Capítulo XI – I need to know you are there

- Sarek! Amanda! - gritou agarrando Spock pelos ombros, sentia como se seu peito fosse explodir pela excitação, precisava de testemunhas, precisava saber que não havia perdido sua sanidade.

Amanda chegou primeiro, com a preocupação de qualquer mãe humana, mas Sarek não demorou a chegar com o passo apressado, ainda que sua dignidade vulcana não o permitisse correr.

- Ele disse meu nome, ele me chamou por meu nome. – disse lacrimejando e com a voz trêmula inundada de felicidade.

Sarek olhou para Spock com desconfiança, e então para Kirk com o olhar cheio de pena. Vendo que Sarek não acreditava no que tinha dito, começou a sacudir Spock gentilmente.

- Spock, diga para eles, diga para eles quem eu sou, diga meu nome... – sua voz começou a fraquejar, agora estava chorando desesperado. Amanda se ajoelhou ao seu lado e o abraçou, chorando com ele ao ver a face sem expressão de seu filho.

- Almirante, pensei ter sido claro, sem seu katra Spock está vazio, incapaz de memórias ou raciocínio.

- Spock disse meu nome, Spock sabe quem eu sou, Spock não iria esquecer. – disse repetindo o nome como um mantra, como uma prece.

Não podia se permitir acreditar que tudo não passava de sua imaginação. Precisava disso, precisava que fosse verdade, precisava que Spock soubesse quem era. Caso contrário... o que significaria? Que estava perdendo sua mente? Que suas esperanças eram mesmo em vão? Que seus amigos estavam certos e que ficar ali era prejudicial para ele? Não, mais um milagre, precisava de mais um milagre.

O que ele estava fazendo com sua vida? Aquele não era Spock, não realmente. Precisa aceitar que Spock estava morto e não iria retornar, mas era tão difícil quando ele estava ali na sua frente. Se Spock realmente tivesse dito seu nome, o que isso significaria? Que ele estava se recuperando? Que um dia poderia voltar a ser quem era? Tantas coisas passavam por sua cabeça naquele momento que nem conseguia sentir vergonha por estar chorando e estar sendo abraçado em frente ao embaixador, que provavelmente considerava isso uma terrível demonstração da fraqueza humana em controlar emoções.

- Se você me dá licença, almirante, tenho muitos compromissos importantes para os quais devo retornar. No futuro seria prudente que se recordasse de minhas orientações sobre o estado de Spock. Se você não é capaz de lidar com a condição dele, talvez fosse prudente partir com seus colegas de volta para Terra. Tenham a certeza de que intercederei por todos vocês perante o conselho. – com essas palavras, Sarek virou-se para sair.

Kirk não conseguia entender como ele era capaz de aparentar tanta frieza. Anos convivendo com Spock o ensinaram que os vulcanos não são imunes às emoções como afirmam ser, mas que apenas tem mais controle sobre elas e são capazes de as suprimir melhor. Sendo assim, não podia deixar de imaginar se por um momento Sarek também teve esperança.

Afastou Amanda gentilmente. Já tinha feito uma cena grande demais, e precisava pegar mais sopa para Spock. Antes de se levantar, pegou o leve cobertor que derrubou ao sacudir Spock e o ajeitou novamente sobre os ombros dele. Era tão difícil cuidar de alguém que não reclamava de fome ou frio! Como deveria saber do que precisava? Tomado momentaneamente por um instinto, abraçou suavemente Spock, que permaneceu com o corpo rijo e não demonstrava de forma alguma ter percebido o que acontecia. De novo sentiu aquela estranha coceira no fundo do cérebro, um pouco mais forte, talvez, e mais dolorosa.

- Eu te amo, Spock, e mesmo que você nunca se recupere eu sempre serei seu. – sussurrou apenas para os ouvidos dele antes de se levantar.

Recolheu a vasilha que havia caído no pátio e já estava saindo da sacada com ouviu novamente a voz de Spock.

- Obrigada, Jim. – disse ainda olhando para o horizonte e sem demonstrar que percebia a presença de qualquer outra pessoa.

Dessa vez, atirou a vasilha e nem se preocupou com o barulho dela se quebrando. Jogou-se no chão, ajoelhando-se ao lado de Spock na varanda. Amanda, que ainda estava sentada do lado dele, já o segurava entre os braços chorando livremente. Ela também tinha ouvido, era um alívio. Ele não estava imaginando isso.

Até mesmo Sarek, que ainda estava próximo o bastante para ouvir o que foi dito, retornou. Ao invés de abraçar o filho como Amanda estava fazendo, ele desceu da varanda para que suas mãos ficassem na mesma altura da cabeça de Spock.

- Almirante, esposa, apesar de entender que suas reações emocionais são produto de sua natureza e educação humana, no momento seria necessário fazer algo que fosse útil para Spock.

Quando eles se afastaram com um pouco de hesitação, ele levou a mão direita aos pontos de fusão mental de Spock e fechou os olhos. Havia algo que se assemelhava a preocupação em sua expressão. A fusão foi breve, e quando se desvencilhou, desviou o olhar para Kirk com uma sobrancelha levantada.

- Fascinante. – disse simplesmente antes de partir sem uma explicação.

Kirk não pode deixar de sorrir ao ouvir a palavra tão familiar dita pelos lábios de outro vulcano. Pai e filho tinham mais semelhanças do que se permitiam acreditar. Agora que estavam novamente livres, Kirk e Amanda voltaram para perto de Spock, ora o abraçando, ora o enchendo de perguntas que ele não parecia disposto a responder. Nada havia mudado em sua atitude, fora as poucas palavras que disse e que pareciam não ser direcionadas a ninguém. Não sabiam o que estava acontecendo, mas pela primeira vez em um bom tempo nenhum dos humanos sentia que suas esperanças eram em vão, e ambos se sentiam recompensados por seus esforços.

Kirk nem ao menos tentou evitar a satisfação de saber que Spock havia dito apenas seu nome. De todas as pessoas de seu passado, ele reconhecia apenas seu parceiro. E o fato de que Spock sabia quem ele era antes mesmo de demostrar perceber o que acontecia ao seu redor ou qual era sua própria identidade fazia com que Kirk percebesse ainda mais a profundidade de um amor do qual já há muito não duvidava.