Conforme a noite avança, o frio se instala sobre a cadeia de rochas vermelhas no Deserto de Mojave, em Nevada. Durante o dia, a temperatura média nesta época do ano ultrapassa os 30°C; Já à noite, os termômetros raramente marcam algo acima de 5°C. E é durante esse período que os animais de sangue frio – lagartos e cobras, principalmente – se sentem mais ativos. Bruce sabia bem disso, ele é um biólogo, afinal. E também um entusiasta – um curioso – sobre geografia. Já Tony... Bem, Tony descobriu isso em apenas quatro horas de pura paranóia.

Tony desistiu de tentar achar um sinal de celular naquela vastidão. Em certo momento, ele começou a fazer polichinelos para que seu sangue circulasse, pois já estava ficando com os dedos duros pelo frio. Ele também desistiu dessa tarefa depois de poucos minutos e se juntou aos dois que dormiam pesadamente, deixando Pepper no meio.

Sua mente não desacelerava. Eles iriam precisar de água e alguma forma de entrar em contato com a civilização. A melhor coisa a fazer naquele momento era, honestamente, acordar o gigante verde e, educadamente, pedir uma carona de volta para a cidade, ou ao menos um lugar onde houvesse sinal de celular. Mas Tony não tinha como saber o quanto custaria à saúde do amigo se transformar no Hulk, novamente, e tirá-los daquela situação. Tão pouco podia dizer se o Hulk estaria apto a entender o pedido.

Anthony pensou que não seria capaz de dormir, devido ao frio e ao quadro geral da enrascada em que se envolveram, mas, mesmo com sua mente ainda acelerada, ele sentia uma moleza inconfortável em seus músculos. Sonhando, ele descobriu que se ele queria água ele teria que cavar para encontrá-la. Ele estava cavando e cavando, havia terra embaixo de suas unhas e seu cabelo pingava de suor, quando um ruído estranho invadiu seu sonho.

— Está tudo bem — ele falou para os dois. — O oceano está vindo para nós.

— Não vai adiantar — Bruce lhe respondeu no sonho. — Não podemos beber água salgada.

O ruído se tornou mais alto e Tony acordou, vasculhando o céu com o olhar. Deve ser sete horas, ele pensou ao observar o sol. De repente, um reflexo se movimentou no horizonte; rápido demais para ser um pássaro; baixo demais para ser um avião.

Tony se levantou abruptamente, se desvencilhando da perna de Pepper que estava enroscada nas dele, e apertou os olhos para tentar distinguir o que estava vendo. O que quer que fosse, estava se aproximando. Ele percebeu, aliviado, que o OVNI era do tamanho de um homem e estava pintado nas cores vermelho, branco e azul. Tony colocou os dedos na boca e assoviou o mais alto que pôde antes de começar a pular e sacudir os braços para cima.

Um sorriso de pura gratidão se estampou em seu rosto ao ver o Máquina de Combate se aproximar. Um sorriso tão aliviado e grato quanto o último que ele deu no Afeganistão.

Rhodes, pairando há meio metro do chão e com uma mochila atravessada no torso da armadura, abriu o capacete e falou:

— Cara, você não precisava ter se escondido nesse fim de mundo só pra me evitar, era só ter cancelado nosso almoço.

Tony estava rindo.

— Você é lindo, James. Eu já te disse isso?

— Tá bem, claro — Rhodes resmungou, porém sorriu. — Toma aqui — ele disse e entregou uma mochila nas mãos de Tony. Tony abriu a bagagem e encontrou comida, água, algumas roupas e um kit de primeiros socorros. — Eu não sabia no que você havia se metido então eu peguei tudo o que consegui na pressa.

— Você é lindo — Tony repetiu enquanto se voltava a Pepper e Bruce.

Pepper já estava em pé, alongando sua coluna. Bruce ainda estava no chão, piscando até conseguir decifrar a realidade à sua volta. Tony ofereceu sua mão para ajudá-lo a se erguer.

— Como você nos achou? — Pepper perguntou.

— Bem, eu fui até o apartamento e não tinha ninguém. Primeiro eu fiquei de cara e liguei para o Tony, mas ele não atendeu. O que não me surpreendeu muito, mas então eu liguei para você, que também não me atendeu. Aí eu comecei a ficar preocupado.

— Ah, querido, se preocupou comigo? — disse Tony. — Desce daí e me dá um beijo.

Rhodes revirou os olhos e continuou de onde Tony o havia interrompido:

— Então eu falei com Jarvis e ele me disse onde estava o seu carro. Quando eu cheguei lá, já tinha um pessoal lá. Aquela ruiva que foi sua assistente e um cara loiro com uma porcaria de arco e flecha... ele acha que tá onde? Idade média?

— Eles não vieram com você? — Tony perguntou.

— Eles estão a caminho, com um jipe — disse Rhodes. — Você não achou que eu ia levar todos vocês no colo, não é?

— Ah, graças a Deus — Bruce murmurou deixando que a tensão escapasse de seus ombros de uma vez.

Rhodes pousou e olhou diretamente para o doutor.

— Então você é o Hulk, é?

— Oh — Bruce resmungou em surpresa e então se sentiu envergonhado. — Sim. É, bem, eu me transformo nele.

— Na próxima vez em que você entrar no carro de alguém, não se esqueça de dar essa informação, ok?

Bruce pareceu desconcertado pela reação relativamente calma de Rhodes.

— Sim, claro. Foi mal.

— Então, o que aconteceu com vocês três? — James perguntou.

Bruce apenas encolheu os ombros. Tony contou toda a história com um tom de alívio em sua voz, ignorando a vergonha nos olhos do doutor ao narrar à transformação dele.

— Você sabe quem eram aquelas pessoas? — Rhodes perguntou para Pepper. Ela negou com a cabeça.

— Mas eles sabiam quem eu era. Me suspenderam em algum tipo de equipamento à prova de fogo, foi o Hulk quem conseguiu me tirar de lá — ela falou. — Eu acho que eram da IMA, provavelmente.

Tony trincou seus dentes.

— Parece que sim — disse Rhodes.

— Você sabe quanto tempo Clint e Natasha vão demorar para nos alcançar, Coronel... Quero dizer, James? — Bruce perguntou. Ele parecia estar pronto para se jogar no chão novamente e dormir.

— Uma meia hora — Rhodes falou. — Talvez um pouco mais. Eles me disseram que tinham que limpar alguma coisa antes... e não há muitas rodovias até aqui, doutor — ele explicou. Então Rhodes encarou Tony por um momento e falou: — A propósito, a ruiva... Natasha? Ela e aquele cara têm alguma coisa, por que...

— Ah, não. Não faça isso, amigo — Tony cortou-o. — Flertar com a Viúva Negra? Péssima ideia.

— Por quê? — Pepper disse acusadoramente. — Só porque você tem medo dela?

— Sim — Tony concordou como se fosse algo óbvio.

— Eu posso ver se ela está aberta a isso, James — ela falou, pegando a mochila das mãos de Tony. Pepper tirou uma calça de moletom e uma camiseta desbotada de dentro da mochila e alcançou-as nas mãos de Bruce.

— Obrigado, Pepper, mas não. Eu tenho a sensação de que ela não olharia para um cara que não perguntasse pessoalmente — contou Rhodes.

— Vou fazer um discurso lindo no seu funeral — Tony falou.

Enquanto isso, Bruce rasgava a embalagem de uma barra de proteína que Pepper tinha lhe dado. Ela não durou três segundos nas mãos do doutor que a engoliu em duas mordidas enquanto Pepper bebia um gole d'água. Quando ele pareceu estar pensando em lamber o plástico, Pepper pegou dele, trocando-o por um pacotinho de amendoins e colocando o lixo dentro da mochila.

Alguns minutos depois, Rhodes desceu até eles mais uma vez.

— Eles estão perto — James falou quando viu o jipe no horizonte.

Pepper prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo, incrivelmente simétrico e arrumado, considerando as condições em que dormiu. Aquilo era algo que sempre deixou Tony surpreso. Ele colocou seus braços em volta dela.

— Eu te amo — ele disse.

— Eu sei — ela respondeu e beijou a ponta do nariz dele.

— Ah, meu Deus. Alguém me dá um tiro antes que eu morra de tanta fofura — Rhodes falou.

— Não diga isso perto daqueles dois — Tony começou quando viu o jipe mais próximo, seguido por um rastro de poeira que se erguia aleatoriamente atrás deles. — Eles podem te levar a sério.

Natasha saltou pela lateral do jipe e se aproximou deles falando:

— Eu pensei que os eventos da semana passada tinham sido o suficiente para você aprender a chamar reforço quando se mete em problemas, Stark.

— Eu tinha o Bruce — Tony respondeu.

— É, e se você tivesse chamado a gente também, vocês poderiam ter dormido em casa na noite passada — ela retrucou.

— Ok. Justo — Tony concordou.

Clint sorriu, nem um pouco surpreso com a velocidade na qual Tony concordou com a lógica de Natasha. Tony olhou torto para ele.

— Tudo bem, catem suas coisas e vamos voltar para a civilização — Natasha disse.

— O que aconteceu com o meu carro? — Tony perguntou.

— A Shield confiscou-o como evidência — Clint explicou. — Provavelmente já terminaram. Aposto que deve estar na sua garagem agora.

— É bom que não tenha um arranhão nele — disse Tony.

— Vejo-os mais tarde — Rhodes disse e decolou.

Tony olhou para Natasha com um sorriso muito estranho e falso no rosto.

— Ele está a fim de você, sabe — Tony sussurrou... Na verdade ele falou normal, mas jura que foi um sussurro.

— Sim — ela disse, olhando para Tony sem emoção alguma.

— Você vai fazer algo sobre isso? — Tony perguntou.

— Isso não é da sua conta, Tony — Pepper repreendeu-o.

— É sim, se ela estiver manipulando a mente dele — ele respondeu.

Clint riu debochado.

— A mente dele não vai ser a única coisa que ela vai manipular — Clint resmungou. Apenas Bruce estava perto o suficiente para ouvir e corar.

— Entre no carro, Stark. Você pode tagarelar a caminho da cidade — Natasha falou com um sorriso no canto da boca.

Clint ajudou o doutor a subir no jipe, seu ombro servindo de apoio para Bruce que teve de pisar na roda enorme para conseguir pular para cima. Seu esforço foi recompensado por uma garrafa de energético que Clint lhe alcançou. Tony e Pepper subiram em seguida, mas não pareciam precisar de ajuda para tal.

Tony gritou o caminho inteiro, atordoando os ouvidos de Natasha, principalmente, que se contentou em revirar os olhos uma vez a cada dez minutos enquanto Clint ria alto, a beira das lágrimas. Mesmo com todo aquele alvoroço, Bruce apagou rapidamente, com a cabeça escorada no ombro de Pepper.

— A propósito, obrigada por nos resgatar — Pepper disse sem rodeios quando eles se aproximavam do prédio onde eles estavam morando.

— Ah, é — disse Tony. — Obrigado.

— Bem, o Rhodes insistiu — disse Clint.

— É, e nos gostamos da Pepper e do Bruce — Natasha acrescentou.

— Ah, claro. Faça pouco caso do gênio bilionário. Mas vocês precisam de mim, além disso, eu sou um colírio — Tony protestou.

— Relaxa, Stark — Clint disse com um sorriso despreocupado.

Quando eles chegaram à cobertura, o sol estava alto e fazia muito calor. Natasha guiou Bruce para dentro do apartamento, colocando-o sobre o sofá e voltando para a porta. Tony se virou para os agentes e perguntou se eles gostariam de ficar mais um pouco e tomar alguma coisa.

— Não, valeu cara. Temos coisas para fazer — Clint falou.

— Que tipo de coisas? — Tony perguntou.

— Descobrir quem mandou aqueles caras sequestrarem a Pepper, por exemplo — ele respondeu.

— Esse é o meu trabalho — Tony falou com as sobrancelhas erguidas.

Natasha bateu na nuca dele, fazendo-o engolir as palavras.

— Trabalho em equipe, idiota — ela falou. — A gente te liga quando tiver novidades, Stark.

— É — concordou Clint. — O que você poderia fazer sem a sua armadura, afinal? Congelar as contas deles? Hackear uns celulares?

— A gente te avisa se precisar de ajuda — Natasha falou para acalmá-lo.

— Vocês são como irmãos que eu nunca quis ter — Tony respondeu quando eles estavam esperando o elevador. Ele conseguiu ouvir a risada de Clint mais uma vez antes de fechar a porta.

Um silêncio constrangedor se iniciou após o ruído da porta sendo fechada. Pepper deu um olhar significativo a Tony e então olhou para Bruce que havia se levantado do sofá e encarava o tapete com muito mais foco do que ele merecia.

— A gente deveria comer — Pepper disse, finalmente — Banho, roupa, comida e cama.

Bruce concordou com a cabeça sem olhar para Pepper. Ele se virou na direção do corredor que levava até o quarto de hóspedes, mas parou e forçou-se a olhá-los.

— Sinto muito — ele falou. Pepper olhou para ele com um olhar triste. — Desculpe por colocá-los naquela situação — ele acrescentou.

Pepper deu um passo na direção dele e ele se enrijeceu, seu olhar ansioso e alerta focado no rosto dela.

— Bruce, você me salvou — ela falou calmamente. — Obrigada.

— É. Obrigado — Tony disse, passando por Pepper e ignorando a tensão nos ombros de Bruce ao envolvê-los entre seus braços, abraçando-o.

Tony não o apertou. Apenas segurou-o por meio segundo, bateu levemente nas costas do doutor e se afastou antes mesmo que ele pudesse reagir. Pepper deu um passo à frente e o abraçou devagar, dando-lhe tempo para se esquivar, se quisesse. Bruce deixou que ela envolvesse-o, mas não retribuiu. Ele respirou fundo, inalando seu cheiro antes que ela o libertasse.

— Mesmo assim, eu sinto muito...

— Ah, ah, ah, não — Tony cortou-o com a palma da mão erguida na direção dele. — Você já pediu desculpas o suficiente por hoje. Pelo mês inteiro, talvez. Não importa, estamos bem. É bom ter amigos por perto.

— É — Bruce falou e deu uma respirada profunda e instável. — É bom.

Ele se virou e foi para o quarto, tentando ignorar o sentimento de que os olhos de Tony estavam fulminando-o pelas costas.

Enquanto se despia no banheiro, Banner foi atingido por uma chuva de memórias desconexas. O som de disparos e o rosto apavorado de Pepper, olhando-o como se pedisse ajuda enquanto caia. O sangue se espalhando rapidamente pelo peito dela o fez cerrar os olhos e sacudir a cabeça com força. Bruce respirou fundo e girou o registro do chuveiro.

Bruce tomou banho e ficou olhando para as peças de roupa que ainda tinha. Talvez ele pudesse pular a parte da "roupa" e ir direto para a "cama". Ele estava acabado, mas por outro lado, Pepper também disse "comida". Ele também estava faminto. Bruce suspirou, entrou novamente nas calças de moletom, colocou uma das duas camisetas que tinha e se arrastou de volta para a sala. Ele viu Pepper tirando caixas e mais caixas de dentro de uma sacola enorme com o logo de alguma marca que ele não conhecia. Ela estava usando um short de verão e uma camiseta de Tony. O cabelo, ainda úmido pelo banho, molhou parte das costas da camiseta.

— Alguma chance de você saber onde eu acho um brechó? — ele perguntou para Pepper.

— Hm... não, eu não sei, mas posso descobrir pra você. Eu peguei chinesa, mexicana e também italiana de um lugar que um dos meus assistentes me recomendou esses dias — ela falou apontando para as caixas.

— Como é que você... — Bruce perguntou perplexo.

— Eu sempre me pergunto a mesma coisa — Tony disse do corredor atrás de Bruce.

Se Banner estivesse menos exausto, ele teria dado um pequeno pulo. Ao invés disso, ele se virou para Tony.

— Ei, será que eu posso perguntar algo para o Jarvis? — Bruce perguntou.

— Claro.

Tony entregou nas mãos de Bruce o tablet que estava trazendo do quarto e se aproximou de Pepper, beijando-a no rosto antes de encher um prato com um pouco de cada coisa naquele Buffet improvisado.

— Oi, Jarvis — Bruce falou.

— Olá, Dr. Banner. Estou feliz que tenham localizado-o. Coronel Rhodes ficou muito preocupado.

— Não comigo, tenho certeza.

— Com todos vocês, assim como eu — disse o IA.

— Obrigado, Jarvis — Bruce falou com um suspirou.

— Pelo que?

— Por se preocupar comigo — Bruce respondeu. — Eu não acho que muitas pessoas fazem isso. Pelo menos, não por eu estar perdido. A maioria se preocupa com o outro cara.

— Não tenha certeza de quantas pessoas significam "muitas", doutor, mas suspeito que o senhor esteja errado — disse Jarvis. Bruce ficou calado, considerando aquilo. — Há algo que posso fazer pelo senhor, Dr. Banner? — Jarvis perguntou, interrompendo os pensamentos de Bruce.

— Ah, sim. Eu preciso encontrar um brechó. Estou ficando sem roupas — Bruce falou um pouco envergonhado.

— Espera, era isso que você queria? — Tony perguntou colocando seu prato sobre a bancada — Eu já volto — ele falou e saiu do apartamento.

Bruce olhou para Pepper, confuso. Ela deu de ombros.

— Eu posso imprimir uma lista, com mapas, já que o senhor está sem o seu StarkPhone atualmente, doutor — Jarvis falou.

— Sim, por favor — Bruce disse.

Pepper empurrou um prato cheio nas mãos de Bruce, trocando pelo tablet. Ela se ocupou com a impressora enquanto Bruce começou a comer. Ele não se surpreendeu ao notar que a comida era excelente.

Logo os dois estavam mastigando em silêncio por um tempo até que Tony voltou cantarolando Christmas Day com os braços cheios de sacolas e caixas.

— O que é tudo isso? — Pepper perguntou.

— Roupas para o Bruce. E algumas coisas para você. Eu fiz compras — Tony explicou.

Bruce levantou os olhos de seu prato, abestalhado, vendo Tony colocar as sacolas no chão ao lado dele.

— Tony, eu...

Tony cortou-o, acenando com desdém.

— Todos sabem que eu vou te vestir, eventualmente. Tivemos uma noite longa, então vamos pular para a parte em que você aceita as roupas, porque eu posso te dar e também porque elas já foram pagas. E depois, quando você pensar que eu não estou vendo, pode ir num desses malditos brechós, mesmo sabendo que se você gostar de qualquer uma dessas aqui, eu posso te comprar uma dúzia... No caso de você se transformar enquanto estiver vestindo ela.

Pepper riu.

— Aliás, a gente podia inclusive fazer roupas com laterais rasgáveis, ou algo do tipo — Tony continuou.

— Isso não iria simplesmente deixá-lo nu? — Pepper perguntou.

— Você diz isso como se fosse algo ruim — Tony respondeu.

Pepper sorriu para o namorado e Bruce começou a rir devagar, os ombros se movendo aos poucos. O Tony que estava andando todo irritado em torno dele desde que chegou, parecia ter voltado ao normal. Bruce sentiu a dinâmica daquele relacionamento rebater nele como um elástico esticado escapando dos dedos, trazendo de volta um pouco da familiaridade que ele havia deixado para trás, mas também algo mais. Ele sabia, agora, que ele poderia ter aquilo se quisesse. Se estivesse disposto a colocar Tony e Pepper a mercê de serem feridos por ele ou feridos pelo mundo por causa dele, ele poderia ter aquilo. A risada provinha de um lugar muito fundo dentro dele e não parava. Afugentou boa parte da preocupação e da tensão, deixando-o quase sem ar.

— Ah não, o Bruce quebrou — Tony disse.

— Coma, Bruce. E depois para cama — Pepper falou, estendendo a mão para tocar no ombro dele, quando na verdade queria acariciar seu cabelo.

— É. Temos que mantê-lo forte, buddy — disse Tony. — Quem sabe quando aqueles caras vão querer uma revanche?

Pepper franziu o cenho para Tony enquanto Bruce se recompunha aos poucos.

— Você acha que eles vão voltar? — Bruce perguntou quando conseguiu parar de sorrir.

— Eu diria que, comparado às chances de você encontrar café descafeinado nesta casa, sim — Tony falou.

— Mas... hoje? — Bruce perguntou.

Tony encolheu os ombros, o que deixou Bruce com a testa franzida. Pepper cruzou os braços contra o peito e tentou não olhar para nenhum deles.

— Não faz diferença — Bruce falou. — Nós estaremos prontos para isso.

— Nós...? — Pepper perguntou.

— Eu quero dizer... bem — Bruce olhou para ela. — Eu. Eu estarei pronto. Eu não vou deixar... nada vai te acontecer.

Banner rapidamente baixou os olhos para seu prato e voltou a comer, desta vez com pressa. Ele não sabia se o que havia dito era o certo a se dizer naquele momento, mas era o que ele estava sentindo. Ele não queria um replay da transformação do último dia, mas também não deixaria que nada ruim acontecesse com nenhum deles, se pudesse evitar. Bruce terminou de comer muito rápido e se levantou.

— Eu vou dormir.

Bruce saiu pelo corredor sem focar os olhos no casal.

— As caixas estarão na geladeira, se você sentir fome mais tarde — Pepper falou.

O doutor se virou um pouco na direção deles, mas continuou olhando para os próprios pés quando agradeceu. Ele fugiu para o quarto. Apesar das emoções instáveis e das lembranças agitadas que teve, ele não demorou a cair no sono. Teria tempo o bastante para pensar mais tarde.

...

Pepper arrastou Tony para uma soneca assim que eles terminaram de comer. Eles não chegaram a realmente falar qualquer coisa sobre o que aconteceu até aquele momento em que estavam escondidos sob as cobertas, o sol do meio dia sendo bloqueado pelas cortinas black out.

Tony passou o braço em volta dela, por trás, e Pepper se mexeu contra o peito dele, agradecendo mentalmente pela proximidade, por ser capaz de sentir aquilo e de ter Tony ao seu lado.

— Sabe... se há uma coisa que podemos ter certeza agora... — ela começou falando devagar e baixinho.

— Hmm? — Tony murmurou preguiçosamente.

— Ele se importa. Ele se importa demais... o que acontece com a gente. O que pensamos — Pepper falou.

— Hmm... — ele respondeu sem pressa. — Pelo menos... com você... sobre o que você pensa.

— Ele não foi falar contigo, ontem? Antes dessa confusão? — ela perguntou.

— Bem, mais ou menos. Fomos interrompidos pelos gritos de uma linda donzela em apuros — disse Tony.

— Eu não sou uma donzela em apuros — ela disse ao entrelaçar seus dedos na mão dele e apertar ainda mais o braço dele contra a sua barriga.

— Sim, você é. Eu sou seu herói e você é a minha donzela em apuros — disse ele.

— Eu não preciso de um herói — Pepper resmungou.

— Do que você precisa? — Tony perguntou, seus lábios acariciando o pescoço dela.

— Eu só... você. Eu preciso de você, Tony. Só... fique aqui comigo.

— Eu estou aqui — Tony sussurrou no ouvido dela e apertou-a ainda mais contra o seu peito. — Vai ficar tudo bem.

Ele ficou quieto, mas ela podia ouvir a respiração lenta de Tony e também seu coração pulsando em torno dela, através de seus braços, como um circuito fechado a seu redor.

Quando ela acordou, Tony ainda estava dormindo um sono muito calmo. Ela tentou ficar parada, mas foi obrigada a se levantar pela vontade de ir ao banheiro. Pepper deslizou para fora da cama devagar, se esforçando para não despertar Tony ao erguer o braço que ainda a envolvia.

Ao sair do banheiro, ela vestiu um roupão peludo. Estava escuro e ela não tinha certeza de que horas eram, mas pela sede que sentia pôde deduzir que dormiu bastante. Pepper se esgueirou para fora do quarto, esfregando as pálpebras com as costas das mãos ao ver uma claridade na cozinha.

Ela caminhou devagar, atenta ao silêncio da noite. Bruce estava sentado diante da ilha da cozinha com uma caixa de comida aberta a sua frente e outras três vazias ao lado. Pepper se aproximou para recolher as caixas vazias do balcão.

— Essas são recicláveis — ele protestou. — Deixa que eu faço isso.

— Ok — ela disse.

Ela se sentou de frente para ele, no outro lado do balcão. Ele comeu, mastigando devagar dessa vez. Ela o observou em silêncio por um tempo.

— É bom vê-lo comendo mais. Eu tive a impressão de que você não ficou satisfeito mais cedo — ela falou cortando o silêncio.

— Foi o suficiente para que eu conseguisse dormir. Era o que eu estava realmente precisando — Banner falou. — Obrigado.

— Não por isso.

Ela o examinou atentamente. Desde a linha tensa que seu maxilar formava ao mastigar até a forma em que seu pomo-de-adão se movia ao engolir. Então ele empurrou a caixa para o lado e levou a ponta do polegar à boca, fazendo um barulho de sucção ao fim. Ela alcançou um guardanapo para ele.

— Eu estive pensando sobre o que você falou — ele disse enquanto limpava a mão.

— Ah, é? Qual parte?

— A parte em... da proposta inesperada que você me fez ontem... ou anteontem, na verdade — Bruce falou. Ele passou a mão pelo cabelo, correndo os dedos entre os fios enquanto expirava devagar.

— Hm? O que você pensou? — Pepper perguntou em um tom calmo.

Ela estava com medo de falar muito alto, como se o homem fosse um animal arisco e selvagem que pudesse fugir ao se sentir ameaçado. Ele ficou quieto por um momento e então se inclinou para frente, levantando do banco. Pepper percebeu que estava segurando a respiração quando sentiu a mão dele tocar seu rosto. Seu toque era gentil, mas firme. Ela estudou seu olhar enquanto ele se aproximou mais. Ele baixou os olhos para os lábios dela e cerrou as pálpebras antes de roçar seus lábios contra os dela. O breve toque a inundou com algo quente e macio que cresceu em seu peito momentaneamente. Ela ficou analisando os lábios dele quando Bruce se afastou um pouco.

— Você tem certeza de que é isso que quer? — ele perguntou em voz baixa. Ela ergueu o olhar para encontrá-lo.

— Sim — Pepper falou. — Eu sei que quero.

Ele estava olhando para ela diretamente de um jeito que ela não se lembrava de ter presenciado antes.

— Eu matei pessoas.

— Eu vivo com o Mercador da Morte — ela ponderou.

— Eu posso te matar — ele disse. — Ele pode te matar.

— Não. Você não vai e ele também não — ela falou. — Eu o vi e eu conheço você. Nenhum de vocês me machucaria.

Ele suspirou.

— Eu jamais me perdoaria se... — ele parou, encarando-a. — Eu provoco caos em todo lugar. Eu posso virar sua vida de ponta cabeça, Pepper. Eu posso arruinar a sua vida.

Pepper tentou se segurar, ela tentou de verdade, mas não conseguiu. Ao invés disso, ela olhou para o rosto dele e deixou uma gargalhada histérica escapar. Uma risada enorme e alta que ela conseguia frear e a fazia contrair os ombros. Ele estava tão sério, mas agora parecia alarmado e fora de órbita. Ele a observou, claramente sem ter certeza de como reagir quando ela jogou a cabeça para trás e bateu com a mão espalmada sobre o balcão. Bruce afastou sua mão da pele dela com uma ansiedade evidente em seu rosto.

Ela ofegava, buscando por ar enquanto tentava se acalmar, então olhou para ele. Pepper alcançou a mão dele.

— Bruce, você praticamente descreveu a minha vida nos últimos seis anos.

Ele já havia desistido de olhar para ela e, ao invés disso, olhava para sua outra mão que se fechava tensamente e relaxava diversas vezes sobre o balcão. Ela voltou a falar:

— Tony arruinou minha e eu colei os pedaços de volta mais vezes do que eu pensei que era capaz de fazer, mais vezes do que sou capaz de contar — ela disse séria e calmamente. — Eu o amo. Eu não posso imaginar minha vida sem ele... eu não quero imaginar minha vida sem ele.

Ela apertou a mão de Bruce carinhosamente e ele finalmente olhou para ela.

— E eu não quero imaginar minha vida sem você, também — ela disse baixinho, como se revelasse um segredo a uma criança. — Eu já enfrentei todos os riscos e complicações que você descreveu. E eu vou continuar enfrentando-os com ou sem você aqui. Então: fique. Me deixe... — ela respirou fundo, mas não chegou a terminar a frase.

Ele se inclinou mais uma vez e a beijou. Desta vez com mais certeza do que queria e com vontade de ter o que queria. Pepper levantou a mão e entrelaçou seus dedos no cabelo da nuca dele, mantendo-o ali enquanto pôde. Bruce acariciou o rosto dela com as duas mãos de forma firme, mas delicada, como se ela pudesse se quebrar com o toque.

Então veio um clarão seguido do som de palmas e um assovio vindo do corredor. Bruce foi para trás, rapidamente, mas Pepper manteve a mão na nuca dele, impedindo-o de ir muito longe.

Tony tinha um sorriso de orelha a orelha quando falou:

— Já estava mais que na hora!

— Você tirou uma foto? — Pepper perguntou incrédula.

— Sim — ele disse entregando o tablet nas mãos dela.

— Mas o meu cabelo... — ela protestou. Pepper correu a mão pelos cabelos e aproveitou para ajeitar o roupão.

— Você está linda — Bruce disse.

Tony cercou Bruce, girando a cadeira dele devagar para encará-lo e se aproximou, dando-lhe tempo para rejeitá-lo. O que não aconteceu. Ele passou o braço sobre os ombros do doutor ao beijá-lo e Pepper tirou uma foto deles também.

O beijo foi longo. Pepper se preparou para a pontada de ciúmes que viria, mas ela realmente não veio. Ao invés disso, um formigamento quente se originou em sua nuca. Ela se sentiu calma e contente.

— Então... — Bruce perguntou murmurou contra os lábios de Tony que começava a se afastar sem vontade nenhuma depois que Bruce tocou no peito dele, empurrando-o devagar para recuperar o fôlego. — E agora?

Tony mexeu as sobrancelhas algumas vezes.

— Eu tenho algumas sugestões — disse Tony.

— A gente pode conversar sobre isso — Pepper falou ignorando o tom malicioso na voz de Tony.

— Ok — concordou Bruce.

— Podemos decidir com calma — Pepper continuou enquanto contornava o balcão.

— Foda-se, eu estou com pressa — Tony falou. — Eu tenho sido muito paciente!

Bruce sorriu.

— Uma conversa parece ser... inteligente... bom. Uma decisão boa e inteligente.

— Bem, então, vamos deixar essa parte para amanhã — Tony pediu. — Durante o jantar.

— Você quer dizer... —Bruce respirou fundo e escolheu uma palavra. — um encontro?

— Exatamente — Tony disse.

— Devíamos voltar para cama agora, então — Pepper sugeriu.

— Eu não estou cansado — Tony resmungou. — Além disso, eu preciso ouvir ele dizer sim. Tenho medo de que se nós não tivermos um plano, ele vai sair de fininho no meio da noite.

Pepper pôs a mão no rosto do doutor, sentindo a barba que crescia áspera contra sua palma.

— Você não faria isso, não é?

— Eu... não — ele disse calmo.

— Ele deveria dormir com a gente esta noite — Tony falou.

— Hmm, isso seria bom — ela concordou.

— É, assim ele não conseguiria fugir, de novo — continuou Tony.

— Espera, espera... Vocês querem que eu vá dormir cm vocês? — Bruce perguntou.

— Claro. Por que não? — Pepper rebateu.

— É, porque? Teme por sua pureza, Bruce? — Tony provocou-o.

Bruce deixou uma risada rouca escapar e balançou a cabeça.

— Não tenho medo de você — ele disse para Tony.

— Não acredito nisso. Sou muito intimidador — Tony falou bocejando ao pegar a mão de Bruce e guiá-lo para o quarto.

— Vamos, Bruce. Confie — Pepper falou espalmando suas mãos nas costas dele, empurrando-o sutilmente pelo corredor.

Bruce se deixou ser levado, ele parecia atordoado, mas contente.

— Eu fico pensando que vou acordar a qualquer momento — ele murmurou.

— Você vai — Pepper falou fechando a porta do quarto. — E nós ainda estaremos aqui.