Eles chegam à terra firme com uma nuvem cinzenta pairando sobre suas cabeças e um silêncio desconcertante rompido apenas pelo assovio do vento que embala as ondas do mar.
O peso das expectativas de cada um, bem como os hematomas de uma grande desilusão, tornando a atmosfera quase irrespirável.
Com os pés descalços afundando na areia escura, Emma se permite apenas um momento breve de reflexão antes de erguer a cabeça e abraçar o desafio que os aguarda.
"Chegou a hora." Ela anuncia ao grupo, seus olhos fixos na vegetação que se estende em seu campo de visão, e uma expressão indecifrável moldando suas feições.
Logo atrás dela, o reduzido grupo abandona o barquinho que os trouxe, e com o auxílio de Hook, Henry vira o mesmo de cabeça para baixo, imediatamente tirando uma porção de ferramentas de sua mochila. Parte do plano elaborado tendo como prioridade promover o transporte seguro de todos até o poço, levando em consideração as limitações oferecidas pela gestação avançada de Ruby, bem como a pouca idade de Evan.
Com uma destreza que Regina não se recorda de já ter visto em seu filho, Henry rapidamente instala as rodas que ao serem presas na parte inferior do barco, transformarão o mesmo em uma carruagem improvisada.
Trata-se de um plano engenhoso, e um detalhe que não havia lhe ocorrido até o momento.
"De quem foi essa ideia?" Ela pergunta sem disfarçar sua surpresa e, sem desviar a atenção de sua tarefa, Henry responde, afastando a franja comprida demais de seu campo de visão.
"Foi um esforço conjunto. Eu desenhei a estrutura, mas foi o Grumpy quem me ajudou a montar."
A menção de um dos integrantes que deliberadamente escolheu ficar para trás é uma ferida ainda exposta, e imediatamente o silêncio desconfortável retorna com força total. Mas Regina não permite que o mesmo sobreponha sua admiração.
"Isso é incrível." Ela fala sem necessariamente se referir ao acessório em si, mas sim a mais essa faceta nova e desconhecida do filho.
Seu tom, imediatamente captura a atenção de Henry, que esconde o rubor que queima suas faces forçando mais uma vez sua atenção sobre o trabalho que está realizando.
Emma observa a toda a cena de soslaio, fingindo estar entretida com a organização e checagem das armas que cada um deverá carregar consigo durante o trajeto.
Somente ao dar um passo para trás e esbarrar em Evan, ela se dá conta de que algo não está bem.
"Ei pirralho, o que houve?" Com um sorriso solicito no rosto Emma ajoelha diante do irmão, até estar à sua altura.
Abraçado ao seu bichinho de pelúcia, seus olhos imensos falam tudo o que ele não é capaz de expressar em palavras.
O sorriso de Emma oscila como uma chama, as recordações de tardes de sol compartilhadas pelos dois nessa mesma praia, com Evan correndo de encontro às ondas e dando gritos de excitação ao ter os pés molhados pela água fria, apenas evidenciando ainda mais a influência que os horrores vividos tem tido sobre ele.
Por tanto tempo Emma fez de sua prioridade protegê-lo dos horrores desse mundo contaminado, e mesmo com todos os seus esforços, a inocência e pureza de Evan acabaram manchadas.
Isso apenas consolida sua determinação; essa missão tem que funcionar.
"Hey, sabe as história que o Henry sempre te conta? Sobre heróis, batalhas e aventuras?" O menino assente com a cabeça, uma expressão séria emoldurando seu rosto infantil. "Então, hoje nos vamos escrever nossa própria história. Vamos viver uma grande aventura."
Evan arregala os olhos, dividido entre empolgação e receio. Emma acaricia seu rosto com uma promessa em seus lábios. "Não tenha medo irmãozinho. Não vou deixar nada de ruim acontecer com você. Vou estar o tempo todo ao seu lado, combinado?"
Ele morde o lábio inferior, mas concorda. Toda a crença que ele deposita em sua irmã mais velha, falando mais alto que seus traumas e temores.
Ruby, que acompanhava a cena, lhe estende a mão. "Vem Evan, preciso de sua ajuda. Vi uma linda concha que ficaria linda em minha coleção, mas não consigo pegá-la com essa barrigona no meio do caminho."
De bom grado, Evan atende seu pedido e com uma piscada cúmplice, Ruby se afasta um pouco do grupo levando-o consigo. Imediatamente Emma busca uma distração para afugentar suas próprias dúvidas, se ocupando em distribuir as armas de seu pequeno arsenal.
"Hook, pegue essa automática; Mas lembre de só usá-la em último caso. A última coisa que precisamos é de alarde desnecessariamente atraindo uma porção de mortos vivos."
"Não se preocupe Swan, para encontros de primeiro grau tenho meus próprios recursos." Ele empunha seu gancho e oferece um sorriso confiante, ao que Emma se mostra pouco impressionada.
"Que seja. Considere-se avisado!" Ela pega uma machadinha e entrega a Henry. "Não deixe eles chegarem perto demais, garoto."
Ao lado de Henry, Regina crispa os lábios, insatisfeita com o fato de seu filho precisar usar uma arma, seja esta qual for. Mas trazendo consigo ainda frescas as recordações da primeira e última vez em que esteve com Henry em uma situação semelhante, ela engole suas objeções.
"Ruby já tem seu conjunto de facas, de modo que ela cedeu a você este punhal, Regina." Emma lhe estende a arma branca, mas Regina hesita.
Armas nunca foram sua preferência em uma batalha e nem mesmo o apocalipse zumbi mudou isso.
"Sinceramente, não vejo porque não posso usar minhas habilidades para me defender." Ela comenta ao receber o punhal, uma careta evidenciando seu desconforto.
Emma revira os olhos impaciente. "Salve suas habilidades para a hora certa, ok?"
E antes que Regina possa argumentar Emma lhe dá as costas, anunciando ao restante do grupo. "Todo mundo, hora de pegar a estrada."
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O progresso do grupo em direção ao poço é lento.
A distância a ser percorrida não é pequena e o caminho apresenta sérios obstáculos como terrenos irregulares que pouco auxiliam no transporte da carruagem improvisada providenciada para Ruby e Evan, além da pouca visibilidade oferecida pelas árvores, o que apenas aumenta a tensão.
Eles se organizam da seguinte forma: Emma seguindo a frente com sua espada, seguida por Henry e Hook que puxam juntos o barco no qual se encontram Ruby e Evan, e Regina cobrindo a retaguarda. Essa formação tendo como objetivo deixá-los atentos a um possível ataque vindo de qualquer direção.
Pongo, por sua vez, circunda o grupo livremente, nunca se afastando muito, mas sempre farejando o caminho trilhado, sua agitação deixando Emma ainda mais alerta.
"Faz um tempo desde que estive em terra firme, e preciso dizer, isso não é bem o que eu esperava." Hook comenta para ninguém em particular. O suor escorre pela sua testa com o esforço feito, mas fora isso ele parece apenas entediado. "Onde estão os mortos-vivos afinal?"
Contendo sua irritação, Emma responde secamente. "Quanto menos conversa, menos chances de eles serem atraídos pelo som de nossas vozes."
A sugestão, nada sutil, surte efeito e mais alguns minutos de caminhada se passam sem conversa e sem ação.
De fato, não há qualquer sinal de zumbis pelos arredores, e embora alguém pudesse considerar isso um golpe de sorte, Emma não pode deixar de lado sua intuição e a certeza de que toda essa tranquilidade se trata de um mau agouro.
Aparentemente ela não é a única a perceber isso, quando em uma das breves paradas realizadas, Regina a aborda.
"Escuta, não é algo que eu goste de admitir, mas preciso concordar com o pirata. Onde estão aquelas criaturas que nos perseguiram da última vez? Não é estranho que não tenhamos cruzado com nenhuma até agora?" A voz de Regina é velada, de modo a não espalhar suas próprias suspeitas pelo ar e chamar a atenção dos demais, e Emma se vê obrigada a compartilhar suas impressões.
"Eu sei. Obviamente tem algo mais acontecendo. Mas não há nada que possamos fazer. Normalmente eu sugeriria que procurássemos uma trilha alternativa, mas essa já está difícil de seguir do jeito que está."
"O que você acha que isso significa?" A pergunta abandona os lábios de Regina e ficam penduradas no ar até que Emma se disponha a respondê-la.
"Eu não sei." Ela admite a contragosto, confessando seu maior temor. "Mas coisa boa não é."
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No meio do caminho eles encontram mais do que uma pedra.
Trata-se na verdade de uma enorme raiz de árvore, além de galhos e pedras. E uma chuva fina e gélida que começa a cair do céu, amolecendo o solo; a lama e as folhas molhadas tornando o trajeto ainda mais difícil.
A única opção – fora a mágica que Regina oferece mais uma vez, somente para ser rejeitada – é que Ruby e Evan abandonem o veículo para que Emma, Hook e Henry tentem desatola-lo, para então carregá-lo até terreno firme.
Entretanto, o barco é pesado demais para isso e é Ruby quem aponta a solução óbvia que ninguém quer admitir.
"Nós temos que deixá-lo para trás." Ela fala cobrindo a cabeça com seu capuz vermelho e acolhendo Evan com sua capa, para protegê-lo da garoa. "Nós vamos ter que ir andando mesmo."
"Paixão, isso não é exatamente uma opção nas suas condições." Hook tenta intermediar, mas é rechaçado.
"Não temos escolha. Me recuso a ser a âncora que vai afundar a todos nós." Ela declara firmemente. "Além disso, estou grávida, não inválida."
"Ela está certa." Emma oferece seu apoio, surpreendendo aos demais. "Nesse ritmo vamos perder o restante da luz do dia e não acho que fazer acampamento seja uma opção segura."
"Não podemos deixar o Merry simplesmente." Henry se pronuncia com um certo pesar. "Temos que destruí-lo. Para que ninguém possa usá-lo para chegar ao Jolly de novo."
Ninguém oferece qualquer tipo de objeção. O garoto tem razão e todos sabem disso.
Henry, então, pega a machadinha que recebeu e se prepara para dar o primeiro golpe, mas a mão de Emma sobre seu braço o impede de fazê-lo.
"Deixa comigo, garoto."
O primeiro golpe que Emma defere faz com que lascas de madeira voem longe.
Todos dão um passo para trás, menos Regina que permanece impassível, observando a cena – trocando a machadinha por uma motosserra, a cena que toma parte diante dela chega a ser quase nostálgica. Cada golpe de Emma ganhando mais força e velocidade, liberando algo mais que ela parecia estar segurando dentro de si até então.
Minutos passam e passam até que restem apenas destroços, e Emma arfando pesadamente, sua camiseta empapada de suor e suas botas enlameadas até as pernas.
Sem adeus, eles retomam a caminhada, a passos mais lentos, mas constantes.
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Eles estão embrenhados na floresta, o céu cinzento pelas nuvens carregadas que derramam a chuva sobre suas cabeças sem pressa, quando os ganidos de Pongo colocam todos em alerta.
Oferecendo cobertura ao grupo e fazendo sinal para que os demais fiquem a postos, Emma segue em direção ao dálmata para se deparar com o alvo há poucos metros de distância.
Em meio à lama, a meio caminho andado de sua morte permanente, a criatura se encontra destroçada da cintura para baixo, deixada para apodrecer no meio de outros cadáveres inertes.
Algo em todo esse cenário não parece certo, e sem rodeios Emma se aproxima e dá um fim ao zumbi com sua adaga de mão. Com a lâmina de sua arma coberta de sangue, seu tom ainda avermelhado aumenta sua desconfiança. Ignorando o repudio provocado pela cena, ela se força a inspecionar de perto os demais restos mortais.
Quando Emma volta a se juntar ao grupo, seu veredicto é problemático.
Alguém acabou de matá-los.
E se há uma ameaça maior do que uma horda de mortos é um grupo de seres vivos, dispostos a fazer o que for preciso para sobreviver.
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Ruby sempre pôde contar com seus sentidos afiados.
Existe algo dentro dela, talvez vestígios de sua herança lupina, que a fazem ter uma sensibilidade especial no que se refere à sua capacidade de percepção. Sua visão sempre enxergando além do horizonte, seu olfato inalando aromas sutis que se espalham pelo ar, seu cérebro assimilando instintivamente o que todos os seus sentidos registram. Especialmente quando sua sobrevivência, e agora a de sua cria, dependem disso.
É por isso que ela sabe, mesmo antes de Emma retornar de sua pequena busca, que seu grupo está em apuros.
Ela pode sentir, mesmo com a distância e o som da chuva abafando os sinais mais óbvios, essa presença à espreita.
Ela pode sentir o perigo no ar.
Então quando Emma reaparece, com uma expressão soturna que não lhe cabe disfarçar, Ruby tem todas as suas suspeitas confirmadas. E talvez seja isso, uma reação de seu corpo ao perigo iminente, o que começa a afetar o bebê. O esforço da longa caminhada também não ajuda, embora ela tenha tolerado o mesmo com teimosia e obstinação.
Sua objetividade e orgulho fazem com que ela tente guardar os sintomas para si, e para sua sorte, por mais disposto e atencioso que Killian tenha se mostrado em todo o trajeto, e mesmo em sua gestação, ele não é exatamente o mais observador dos homens.
Contudo, escapar do escrutínio de Regina se revela uma tarefa muito mais difícil.
"Qual o tempo de intervalo entre as dores?" Regina comenta sorrateiramente, seus passos próximos aos de Ruby quando Killian se afasta para se aliviar na mata.
A resposta de Ruby morre em seus lábios, quando mais uma contração – dessa vez mais forte – faz com que ela quase perca a compostura.
Regina imediatamente lhe oferece uma mão como apoio, e se as marcas dos dedos de Ruby em seu braço são sinal de sua força, não é possível dizer pela impassibilidade de suas feições.
"Eu posso ajudá-la com isso." Regina oferece com um olhar preocupado e Ruby não precisa que ela diga para saber que: 1. Ela está falando do uso de magia e 2. Esse não poderia ser um pior momento para seu bebê resolver vir ao mundo.
"Não." Ela insiste balançando a cabeça, sua respiração se normalizando com o passar da dor. "Você deve poupar suas energias."
"Não sou eu quem está entrando em trabalho de parto no meio de uma floresta."
"Não se preocupe comigo. Isso é praticamente um retorno às minhas raízes." Ruby lhe oferece um sorriso trêmulo que não engana Regina.
"Eu não entendo, por que vocês todos se mostram tão resistentes quanto ao uso de magia?" Ela hesita, sua testa franzindo quando sua voz revela seus receios. "É por causa do meu passado? Das coisas que eu fiz?"
"Não Regina, não é nada disso." Ruby se apressa em esclarecer; nunca lhe ocorrera que algo semelhante estivesse passando pela cabeça de Regina durante todo esse tempo. Parece cruel permitir que ela acredite nisso por mais um segundo sequer. "Esse mundo não é mais o mesmo. Depois que Rumplestiltskin abriu o portal e escapou, é como se de alguma forma ele tivesse levado o que restava da magia de Storybrooke junto com ele. Mesmo os poderes da Emma, que eram tão fortes, foram ficando cada vez mais fracos e instáveis com o tempo."
"Mas isso não faz sentido." Regina argumenta, sua fisionomia distorcida pelos pensamentos que inundam sua mente de uma só vez.
"Ela não gosta de falar a respeito, mas eu estava lá quando aconteceu." A memória é ainda dolorosa, mesmo passado tantos anos, e Ruby não consegue evitar que seus olhos se encham de lágrimas mais uma vez. "Todos aqueles destroços caíram sobre Emma, e as faíscas saiam de suas mãos como um cabo de eletricidade desconectado. Foi David quem a salvou, quando seus poderes falharam. E você sabe como essa história termina."
Com um olhar apreciativo, Regina deixa sua atenção recair sobre a figura da loira que segue alguns metros adiante. Seus cabelos loiros escurecidos pela água da chuva.
"Ela realmente acredita que seus poderes se extinguiram?"
"Foi o que ela nos disse depois;" O rosto de Ruby se contorce uma vez mais, e ela respira profundamente, esperando que a dor passe antes de completar. "Talvez com você seja diferente. Henry disse que você escapou de sua prisão com mágica praticamente transbordando de seu corpo. Mas nós não podemos correr o risco de desperdiçá-la com algo que não seja a nossa saída desse lugar de uma vez por todas."
"Eu compreendo." Regina assente, mas sua mente permanece ativa, assimilando uma porção de detalhes que de repente parecem se encaixar melhor em um enorme quebra-cabeça.
Emma Swan pode ainda ser um mistério em muitos sentidos.
Mas cada dia parece relevar um pouco mais de quem ela é aos olhos de Regina.
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Eles estão caminhando há horas, virtualmente sem paradas, encharcados e exaustos, e sua líder segue marchando sem qualquer sinal de alguém prestes a oferecer um minuto de descanso.
Pelo contrário, Emma parece tensa e no limite, e seu humor claramente começa a afetar o restante do grupo.
Enquanto Ruby já não consegue disfarçar tão bem seu desconforto, o que provoca a preocupação de Hook, Pongo parece agitado, ganindo e latindo sem parar, ao passo em que Evan começa a choramingar.
Henry se oferece para carregá-lo em suas costas, e tolera toda a situação com uma resiliência que apenas aumenta a admiração de Regina pelo filho, mas mesmo isso não a permite ignorar o que está se passando.
É por isso que, inevitavelmente, ela se coloca no caminho de Emma, obrigando-a a encará-la de frente.
"Você precisa parar." Regina anuncia de forma imperiosa, como alguém acostumada a dar ordens, e talvez seja isso o que Emma não recebe bem. Ou talvez seja apenas a sua súbita aproximação sem qualquer respeito pelo seu espaço pessoal.
"O que você está fazendo?" Emma recua, obviamente irritada e confusa pelo gesto.
"Nós precisamos parar. Todos estão exaustos e quase além de suas forças. Mas ninguém falará nada por medo de desapontá-la." Regina pontua com sinceridade, seus olhos passeando ligeiramente sobre as figuras as quais se refere. "Como eu não faço parte desse grupo, achei necessário apontar o óbvio antes que você nos guie diretamente às nossas próprias covas."
"Nós não podemos parar. Cada minuto dessa jornada nos deixa expostos e vulneráveis. Nós estamos cercados e eu não me refiro somente aos mortos-vivos. São os vivos que me preocupam." Emma admite nervosamente, seus olhos vermelhos revelando todo seu cansaço.
"Então mude a sua postura. Nós estamos a caminho de nossa salvação. Aja como tal. Toda essa sua intensidade... está apenas assustando a todos."
"Eles deveriam estar assustados!" Emma rebate sem pestanejar, e as duas ainda estão se encarando com ferocidade, sem diminuir o ritmo de seus passos, quando a voz de Henry interrompe sua disputa.
"Estamos chegando." Ele anuncia com energia renovada, e mesmo Regina não pode deixar de sentir uma explosão de alívio que parece aquecê-la de dentro para fora.
"Hora do show." Emma fala para ela, oferecendo uma trégua velada, ao que Regina responde com um revirar de olhos que poderia muito bem ser um sorriso.
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Assim que chegam ao seu destino, Regina começa os preparativos.
De dentro de sua bolsa ela retira uma porção de cristais que Emma desconhece a função, mas que se recorda vagamente de ter visto em seu 'laboratório'.
Ela está prestes a perguntar para que eles servem, quando Pongo parece detectar a aproximação de estranhos e com o uso de seus sentidos Ruby confirma - não se tratam de mortos, mas um bando de seres vivos.
O que eles querem ou por que decidiram esse momento para se aproximar, perguntas para as quais Emma não está muito interessada em adquirir respostas.
"Você consegue distinguir quantos são, Rubes?" Ela pergunta empunhando sua espada e com um sinal mudo, orientando Hook e Henry a fazerem o mesmo. Pressentindo a mudança na atmosfera, Evan se enrosca em uma de suas pernas.
"Cinco, talvez seis." Ruby não parece muito certa.
"Nós podemos encará-los, ma." Henry fala sem hesitar, mas Emma não demonstra a mesma confiança. Não apenas eles estão em minoria, como seu grupo possui muitas vulnerabilidades.
Uma porção de cenários toma forma em sua mente, enquanto ela procura saídas e apenas a voz de Regina parece trazê-la de volta à realidade.
"Emma, eu preciso que você se concentre. Você precisa levantar um escudo protetor em torno do grupo." Regina afirma sem interromper sua preparação.
"Você perdeu a cabeça? Tá esquecendo que eu não tenho mais um pingo de magia?" Emma argumenta, segurando sua espada com ainda mais firmeza. "Por que você não pode fazer isso?"
"A quantidade de magia que ainda reside neste poço é quase inexistente. Isso é muito menos do que eu esperava encontrar. O que significa que eu vou ter que usar muito mais da minha própria. Agora eu não posso invocar essa quantidade de mágica com o peso de um escudo protetor sobre os meus ombros."
"Tudo bem, eu entendo. Mas isso não muda os fatos. Eu ainda não tenho um pingo de magia em mim." Emma explica inquieta enquanto os latidos de Pongo se tornam mais frequentes e irritados.
"É aí que você se engana! Eu senti! Pode não ser muito, mas ainda está aí, dentro de você. Você apenas tem que encontrar uma maneira de acessá-la." Regina explica, muito focada em fazer seu plano funcionar para sequer perder a paciência com a falta de confiança de Emma.
Sob olhares cheios de expectativa, Emma fecha os olhos tentando invocar qualquer poder que seja ao menos parecido ao que Regina está se referindo.
Nada acontece.
O que Emma deixa bastante perceptível ao soltar um grunhido frustrado.
"Regina, isso não vai funcionar."
"Vai se você parar de gastar suas energias lutando contra mim e passar a usá-las em nosso favor!" Regina insiste, trabalhando com mais afinco e agilidade.
Emma fecha os olhos mais uma vez e, respirando fundo, tenta invocar esse poder que Regina diz residir dentro dela. Mas as luzes estão apagadas e a casa claramente desocupada.
"Eu não posso." Ela admite frustrada, e mesmo essa fúria quente que se espalha em seu peito não parece o suficiente para acender qualquer chama.
Ocupada demais para perder tempo com discussões inúteis Regina interrompe tudo o que está fazendo, atravessando o pequeno círculo que eles conseguiram criar, e segura o rosto de Emma com ambas as mãos - sem luvas - apenas para então pressionar seus lábios contra os dela.
O ato dura menos de um segundo e ao contrário de todos os beijos compartilhados pelas duas ao longo dos últimos meses, este não tem nenhum traço de paixão ou luxúria.
De fato, mais tarde, Emma provavelmente o descreveria como um gesto mecânico, praticamente uma manobra de ressuscitamento e não um beijo mágico de qualquer espécie.
Só que em vez de oxigênio, Regina parece inflar os pulmões com exatamente isso.
Magia.
Quando Emma apenas começa a se dar conta do que está acontecendo, reconhecendo o toque já familiar dos lábios de Regina contra os seus, a outra mulher já se afastou, voltando a se ocupar com suas próprias tarefas.
Mas isso é bom, porque Emma definitivamente pode sentir a mágica correndo por suas veias e não demora a que um escudo azul claro surja ao redor do grupo.
Com uma expressão estupefata, Henry não contém as próprias palavras. "Puxa, isso foi-"
"Eca." Evan declara pouco impressionado.
"Quente." Oferece Hook e imediatamente o rosto de Henry se contorce em uma careta. Ao mesmo tempo, Ruby não perde a oportunidade de acertar a cabeça de Hook com um belo tabefe.
"Cara, você tá falando das minhas mães." Henry reclama de Hook, sem disfarçar seu embaraço.
"Desculpa companheiro, lamento por isso." Hook parece perceber então sua falta de tato, oferecendo um sincero pedido de desculpas enquanto sua única mão tateia o ponto sensível onde Ruby o atingiu com força suficiente para deixar uma contusão.
"É melhor lamentar mesmo." Emma o ameaça com olhos fulminantes e Hook quase fica grato ao ouvir o som de algo se chocando contra o escudo mágico.
O grupo que os cerca não ousa chegar mais perto, mas decidiu finalmente começar seu ataque. Pedras e flechas são utilizadas como armas. Emma deduz que eles não queiram atrair o tipo errado de atenção com o barulho de tiros e armas.
O ataque obriga Emma a utilizar mais a fundo suas reservas de magia, o que não ocorre sem um grave esforço. Rangendo os dentes, ela ainda consegue dizer alto o suficiente. "Regina, que diabos? Por que você está demorando tanto?"
Depois de posicionar os cristais em torno do poço e derramar alguns dos ingredientes que ela trouxe consigo para reforçar as possibilidades de abertura de um portal por tempo suficiente para que todos possam passar, Regina finalmente parece estar pronta, segurando o feijão que conseguiu salvar na palma de sua mão.
"Todo mundo, em suas posições". Ela ordena, o que significa que todos devem estar prontos para o que está prestes a acontecer.
Quando ela deixa o feijão cair dentro do poço, uma explosão ocorre e um redemoinho verde abre no meio do chão, engolindo o que resta do poço e tudo ao seu redor.
De par em par o grupo se prepara para se lançar no meio do furacão.
Os primeiros são Ruby e Hook. De mãos dadas, eles olham um para o outro, tomando coragem para dar o passo necessário.
"Se sairmos disso vivos eu deixo você escolher o nome do bebê." Ruby grita em meio ao tumulto, e os olhos de Killian brilham quando ele sorri.
"Essa é uma promessa que você vai ter que cumprir, Red." Ele fala e pula dentro do portal, puxando-a consigo.
Então, é chegada a vez de Henry e Evan. O pequeno, no entanto, se mostra aterrorizado pelo portal, segurando-se no pescoço de Henry com todas as suas forças. Com ele no colo, Henry se aproxima de Emma que mesmo com sua concentração no portal, tenta se despedir de seus garotos.
"Evan, olha pra mim irmãozinho. Não tenha medo. Vai ficar tudo bem." Ela tenta assegurar, embora sua voz trêmula pelo esforço que está realizando, dificilmente possa ser considerada reconfortante.
"Nós temos que ir." Henry anuncia tentando se mostrar forte e corajoso.
"Eu te amo, garoto."
Respirando firme, Henry se posiciona diante do portal, com Evan ainda em seus braços, e parece prestes a pular, quando algo o faz hesitar.
Seus olhos buscam Regina. "Mãe, eu-"
"Nos vemos do outro lado, Henry." Regina lhe assegura com um sorriso que parece transbordar com o afeto que ela tem pelo filho. Isso parece o suficiente para encorajá-lo e sem perder tempo, Henry e Evan fazem a travessia, deixando para trás apenas Emma e Regina.
Uma vez chegada a sua hora, os poderes de Emma começam a oscilar.
"Emma, você tem que ir. Eu devo ser a última a cruzar o portal, a fim de garantir que ninguém atravesse depois de nós."
"Você só pode estar brincando comigo! Esse povo têm flechas Regina e Deus sabe mais o quê! No instante em que eu pular nesse portal, o escudo vai comigo."
"Vai ser uma questão de segundos. Menos do que isso realmente. Anda logo!"
"Regina-"
"Os meninos estão esperando por você. Você fez uma promessa ao Evan. Confie em mim, você não quer quebrá-la."
É o único argumento que Regina ainda tem em mãos e, para seu alívio, Emma morde a isca.
Quando Emma finalmente pula dentro do espiral verde, o escudo que ela estava criando desaparece e, embora Regina salte logo em seguida, selando o portal, ela ainda pode sentir algo afiado atingi-la em cheio.
O portal fecha logo após Regina mergulhar em seu âmago, mas o estrago está feito;
Ela atravessa ferida.
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Fim?
Ok, podem guardar as pedras e tochas, prometo pelo menos um epílogo antes de dar essa parte por encerrada. Afinal, que tipo de refeição seria essa sem uma bela sobremesa para fechar com chave de ouro?
Mas enquanto o epílogo não vem, que tal vocês me falarem o que acharam desse último capítulo? Ou mesmo de todo o percurso até então?
Até breve ;)
