Capítulo 12

Mal chegou à sala de encontro, Elle foi interceptada por uma Irina muito perturbada. Será que a amiga estava assim por causa da "discussão"?

- Irina, desculpa aquilo de ontem, é que… - Ela foi interrompida:

- Cala-te, Elle, eu tenho uma coisa urgente para te contar! – A amiga passava a mão nervosamente pelo cabelo. – Ontem, saí mais cedo do baile, não sei se reparaste. Eu perdi-me e tu nem sequer imaginas quem é que eu vi!

- Quem? Não me digas que um dos Carrow te apanhou e te castigou e…

- Deixa-me acabar, Elle! Eu vi… Eu vi… Eu vi o Dumbledore. – Irina disse rapidamente. Elle ficou calada perante a afirmação da amiga. Irina tinha visto… Será que a amiga estaria a exagerar na sua investigação?

- Irina, o Dumbledore está morto, morto. – Elle disse seriamente. – Se calhar, tiveste uma alucinação. Acontece, o ambiente está demasiado pesado e andas a investigar sobre ele e percebes que ele poderia mudar as coisas. Desejas isso, eu percebo, eu também desejo. – Elle poisou a mão no ombro da amiga.

- Não foi uma alucinação. Eu sei o que vi, Elle! – Irina tirou a mão da amiga. – Eu vi com os meus olhos. A única explicação que eu encontro é que o Dumbledore está vivo.

- Talvez seja melhor tu parares a investigação, só por agora. Aproveitas para descansar e depois tens mais energia para continuar.

- Acredita em mim. Eu sei o que vi. E o que vi foi real. Pensas que eu não tentei encontrar uma explicação lógica? Eu tentei. Mas não era um fantasma e de certo também não seria ninguém transformado em Dumbledore. Toda a gente sabe que ele está morto. De que é que isso ia servir?

- Exactamente, Irina, ele está morto. – Irina baixou o olhar. – Mas vamos procurá-lo. Eu fico com as masmorras e os três primeiros andares e tu ficas com os restantes.

- Obrigada. – Irina recompôs-se. – Mas, e ontem? Aquilo deu resultado?

- Acho que sim, um pouco. Pelo menos já não desconfiam tanto de mim. Agora, vamos planear uma coisa. – Elle disse pensativa. – É um plano para ser posto em prática só depois…

No dia seguinte, na aula de Magia Negra, estavam todos a praticar feitiços de magia negra para o ar, pois tentavam aprendê-los, pelo menos alguns.

- Parem agora. – Carrow disse fazendo os alunos sentarem-se nas suas mesas. – Um dia destes, vamos começar a praticar a maldição cruciatus. – Os griffyndor trocaram olhares. – Esta maldição requer ódio, raiva. Não se pode fazê-la sem essas emoções. Quando estiverem a praticá-la terão que ter bastante atenção. Esta é uma maldição que vai ser muito importante para a vossa vida. Não se podem dar ao luxo de não a saber. Um dia vai ser-vos útil. E quanto melhor a fizerem na escola, melhor se vão saír na vida.

- Imagino! – Neville exclamou. – Agora, percebo como é que chegou a professor de Hogwarts! – Neville falava irónico. – Já que não é inteligente, não tem talento nenhum e é um péssimo professor, deve ser mesmo por causa de saber lançar um crucius que chegou a esta escola. A não ser, claro, que tenho algum talento escondido debaixo do manto. Mas não. O professor é daqueles que se gabam. E eu nunca o ouvi falar de grandes feitos, pelo menos que tenham sido seus.

- Longbottom! – Carrow exclamou aproximando-se dele. – Parece…

- O seu maior feito deve ter sido quando começou a andar, se calhar, mas nem isso parece fazer muito bem. – Neville disse.

- Crucius! – Mal Carrow pronunciou o feitiço, Neville caiu, contorcendo-se de dor, mas sem gritar, claro que com um enorme esforço por sua parte. – Talvez queiras ver que eu não sei apenas lançar a Maldição Cruciatus, Longbottom, aliás, no que toca a maldições imperdoáveis eu sei como proceder. – O professor aproximou-se dele, encostando-lhe a ponta da varinha ao seu pescoço, Neville ainda se contorcia de dor, a maldição ainda não acabara. Irina odiou os Slytherin, eles riam-se daquela cena. – Talvez eu te deva dar um castigo, um bom castigo, quer dizer, para ti não será muito bom, mas sim um pesadelo.

- Desculpe, professor, mas as aulas não são a melhor altura para dar castigos. – Disse Michael, um aluno Gryffindor, tinha que defender o seu amigo. Os Gryffindor, em vez de recearem castigos e maldições, estavam ainda mais animados com a prova de coragem de Neville.

- Talvez eu deva informar o director do sucedido. – Talvez Carrow se tenha apercebido dessa coragem, dessa animação, e ele sabia que isso não era nada bom para os seus interesses. De seguida, ele arregaçou a sua manga, revelando a marca negra. "Que horror", pensaram Irina e Elle ao mesmo tempo, assim como muitos dos outros, incluindo alguns Slytherin, mas ninguém mostrou esse pensamento. Ninguém teve a fraqueza, (ou a coragem), para o fazer.

- O que foi, Amycus? – Snape entrou pela porta um minuto depois, não parecia muito bem disposto, bem, na verdade, parecia frio como sempre. O homem não respondeu, saindo da sala com o director atrás de si, que fechou a porta.

- Estás bem? – Irina precipitou-se imediatamente para Neville caído no chão.

- Estou óptimo. – Ele respondeu, sentando-se. – Só agora é que ele parou a maldição.

- Vocês não se deviam armar em espertos, não podem vencer esta guerra. – Malfoy disse, um sorriso cínico nos lábios. – Não se iludem, ninguém salvará os traidores, muito menos os idiotas do Potter e dos seus amiguinhos. É melhor se se derem conta disso antes do fim.

- Cala-te, Malfoy, o que tu dizes pouco me importa, só mesmo tu para pensar que alguém se dá ao trabalho de te ouvir. – Neville enfrentou. – Acho que prefiro a maldição do Amycus do que ouvir a tua voz estúpida.

- E a minha? – Perguntou Parkinson, quase rugindo, a sua varinha erguida, pronta para atacar. – Crucius!

- Estúpida! – Neville falou, desviando-se. – És muito lenta, Parkinson, talvez devesses treinar mais.

- E tu és um covarde, nem sequer és capaz de atacar. – Ela respondeu furiosamente. – Provavelmente nem a maldição Cruciatus sabes usar.

- Ora, não é preciso magia negra para acabar contigo. – Neville provocou. – Tem cuidado com aquilo que fazes, já estás marcada.

- Por quem? Por ti? – Perguntou Parkinson sarcastica e retoricamente. – Não me faças rir, sempre foste um miúdo medroso e covarde.

- Olha a moral, Parkinson, olha a moral. Bem, talvez sejas a pessoa mais indicada para falar de medo e cobardia. Sempre foste covarde. – Michael ripostou.

- Tenham cuidado, Gryffindors. – Disse um Slytherin, levantando-se, seguido de todos os outros, Elle fez isso também, sabia que tinha de o fazer, caso contrário, seria muito mau para ela. – Vocês estão em minoria. – Desta vez, os Gryffindor levantaram-se, eram visivelmente menos, mas estavam muito mais decididos.

- Ah, já percebi, malta, eles querem humilhar-se, porque sabem que vão perder connosco que somos menos. Porque nós somos menos, mas somos mais capazes do que vocês. Não tenham dúvidas disso. – Irina estava assustada, não queria lutar contra a sua melhor amiga. Nunca pensara querer tanto que os professores entrassem na sala, ainda por cima, aqueles professores.

- Sentem-se todos. – Mandou Snape, abrindo a porta, não parecendo surpreendido por os alunos estarem a ponto de duelar. Todos obedeceram, ninguém queria problemas. – Longbottom, vem comigo! – Mandou Snape, levando Neville consigo e fazendo Irina olhar para os dois, o que será que iria acontecer a Neville? Snape virou a cara, olhando para ela e deixando-a mais uma vez surpreendida: como conseguia ele saber que o olhavam, precisamente ela? Ele parecia ainda mais estranho, como se quisesse descobrir alguma coisa dela.

- Então, o que se passou? – Perguntaram Ginny e Irina ao mesmo tempo assim que Neville entrou pela sala comum. – Como foi? Vais ser expulso? – Completou Irina.

- Não, vou uma semana para a floresta proibida. – Neville respondeu, sentado-se no sofá. – A começar por hoje, mas tenho a certeza de que valeu a pena. Estamos muito mais animados agora, não só os Gryffindors, mas os das outras casas, eles já souberam o que se passou. Tomar uma atitude mostra que nós somos fortes, que nós é que somos Hogwarts.

- Uau, Neville, isso foi lindo. – Disse Irina. – Tu tens razão. Hogwarts somos nós, não três professores estúpidos e terríveis, nem uma de quatro equipas, ainda por cima, a pior.

- Temos que combater isto com muita mais força até conseguirmos. Infelizmente, não podemos fazer grande coisas, mas temos que começar aqui, porque é aqui que estamos. – Ginny falou convictamente. – Se calhar, devíamos preparar a sala das necessidades para ensinar algumas coisas, como no quarto ano. A Magia Negra é ainda pior que as aulas da Umbridge, nós aprendemos bastante, temos que ensinar o que aprendemos áqueles que querem saber.

- Concordo plenamente! – Neville falou animado.

- Bom, eu como não estive cá no quinto ano, não sei muito bem o que isso é, mas eu quero saber mais, só que agora vou sair um bocado, tenho que ir ver se os meus pais me mandaram alguma carta, eles ainda estão um bocado chateados comigo. – Irina levantou-se e saiu a correr da Sala Comum.

Na verdade, ela mentira aos amigos, ela não ia ver se os pais lhe haviam escrito, apesar de ser verdade que eles não falavam com ela desde que ela entrara em Hogwarts, eles ainda estavam muito magoados por ela ter sido expulsa de uma escola tão prestigiada como Pahtellons, ela ia tentar descobrir Dumbledore. Ele tinha que estar algures por ali, ela vira-o, mas num sítio que ela não conhecia e ao qual não conseguia voltar. Que raiva! Devia ter memorizado o caminho percorrido no dia de Haloween. Mas como poderia decorar um caminho em que se tinha perdido? É claro que o que mais importava naquele momento era chegar à torre e não decorar o caminho. Nunca lhe passara pela cabeça ver um homem que julgava morto mas ela tinha-o visto e isso era demasiado. Nem sequer Elle, a sua melhor amiga, acreditava na sua sanidade.

Muito bem, quantas voltas tinha dado àqueles andares mais altos do castelo? Já perdera a conta às horas e agora rondava por corredores desertos, o que era bom, pois se Dumbledore estivesse escondido no castelo estaria num sítio isolado. Escondido? Mas por que razão estaria Albus Dumbledore, um dos mais poderosos feiticeiros de todos os tempos, escondido numa altura em que o mundo precisava urgentemente da sua presença e da sua força? Elle tinha razão, o que ela lhe dissera não tinha fundamento. Mas Irina acreditava em si própria, na sua lucidez. E a sua cabeça dizia-lhe que aquilo não fora nenhuma ilusão, nem fruto de um stress.

Irina acabou a sua investigação naquele dia depois de encontrar um corredor onde passavam colegas da sua equipa. Estava exausta e esfomeada. Precisava urgentemente de comida e descanso. Quando entrou na sua casa, Ginny foi ter com ela:

- Onde te enfiaste? Nem sequer foste jantar. – Irina sentou-se no sofá ao lado de Ginny. – Sabes que não devias fazer isso. Dás demasiado nas vistas.

- Eu sei… - Irina disse. – Mas é que… Eles nem sequer reparam na minha ausência, já somos tão poucos. E eu perdi-me de novo. – Ginny riu.

- Desculpa, mas é engraçado. – Irina riu também. – Bom, espera aqui. – Ginny subiu ao dormitório e voltou a descer com um pedaço de bolo e um pacote de bolachas. – Deves estar esfomeada.

- Ah!, obrigada. – Irina começou a comer. – Estou com muita fome.

- Elle, eu estava a pensar… - Laura tirou o livro das mãos da amiga chamando-lhe a atenção. – Eu percebi aquilo que fizeste no dia do baile. Só não percebo porque foi logo com a tua colega de Pahtellons.

- Era a que eu conhecia melhor para poder atacar e dar um arraso. – Elle explicou simples levantando-se e colocando-se em frente ao espelho. – Agora, sinceramente, não achas que andam todos a desconfiar muito menos de mim? Da nossa equipa, claro.

- Oh, claro que acho. Agora, olham para ti como se já tivesses dado uma prova de confiança. – Laura disse pondo-se por trás dela e sorrindo-lhe pelo seu reflexo. – Mas não te vou mentir. – Ela desfez o seu sorriso. – Isto tem que ser aos poucos. Não consegues "entrar" na equipa por uma cena apenas. Eles desconfiam demasiado.

- Sim. – Elle sentou-se na sua cama a ler o seu livro.

- Devias queimar esse livro. – Laura disse. – Se eles descobrem que estás a ler um livro muggle…Tudo cai por terra.

- Sim, eu sei. – Elle disse escondendo o livro. – Mas eu gosto muito dele e tem um valor sentimental muito importante. Foi a minha melhor amiga que me deu quando tive o meu único brilhante a Adivinhação. Foi no quinto ano, quando estava num dia muito mau.

- Elle, conta-me mais sobre ti. Eu sei tão pouco da tua vida. – Laura sentou-se a seu lado. – Do que é que mais gostas?

- Eu amo a minha família e os meus amigos. Adoro quiditch e xadrez. Adoro voar e jogar como seeker. – Elle respondeu. – E tu?

- Eu? Quase o mesmo que tu. Só não gosto muito de quiditch. Prefiro voar sem ter que fazer mais alguma coisa. Voar apenas pelo prazer que dá. Depois gosto de muitas mais coisas, de ler. Acho que tu também. – Laura disse com um sorriso. – Quando estou de férias, converso com uns amigos que são muggles e vemos séries na televisão. É muito giro. Depois vamos à praia e jogamos voley e futebol.

- É muito bom fazer desporto na praia. Eu também gosto de o fazer. – Elle disse. – E adoro ir ao cinema. – Laura acenou concordando com o gosto. – Vais de férias, este Natal?

- Sim. Tenho saudades da minha família. – Laura respondeu. – E tu?

- Também vou. Quero muito ver os meus pais e o meu irmão, que é o meu melhor amigo. Somos tão parecidos. Ele é um dos meus modelos de vida. – Elle disse-lhe dando um sorriso enorme. – Tu adorarias conhecê-lo. Ele consegue ser muito simpático para as pessoas. Ao mesmo tempo, temos personalidades parecidas e muito diferentes.

- Eu acho que a tua família deve ser toda muito simpática. Só por esta amostra. – Laura apontou para ela. Elle sorriu.

- Obrigada. – Cada uma deitou-se em sua cama e acabaram por adormecer pensando que mesmo no meio daquela guerra horrível que conseguia envolver o mundo inteiro em morte, nascera a sua amizade e cumplicidade.

Elle acordou muito cedo. Dissera que ia procurar Dumbledore a Irina para a deixar descansada mas prometera, e ela faria-o. Já tinha procurado por alguns dos andares mais altos com que ficara e agora ia percorrer as masmorras. Não conhecia bem o local, mas isso havia sido em todos os corredores por que procurava. Era difícil estar numa escola que mais parecia um labirinto. Nem placas tinha a dizer onde eram as coisas.

Irina também procurava. Aquela lembrança de Dumbledore naquele corredor corria-a por dentro. Era difícil ter que pensar que aquilo era impossível e que ela tinha visto. Para muita gente aquilo significaria que ela era maluca. Mas não, ela tinha a certeza.

Elle detestava as masmorras porque elas não davam grande luminosidade e ela não podia realizar o feitiço lumus. Sinceramente, ela até tinha medo de andar por locais que desconhecia. Podia ir parar a locais desagradáveis e ela não queria isso. Mas tinha que correr os seus riscos pela amiga.

Irina odiava procurar uma coisa e nunca a encontrar e era ainda pior quando se tratava de pessoas. Parecia que todo o seu esforço não dava em nada, que a pessoa que estava a procurar gozava com ela. Estava cada vez mais convencida de que tivera apenas uma ilusão, talvez Elle tivesse razão e ela estivesse a ficar demasiado obcecada.

"Chega por hoje", pensaram as duas amigas ao mesmo tempo.