Capítulo XII

Ciúmes

Fred atravessou as portas da Entrada do castelo, ofegante. Sem parar para descansar, aventurou-se por um dos carreiros, embatendo nos arbustos. Mantinha a cabeça bem erguida, procurando a loira.

Estacou, de repente, junto a uma estátua. Apoiou-se nela para tomar fôlego, sem tirar os olhos da rapariga que se encontrava sentada num dos bancos, com a cabeça entre as mãos.

Respirou fundo, tentando transmitir calma a si próprio, apesar de saber que, naquele momento, tal era impossível. Sentia o seu coração martelar de encontro às costelas, como se quisesse saltar da sua prisão. Engoliu em seco, cerrou os punhos com força e deu um passo em frente.

A Gryffindor erguera o rosto, subitamente alertada por um pisar de folhas. Fred olhou para o chão, esperando ver uma folha seca sob o seu pé. Com espanto, constatou que não fora ele que produzira aquele ruído.

O som repetiu-se, cada vez mais perto. A pessoa que produzia aqueles sons avançava na direcção da loira, num passo leve e seguro. Ouviu-se um agitar de folhas e, no momento seguinte, uma figura revelou-se, vinda de um dos carreiros.

Instintivamente, o rapaz recuou, escondendo-se atrás da estátua. Escutava atentamente, procurando qualquer sinal de perigo.

Oh, pardon. – disse uma voz feminina, com um sotaque francês.

Arriscou dar uma espreitadela. Viu Fleur Delacour, cintilante no seu vestido prateado, parada em frente de Mary Jane.

– Hum, não faz mal. – respondeu a jovem, sem esconder a sua surpresa.

Excuse-moi, eu non querria interromperr-te. – balbuciou a francesa, agitando o cabelo. – Eu tenho une cerrta curriosidadé en relation a ti. Tu es une Veela?

Mary Jane estava de olhos esbugalhados, sem conseguir acreditar no que lhe estava a acontecer. A custo, conseguiu conter uma gargalhada à menção da palavra Veela.

Hum, pardon, mais je ne suis pas une Veela. – respondeu, num francês irrepreensível.

Desta vez, foi Fleur quem ficou espantada. Sentou-se ao lado da Gryffindor, de olhos muito abertos, mas com um sorriso de agrado.

Oh, est-ce que tu parles français ? – perguntou, com vivo interesse. – Ta prononciation est très bonne.

As duas raparigas envolveram-se numa excitante conversa, em francês, para grande exasperação do rapaz, que não percebeu uma palavra. Desiludido, virou costas, mordendo o lábio.

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Finalmente, as férias de Natal chegaram ao fim, na opinião de Mary Jane. Após o baile de Natal, voltara a ignorar Fred, tentando castigá-lo por não a ter convidado para dançar e por ser tão cobarde ao ponto de não dizer, de uma vez por todas, tudo o que sentia ou queria. Preferia, até, que o ruivo a rejeitasse, desde que o dissesse! Já não suportava mais os seus silêncios envergonhados, os seus olhares intensos.

Tal como prometera, confiara a Lee o motivo da sua zanga, bem como os seus sentimentos pelo Weasley. Inicialmente, ele mostrara-se espantado, no entanto, aceitou aquele facto com um sorriso matreiro.

Naquele dia, a loira caminhava sozinha, em direcção à Sala de Transfiguração. Nos braços, transportava uma pequena montanha de livros, acabados de requisitar da biblioteca.

Ouviu passos, mas não se virou para ver a quem pertenciam. Provavelmente, era algum aluno que, tal como ela, se encaminhava para uma aula.

– MJ!

Ela estacou e virou-se, dando de caras com Lee Jordan, que corria na sua direcção, afogueado.

– O que estás aqui a fazer? Pensei que estivesses com os gémeos! – inquiriu ela, verdadeiramente espantada por vê-lo.

– Hum, precisava de falar contigo. – disse ele, assim que recuperou o fôlego. – Tive uma ideia brilhante, cintilante, reluzente, resplandecente, luminosa, …

– Ok, Lee, já percebi. – cortou ela, com um sorriso. – E em que é que essa ideia consiste? Não é mais um dos vossos esquemas, pois não? Aqueles que, frequentemente, acabam em detenção?

O rapaz sorriu misteriosamente, mas abanou a cabeça, negativamente. Agarrou-a pelos ombros e incitou-a a retomar a marcha, dizendo que falavam depois da aula.

– Não queres chegar atrasada à aula da McGonagall, pois não? – perguntou ele, piscando-lhe o olho.

Ela deitou-lhe a língua de fora, contudo, seguiu-o até à porta da sala sem fazer mais perguntas.

Durante a aula, a jovem teve de se esforçar mais do que o costume para se manter concentrada na matéria. O facto de Lee lhe piscar, repetidamente, o olho, de cada vez que ela olhava para ele, aguçava-lhe a curiosidade. Por outro lado, sabia que Fred a observava, sem se dignar a fazê-lo disfarçadamente. Pela primeira vez na vida, deu consigo a contar os minutos que faltavam para a aula acabar.

Aproveitando um momento em que a professora estava a reclamar com Alicia, Lee mandou-lhe um avião de pergaminho, transfigurado de modo a ganhar vida. A loira apanhou-o, rapidamente, e desdobrou-o no colo, tentando não dar muito nas vistas.

Celeiro das Corujas, a seguir à aula.

A jovem guardou o pergaminho no manto e ergueu os olhos para a professora. Como ela continuava distraída com Alicia, ergueu o polegar para Lee e anuiu.

A campainha tocou, alguns minutos depois. Contrariamente ao que era habitual, Mary Jane arrumou os livros, a pena e os pergaminhos à pressa, na sua mala. Saiu da sala antes de todos os seus colegas e dirigiu-se o mais depressa que conseguiu para o local combinado.

O que é que será que o Lee está a tramar? Tenho a certeza de que não é nada de bom.

Empurrou a porta do celeiro das corujas, com força. Imediatamente, ouviu um bater de asas, além de muitos pios.

– Demoraste. – disse Lee, assim que ela entrou.

A jovem franziu o sobrolho, confusa.

– Hum, como é que chegaste tão depressa? – inquiriu.

– Nós usámos a passagem secreta do quinto andar. – respondeu ele, gesticulando.

A loira olhou em redor, tentando descortinar a quem é que o amigo se referia, ao dizer "nós". George Weasley estava encostado a um canto, sorrindo inexplicavelmente. Acenou-lhe, ao que ela correspondeu com um sorriso tímido.

– Vão explicar-me, de uma vez por todas, o que é que estão a tramar? – perguntou, impaciente.

– Hum, sim. Começa tu, George. – replicou Lee, colocando-se ao lado do ruivo.

– Tudo bem. – concordou o rapaz, cruzando os braços. – Nós estivemos a pensar e concluímos que a situação actual começa a ser insustentável. Tu e o Fred não se entendem e, apesar de termos a certeza de que não fazes por mal, isto tudo acaba por abalar a nossa amizade.

A jovem empertigou-se, de imediato.

– Vocês sabem o quanto eu prezo a nossa amizade!

– Sim, nós sabemos. E é por isso mesmo que estamos aqui. – cortou Lee, numa voz ponderada. – Nós queremos que vocês se entendam. A nossa ideia consiste em fazer com que o Fred se decida, finalmente, a revelar-te o que sente!

A jovem revirou os olhos, um tanto involuntariamente.

– E como pretendem fazer isso? – retorquiu, mais calmamente.

– Usando o método mais simples e antigo de todos. – respondeu George, sorrindo maliciosamente.

– E qual é? – perguntou ela, levemente interessada.

Os rapazes esfregaram as mãos, olhando um para o outro. Trocaram olhares, durante uns segundos, antes de se virarem, de novo, para a amiga.

– O truque é fazer-lhe ciúmes. – declarou Lee, teatralmente.

– Tu sabes muito bem que o meu irmão é muito ciumento. – completou George, expectante. – O que achas?

Mary Jane começou a andar de um lado para o outro, ponderando aquela opção. Enrolou uma madeixa de cabelo, com o dedo, pensativamente.

– Bem, digamos que eu concordava… Como pretendiam fazê-lo?

Os rapazes sorriram, sabendo que já a tinham convencido. Contaram-lhe o seu plano, sem mais demoras. No final, detiveram-se a olhá-la, esperando a sua reacção.

– Hum, talvez resulte. – anunciou ela, erguendo uma sobrancelha. – Tu estás mesmo disposto a ajudar, Lee?

– Sim, claro. Vai ser um prazer. – respondeu ele, piscando-lhe o olho.

Ela sorriu, agradecida. Arrastou os amigos para um abraço apertado e demorado.

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Tinham combinado colocar o seu plano em prática na semana seguinte. A jovem estava deveras ansiosa e preocupada, sem conseguir prever qual a reacção de Fred.

Porque é que eu não escolhi Adivinhação? Agora, dava-me jeito uma previsão, pensava, sarcasticamente.

Continuou a agir do mesmo modo com o rapaz, animando-se com a ideia de que, em breve, tudo estaria acabado.

Finalmente, o dia tão esperado e temido chegou, muito nublado. A loira não conseguiu deixar de pensar que era um mau presságio, o que lhe valeu uma comparação com a professora Trelawney, por parte de Lee Jordan.

Os dois amigos caminhavam sem pressa, dirigindo-se a uma das muitas passagens secretas do castelo. O rapaz tentava animá-la, transmitindo-lhe segurança, no entanto, não estava a ter muito sucesso.

Passaram por trás de uma tapeçaria e encontraram uma parede de pedra, aparentemente sólida. Mary Jane acariciou uma das pedras, ao de leve, fazendo com que a parede recuasse, dando-lhes espaço para passarem.

Tinham chegado a um corredor comprido e bem iluminado. George já lá estava, encostado à parede, numa pose descontraída, que contrastava fortemente com a atitude da rapariga.

– Está tudo preparado. Eu vou, agora, buscar o meu irmão. Devo demorar cinco minutos, no máximo, por isso, estejam preparados. – recomendou, num tom rápido.

Os recém-chegados anuíram, sem necessidade de acrescentar algo mais. Ela estava ligeiramente pálida e tremia, ao de leve; no entanto, ostentava um ar decidido. O rapaz, por sua vez, mostrava-se calmo, mas também consciente da enormidade da sua tarefa.

– Ok. Então, até já. – concluiu o ruivo, abanando a cabeça, inconscientemente. – Ah, não se esqueçam de agir como namorados verdadeiros.

E saiu pela mesma passagem que eles tinham usado.

Os dois jovens ficaram sozinhos, trocando olhares. Aproximaram-se um do outro, até os seus corpos se tocarem.

– Tens a certeza de que queres fazer isto? – perguntou ela, numa voz fraca.

– Não te preocupes comigo. – replicou ele, alegremente.

Ela enlaçou-o pelo pescoço; ele rodeou-lhe a cintura. Já o tinham feito antes, como amigos; não era nada que lhes causasse transtorno ou vergonha.

– Quanto tempo é que já passou? – inquiriu Lee, levemente agitado.

– Talvez três minutos. – respondeu ela, suspirando.

– Hum, MJ, eu acho que nós deveríamos treinar um pouco. – sugeriu ele, timidamente.

Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

– Imagina que nos atrapalhávamos? O Fred ficava logo a saber que era apenas uma brincadeira! – continuou ele, clarificando as suas intenções.

Ela mirou-o incessantemente, durante alguns segundos, após dos quais anuiu, um tanto relutantemente. Precipitou o seu rosto para o do amigo e encostou a sua boca à dele, levemente. Ele empurrou-a até à parede, gentilmente. Permaneceram assim, como se estivessem colados, até ouvirem a parede de pedra a deslizar. Então, aprofundaram o beijo, o mais naturalmente que conseguiram.

– O Bagman não se safa desta! – dizia George, entrando na passagem secreta.

– Tens… – começou Fred, seguindo o irmão.

Mary Jane e Lee continuavam abraçados, beijando-se de olhos fechados. Ouviram a deixa de George sem manifestações, mas a loira teve de reunir todo o seu auto-controlo para não abrir os olhos, de modo a ver qual seria a reacção do irmão dele.

O corredor secreto estava mergulhado num silêncio constrangedor. A jovem começava a pensar, seriamente, que o seu plano não tinha tido sucesso, quando sentiu que Lee se afastava dela, com relutância.

Abriu os olhos, um pouco nervosa, e reprimiu um grito, a custo. Fred agarrava Lee pela parte de trás do manto e afastava-o dela, bruscamente. Tinha o rosto contorcido de raiva, o que lhe tornava as suas feições, anteriormente belas, demoníacas.

– Seu traidor! – bradou, enraivecido.

E esmurrou Lee com um punho firmemente cerrado, com tanta força que o atirou ao chão.

– Lee! – gritou a loira, tropeçando na direcção do amigo, prostrado no chão, com um lábio ensanguentado.

O rapaz cuspiu uma mistura de sangue e dentes partidos. Tinha um ar estupefacto e, sobretudo, magoado.

O ruivo preparava-se para voltar a agredir o amigo, mas foi impedido pelo seu irmão, que o agarrou, puxando-o para trás, com dificuldade.

Entretanto, a rapariga deixara-se cair ao lado de Lee, olhando-o aterrada. Ajudou-o a sentar-se, com carinho, e encostou a cabeça dele ao seu peito, preocupada. Fulminou Fred com o olhar, sentindo um misto de aversão e raiva.

O Weasley tentava desembaraçar-se do irmão, sem, no entanto, conseguir. Optou, então, por procurar a varinha nos bolsos. Como George não o conseguiu impedir, empunhou-a com ferocidade e apontou-a para um Lee enfraquecido.

– O que é que estavas a fazer com a minha miúda? – gritou, debatendo-se para o irmão não lhe tirar a varinha.

Sem hesitar, a loira colocou-se entre os dois rapazes, protegendo Lee com o seu próprio corpo. Retirou a sua varinha do bolso e apontou-a ao ruivo.

Subitamente, a varinha de Fred saltou da sua mão e foi cair a um canto. A rapariga baixou a sua própria varinha, num gesto rápido e decidido. Acabara de desarmar o amigo, usando um feitiço não-verbal. Ergueu-se, estreitando os olhos.

– A tua miúda? – guinchou. – E desde quando é que eu sou a tua miúda? Por acaso, já me perguntaste se eu queria ser a tua miúda?

George largara o irmão, pressentindo que este não voltaria a atacar Lee. Aproximou-se do amigo e ajudou-o a levantar-se. Amparou-o, ao perceber que ele mal se aguentava em pé.

De facto, Fred só tinha olhos para a rapariga, que avançava na sua direcção, completamente furiosa.

– Tu és um estúpido, Fred Weasley! – gritou ela, dando-lhe uma estalada, em simultâneo. – Eu odeio-te!

E passou por ele, correndo, sem olhar para trás.

Os três rapazes permaneceram em silêncio, estupefactos com aquela ocorrência. Fred massajava a face, do lado em que a jovem lhe batera. Tinha os olhos arregalados de medo e surpresa.

– De que é que estás à espera? – disse Lee, numa voz entaramelada. – Vai atrás dela, idiota!

Pela segunda vez em poucos dias, o rapaz seguiu o caminho que a loira tomara, sem conseguir deixar de pensar: Só faço porcaria.