Blackamoor

Facas no escuro.

A sin for him Desire within A burning veil For the bride too dear for him A sin for him Desire within Fall in love with your deep dark sin...

Nightwish

Antes que ele pudesse falar, Tom encostou a ponta da varinha em seu olho direto, pressionando-a contra o osso da órbita, e fechou a porta atrás de si.

As mãos dele já estavam manchadas de sangue. Ele notou que Sirius estava olhando e deu um sorriso triste.

"Receio que Dunn não vá chegar aos vinte e cinco anos", sussurrou ele. "Duro, não é?"

Ele o empurrou para trás, pressionando a varinha contra o osso, e avançou pelo corredor. A dor que Sirius sentia no olho direito o estava cegando daquele lado, era como ter uma lâmina penetrando ali.

"Black", disse ele, com a varinha de Dunn na outra mão. "Se você der um pio, arranco seu olho e mato sua parceira antes que ela sequer sonhe em sair da sala, entendeu?"

Sirius fez que sim.

À fraca luz das velas que vinha do quarto, percebeu que Tom usava a camisa do uniforme de Dunn; ela estava escura de sangue.

"Porque o matou?" murmurou.

Tom levou a mão aos lábios quando chegaram no meio do corredor, e fez um gesto ordenando a Sirius que parasse.

Ele parou.

Ele não entendeu como pudera se deixar enganar por Tom; o cabelo que apontava por baixo do quepe era de um negro azulado e brilhante, e os cabelos de Dunn eram de um loiro dourado; os olhos de Dunn eram tão claros que se percebia de longe – os de Tom eram tão sinistros que faiscavam no escuro.

"Volte-se", sussurrou ele. "Devagar."

Sirius ouviu Dorcas suspirar na sala. "Francamente, Phil, estou muito cansada."

Ela não ouvira Moody. Merda.

Sirius girou o corpo devagar, e Tom passou a varinha pelo rosto dele, desenhando um rastro ardente de sangue e deixando-a deslizar por sua pele enquanto a cabeça de Sirius se voltava. Ele sentiu a ponta raspar sua nuca e se aninhar sob sua orelha direita, no espaço vazio entre o crânio e a mandíbula.

"Tente qualquer reação." Sussurrou ele em seu ouvido. "e esta ponta vai sair por seu nariz. Vá em frente, vamos. Bem devagar."

"Phillip", dizia Dorcas. "Por favor..."

Na sala, Sirius viu vultos deslizando nas sombras, pelas paredes atrás de Dorcas. Ele olhou ao redor. A sala tinha duas portas, uma que dava para a cozinha, e outra que dava para o escritório, dois metros adiante. Estavam a pouco mais de um metro da primeira porta quando Tom pressionou a ponta da varinha na pele de Sirius para fazê-lo parar. "Psst", fez ele baixinho. "Psst."

"Não", disse Dorcas, e sua voz pareceu cansada. "Não, Phil, eu não odeio você. Você é um homem bom."

"Eu estava lá fora, a uns poucos metros de você, de sua namorada e do pobre Dunn", disse Tom. "Vocês estavam discutindo sobre como proteger a casa de mim, e eu estava escondido na sebe do vizinho. Dava pra sentir seu cheiro, Black."

Sirius teve a sensação de uma pequena explosão quando a ponta da varinha, como um alfinete, entrou em sua pele, junto ao maxilar.

Ele não via saída. Se tentasse pegar a varinha no cós da calça, a coisa seria feia. Se tentasse meter o cotovelo no peito de Tom, o que era a primeira coisa que ele podia esperar, havia mais de cinqüenta por cento de chance de ele enfiar a varinha em seu cérebro. Todas as outras alternativas – porrada no saco, rasteira, giro brusco para a direita ou esquerda – tinham a mesma probabilidade de insucesso. Com uma mão ele segurava sua varinha, e com a outra ele segurava a varinha de Dunn, igualmente cortante, e ambas estavam encostadas em seu corpo.

"Se você me ligar amanhã de manhã", disse Dorcas. "a gente conversa."

"Ou não", sussurrou Tom. Ele deu um empurrão em Sirius.

Bem perto da porta da sala, ele desencostou uma das varinhas de seu flanco. A ponta da outra varinha se deslocou de sua orelha para a nuca, na conjunção entre a coluna vertebral e o crânio. Ele girou na porta para usar o corpo de Sirius como escudo, e nesse momento Sirius viu sombras encapuzadas subindo as escadas.

Tom olhou para o escritório. Ele empurrou Sirius novamente, e mais uma vez ele pensou em lhe dar uma cotovelada. Por cima do ombro de Sirius, ele apontou a outra varinha para a sala, mas Dorcas havia desaparecido. Ele olhou para o outro lado do corredor.

"Ela foi para o jardim?", sussurrou, colocando-se à esquerda de Sirius e apontando para o corredor, enquanto aumentava a pressão da outra varinha contra a cabeça de Sirius.

"Não sei", ele respondeu.

Ouviu sua voz antes de saber que ela estava lá.

Ela soou uns cinco centímetros atrás de Sirius, precedida pelo estalo de algo.

"Não se mexa, seu puto."

Tom enfiou tão fundo a varinha na base do crânio de Sirius que ele se pôs na ponta dos pés e sentiu sangue saindo de sua nuca e escorrendo pelas costas.

Com o movimento, sua cabeça voltou um pouco para a esquerda e ele pode ver Dorcas apontando a varinha diretamente para o rosto de Tom. Observou também a palidez dos dedos dela, crispados em torno da varinha.

Num gesto rápido, Dorcas fez a varinha que estava encostada nas costas de Sirius voar para longe da mão de Tom.

"Dorcas Meadowes", ele pronunciou. "Prazer em conhecê-la. Foi muito esperta em fingir que ainda estava ao telefone."

"Eu ainda estou no telefone. Ele parece desligado?"

Tom piscou.

"Não."

"E o que é que você deduz?"

"Deduzo que alguém se esqueceu de coloca-lo no gancho." Disse ele farejando o ar. "Estou sentindo cheiro de trouxa por aqui. Odeio esse cheiro."

"Os outros estão a caminho, Tom. Se entregue."

"Gostaria muito de fazer isso, Dorcas, mas primeiro tenho que matar você."

"Você não vai poder acabar com nós dois."

"Você não está raciocinando bem, Dorcas. Depois que acabamos com Jamie e Anne e os McKinnons – pode acreditar, não foi uma escolha nossa, mas deles -, tive vontade de cortar suas gargantas imediatamente. Mas aí uma pessoa" ele voltou a cabeça e olhou nos olhos de Sirius. "me convenceu a esperar."

"Ele está tentando enrolar você com essa conversa, Dorcas."

"Você acha que estou levando essa conversa a sério, Riddle?"

"Lembre-se do que vocês aprenderam todo esse tempo. Eu não trabalho sozinho."

Sirius olhou para Dorcas na esperança de que ela compreendesse que era verdade, que eles estavam ali e tinham subido para pegar Tiago. Mas não foi dado a ele essa oportunidade.

A impressão que se teve foi de que a parte superior da casa estava explodindo. Houve o barulho de vidro estilhaçando, o chão tremeu, e gritos roucos desconcentraram tanto Tom como Dorcas.

"Mate-o", disse alguém.

"O quê?" gritou Tom de forma atrevida, olhando ao redor enfurecido.

"Mate-o!"

A varinha de Dorcas disparou entre Tom e Sirius, e o clarão doeu como fogo nos olhos.

Sirius afastou-se com um movimento brusco e sentiu a ponta da varinha afastando-se de sua cabeça e caindo no chão atrás deles, enquanto os vultos desciam pela escada como fantasmas e atravessavam a sala, os feitiços relampejando pelas paredes, explodindo uns nos outros como fogos de artifício. Um deles foi atirado em cima da mesa com tanta violência que ouviu-se o ruído desagradável de osso partindo. O capuz que protegia o rosto da pessoa escorregou para trás, e Sirius reconheceu de imediato o rosto vazio que se revelou.

"Jamie!" ele gritou antes que pudesse se conter. "Você a matou, seu cretino!"

Sirius inclinou-se para frente, alguém pulou em suas costas. Ele deu-lhe uma cotovelada na cabeça, ouviu o estalar de um osso e um grito. A varinha de Dorcas disparou mais duas vezes, e houve o barulho de mais vidro estilhaçando na cozinha.

Sirius entrou ás cegas pela sala, depois as silhuetas começaram a se definir para além dos clarões que ainda o cegavam. Atracou-se com Mulciber, enquanto clarões cintilavam acima de suas cabeças.

As mãos de Mulciber cravaram em seu rosto, e Sirius agarrou a carne sob a caixa torácica, girou o corpo aumentando a pressão dos dedos sob suas costelas e jogo-o contra o chão.

Os clarões foram diminuindo e Sirius se deu conta de que Mulciber não se mexia mais. Ele não podia ter morrido, não era a intenção – ele deveria viver e ir para Azkaban. Ele deveria sofrer.

Uma varinha comprida alojou-se na garganta de Mulciber. Sirius ergueu os olhos esperando ver Tiago, Franco, Alice ou Dorcas, mas viu Moody.

"Levante-se, cretino", rosnou ele. "Sei que está fingindo."

Cinco pares de mãos agarraram Sirius pelos braços e pelo tórax e o afastaram de Mulciber imediatamente. Ele se desvencilhou de algumas e conseguiu pegar sua varinha. Voltou a cabeça e viu Dorcas sentada no chão, a varinha na mão apontando para frente, mas não havia mais nada em sua frente. Tom e os Comensais estavam fugindo para o porão, em direção ao esgoto, por onde, tudo indicava, eles haviam entrado. Dorcas largou a varinha e inclinou-se para frente, os olhos embaçados.

"Dorcas" disse Sirius. "Você está bem?"

"Que pergunta estúpida." Resmungou ela ofegante. "Olhem em todos os quartos."

"Onde está o cara que acertou você?"

"Saiu com os outros. Vá atrás deles!"

"Que se dane. Você está ferida."

Ela fez uma careta e ficou de pé, encostando as costas na parede. "Eu estou bem, Sirius. Vocês vão ou não pegá-lo?"

Hagrid aproximou-se de Dorcas e sua sombra a cobriu. Ele a levou lentamente para a cozinha, e um filete grosso de sangue permaneceu escorrendo pela parede.

Gideão ergueu a mão. Todos se mobilizaram. "Não se mexam", disse ele. "Ouçam."

Chegou aos ouvidos de Sirius um som tão profundo que era mais uma sensação que um barulho.

"Pode ser o metrô" disse Lupin. "Estamos embaixo de um túnel."

Gideão colocou o braço em torno de seu pescoço, puxou-o para perto e disse num sussurro: "Isso é Tom Riddle."

O local fedia a pedra úmida e ao almíscar de morcegos. Eles tinham interrompido a marcha e se agrupavam numa galeria de teto baixo. Sirius dirigiu o foco de sua varinha para uma pedra, onde havia uma inscrição em grafite. [i]"Merci à Dieu, m..."[/i] e ali se interrompia, como se quem escrevia tivesse ficado sem força ou sem luz ou sem tempo. As letras eram desenhadas à antiga, talvez do século passado, ou do retrasado.

"Ouçam...outra vez." Disse Dédalo.

Se alguém quisesse saber, na opinião de Sirius aquilo não passava de uma brisa atravessando os bueiros. Ele olhou para Gideão pretendendo lhe dizer isso, mas este levou um dedo ao lábio, enquanto a outra mão gesticulava para que ele mantivesse a varinha firme.

A voz de Beijo murmurou perto do ouvido de Sirius: "Eles estão por aqui."

Mas, depois de alguns instantes, não havia som algum além da respiração deles e dos passos apressados dos ratos. O rugido da rua lá em cima mal chegava a ser um sussurro. Água gotejava, ecoando como se em algum lugar mais abaixo houvesse um poço escondido, ou mesmo um pequeno lago.

"Apaguem as luzes.", disse Dumbledore. "Vamos em frente."

Os pequenos pontos de luz à frente de Sirius foram se apagando um a um, como velas morrendo num altar, e tudo ficou tão escuro que era como ter caído no espaço denso e negro. Eles começaram a andar, guiando-se pelos sons dos passos dos outros aurores, sentindo que cada vez mais o ar rareava e se tornava difícil respirar. Sirius não tinha idéia do quão abaixo da terra eles estavam, mas sabia que se algo saísse errado, se alguém se perdesse, seria muito complicado achar o caminho de volta.

A mão de alguém agarrou o ombro de Sirius, os dedos fazendo pressão, e a voz de Gideão ressonou lá na frente: [i]"Halte."[/i]

Havia alguma coisa ali, com certeza absoluta.

"Prepare-se", murmurou Tiago em seu ouvido.

Um clarão surgiu à frente deles, e Sirius viu o que poderia ter passado por um homem alto e elegante, de passos muito rápidos. No instante em que a luz explodiu, ele desapareceu, e Dédalo caiu no chão, desacordado.

As varinhas tornaram a se acender, e Sirius correu para Dédalo.

"Vá atrás deles!" disse Beijo, o empurrando de volta.

"Apaguem as varinhas!" exclamou Aberforth, sua voz grave retinindo pelas paredes.

"Eram dois deles", disse Tiago quando iam seguindo depressa pelo corredor, apagando sua varinha. "Merda, como vamos vê-los sem luz?"

Era uma verdade. No entanto, se ligassem as luzes, eles seriam presa fácil. De luz apagada, eles e os Comensais estavam no mesmo nível. Ou talvez não tanto assim. Um deles conseguira atingir Dédalo, e se movera com tanta pressa que dava a sensação de ter sido apenas uma miragem no escuro.

Ele ouvia passos às suas costas, mas não sabia de quem eram. Tiago estava ali, com certeza. O corredor se estreitou, o chão ficou muito liso de repente, como se estivessem caminhando em cima do gelo, e depois o espaço alargou-se tanto que Sirius suspeitou terem entrado numa câmara ou numa sala. Eles pararam. A sensação recomeçou, agora muito nítida. Sirius não conseguira identificar antes, mas dessa vez teve tanta certeza de que havia Comensais a uns três metros a frente que levantou a varinha e começou a trabalhar, e os outros fizeram o mesmo.

O barulho foi devastador; uma rajada de vento o atingiu no rosto, quando as paredes comprimiram o ar que se expandia. O estrondo violento foi acompanhado por fachos estonteantes de luz verde, vermelha, azul, seguido por ecos surdos, que zumbiam conforme os feitiços ricocheteavam nas paredes como balas.

Silêncio. Um uivo distante, cada vez mais forte. Emelina Vance abaixou-se e apanhou sua varinha, que havia voado na confusão. Acendeu-a. O raio de luz que ela emitiu brilhou como laser branco no meio da nuvem espessa de poeira que agora ocupava a câmara.

"[i]Não![/i]" gritou Gideão.

A luz oscilou no ar, depois se extinguiu. Do meio da poeira saíra uma faca, arremessada com a força incrível de um demônio e se movendo tão rápido que não era mais do que um clarão momentâneo.

O facho de luz da varinha tremeluziu, depois brilhou desordenado e logo caiu no chão. Rolou na direção dos Comensais, e durante segundos nada podia ser visto além de uma luminosidade débil no meio da nuvem de poeira. O facho de luz estava apontando diretamente para eles, de onde estavam os Comensais. De modo que Sirius e os outros estavam visíveis, mas não podiam ver.

Emeline começou a fazer um som, que era quase comicamente idêntico ao apito de um trenzinho de brinquedo. Mudou para um gorgolejo, um borrifo e o estrondo de um corpo tendo convulsões. Caiu para trás, sua cabeça batendo no chão com o ruído muito parecido ao de um ovo se quebrando.

Lupin caiu ao lado dela. Alice sufocando um grito, se aproximou. Suas mãos tocaram a faca como se estivesse em brasa. Ela fez uns ruídos débeis e estrangulados com a garganta, ruídos terríveis. Seus dedos tatearam ao longo do cabo. Os sons traziam em si uma pergunta, mas era uma pergunta que ninguém conseguiria responder. Não havia resposta. Como você retira uma faca que está enterrada até o talo no peito de uma pessoa?

Houve uma outra explosão de luz, esse da varinha de Beijo. Depois Gideão disparou mais duas vezes. Sirius provavelmente deveria estar horrorizado, mas sentia uma calma e um controle que absorviam por completo sua atenção. Seu coração estava afundado no peito por causa de Emelina. Mas ele não parou de lutar, nem por um instante, pouco importava o sofrimento. Observava a poeira procurando ver movimentos nas sombras.

Uma outra faca apareceu, arremessada na direção exata de Tiago. Sirius viu a arma deslizando com suavidade de uma folha sobre a água do mar, deslizando na direção do pescoço de Tiago. Sentiu a carne dele sob suas mãos, e então empurrou-o, e ele caiu no chão, e a faca caiu retinindo alto no túnel lá atrás.

Ouviu-se então um som, vindo do meio da luz amarelada, um som inconfundível: só podia ser um grito entrecortado de surpresa.

***

Emoções violentas invadiram Belatriz – o horror por ver um Comensal feito em pedaços ao seu lado, o medo de que os feitiços seguintes fossem matá-la, e então, sobretudo, surpresa diante do que vira Sirius fazer.

Ele tinha se movido com a rapidez de um Comensal. Ela conhecia bem a força dos aurores; ela não estava no corpo, nos músculos, nas armas – ela estava no coração, e em tudo que os rodeasse. Vira isso em Sirius muitas vezes, as coisas que era capaz de fazer se ameaçassem seus amigos ou a ele. Uma força capaz de matar, de fazer mau, de destruir e odiar. Mas mover-se daquela maneira? Voldemort tinha visto isso? Provavelmente não.

Depois houve a maneira como ele a afetou ao virar o rosto na sua direção, sem a reconhecer. Seu corpo respondeu a isso também. Não se tratava da atração que ela normalmente sentia pela beleza dele, mas um desejo intenso. Fazia muito tempo que não o via, parte desse desejo era por isso – por sua pele, seu gosto, sua temperatura - mas o modo como ele reagira, o ódio cego e centrado em seus olhos, como uma máquina que alguém acionara o botão de matar sem querer, a fazia transpirar, pressionava seus nervos, seu ar. Seu corpo pedia, implorava pelo dele.

Belatriz recuou, tão horrorizada diante desses sentimentos quanto diante do poder de Voldemort.

Virou-se e correu como uma flecha até o fim do outro corredor, dobrou a curva, mais outra, encostou-se na parede. Pôs-se a escutar – o gotejar eternamente presente, o corre-corre dos ratos, as vibrações profundas das vozes dos outros Comensais, enquanto eles gritavam uns aos outros.

Havia um bocado deles ali. Voldemort tinha de fato investido no término da Ordem naquela mesma noite. Ela sabia, depois de ter visto Sirius e os outros, que aquela guerra se prolongaria por muito tempo. Eles atravessariam aquele labirinto como a sombra vermelha da morte, como a mão de um deus tomado pela ira. Ninguém sobreviveria a eles, não com seus feitiços estrondosos que explodiam, com sua rapidez pessoal.

Atrás dela, uma outra rajada de feitiços ecoou, seguida pelo medonho baque do corpo de alguém sendo dilacerado.

Iam perder a batalha. Portanto, ela precisava fazer o necessário para proteger seu amo. Tinha que ir até o coração daquele reduto, se fosse necessário, unir-se a ele até que um daqueles raios a atingisse suavemente e tudo acabasse. Virando aqui, ali, ela ia mais depressa e mais para baixo. Logo o gotejar era geral, a água corria em riachos, e ela temia chegar à região alagada daquele reduto.

Em intervalos de poucos minutos, aquele rugido terrível fazia-se ouvir atrás dela, seguida por uma série de explosões menores. Os aurores estavam eliminando os Comensais, ou vice-versa. Não se surpreenderia se dobrasse num corredor e achasse uma carnificina no chão. De sua parte, os Comensais, que estavam apenas obedecendo ordens e não queriam de fato matar – a não ser os que deveriam ser mortos – estavam se comportando de maneira bem feroz e agressiva. Um após o outro, atacavam os aurores. Então, ouvia-se o rugir das varinhas e os ruídos distantes e líquidos de carne lacerando.

Ela seguia rapidamente, a cabeça baixa sob o capuz, quando de súbito pressentiu uma mudança ao seu redor. Estava num espaço muito mais amplo, e não apenas isso, podia enxergar alguma coisa.

Aquele não era um túnel feito pela modernidade para que água suja passasse, mas algo muito mais antigo. As linhas precisas de suas paredes, o arco baixo e gracioso do teto, sugeriam que mãos bem mais cuidadosas que a dos homens atuais tinha trabalhado ali. Colunas compridas erguiam-se do chão. Parecia uma floresta num mundo alienígena.

"Temos que sair." , disse ela a Rabastan e Dolohov.

Eles estavam encostados a colunas, os olhos brilhando dentro do capuz.

"E como?" disse Rabastan.

"Não", disse Dolohov em sua voz fria. Repetiu com mais força: "Não."

Terrivelmente perto, chegou-lhes o rugido das varinhas. Estavam tão próximos que um fraco clarão já era visível.

"Travers está ferido." Disse Dolohov.

"Todos estamos feridos", replicou Rabastan.

Belatriz olhou para ambos. "Onde ele está?"

Dolohov balançou a cabeça e sorriu. "Da última vez que o vi estava voltando para a superfície. Amarrado."

"Você não está ferida." Observou Rabastan.

"Voldemort." Disse Belatriz. "Voldemort, onde ele..."

"Lá em baixo. Lutando com o velhote." Disse-lhe Dolohov.

"Não seja ridículo."

Belatriz ouviu vozes. Estariam ali em poucos instantes.

Dolohov riu. Havia sangue no canto dos olhos dele. "O primeiro que entrar é meu."

Os aurores rastejaram em meio às sombras lá adiante, cinco deles.

"Venham", murmurou Dolohov. "Venham para mim."

"Está apagado" disse o que liderava o grupo, olhos brilhantes como olhos de gato na noite, cabelos desgrenhados e negros como piche.

Ele caminhou até o meio do clarão cinzento das antigas tochas.

"Olhem só, isso aqui é latim?"

Discretamente, Belatriz recuou em meio às sombras. Os aurores estavam agora na outra extremidade da câmara, talvez a uns cem metros de distância.

Dolohov aproximou-se deles, andando com passos largos até o meio da câmara. Por um instante, os aurores ficaram imóveis. Aproximaram-se uns dos outros. Ouviram-se os estalos, então, agourentos, fazendo eco. Dolohov deu gargalhadas roucas quando os lampejos passaram por cima de seu ombro e foram colidir com a estalagmite, fazendo Rabastan pular no chão. Os outros avançaram na direção dos dois; Sirius ergueu alto a varinha. Belatriz observou seu rosto, a cuidadosa escultura de fúria e dureza que era seu rosto.

As varinhas dispararam – e a própria Belatriz sentiu uma onda de dor na parte do quadril que estava exposta. Uns poucos feitiços tinham enchido o lugar com poeira, luz e ecos.

"Lá está mais um" disse uma voz. A voz de Sirius. "Lá, aquela sombra atrás da estalagmite."

Belatriz não podia perder mais um único instante. Puxou a varinha pelas vestes e deixou-a oculta entre as dobras da mesma. Se ela não fosse rápida o suficiente, ou se ele não a reconhecesse antes, estaria morta. Precisava de luz.

Ela estava bem atrás de uma das estalagmites, mas mesmo assim ele disparou, o rugido de seus feitiços fazendo com que a câmara ressoasse como o interior de um sino. Ela não foi ferida. Mas sua varinha saiu de sua mão com violência e ela sentiu a parede dura atingir sua coluna e depois sua cabeça.

Sirius disse: "Espalhem-se." , numa voz gélida e ressonante.

Chegaram mais perto de Belatriz, no entanto, Dolohov e Rabastan resistiam, e os outros aurores impelidos para o canto oposto da câmara, deixando Sirius caminhar isolado em direção a ela. O rosto dele estava tão determinado, tão verdadeiramente terrível no ódio que se inscrevia ali, que ela foi levada a pensar que ele a mataria de verdade, não havia nada que pudesse impedi-lo. Ela não se esqueceria disso. A idéia de que ele soubesse...talvez quase desejasse lutar com ela passou pela cabeça de Belatriz e dissolveu-se na imagem feroz dele.

Os archotes. Ela iria para perto deles, escapando pelo lado, e Sirius a veria.

Belatriz jogou o capuz para trás e correu.

***

A vulto vestido de preto moveu-se depressa para o lado. Sirius avançou em sua direção. Podia ouvir os outros lutando lá atrás, cada vez mais afastados, sendo empurrados para os corredores novamente.

Então ele sentiu. Estava ali, face a face com o Comensal, mas ele nada conseguia ver. Podia sentir seu cheiro, porém – não o fedor dos esgotos, mas um aroma diferente, intenso, complexo.

Quando o Comensal rosnou, Sirius acreditou ser aquele o som mais desesperado, suave e ainda sim letal que jamais ouvira. Mas ele cometera um erro. Devia tê-lo matado antes, logo que o vira se mexer, porque agora que estava sobre ele, se dava conta de que podia haver uma outra faca, e ele podia tentar sufocá-lo. Tomado por um ímpeto de defesa, Sirius passou a varinha pelo pescoço do Comensal, não para abrir sua garganta, mas para alertá-lo. Escutou quando ele soltou uma exclamação de susto que era estranhamente delicada. Delicada demais para um homem.

O Comensal murmurou alguma coisa em voz inaudível. Uma respiração, uma respiração como o farfalhar suave e aguçado de um bando de borboletas. Ele pensou: "Ele também está com medo – um Comensal que sabe o que é ter medo."

"Quer saber como é morrer também?" disse Sirius, empurrando com mais força a varinha na garganta dele, escutando o sibilo de dor. Ele não estava reagindo. Porque não estava reagindo? Chegou mais perto, mas não conseguiu entender o que o Comensal lhe dizia, mas viu de relance um rosto diante de si, uma lua brilhando na escuridão, com o cheiro doce de uma mulher – Sim, aquele era uma mulher. Um verdadeiro monstro. "Avada Ke..."

Algo macio entrou em sua boca de repente, ele sentiu o gosto salgado de pele, a pressão de um polegar em sua língua, e achou que ela estivesse tentando lhe engasgar de uma forma muito peculiar. Mas então ele entendeu, e sentiu um pequeno constrangimento por ser tão pouco esperto às vezes.

Sirius enfiou o braço atrás do pescoço dela e o ergueu. Os longos cabelos de Belatriz pesaram em suas mãos ao saírem de debaixo da capa, frios como uma colcha de cetim, e então o perfume de maçã espalhou-se pelas narinas dele, ao mesmo tempo em que o polegar dela deslizava por sua língua e para fora de sua boca.

Ele largou a varinha.

Você quase a [i]matou.[/i]

Sirius tentava respirar devagar, o gosto salgado das mãos de Belatriz fazendo sua boca salivar e o susto querendo secá-la. Ela se ergueu em sua direção, os lábios roçaram na boca aberta dele. A língua dela adejou a sua, ela girou a cabeça e suas bocas encaixaram. Muito longe, as rajadas e os gritos ressonavam como se fossem as memórias distantes de uma guerra, ou os ruídos de uma televisão ligada em algum cômodo de um casarão. Ele tateou o rasgo que havia feito na garganta dela, ainda quente de sangue.

Sentiu novamente o gosto salgado em sua boca, o sabor ácido e leve de lágrimas. Afastou-se dela, mas Belatriz beijou-lhe novamente, tão devagar que era como se o tempo estivesse parando aos poucos, depois ela sorveu suas lágrimas. Sirius rolou para o chão, sentindo-se pesado como chumbo, dolorido e ferido, arquejou, sentou-se e viu o chão ondular como a superfície do mar.

Você quase a matou.

Sirius balançou a cabeça. A câmara girou. "Saia daqui, Belatriz."

Ela encostou o lado do rosto no dele. Por um momento ficou ali, apenas respirando. Ele ergueu os olhos. Uma luz piscou lá na frente, dançando na escuridão. Ele a empurrou para longe se levantou.

"Meu Deus." Sirius murmurou. "Meu Deus do céu."

Belatriz continuava ali, e ele não conseguia ver nada nele a não ser o sangue jorrando de seu pescoço e ensopando suas vestes.

"Vá embora!", gritou Sirius, avançando na direção dela com a varinha erguida. "Vou matar você, estou avisando!"

Ela não se moveu. "Então vá em frente." , disse.

O corpo de Sirius estava entorpecido pelo terror. Coloquem todos os Comensais na minha frente, ele pensou, hesitando ao abaixar a varinha, mas não coloquem Belatriz na minha frente, não agora.

"Você vai matar meus amigos, Belatriz."

"Sei disso."

"Não posso deixar."

"Então me mate. Alguém vai fazer isso, e quero que seja você."

Ainda via a faca correndo em direção a Tiago. Os ruídos dos ratos e da luta lembravam os gritos de Jamie, o piso molhado da câmara o fazia pensar em sangue. Ele não conseguia se mover.

"Vou matá-los", ela repetiu, se aproximando. "Mas se você me matar agora, isso não muda. Eles vão morrer. Mas você pode arriscar."

Ele ergueu novamente a varinha, mas sabia que não a usaria, porque tinha esquecido como se faziam os feitiços.

"Escolha", ela murmurou tocando o rosto dele. "Vamos, escolha..." O resto foi abafado por um grito. E explosões. De repente ele sentiu vontade de desistir. Ela estava certa, a guerra não se resolveria se ele a matasse. Se arrependeria por isso mais tarde. Então uma frase engraçada veio em sua cabeça como se sussurrada do além: Ninguém tem culpa.

Sirius observava Mulkern brincar com o charuto. Não era permitido fumar no interior do Ministério, porque os duendes reagiam mal à fumaça. Mulkern acendeu o cachimbo.

"Sabe", disse ele. "Vocês estão bem a uns dez níveis abaixo para poder invadir uma propriedade do estado."

"Sobre que diabos você está falando?" disse Dédalo Diggle, virando-se para o olhar.

"Arrombaram a entrada do esgoto da Royal Opera House – você sabe o que é isso, Gideão? Já esteve lá? – vocês destruíram os encanamentos do prédio, e o que diremos aos trouxas? Que ratos gigantes andaram brigando por ali?"

"Era uma perseguição urgentíssima, Mulkern", disse Sirius. "Pelo amor de Deus."

Mulkern levantou a mão:

"Em seguida vocês invadiram o mais antigo ossuário do Reino Unido. Havia ali inscrições em latim e em outras línguas que até hoje a Museu de História Natural gasta rodos de verbas para desvendar. Foi isso que vocês fizeram.", ele apanhou um bloco de notas amarelo dentro da gaveta de sua mesa. "Uma perseguição urgentíssima. E como é que eu escrevo isso?"

"Aurores estavam numa perseguição urgentíssima a um grupo de Comensais da..."

Mulkern ergueu os olhos para Sirius. Sirius levantou as mãos e se calou. Moody completou:

"Perseguição urgentíssima a um grupo de Comensais da Morte liderados por Tom Riddle."

"Ou," disse Mulkern enquanto escrevia. "como ele fez questão de registrar com o sangue de nossos aurores nas paredes do ossuário – e iremos precisar fazer outro relatório sobre isso – Lord Voldemort." Ele coçou a barba. "Deixei-me ver aqui...Kathe!"

Kathe Terrel, sua assistente, entrou.

"Preciso de um formulário ICT", disse a ela.

"Que diabos é um formulário ICT?"

"Incidente de Contanto com Terroristas. Para mim esses Comensais não passam de terroristas desocupados."

Kathe deixou a sala.

"Voltaremos ao assunto da Royal Opera mais tarde.", disse Mulkern, lançando um olhar avaliador à Ordem. "Está faltando uma."

A idéia de que Dorcas havia tido um caso com Mulkern acendeu novamente na mente de Sirius. Havia umas trinta pessoas na sala, vários aurores estavam faltando, mas ele só sentiu falta de Dorcas.

"Meadowes está ferida.", informou Lupin.

Mulkern largou o cachimbo na mesa. "Verdade?"

Alguns assentiram. Sirius o encarou e disse:

"Emeline Vance está ferida, Beijo está desaparecido, Moody perdeu metade do nariz numa luta com Evan Rosier, Carátaco está expelindo pus por todos os poros a mais de duas horas, Lílian está sob custódia do ministério, em Hogwarts, de modo mais curto, eles não parecem terroristas desocupados."

Mulkern fez um ruído com a garganta e deu de ombros. "Sabemos o nome de alguns. Capturamos Travers e Rookwood – esse sacana estava infiltrado aqui e eu costumava tomar café com ele no Departamento de Mistérios – Macnair e Karkoff." Ele ergueu os olhos para Tiago. "Havia uma mulher, você disse?"

"Eles estavam usando capuz, Mulkern", disse Tiago.

"Mas você me disse que viu, certa hora, um par de cílios compridos brilhando [i]por dentro do capuz.[/i] Foi você quem disse."

"Então era uma mulher. Mas estou falando que não tenho certeza."

Mulkern virou-se agilmente para Gideão. "Vocês também estão trazendo um corpo de volta."

Gideão respondeu à pergunta implícita: "Timothy Dunn. Já cuidaram disso, deve chegar a Liverpool amanhã. Será entregue diretamente à família."

"À minha família."

Todos se calaram. O ar ficou denso de uma hora para outra. Mulkern não era o tipo que cara que mantém contato com a família e almoça na casa da mãe religiosamente todos os domingos, mas, de qualquer forma, Dunn era um sobrinho seu. Mulkern dissera a Sirius e Lupin que jamais tinha visto a cara do garoto, mas, de qualquer forma, tinha o seu sangue, e sangue era uma coisa de valor para Mulkern.

"Você escreveu uma carta?", perguntou Mulkern a Gideão.

Gideão não escrevera uma carta. Não podia fazer isso, como Mulkern sabia muito bem.

"Tem que ser escrito pelo escritório central."

Parentes próximos eram avisados por um escritório central quando aurores morriam ou eram feridos no decorrer de alguma operação.

"Você escreve. O escritório envia."

"Certo."

"Porque eu quero que você sinta o que aconteceu."

Gideão respirou fundo, por entre os dentes. Sirius sabia que Gideão não gostava de bater nas pessoas, principalmente em Mulkern, seu superior, mas a tendência de Gideão era partir para o lado físico quando se sentia ameaçado, e um insulto daquele era sem dúvida uma ameaça.

"Todos nós fomos feridos.", disse Gideão, incrivelmente controlado. "Passamos um mau pedaço lá em baixo. Foi simplesmente horrível."

"Vocês não podiam ter ficado longe do perigo? Se vocês tivessem feito um contato, em menos de minutos o Ministério teria mandando generais."

"Não podíamos." Sirius disse.

Todos voltaram-se para ele. Inclusive Mulkern.

O que mais tinha a dizer? Os burocratas nunca compreendiam as questões operacionais, nunca tinham compreendido e nunca viriam a compreender.

Mulkern observava-o cuidadosamente. Sirius de deu conta de que ele jogara lenha na fogueira, porque Mulkern estava provavelmente tentando fazer com que ele metesse os pés pelas mãos, depois da conversa azeda que tinham tido da última vez. Isso significava que, com Sirius, Mulkern não iria conversar. Não pediria um relatório. Seria um interrogatório, e ele estava em maus lençóis. A questão era, que tipo de lençóis?

"Bem, Black?"

Gideão interrompeu: "Nós não podíamos, general. Não gostei do sentindo das suas palavras. 'Quer que eu sinta o que aconteceu...' Que diabos significa isso?"

Mulkern virou-se para ele, mais furioso por ter perdido uma oportunidade de ferrar Sirius do que por qualquer outra coisa. "Você perde aurores!"

"Estamos lutando numa guerra!"

"Você e Dom Quixote. Não estamos seguros quanto à sua guerra."

"A Comissão está incomodando o diretor, e você está levando as sobras. É isso?"

Mulkern não respondeu, confirmando que o diagnóstico de Gideão era exato.

"Diga-lhes que os trouxas não precisam saber de nada. É como o negócio dos extraterrestres."

Mulkern ficou tão sério que o canto de sua boca estremeceu. Em seguida ele deu gargalhadas cada vez mais estrondosas. Sirius olhou para Lupin, que franziu as sobrancelhas.

"O negócio dos extraterrestres!", disse ele. "Não temos exatamente uma diretriz de um outro mundo reforçando o caráter confidencial neste caso específico, Gideão. Tudo o que temos são vocês."

"Como os trouxas descobriram, para começo de conversa?"

"Eles tem programas, Prewett. Eles têm tecnologia. Se a Companhia de Esgoto acha os subterrâneos de Londres em pedaços numa madrugada, na manhã dessa mesma madrugada os japoneses estão ouvindo sobre isso no jornal matinal enquanto comem cereal de arroz."

"Fiz o meu trabalho", disse Gideão. "Fomos bem sucedidos. Ponto final."

"É, o Quartel francês tem uma taxa de mortes de setenta por cento. Você perdeu quatro pessoas num grupo de onze. E não estou contando com Marlene. Isso é ser bastante bem –sucedido. Mas não da forma que queremos, Gideão."

"Todo mundo perde gente de sua equipe. E a dois anos atrás os franceses mataram vinte trouxas por engano..."

"Preferimos chamá-los de pessoas com sangue diferente. PSDs"

Sirius não gostou do tom daquela afirmação. Tiago molhou os lábios e pareceu sentir o mesmo incômodo.

"Quem decidiu isso?" perguntou Tiago.

"A Suprema Corte dos Bruxos." Mulkern rearrumou alguns papéis. "Eu consegui uma cópia do memorando deles pra vocês."

"Não sabia que tínhamos uma Suprema Corte.", disse Gideão com um sorriso irônico.

"Está vinculada ao Gabinete do Conselho-Central. Foi oficializada sob a DPB 1482, há um ano."

A Diretoria Presidencial dos Bruxos 1482 estabelecera uma pauta de práticas humanitárias para a Diretoria de Operações. Sirius entendia disso tanto quanto entendia de alemão, e já que não estavam lidando com seres humanos mentalmente sadios, deduzira que práticas humanitárias não tinham relevância em seu trabalho, nem para os Comensais.

Mulkern estendeu os papéis para Gideão, mas este os olhou como se estivessem lhe mostrado a capa de uma revista em quadrinhos.

"Fomos instruídos a usar esta pauta como base de recomendações à política a ser estabelecida." Insistiu Mulkern.

Sirius esticou a mão e apanhou os papéis.

"Quem escreveu isto?"

Mulkern não respondeu diretamente.

"Leia."

[i]Precisamos determinar se essa suposta sociedade constitui uma segunda categoria de bruxos. Eis as perguntas que deveriam ser feitas ao se elaborar esta recomendação: Eles têm total domínio da Magia Negra? Eles adotam um pídgin para comunicação entre si? São atrelados a algum grupo antigo e realizam rituais, cerimônias ou qualquer festejo de caráter agourento? Se todas essas coisas forem verdadeiras, ou a maioria delas, então deve-se concluir que se trata de um grupo específico de bruxos, não deixando de ser, sobretudo, bruxos.

Além disso, se há um embasamento teórico em suas crenças a respeito das PSDs, não fica claro que possam ser identificados, por essa razão, como assassinos ou terroristas, não mais do que qualquer outra sociedade com suas idéias particulares possa ser considerara nociva à sociedade.

Ao mesmo tempo, não há nada que nos impeça de alertar nossos cidadãos a respeito desse grupo e fornecer, por exemplo, manuais de auto-defesa. O direito de aderir a uma sociedade parece ser tão fundamental quanto o direito de repelir a mesma. Sua condição de seres conscientes torna impossível, porém, que simplesmente sejam destruídos para eliminar a ameaça.

Além disso, há pouco ou quase nenhum conhecimento sobre seus integrantes e suas origens, sobretudo sobre seus planos e, com base nisso, requer um nível de extrema proficiência de nossa parte e limitar ou expandir nossos recursos.

Em resumo, a existência dessa sociedade devia se tornar pública, junto com instruções referentes aos interesses comuns da mesma.[i/]

Sirius continuou olhando fixamente para o documento, não porque o estivesse lendo, mas porque estava paralisado de surpresa. Se qualquer outra pessoa da Ordem tivesse passado a vista por aquelas linhas, teria achado que acabara de cair numa mofa pregada pelo pessoal da Central de Obliviação. Por um segundo ele chegou a pensar se não era isso mesmo, mas Mulkern não parecia estar a fim de brincadeiras naquele momento, muito menos com ele.

"General, pode me dizer uma coisa? Pode me dizer se Franz Kafka ainda está vivo?"

"Ele está morto." Disse Mulkern, rindo.

"Eu só pensei que talvez ele tivesse escrito isso, você sabe, uma espécie de piada kafkaniana."

"Black, fui solicitado a informá-lo de que uma investigação de suas atividades está sendo instituída."

Sirius baixou os olhos novamente e releu em voz alta um pedaço do terceiro parágrafo do memorando. "'Sua condição de seres conscientes torna impossível, porém, que simplesmente sejam destruídos para eliminar a ameaça.'", ergueu os olhos para Lupin. "Adivinha sobre qual animal eles estão falando?"

"Black, não é hora para palhaçada.", rosnou Mulkern.

"Eles mataram sete pessoas, general. Isso não é palhaçada.", Sirius pôs a mão em cima do documento. "Isso aqui é."

"Não há provas."

"Não há provas.", disse Sirius. Estava pensando em pedir que trouxessem a penseira para a mesa, mas não estava disposto a relembrar qual a exata coloração da pele de Jamie depois que ela fora carbonizada. "E Mulciber? E Rookwood? E todos esses putos, não são provas?"

Mulkern lembrava um rabanete cozinhando.

Bubba entrou na sala. Sirius levou algum tempo refletindo sobre o que estava diferente nele, até que viu um ramalhete de cravos brancos despontando para fora do bolso interno de suas vestes, e isso levou seu raciocínio direto para Dorcas.

"Como ela está, Bubba?" perguntou.

"Aquela puta me deu um susto dos diabos.", disse ele.

Um nervo na testa de Mulkern tremeu. É, eles tinham tido um caso.