou ao lado de sua líder. Segundos depois a voz de Madelayne era suave, mas ainda assim mortal.
- Todas que ouviram o que ela disse devem morrer.
Quando as vampiras entenderam o significado das palavras de Madelayne tentaram correr, mas Lily e Marlene mataram todas. Então Madelayne olhou para o corpo já sem vida de Andrômeda, a morena morrera segundos depois de terem cortado o cordão umbilical de Mordred.
- Deem um enterro digno para todas. Todas as honras conferidas à nossas irmãs.
Lily abriu a boca várias vezes e então cruzou os braços falando friamente enquanto olhava para o corpo de Andrômeda:
- Andrômeda não merece nem mesmo ser chamada de vampira, Lay e ainda assim quer dar um enterro digno a ela?
Madelayne olhou para a irmã e sorriu apaziguadora.
- Ela pode ter sido uma traidora, Lils, mas foi ela quem carregou e deu à luz o meu filho e por isso, somente por isso, ela merece um pouco de consideração.
Marlene suspirou e concordou segurando o ombro de Lily quando a ruiva tentou novamente falar algo.
- Iremos cuidar de tudo, Lay, leve nosso sobrinho para o castelo e deixe que cuidem dele.
Madelayne sorriu de novo e concordou e então, fazendo um sinal para Emmeline lhe seguir, saiu da cabana. Do lado de fora Alice esperava. Madelayne olhou para a chefe da guarda e disse enquanto ninava o bebê que ainda segurava seu dedo com força.
- Eu quero que Mordred tenha alguém o protegendo todo o tempo, ele nunca deve ser deixado desprotegido. Entendido, Alice? - A morena de cabelos curtos concordou.
Então de repente, contrariando completamente sua personalidade, a vampira perguntou ousada:
- O que devo fazer sobre o humano Frank Longbottom e a filhinha dele, Jackie? Eu ainda os tenho presos conforme ordenado, mas não vejo propósito nisso, mestra.
Madelayne suspirou e então disse claramente descartando a questão.
- Comece o treinamento para a menina poder ser iniciada como Bloowari. Se o humano Frank Longbottom der muito trabalho sobre isso mate-o.
Alice pareceu incomodada com a ordem de Madelayne e tentou argumentar com a líder querendo, de uma maneira estranha e completamente irracional, defender Frank Longbottom e sua filha.
- Mestra... Tem certeza sobre seus planos?
Madelayne olhou para Alice e perguntou de maneira impaciente:
- A garota tem algum tipo de problema que impeça o treinamento?
- Não...
- É mentalmente incapaz de compreender ordens?
- Não, mas...
- Não existe 'mas' Alice! Sabe que nosso número diminui cada vez mais. Antes era apenas um numero seleto e tremendamente recluso de humanas que tinham a chance de ser uma de nós. Essa garotinha deveria ser agradecida por isso.
Alice se curvou e disse em voz baixa e resignada.
- Sim, mestra.
Madelayne suspirou e colocou a mão sobre o ombro da morena.
- Eu libertaria a garota se pudesse Alice, mas cada dia nosso numero diminui mais e mais, precisamos dela se quisermos sobreviver.
- Eu compreendo. – Alice falou, mas ainda assim sentia-se mal pela garotinha.
Frank andava de um lado para o outro enquanto Jackie estava sentada no chão desenhando serenamente, como se fosse alheia ao que acontecia à sua volta, quando a deslumbrante vampira, Alice, entrou.
O humano sentiu seu coração bater forte, mas ignorou e perguntou rapidamente:
- O que ela disse?
Alice ficou tensa e respondeu a contragosto:
- Ela não desistirá de ter a Jackie, Frank. – O humano fechou os punhos com força e então falou entre dentes.
- Eu irei matá-la.
Os olhos de Alice arderam e a vampira disse furiosa, porque por mais que fosse empática à situação de Frank nunca permitiria uma traição dessas, afinal Madelayne era sua líder e era uma boa líder, sempre justa e completamente diferente de Aurora.
- Eu o mataria antes que pudesse tentar.
Frank olhou magoado para a vampira e se aproximou dela tocando o rosto de porcelana da morena cheio de tristeza e resignação, porque por mais que tivesse sentimentos fortes por Alice sempre colocaria sua linda e doce Jacqueline antes de qualquer um.
- Você conseguiria me matar? – Alice desviou o olhar, mas disse decidida e firme, no tom que usava durante os treinos com as vampiras:
- Se fosse preciso, sim. – Então ela o encarou com seus grandes olhos prateados. – Não é tão ruim quanto você imagina ser uma Bloowari, Frank. A verdade é que existem muitas coisas boas nisso. A força, a imortalidade, a velocidade, a visão, nunca adoecer... Tudo isso são pontos a favor.
Frank sorriu sem humor e então falou o que ambos sabiam ser verdade, a verdade mais cruel sobre as Bloowari.
- E o fato de que mesmo 'imortais' vocês nunca sobrevivem durante muito tempo? Que nunca são realmente felizes? Que estão presas à Fênix para o resto da existência de vocês?
- Algumas de nós são, sim, felizes. – Alice retrucou de maneira não convincente. Fazia tantos anos que não se ouvia sobre isso... Sobre uma Bloowari verdadeiramente feliz.
- Sua amada líder é a mais miserável e solitária de vocês. – Frank retrucou imediatamente, o rosto vermelho enquanto jogava na cara de Alice a realidade.
- A vida de Madelayne e seu estado de espírito só dizem respeito a ela. – A morena respondeu furiosa, os olhos calmos rapidamente se incendiando.
A verdade era que Alice era a chefe da guarda por dois motivos: era terrivelmente leal quando acreditava em algo e – depois de Madelayne - era a melhor guerreira Bloowari, conhecendo pelo menos cinquenta formas diferentes de matar ou incapacitar pessoas. Mas apesar de sua natureza sempre leal e letal, a morena tinha muita paciência e era incrivelmente doce.
- Você sabe que é verdade, Lice, não adianta negar. Esse é o destino das Bloowari: serem sempre sozinhas e infelizes. A vida de vocês não é longa, não é plena... Vocês odeiam os humanos, mas nós, nós simplesmente temos pena de vocês.
Alice o encarou afrontada, furiosa e, ainda assim, resignada. Mas sem uma palavra, de aceitação ou negação, a chefe da guarda das Bloowari saiu. Jackie finalmente levantou seu rostinho redondo e de bochechas avermelhadas para o pai e perguntou com os cachinhos dourados caindo por seus olhos claros:
- Onde a titia Lice foi papai?
Frank suspirou e se aproximou da filha abraçando-a com força.
- Se esconder da verdade querida.
3010, Jaula dos Gladiadores.
A Jaula, como comumente era chamada, era uma pequena cidade onde lutadores e mercenários ganhavam a vida com lutas, apostas ou 'prestando serviços' de assassinato, seqüestro e contrabando das mais difíceis e estranhas coisas.
Alastor ainda se lembrava de quando chegara à cidade, entrara no 'Cabeça de Javali', um dos 'melhores' bares da cidade e imediatamente percebera como o local funcionava: lá o vinho, a comida e os quartos eram pagos com lutas ganhas em nome do dono do estabelecimento: Aberforth.
E fora assim que se enrascara nessa luta. Era uma jaula gigantesca de fato, que ficava no meio da cidade com grandes e velhas arquibancadas rodeando todo o local. Pessoas gritavam, xingavam e faziam apostas nele e em seu oponente. Para se manter vivo, Alastor sabia que não podia perder.
Até agora não perdera nenhuma luta apesar de ter ganhado um grande leque de cicatrizes que não tinha antes. Várias – nos tornozelos e nas coxas - ganhara dos centauros, dos quais escapara por pouco. As dos braços, mãos e pescoço foram todas na jaula de luta.
Estava ali, por volta de um ano, mas já percebia que estava se acostumando com a violência constante do mundo humano. Não diria, é claro, que sua família e outras raças eram pacíficas, mas somente os humanos tinham tal prazer com a dor e a miséria de seus iguais.
Na Jaula, era absurdamente comum ver homens estuprando mulheres nas ruas, ou batendo em crianças. Alastor achava tudo isso bárbaro, principalmente tendo sido criado em um local onde crianças eram sagradas e muito importantes. Onde a própria vida era inestimável.
Ali, religião, cultura e crenças eram somente uma: apenas os mais fortes sobrevivem.
Alastor não sabia ao certo porque continuava ali, ou talvez soubesse e quisesse simplesmente negar. Não queria admitir que cometera a fraqueza – ou talvez a burrice – de se apaixonar por uma humana, uma simples humana.
Mas se fosse sincero consigo mesmo e com ela, admitiria que Mary era diferente de todas as mulheres que conhecera: bruxas, centauros, fadas, succubus. Existia algo puro dentro dela, uma natureza completamente boa que Alastor nunca encontrara antes, e isso era ainda mais surpreendente vendo que ela crescera na Jaula.
Na verdade, a morena era uma prostituta, o que surpreendia ainda mais por ela manter aquela aura bucólica e resplandecente. Quase como se ela fosse intocada – apesar de Alastor saber por experiência própria que isso era impossível.
- Onde está sua mente? – A voz suave, e ainda assim sedutora, fez o moreno retornar para o momento presente.
Alastor sorriu de lado e beijou sua acompanhante, acariciando o rosto dela ao mesmo tempo. Mary era morena, provavelmente descendente de espanhóis, com grandes olhos castanhos cor de chocolate e cabelos ondulados sedosos e negros.
- Estava pensando em você. – Respondeu e a viu rir e apoiar-se em seu peito.
- Mentiroso. Estava pensando na sua casa de novo? – A morena perguntou parecendo preocupada com ele. Alastor suspirou e continuou mexendo nos cabelos dela.
- Você iria amar lá... Existem muitas árvores e o acampamento tem um tipo de mágica parecida com a que protege Avalon. Apesar de nós nunca nos movermos o acampamento nunca permanece no mesmo local. É sempre cheio de calor e risadas... Um verdadeiro lar.
Mary olhou com preocupação para Alastor e acariciou uma das contusões do rosto do moreno.
- Você deveria voltar pra lá. Parece realmente um ótimo lugar para se viver.
Alastor virou seu corpo de modo ficar sobre o dela e falou olhando intensamente para o rosto da morena, cheio de carinho e amor.
- Você iria comigo, Mary? Deixaria esse lugar horrível para viver comigo, meus irmãos e Kahlan? – A voz dele era ansiosa em sua quase súplica.
- Alastor... – A morena começou, mas ele logo a interrompeu perguntando urgente, afrontado e magoado.
- O que lhe prende aqui, Mary? O quê?
Os olhos escuros dela estavam cheios de lágrimas e ela falou em um tom não mais alto que um sussurro.
- Esse lugar pode ser horrível Alastor, mas é onde eu nasci e onde eu vivi... – então ela acariciou o rosto dele e disse em um tom brando. – É onde tenho minhas melhores lembranças.
Ele se afastou dela, completamente magoado.
- Isso não responde minha pergunta.
- Eu não quero magoá-lo. – A morena retrucou.
Alastor riu amargo e disse olhando para a janela:
- Está meio tarde para isso, Mary.
A prostituta suspirou e secou a lágrima que escapara de seus olhos escuros. Instintivamente ela sabia que nunca encontraria outro homem como Alastor, alguém tão bom, tão certo, tão cheio de honra e coragem. Alguém milhões de vezes melhor que ela e que ela certamente não merecia...
E para evitar que ele caísse na desgraça de levá-la junto e acabar se arrependendo, a morena desferiu o golpe que sabia que Alastor nunca poderia perdoar: traição.
- Eu amo outro homem.
O corpo de Alastor ficou frio e ele se afastou dela, seus olhos endureceram enquanto as palavras daquela para quem entregara seu coração penetraram em seu cérebro. Uma dor aguda e latejante varreu seu peito, mas como um guerreiro treinado ele a ignorou. E então uma lembrança, de quando era criança, o percorreu.
Kahlan estava sentada sob o sol trançando seus longos cabelos castanhos claros, quase louros. Alastor se aproximou dela quietamente e a bruxa lhe sorriu fazendo um gesto para que ele se sentasse ao seu lado.
Alastor era uma criança magricela e, na verdade, muito doente. Sempre precisando de cuidados constantes era o filho mais próximo de Kahlan e mais protegido por seus irmãos mais velhos: Charlus e Merrick.
Assim que se sentou ao lado da mãe, sorriu tímido e lhe estendeu uma margarida. Era uma flor solitária e simples, um pouco torta pela pressão que os dedos dele haviam feito anteriormente, mas Kahlan sorriu como se fosse o mais precioso tesouro e a colocou sobre seu cabelo, enfeitando-o.
- Obrigada, Alastor. – A voz de Kahlan era poderosa como sempre, mas naquele momento trazia uma doçura rara, mostrando por poucos momentos o quanto aquele presente simples dado por seu mais jovem filho emocionara a Fênix.
- Um dia encontrarei uma mulher como você mamãe? – O garoto perguntou inocentemente enquanto Kahlan brincava com seus cabelos. Os dedos dela pararam o carinho por alguns segundos e ela logo disse, parecendo suave, mas ainda assim séria e solene.
- Um dia, meu querido, encontrará aquela que amará... Mas ela irá partir seu coração e quebrar uma parte de sua alma. – Olhando dentro dos olhos dele, ela falou em um tom triste, doce e ainda assim solene. – Não se entregue ao amor, Alastor, ele é um veneno e irá matá-lo se conseguir.
Riu sarcástico fazendo Mary o olhar assustada e então disse friamente enquanto se levanta e se vestia:
- Minha mãe tinha razão no final das contas. – Olhou cheio de repugnância para a morena deitada na cama. – A mulher que eu amo iria quebrar meu coração e partir minha alma. Parabéns Mary, você é essa mulher.
O moreno terminou de se vestir rapidamente e saiu do quarto. Quando ele bateu a porta Mary deixou seu rosto cair no travesseiro e as lágrimas verterem. Tristeza, arrependimento e dor percorreram seu corpo. Alastor alegava que ela lhe partira o coração e quebrara a alma, talvez estivesse certo... Mas o que ele não sabia era que fizera o mesmo consigo.
3015, Antiga Cidade de Albuquerque.
- Outra rodada!
O barman olhou suspirando para o homem com várias cicatrizes espalhadas pelo corpo – alto, musculoso e claramente forte – e entregou outra bebida, calculando mentalmente em quanto tempo ele conseguiria arranjar confusão ali.
Logo previu que não iria demorar nada ao ver dois tipos tão grandes e musculosos quanto ele se aproximarem do homem. Bufou impaciente não querendo ter que reconstruir seu bar pela décima vez aquela semana.
- Se forem arranjar confusão, já para fora! – Disse imediatamente quando os dois tipos se sentaram um de cada lado do homem das cicatrizes.
Um sorriso sarcástico apareceu no rosto do Cicatriz, como o barman resolvera chamá-lo, e ele pegou uma maçã a cortando metodicamente com uma afiada adaga. Os outros dois homens sorriram um pouco e o barman imediatamente previu que seria ignorado e começou a pegar as bebidas mais caras e difíceis de conseguir escondendo-as em um local seguro.
- Uma vez um grande homem disse que queria conhecer os costumes de algumas raças e que voltaria para casa logo. – Um dos homens disse, a voz dele era rouca e agradável. O barman se viu inclinando-se para ouvir melhor o que ele dizia.
- Mas se passaram mais de 30 anos e o desgraçado nunca voltou! – O outro homem disse, batendo seu copo contra o balcão. A voz deste, ao contrário da do outro homem, era rude e prática. Forte e rústica. Do tipo que assustaria qualquer um.
O homem da voz pacifica bebeu um pouco do whisky que pedira e então inclinando a cabeça para o lado falou com sua voz hipnotizante:
- O que você faria com tal homem, companheiro? – Claramente o Hipnotizador falava com o Cicatriz e o barman imediatamente previu a briga que daria, mas o homem da cicatriz se limitou a rir roucamente e falando em uma voz que misturava perfeitamente suavidade e rudez, disse:
- Eu daria uma surra em quem foi burro o bastante para segui-lo.
O homem da voz rude riu e então bateu nas costas do Cicatriz o que fez o barman ficar tenso e fechar os olhos visualizando cadeiras quebradas e copos fazendo barulho enquanto iam de encontro ao chão.
- Ainda bem que somos dois e maiores que você, Alastor. – A voz alta dele parecia fazer paredes tremerem, ou pelo menos era essa a impressão do barman.
- Como se você fosse páreo para mim, Merrick. – o Cicatriz, ou Alastor, retrucou imediatamente. O da voz hipnotizante pareceu rir discretamente.
- Vai apostar em quem? – O barman o ouviu perguntar e demorou vários segundos para perceber que o Hipnotizador falava consigo, então hesitante observou ambos os homens e disse.
- Acredito que no Cicatriz... Digo, Alastor? – Falou o final em tom de pergunta, sem saber como chamar o homem.
- Alastor. – o Hipnotizador confirmou, então estendeu a mão e disse sorrindo gentil. – Eu sou Charlus, a propósito, e aquele mal encarado é o Merrick. Somos todos irmãos.
- Pode dizer pra eles não destruírem meu bar? – Perguntou o barman hesitante. – E eu sou Eric. – acrescentou percebendo que não dissera seu nome.
Charlus pareceu pesaroso e disse parecendo realmente sentir muito.
- Eu não posso garantir, Eric, mas prometo que pagaremos os danos ou arrumando isso aqui, ou em dinheiro.
Alastor e Merrick pareciam se encarar longamente então Merrick se virou e cuspiu no chão em frente aos pés de Alastor, o moreno estreitou os olhos e então disse de maneira lenta, desaforada e baixa.
- Isso, para alguns povos é uma ofensa terrível.
- O que vai fazer a respeito? – Merrick retrucou imediatamente, sorrindo em antecipação. As mãos grandes já se fechando em punhos.
- Isso. – E então o punho de Alastor acertou em cheio o rosto de Merrick, que no mesmo segundo devolveu o soco acertando o estomago de Alastor.
Logo o pandemônio começou. Alastor e Merrick eram quase da mesma altura – Merrick sendo poucos centímetros mais alto – e tinham o mesmo tipo físico forte. Socos e chutes eram dados descuidadamente por ambos os irmãos e eles quebravam cadeiras, mesas e copos.
Exatamente como Eric previra, o que fez o barman se desesperar cada vez mais. Porém Charlus, o Hipnotizador, parecia extremamente calmo.
- Eles vão destruir meu bar completamente! – Exclamou o humano, desesperado. Charlus riu e se levantou, os movimentos fluidos e elegantes.
Parando perto dos dois irmãos ele pensou um pouco e logo conjurou com um movimento elegante de sua mão um balde cheio de água gelada. Eric no bar torcia as mãos, preocupado e impaciente. Charlus sorriu de lado e então jogou a água gelada nos irmãos.
- Charlus! – Ambos berraram se virando furiosos na direção do outro.
- Vamos, consertem o que quebraram. – Charlus retrucou indo novamente para o lado de Eric e bebendo um pouco mais de seu whisky.
Resmungando e chutando um ao outro periodicamente, Alastor e Merrick arrumaram todo o bar.
Então Merrick puxou a espada longa e de duas laminas que Alastor vinha usando desde que perdera seus pertences com os centauros e um barulho de desgosto saiu de seus lábios enquanto ele examinava a lamina e o trabalho dela.
- Depois de usar minhas armas como tem coragem de chamar isso de espada? – Perguntou ele com sua voz rude claramente mostrando sua indignação.
Alastor deu de ombros e então disse irônico:
- Você não esperava que eu voltasse para casa simplesmente para conseguir outra espada, esperava?
- Isso era exatamente o que eu esperava. – Merrick retrucou, mas se calou quando Charlus colocou a mão em seu braço e disse tranquilizador:
- Paz, irmãos. Já destruíram esse lugar o suficiente. – Então sorriu para Alastor. – Então maninho, o que andou aprontando para perder uma arma tão preciosa quanto a espada que Merrick lhe deu?
Alastor sorriu e seus olhos brilharam.
- Arranjei encrenca com centauros. – Falou animadamente, sentindo-se novamente o garotinho mirrado e doente que fazia de tudo para impressionar os irmãos mais velhos.
Merrick riu orgulhoso do irmão e bateu nas costas de Alastor com uma força que dobraria ao meio um homem normal, mas para o bruxo nada aconteceu realmente.
- Vejo que continua com seu talento de ofender qualquer um que passe por seu caminho, Alastor. – O moreno deu de ombros, mas sorriu de lado.
- Eu simplesmente comparei o casco do líder deles com o do meu cavalo!
Isso fez com que Merrick e Charlus caíssem na gargalhada, rindo tanto que lagrimas escapavam por seus olhos. Pelo resto da noite os três irmãos beberam, conversaram e por fim Charlus conseguiu convencer Alastor á voltar para casa – com Merrick ameaçando quebrar todos os ossos de Alastor caso ele negasse. A única coisa agora que perturbava o filho da Fênix era a perda de Mary, que depois de todo aquele tempo ainda queimava e doía em seu peito.
E ele sabia que sempre iria doer.
3914, Algum Lugar do Mundo.
Kahlan soltou um silencioso grito final, seu processo de renascimento finalmente completo. As lembranças, todas elas, saltando ante seus olhos e queimando-os literalmente. Sangue escorreu dos olhos da poderosa Fênix enquanto ela continuava com seus lábios abertos em um grito mudo.
No que pareceram horas depois os pulmões de Kahlan pararam completamente de funcionar, o fígado, o estomago, tudo o mais queimava de dentro para fora dando uma agonia mortal à bruxa. Seu coração parecia ser o único que se negava a se render ante a iminente morte, batendo cada vez mais rápido.
Os olhos dela eram somente suas poças de sangue agora, e mais sangue escorria pelo nariz, ouvido e boca da Fênix.
Por fim, a agonia de Kahlan terminou e seu coração parou completamente de bater. Por vários segundos nada aconteceu, mas no instante seguindo o corpo de bruxa ardeu em chamas, queimando com um fogo tão vermelho quanto os olhos dela outrora.
Ardia e queimava toda a cabana, queimava toda a memória do que ela fora, o poder pulsava e consumia o lugar alimentando o fogo.
Naquela noite de Ano Novo, uma criança em algum lugar do mundo chorava indignada por ter sido colocada no mundo, naquela noite Kahlan renascia no corpo de sua nova hospedeira.
A missão das Bloowari e dos filhos da Fênix finalmente começara. E estava mais difícil do que nunca.
3914, Ilha Bloowari.
Uma lágrima solitária escapou dos olhos de Madelayne enquanto sentia que Kahlan finalmente conseguira renascer e encontrar sua hospedeira. A vampira tocou seu peito e sussurrou uma antiga cantiga, pegou Mordred no colo e ninou o filho sentindo a dor em seu peito.
Agora era decisivo, era necessário e obrigatório. Agora teria que deixar Meldrem e ele voltava a ser seu inimigo. Se o encontrasse sabia que não deveria hesitar, sabia que deveria matá-lo. E isso, essa consciência, trazia uma dor ainda maior dentro de seu peito.
Mas como sempre fora ensinada a fazer, a vampira engoliu sua dor e pousou com cuidado o bebê na gigantesca cama de seu quarto. Trocou rapidamente suas roupas tirando o vestido branco puro que usava e vestindo uma roupa de luta e caça: Um vestido de tecido preto e resistente com uma armadura banhada em chifre de unicórnio e magia. Armou-se pegando adagas, chicotes, espadas, um escudo e todo o tipo de armamento.
Sabia que suas irmãs, Alice e Emmeline deviam estar se arrumando para a batalha também. Por fim, Madelayne fechou seus olhos deixando outra lágrima escapar e colocou uma coroa completamente negra contra seus cabelos dourado-prateados.
A coroa da líder das Bloowari, a coroa que antigamente pertencera a Aurora.
Não era uma coroa como as de antigamente, que rainhas usavam, era uma relativamente simples. Mais parecida com uma coroa de louros, só que de algum material completamente resistente e negro, com pequenas pedras de rubi e safiras com detalhes.
- Madelayne? – A loira ouviu a voz de Alice e se virou para sua chefe da guarda que se vestia da mesma forma que ela, assim como Lily e Marlene.
Emmeline entrou no quarto por fim, mas, diferente das demais, a Profetisa trazia consigo apenas um pequeno cinto com duas adagas e alguns vidrinhos. Usava um vestido também negro, mas de tecido leve e fluído que parecia dançar em volta da morena a cada movimento que ela fazia.
- Estou pronta. – a líder das Bloowari disse, o rosto novamente composto e frio. Aproximando-se do filho, Madelayne deu um beijo suave na cabecinha dele e acariciou o rosto gorducho do bebê. – Vamos.
Nenhuma delas disse mais nenhuma palavra, simplesmente se afastaram e foram em direção ao destino, aquilo para que foram treinadas durante toda a vida. Encontrar e proteger a nova hospedeira da Fênix.
Ao amanhecer elas sabiam que encontrariam os filhos de Kahlan. Ao amanhecer a missão que poderia matá-las começava. Agora era tarde demais para desistir, se elas algum dia houvessem tido essa opção.
¹ Íxion, segundo as lendas gregas, é um humano que depois de ter sido enganado por Zeus ao tentar dormir com Hera e na verdade dormir com Néfele (uma nuvem com a semelhança da deusa) criou os centauros dessa união.
N/A: Oii! Hoje, enquanto via o capítulo que ia postar eu fiquei completamente surpresa de ver que ainda estamos no 11! Estou no momento escrevendo o 15, já estou na metade dele pra ser sincera /hm01 Mas como tenho repetido pra tooodo mundo ele me deixa meio depressiva, afinal, capítulo 15 é literalmente o meio da fic! Significa também que só faltam mais 15 capítulos para acabar a primeira fic! Eu estou me controlando aqui pra não começar a soltar spoilers que nem doida! Quem me conhece sabe que tenho esse terrível problema, shausauhsau Bem, só pra avisar estou indo postar outro outakke hoje, o da Alisa! Ele fica como presente de aniversário, viu Mummys? *pisca*
Nota da beta: Bem, hoje eu precisava compartilhar com vocês, leitores, minha euforia: Uhulll KAHLAN MORREU! Aleluiaaaaaaaa! \o/ \o/ \o/ Tudo bem que foi forte e triste a morte da bruxa e ela vai e outros problemas vêm, mas me contento porque entendo que nem tudo é perfeito... *dá de ombros* =D
Reposta das Reviews
Mariana E. Potter - Nã, nã, não... No outakke nem mesmo você deixou review! sahsasuahsua *pisca* Mas ainda tem chance de fazer, é só ir no perfil e deixar lá o/
Luci E. Potter - Mummys! *abraça e sorri como se não estivesse falando com a Mummys desde cedo* Já disse que ri muito com sua comemoração da morte da Kahlan? HUSAUHAHUSAHUSA Eu ri demais, lendo ela! Sim, o pai da Kahlan era um lixo humano! Alguma parcela das ações dela são realmente culpa dele, mas não todas. Eu nunca sonharia em passar a mão na cabeça da bruxa mais poderosa de todos os tempos, ela ficou arrogante com o tempo e o poder... E como tio Dumbie vai mostrar, imprudente por mexer com coisas que não deveria! E olha eu soltando spoilers de novo -' Tenho que me controlar! Bem, Kahlan é acostumada a ter tudo, eu ainda estou preparando um outakke dela e do Dumbie pra explicar melhor a relação deles... Mas por enquanto quero me concentrar no da Alice que comecei eras atrás e nunca terminei... E sim, Kahlan se vinga a altura dele, se uma coisa podemos dizer dela, é que ela sempre se vinga ^^ Meldrem sempre é fofo se envolve a Maddy! E logo-logo quando envolver algumas outras pessoas, mas isso é spoiler... E é melhor eu ir antes de sair contando tudo por aqui! Beeijos Mummys, amo você.
