CAPITULO 11

Depois da Tormenta

Afinal Sophie percebera no que estava se metendo. Percebeu o quão grande eram as suas responsabilidades. Todo seu conhecimento de combate era requerido. E no ardor da batalha não era exatamente o Santuário que defendia, e sim sua vida.

Estava de joelhos, com o corpo inclinado, segurando-se pelas mãos. A respiração estava cansada. Da armadura restaram apenas pedaços.

As pernas estavam toda trincadas. O sangue escorria pelas rachaduras. Das mãos só a direita de se conservara, ainda que em pedaços também. A mão esquerda e todo o dorso se fora, deixando Sophie nua, a não ser por uma peça de tecido cobrindo-lhe os seios.

A pele branca estava suja de terra, sangue, suor e lágrimas. Os olhos se apertavam, buscavam uma referência para que não perdesse a consciência.

Erguendo-se sobre os joelhos viu que seu inimigo ainda não fora derrotado. O soldado de Ares levantava-se mais uma vez. Ainda que sua armadura avermelhada estivesse toda fragmentada, o guerreiro ainda mostrava-se bem forte.

Sophie lembrou das amigas. Psique e Vettra ficaram para trás, cuidariam de outros dois soldados na entrada da 1ª Casa, enquanto Sophie encarregou-se de ir atrás do guerreiro que seguira Casa de Áries adentro. A batalha desenrolara-se com aperto. Sophie empenhou-se ao máximo e conseguiu atingi-lo várias vezes de forma eficiente. Mas a esta altura ela já se mostrava quase em seu limite, enquanto que o soldado mantinha-se firme, ainda que ferido.

O cansaço tomava conta da amazona. Sentia um peso enorme sobre seu corpo, seus olhos pendiam, o pensamento tornava-se lento, confuso. Tudo o que ela queria era poder deitar, fechar os olhos e esquecer de todo o resto. Chegou a cogitar esta possibilidade.

Mas assim fizesse, o que seria dela? Uma derrotada. Não teria dado conta da missão que lhe fora confiada. O que os outros pensariam? O que Kamus pensaria?

O soldado foi para cima dela. Com um golpe a derrubou no chão. Ficando de joelhos no chão, pôs-se sobre ela. As mãos pesada começaram a apertar o delicado pescoço.

O ar começou a faltar enquanto o raciocínio disparava.

Tinha que resistir. Tinha que provar a Kamus que ela era capaz. Era por Kamus...

"...saiba que não vou poder sempre surgir e te salvar. Sei que há algumas semanas você era uma aprendiz que lutava sabendo que era um treinamento. Não tinha noção do perigo real, ainda mais com o molenga do Cristal! Agora a ameaça é real. Não é fácil, mas você vai ter que encarar..." – lembrou-se do que Kamus lhe dissera.

Oras! Quem aquele grosso pensava que era? Quem era ele para cobrá-la alguma coisa? Se ela tinha que provar sua força não era para aquele rude, frio e sem sentimentos!

Era para ela mesma! Ela mostraria que podia dar conta de qualquer inimigo! Ela tinha sim noção do perigo real! E Cristal havia sim lhe ensinado tudo certo! Como devia ser. Não era aquele homem de coração gelado que a ensinaria alguma coisa! Ele ia ver!

- Eu vou te mostrar! Você vai ver! – gritou Sophie com o fôlego que lhe restara.

- Hã? Ver o quê? – perguntou confuso o soldado de Ares.

Tateando ao redor a fina mão de Sophie encontrou um pedaço de pedra. Com toda a força bateu a pedra contra as têmporas do soldado. Com um estrondo seco o homem tombou sangrando para o lado.

Imediatamente Sophie levantou-se. Levou a mão à garganta e tossiu, buscando o ar.

O homem urrava de dor e tentava estancar o sangue que esguichava de sua cabeça com as mãos. Mas ainda sim ele levantou-se e avançou aos berros contra Sophie.

A imagem terrível do cavaleiro avançando como um animal contra ela, enquanto sua cabeça estava aberta esguichando sangue, assustou a amazona. Mas não a impediu de, num ato reflexo, explodir e projetar seu cosmo contra ele.

- Aaah!

Uma energia clara foi lançada de sua mão e congelou o vapor de água do ar em inúmeros cristais de gelo, que avançaram contra a pele desnuda do inimigo e se cravaram em sua carne.

- Arrrgh! – gritou o homem de dor.

Sophie utilizou-se mais uma vez desta técnica de criar cristais. Desta vez fez formar-se em suas mãos uma grande lança de gelo. Empenhando toda a força avançou contra o homem. A lança lhe atravessou o abdome e o prendeu contra a parede.

E então se afastou. E após o momento de fúria, tendo retornado a si, contemplou horrorizada o havia feito.

O homem agonizava. Afiados cristais de gelo estavam cravados em seu corpo, e uma lança atravessara-lhe a barriga. Sua mão se estendia a ela e seus olhos brilhavam, como se pedisse por misericórdia.

O coração da amazona apertou-se em um momento de piedade. Os olhos dela se encheram de água. As mãos tremeram indecisas entre executar ou ajudar. E decidiu fugir.

Não agüentando mais a situação correu para fora da casa. Parou nas escadarias que levariam a Touro. Inspirou fundo o ar gelado da noite. Enfim encontrara uma atmosfera tranqüila.

Jogou os cabelos para trás e passou as mãos feridas sobre o rosto sujo. E então deixou a cabeça pender para frente e se começou a soluçar em meio a lágrimas. Pesarosa, lamentava o seu limite enquanto guerreira.

De súbito ouviu um estrondo vindo de dentro da casa. E em seguida um gemido agonizante subitamente calado.

Virou-se e contemplou seu oponente de pé, em plena posição de ataque, e pronto para disparar contra ela. Porém, o oponente estava congelado. Em posição plena de ataque, mas imóvel como uma estátua.

- Mas que...? – balbuciou a amazona confusa.

Então o oponente congelado se partiu em milhares de pedaços, que se pulverizaram no ar em um fino pó gelado. E do meio da névoa de gelo que se ergueu surgiu a imagem de Kamus.

- Sophie... Está bem?

- Ah meu Deus! – ela correu em direção ao amado e se jogou em seus braços.

- Sophie... O que aconteceu? Ele ia te pegar...

A amazona só conseguia soluçar nos braços de Kamus.

E ele afagava sua cabeça com carinho. E no rosto uma expressão pesarosa.

Xx

Enfim tudo parecia ter se acalmado. Sophie sentia-se leve, como se flutuando em um espaço vazio. Todas as dores e cansaço desapareciam e suas energias voltavam com força. Sentia-se segura.

Havia um campo. Extenso até onde a vista alcançava. Lindo, deslumbrante. Um gramado verdejante coalhados de belas flores. De todas as cores perfumavam o ambiente ensolarado.

Deixou-se cair na grama macia. Esticou-se com vontade. Sentia uma grande felicidade. Sem preocupação alguma deixou seus olhos fecharem.

E então lhe veio aos ouvidos um rugido gutural. Abriu os olhos de imediato. O rugido cessara. Assustada olhou para os lados. A paz reinava, e o único som era do vento fresco soprando e dos passarinhos ao longe. Deitou-se e fechou os olhos novamente.

E mais uma vez o rugido explodiu em sua mente. E ao abrir os olhos constatou horrorizada: Não estava mais no belo campo em que adormecera.

Estava no meio de uma densa floresta negra. Árvores secas e desfolhadas rangiam sob o vento frio que assobiava. Era uma noite escura, sem estrelas, a lua cheia aparecia por entre as nuvens pretas que tomavam o céu. Pássaros negros a observavam do alto das árvores, com seus olhos brilhantes e avermelhados.

E novamente o rugido. Sophie olhou para trás assustada. Árvores começavam a tombar e o rugido se aproximava mais e mais. Algo se aproximava dela.

Desesperada a amazona tentou correr, com toda força movia as pernas. Mas não saíra do lugar. Tentava desesperada correr enquanto a criatura se aproximava dela. Encolheu-se toda e não teve coragem de olhar para o que a atacaria. E então sentiu o rosto quente.

Sem entender abriu os olhos e acordou.

Estava em uma cama, com roupas limpas. A cortina entreaberta deixou o sol bater em seu rosto, pois isso o calor na face. E o rugido continuava.

Na verdade um ronco. À frente da cama, estirado com as pernas e braços aberto e a cabeça pendida para trás, estava Kamus. Roncando como um porco.

- Oras... – resmungou Sophie olhando-o de soslaio.

A amazona se esticou até a beirada da cama e, tateando, procurou algo para arremessar em Kamus. Encontrou o que parecia ser um chinelo peludo. Pegou-o.

- Mas, ein! – exclamou ela com uma pantufa de pelúcia de um pingüim, número quarenta e quatro.

- Oras... Vai essa mesmo!

E com grande precisão ela arremessou a gigantesca pantufa, que atingiu certeira a boca de Kamus. O cavaleiro acordou de sobressalto, assustado!

- Ah! Protejam-se! Não descuidem a...a.. Hã! O que está acontecendo? – indagou ele, sem entender nada. E Sophie ria como nunca na cama.

- Você me deu uma pantufada? – a indagou indignado.

- Desculpa amooor! – disse ela por fim, correndo para abraçá-lo.

- Ah! Que bom que acordou! Fiquei preocupado com você!

- Ah! Fiquei com tanto medo!

Bateram na porta. Kamus, ainda abraçado com a amada, falou para que entrasse. A porta se entreabriu e Cristal colocou a cabeça para dentro do quarto, curioso. No mesmo instante Kamus empurrou Sophie, que caiu deitada na cama novamente.

-Ai... – exclamou ela.

-Caham! Que bom que acordou Sophie! Fico feliz em vê-la bem!

- Tá louco Kamus? – a indagou.

Cristal então entrou sorrindo satisfeito.

- Ah! Minha meninha acordou!

- Mestre! – exclamou Sophie, pulando da cama e correndo para abraçá-lo.

- Erm... Sophie precisávamos conver... –tentou intervir Kamus.

- Olhe quem eu trouxe para te ver! – Cristal abriu a porta e suas duas amigas entraram no quarto.

- Ahhhhh!! Migaaaas!!

- Ahhhh! Sófi!

- Precisamos conversar sobre... – tentou mais uma vez Kamus.

- Aaaaah! Que bom te ver migaaaaa!!

- Aaaah!! Que booom!

- sobre...- tentou pela última vez.

- Aaaaah!!!

-Aaaaaah!!

Com a cabeça pendida para frente e uma enorme gota de suor na testa, Kamus desistiu. E sem ninguém notar saiu do quarto.

Xx

O cavaleiro andava cabisbaixo pelas redondezas de sua casa. Chutava pedrinhas a esmo, pensando na conversa que teria de ter com Sophie. Sem sombra de dúvidas ela ainda não estava pronta para a guerra que viria.

E, claro, mais cedo ou mais tarde, teria que conversar com Cristal sobre o que aconteceu entre ele e Sophie.

E de súbito Cristal surgiu na frente de Kamus.

- Ah! – exclamou o dourado – De onde você surgiu?

- Oras... Vim da sua casa.

- Ahn...

-...

Seguiu-se um silêncio.

Kamus coçou o cabelo. Cristal o olhou desconfiado. Kamus abriu a boca para dizer algo, mas acabou por desistir. Cristal ergueu uma sobracelha, ainda mais desconfiado.

- Quer me dizer alguma coisa, Kamus?

- Não... Está tudo bem...

- Tem certeza?

- Não...

- O quê?

- Não tenho certeza, oras...

- Pare de enrolar, Kamus!

- Ta bom... – Kamus respirou fundo.

-...

E um novo silêncio.

- Diga logo!! – gritou Cristal.

E Kamus deu um cascudo em seu discípulo.

- Isso é maneira de falar com seu mestre?

- Afz! Você ta me escondendo o quê?

O dourado respirou novamente e tomou coragem. De uma vez disparou:

- eutôgostandudasôfíeelademimenóisvamuficájuntu...

Cristal arregalou os olhos.

- O que você disse? Não entendi uma palavra!

- Caham... Ta bom. Eu e a Sophie.

- Que que tem?

- Estou gostando dela.

-...

- E ela de mim.

-...

- E nós estamos ficando juntos. E quero ficar com ela.

-...

- Cristal, você está bem? Por que esta veia na sua testa está saltando?

- Minha filhinha... Minha menina... O quê você fez com ela?

- Eu... E a amo!

Com a fúria estampada no rosto Cristal agarrou seu mestre pelo colarinho.

- Filho da...!

E com toda sua força o cavaleiro descarregou o punho fechado no queixo de Kamus, que atordoado momentaneamente tombou para trás.

Cuspindo sangue, Kamus sugeriu:

- Bar?

- Se só tiver vodka! – respondeu Cristal oferecendo a mão ao mestre.

Continua...


Palavras do Autor: Sim! Esta fic não morreu! Tae mais um capitulo, voltando ao ritmo mais leve dela. Caminhando para o final! Abraços! E comentem! Pinguim.Aquariano