Capítulo Doze

Harry desligou o telefone e praguejou.

Bem, o vazamento para a imprensa não era culpa de Cho, que jurou ter interrompido o contato com a imprensa no momento em que ele lhe pediu, na se­mana anterior, e Harry acreditava piamente nela. Além do fato de sua assessora de imprensa ser uma pessoa digna, recebia um excelente salário, e tinha de seguir e respeitar os desejos de Harry, mesmo que os desa­provasse.

Isso significava que os jornais haviam descoberto a história por conta própria.

Ele voltou para o quarto a fim de se vestir, e viu a cama onde havia feito amor com Gina há menos de uma hora. A marca do corpo delicioso ainda estava nos lençóis e travesseiro. Ela tirara suas próprias conclusões, acusando-o sem direito de defesa. Como ele havia men­cionado, Gina não trataria seus alunos daquele jeito. Mas com Harry, o homem com quem havia rido, trabalhado e feito amor, assumira que ele era culpado. Importava-se menos com ele do que com os adolescen­tes da escola que era paga para tomar conta.

Depois que se vestiu, Harry pegou o jornal que deixara cair no chão, e voltou a descer as escadas. Na cozinha, apanhou uma colher, abriu o freezer e tirou uma caixa de sorvete de chocolate. Frio, cremoso, divino.

Enquanto colocava o sorvete e o jornal sobre a mesa, viu a frigideira em cima do fogão. Pegou-a, e então ficou olhando para os ovos e para outra panela com água, por muito tempo. Este era o café-da-manhã que ela estivera prestes a lhe preparar. Lembrou-se da expressão de Gina, parecendo furiosa. E absolu­tamente aterrorizada.

Não muito tempo atrás, ele teria deixado Cho vazar a informação para a imprensa. A razão para não ter permitido isso dessa vez era porque o fato de ter se apaixonado por Gina o havia transformado num outro homem. Mas Gina não sabia que ele estava apaixonado. Portanto, não podia imaginar como ele havia mudado, motivo pelo qual deveria contar-lhe.

Pegou o telefone na cozinha e ligou para o celular de Gina. A ligação caiu na caixa postal. .

Gina, eu amo você, pensou, mas não correria o maior risco de sua vida falando com uma secretária eletrônica.

- Sou eu - disse, em vez disso. - Precisamos con­versar. Não sei como o jornal tomou conhecimento da história, mas vou descobrir. Retorne minha ligação, por favor.

Em seguida, tentou o telefone da casa dela, mas também foi respondido pela secretária eletrônica. Deixou uma mensagem similar. Ele lhe daria meia hora para chegar em casa e ouvir as mensagens, então iria até o apartamento dela e declararia seu amor. De alguma maneira, descobriria um jeito de dizer aquelas três palavras, de modo que ela não duvidasse de sua sin­ceridade. Então Gina sorriria e diria que também o amava.

Nesse ínterim, Harry perguntou-se como o jornal havia obtido aquela história. Ligou para Henry para avisar que chegaria atrasado e preveni-lo de que alguns repórteres poderiam aparecer no Magnum. Depois, serviu-se do sorvete e abriu o jornal.

Sua foto com Gina fora tirada durante o passeio deles no Hyde Park. Gina estava rindo e Harry inclinava-se para roubar-lhe um beijo. Eles estavam de mãos dadas. O paparazzo deve tê-los seguido o fim de semana todo, sem ser notado.

Ele leu o artigo, estremecendo diante dos pobres trocadilhos sobre cozinha, e de repente arregalou os olhos. O mistério estava resolvido. Soube imediata­mente como o jornal descobrira pelo menos parte da história.

Deixou o sorvete intocado sobre a mesa e dirigiu-se à porta.

Assim que o táxi parou diante de sua casa, Gina viu dois homens parados do lado de fora, um deles com uma câmera. Murmurou para o chofer:

- Na verdade, acho que gostaria de ir para o Museu Vitória e Albert, por favor.

Ela passou o dia no museu, vagando entre a multi­dão, olhando para os desenhos de Rafael, sentindo o anonimato seguro. A beleza das pinturas deveria tê-la acalmado, mas não surtiu o efeito desejado.

Mais uma vez, havia se apaixonado por um homem que a traíra ou, pior que isso, que pagara seus subordi­nados para fazer isso por ele. Gina se formara em Cambridge, mas era a pessoa mais tola do mundo.

Depois que o museu fechou, pegou o metrô de volta para seu bairro e caminhou alguns quarteirões para o apartamento de Luna. Se Luna a deixasse passar a noite e lhe emprestasse algumas roupas para trabalhar no dia seguinte, não teria de encarar ninguém da imprensa.

Quando virou a esquina da rua de Luna, todavia, viu um homem alto, moreno e delgado à porta da casa. Gina parou de caminhar e observou a amiga e o homem compartilharem um beijo longo e apaixonado na calçada.

Então, virou-se e voltou para o seu apartamento. Luna tinha sua própria vida amorosa. Não tinha de ajudar Gina a resolver seus problemas.

Cautelosamente, aproximou-se de seu edifício. Primeiro, verificou se o carro de Harry estava lá e percebeu que estava desapontada por não ver o Jaguar. Se ele fosse inocente, estaria tentando encontrá-la para explicar.

Olhou em volta à procura dos repórteres que vira naquela manhã. O local parecia limpo. De qualquer forma, pegou seus óculos de sol e colocou-os.

- Sinto-me uma daquelas agentes secretas - murmu­rou quando abriu a porta do prédio apressada e subiu correndo as escadas para o seu apartamento. Viu que a luz vermelha de sua secretária eletrônica piscava e tirou o fio do telefone da tomada. Examinou a campainha da porta, mas não soube como desativá-la. Ligou o apare­lho de som com música alta e foi tomar um banho.

Apesar de exausta, mal conseguiu dormir e ficou aliviada quando o relógio marcou seis horas da manhã. Ótimo, pensou. Se chegasse bem cedo na escola, po­deria preparar todas as suas aulas. Talvez fosse um dia sem surpresas.

Não havia ninguém do lado de fora do apartamen­to, mas Gina manteve um chapéu na cabeça de qualquer modo, enquanto caminhava para a escola e entrava pela porta dos fundos.

Estava escrevendo instruções no quadro-negro para a sua primeira aula quando a porta de sua sala abriu-se e Luna entrou, parecendo pálida e preocupada.

- Aqui está você - disse ela. - Venho tentando contatá-la desde ontem à noite.

- Desliguei meus telefones - disse Gina.

- Sei disso. - Luna aproximou-se e a abraçou. - Esti­ve preocupada com você, querida.

- Estou bem - respondeu Gina, engolindo em seco.

Luna deu um passo atrás e examinou o rosto da amiga.

- Não, não está. Você está em péssimo estado e não posso culpá-la. Parece que não dormiu a noite toda e, conhecendo você, não come há horas.

Comida? Era a coisa mais remota em sua mente.

- Não, estou bem.

-Não diga besteira. Pegue isso. E é melhor comer. Vou ficar de olho em você. - Ela tirou uma de suas barras de chocolate do bolso e entregou-lhe. Sabendo que não tinha escolha, Gina sentou-se, desembru­lhou o chocolate e mordeu um pedaço.

- Chocolate não é um café-da-manhã saudável - co­mentou Gina.

- É melhor do que nada. Ouça, detesto dizer isso, mas Slughorn quer falar com você sobre essa coisa toda no jornal.

Ela deveria saber que o diretor teria algo a dizer sobre os adolescentes aparecerem na imprensa nacional.

- É claro. Eu devia ter ligado para ele ontem, mas me distraí. Obrigada, Luna. - Ela se levantou.

- Espere, não vai a lugar algum sem isso. - Luna pegou a barra de chocolate que ela havia deixado sobre a mesa. - E vou ficar de olho.

Gina obedeceu e mordeu o chocolate enquan­to percorriam a pequena distância até o escritório do diretor.

-Então, como Harry encarou a intromissão da mídia? - perguntou Luna.

- Harry aumenta sua popularidade com a intromis­são da mídia - replicou Gina. - Ele deve estar ótimo.

- E quando você vai me contar sobre as suas noites picantes?

Gina fez uma careta e não respondeu.

-Na verdade, só quero saber se você está apaixo­nada por ele.

Ela engasgou com o chocolate e engoliu com difi­culdade. Percebeu que sua amiga a estava encarando com seriedade.

- Sim, estou. Mas...

Luna interrompeu-a, passando os braços em volta dela.

- Oh, Gina, isso é maravilhoso. Você merece felicidade, e ele é a pessoa certa para lhe dar isso.

- Ele não está me dando nada - protestou Gina. - Ele...

Elas chegaram à sala do diretor. Obviamente Slughorn as estava esperando e tinha ouvido o som de suas vozes.

- Gina - disse ele e ela sentiu uma ponta de apreensão. Ele era um homem afável e brincalhão nos assuntos do dia-a-dia, mas tinha pontos de vista defi­nitivos em relação à sua escola. - Obrigado por ter vindo. Por favor, entre e sente-se.

Luna deixou-os à vontade e saiu, fechando a porta.

Gina sentou-se à frente de Slughorn e logo viu o jornal com a matéria da escola, aberto sobre a mesa.

- Desculpe-me por não ter ligado mais cedo - mur­murou. - Desliguei meu telefone.

- Realmente tentei ligar para você, mas precisamos conversar pessoalmente, de qualquer modo - disse ele, brincando com a ponta do jornal. - Fiquei muito sur­preso ao ler essa história. Pensei que tivéssemos con­cordado sobre o nível de exposição na mídia.

- Sei disso e acredite-me: estou tão preocupada em ver Victoire e Teddy no jornal quanto você.

- Não tenho nada a ver com sua vida pessoal, é claro. E sabe que é uma professora valiosa para esta escola. Mas já recebi diversos telefonemas de pais, sem mencionar os de jornalistas. O pai de Victoire está infeliz com esta história, e os pais de Theodore estão preocupadíssimos com o quanto isso poderá afetar o filho. Especialmente quando os nomes das crianças estão ligados a uma história sobre a vida amorosa da professora deles.

- Sinto-me horrível sobre isso, Slughorn. Se ajudar, posso lhe garantir que não verei mais o Sr. Potter em situações privadas.

- Como falei, Gina, não tenho nada a ver com sua vida particular, contanto que não envolva a escola.

- Obrigada, Slughorn.

- Contudo, não posso deixar isso ir mais longe. O envolvimento de Harry Potter com a escola tinha a condição de que as crianças não fossem identificadas. Devido ao que aconteceu, prefiro que ele interrompa suas atividades aqui.

- Mas... e quanto a Victoire e Teddy?

- Ainda poderão competir. Ouvi dizer que fizeram um grande progresso. As crianças representam um crédito para a escola. Penelope Cleawater pode assumir o cargo e ajudá-los.

Gina revoltou-se. Slughorn não poderia impedir as chances de Victoire e Teddy daquela forma.

- Eles fizeram um grande progresso, mas apenas por causa de Harry. Sabe como estes dois alunos eram antes. E o último ensaio deles foi um desastre. Sem Harry, podem perder a confiança. E a competição é no sábado.

- Sinto muito, Gina. Não podemos correr o risco de manchar a reputação da escola. E, de qualquer forma, nosso acordo com o Sr. Potter foi violado.

Pálida de raiva, ela se levantou.

- Se esta é sua decisão final, terei de aceitar. Mas espero que você reconsidere.

- É minha decisão final. E, por favor, sente-se. Ainda temos outro assunto a discutir.

Ela franziu o cenho e sentou-se.

- Sim, Slughorn?

- Por que você deu uma entrevista ao jornal?

- O quê?

- Devo dizer que fiquei surpreso. Você sempre teve um comportamento profissional excelente. Por que concordou em falar com um jornalista?

Ela olhou para Slughorn, que parecia estar falando sério.

- Não falei com nenhum jornalista. Estive, sim, evitando-os.

- Então, de onde eles tiraram estas citações? - dis­se ele, entregando-lhe o jornal.

A mesma manchete. As mesmas fotos. Ela não tinha lido além do primeiro parágrafo. Acabou de ler o arti­go e ficou boquiaberta.

"Numa entrevista exclusiva, Gina Weasley contou ao jornal que Harry, considerado o quinto homem mais sexy do Reino Unido, conquistou seu coração. Apesar de Potter ter tido muitas mulheres no passado, Gina parece estar mantendo-o compromissado. É cedo para pensar em casamento, disse ela, mas quero ter filhos um dia. E o célebre chef parece estar apaixonado pela atraente professora, que obteve grau máximo em Litera­tura Inglesa na Universidade de Cambridge. Ele é muito talentoso, a bela morena nos contou com um sorriso."

- Oh! - exclamou Gina, chocada.

Slughorn estava claramente esperando que ela dis­sesse alguma coisa.

Ela perguntou-se como o jornal conseguira aquelas citações, as quais pareciam um pouco familiares. Então olhou no final do artigo e viu: Colin Creevey.

O dançarino de tango galês. Ele não aparecera de­pois do encontro. Ela dobrou o jornal e suspirou.

- Acho que cometi um grande erro.

- Está dizendo que não tinha intenção de dar essa entrevista?

- Pensei que estivesse tendo uma conversa em particular.

Slughorn assentiu.

- Entendo. Bem, isso torna tudo mais fácil. Deixe-me dizer, Gina, você é uma excelente professora...

Ele fez uma pausa e o estômago de Gina revol­veu-se.

- Mas?

- Mas você é o foco da atenção da mídia, mesmo que não tenha tido a intenção de dar esta entrevista. Não sei até onde esta história irá, mas neste momento há repórteres do lado de fora da escola. Victoire e Theodore são menores e podemos tomar providências para protegê-los de exposição pública. Você não é. Estamos em junho, Gina. Nada poderá desviar a atenção dos alunos que vão prestar exames públicos.

Ela viu o que estava por vir.

- Oh, Slughorn, não, por favor.

- Falei com o governador e decidimos que é melhor afastá-la da escola por algum tempo. Até que a poeira assente.

- Entendo - murmurou ela. - Isso é tudo?

- Sim - respondeu ele de forma empática. - Arran­jei alguém para cobrir suas aulas por esta semana, e então reveremos a situação na sexta. Luna Lovegood tomará conta do grupo sob a sua tutela.

Então Luna sabia. Não era de admirar que estivesse tão preocupada.

- Peço licença para sair agora. - Gina se le­vantou.

Slughorn fez o mesmo.

- Espero que tudo volte ao normal muito em breve. E é claro, mesmo que não esteja aqui, você deveria ir à Competição Culinária de Garotos no próximo sába­do. Afinal, acompanhou todo o processo.

Quando ela saiu, Luna a esperava no corredor.

- Gina, sinto muito. Tentei convencê-lo a de­sistir dessa postura.

- Fui tão tola - disse Gina, meneando a cabeça.

- Eu disse a Slughorn que você não deu essa entre­vista intencionalmente. Como eles conseguiram trapa­ceá-la? Ligaram para você ou coisa assim?

- Foi Colin. Sabia que ele era repórter?

- Quem é Colin?

- O dançarino de tango galés que você quis que eu conhecesse.

Luna arregalou os olhos.

- O dançarino de tango chama-se Cormac McLaggen- declarou Luna. - Pensei que, uma vez que você parecia gostar de Harry, não estaria mais interessada nele. Então tivemos uma gostosa brincadeira informal este fim de semana.

- Cormac? Ele não se chama Colin?

Gina encostou-se na parede do corredor, sen­tindo-se a maior tola do universo.

- O repórter era galês - disse Gina. - Somente falei com ele porque havia prometido a você.

Luna parecia chocada.

- Oh, meu Deus, Gina. Sinto muito.

- A culpa não é sua. É minha. Sou muito burra.

- Você não é burra. Está apaixonada. Nada mais. Gina passou a mão no rosto.

- Acusei Harry de vazar a história para a imprensa. E fui eu quem deu a entrevista. Oh, como fui tola!

A sirene tocou e o corredor encheu-se de alunos em seus uniformes cor de caqui. Todos olhavam para Gina quando passavam.

- Olá, professora, eu a vi no jornal! - gritou um deles.

- Recolha-se na sala dos professores - recomendou Luna. - Tenho de ir. Ligo para você mais tarde. - Deu um rápido abraço na amiga e desapareceu no meio da multidão.

Gina sabia como disfarçar uma dignidade que não possuía. Ergueu o queixo enquanto caminhava para a sala dos professores e cumprimentou cada alu­no pelo nome, evitando, disfarçadamente, as perguntas sobre o artigo no jornal.

Logo, parou de ouvir comentários. É claro que aqui­lo significava que estavam falando do assunto nas suas costas. Sabia que as notícias haviam se espalhado.

O único consolo era que sabia que Slughorn era um profissional competente e discreto o bastante para não mencionar sua suspensão para os estudantes.

Portanto, possuía tempo suficiente para sair da es­cola antes que os rumores começassem a espalhar-se. Mas, antes disso, precisava dar um telefonema. Espe­rou até que o último professor deixasse a sala, antes de ligar para Harry.

Faltava pouco para o almoço. O interior do Magnum tinha todas as mesas cobertas com toalhas brancas e vasos de flores no centro, e arte abstrata cobria as paredes. O centro da sala era tomado por um imenso aquário iluminado.

Gina mentalizava o que havia planejado dizer enquanto esperava por Harry.

Aporta da cozinha abriu-se e ele surgiu, vestido em jaleco branco de chef, que lhe enfatizava os cabelos escuros e os ombros largos.

Ela suspirou. A única coisa que não pudera planejar era como Harry reagiria ao vê-la. Com raiva, amargu­ra, decepção ou indiferença?

Em vez disso tudo, ele estava sorrindo.

- Gina - murmurou, o tom mais caloroso do que ela esperava.

- Sinto muito, Harry - começou diretamente. -Ti­rei conclusões precipitadas e o acusei sem ouvir sua versão da história. Você é inocente. A culpa foi toda minha.

Encostado no aquário com o sorriso amplo, ele disse:

-Quantas vezes você ensaiou isso? Parece um texto de livro.

- Algumas vezes. Mas, ainda assim, é sincero.

- Tenho certeza. - Harry se aproximou. - Você não sabia que ele era repórter, sabia?

- Não.

- É preciso tomar cuidado. Uma vez joguei dardos com um sujeito num pub e li minha conversa, palavra por palavra, no jornal, no dia seguinte.

- Bem, não estou no seu ramo de negócios e nunca pretendo estar, mas isso foi uma coisa tola a fazer. E eu não devia ter dito tudo aquilo para você.

Ele deu de ombros.

- Talvez não, mas não dou um passo atrás com publicidade há alguns anos.

- Você está agindo como se não se importasse, mas deve estar zangado.

- Estive. Porém, não mais. - Ele encurtou a distân­cia entre ambos, e tocou-lhe o queixo de leve. Estou muito feliz em vê-la. Passei um bom tempo ontem tocando a campainha de seu apartamento.

Ela deu um passo atrás.

- Preciso de sua ajuda, Harry.

- Qual é o problema?

- A escola já ligou para você?

- Não. - Ele puxou uma cadeira para ela e se sentou também.

- Eles querem que você pare de trabalhar com Victoire e Teddy.

Harry soltou um suspiro profundo.

- Bem, suponho que os dois alunos estejam quase prontos. Se quiserem praticar mais...

- Não é somente de prática que precisam. Precisam de estabilidade e de uma rotina. Se mudarmos tudo agora, Victoire perderá a confiança, e quem sabe o que Teddy decidirá fazer? Eles precisam de você.

Harry ficou pensativo por um momento.

- Eles podem vir aqui. Cancelarei as reservas para as poucas noites que faltam. As crianças estarão numa cozinha profissional. Quando se acostumarem com ela, isso ajudará.

- Obrigada. Ligarei para os pais deles a fim de pedir permissão.

- Contanto que você esteja aqui com eles, não vejo problemas.

- Eu gostaria de estar tão segura quanto você. Os pais das crianças podem não concordar quando desco­brirem que fui suspensa da escola.

Harry a fitou, perplexo.

- Você foi suspensa da escola?

- Apenas por uma semana. Até a poeira assentar. Isso me dá tempo de pôr minhas leituras em dia.

- Que coisa, Gina! Isto não está certo.

- Entendo as razões do diretor. Ele está colocando os alunos acima de tudo, e isso é correto.

- Você os está colocando acima de tudo também? Como se sente em relação a isso?

Gina viu o aquário escurecer diante dos olhos.

- Sinto-me péssima. A escola inteira está falando de mim às minhas costas. Minhas aulas terão uma substituta. Sou uma história, e não uma pessoa.

Harry levantou-se, pegou-lhe a mão e ajudou-a a fazer o mesmo. Então passou os braços em torno de Gina.

- O que importa - sussurrou, beijando-lhe a testa - é que estamos juntos outra vez. Tenho de lhe contar uma coisa.

- Não podemos ficar juntos novamente, Harry - dis­se ela. - Não é culpa sua, mas meus sentimentos me levam a fazer tolices quando estou ao seu lado. Arrisquei as chances de Victoire e Teddy. Meu emprego corre risco. E você - ela teve de desviar os olhos antes de prosseguir: - Feri você também. Isso tem de parar.

- Tudo isso vai se resolver. As crianças se sairão bem. Você voltará para a escola logo. - Ela sentiu as mãos fortes em seus ombros, puxando-a mais para si.

-Não. - Ela o empurrou. - Não é somente isso. Desde o momento em que conheci você, perdi o con­trole.

- Mas não se preocupe com mais nada. Relaxe. Seja minha. Confie em mim.

Gina meneou a cabeça.

- Não posso - murmurou. - Preciso entender o que está acontecendo dentro de mim. Tudo isso - ela fez um gesto com a mão - é demais. Você é tão intenso, Harry, seu mundo é tão aberto para todos e todas as coisas. Não posso mais competir com isso.

Ele não disse nada. O semblante era sério e os olhos pareciam sombrios.

Meu Deus, como ela queria abraçá-lo.

- Acho que você é uma pessoa incrível. E é um homem muito bom. Adorei estar com você, e também o respeito demais. - Harry recuou levemente diante daquelas palavras.

Gina sabia que estava dizendo palavras inade­quadas, as quais não diziam a verdade inteira. Mas, se dissesse a verdade, jogaria tudo para o alto e voltaria a ficar com Harry. E não deveria.

- Foi divertido - disse ela. - Mas agora terminou.

- Divertido? - ecoou ele, sentando-se na cadeira com ombros caídos. - Vou precisar comprar mais sorvete.

Ela pensou em perguntar o que Harry quisera dizer, mas isso a levaria a mais conversa e, quanto mais tem­po passasse a seu lado, mais difícil seria deixá-lo.

- Vou embora e entrarei em contato com os pais dos garotos, então - concluiu Gina. - Quando deverei dizer que você os receberá?

- Amanhã, às cinco. - Ele olhava para o tampo da mesa e parecia nem ouvir o que ela dizia. - Faremos isso na terça e na sexta, também.

Três noites de serviços do restaurante cancelados para ajudar dois alunos.

- Obrigada, Harry. Você é realmente extraordiná­rio.

Ele assentiu e de repente a olhou.

- Você estará aqui também, é claro.

- Eu...

-Alegou que eles precisam de estabilidade e de rotina.

- Sim. - Aquilo significava mais três ensaios com Harry, e depois a competição no sábado. - Está bem - concordou ela. Então se inclinou e deu-lhe um rápi­do beijo no rosto. - Vejo você amanhã - acrescentou e deixou o restaurante antes que o beijasse mais, antes que perdesse o controle outra vez. Porque, se perdesse, estava certa de que jamais o recuperaria.

Nota: Com um dia de atraso, peço desculpas. Meu PC queimou e estou me virando com o velho, que resolveu baixar um monte de atualizações que travam as tarefas. Tive que mudar de navegador e perdi a conta de quantas vezes tive que reiniciar o PC só pra configurar as atualizações.