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Aiolia

[ passado ]

Aiolia sorriu ao ver mais um homem ir ao chão. Não era uma luta "de verdade", ninguém poderia usar seu cosmo, mas era impressionante como as amazonas se esquivavam rapidamente e conseguiam escapar de todas as tentativas de imobilização. A festa das estações tinha clima amigável, contudo qualquer homem que se demonstrasse muito agressivo era convidado discretamente para se retirar. Interessante como isso sempre acontecia nas lutas de Shaina. As risadas da garota humilhavam os guerreiros e eles tendiam a perder a cabeça em pouco tempo de disputa pelo bastão. Sabia que no último ritual ela não escolhera ninguém: será que dessa vez algum cavaleiro aguentaria aquele jogo até o fim?

- Mais um no chão - Gallan disse a suas costas. O guerreiro observava a luta de Marin, enquanto Aiolia observava Shaina brincar com os pretendentes brutamontes. Era melhor rir com o espetáculo da garota, do que deixar-se levar pelos ciúmes a cada concorrente que guerreava com a ruiva. - Você tem certeza que quer ficar aqui? Quer ir embora?

A pergunta de Gallarian* o fez cruzar os braços e se voltar para observar Marin. Para evitar uma reação acalorada por parte do amigo de seu irmão, não contou nada que se inscreveu para ser um dos pretendentes da amazona. Porém, pela sua conta mental, não restava muitos adversários, ele seria o próximo:

- Eu vou ficar. Podemos nos encontrar amanhã no porto?

- Quê? Mas - antes de verbalizar sua surpresa, uma amazona anunciou o nome do leonino. Gallan revirou os olhos e murmurou impaciente - Isso não vai ser um problema? Seu irmão sabe que voc...

- Está tudo pronto para voltarmos, já revisei os pormenores hoje cedo e Aiolos não precisa mais de mim - Aiolia começou a andar até o círculo de pedras que o esperavam e Gallan o seguiu. Ele retirou seus braceletes e outros acessórios que o identificavam como Cavaleiro de Leão e os entregou para a amazona que o chamou - Certo?

Gallan ollhou para a jovem, para o círculo de pedra e então seu olhar se fixou no topo da colina. O loiro seguiu seu olhar, a figura altiva de Mayura se destacava entre as colunas de mármore. Há mais de um ano não usava máscara em momentos de paz, porém sua expressão imponente conseguia causar mais incômodo do que o objeto misterioso. Ela observava as pequenas lutas atentamente e Aiolia entendeu o que Gallan pensava:

- Não é proibido - ele murmurou, cínico, e aceitou o bastão que a menina lhe entregou - Está tudo certo, Gallan, eu nem chegaria até aqui se fosse contra as regras. - ele deu uma piscadela e entrou no círculo.

Já estava escuro e as tochas iluminavam principalmente o local de cada luta, entretanto Aiolia pôde ver as expressões de reprovação nas anciãs que não usavam máscara. Dohko, o Cavaleiro de Libra, contrastava com o clima hostil, segurava sua filha no colo e sorria animado, encorajando-o a ignorar a multidão e se concentrar em sua adversária. Marin já se posicionava para enfrentá-lo com um bastão em mãos, tinha o cabelo preso em várias tranças e usava cores similares a de sua armadura de águia.

Eles se posicionaram e foi anunciada o início da luta. Aiolia sorriu, animado com a possibilidade de se despedir também dos treinos que tanto amava quando se reencontravam nas zonas de guerra. Marin era esquiva, imprevisível e lia muito bem os pontos fracos do adversário. E sim, não havia como negar que ele sempre a achou linda, mas suas habilidades como guerreira hipnotizavam-no. Era isso que Gallan nunca entenderia, essa luta não envolvia agressividade ou dominação, era uma dança entre guerreiros. Exigia inteligência, estratégia e bom-humor para tirar o bastão; parecia que seriam escolhidos os que ganhassem a batalha, mas muitas amazonas escolhiam guerreiros que derrotaram. Era a química de seus corpos que mais interessava durante a rápida disputa.

E os dois sempre tiveram essa interação. Quando ele percebeu seu disfarce em Atenas, quando conviveram na Vila das Amazonas... e todas as outras vezes que se reencontraram no campo de batalha. Aiolia sempre a respeitara como amiga e guerreira, mas era difícil ignorar o quanto sonhava com ela, o quanto pensava em suas longas conversas. Sabia que seria ridículo se deixar levar por aquela atração, especialmente quando foi obrigado a noivar com Lyfia. Mas... ainda assim ele não se conteve em incentivá-la a participar da última festa para conseguirem ficar juntos. Estavam treinando, um treino muito parecido com o que acontecia agora, e um clima se instaurou a cada proximidade de seu corpo. Subitamente ele não conseguia parar de pensar nos movimentos do quadril, pernas, em como era o seu rosto sem a máscara:

- Você está distraído... - ela sussurrou batendo com força em seu bastão. O movimento o pegou de surpresa e ele quase deixou o objeto cair.

O loiro deveria ter aceito o conselho de seus irmãos e ficado longe daquela festa. Talvez assim nunca teria aquelas lembranças de prazer, da intimidade que nunca vivenciou com outra mulher. E não estava nem um pouco ansioso para vivenciar com sua futura esposa. O pensamento o desanimou e Aiolia voltou sua atenção para a luta. Queria terminar logo e aproveitá-la com privacidade.

Focado, começou a se esquivar das novas investidas de Marin e aos poucos golpeava seu bastão, provocando o desequilíbrio da amazona. Pôde ver pelas frestas da máscara que Marin não estava mais tão indiferente à luta, seu olhar atento já buscava uma nova forma de derrotá-lo. O Cavaleiro sabia que precisava aproveitar antes que um plano se formasse naquele mente afiada. Sem o cosmo herdado de sua família, Aiolia perdia para ela na velocidade, contudo sua força era bem maior e teria que usar isso como vantagem. Iniciou uma série de golpes precisos e finalmente conseguiu atingir um ponto da arma que fez Marin perder seu vigor e largar o bastão.

Ele sorriu, cauteloso para não parecer arrogante, e aguardou a ruiva decidir se gostaria de continuar. A amazona limpou suas mãos e o encarou por um tempo. Aiolia sentiu o coração acelerar e não era pela adrenalina da luta. Marin fez um gesto com a cabeça, como se agradecesse, e olhou para a aprendiz que administrava a disputa. Disse com seu rotineiro tom imparcial:

- Tem mais alguém?

O loiro saiu do círculo de pedras ignorando o nome do aristocrata que tentaria sua sorte. Olhou-o de relance e evitou pensar no que aconteceria se Marin o escolhesse. Um dia seria assim, ela escolheria um desses palermas enquanto ele teria que se contentar com uma menina que não fazia ideia do que era uma guerra fora das paredes da sua fortificação.

Viu que Dohko o aguardava e o cumprimentou. Há poucas horas estiveram com Aiolos e outros Cavaleiros de Ouro discutindo como seria a segurança de Atena de agora em diante, quais líderes estavam dispostos a manter a aliança e sobre seu maldito casamento:

- Então, você parte amanhã?

Aiolia abaixou os olhos para Shunrei. A criança sorriu, estava aninhada no peito do Cavaleiro de Libra e parecia prestes a dormir. O guerreiro correspondeu ao sorriso e respirou fundo:

- Sim. Eles querem aproveitar antes que o frio e a neve tomem conta da região. - Aiolia olhou as mãos calejadas de Shunrei - Você já está treinando? Está gostando? - a garota murmurou um sim tímido e mudou sua atenção para a luta de Marin. - Eles realmente começam cedo aqui, não é?

- É por isso que os prateados superam qualquer guerreiro desses líderes - Dohko fez uma careta observando a arena de Marin, pelo som das pessoas, o aristocrata já havia perdido seu bastão. O moreno sorriu e murmurou - Você e Marin. Você sabe que tudo isso pode ter consequências, certo?

Ao fazer a pergunta, Dohko olhou para Shunrei e Aiolia se lembrou que a mãe da menina morreu durante uma batalha. O loiro nunca teve certeza se o Cavaleiro de Libra amava a amazona, mas sem dúvida a criança gerou um elo forte entre os dois:

- Eu sei... - pensou em como seria se isso acontecesse, se ele se tornasse um pai de uma criança dedicada a Artêmis. Seu peito se aqueceu e ele não conteve o sorriso. - Mas acho que Marin já escolheu continuar na guerra por mais um tempo.

E era verdade, a Amazona de Águia já havia lhe explicado como tudo acontecia. Ela tinha que escolher semanas antes do ritual se estava disposta a ser mãe naquele período ou não. As chances eram mínimas e ele realmente não queria pensar muito no que aconteceria se também fosse obrigado a ficar longe do crescimento da criança.

Dohko deu um sorriso misterioso e apontou para a arena. Marin falava algo com a jovem que intercedia as batalhas e ele soube que não demoraria para a resposta sair.

- Bem, boa sorte, Aiolia. Nos vemos em breve. - disse Dohko às suas costas.

A despedida do libriano o deixou intrigado com aquela palavra. "Sorte". Não sabia muito bem o que essa palavra significava nessa noite. A compreensão de Marin perante seu noivado sempre o surpreendeu. A ruiva nunca pareceu muito interessada em seu compromisso, nem quando o acompanhou às terras gélidas e viu as indiretas de Sisifos sobre como fortalecer as alianças de Atena. Ele deveria se sentir satisfeito por ter uma amiga que entendia as pressões de sua família, mas, se fosse o contrário, jamais teria dito um parabéns tão cheio de alegria como Marin o fez quando Lyfia se apressou em se apresentar como sua noiva.

Aiolia observou os homens ao seu lado e lembrou das histórias que ouviu sobre o escândalo que o Cavaleiro de Câncer fez quando não foi escolhido por Mayura. Algum dia ele faria o mesmo? Respirou fundo e aguardou enquanto as lutas ao redor se encerravam. De tempos em tempos, Mayura chamava as amazonas para que declarassem se tinham escolhido alguém e não tardou para que chamasse as 5 guerreiras daquele grupo. Marin foi a primeira:

- Águia, alguém compartilhará essa noite com você?

- Sim.

A líder das amazonas pegou a mão esquerda de sua pupila e questionou:

- Quem você escolheu?

- Aiolia de Leão. Defensor do Deus Apolo e da Deusa Atena.

Ela o convidou para participar, não poderia ser mais direta, e, ainda assim, o leonino sentiu seu coração acelerar quando ouviu seu nome.

Mayura o procurou na multidão e fez um gesto para que se aproximasse. Enquanto caminhava, o loiro estudou a face da Amazona de Pavão e não viu a reprovação que esperava. Engoliu em seco quando ela tocou sua mão e a colocou sob a de Marin. O breve toque despertou-o para a realidade que se seguiria. Perante guerreiros e aristocratas mais uma vez ele revelava seu interesse pela garota que o resgatou de Atenas. A amiga que compartilhou as melhores vitórias dessa guerra infindável e que deixou tudo mais suportável. Encarou-a, seus olhos azuis refletiam as tochas do local e piscavam mais rápido do que o usual. Estava nitidamente nervosa e desviou o olhar quando Mayura deu sequência ao rito:

- Aiolia de Leão. Você é um defensor de Apolo. Defensor da Atena reencarnada. Mas, agora que você se unirá a uma amazona, precisará jurar que respeitará a Deusa Artêmis e honrará seu templo, seu solo e suas regras. - Mayura deu um breve sorriso - É isso mesmo que você quer?

- Sim, é o que eu quero. - sua resposta foi mais intensa e audível do que da outra vez. Parecia que esse juramento tinha uma seriedade diferente de outrora, e sabia que era muito mais verdadeiro do que qualquer coisa que falasse em seu casamento. Aiolia sentiu seu cosmo arder em seu peito conforme as pequenas tiras de prata eram entrelaçadas em seu pulso e no de Marin. Todo guerreiro que chegara até aquele ponto, saberia quais as próximas palavras a falar. Ele não se preparou dessa vez, mas se lembrava bem do juramento da outra estação:

- Nessa noite de outono eu renovo meus votos com a deusa Artêmis e prometo respeitar e honrar sua amazona de prata - Sentiu uma eletricidade tomar conta de seu corpo e concluiu que o cosmo de Marin reagiu aquele novo juramento com a mesma intensidade que ele. Não apenas respeitava e desejava aquela mulher, compartilhava com a amazona de Águia toda sua fidelidade com a deusa Artêmis e seu intuito em proteger a criança que Atena escolheu para reencarnar. – Nessa noite de outono prometo respeitar, honrar e amar Marin de Águia.

As palavras eram muito mais reais dessa vez, muito mais palpáveis. Sabia que o sentido de "amar" naquele juramento era simplesmente uma menção da união de corpos prometida para a noite, contudo para os dois significava muito mais. Como se tudo ao redor desaparecesse e existisse apenas aqueles fios prateados além dos dois, Aiolia seguiu o fluxo do restante do ritual.

Observou a ruiva pegando a fatia de romã que Mayura lhe ofereceu. Ele deixou que ela colocasse um pedaço em sua boca e ignorou as falas finais da líder de prata. Concentrou-se nos olhos dela, seus dedos, naquele gesto íntimo, ansioso por fazer o mesmo com ela no quarto, sem a máscara que escondia sua beleza. A polpa estava ácida, mais amarga do que de costume, mas não ousou reclamar. Sabia que sentiria falta em seu futuro na terra gélida. Apenas quando terminou de engolir, Mayura se afastou e Marin pôde guiá-lo até as acomodações preparadas para receber os casais daquela noite.

O quarto era fracamente iluminado e mas assim como da outra vez havia uma cama e uma pequena banheira*, o vapor da água envolvia todo o cômodo com o cheiro de lavanda. Quando ele ouviu falar da festa, achava que tudo acontecia ao ar livre, sob a luz da Lua, mas Marin pacientemente lhe contou que a prioridade era preservar a privacidade das espiãs. E se a maioria das amazonas escolhia esse momento para engravidar, prefeririam fazer isso com um pouco mais de conforto:

- Bem, estamos aqui – a ruiva disse em um murmúrio, observava os fios de prata que os ligavam, o pedaço de romã, o quarto. Observava tudo, mas não o encarava. – Você veio conversar… vamos conversar.

O tom de sua voz, frio e distante, o desconcertou. Temeu que a mágica da promessa desapareceria ali, naquele momento e ele ficou em silêncio por um tempo, estudando o modo como ela tirava o elo prateado que os unia:

- Eu vim por você. – Aiolia cobriu a mão dela, interrompendo o desenlace de nós. – Aquela outra noite… Você não faz ideia do que significou para mim, faz?

A ruiva finalmente o encarou, mas não respondeu:

- Eu sempre te admirei, mas foi uma surpresa como tudo foi tão... – ele sorriu e ousou soltar o fio de prata para tocar o rosto dela. Ou melhor, tocar sua máscara - Eu não consegui parar de pensar em você desde aquele último beijo, Marin. Essa última estação, naquelas malditas terras, não consegui esquecer aquela noite. Até pensei em falar com Sisifos para rever o acordo e...

- Aiolia, por favor... – o sussurro o calou. Marin balançou a cabeça em negação, mas não se afastou. – Aquela noite foi muito especial para mim também. Muito. Mas eu não quero que isso prejudique seu compromisso. Atena ganhou mais homens graças a você, seu matrimônio é um triunfo para nossa guerra.

- Você não se importa mesmo que eu vá me casar com Lyfia? – perguntou e ela tentou se afastar, mas o fio que os ligava impediu. O leonino pôde ver um brilho de dor em seus olhos e ousou se aproximar mais, tocando seus ombros como uma forma de acalentá-la. – Marin?

- Eu me importo que você vai ficar longe. – ela confessou e passou a mão na máscara prateada. Conhecia Marin o suficiente para saber que já deveria estar cansada de usar aquele objeto, especialmente após tantos dias lutando – Eu me importo que seu foco agora será manter aquelas terras, independente do que estiver acontecendo por aqui. Mas somos guerreiros antes de tudo, nossos juramentos estão acima do que estamos sentindo.

Aiolia acariciou os fios de cabelo que caiam sobre seu rosto e ousou tocar na parte superior da máscara. Pressionou delicadamente a vestimenta prateada e, na ausência de protesto da amiga, aguardou que a máscara se soltasse:

- E o que estamos está sentindo? – perguntou estudando o rosto exótico da amiga. Seu coração disparou, era difícil continuar omitindo aquela sensação intensa que o dominava – Você sente minha falta como amigo?

Ela sorriu misteriosa e olhou para o fio de prata que enlaçava os dois.

- Você sabe que é mais que como um amigo, Aiolia. – fitou seus lábios e sussurrou. – Você não estaria aqui nesse quarto se fosse diferente.

A distância entre eles parecia muito menor agora. O leonino admirou seus traços exóticos enquanto pensava no que diria a seguir. Ele deixaria de ir para o Norte caso Marin dissesse que lhe amava? Não... doía terrivelmente pensar que ele jamais deixaria seu compromisso de lado e sabia que ela nunca assumiria qualquer tipo de compromisso. Nunca ouviu falar de um casamento envolvendo uma amazona. Aristocratas almejavam os filhos fortes gerados nessas festas de estações, mas poucos realmente gostariam de ter uma dessas mulheres comandando seus exércitos. E com certeza nenhuma delas ficaria em casa cuidando da administração de suas terras. Mas ele não era um aristocrata comum, era um guerreiro de Apolo e, se lhe fosse dada alguma opção, escolheria o espírito indomável de Marin para compartilhar sua vida.

Marin tocou seu peito, despertando-o de seus pensamentos sombrios:

- Eu sei que seu compromisso deve ser... bem, eu jamais fui treinada para algo assim e realmente sinto muito pela sua angústia. – a ruiva levou os dedos até seu rosto, acalentando-o – Mas estamos a sós aqui agora. Aqui não há Lyfia, não há Aiolos. Até o amanhecer eu só quero pensar em você, só quero sentir você... - a ruiva sussurrou e inclinou o corpo para ficar próxima de seus lábios.

O rapaz deixou-se levar pelo desejo latente e finalmente a beijou. Pouco a pouco, conforme o beijo se intensificava, abandonou a melancolia e se entregou ao momento. Envolveu sua cintura e sua nuca, mantendo-a próxima a cada carícia. Não demorou a explorar seus ombros, seios e quadril. Amava sua silhueta bem delineada e dessa vez faria questão de memorizar cada parte que a armadura escondia.

Marin também estava interessada em manter um ritmo vagaroso. Pacientemente tirou os adereços dourados que compunham a vestimenta do leonino. Ao expor seu peitoral, exibiu olhos cheios de desejo e passou a beijar e lamber sua pele, torturando-o vagarosamente. Ao tirar sua última peça, a ruiva sussurrou:

- Não sei como isso demorou tanto tempo para acontecer… - Ela sorriu e mordeu o lábio inferior. Aiolia queria entender melhor aquelas falas, aquela expressão secreta. Marin se referia aos últimos meses? Ou a atração que ele sentia a cada treino, a cada abraço que davam após uma vitória? Ele a puxou subitamente e a ergueu pela cintura, dando-lhe um beijo surpresa e colando a testa na sua:

- Eu bem que tentei te beijar assim que te conheci … – a ruiva riu revirando os olhos. Apesar do deboche, aceitou que ele a carregasse, envolvendo seus ombros e mantendo os rostos grudados. Aiolia a colocou na cama mantendo toda a proximidade, totalmente absorto por aquela paixão. Impulsivo, murmurou as palavras que poucos se atreveriam a falar para uma defensora de Artêmis – Eu te amo. - Não estudou seu rosto, não a deixou respirar, a beijou antes que pudesse refletir, ou fugir, de toda a intensidade que os envolvia. Sentiu os dedos de Marin prendendo sua nuca, as pernas enlaçando seu quadril e provocando-o a continuar a despi-la. Ouviu um gemido escapar de seus lábios e só então lhe deu fôlego e exigiu uma resposta - E você? Você me ama?

Marin tocou seu rosto:

– Cavaleiro de Leão… você sabe que sim.

A resposta sussurrada foi seguida de um beijo com doçura e por um tempo eles rolaram na cama até voltar a intensidade de outrora. Compensaram a pressa da primeira vez que seus corpos se encontraram e Aiolia conseguiu expressar toda sua saudade, explorando com a boca partes que nunca havia explorado.

Marin se entregou completamente a suas carícias e não escondeu seu prazer, incentivando-o a continuar com murmúrios e toques. Mais de uma vez ele se deliciou ao vê-la atingir o ápice e era difícil escolher a expressão que o marcaria mais naquela noite. Talvez quando ela ficou por cima e guiou o ritmo de seus corpos. Ou quando a excitação transformou os carinhos do banho em uma nova forma de prazer.

Aiolia não dormiu aquela noite. Observou-a cochilar em seu peito, o até que a claridade tomou conta do cômodo. Um brilho prateado chamou sua atenção para o batente da janela. Observou a romã do outro lado do quarto, estava sob a máscara e o fio de prata, não lembrava quando colocaram os três ali, mas tinha certeza que Marin não comeu seu pedaço. Ele que deveria ter colocado em sua boca e na discussão acabou esquecendo:

- Acho que… cometi um erro. – Marin murmurou abrindo os olhos e ele percebeu que havia algo diferente naquela sonolência. No tom triste de sua voz. - Como da última vez, eu me preparei para continuar lutando, mesmo esperando que você viesse de novo, mas…- A voz triste contrastava com o sorriso que Marin deu. A guerreira se sentou, hesitante, talvez envergonhada em continuar sua declaração e respirou fundo. - Você precisa ir.

Aiolia se inclinou e a puxou para si. Estava exausto, mas conseguiu entender o que sua amiga queria dizer nas entrelinhas. A conhecia bem o suficiente para saber que ela precisava falar mais:

- Eu imaginei que você tivesse escolhido continuar guerreando - ele sussurrou, incentivando seu desabafo – Mas eu ficaria honrado, se você tivesse deixado para os deuses escolherem o destino dessa noite e, bem…

- E tudo ficaria mais complicado? - Ela sorriu, tímida e balançou a cabeça em negação. - É melhor assim, você vai começar uma vida nova. É melhor que Lyf… - Marin crispou os lábios e pela primeira vez Aiolia desconfiou que ali estava um breve sinal de ciúmes. Subitamente ela saiu de seu abraço e se levantou - Eu só estou divagando, com sono.

- Marin, eu... - "eu também queria uma lembrança dessa noite" o leonino queria dizer, mas as palavras não ganharam som. Temeu que a machucaria mais, temeu que os deuses ouvissem aquele pedido e o torturassem com uma felicidade que não poderia aproveitar. - Eu também estou cansado.

Disse se levantando e deixando que o assunto se encerrasse. Se vestiram em silêncio, Marin colocou uma roupa nova e, só quando bateram em sua porta, Aiolia entendeu o que ela pretendia. O som era um sinal de alerta para os homens que ainda restavam no local, a maioria ia embora antes do Sol nascer, mas os que ficavam podiam tomar café da manhã na área em comum da Vila das Amazonas. Não era o seu caso, o barco partiria em pouco tempo, precisava ir e imaginou que agora seria o momento de despedida. Porém, como sempre, a Águia o surpreendeu declarando que iria ao porto se despedir.

O casal não se falou ou deu as mãos em nenhum momento durante o caminho. Contudo, quando Aiolia chegou perto da embarcação e viu que Sisifos e Aiolos o esperavam impacientes, ele fez questão de ajudar a amazona a descer do cavalo e acompanhá-la guiando-a pelo ombro. A noite o transformara de alguma maneira e concluiu que fizera o mesmo com ela também. Se antes temiam o que todos pensavam sobre o forte elo que tinham, agora não hesitaram em demonstrar qualquer afeto no pouco tempo que teriam juntos. O loiro ignorou a expressão de reprovação de seus familiares e se despediu com mais frieza do que gostaria. O rancor pelo acordo feito em seu nome pesava em seu peito e estava cada vez mais difícil de disfarçá-lo. Mal conseguiu encará-los direito, como poderiam ousar reprová-lo por querer aproveitar seus últimos minutos com a mulher que amava?

Quando a fitou por último, sentiu que não aguentaria mais segurar sua revolta. A ruiva o abraçou e, sem hesitar, ele a levantou do chão como fizeram algumas horas antes. Deixou as lágrimas se formarem no abraço e a ouviu murmurar:

- Eu posso te escrever?

Ele sorriu, incrédulo com as falas, e a colocou de volta no chão:

- Você sabe que sim, Águia – deu uma piscadela e tocou em seu cabelo vermelho. Estava rebelde, as mechas marcadas pelas tranças da noite anterior. - E eu prometo voltar.

Aiolia sussurrou e se afastou rapidamente antes que as lágrimas escorressem, ou que algum de seus irmãos idiotas falasse algo que provocasse a explosão de seu cosmo.

Gallan o aguardava paciente. Não havia reprovação em sua face, limitou-se a confirmar que tudo estava certo para partirem e sugeriu que poderia descansar nas próximas horas. Não olhou para trás, não olhou o céu ensolarado que abandonava. Seguiu a sugestão de seu homem de confiança e se isolou para deixar toda sua frustração vir à tona antes de chegar às terras gélidas.

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[ fim do passado ]

Aiolia fez questão de montar sua tenda sozinho. Obrigou seus guerreiros a irem comer o que Dohko havia preparado e rapidamente arrumou o lugar que o abrigaria durante a noite. Poderia dormir nas principais acomodações do templo, contudo queria distância da voz de Hilda, de Lyfia e principalmente da de Sisifos. Seu mau-humor estava no limite, lembrava-se muito menos do que gostaria daquela última noite com Marin. Não acendeu nenhuma lamparina com a esperança que isso intimidaria qualquer um que tentasse se aproximar e foi bem-sucedido boa parte da noite. Até que, horas depois que o silêncio prevalecia no acampamento, ouviu uma movimentação à frente de sua tenda. Havia exigido que nenhum guerreiro fosse desperdiçado protegendo-o, então estranhou a reação de seu cosmo e se levantou rapidamente.

A princípio achou que era um alerta tamanha a intensidade daquela vibração, contudo assim que se colocou de pé percebeu que era apenas o reconhecimento de um cosmo familiar. Engoliu em seco e puxou o tecido, confirmando sua suspeita:

- Marin? - murmurou enquanto sua visão se adaptava a fraca iluminação.

A ruiva parecia mais imponente do que nunca. Os olhos azuis faiscando toda a confiança que ele não viu da última vez que a confrontou no acampamento das amazonas:

- Eu sei que está tarde, mas… vamos conversar?


* Gallan é um personagem do Episode G, o nome dele inteiro é esse, pasmem...

* banheira = não sei como descrever melhor, mas é uma dessas banheiras da antiguidade que podem ser levadas de um lado para o outro.


Lembrando que::

Mayura é a Amazona de Pavão do Saint Seiya Saintia Shô

Sisifos é o Cavaleiro de Sagitário em Lost Canvas (por favor, vejam, leiam... sério, ele é muito mais legal que o Aiolos hahaha)

Régulus é o Cavaleiro de Leão em Lost Canvas

Manigold é o Cavaleiro de Câncer em Lost Canvas


Obs: meio brega todos esses juramentos, falas etc. Mas gostei de escrever e será ótimo continuar o próximo post sabendo o que vocês acharam. Tem muitos acessos nessa história e poucos comentários. Alimentem os fanfics e façam review =]! Agradeço a todos que comentaram no último post!

próxima postagem: 08.04.2018.