18 de Fevereiro de 2004

Desde o terceiro ano de aulas, nunca mais Kurt calhara na turma de Dave o que o tornou numa espécie de Lobo solitário. Alguém que vageava na escola e dedicava-se inteiramente ao hoquei nos seus tempos livres, e a pedido dos pais tornara-se escoteiro. Sempre que via Kurt passar nos corredores junto a Mercedes não conseguir deixar de ficar um pouco triste, teria ele esquecido a promessa que fizeram quando os dois tinham 6 anos.

"Estavam os dois no seu momento de pausa entre as aulas e sentaram-se numas escadas. Kurt trazia consigo a pequena malinha dos Power Rangers totalmente enfeitada com uma estrela de massa com um "K", e um ponéi, e tirara de lá uma sande, a sua maçã e um pouco de bolo de chocolate para oferecer a Dave, afinal Kurt não era grande fã de chocolate. David olhava para a fatia e de vez em quando olhava para Kurt.

-Kurt?

-Sim, Teddy. - Dave olhava para o chão envergonhado, Kurt era o unico que lhe chamava por aquela alcunha e isso tornava a amizade dele tão importante. - É por causa do bolo?

-Kurt, és o meu melhor amigo.

-E tu és o meu, Teddy! - Dave sorriu

-Vamos ser melhores amigos para sempre não vamos, Kurt?

-Claro que vamos tonto."

Tentava arranjar coragem para abraçar Kurt e ajuda-lo como Kurt o ajudara quando Dave perdera os tios, mas essa coragem nunca veio. Nesse dia Kurt aparecia em todo o lado

E quando pensava que aquele dia não podia ser pior, lembrara-se da aula de Educação fisica que teria à tarde. Dave odiava as aulas de educação fisica, não porque não conseguisse fazer ou odiasse desporto, até pelo contrario, o seu tamanho e constituição fisica sempre o ajudaram nesse campo e geralmente conseguia tirar bastante boas notas, mas o seu maior receio vinha imadiatamente antes e depois da aula, os balneários.

Estava habituado aos comentários dos outros rapazes por causa do seu tamanho, era algo que não podia evitar, estava-lhe nos genes, tal como todos os homens da familia Karofsky, era alto e de ombros largos e para sua infelicidade um bocado rechonchodo. No entretanto estremecia sempre que sentia alguem a olha-lo fixamente no balneário, esperava um novo comentário, mais cruel. Como sempre esperara que os seus colegas saissem do chuveiro antes de ir ele mesmo para lá. Evitar estar muito com eles, era esse o plano, pouco lhe importava se lhe fossem pregar mais uma partida como faziam todas as semanas ao espalhar a sua roupa pelos balneareos e verter sumo ou sabão liquido por cima delas. Era o preço a pagar por "pensar que era especial" e não tomar banho juntamente com o resto dos colegas. Os seus pais haviam-lhe explicado que estava na idade de o seu corpo mudar e era normal ocurrerem coisas como nascimento de pêlos ou mudança de voz, mudanças que para sua infelicidade começaram por aparecer nele antes de qualquer outro dos seus colegas.

Enrolara a toalha à volta da zona peitoral, pegou no sabão e dirigiu-se para os chuveiros. Ligara o chuveiro e esperara que a água aquecesse um pouco, quando pareceu-lhe ouvir umas risadas. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, e olhara à sua volta e não via ninguem, se calhar estava tão nervoso que já imaginava coisas. Vendo que a água estava a uma temperatura aceitável retirou a toalha da cintura, pendurou-a na torneira do chuveiro ao lado, colocou-se debaixo do chuveiro. Começara a esfregar o couro cabeludo quando voltara a ouvir mais alguns risos. Pareciam mais nitidos, muito mais do que a ultima vez. O seu coração batia mais rapido, as mãos tremiam e tentava desesperadamente desligar a torneira e alcançar a toalha, mas a espuma que escorria pela testa já lhe tinha chegado aos olhos. Os olhos ardiam-lhe e palpeava as parede à sua volta para conseguir alcançar uma toalha, mas parecia que alguém já a tinha tirado da sua localização anterior. O volume das risadas aumentava deixando Dave à beira das lágrimas. Mas não podia chorar pois para além de isso provocar mais irritação por causa da espuma, Dave tinha a certeza que não estava sozinho.

-Está alguém aí? - dizia virando a cara para todos os lados, alguém tinha de estar ali e desligara-lhe as torneiras o que tornara a sua localização no espaço mais complicada.

Por todo o lado começava a ouvir risadas misturadas com grunhidos e percebera que a partir desse dia estaria marcado como alvo. Tinha uma nova alcunha: Chewbacca.