O que há no céu de Buenos Aires?
Em um restaurante renomado de Puerto Madero. Buenos Aires, Argentina.
Comer, dançar, e amar... Estes eram os três verbos favoritos de Elizabeth, que apreciava bastante os prazeres da vida. Sentada sozinha numa mesa bem posta, ela flertava com um tipo muy guapo enquanto esperava pelo seu jantar. Não demorou e o garçom chegou com uma suculenta picanha mal passada, a qual estava acompanhada por salada fresca e deliciosas batatas douradas.
_Alguma sugestão de vinho? – ela perguntou ao sommelière, o responsável pela carta de vinhos.
_Nós temos uma grande variedade em nossa adega, señorita. No entanto, para acompanhar este prato eu sugiro...
A atenção de Liz mudou de foco assim que Shaka de Virgem adentrou no restaurante. Ela o reconheceu imediatamente, pois se lembrou do dia em que tentou ensinar tango a ele.
_Esse pedante abusado de novo? – perguntou-se baixinho.
_Disse alguma coisa, señorita?
_Nada. Eu não disse nada. Traga-me apenas um bom vinho, por favor. Mas faça isso rápido, antes que eu perca o meu apetite.
Liz mirou o cavaleiro de ouro, que, apesar dos olhos fechados, caminhava como se enxergasse cada objeto ou pessoa do lugar.
_Por acaso ele está me seguindo ou algo assim? – Liz se perguntou e provou da carne em seu prato, a qual estava deliciosa. Decidida a ignorar Shaka, ela concentrou-se na música do ambiente e decidiu ter um jantar agradável.
No entanto...
_A busca incessante pelos prazeres carnais diz muito sobre alguém.
A Musa da Dança fingiu não ouvir o comentário. Ainda assim, o cavaleiro de Virgem seguiu falando:
_Audição, tato, olfato, visão... Paladar – Shaka lançou um "olhar" de desprezo ao suculento pedaço de carne no prato de Liz. – Se você vive apenas para sentir aquilo que é finito, algo que é perceptível apenas pelos cinco sentidos, acabará se tornando alguém volúvel e sem significado profundo.
Liz pousou os talheres no prato, tentando manter a sua sensual compostura. Em seguida, ela perguntou com um tom de voz mordaz:
_Você está tentando iniciar uma conversa comigo? Se estiver, a minha audição me diz que você é profundamente chato.
Shaka não se deixou afetar pelo comentário, mas resolveu ser mais incisivo:
_A minha missão é...
De repente, gritos assustados foram ouvidos tanto fora como dentro do restaurante. O céu noturno adotou uma coloração vermelha, e dezenas de grifos começaram a sobrevoar Puerto Madero. Um deles guinchou como uma águia e bateu as asas com força, quebrando as janelas mais próximas. O pânico, então, se instaurou. Pessoas começaram a correr de um lado para o outro, completamente aterrorizadas.
_O que está acontecendo? – perguntou Liz, um tanto temerosa.
_Nada – respondeu Shaka, que permanecia impassível e de olhos fechados.
_Nada?!
_Tudo é apenas uma ilusão. Algo feito para enganar os sentidos.
Um grifo invadiu o restaurante. O corpo avantajado de leão e as longas asas de águia tomaram boa parte do lugar.
_Quer dizer que isso aí é uma ilusão?! – Liz apontou e deu vários passos para trás.
_Observe – Shaka disse e caminhou até o grifo.
_Você é algum tipo de lunático? Esse monstro vai te engolir!
O cavaleiro de Virgem meneou a cabeça numa censura ao temor da Musa. Depois, estendeu uma das mãos e tocou no grifo, que desapareceu imediatamente.
_Vê? Não há nada aqui, tampouco lá fora. Tudo não passa de uma ilusão caótica muito bem arquitetada para enganar e causar pânico.
_Quem é você? – Elizabeth perguntou.
_Sou Shaka de Virgem, um dos cavaleiros de ouro da deusa Athena. E você é Terpsícore, a Musa da Dança.
Casa da Mai. Canberra, Austrália.
Na sala, um antigo vinil de Aretha Franklin tocava numa vitrola. Enquanto isso, Mai observava-se no espelho e dizia:
_Ficar menos feia não deve ser tão difícil. Será que eu tenho jeito?
O cachorro King observava a sua dona com atenção, balançando o rabo como se quisesse incentivá-la a se arrumar mais.
_Está bem, está bem. Eu vou tentar, mas se eu não ficar bem, não minta para mim.
O bernês latiu como se concordasse. Mai, então, olhou para a maquiagem que tinha comprado no dia anterior e disse:
_Não deve ser tão difícil usar batom, lápis, sombra, rímel , blush, corretivo, base, pó compacto... – tentou se convencer. - Afinal, mulheres de várias culturas usam pinturas e maquiagem desde a Antiguidade.
O cachorro sentou ao lado da penteadeira antiga, atento aos movimentos inseguros da sua dona, que tirou os óculos para iniciar a transformação. Ela dependia tanto deles para enxergar que...
_Ah! Estou cega!
Dohko chegou à casa de Mai neste mesmo instante. Ao ouvir o grito dela, ele parou diante da porta e se perguntou:
_Está tudo bem por aqui? – adotou uma postura combativa, mas não captou nenhum perigo.
Dentro da casa, porém...
Após passar pó compacto e blush em excesso, Mai aventurou-se com um rímel na mão. Sem enxergar direito, ela acabou acertando o próprio olho em vez dos cílios:
_Ai!
Levantando-se de uma vez, ela acabou batendo o rosto no espelho. A maquiagem caiu no chão, assim como os óculos dela.
_Isso não está dando muito certo – ela disse e deu um passo para trás. Acabou esbarrando uma pilha de livros de História e foi ao chão num estrondo o qual assustou o cavaleiro de ouro de Libra, que ainda permanecia no lado de fora da casa.
_Mai? – ele chamou e tentou abrir a porta, mas esta estava trancada. – Será que está tudo bem? Acho melhor verificar.
Dohko deu a volta e encontrou a janela do quarto da Musa, que dizia ao tentar se erguer do chão:
_Não tem jeito, King. Eu sou somente uma traça de biblioteca, portanto, a beleza não é para mim.
O cachorro latiu, discordando. Mai, por sua vez, começou a tatear o chão em busca do par de óculos.
_O Dohko está para chegar e eu estou aqui... Cega e provavelmente tão bem maquiada quanto um palhaço de circo. Oh... Eu gostaria de convidá-lo para o Ballon Spectacular, mas acho que isso não passa de uma ideia absurda da minha parte. Alguém como ele não aceitaria um convite de alguém como eu. Não concorda comigo, King?
O cachorro estava agora em pé na janela, balançando o rabo para Dohko, que ouvira do lado de fora as palavras de Mai.
_King? – ela chamou e seguiu procurando pelos óculos.
O cavaleiro pediu silêncio ao cachorro bernês com um gesto, e voltou para a entrada da casa.
_O que é Ballon Spectacular? – ele se perguntou e tocou a campanhinha.
No quarto, Mai encontrou os óculos e correu. Ela quase tropeçou novamente, e, ao chegar à sala, desligou a vitrola antiga.
_Boa tarde, Dohko – abriu a porta.
_Boa tarde para você também, Mai – ele disse e tentou ignorar a "maquiagem" dela.
_Entre e fi-fique à vontade.
_Obrigado. Eu trouxe biscoitos para o chá.
_Que gentileza... Obrigada.
Mai foi até a cozinha e tirou um bule antigo do armário. Após preparar o chá, ela voltou à sala.
_Sobre o que conversa-saremos hoje? – ela perguntou, demonstrando-se menos tímida do que na primeira vez em que se viram.
_Sobre Mitologia Grega.
_Oh... Eu adoro!
Mai empolgou-se tanto que quase derrubou a bandeja com o chá fumegante. Porém, Dohko agiu rápido e evitou o desastre.
_Eu sou muito desengonçada...
O cavaleiro deu um sorriso gentil e pôs-se a servir o chá.
_Você sabe algo sobre as Musas? – ele perguntou como quem não quer nada.
Mai sequer precisou pensar antes de responder:
_Após derrotar os Titãs, Zeus permaneceu com Mnemósine durante nove noites seguidas. Depois, as Musas nasceram para livrar os fatos do passado do mundo do Esquecimento. Sem a Memória e as Musas, a origem de tudo e a vitória do Olimpo ficariam esquecidas como se as coisas nunca tivessem saído do Caos e se ordenado da forma como deveria ser.
Dohko assentiu e tomou um pouco de chá antes de falar:
_O Esquecimento descende da Noite, e a noite vem do Caos. A Memória e as Musas, então, asseguram a Ordem, o ser das coisas.
_Isso mesmo – Mai mordeu timidamente um biscoito. – Eu tenho até uma Musa favorita.
_Mesmo? Qual?
_Clio, a Musa da História. Segundo a mitologia, ela proclamava os heroísmos, guardava os acontecimentos históricos, e introduziu a escrita na Grécia.
O cavaleiro sorriu ao ver que Mai falava orgulhosamente de si mesma, ainda que ela não desconfiasse disso. Tentando encontrar uma forma de lembrá-la da sua natureza divina, ele sugeriu:
_E se a mitologia fosse verdade? Você não imagina como seria o mundo repleto de deuses e heróis mitológicos?
Mai tentou se esconder atrás da xícara em suas mãos. Após pensar um pouco, ela respondeu:
_Acho que tudo seria uma loucura sem fim. Os deuses gregos possuem rivalidades tontas e são... São muito complicados.
O antigo Mestre Ancião riu, afinal, tinha que concordar:
_Você tem razão, Mai. Mas... E se você fosse a Musa da História?
_Eu?
_Sim, você.
_Eu sou desastrada e descoordenada demais para ser uma deusa. Olhe só para mim, Dohko... Acha mesmo que eu poderia ser uma das filhas de Zeus e Mnemósine?
O tom de voz de Mai carregava um pouco de tristeza. Ao perceber isto, o cavaleiro de Libra considerou que ela não estava pronta para a verdade e resolveu mudar de assunto:
_O que é Ballon Spectacular?
Os olhos de Mai brilharam com a pergunta, e ela respondeu:
_É um festival que acontece todos os anos aqui em Canberra. Balões de ar quente sobem aos céus e é um evento muito bonito!
_Balões de ar quente?
_Sim! Dos mais variados tipos, tamanhos e cores!
Era impossível não se enternecer perto da empolgação de Mai. Sendo assim, Dohko perguntou:
_Eu sou novo na cidade. Você não gostaria de me acompanhar a esse festival?
_Eu?
_Sim.
_Ótimo. Eu fico grato por você ser assim, tão prestativa.
_Eu que agradeço – Mai se derreteu.
_Agora eu devo ir – o cavaleiro disse e se despediu com uma aceno.
Quando ele se foi, Mai deu um suspiro e falou:
_Se o Dohko for um sonho, eu não quero acordar nunca mais!
Apartamento de Catarina. Brasília, Brasil.
Catarina mexeu nos cabelos encaracolados e fitou Aioria por alguns instantes. Percebendo a impaciência dele, ela perguntou:
_Está com pressa?
_Um deus primordial ameaça corromper a Ordem do universo. Você não acha que eu tenho motivos para me apressar? – ele passou a tamborilar os dedos na mesa, afobado.
Catarina rebateu:
_Um bonitão me salva duas vezes em circunstâncias estranhas e diz que eu sou filha de um deus grego. Você acha que eu já tenho motivos suficientes para segui-lo?
Aioria não contestou a pergunta. Ele estava ansioso para cumprir a sua missão, mas deveria compreender o lado de Catarina também.
_Certo... Por que não começamos logo com isso?
Catarina dirigiu um olhar satisfeito ao cavaleiro e ligou o gravador que estava sobre a mesa.
_Diga-me o seu nome, quem é você e de onde veio – ela pediu.
_Você já sabe de tudo isso.
_Sim, eu sei. Mas tenho que registrar – ela apontou para o gravador.
O leonino respirou fundo e atendeu ao pedido:
_O meu nome é Aioria, eu sou o cavaleiro de ouro de Leão, e venho do Santuário de Athena.
_Muito bem, Aioria. O que te trouxe até o Brasil?
_Você, ora.
Sussurrando, ela pediu:
_Explique-se direito.
_Temos mesmo que seguir com isso? – ele começava a perder a paciência outra vez.
_Claro que sim.
O tom enfático da voz de Cat fez com que ele respondesse:
_O Caos lançou as nove Musas ao mundo dos mortais, e eu, juntamente com outros cavaleiros de ouro, fui encarregados de procurá-las.
_E você acha que eu sou uma dessas Musas?
_Você é. Melpômene, a da Tragédia.
_Como pode ter tanta certeza disso?
_Eu segui o seu cosmo divino e te encontrei em meio a um ataque terrorista no centro da capital do Líbano. E, pelo que eu pude notar, você adora mesmo uma tragédia.
_Isso é verdade. Tragédias são bem melhores do que comédias, você não acha?
_Eu acho que deveríamos ir ao Santuário agora mesmo.
Catarina mordeu os lábios e resolveu levar a entrevista para outro rumo:
_No caminho de Beirute até o Brasil, você me disse que Saori Kido, a neta de um bilionário japonês e dirigente da Fundação GRAAD, é a reencarnação da deusa Athena. Essa informação procede?
_Sim.
Com um gesto mandão, Cat o incentivou a dar mais detalhes. Aioria rolou os olhos e disse:
_Um dos nossos companheiros de luta se corrompeu e tentou matar Athena quando ela ainda era um bebê. O meu irmão Aioros conseguiu salvá-la, mas ele foi caçado como um traidor e acabou ferido mortalmente. No entanto, Aioros confiou Athena ao Kido antes de falecer.
_Que história trágica... – os olhos da Musa brilharam de emoção. – Eu sinto muito pelo seu irmão.
_Eu já superei. Além disso, ele também voltou à vida.
Catarina abriu bem os seus olhos amendoados e perguntou:
_Como isso foi possível? Se é que algo assim pode mesmo acontecer... – ela sussurrou essa última parte.
_Os deuses fazem acordos entre si.
_Simples assim?
_Não. Hades perdeu a última Guerra Santa contra Athena, e ela exigiu no acordo de paz que todos os seus cavaleiros de ouro voltassem do mundo dos mortos.
_Todos os cavaleiros de ouro? Isso quer dizer que... Você também estava morto?
_Sim. Eu morri diante do Muro das Lamentações.
_O que fica em Jerusalém?
_Não, o que fica no Inferno mesmo.
Catarina já havia entrevistado muitas pessoas em sua vida, mas nenhuma delas narrara fatos tão... Tão... Curiosos? Malucos? Estranhos?
_Certo, Aioria... Acho que por hoje já chega.
_Mesmo?
_Sim. Eu tenho apenas uma última pergunta.
_Qual?
Cat fez uma cara séria, apoiou os cotovelos na mesa e, encarando o cavaleiro de Leão, perguntou:
_Você é solteiro?
_Por que você precisa saber disso?
"Ele não é lá a mente mais ligada que eu já conheci na vida, mas segue sendo um pedaço de mau caminho mesmo assim", Cat pensou, mas foi interrompida pelo seu telefone celular.
_Alô. Oi, Chefe. Não, eu estou no Brasil. Esqueceu que você me despachou para cá numa folga forçada? Como assim está precisando de mim agora? Ligar a TV? Certo, eu já estou fazendo isso.
_Algum problema? – Aioria quis saber.
Catarina não respondeu. Ela apenas ligou a televisão e se deparou com as notícias urgentes, transmitidas diretamente de Buenos Aires:
"Ninguém sabe ao certo o que aconteceu em Puerto Madero. As imagens captam apenas a confusão que se instaurou de repente, mas testemunhas afirmam que o céu foi tomado por monstros voadores que surgiram do nada e que desapareceram sem deixar vestígios."
Os olhos de Cat estavam fixos na tela: carros batiam, pessoas gritavam e corriam, mas não havia registro dos tais monstros. Aioria parecia surpreso:
_A quimera no souk de Beirute era uma perturbação bem real. E o incêndio que ela causou também.
_Parece que o caso de Buenos Aires é diferente. Você tem ideia do que houve lá?
O cavaleiro de Leão voltou a olhar para a TV e disse:
_Eu não, mas com certeza ele deve saber – apontou para Shaka, que aparecia no vídeo ao lado de Liz.
Liz, Mai e Cat voltaram! Depois de séculos, eu sei. XD
Ainda assim, espero que este capítulo tenha ficado bacana. No próximo... Milo, Aioros e Afrodite tentarão se aproximar de Adella, Annaliese e Dora. Até mais!
